Na Contramão do Egoísmo: a Percepção Acerca da Doação de Órgãos pela Família Doadora

(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Resumo: Este estudo teve como objetivo desvelar a percepção de familiares de doadores sobre o processo de doação de órgãos. Propõe conhecer a experiência vivida pelos familiares nesse momento tão desgastante, no que se refere aos quesitos informação sobre o procedimento, aos fatores que favoreceram e dificultaram na decisão e o processo de captação de órgãos. A amostra constituiu-se de duas famílias que concordaram com a doação dos órgãos de seu familiar. Metodologicamente, utilizou como vertente, uma pesquisa qualitativa com análise de conteúdo, tendo como instrumento para coleta de dados uma entrevista com perguntas semi-estruturadas, onde possibilitou a criação de três categorias de análises: O conhecimento sobre Doação e Morte Encefálica; a segunda, A decisão: um gesto que pode transformar a dor da morte em continuidade da vida; e a terceira, A família vivendo a doação: na contramão do egoísmo. O estudo possibilitou a compressão do procedimento de doação de órgãos sob a ótica dos familiares envolvidos nesse processo, onde a situação vivenciada é sofrida, burocrática e demorada, mas não há arrependimento quanto à aceitação. Embora a dor da perda seja inexplicável e sem fim, a atitude de doar é um gesto que pode transformar a dor da morte em continuidade da vida, além de trazer conforto para a família.

Palavras-chave: Doação de Órgãos, Família, Percepção.

1. Introdução

Individualismo e competição são regras das relações sociais modernas. Mas não para todos. A doação de órgãos é a demonstração de que há muita gente na contramão do egoísmo. O tema do presente artigo busca compreender qual a percepção da doação de órgãos pela família doadora. O foco propõe revelar a percepção da família acerca do processo de doação de órgãos quando um integrante familiar vem a óbito. No entanto, como se trata de um momento difícil e doloroso para todos os familiares, é também a hora em que a família necessita de total apoio por parte dos profissionais da saúde.

Este estudo tem como objetivo geral descobrir qual a percepção da doação de órgãos pela família doadora, sendo que seus objetivos específicos buscam compreender quais os fatores que influenciam na decisão da família referente à doação de órgãos; analisar quais foram os fatores dificultadores encontrados no processo de doação; verificar o entendimento da família sobre o conceito de morte encefálica e o processo de doação e, identificar quais foram os sentimentos acarretados com a abordagem de solicitação do processo.

A relevância do assunto justifica a importância do estudo em analisar quais foram os sentimentos relacionados à vivência da doação de órgãos de um familiar que veio a óbito, compreendendo o estado emocional presente no momento da decisão a ser tomada.  Ao mesmo tempo, serve como conscientização à população sobre a importância de se tornar um doador, visto que a cada ano, um número crescente de pessoas ingressa na lista de espera para transplante de órgãos.

2. Fundamentação Teórica

Não pense na doação de órgãos como oferecer uma parte de você para que um desconhecido possa viver. Na realidade é um desconhecido que oferece seu corpo para que parte de você continue vivendo. Doe órgãos deixe de ser egoísta. Professor Galvão

Atualmente, os avanços científicos e tecnológicos têm contribuído de maneira eficaz para o aumento expressivo do número de transplantes, embora ainda insuficiente, face à enorme demanda acumulada de órgãos (SANTOS; MASSAROLLO, 2005).

De acordo com Steiner (2004), os avanços da medicina têm colaborado também para o aumento expressivo de transplante, mas choca-se com a mesma dificuldade, já que o número de órgãos à disposição é insuficiente para cobrir as necessidades médicas, além disso, as listas de espera tende a crescer cada vez mais, prejudicando grande quantidade de doentes que sofrem e morrem à espera de um órgão que possa salvá-los.

A possibilidade de órgãos serem transplantados trouxe a necessidade de repensar sobre os aspectos éticos e emocionais, rever o conceito de individualidade e, analisar sobre o desenvolvimento da infra-estrutura para realização deste processo (MORAES, 2009).

