Impacto no Desenvolvimento Cognitivo e Afetivo em Vítimas de Violência Intrafamiliar na Infância

Impacto no Desenvolvimento Cognitivo e Afetivo em Vítimas de Violência Intrafamiliar na Infância
(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Resumo: Esta pesquisa se baseia num estudo bibliográfico, tendo como objetivo geral pesquisar sobre o impacto no desenvolvimento cognitivo e afetivo em vítimas de violência intrafamiliar na infância. Além disso, fazer uma revisão no conceito de família e sua importância, investigar os tipos de violências e a afetabilidade no desenvolvimento emocional e cognitivo e, as interferências psicossociais, assim como, analisar como a experiência de sofrer violência na infância afeta os relacionamentos interpessoais.

Palavras-chave: Família, Violência intrafamiliar infantil, Desenvolvimento Afetivo e Cognitivo.

1. Introdução

“Um simples barulho diferente no portão era motivo para que o coração acelerasse. Para que a boca ficasse seca e as mãos trêmulas. Os pensamentos percorriam as memórias do passado e lá encontravam cenas de medo, agressão, descontrole e terror. Era possível ainda ver os olhos daquele que deveria proteger, embebidos na raiva e na frustração. Era possível ainda ouvir no coração as palavras rudes, cruéis e descontroladas ecoando pelas paredes dos cômodos da casa. Era possível sentir o vento da cinta saindo do passador da calça em direção ao pequenino corpo. Sentir o tapa, a força das mãos, o verdadeiro mal que saía pelos poros daquele que deveria cuidar. Quando não estava possuído por tal gênio, era bom, calmo, confiável. Mas, quando estava dominado por algo que, talvez nem mesmo ele conhecesse o nome e a origem, aí era possível sentir a vida por um fio. Impossível não chorar, impossível não temer. Era briga de poder para qual ainda não se tinha tamanho para enfrentar. Só restava esperar, que o barulho do portão fosse daqueles dias calmos e silenciosos. Só restava esperar que não fosse preciso ficar quietinha para não cutucar o gênio mal. Só restava sentir que havia uma única fagulha de controle sobre a próxima cena. Prever, antecipar, suportar a ansiedade, se esconder nas veredas da fantasia… esperar passar o tempo… para poder crescer e se transformar numa pessoa boa e capaz de não repetir a história” (Memórias de uma vítima da violência na infância).

Os modelos de famílias ainda são influenciados pela cultura de onde a escolha na formação da família advém e de crenças e valores obtidos, incluindo a esse conjunto história de vida, condições econômicas, fatores biopsicossociais e espirituais. A instituição familiar é o ambiente onde a criança inicia os primeiros aprendizados para seus relacionamentos sociais e suas formações afetivas e cognitivas (AMAZONAS et al., 2003; KREPPNER 1992, 2000 apud DESSEN; POLONIA 2007, p. 22). Os relacionamentos da criança com sua família são moldados na modelagem de comportamento que a família exerce sobre o aprendizado da criança - afetando negativamente ou positivamente seu futuro - sendo essa, uma fase onde elas iniciam o conhecimento de si e do seu convívio social. Essa primeira convivência é essencial para a criança (DESSEN; POLONIA 2007, p. 22). Constituindo uma estrutura de segurança, amor e carinho, lugar onde a criança desenvolve seu autoconhecimento, auto-respeito e sua autoconfiança. A participação da família é relevante para o desenvolvimento da consciência de julgamento do indivíduo na sociedade, sua função, responsabilidades e limites (DRUMMOND; DRUMMOND FILHO, 1998 apud PRATTA; SANTOS, 2007, p. 248). 

Criança feliz e amada, em muitos casos, é comparada a famílias que possuem condições econômicas favoráveis que supram “toda” necessidade e desejo material dos filhos. Não classificando esse aspecto como desnecessário, a felicidade e o desenvolvimento emocional saudável de uma criança estão, principalmente, relacionados a um ambiente onde os membros possuem maturidade emocional sadio, contribuindo para que a formação emocional da criança seja moldada nesse ambiente de tranquilidade.

