Introdução à Psicologia Comunitária: em busca da consolidação de seus referenciais teóricos e práticos

1 1 1 1 1 Avaliações 0.00 (0 Avaliações)
(Tempo de leitura: 4 - 7 minutos)

Com o advento da Psicologia Social em 1950 e seu desdobramento até os dias de hoje a atuação do psicólogo se estende para os conflitos comunitários, em áreas que apresentam vulnerabilidades, na medida em que incorpora, de certo modo, além do papel de psicólogo, o de “agente social”. Assim, a psicologia social e comunitária:

[...] estuda os significados (coletivos) e sentidos (pessoais), assim como os sentimentos pessoais e coletivos do modo de vida na comunidade, [objetivando compreender] como esse sistema de significados, sentidos e sentimentos se encontra presente nas atividades comunitárias (GÓIS, 2005, p. 51)

Tendo em vista que o psicólogo não mais precisa se restringir apenas ao clássico modelo da atuação clínica, de modo a ter seu enfoque maior para problemas que se manifestam na esfera individual, cabe-nos entender como se dá a sua atuação, quais são os seus recursos e os objetivos que procura alcançar. Por este motivo, temos a breve e importante explanação sobre esta importante vertente da psicologia.

Segundo esta linha teórica, diagnosticar os problemas individuais sem levar em conta o ambiente, é deixar de captar os problemas em sua gênese ― bem como os desdobramentos multideterminantes e desencadeantes por trás de cada patologia. Assim sendo, o psicólogo não mais se restringe a entender os fenômenos individuais como fruto de sua singularidade única, mas como oriundos de processos dinâmicos numa rede complexa, que se formam no seio das relações sociais; entender o paciente é compreender seu ambiente e modo de convívio, suas potencialidades e carências, as oportunidades pessoais e os direitos que lhe permite integrar-se socialmente. A bem dizer, compreendê-lo é entender o campo físico e semânticoque o envolve.

“Estudar as condições (internas e externas) ao homem que o impedem de ser um sujeito e as condições que o fazem sujeito numa comunidade, ao mesmo tempo em que, no ato de compreender, trabalha com esse homem a partir dessas condições, na construção de sua personalidade, de sua individualidade crítica, da consciência de si (identidade) e de uma nova realidade” (GÓIS, 1990 apud LANE, 2003, p. 32)

Para tanto, cabe ao psicólogo estar munido não apenas de técnicas de natureza teórica psicológica, mas também conhecer as leis que regem a sociedade, de modo a inteirar-se dos direitos legais que o permite expandir seu campo de atuação ― bem como, esclarecer leis, a fim de entendê-las como passíveis de falhas e, portanto, de geradoras de problemas; questionar os modelos-padrão; e criar meios facilitadores que fujam da solução simplista ― são pré-requisitos para a boa atuação do psicólogo social, que tende sempre a suplantar a gestão assistencialista e os benefícios governamentais que preservam, por assim dizer, o status quo.

[...] para o apoio às famílias, a fim de assegurar a toda a população o direito à convivência familiar, seguindo o pressuposto de que para a família prevenir, proteger e manter seus membros são necessárias ações efetivas do poder público. Assim, as famílias são consideradas espaço de ressonância, sinergia dos interesses e necessidades coletivas de mobilização à participação e ao protagonismo social, ou seja, como um vetor de mudança da realidade social (BRASIL, p.13, 2009a).

É imprescindível (mais do que o olhar clínico) o olhar crítico, a fim de observar a dialética de determinado contexto para que se possa entender o desencadeamento de sucessivos problemas não só no nível das relações concretas, mas também no âmbito da subjetividade. Para tanto, torna-se importante por parte do psicólogo social conhecer as instituições através das quais pode exercer o seu papel (CRAS/CREAS, dentre outros) e os meios legais e técnicos que lhe permite agir no campo social de modo a produzir saúde e preservar vínculos familiares; bem como a promover cidadania através de exercícios práticos conscientizadores. A atuação do psicólogo visa ainda mapear territórios, identificar famílias-problema, riscos que implicam o ciclo de vida (crianças, adolescentes, fase adulta e velhice) e tudo o mais que consiste em fazer política pública.

