Psicologia Comunitária no Brasil: Desenvolvimento e Desafios

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Resumo: O presente artigo apresenta a origem da Psicologia Comunitária no Brasil e seus principais desafios no processo de concretização de sua perspectiva emancipadora dos sujeitos, bem como o seu surgimento junto aos movimentos sociais comunitários. Para isso, será enfatizado o que deve ser denominado de Psicologia Comunitária em suas atuações, que assim são legitimadas, como práticas e medidas de intervenções inovadoras, revolucionárias, e não só onde se constitui uma relação entre psicologias e os menos favorecidos, denominada classes populares. Serão relatados alguns dados que narram o desenvolvimento histórico da Psicologia Comunitária na Europa, América Latina, e por fim, no Brasil, onde serão apresentados os principais desafios enfrentados por psicólogos atuantes na Comunidade.

Palavras-Chave: Psicologia Comunitária, Desenvolvimento Histórico, Desafios.

Community Psychology in Brazil: Development and Challenges

Abstract: This article presents the origin of Community Psychology in Brazil and its main challenges in the process of achieving its liberating perspective of the subject, as well as its emergence within social movements Community. This will emphasize what should be called Community Psychology in their performances, which are legitimated well as practical measures and interventions innovative, revolutionary, and not only where it is a relationship between psychology and the disadvantaged, called classes . Reported some data that will narrate the historical development of Community Psychology in Europe, Latin America, and finally in Brazil, which will set out the main challenges faced by psychologists working in the Community.

Keywords: Community Psychology; historical development; challenges.

1. A Psicologia Comunitária

A Psicologia Comunitária teve sua origem nos movimentos sociais comunitários (sobretudo no de saúde mental) de distintos países da América e Europa. Na Europa, o nascimento da psicologia Comunitária teve a mesma origem que a dos Estados Unidos, mas com certas variantes próprias, decorrentes da influência do Estado do Bem-Estar (GÓIS, 2005).  

Na América Latina, a expressão “Psicologia Comunitária” passou a ser utilizada a partir de 1975, com o objetivo de se fazer uma nova Psicologia Social, a partir da preocupação de alguns psicólogos de distintos países latino-americanos com os escassos resultados sociais da Psicologia Social tradicional e por haver uma grande necessidade de superar os graves problemas sócio-econômicos que ainda hoje afetam a região (GÓIS, 2005).

E é Góis (1990) quem melhor define esta prática: “Fazer psicologia comunitária é estudar as condições (internas e externas) ao homem que o impedem de ser sujeito e as condições que o fazem sujeito numa comunidade, ao mesmo tempo que, no ato de compreender, trabalhar com esse homem a partir dessas condições, na construção de sua personalidade, de sua individualidade crítica, da consciência de si (identidade) e de uma nova realidade social”.

Quando se foi delineada uma nova visão histórica da psicologia comunitária no Brasil, foi possível observar que os grupos, seja como recurso da pesquisa participante, seja como referência teórica, são os espaços privilegiados para uma análise teórico-prática dos avanços das consciências individuais envolvidas no processo (LANE, 1996).

A caracterização da Psicologia Comunitária, segundo Freitas (1996), constitui-se na realidade, como práticas ou intervenções inovadoras, criativas e revolucionárias, e não apenas um deslocamento do lugar em que se estabelece a relação da psicologia com setores populares. Para alguns a concepção de psicologia comunitária está relacionada apenas em bairros de periferia, favelas, cortiços ou, de certa forma, lugares que na sociedade se encontram uma desigualdade com baixas condições de moradia e desamparo social.

O trabalho em Comunidades é bastante complexo, o psicólogo que deseja trabalhar nesse campo enfrentará alguns desafios, dentre estes, necessita se “despir” do pensamento que já sabe tudo. A Comunidade já possui um saber próprio, que não é necessariamente um saber científico, contudo não deixa de ser um saber. E é a partir desse “saber comunitário” que as intervenções se iniciam. O psicólogo não fica em uma posição de ajudador da Comunidade, pelo contrário, ele auxilia a Comunidade a identificar seus problemas e solucioná-los, por isso o trabalho em grupo.