Vivemos numa sociedade em que os abusos e violência contra crianças e adolescentes no ambiente intrafamiliar são cada vez mais frequentes, causando perplexidade, tristeza e incompreensão em quem assiste essas transgressões, pois quem deveria cuidar e amar, causa dor e sofrimento, originando grande impacto no desenvolvimento psicossocial, cognitivo e afetivo dessas crianças. 

Nos estudos bibliográficos, em que baseia essa pesquisa, foi possível observar que a competência dos relacionamentos sociais da criança está relacionada ao desenvolvimento das habilidades sociais positivas vindas de um ambiente familiar capaz de desenvolver corretamente seus papéis, capacitando a criança o desenvolvimento adaptativo positivo como bom rendimento escolar, responsabilidade, autonomia e autoconfiança, proporcionando à mesma maior capacidade de lidar com situações estressoras da vida. Quando esse ambiente é modificado, passando de um espaço tranquilo para um proporcionador de violência e abusos, o desenvolvimento emocional da criança é afetado e junto com ele, seu comportamento e os aspectos cognitivos e afetivos.

Diante dessas questões, este trabalho visa analisar sobre o impacto no desenvolvimento cognitivo e afetivo em vítimas de violência intrafamiliar na infância, a afetabilidade no desenvolvimento emocional e cognitivo e, as interferências psicossociais e como a experiência de sofrer violência na infância afeta os relacionamentos interpessoais dessa população.

2. Conceito de Família

De acordo com Rodrigues et al. (2000), o conceito de família é baseado na convivência de pessoas que são conectadas afetivamente com sentimentos intrínsecos e pensamentos de pertencimento de uns pelos outros, formando assim, a instituição familiar. Nesse sentido, define ainda que uma família estruturada é aquela que proporciona harmonia e tranquilidade, permitindo uma construção emocional saudável entre seus membros. São interligados por sentimentos mútuos os quais são transmitidos através das relações interpessoais, auxilia na construção da subjetividade e da individualidade de cada parte, permitindo ao sujeito uma formação equilibrada dos seus valores, direitos e deveres. Contudo, cada sujeito constrói sua personalidade individualizada e as experiências vivenciadas nessas relações interferem de forma distinta a cada um, fazendo que sejam experiências muitas vezes desagradáveis, formando alguns conflitos intrafamiliares (ELSEN, 1994 apud RODRIGUES et al., 2000, p. 41). 

Dentro do contexto psicológico, o conceito de família tem um sentido mais abrangente, pois não envolve somente a definição de responsabilidade social propriamente dita. Entretanto, é nesse ambiente onde a criança tem o seu primeiro aprendizado para um futuro de convivência em sociedade, assim como, sua capacidade de se reconhecer como sujeito independente, É onde inicia e exercita suas diferenças, sendo que, esse diferenciar-se é construído na interação entre seus membros. São nesses relacionamentos que a criança começa a conscientizar-se sobre seus papéis e responsabilidades nos grupos sociais. A distinção entre família funcional e família disfuncional é diferenciada nessas ligações afetivas e de responsabilidades (MINUCHIN, 1976 apud MACEDO, 2013).

Sendo assim, para a autora, a família tem a finalidade de:

[...] prover um contexto que supra as necessidades primárias de seus membros, referentes à sobrevivência – segurança, alimentação e um lar, ao desenvolvimento – afetivo, cognitivo e social – e ao sentimento de ser aceito, cuidado e amado (MACEDO, 2013, p. 64).

Portanto, o desafio das famílias é proporcionar à criança um ambiente adequado para uma construção sadia de sua personalidade (MACEDO, 2013, p. 64). É na harmonia do lar, na sensação de ser amada e nessa referência afetiva estável desse ambiente, que a personalidade da criança vai sendo construída. À medida que esse contexto é modificado, passando a um ambiente não acolhedor, esse processo de construção será alterado (FERRARI, 2002 apud BARBOSA, 2007).

Nesse sentido, surge a preocupação e o interesse em pesquisar sobre o impacto e as consequências trazidas na mudança de comportamento em crianças vítimas de violência intrafamiliar na infância, assim como, os conflitos dessas violências nos aspectos afetivos e cognitivos e os efeitos nos aspectos interpessoais e psicossociais.

