Comunicação Entre Pais e Filhos Adolescentes de Escolas Públicas e Particulares

(Tempo de leitura: 14 - 27 minutos)

Resumo: O presente estudo tem como objetivo comparar, analisar e avaliar a interação e qualidade da comunicação entre pais e filhos adolescentes de escolas públicas e particulares, levando-se em consideração o estilo parental e a situação dos níveis de relacionamento entre os mesmos. A pesquisa apresentada foi uma pesquisa de campo quantitativa, sendo sujeitos desta pesquisa, 100 adolescentes de escolas públicas e 100 adolescentes de escola particulares, todos de famílias intactas. Os níveis de escolaridade compreendiam entre o sexto ano do ensino fundamental e o terceiro ano do ensino médio de escolas pertencentes à cidade de Rolim de Moura estado de Rondônia. A escala aplicada aos adolescentes foi a Escala de Qualidade de Interação Familiar (EQIF) de Weber, Viezzer e Brandenburg (2003). Diante da aplicação da escala foi percebido que a comunicação entre pais e filhos adolescentes de escolas particulares e públicas em relação à escala positiva encontra-se no mesmo índice de interação e demonstram uma boa comunicação. Somente na escola particular, em relação ao clima conjugal negativo, encontra-se pouco acima do índice da escola pública, e a escola pública por sua vez encontra-se percentualmente mais elevado o índice que na escola pública no quesito de comunicação negativa, sendo que tais diferenças não podem ser considerada significativas perante a pesquisa realizada. Por fim o esboço é de apontar que os pais precisam ser firmes e manter certa autoridade, mas também perceber que os filhos precisam de amor, atenção e respeito, não esquecendo que a comunicação é um fator primordial para se obter boa interação entre pais e filhos.
Palavras-Chave: Comunicação. Qualidade. Positiva. Interação. Família. Pais. Filhos. Adolescentes.

1. Introdução

É através das diferentes formas de comunicação que o afeto e os vínculos afetivos são transmitidos dos pais aos filhos. E é também por meio da comunicação que se transmite confiança e segurança nas relações afetivas, primeiramente dentro da família e posteriormente por toda a rede social. A figura dos pais, como primeiros contatos da criança, tem uma grande influência no processo de desenvolvimento da criança, mais tarde, outras relações sociais vão se formando trazendo mais contribuições para o desenvolvimento da personalidade dos adolescentes, mas é na relação com os pais que se constitui a base referencial de todas as outras, por serem eles os responsáveis em transmitir as primeiras informações e interpretações sobre o mundo.

A forma de como a criança irá interagir socialmente dependerá da qualidade de apego e de afeto que os pais tiveram com ela, possibilitando-a dessa forma se tornar uma pessoa segura com uma boa auto-estima, ou ao contrario ansiosa, fria e distante do contato interpessoal.

Para que tais adolescentes não cresçam longe do vínculo familiar, a comunicação sobrepõe a facilitar e a conduzir o adolescente a interagir melhor junto a sua família, estabelecendo companheirismo, cumplicidade e um ambiente de união e afeto em casa, sendo a comunicação transmitida de diferentes formas, então haverá sobre tudo um respeito mútuo e valores firmes, por isso a necessidade do estabelecimento da comunicação, desde muito cedo na vida da criança.

A fim de analisar o nível da comunicação entre pais e filhos, buscamos através da Escala de Qualidade de Interação Familiar (EQIF) de Weber, Viezzer e Brandenburg, 2003, avaliar os dados referentes à interação e as relações positivas e negativas entre pais e filhos adolescentes, colocando em foco as diferenças entre a comunicação familiar em relação aos adolescentes de escolas públicas e escolas particulares da cidade de Rolim De Moura/RO, sendo então essa, uma pesquisa quantitativa, pois visa observar, registrar e analisar as opiniões e atitudes explícitas e conscientes dos participantes, esboçando também nesta pesquisa todo um referencial teórico, métodos e análises dos conhecimentos adquiridos em pesquisas sobre a família e a influência da psicologia no contexto familiar.