Mas isso só foi possível após a aprovação da Lei n. 9.434, de 4 de fevereiro de 1997,  “que regulamenta a doação de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplantes e tratamento.” (SÁ, 2000). A Lei n. 9.434 do mesmo modo, disciplina que “todos os brasileiros são doadores, salvo manifestação de vontade em contrário” (BRASIL, 2001, p. 1)

De acordo com a Secretaria do Estado de São Paulo “A doação é definida como o conjunto de ações e procedimentos que consegue transformar um potencial doador em doador efetivo.” (SANTOS; MASSAROLLO, 2005, p. 383). O processo de doação de órgãos e tecidos para transplante engloba várias etapas, “[...] inicia-se com a identificação e manutenção de um paciente com os critérios de morte encefálica e finaliza somente com a conclusão do transplante.” (CINQUE; BIANCHI, 2010, p. 997).

Porém, segundo Santos e Massarollo (2005) esse processo pode demorar horas ou dias, o que pode causar estresse e ser traumático à família e, com isso, comprometer desfavoravelmente o número de doações. A decisão da família é complicada, já que ela tem a obrigação de pronunciar-se sobre o consentimento da doação, o que quer dizer que, se ela se opõe à doação, não haverá retirada de órgãos (STEINER, 2004).

Na visão de Steiner (2004) optar ou não pela retirada de órgãos é um processo doloroso e complicado para a família, pois é um assunto no qual a pessoa falecida talvez nunca tenha comentado ou, nunca tenha sido abordado no círculo das relações familiares e por ser em um momento em que o trabalho de luto está somente começando, em vista da grande dificuldade emocional em que a família de repente é imersa. Para a manifestação do consentimento, é fundamental que os familiares tenham os esclarecimentos necessários sobre o processo de doação, incluindo o diagnóstico de morte encefálica (ROZA et al., 2009).

Segundo Moraes (2009, p. 27) “Um momento importante e delicado no processo de captação de órgãos é a entrevista com os familiares, pois concretiza a morte”. É importante que a assistência à família feita pelos profissionais da Organização de Procura de Órgãos seja satisfatória, que os questionamentos quanto à morte encefálica, as dúvidas que surgem quanto ao processo de doação e a liberação do corpo sejam esclarecidas, cabendo aos profissionais oferecer o suporte e esclarecimentos a ponto de diminuir o sofrimento e a dor da família do doador (CINQUE, BIANCHI, 2010).

Todavia, o resultado da entrevista com a família pode vir a ser positivo quanto negativo para a retirada dos órgãos do paciente falecido, porém o mais importante neste momento é aceitar e concordar com respeito à decisão tomada pela família, a autonomia familiar, buscar suprir com suas necessidades tanto emocionais quanto psicológicas e, principalmente, realizar uma ação ética (FUHR, 2006).

3. Método

Para alcançar o objetivo proposto, esta pesquisa utilizou como vertente o método de pesquisa qualitativa com técnica de análise de conteúdo de Moraes, essa técnica “ajuda a reinterpretar as mensagens e a atingir uma compreensão de seus significados num nível que vai além de uma leitura comum.” (MORAES, 1999, p. 7). Fez uso de uma entrevista com perguntas semi-estruturadas para sua coleta de dados e, contou com a participação de duas famílias que vivenciaram a doação de órgãos de um familiar que sofreu morte encefálica.

A entrevista semi-estruturada partiu de um roteiro de questões com o objetivo de enumerar de forma mais abrangente possível a questão de pesquisa, a partir dos pressupostos advindos do objeto de investigação. Para Manzini (1990/1991, p. 154), “a entrevista semi-estruturada está focalizada em um assunto sobre o qual confeccionamos um roteiro com perguntas principais, complementadas por outras questões inerentes às circunstâncias momentâneas à entrevista”. As entrevistas foram realizadas de forma verbal e exigiu a presença e interação direta do pesquisador e do sujeito a ser pesquisado.

A coleta de dados teve início com a seleção de participantes por conveniência, sendo que os elementos foram escolhidos por indicação de conhecidos. Posteriormente, foi realizado contato telefônico com o familiar do doador e explicado acerca do trabalho e da relevância do depoimento. Para a realização das entrevistas, foi lavrado um termo de consentimento elaborado em duas vias. As entrevistas foram gravadas e, posteriormente transcritas com o intuito de explorar e analisar por meio da leitura e releitura os dados mais relevantes para a pesquisa.