De acordo com Angela Caniato, o psicólogo esbarra nos limites teóricos e técnicos de sua formação na universidade, que não lhe permite responder às demandas de atendimento psicossocialmente colocadas pelas populações. O cidadão desaparece sob o indivíduo doente que procura o psicólogo para se tratar (LANE, 1996).

Com base no desenvolvimento histórico da Psicologia Comunitária no Brasil e remetendo-se às situações atuais, pode-se ter o pretexto de se mensurar os desafios os quais devem ser enfrentados, tendo a profissão o respeito e compromisso com o desenvolvimento na elaboração de conhecimento, para assim favorecer a comunidade em seu tempo.

2. Desenvolvimento da Psicologia Comunitária no Brasil

A construção da Psicologia Comunitária, no Brasil, se baseou em modelos teóricos e práticos da Psicologia Social integrados, principalmente, à Sociologia, à Educação Popular e à Ecologia. Começou como Psicologia na Comunidade, através de trabalhos realizados em vários Estados brasileiros (GÓIS, 2005).

Na década de 50 ouve o chamado êxodo rural, onde pessoas migraram do campo para cidades, desencadeados pelo desenvolvimento da economia das grandes cidades naquela época, nascendo assim, uma nova necessidade, uma nova organização, com o objetivo de se desenvolver projetos que tinham a intenção de adaptação dessas pessoas na cidade. Nesse período, houve um crescimento dos trabalhos comunitários, de forma assistencialista e paternalista.

Na década posterior (60), tinha constantes manifestações populares com confrontos políticos. Nesse período se inaugura a inserção dos cursos de Psicologia no Brasil.

Em meio ao mesmo contexto da década anterior (e não melhor), na década de 70, vários psicólogos e professores da área se encontravam insatisfeitos com o distanciamento da psicologia para com a vida concreta. Mas foi nesse período, que a psicologia teve um avanço e começou a ser inserida na comunidade, onde ela vivencia a realidade junto à sociedade, confrontando as formas tradicionais de atuação da psicologia.

No cenário da década de 80, época em que a psicologia em comunidade passa a se efetivar, saindo da clandestinidade no âmbito acadêmico e social, havendo um significativo desenvolvimento das práticas de psicologia em comunidade. Firmando assim uma nova perspectiva com compromisso com a classe popular deixando para trás teorias psicologizantes (FREITAS, 1998).

Fazer parte do contexto social em elaboração de projetos de intervenção e pesquisa nas perspectivas psicossociais é uma atuação da Psicologia Social Comunitária que vem sendo construída nos países da America latina, em vista podemos denominar em um avanço, um ganho da atuação do psicólogo um contato com a população mais pobre.

Nos anos 90 foram marcados por uma diversidade teórica e metodológica no desenvolvimento desses trabalhos em comunidades basicamente aos postos de saúde, órgãos ligados às questões familiares, instituições penais. Em se tratando de instituições, sabe-se que a atuação do psicólogo se desenvolve a partir da demanda solicita da pela própria instituição (CARDOSO, 2012).

Por último, surge a expressão Psicologia Social Comunitária que carrega sua prática de maneira não paternalista, presente nos modelos trazidos dos Estados Unidos. O seu arcabouço teórico é oriundo da Psicologia Social, tendo como foco o trabalho grupal, como o objetivo de desenvolver uma consciência crítica na população e “uma construção de uma identidade social e individual orientadas por preceitos eticamente humanos” (FREITAS, 1996).

Nos dias atuais ainda é frequente a oposição entre comunitário ou comunidade, por serem práticas realizadas em diferentes campos profissionais. Com essas frequentes atuações, vêm crescendo especificamente, os profissionais de psicologia que se denominam psicólogos comunitários. Entre essas práticas profissionais há realizações de intervenção na comunidade, e investigações em diferentes localidades da sociedade, enquanto maneira de como se vive esses sujeitos na comunidade, identificando assim, o que pode ser melhorado.

3. Principais Desafios dos Profissionais da Psicologia Comunitária

Durante esse processo de desenvolvimento da Psicologia Comunitária no Brasil, cujo propósito (e consideravelmente também um desafio) foi “deselitizar a Psicologia e aproximar-se mais da população deixando de ser realizada somente nos consultórios e escolas e passando a atuar na comunidade” (HERNANDES, 2009), foram encontrados alguns desafios na concretização de sua perspectiva emancipadora dos sujeitos.