Santos e Cardin (2015) citando Myers (1999), dizem que quando o indivíduo está bem consigo mesmo, ele possui perspectiva de futuro, disposição para colocar suas ideias em prática, tem agilidade e reconhece seus valores, ou seja, sua autoestima foi bem fundamentada nesse ambiente de tranquilidade. Já uma pessoa que teve sua integridade moral violada, dá origem a uma alteração na personalidade, onde o indivíduo perde o interesse na prática do auto-respeito (MYERS, 1999 apud SANTOS; CARDIN, 2015).

Sendo assim, qual o impacto e as consequências que essas experiências vivenciadas causam nas relações interpessoais das vítimas de violência intrafamiliar na infância e como essa experiência afeta o desenvolvimento emocional, cognitivo e os relacionamentos interpessoais?

O ser humano é fundamentado nas suas experiências emocionais e estas estão integradas à sua forma de sentir e de comportar-se. Suas realizações interpessoais estão diretamente associadas às suas experiências emocionais, sendo que, seu prazer de estar em harmonia consigo mesmo e com o mundo advém da satisfação adquirida nesses primeiros relacionamentos familiares (RODRIGUES; SOBRINHO; DA SILVA, 2000). 

Portanto, a família tem o dever de proporcionar aos seus membros satisfação emocional e espiritual. Garantir segurança, conforto e vida saudável, proporcionando a criança capacidade de amar e sentir-se amada. Quando a agressividade se torna parte constante nesses relacionamentos familiares, levando a dissonância, afetando a integridade física e emocional desse grupo, suscita estresse e crises no ambiente familiar (RODRIGUES; SOBRINHO; DA SILVA, 2000).

3. Violência Intrafamiliar e Suas Definições

Na década de 1950 os maus-tratos não eram vistos como violência infantil e não se dava tanta importância a este evento. Nos anos de 1960 e 1970, com o movimento feminista, foi quando começaram a admitir essas práticas como abuso infantil e violência sexual. Contudo, somente a partir dos anos de 1980 e 1990 que se iniciaram as divulgações e as conferências dos primeiros abusos sexuais infantis (COROLE, 1997 apud RAMOS, 2015). Quando essas agressões ocorrem no ambiente intrafamiliar, há um impacto também nas relações interpessoais da criança. Ela se sente impotente e culpada, com a ocorrência do abuso afetando não só suas relações familiares e sociais, mas também, causando prejuízos no seu psiquismo (MALGARIM; BENETTI, 2011 apud PACHECO; MALGARIM, 2012).

De acordo com DAY et.al (2003), a violência intrafamiliar é entendida como toda ação ou omissão que prejudique o bem-estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de um membro da família. Tais atitudes ocorrem no ambiente familiar ou fora dele por pessoas que estejam em situação de domínio em relação à outra, incluindo genitores ou mesmo sem laços sanguíneo.

A violência acontece nos ambientes internos e externos, designando o de maior relevância nesta pesquisa, os intrafamiliares, que ocorrem no ambiente de convivência de pessoas com laços de sangue ou vínculos de afeto (MOCHI, 2011 apud FERREIRA, 2002). Isso está relacionada ao poder e autoritarismo exercido do mais forte para o mais vulnerável (MINAYO, 2010 apud MOCHI, 2011).

Nas pesquisas, vários são os conceitos sobre a definição de violência intrafamiliar, dentre eles: 

Pode-se conceituá-la como qualquer ação ou omissão intencional e sistemática praticada por pais ou responsáveis que privem os filhos do exercício de seus direitos e de gozar de uma situação de bem-estar, interferindo, por consequência, no seu correto desenvolvimento físico, psíquico e social (MOCHI, BANNACH; CARDIN, 2011, p. 412).

Diferentes são as violências contra crianças no âmbito familiar, dentre elas estão: violência sexual; violência física; abandono ou negligência e violência psicológica (MOCHI; BANNACH; CARDIN, 2011). Complementando os tipos de violência contra crianças, inclui-se Síndrome de Munchausen por Procuração e Síndrome do Bebê Sacudido (PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 43).