A proposta é apresentar e integrar o aluno a um contexto prático, até então pouco conhecido, buscando sempre o conhecimento e aprendizagem, e através deste trabalho que visamos saber, como anda a comunicação entre pais e filhos adolescentes levando-se em consideração o estilo parental e a situação dos níveis educacional dos mesmos, e se há possíveis diferenças significativas na comunicação em entre pais e filho de escolas pública e particular, pois como sabemos á adolescência é uma época de mudanças significativas em todos os aspectos da vida de uma criança, e uma boa comunicação entre país e filhos é de suma importância na formação da personalidade dos adolescentes, para que os mesmos cresçam embasados em uma estrutura familiar.

2. Fundamentação Teórica

2.1 Adolescência e influência da família

Entrar no mundo dos adultos - desejado e temido - significa para os adolescentes a perda definitiva de sua condição de criança. É um momento crucial na vida de qualquer pessoa e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento e desenvolvimento que começou com o nascimento.

Neste mesmo período as mudanças psicológicas que ocorrem envolvem principalmente as mudanças corporais, cognitivas, sentimentais que levam a uma nova relação com os pais e com o mundo, e isso só é possível quando se elabora, lenta e dolorosamente, o luto pelo corpo de criança, pela identidade infantil e pela relação com os pais da infância.

Segundo Erikson o conceito mais conhecido é o de crise de identidade, a fase de desenvolvimento habitual, mas não fácil da adolescência. Nesse período de transição entre infância e os papéis adultos, o adolescente luta para definir um senso de identidade. (Cloninger, 2003, p. 155).

De acordo com a teoria estudada de Wagner; Falcke & Meza (1997), podemos entender que, o adolescente, na inquietude de conhecer a vida, vê o mundo multiplicado na sua dimensão, onde seus sonhos, suas fantasias refletem um universo imenso e eterno, vivendo em busca do equilíbrio entre o real e o imaginário, que por sinal é uma das tarefas mais importantes desta fase do ciclo evolutivo vital, onde a família desempenha uma função de importância crucial, na formação desse novo período na vida do adolescente. 

O autoconceito adolescente dá-se através das lentes da teoria de Erikson. O dilema central da adolescência é o da identidade versus confusão de papéis. Erikson argumentava que o senso de identidade inicial das crianças fica parcialmente “solto” na puberdade devido à combinação do rápido crescimento corporal e das mudanças sexuais da puberdade. Ele se referiu a esse período como sendo aquele em que a mente adolescente está numa espécie de moratória entre a infância e a idade adulta. (Bee 2003, p. 325 e 326).     

O adolescente sente que deve planejar a sua vida, controlar as mudanças causadas por si e seus desejos, precisam adaptar-se ao mundo externo, e as suas necessidades, e é nesse sentido, que vemos que a principal tarefa da família durante esse processo evolutivo é aumentar a flexibilidade das fronteiras familiares.

Segundo os relatos de Boeckel e Sarriera (2006), podemos entender que as relações de comunicação, afetividade, respeito, que se estabelece na família original com os cuidados sejam estes consangüíneos ou não, são componentes fundamentais no modo de como o adolescente graduará a lente com que vislumbra o seu mundo, a família sob este aspecto é um laboratório de vivências relacionais ao processo de identidade de qualquer adolescente, que terá sua personalidade moldada através da cultura de sua família.

Os pais precisam saber que na adolescência tanto meninas quanto os meninos passam por um período de profundas dependências, onde precisam deles tanto ou mais do que quando eram bebês, seguido por um período de independência, onde os pais são somente expectadores da vida dos filhos, para que tal dependência e independência seja bem administradas pelos pais é necessário que os mesmos possam ir vivendo o desprendimento do filho, concedendo-lhe a liberdade e a manutenção da dependência madura.

O diálogo entre pais e filhos deve funcionar como uma troca e não ser encarado como exigência, “cobrança” um controle da vida do adolescente, uma vez que, dependendo do tipo de comunicação prevalente no contexto familiar, os adolescentes irão conversar com os pais sobre temas específicos, ou seja, tenderão a filtrar as informações que querem passar ou obter deles. (PRATA & SANTOS, 2007, p. 110).