Após a transcrição das entrevistas e organização dos dados coletados, foi realizada pré-análise dos dados, procurando fazer uma leitura do conjunto das falas, buscando uma compreensão desses conteúdos e a saturação qualitativa, o que contribuiu na identificação de categorias preliminares.

Em seguida, uma nova leitura foi realizada ressaltando sua importância e relação entre eles. A partir dos dados extraídos, foram identificadas e agrupadas as unidades de significado que apresentavam um tema comum, os quais, a partir do marco teórico e dos objetivos definidos, permitiram a interpretação dos resultados desta pesquisa.

As questões éticas perpassaram todos os passos da pesquisa, desde o planejamento, a implantação das ações, uso dos dados e, principalmente nas relações interpessoais com os sujeitos do estudo. Dessa forma, para proteger as identidades dos participantes, seus nomes foram substituídos pelos símbolos: F1 e F2.

4. Apresentação e Discussão dos Resultados

Este tópico constitui a análise dos resultados da pesquisa com os familiares de doadores de órgãos e suas percepções acerca desse processo. Apresentam-se sob a forma de três categorias distintas. 1) O conhecimento sobre doação e morte encefálica; 2) A decisão: um gesto que pode transformar a dor da morte em continuidade da vida; 3) A família vivendo a doação: na contramão do egoísmo. Através delas, são demonstradas as experiências dos familiares doadores e um pouco de suas vivências no processo de doação de órgãos. Para melhor compreensão e entendimento, apresentam-se as características de cada doador, no intuito de melhor visualizar a situação vivenciada por cada família.

O primeiro familiar (F1) entrevistado foi o pai de um adolescente que veio a óbito aos 14 anos. O menino morava com os pais e com o irmão. Saiu de casa com os amigos da escola para uma viagem ao Beto Carrero World, no entanto, envolveu-se em um acidente de trânsito. O adolescente ficou uma semana internado em estado grave e evoluiu para morte encefálica. Na oportunidade, foram doados os dois rins, as duas córneas e o fígado. 

O segundo familiar (F2) que expôs sua vivência sobre o assunto foi a mãe de uma mulher que faleceu aos 34 anos de idade. Ela morava com o marido e suas duas filhas e, trabalhava como merendeira em uma escola do município onde residia. A mesma sofria de um tumor na cabeça. Estava trabalhando quando passou mal e foi levada para o Hospital e, posteriormente, transferida para UTI. Evolui para morte encefálica em dois dias de internação. Foi possível doar os dois rins, duas córneas.

4.1 O conhecimento sobre Doação e Morte Encefálica

Falar de morte ainda é algo que abala muito emocionalmente as pessoas. De modo especial, o fato da morte nos leva à experiência de nossos limites e, por mais que ela seja algo natural da espécie humana, parece estar tão longe de nosso dia-a-dia. “Naquela hora você ouve o... que você não quer ouvir, não quer acreditar naquilo né, então... e que ainda por o coração estar batendo... [...] só que quando é com a gente parece que...”. (F1).

As causa de uma morte podem variar desde uma doença repentina, ou o desfecho de uma doença em fase terminal e, até mesmo de um acidente. Porém, indiferente da maneira que se originou, para os familiares sempre é algo doloroso, difícil de compreendê-la e aceitá-la, como pode ser visto nas falas: “Na hora te dá um choque, tu fica sem... tu, tu... tu não tem... tu nunca ta preparado pra nada. Tu pode dizer que está preparado. Pode ta preparado pro antes, mas não pro momento. E tu pode está preparado pro depois, mas agora não pro momento dá... dá notícia. Porque o momento da notícia que é o difícil.” (F1); “Fácil não foi... não foi fácil porque era uma pessoa muito querida da família.” (F2).