Dentre estes, o fato dos profissionais e a comunidade possuírem modos de ações diferentes, manifestados através das visões de mundo que cada um tem, e que muitas vezes, não são conciliáveis (FREITAS, 1986). Dessa forma, geram-se alguns conflitos que podem ser negativos, ou seja, obstáculos para a atuação do psicólogo na comunidade.

Tipicamente, os trabalhos comunitários partem de um levantamento das necessidades e carências vividas pelo grupo-cliente, sobretudo no que se refere às condições de saúde, educação e saneamento básico. A seguir, utilizando-se métodos e processos de conscientização, procura-se trabalhar com os grupos populares para que eles assumam progressivamente seu papel de sujeitos de sua própria história, conscientes dos determinantes sócio-políticos de sua situação e ativos na busca de soluções para os problemas enfrentados. A busca do desenvolvimento da consciência crítica, da ética da solidariedade e de práticas cooperativas ou mesmo autogestionárias, a partir da análise dos problemas cotidianos da comunidade, marca a produção teórica e prática da psicologia social comunitária (CAMPOS, 2002).

Segundo Sílvia Lane, o psicólogo na comunidade trabalha fundamentalmente com a linguagem e representações, com relações grupais – vínculo essencial entre o indivíduo e a sociedade – e com as emoções e afetos próprios da subjetividade, para exercer sua ação a nível da consciência, da atividade e da identidade dos indivíduos que irão, algum dia viver em verdadeira comunidade.

Através da busca de conscientização procura-se trabalhar com grupos para que assumam seu papel na comunidade de sujeitos da sua própria história, conscientes e capazes de solucionar os problemas enfrentados, devido às condições sócio-políticas por eles vivenciadas. Essa transformação é problema central, devido à dificuldade do profissional de psicologia em inserir-se na comunidade (HERNANDES, 2012).

Para se atuar numa realidade social, é importante conhecer o contexto histórico em que essa realidade se desenvolve, diante disso, surge um desafio de intervenção social, visto que vivemos em uma sociedade em transformações constantes, as coisas vão mudando e mudam cada vez mais rápido. Como diz Casas (2005), “[...] A complexidade das dinâmicas sociais dificulta tentativas de previsão [...] tais mudanças penetram mais do que nunca em nossos lares, e exercem influências extraordinárias em nossas vidas cotidianas” (CARDOSO, 2012).

Alguns desafios são encontrados pelos psicólogos comunitários que surgem como um ponto de reflexão, que são as diferenças socioeconômicas entre o psicólogo e a Comunidade, problemas referentes à resistência da Comunidade diante de uma intervenção externa (BONFIM; FREITAS, 1989). Definição da especificidade do papel do psicólogo nas Comunidades (BONFIM, 1989). Dificuldades em relação aos modelos institucionais paternalistas que desafiam os trabalhos realizados pelos psicólogos comunitários, pois impedem que os sujeitos possam tomar uma postura de autores da sua história.

Por parte da Comunidade, existe uma expectativa de que o psicólogo resolva suas questões pessoais ou questões relacionadas à saúde, educação, moradia (ANSARA; DANTAS, 2010). E essa expectativa da Comunidade continua obscurecendo a proposta do trabalho comunitário, pois, na maioria das vezes as pessoas não entendem como funciona o trabalho do psicólogo nas Comunidades. O trabalho realizado pelos psicólogos Comunitários não é: Um trabalho clínico individualizado; não se configura de forma assistencial – paternalista; não se mantém em uma relação de dominação, pelo contrário promove uma relação de igualdade.

4. Contexto Grupal: Construindo uma Identidade

Ao longo dessas décadas, verifica-se que os espaços para o desenvolvimento da prática da psicologia em comunidade, e os motivos para a realização das mesmas, têm se modificado (FREITAS, 1996).

A descoberta da comunidade não foi um processo específico da psicologia social. Fez parte de um movimento mais amplo de avaliação crítica do papel social das ciências e, por conseguinte, do paradigma da neutralidade científica, desencadeada nos anos 60 e culminado nas décadas de 70 e 80, quando o conceito de comunidade invadiu, literalmente, o discurso das ciências humanas e sociais, especialmente as práticas na área da saúde mental (SAWAIA, 2002).