Pesquisadores têm estudado como os pais influenciam o desenvolvimento das competências sociais e instrumentais dos adolescentes há muitas décadas. Uma das descobertas refere-se aos estilos parentais, pois, figuras parentais nem bem definidas e nem muito estáveis em desempenhar seus papeis frente às atitudes cotidianas, podem parecer frente aos adolescentes como desvalorizadas, obrigando-os a procurar identificação com personalidades mais firmes e estáveis, pelo menos num sentido compensatório e idealizado.

Uma das mais fortes áreas de pesquisa fala - nos dos estilos parentais que é um conjunto de comportamentos e atitudes dos pais e todo o clima existente em uma relação pais – filhos, inclusive a expressão corporal, o tom de voz, o bom ou mau humor, sendo eles: estilos parentais, autoritário, permissivo, negligente e participativo. (Lídia Weber, 2005, p. 61 e 62).

Consideramos então que, os níveis de proximidade e de comunicação que se estabelece entre pais e filhos parece ser uma função dos estilos parentais, e é nesse contexto que muitas das vezes ocorre o distanciamento entre pais e filhos, pois os adolescentes se identificam fortemente com outras pessoas servindo para os mesmos como ídolos e se distanciam de sua família.

A partir de observações e da literatura especializada somos levados a crer que pais que possuem estilo parental autoritário são pais que têm alto nível de exigência, mas pouca responsividade. Os pais negligentes apresentam baixo nível tanto de exigência quanto de responsividade. Quanto aos pais permissivos, apresentam baixo nível de exigência e muita responsividade. Por fim os pais participativos são pais que apresentam alto nível, tanto de exigência quanto de responsividade. Pais mais jovens conversam mais com seus filhos do que pais mais velhos, filhos de pais com baixo poder aquisitivo conversam mais com seus filhos do que filhos de pais com melhor poder aquisitivo, nisso influenciando diretamente a interação entre pais e filhos.

A busca incessante de saber qual a identidade adulta que se vai constituir é angustiante, e as forças necessárias para superar estes microlutos e os lutos ainda maiores da vida diária obtém – se as primeiras figuras introjetadas que formam a base do ego e do superego desde mundo interno do ser. Um bom mundo interior surge de uma relação satisfatória com os pais internalizados e da capacidade criativa que eles proporcionam, e assim esse mundo interno que possibilita uma boa conexão interior, uma fuga defensiva na qual o adolescente “mantém e reforça sua relação com os objetos internos e evita os externos”, é o que facilita um bom reajuste emocional e o estabelecimento da identidade adolescente. (ABERASTURY; KNOBEL, 1981, p. 3)

Então se acredita que, independentemente do modelo de família existente na qual se inclui uma criança em desenvolvimento, a relação entre os seus membros de maneira ativa e compartilhada, permitira estruturar alicerces mais consistentes para as experiências futuras que surgiram ao longo desta convivência, estendendo – se em condições mais seguras para o enfrentamento de dificuldades.

O ideal seria que tais famílias tivessem uma maior flexibilidade para aceitar e adaptarem-se as transformações sociais sem perder de vista, valores firmes. Justifica-se então como oportuno ter destacado a importância da atuação dos pais neste estudo, por que cabe a eles em primeira instância, dispor de ações claras e efetivas para que seus filhos se desenvolvam de maneira mais ajustada para conviverem e sociedade, tendo boas relações consigo e com o próximo.

2.2 Pesquisando a Família

Segundo Weber, Salvador e Brandenburg (2010) são muitas as dificuldades encontradas, pelos pais e mães em educar seus filhos e em manter uma interação saudável na esfera familiar. Pesquisa na área da psicologia tem demonstrado o quanto uma boa interação familiar propicia um desenvolvimento mais saudável aos adolescentes e crianças.

Nós como pesquisadoras assíduas dos aspectos de interação familiar, especialmente das praticas educativas parentais e dos estilos parentais, investe na elaboração e na aplicação de um programa de orientação e treinamento para pais. Sendo elaborado com base nos referencias teóricos da analise do comportamento, beneficiando varias famílias apontando resultados maravilhosos.