Entretanto percebeu-se a falta de conhecimento por parte das famílias no quesito doação de órgãos e morte encefálica, “Tinha o conhecimento de pouca coisa sobre a morte encefálica, porque nessa época de doze anos atrás era pouco comentado né, mas que eu sabia que existia doação de órgãos, eu sabia!” (F2.) Alguns até apresentavam um conhecimento prévio sobre o assunto, outros buscavam a intermediação de pessoas conhecidas para estarem esclarecendo suas dúvidas, conforme evidenciado na fala de F1: “E daí assim, a gente não entende, mas a minha cunhada como ela tava lá, a gente pedia tudo para ela... [...] chamamos ela e o meu irmão... ai eles falaram: ó não... não tem mais o que fazer!”.

Mesmo estando ciente do nível de gravidade e da irreversibilidade do quadro clínico do paciente, a presença de batimentos cardíacos, pele quente, respiração... faz com que gere sentimentos de desconfiança para a família e mantém a esperança de vida do paciente até o momento em que seja bem esclarecido aos familiares o conceito de morte encefálica. “[...] o coração batia e a gente só pensava assim gente... mas o médico disse: não tem mais o que fazê! [...] eles fazem aquele exame né... de... de morte encefálica e mostraram para nós.” (F1); “Nós não queria que tirasse os aparelhos... sabe a família... a esperança... até que tem fôlego tem vida!” (F2).

As pessoas que compreendem a morte encefálica possuem maior facilidade em lidar com o momento e pensar na possibilidade da doação de órgãos, “Nós acreditávamos que ele iria... que ele iria dar uma reagida [...]” (F1), no entanto aqueles que não compreendem, ou que acreditam na possibilidade de melhoras do quadro do paciente, tende a sofrer mais com a abordagem para a doação de órgãos (SANTOS, 2005).

Pode-se perceber advindo dos relatos colhidos, sentimentos de raiva e remorso presentes nos familiares, decorrentes da perda de um ente querido e a busca de explicações. “Dá uma revolta, sei lá... até da questão religiosa! [...] Ai tu fica pensando até... [...] se Deus existisse como é que iria levar uma criança de 14 anos [...]” (F1).

No entanto, o que contribui para compreensão da família no assunto morte encefálica e doação de órgãos, é como os profissionais da saúde envolvidos em questão, irão proceder nas explicações, cuidados e transmissão de informações para os familiares. “A equipe deve ser uma facilitadora do processo, não só da parte burocrática, de ser elo entre o hospital e a central de transplantes, mas principalmente de prestar solidariedade nas atitudes em relação à família.” (FUHR, 2006, p. 52).

4.2 A decisão: um gesto que pode transformar a dor da morte em continuidade da vida

Entender e aceitar o diagnóstico de morte encefálica para familiares que não tinham o mínimo de noção acerca disto ou que possuíam um conhecimento prévio do assunto, exige confiar no diagnóstico apresentado e principalmente acreditar na equipe de profissionais envolvidos no processo (FUHR, 2006).

Na maioria das vezes, a família não possui nenhum conhecimento acerca da decisão do falecido, “É nós... nós mesmo nós... pensamos na doação porque ele era um menino que desde pequeno ele dividia as coisas, ele não se segurava pra ele, né. E como ele era amigo de todos e gostava de... aí levou a nós também a decisão... porque nós achamos que ele queria que acontecesse isso aí”. (F1). Por essa razão, as escolhas, na maioria das vezes, são embasadas nas crenças, valores próprios e a até mesmo relacionada com a personalidade do paciente, “[...] ele, ele... ele pensava bastante nas pessoas... assim... que ele era bem amigo de... que nem... de se doar mesmo sabe!” (F1); “Ela sempre tinha desejo... só de ajudar, ajudar...” (F2).

Quando a decisão dos familiares é baseada na vontade do paciente em vida, contribui muito para o processo de doação e, além disso, livra a família da etapa de decisão, “Ela sempre dizia: eu quero ser doadora de órgãos, se eu viver até noventa anos se alguma coisa tem de bom, pode tirar!” (F2). Dessa forma, a família assimila de forma mais clara e tranquila a solicitação e, na maioria das vezes, sente necessário cumprir o último desejo do ente querido.  