De acordo com Lane, “é no contexto grupal que nos identificamos com o outro e é nele também que nos diferenciamos deste, e assim construímos a nossa identidade, sendo o grupo condição para a sua manutenção ou metamorfose”.

Portanto, é preciso um maior investimento no contexto grupal. Os profissionais da Psicologia, mesmo diante de alguns desafios, devem se despir de si mesmos e se lançarem sem receio nas comunidades, onde poderão não só contribuir para a construção da identidade de muitos, mas também reformular a sua própria identidade, promovendo dessa forma, meios para uma sociedade igualitária.

Sobre os Autores:

Jakeila Figueiredo Brito - Graduanda do 6º Período do Curso de Psicologia da Faculdade Pitágoras/FAMA – São Luís, MA.

Sebastião Bezerra da Silva Júnior - Graduando do 6º Período do Curso de Psicologia da Faculdade Pitágoras/FAMA – São Luís, MA.

Referências:

CAMPOS, Regina Helena de Freitas. Introdução: A Psicologia Social Comunitária. In: CAMPOS, Regina Helena de Freitas (Org.). Psicologia Social Comunitária: Da solidariedade à autonomia. Petrópolis, Rj: Vozes, 8ª Ed, 2002.

CAMPOS, Regina Helena de Freitas (Org.). Psicologia Social Comunitária: Da solidariedade à autonomia. Petrópolis, Rj: Vozes, 8ª Ed, 2002.

CARDOSO, Géssica da Silva. A Práxis do Psicólogo Comunitário: Desafios e Possibilidades. Trabalho de Conclusão de Curso. PSICOLOGADO | Publicado em: 13 de Fevereiro de 2012. Disponível em: http://artigos.psicologado.com/atuacao/psicologia-comunitaria/a-praxis-do-psicologo-comunitario-desafios-e-possibilidades. Acesso em: 26-03-2013.

FREITAS, Maria de Fátima Quintal de. Inserção na comunidade e análise de necessidades: reflexões sobre a prática do psicólogo. In: Psicologia: Reflexão Crítica, Porto Alegre, 1998.

FREITAS, Maria de Fátima Quintal de. Novas Práticas e Velhos Olhares em Psicologia Comunitária: Uma Conciliação Possível?. In: Lídio de Souza; Maria de Fátima Quintal de Freitas; Maria Margarida Pereira Rodrigues (Org.). Psicologia: Reflexões (im)pertinentes. 1ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1998.

FREITAS, Maria de Fátima Quintal de (1996). Psicologia na comunidade, Psicologia da Comunidade e Psicologia (Social) Comunitária – Práticas da psicologia em comunidade nas décadas de 60 a 90, no Brasil. In: CAMPOS, Regina Helena de Freitas (Org.). Psicologia Social Comunitária: Da solidariedade à autonomia. Petrópolis, Rj: Vozes, 8ª Ed, 2002.

GÓIS, Cezar Wagner de Lima. Psicologia Comunitária. In: Psicologia Comunitária: Atividade e Consciência. Fortaleza-Ce: Publicações Instituto Paulo Freire de Estudos Psicossociais, 8º Ed, 2005.

HERNANDES, Sarah Cirilo Andujar. CONSTRUINDO UM SUJEITO DE AÇÃO – uma nova concepção do contexto social através das vivências. UNISALESIANO / Lins-SP, 2009. Disponível em: http://www.unisalesiano.edu.br/encontro2009/trabalho/aceitos/RE34335031840.pdf . Acesso em: 26-03-2013.

LANE, Sílvia Tatiana Maurer (1996). Histórico e Fundamentos da Psicologia Comunitária no Brasil. In: CAMPOS, Regina Helena de Freitas (Org.). Psicologia Social Comunitária: Da solidariedade à autonomia. Petrópolis, Rj: Vozes, 8ª Ed, 2002.

SAWAIA, Bader Burihan. Comunidade: A apropriação científica de um conceito tão antigo quanto a humanidade. In: CAMPOS, Regina Helena de Freitas (Org.). Psicologia Social Comunitária: Da solidariedade à autonomia. Petrópolis, Rj: Vozes, 8ª Ed, 2002.

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