A violência sexual contra crianças existe há muito tempo e corresponde aos primórdios do desenvolvimento da humanidade, contudo, não eram eventos tão relevantes que mereciam prioridades (PACHECO; MALGARIM, 2012, p. 621). Williams (2003) citando outros autores, diz que em se tratando de violência infantil, a violência sexual ainda é considerada um tabu. É menos denunciada pelo fato da criança temer o agressor por, na maioria dos casos, o abusador fazer constantes ameaças a vida de alguém que a criança tem vínculos e, no caso de um abuso incestuoso, ainda haver a dependência financeira e emocional na estrutura familiar. Ramos citando Miller (2008) diz que o abuso sexual não se restringe a classe econômica e abrange todos os sexos, sendo o feminino com mais frequências de casos (MILLER, 2008 apud RAMOS, 2015).

A negligência e o abandono se caracterizam pela incapacidade dos pais de amparar a criança diante de suas precisões físicas e emocionais. O abandono por sua vez vem da falha na formação de vínculos dos cuidadores com a criança (LOPES; TAVARES, 2000 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 43). 

Nesse sentido, as autoras citando Marmo, Davoli, Ogido (1995). colocam como exemplos alguns fatores relacionados à negligência: (...) “deixar de oferecer a criança ou adolescente alimentação, medicamentos, cuidados de higiene, proteção a alterações climáticas, vestimentas e educação” (MARMO; DAVOLI; OGIDO, 1995 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 43).

Dentro desse contexto de violência contra a criança no ambiente familiar, as autoras subdividem a negligência em mais três categorias, das quais se fará uma breve revisão por não estar sendo o propósito da pesquisa. São elas: negligência física; negligência emocional e negligência educacional.

Nesta divisão de negligências, a física diz respeito:

(...) a) ausência de cuidados médicos, pelo não reconhecimento ou admissão, por parte dos pais ou responsáveis (...) b) abandono e expulsão da criança de casa por rejeição; c) ausência de alimentação, cuidados de higiene, roupas, proteção às alterações climáticas; d) imprudência ou desobediência às regras de trânsito e falta de medidas preventivas para evitar intoxicação exógena; e) supervisão inadequada, como deixar a criança sozinha e sem cuidados por longos períodos (LEZIN; LONG, 2002 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 43).

Seguindo as categorias referentes às negligências, as de características emocionais abrangem atos como:

(...) falta de suporte emocional, afetivo e atenção, exposição crônica a violência doméstica, permissão para o uso de drogas e álcool (sem intervenção), permissão ou encorajamento de atos delinquentes, recusa ou não procura por tratamento psicológico quando recomendado (HLADY, 2004 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 43).

A negligência educacional deriva da falta de responsabilidade dos pais em manter os filhos na escola, permitindo frequentes faltas ou até mesmo o abandono destes, assim como, a não realização da inclusão na escola das crianças em faixa de idade escolar (GLASER, 2002 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 43).

As autoras citando Slack, Holl, McDaniel e Bolger, salientam que a negligência é um dos tipos de violência que está relacionada à miséria e classe social de baixa renda (SLACK et al., 2004 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 43).

Na violência física a criança é agredida fisicamente pelos seus cuidadores, não sendo um ato por acidente, todavia, com o intuito de machucar a criança. Nesta categoria o cuidador usa seu condicionamento de força para realizar a agressão (BRASIL, 2002 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005. p. 43). O ato de agredir vai de encontro com a ideia de correção e ensinamento, onde a criança que não obedece precisa ser agredida para entender que deve ser submissa aos pais ou responsáveis (MARMO; DAVOLI; OGIDO, 1995 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 43). Essas agressões com muita frequência deixam lesões visíveis e, portanto, com maior facilidade de chegar a uma conclusão por parte dos profissionais que atendem essas crianças. Neste sentido, as autoras citam alguns exemplos: As marcas indicativas do abuso incluem hematomas, escoriações, lacerações, contusões e queimaduras. (PRESSEL, 2000 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005. p. 43). A gravidade das ocorrências é diversificada, indo de um simples ato de beliscar, até agressões mais violentas, levando a criança a óbito.

As autoras trazem alguns protótipos:

(...) tapas, beliscões, chineladas, puxões de orelha, chutes, cintadas, murros, queimaduras com água quente, brasa de cigarro e ferro elétrico, intoxicação com psicofármacos, sufocação, mutilação e espancamentos (BACKES, 1999 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 43).