3. Procedimentos Metodológicos

3.1 Pesquisa e Psicologia

Segundo o autor Luiz Fernando de Lara Campos (2004), o método constitui um dos pontos centrais nas formas de conhecimento. O conhecimento empírico ou vivencial não possui método, pois como já foi visto, depende do acaso e não é intencional. Embora existam diversos “métodos”, nem todos possuem o reconhecimento de científicos, ou seja, existem métodos que parecem científicos, mas são reprodutores de conhecimento religiosos ou empíricos. Assim sendo, não é qualquer conhecimento que possua método que é cientifico. Para que o método tenha o reconhecimento como cientifico, é necessário que contemple algumas regras.

 Campos (1977) define então o método cientifico com aquele que é utilizado para descrever e explicar fenômenos, incorporando os princípios da verificação empírica, definição operacional, observação controlada, generalização estatística e confirmação empírica.

 Este autor cita cinco condições que devem ser respeitadas para que o método seja considerado cientifico. São elas:

1º Verificação Empírica: O método deve trabalhar com o teste da observação e com construtos que sejam observáveis. Observação em ciência não possui o mesmo significado que no senso comum, onde é relacionado aos sentidos. No conhecimento cientifico, a observação é mais relativa à mensuração, ou seja, condição do constructo de ser direta ou indiretamente passível de ser mensurado, observável.

2º Definição Operacional: Os conceitos utilizados devem ser definidos em termos e componentes cuidadosamente claros e precisos, preferencialmente em forma de comportamentos no caso da psicologia, onde a possibilidade de acordo é maior. A comunicação é fundamental no conhecimento cientifico, de modo que não se devem utilizar palavras cujos significados sejam dúbios, pouco precisos, ou reflitam idéias de duplo significado.

3º Observação Controlada: Toda atividade cientifica envolve o ato da coleta de dados informações, onde as mensurações adequadas das variáveis envolvidas devem ser garantidas, tanto em termos da forma, como do instrumento utilizado. A mensuração deve ser realizada considerando-se todos os elementos envolvidos, desde a pertinência da técnica e/ou instrumento, até á influencia do pesquisador na escolha dos dados.

4º Generalização Estatística: Todo conhecimento cientifico tem um padrão de validade, admitindo uma margem de erro, a qual é determinada em função de alguns princípios, tais como tipo de pesquisa, nível de mensuração, delineamento, controle de variáveis. A generalização estatística é a condição de se estender a validade do conhecimento descoberto em um estudo às outras partes da população.

5º Confirmação Empírica: Um bom método cientifico de pesquisa produz dados que sejam sistemáticos, ou seja, que realmente são pertinentes à realidade.A confirmação empírica é a possibilidade de se realizar novamente a pesquisa e chegar a resultados estatisticamente semelhantes, o que é determinado também por sua replicabilidade

De acordo com varias teorias pesquisadas se tratando de pesquisas existem diversas estratégias de que são relativas às pesquisas descritivas e experimentais, e que revelam novos detalhes do método cientifico. Uma pesquisa pode ser classificada em função da origem de seus dados ou de seu local de realização, ou seja, em razão das origens da fonte de informação.

Há dois grandes tipos de pesquisa, a descritiva e a experimental. A pesquisa descritiva é aquela que busca conhecer e interpretar a realidade sem nela interferir, e descreve o que ocorre na realidade, e a experimental é aquela manipula deliberadamente algum aspecto da realidade a partir de condições anteriormente definidas, buscando estabelecer relações de causas e efeito, ou seja, ela procura explicar por que acontece um determinado fenômeno. Não se pode fazer esse tipo de pesquisa sem a realização de um experimento, seja em laboratório ou em ambiente natural.

Em se tratando de estudos que envolvam amostras de pessoas, os termos população e universo referem-se a todas as pessoas que fazem parte do delineamento da pesquisa e poderiam ser participantes da mesma. Na impossibilidade de investigar toda a população, são selecionadas algumas pessoas representativas desse todo, sendo a amostra o conjunto de pessoas selecionadas denomina-se amostra; referindo-se a uma parte do todo população. Ao definir uma amostra, alguns cuidados devem ser tomados, entre os quais a representatividade da mesma. As características fundamentais que cada participante dessa população tenha a mesma probabilidade de ser incluído na amostra.