Nos casos em que a família desconhece a opinião do paciente quanto à doação de órgãos, em geral, prevalece no momento de decisão sentimentos do tipo: “Porque alguma coisa fica viva dele [...]” (F1); “Porque que ia dizer que não? Se a gente tem certeza que o corpo é matéria... vai para o cemitério e apodrece [...]” (F2); “E a questão da solidariedade né, de pode ta ajudando. [...] porque a gente imagina si... já imaginou se eram nós que estivéssemos lá e ninguém... tivesse ninguém pra doa!” (F1).

Em vista da grande dificuldade emocional que a família repentinamente é imersa, foi possível perceber através de relatos a dificuldade da decisão diante da escassez de tempo devido às dificuldades técnicas, o que pode ser evidenciado na fala de F1: “Tu não tem muito tempo pra pensar, é aqueles minutos e... diz sim ou não!”.

Também neste estudo, foi possível perceber que além da falta de conhecimento ou pouca informação sobre morte encefálica e o não saber sobre a vontade do familiar, apresentados como dificuldades à doação, a família, principalmente pai e mãe, enfrentam o peso da decisão, “Porque é uma decisão meio... meio... cruel né... aí tu dizer... é todo mundo fala, fala, mas quando chega no pega pra capá... é difícil!” (F1). Nesses casos geralmente, eles sentem-se perdidos, “Quem ta em redor de você não quer opinar no que fazer... se é pra doar ou não é pra doar!” (F1), isso porque a decisão é algo crucial e de extrema importância, além do mais, a família precisa ter a certeza de que tomará a atitude correta para não ocorrer o arrependimento, “[...] é que todo mundo some... porque ninguém quer opinar.” (F1).

De acordo com Moraes (2009), um fator que exerce forte influência na decisão da doação, é o processo para solicitação de retirada dos órgãos, sendo ela a responsável pelo desfecho no processo de doação. “[...] é imprescindível que a mesma seja realizada por profissionais capacitados para tal momento, visto que, qualquer deslize poderá destruir toda uma intenção em autorizar a doação.” (BRITES, 2012, p. 20).

4.3 A família vivendo a doação: na contramão do egoísmo

A decisão e à autorização da doação de órgãos, para a família, é sempre um conhecimento em construção. Isso porque a família do doador, muitas vezes recebe todas as informações necessárias do procedimento de captação dos órgãos, porém, “muitas vezes é esquecida pelos protocolos técnicos do hospital” (FUHR, 2006, p. 63), sendo que apenas recebem a notícia da morte do familiar, decidem pela doação, esperam a chegada da equipe para a retirada dos órgãos e aguardam a liberação do corpo, sem antes ter um esclarecimento específico de quanto tempo irá levar esse processo, da burocracia exigida, entre outros fatores.

Diante do explicito pelos participantes envolvidos nesta pesquisa, foi possível perceber sentimentos de desconhecimento de informações, como pode ser observados nas seguintes falas: “Eu me desesperei... pra que tanta demora? [...] é aquela espera agonizante que a gente não sabia o que tava acontecendo, porque tanta demora, mas na verdade... era um trabalho sigiloso e cheio de... de cuidados com certeza.” (F2); “Esse é um processo muito demorado né, é um processo... para os familiares é muito complicado! [...] Porque nós ficamos no, no... sábado de manhã, quando nós autorizamos e saímos de lá no domingo de meio dia. Então tu imagina pros familiares que tão esperando e pros familiares que tão lá é muito complicado!” (F1).

Na visão de Cinque e Bianchi (2010), a demora no processo de retirada dos órgãos juntamente com a falta de atenção para com a família do doador, gera sofrimento e muito incômodo, além de desestimular o processo de doação, “Quando chegou no sábado de noite, ali pelas sete horas, ela falou assim que já teria sido feito a doação e tal... e a retirada dos órgãos. Chegou as sete horas da noite, ia ser feito de madrugada, de madrugada já não ia mais ser feito... ia ser feito no outro dia! ai eu falei que não queria mais doar né... então por causa disso. Mas daí minha mulher falou assim que não tem o porque não doar!” (F1).