Em se tratando da violência por Síndrome de Munchausen por Procuração, refere-se a um tipo de violência da qual os pais simulam que seus filhos estejam doentes onde eles mesmos provocam essas doenças, levando as crianças a frequentes internações pelas alterações nos diagnósticos, originando em histórias clínicas inventadas. Muitas vezes a criança permanece hospitalizada por muitos dias recebendo medicações desnecessárias devido ao problema ser apresentado somente em companhia dos pais. Sendo assim, os profissionais que são responsáveis pelo acompanhamento da criança nem sempre conseguem de imediato detectar tal violência, devido à criança apresentar-se fisicamente bem durante esses períodos de internações (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA  et al., 2001 apud PIRES; MIYAZAKI,  2005. p. 44).

Esta forma de abuso, ou especificamente Síndrome de Munchausen por Procuração, foi descrita pela primeira vez em 1977 por Roy Meadow, um médico pediatra que observou que essas mães utilizavam de vantagem da atenção dos profissionais de saúde para com seus filhos (MEADOW, 1977 apud PIRES; MOLLE, 1999, p. 281).

Comumente em um momento de ira, com o choro de um bebê, que na maioria das vezes torna-se impossível saber o que a criança necessita ou o que está sentindo, os pais movidos pelo impulso e pela raiva, sacoleja a criança com o intuito de cessar o choro. No entanto, esse ato de sacudir a criança é denominado de Síndrome do bebê sacudido; é um tipo de agressão que não deixa marcas visíveis, porém podem provocar lesões cerebrais, hemorragias oculares, causar atraso no desenvolvimento neuro-psicomotor e consequentemente levar a criança a óbito (CARDOSO et al., 2003 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005. p. 45).

A violência psicológica está associada ao desrespeito à criança, onde os pais ou cuidadores, com atos ou palavras, estão a todo o momento dando a entender que a criança não é capaz de ter suas conquistas realizadas, ou que não são amadas. Necessariamente uma criança não precisa ser literalmente abandonada por seus pais. Dentro de casa e sob o mesmo teto com pessoas que deveriam proteger, esses comportamentos de rejeição são frequentes. A violência e/ou abuso psicológico trazem para a criança grandes danos tanto no âmbito físico quanto no emocional. Por ser de difícil reconhecimento, o abuso psicológico acaba não sendo notificado (O’HAGAN, 1995; BRASSARD et al., 1994; JELLEN, 2001 apud ABRANCHES; ASSIS, 2011, p. 844). A dificuldade na identificação do abuso psicológico decorre das marcas e das consequências não serem visíveis o que estorvam as ocorrências e identificação.

Nesse sentido, Pires e Miyazaki (2005) diz que a violência psicológica é:

Toda forma de rejeição, discriminação, depreciação ou desrespeito em relação à criança ou adolescente. (...) punir, humilhar ou aterrorizar com graves agressões verbais e cobranças exageradas, baseadas em expectativas irreais em relação ao bom comportamento ou ao desempenho escolar. (...) isolamento da criança, privando-a de experiências comuns a sua idade, de ter amigos, ou ainda indução a prostituição, ao uso de drogas e ao crime (ASSIS 1999; LARA et al., 2000; BRASIL, 2002 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 44).

4. Consequências da Violência Infantil

As consequências e o impacto causados pela violência contra crianças e adolescentes é de reconhecimento difícil, pois dependem de fatores particulares de enfrentamento, tais como idade, grau de desenvolvimento, tipo de abuso, frequência, duração, gravidade do abuso e a relação existente entre vítima e abusador. As consequências que os maus-tratos de uma forma geral trazem pra vida da criança são variadas e abrangentes, já que envolvem não só o contexto familiar, mas o social e em longo prazo (CHALK; GIBBONS; SCARUPA, 2002 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 45). 

Nas pesquisas escritas por outros autores existem comparações entre crianças que sofreram maus-tratos intrafamiliar e as que não vivenciaram essas experiências abusivas, das quais as que passaram por essa experiência apresentam comportamentos agressivos têm baixa autoestima, déficit de atenção, hiperatividade, dificuldade de relacionamento interpessoal, comportamento abusivo (serão também abusadores), baixo rendimento escolar, delinquência, gravidez precoce, uso de drogas, capacidade cognitiva e de desenvolvimento da linguagem inferiores (SILVERMAN; REINHERZ; GIACONIA, 1996 apud PIRES; MIYAZAKI, 2005, p. 45).