No procedimento para coletas e analise de dados os dados de pesquisas quantitativas são coletados com base em estratégias e instrumentos que possibilitam o registro das variáveis, de forma a quantificá-las. Dentre as diversidade e técnicas disponíveis para a coleta de dados em uma pesquisa quantitativa, Tanaka e Melo (2001), destaca o inquérito por questionário como a principal delas. Esta técnica consiste em uma serie de perguntas dirigidas à amostra.

Os dados de pesquisa quantitativa são coletados com base em estratégias e instrumentos que possibilitam o registro das variáveis, de levantamento de dados e a seleção e o emprego de cada uma depende, principalmente, dos objetivos do estudo e da natureza do dado a ser registrado. Dentre diversas técnicas disponíveis para a coletas de dados destacam o inquérito por questionário como a principal delas.

Diante desses fatos pode–se dizer que a pesquisa é a parte pratica da atividade cientifica, na qual todos os esforços são realizados a fim de produzir dados que sustentem evidencias acerca dos seus objetivos. A escolha do método de pesquisa, entretanto, não deve ser decidida por questões de preferência pessoal ou ideológica. O pesquisador deve sempre escolher o método que tenha maior probabilidade de produzir evidencias contra ou a favor de suas hipóteses. Este aspecto talvez seja o mais critico na determinação metodológica.

3.2 Descrição do Instrumento (EQIF)

A pesquisa apresentada foi uma pesquisa de campo quantitativa, pois teve como finalidade observar, registrar e analisar as opiniões e atitudes explícitas e conscientes dos participantes, entretanto, entrar no mérito de seu conteúdo, sem interferência do investigador, que apenas procurou perceber, com o necessário cuidado, e utilizando instrumentos estruturados, a freqüência com que o fenômeno do envolvimento entre pais e filhos adolescente acontece.

Foram sujeitos desta pesquisa, 100 adolescentes de escola públicas e 100 adolescentes de escolas particulares, todos de famílias intactas. Os níveis de escolaridade compreendiam entre o sexto ano do ensino fundamental e o terceiro ano do ensino médio de escolas pertencentes à cidade de Rolim de Moura estado de Rondônia.

A coleta foi realizada nas próprias escolas, com a autorização da diretoria e o consentimento dos próprios alunos, sendo aplicada de forma coletiva, segundo a situação favorecida (conforme as salas de aulas eram liberadas pelos professores).

A escala aplicada aos adolescentes foi a Escala de Qualidade de Interação familiar (EQIF) de Weber, Viezzer e Brandenburg, 2003. O EQIF acessa aspectos de interação familiar por meio do relato dos filhos, os quais respondem separadamente sobre seu pai e sua mãe. São 40 questões em sistema Likert de cinco pontos (nunca, quase nunca, ás vezes, quase sempre, sempre), agrupadas em nove escalas. Seis delas abordam aspectos da interação familiares considerados “positivos”: envolvimento, regras e monitoria, comunicação positiva dos filhos, clima conjugal positivo, modelo parental, sentimento dos filhos. As outras três, referem-se a aspectos considerados “negativos”: comunicação negativa, punição corporal, clima conjugal negativo. 

A divisão entre as escalas “positivas” e “negativas” decorre dos resultados apresentados pela literatura da área. Aspectos familiares positivos vêm sendo relacionados à melhor desempenho dos filhos em diversas áreas menos problemas comportamentais, menor envolvimento com álcool e drogas e etc.; o contrário tem sido encontrado para os aspectos familiares negativos. A partir disso, considera-se que a predominância de aspectos positivos e baixo índice de aspectos negativos nas interações entre pais e filhos e entre casal qualifica famílias protetivas. Quando aspectos negativos prevalecem em detrimento dos positivos, a família qualifica-se como risco para o desenvolvimento dos filhos.