A sensação de impotência, diante da única perspectiva “esperar” pela liberação do corpo, causa estresse na família, que se encontra cansada, sem energia e num estado deplorável. Além disso, na situação de espera pela liberação, o estresse é intensificado e a situação torna-se insuportável quando existe a possibilidade de atraso ou a pressão dos demais membros da família, que desejam a liberação rápida do corpo (SANTOS, MASSAROLLO, 2005, p. 386).

Apesar da doação de órgãos ser uma experiência dolorosa, os familiares ressaltam aspectos positivos nesse ato de solidariedade, “Até a gente pensou na gente que... se fosse nós que estávamos esperando... meu que bom que seria se que alguém pudesse... claro que é uma outra vida que, que... que não está mais ali... mas que vai salvar a vida de alguém [...]” (F1); “Ela ainda não morreu, ela está vivendo em quantos lugares... porque ela foi doadora de órgãos!” (F2). E ainda que exista a demora na captação, os entrevistados referiram que doariam novamente, como pode ser evidenciado na fala de F1: “Eu doaria... porque assim é... é sofrido, a gente sofre aquela espera, aquela... aquela a angústia... [...] mas eu doaria! [...] eu hoje novamente doaria.”.

A vivência de uma doação assume diversos significados: generosidade, ajuda mútua, conforta e tranqüiliza a família, além de praticar o bem para outras pessoas que estão precisando dessa ajuda, sentimentos estes que podem ser vistos em duas falas de F2: “Fácil não foi... não foi fácil porque era uma pessoa muito querida da família. Mas também não foi assim uma coisa impossível porque a gente sabia que ela não voltava mais, nós não ia ter mais ela com nós. Pelo menos eu me conformava pensando que ela podia ter salvado vidas.”; “Não é fácil, ter uma filha única, além de morta... tirar os órgãos. [...] Mas eu me conformava, eu olhava no caixão... querida tu tá ali morta mas tu tá enxergado lá, olhando lá...”.

Outro aspecto importante a ser ressaltado, é o desejo de conhecer o receptor dos órgãos, mesmo tendo conhecimento prévio de que essa informação não é repassada. Esse desejo é evidenciado nas seguintes falas: “Eu gostaria até de conhecer, não por... por esse ou aquele motivo, mas pra tu saber, ou ter uma relação. Que eu acho que até seria bom até para os familiares, dela, nosso...” (F1);

“A possibilidade de alegrar pessoas que esperam por um transplante, através da doação de órgãos, consola e recompensa a família, embora a dor não termine.” (SANTOS, MASSAROLLO, 2005, p. 387). Portanto, foi possível averiguar que ao comentar sobre os significados da doação, os entrevistados narram idéias de amor ao próximo, salvar vidas, fazer o bem, ajuda e continuidade da vida, “Nós doamos por... uma que... que nosso pensamento é de bem!” (F1).

5. Considerações Finais

Com este estudo foi possível compreender os sentimentos, necessidades, e angústias vivenciadas pelos familiares de doadores, sendo que o ato de doar não se resume apenas em assinar a autorização concordando com a retirada dos órgãos, mas sim, é um momento em que estão envolvidos múltiplos sentimentos, perda, dor, esperança de vida à outra pessoa... Além de ser considerado um processo burocrático, demorado, angustiante, cansativo e muito desgastante.

É percebido que fatores como: conhecer a vontade do potencial doador favorável a doação, ter um conhecimento prévio sobre morte encefálica e doação, receber todas as explicações necessárias da equipe de captação de órgãos, recursos emocionais para lidar com o momento em que é exposto, entre outros, parecem exercer forte influência para que ocorra o consentimento de doação, além de permitir que a família caminhe com menos sofrimento e estresse nesse processo doloroso de perda e luto.

De um modo geral, o processo de doação de órgãos só ocorre a partir do momento em que é feita a internação do paciente, comprovado a morte encefálica e a família ter autorizado a retirada dos órgãos.  É uma situação de muito empenho, na esperança de recuperação do paciente; de choque, dor, sofrimento e dúvidas no momento da anunciação de morte encefálica; angústia, raiva, espanto e desconfiança com a solicitação de captação de órgãos; de dificuldades, dúvidas e insegurança na tomada de decisão; generosidade, solidariedade, esperança e satisfação por ajudar o próximo no momento em que decidem doar os órgãos; e de ansiedade e angústia na espera da liberação do corpo.