“Desta forma, possibilita-se a implementação de [...] princípios éticos, políticos e programáticos, explicitando as visões de mundo, sociedade, inclusão social e cidadania, subjacentes às concepções da assistência social como política pública e de garantia de direitos sociais” (BRASIL, 2008, p.15).

 Neste caso, é preciso a atenção voltada para contextos vulneráveis, às suas demandas como, por exemplo, problemas de abuso sexual, onde o psicólogo procurará identificar a condiçãoao indivíduo com maiores riscos(à pessoa alvo - a mulher); e situação que permite com que este contexto continue propiciando a manifestação do ato criminoso (diz respeito ao ambiente - escuro, acidentado, não-público, vielas, escadões, matagais). Não há uma ciência certa, já pronta para ser aplicada. Cada cenário apresenta condição e situação diferentes. É por isso que o profissional deve priorizar o ser flexível (assim como o ambiente o é) a ponto de incorporar o movimento social e dar uma resposta também em movimento, compatível com a velocidade e andamento deste.

“Fazer a discussão fluir entre os participantes é sua função, lembrando que não está realizando uma entrevista com um grupo, mas criando condições para que este se situe, explicite pontos de vista, analise, infira, faça críticas, abra perspectivas, diante da problemática para o qual foi convidado a conversar coletivamente. A ênfase recai sobre a interação dentro do grupo e não em perguntas e respostas entre moderador e membros do grupo. A interação se estabelece e as trocas efetivadas serão estudadas pelo pesquisador em função de seus objetivos” (GATTI, 2004, p.9).

Neste ínterim, o psicólogo deve reinventar-se em cada situação, e criar estratégias novas que dê conta de tais movimentos, abstendo-se de preconceitos, ideologias e normas cristalizadas pelo senso-comum, tendo em vista a organização das relações, como estas se dão em seu contexto, e não à padronização das pessoas aos costumes religiosos, aos ideais moralistas e etc. Ou seja, não se busca adaptá-las a uma estrutura já dada, mas sim, a fazer a “manutenção” das relações a partir de suas convicções, visões de mundo e necessidades.

Possibilitar as pessoas a tomarem consciência de que têm direitos, de que podem fazer cidadania a partir do momento em que tomam para si os problemas que as cercam, a ponto de agirem politicamente para melhorar seu ambiente; orientar a identificar não só os problemas de seu ambiente, mas também, se situarem no contexto em que vivem, para saber o que querem, para onde vão; levá-los a ter criticidade; a estimulá-los a desenvolver autoestima, autonomia e resiliência; conscientizá-los, mais a fundo, a saberem se impor mediante as gestões que só lhes atribuem a condição de miséria e passividade. Esta é a proposta que a Psicologia Social tem buscado implementar na psicologia, legitimando sua concepção epistemológica.

Sobre o Autor:

Wesley Rodrigues Moreira - Formado em Teologia e atualmente estudante de Psicologia (3º Ano - UNIP Alphaville).

Referências:

GÓIS, C. W. Noções de psicologia comunitária. 2. ed. Fortaleza: UFC, 1993.

GATTI, Bernadete. Grupo focal na pesquisa em ciências sociais e humanas. Série Pesquisa. Brasília: Líber Livro, 2004.

BRASIL. Presidência da República. Lei Orgânica da Assistência Social, n. 8.742, de 7 de dezembro de 1993, publicada no DOU de 8 de dezembro de 1993.

Curso online de

Psicologia da Comunicação

 Psicologia da Comunicação

Aprofunde seus conhecimentos e melhore seu currículo

Carga horária:  10 Horas

Recém Revisados