O instrumento EQIF, então, é constituído pelas nove escalas apresentadas que serão definidas na seqüência:

  • Envolvimento: corresponde á participação dos pais na vida dos filhos. Os itens dessa escala investigam se os pais dão apoio, são sensíveis ás reações dos filhos e estão presentes no dia-a-dia dos filhos. Esta escala engloba também a demonstração de amor dos pais para seus filhos, pelo carinho físico ou pela verbalização positiva, e disponíveis, dando oportunidades para o diálogo e para a autonomia do filho.
  • Regras e monitoria: mede dois aspectos: a existência de regras, ou seja, normas definindo o que o filho deve fazer e a ocorrência da monitoria, ou seja, supervisão do cumprimento das regras estabelecidas e do monitoramento das atividades do filho.
  • Comunicação positiva dos filhos: verifica a existência de diálogo construtivo na interação, se os filhos se sentem á vontade para falarem de si para seus pais, o que indica a disponibilidade e a abertura destes para o diálogo.
  • Comunicação negativa: investiga maneiras inadequadas dos pais falarem com seus filhos, demonstrando a falta de controle emocional dos pais. Esta escala mede tanto a inadequação de conteúdo como a forma de expressão, por exemplo, ameaças, xingamentos, gritos e humilhações.
  • Clima conjugal positivo: corresponde á boa relação entre o casal, incluindo afeto, diálogo e respeito.
  • Clima conjugal negativo: demonstra se os pais interagem de forma agressiva, com brigas, xingamento e diálogo negativo.
  • Punição corporal: corresponde a palmada utilizada pelos pais para corrigir ou controlar comportamentos dos filhos. As questões buscam acessar tanto se os pais batem para disciplinar os filhos, quanto se eles batem como forma de descarregar emoções acumuladas.
  • Modelo parental: verifica se os pais se comportam de maneira coerente com o que ensinam, ou seja, se são exemplos positivos para os filhos.
  • Sentimento dos filhos: é uma escala subjetiva que busca verificar como os filhos se sente em relação aos seus pais. Questões de afeto. E ainda algumas questões associadas a dados demográficos como: idade, sexo etc.

3.3 Característica Psicométricas e Parâmetros da Principal Escala Usada

Tendo as escalas definidas teoricamente, a construção do EQIF iniciou com a formulação de questões para cada escala. As frases foram avaliadas conforme sua clareza e relevância e submetidas à opinião de juízes. Após um pré-teste com seis crianças, alguns ajustes foram feitos.

O instrumento original, com 103 questões e 10 escalas, foi aplicado coletivamente em 278 crianças de escola pública. As analises realizadas indicaram a retirada de 24 itens do instrumento (ficando 79 questões) e divisão do instrumento em 13 escalas. Nova aplicação do instrumento foi realizada com 320 adolescentes. A análise realizada com o total de participantes (598 crianças e adolescentes) indicou a retirada de mais sete questões e nova alteração na estrutura do instrumento, restando 72 questões e 12 escalas.

Nessas pesquisas, a confiabilidade interna do instrumento foi confirmada através do calculo do alfa de Crombach e da analise fatorial dos componentes principais, com rotação varimax. As autoras (Weber, Viezzer & Brandenburg, 2008) constataram a validade de construto pela convergência dos escores medidos pelo EQIF e pelas escalas de Responsividade e Exigência (Costa, Teixeira & Gomes, 2000). A qual avalia estilos parentais.

A amostra foi ampliada para 954 sujeitos e novas análises foram realizadas. Avaliou-se a validade de critério do instrumento e este comprovou ter alto poder discriminativo, ou seja, possui sensibilidade a diferentes amostras. O EQIF apresentou resultados diferentes para os diferentes grupos de adolescentes e crianças de escola particular e escola pública, adolescentes de famílias com baixa renda, selecionamos por uma instituição de financiamento dos estudos e adolescentes alunos de cursos profissionalizantes (Weber, Viezzer & Brandenburg, 2004). Com essa amostra ampliada, o instrumento passou por novas analises estatísticas acuradas e atingiu a versão final de 40 questões e 10 escalas, as quais foram apresentadas anteriormente.

Assim, conclui-se que o EQIF pode ser utilizado com segurança, por sua confiabilidade e consistência comprovadas nas avaliações de suas propriedades psicométricas.

3.4 Estatística e Forma de Correção  

Primeiramente é necessário somar os escores de cada uma das nove escalas citadas acima, ou seja, somar as respostas das questões de cada escala. É possível somar só o escore da mãe e só o do pai para analisá-los separadamente, ou somar os escores de pai e mãe para analises combinadas.