Todavia, além da situação vivenciada ser um momento complicado para todos os envolvidos, as famílias não demonstram nenhum arrependimento quanto a doação e, afirmam ser um ato de amor e solidariedade, que vai na contramão do egoísmo. Afirmam que é preciso olhar sob o ponto de vista do paciente que está na espera de um órgão a ser transplantado, na angústia de um dia após o outro na esperança de um possível doador e que, se a demora persistir, poderá morrer enquanto aguarda na fila de espera.

Sobre o Autor:

Keity Andrieli Santoro - Acadêmica do 6º período de Psicologia na Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc) Campus de Pinhalzinho/SC.

Álvaro Cielo Mahl - Orientador, Mestre em Psicologia do Desporto e do Exercício pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) de Portugal, e professor do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC).

Juliano Correa da Silva - Orientador, Psicanalista (CEP de POA), Mestre em Psicologia Clínica (PUCRS), e professor do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina ( UNOESC).

Lisandra Antunes de Oliveira - Orientadora, Psicóloga, Mestre em Psicologia Social e da Personalidade e professora do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC); Coordenadora do curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC) – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo., Pós-graduada em Psicologia Hospitalar da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC), Pós-graduada em Saúde Mental  (UNOESC), Pós-graduada na Abordagem Centrada na Pessoa (LA SALLES).

Referências:

BRASIL. Lei n°. 9.434 de 4 de fevereiro de 1997. Dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento e dá outras providências. Disponível em: <http://dtr2001.saude.gov.br/transplantes/portaria/lei9434.htm>. Acesso em 14 de setembro de 2012.

BRITES, Dorelayne Aparecida; MEROTTO, Fabiane; FRASSON, Antonio Carlos. Doação de órgãos: mitos e verdades da equipe de enfermagem. Ponta Grossa: CESCAGE, 2012. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Enfermagem), Centro de Ensino Superior dos Campos Gerais.

CINQUE, Valdir Moreira; BIANCHI, Estela Regina Ferraz. Estressores vivenciados pelos familiares no processo de doação de órgãos e tecidos para transplante. Revista Esc Enfermagem USP, p. 996-1002, 2010.

FUHR, Márcia. O significado do processo de doação de órgãos para familiares pós-doação. Florianópolis: UFSC, 2006. Dissertação (Mestrado em Enfermagem), Universidade Federal de Santa Catarina, 2006.

MANZINI, Eduardo José. A entrevista na pesquisa social. Didática, São Paulo, v. 26/27, p. 149-158, 1990/1991.

MORAES, Bianca Nascimento. Perfil, crenças, sentimentos e atitudes de familiares doadores e não-doadores de órgãos. São Paulo: FMUSP, 2009. Tese (Doutorado em Cardiologia), Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, 2009.

MORAES, Roque. Análise de conteúdo. Revista Educação, Porto Alegre, v. 22, n. 37, p. 7-32, 1999.

ROZA, Bartira de Aguiar. et al. Doação de órgãos e tecidos no Brasil: podemos evoluir?. Revista O Mundo da Saúde, São Paulo, p. 43-48, 2009.

SÁ, Maria de Fátima Freire de. Biodireito e direito ao próprio corpo: doação de órgãos, incluindo o estudo da Lei n. 9.434/97. Belo Horizonte: Del Rey, 2000.

SANTOS, Marcelo José dos; MASSAROLLO, Komatsu Braga. Processo de doação de órgãos: percepção de familiares de doadores cadáveres. Rev. Latino-Am. Enfermagem, Ribeirão Preto, v. 13, p. 382-387, n. 3, junho. 2005.

STEINER, Philippe; VIEIRA, Marcia Cavalcanti R. (trad.). A doação de órgãos: a lei, o mercado e as famílias. Tempo Social, São Paulo, v. 16, n. 2, p. 101-128, nov. 2004.

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