Em segundo lugar, é possível categorizar cada uma das nove escalas. Categorizar é dividir os sujeitos entre aqueles que apresentam “baixo escore”, “médio escore” em todas as nove escalas. Para isto é necessário, com a ajuda de algum programa de estatística (SPSS, por exemplo), tirar os percentis de cada um dos escores obtidos anteriormente.

Deve-se repetir o mesmo procedimento com cada uma das nove escalas, utilizando os valores do percentil de cada uma delas. Se quiser, deve-se repetir o mesmo procedimento com envolvimento (e as outras oito escalas) do pai, depois de pai e mãe combinados. Ou percentil de cada um deles.

4. Resultados e Análises da Pesquisa

Inicialmente, apresenta-se uma análise descritiva dos resultados obtidos, de como se estabelece a comunicação do sujeito com seus pais, a fim de conhecer a freqüência do envolvimento, regras e monitorias, comunicação positiva, clima conjugal positivo, modelo, sentimentos dos filhos, punição física, comunicação negativa e clima conjugal negativo.

  Figura nº. 01. Escala positiva. Fonte: os autores

Figura nº. 02. Escala positiva. Fonte: os autores

De acordo com as Fig. de nº. 1 e 2, pode-se perceber que ao comparar as duas escolas, tanto em relação ao quesito de envolvimento, regras e monitoria, comunicação positiva dos filhos, clima conjugal positivo, modelo parental e sentimentos dos filhos, o índice de práticas positivas caracterizada pelos adolescentes encontra-se nos mesmos padrões percentuais na comunicação positiva de interação familiar.

Figura nº. 03. Escala Negativa. Fonte: Os autores

Figura nº. 04. Escala Negativa. Fonte: Os autores

Ao analisarmos as Fig. 03 e 04, percebe-se que os dados obtidos em relação às escalas negativas, entre as duas escolas, nos mostraram que os índices de punição física não se encontram com grandes diferenças percentuais. Quanto à comunicação negativa e o clima conjugal negativo percebe-se uma diferença relevante, pois na escola pública o índice de práticas na comunicação negativa encontra-se mais elevado do que em escolas particulares, com diferença de 2%. Já no quesito de clima conjugal negativo observa-se que na escola particular o índice encontra-se relativamente maior do que na escola pública, com seu percentual de diferença em 3%.

Diante de tais dados podemos concluir que a comunicação entre pais e filhos adolescentes de escolas particulares e públicas em relação à escala positiva encontra-se no mesmo índice de interação e demonstram uma boa comunicação. Somente na escola particular, em relação ao clima conjugal negativo, encontra-se pouco acima do índice da escola pública e a escola pública por sua vez encontra se percentualmente mais elevado que a escola particular no quesito de comunicação negativa, sendo que tais diferenças não podem ser consideradas estatisticamente significativas.

5. Considerações Finais

O estudo realizado apresenta uma avaliação da interação e qualidade de comunicação no relacionamento de pais e filhos adolescentes. As dimensões mais presentes identificadas pelos adolescentes no momento em que se estabelece relação com seus pais abordam aspectos considerados positivos, predominam qualificando a maioria das famílias pesquisadas como sendo protetivas. Os que se referem a aspectos negativos prevalecem em menor quantidade, qualificando-se estas famílias com possível risco para o desenvolvimento dos filhos.

Os pais precisam ser firmes e manter certa autoridade e ao mesmo tempo perceber  que os filhos precisam de amor, atenção e respeito, entendendo que eles também possuem exigências. Ao mesmo passo em que os pais precisam ser respeitados em seus papéis, eles também devem respeitar os direitos dos filhos. Assim, se os pais fazem exigências, mas são responsivos, não punem seus filhos fisicamente em nome desse respeito.

Através das pesquisas bibliográficas, houve a possibilidade de aquisição de diversas teorias que nos proporcionaram um conhecimento sobre a adolescência, as mudanças psicológicas que se produzem neste período, em que a correlação de mudanças corporais, leva a uma nova relação com os pais e com o mundo.

Nosso objetivo de analisar as duas escolas e comparar os dados obtidos em cada uma nos leva a perceber que não há nenhuma diferença alarmante quanto à interação familiar e a sua comunicação entre famílias de escolas públicas e particulares. Diante disso somos levados a crer que no âmbito familiar de tais adolescentes a comunicação esta sendo elaborada de forma positiva, podendo ser percebido, através dos dados obtidos com a aplicação da escala.

Nós, como pesquisadores apos as pesquisas e a aplicação da escala, analisamos que sem a comunicação positiva entre os membros familiares é quase impossível se ter um vínculo saudável entre a família, e os pais por suas vezes servem de modelo aos filhos. 

Embora esse estudo tenha sido conduzido como uma amostra pequena entre pais e filhos e restrito apenas a duas escolas, os resultados confirmam os dados da literatura estudada e sugerem pesquisas com amostras ampliadas considerando diferentes extratos sociais. Estudos longitudinais seriam indicados também para monitorar a influência do repertório de comunicações entre pais e filhos adolescentes, enfatizando a população que teve acesso a importância da comunicação sendo um fator primordial para se obter boa interação entre pais e filhos, pois se o diálogo na relação interpessoal é importante, muito mais será na comunicação entre a família.

Sobre os Autores:

Deyse Katiele da S. Kurdt - Acadêmica do sexto período do curso de psicologia da Faculdade de Rolim de Moura/RO – FAROL

Fernanda Rocha Fraga - Acadêmica do sexto período do curso de psicologia da Faculdade de Rolim de Moura/RO – FAROL

Ireide Batista L. Santos -Acadêmica do sexto período do curso de psicologia da Faculdade de Rolim de Moura/RO – FAROL

Mirley Cristine Pereira - Acadêmica do sexto período do curso de psicologia da Faculdade de Rolim de Moura/RO – FAROL

Nadya Antero B. da Silva - Acadêmica do sexto período do curso de psicologia da Faculdade de Rolim de Moura/RO – FAROL

Simone da Silva S. Cardoso - Acadêmica do sexto período do curso de psicologia da Faculdade de Rolim de Moura/RO – FAROL

Alessandra Cardoso Siqueira - Orientadora, docente especialista do curso de psicologia da Faculdade de Rolim de Moura/RO – FAROL.

Referências:

ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Mauricio. Adolescência normal. Trad. Suzana Maria Garagoray Ballve. Porto Alegre: Artes Medicas, 1981.

BEE, Hellen. A criança em desenvolvimento. Trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese. 9. ed. Porto Alegre: Artmed, 2003.

BOECKEL, Mariana Gonçalves; SARRIERA, Jorge Castellá. Estilos parentais, etilos atribucionais e bem-estar psicológico em jovens universitários. Ver. Bras. Crescimento Desenvolvimento Hum, 2006.     

CLONINGER, Susan C. Teorias da Personalidade. Trad. Claudia Berliner. 1º. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

PRATA, Elisângela Maria; SANTOS, Manoel Antônio. Opiniões dos adolescentes do ensino médio sobre o relacionamento familiar e seus planos para o futuro. Paidéia, v.17, n.36, Ribeirão Preto, 2007. 

WAGNER, Adriana et al. A comunicação em famílias com filhos adolescentes. Psicologia em Estudo, v.7, n.1, p. 75-80. Maringá/SP, 2002.

WAGNER, Adriana; FALCKE, Denize; MEZA, Eliane Bottcher Duarte. Crenças e valores dos adolescentes acerca de família, casamento, separação e projetos de vida. Psicologia Reflexão e Crítica. V.10, n.01. Porto Alegre/RS, 1997.

WEBER, L. N. D; Eduque com carinho. 3º ed. Curitiba -PR. Ed. Juruá, 2005.

WEBER, L. N. D; DESSEN. Maria Auxiliadora. Pesquisando a família – instrumento para coleta e análise de dados. Curitiba-PR, Ed. Juruá, 2009.

WEBER, Lídia et al. Programa de Qualidade na Interação Familiar: manual para aplicadores. Juruá Editora, 1ª ed. (ano 2005), 4ª reimpressão. Curitiba/PR, 2010.

CRESPO, Antonio Arnot. Estatística Fácil. Saraiva. 17° ed. São Paulo/SP, 2002.

CAMPOS, Luis Fernando de Lara. Métodos e Técnicas de Pesquisa em Psicologia. 3° ed. Editora Alínea, Campinas/SP, 2004.

INFORMAR UM ERRO