Em relação ao impacto e consequências da violência sexual na vida do abusado, Williams (2003) faz uma subdivisão entre aqueles que provocam danos imediatos e aqueles que se manifestam ao longo do tempo. Sendo os de curto prazo:

[...] comportamento sexualizado inapropriado, ansiedade, depressão, isolamento, queixas somáticas, problemas escolares, Transtorno de Estresse Pós-traumático, comportamentos regressivos (enurese, encoprese, etc.), fuga de casa, comportamento auto lesivo e ideação suicida (WILLIAMS, 2003).

Além disso, Williams (2003) citando Brino (2002) ressalta que de acordo com a gravidade e acompanhamento tais transtornos podem ter consequências em longo prazo, que são:

[...] re-vitimização, problemas com relacionamento sexual, prostituição, promiscuidade, abuso de substância, tentativas de suicídio e o fenômeno da multigeracionalidade (o fato de a criança abusada ontem se tornar o pai agressor amanhã) (BRINO, 2002 apud WILLIAMS, 2003).

5. Aspectos Cognitivos e Afetivos

Nos aspectos cognitivos, afetivos e o impacto causados pela violência intrafamiliar, Antunes (2005), em uma pesquisa exploratória citando outros autores, diz que as crianças vítimas de maus-tratos exibem quantidades incoerentes de sentimentos negativos como: raiva, tristeza, isolamento social e medo, mas apresentam muitos sentimentos positivos comparadas às que sofrem negligência e que essas não conseguem manter um consenso entre os dois sentimentos, negativos e positivos muito menos demonstrá-los. Segue dizendo que as crianças que vivenciam essas violências possuem dificuldades em identificar e distinguir essas emoções em si mesmas como também, tem inabilidade na compreensão dessas reações emocionais nos outros.  

Citando Shields, Cicchetti e Ryan (1994), descreve que essas desregulações na identificação das emoções são em longo prazo por encontrar as mesmas características em crianças de 08 a 12 anos (ANTUNES 2005, p. 29 e 30).

Ao prosseguir nas pesquisas sobre as consequências nos aspectos cognitivos, a Antunes (2005) citando Cicchetti & Lynch (1993) e Wenar (1994), traz como modelo a adaptação à escola. Expõe que essa fase do desenvolvimento infantil é cercada de novas adaptações como: fazer parte de um grupo, ter um bom desempenho em sala de aula e motivação na visão de futuro. Em uma criança que sofreu violência, essas adaptações são transformadas em riscos devido aos comportamentos de agressões, desobediências e o sentimento de raiva ser visíveis e frequentes nessa população.

Citando Cicchetti e Lynch (1993) diz que crianças que sofreu maus-tratos: 

Têm um desempenho académico mais baixo, sendo chamadas à atenção e suspensas por questões disciplinares mais vezes; são mais dependentes dos seus professores; são mais imaturas cognitivamente, talvez por questões motivacionais e sejam avaliadas como menos dispostas para aprender (CICCHETTI; LYNCH, 1993 apud ANTUNES, 2005, p. 34 e 35).

Para se adaptar à escola a criança necessita estar com a motivação ativada e maturidade cognitiva elevada e não ser tão dependentes dos professores. Características emocionais fragilizadas em crianças maltratadas, sendo a explicação de um dos motivos para o baixo rendimento escolar  (ABE; ALLEN,1987 apud ANTUNES, 2005). Ainda citando Cicchetti e Lynch (1993) aborda que essas qualidades, quando bem estabelecidas na relação da criança com o adulto, promovem competência cognitiva adequada e a criança vitimada sofre interferências nesse equilíbrio entre a motivação e o estabelecimento de relações seguras com o adulto, assim como, na motivação para fazer novas descobertas (CICCHETTI; LYNCH 1993 apud ANTUNES, 2005, p. 34 e 35).

6. Intervenção

Uma família em situação de violência traz consigo a ideia de disfuncionalidade dos papéis dos seus membros e irresponsabilidade dentro dessa instituição. No que diz respeito ao tratamento de apoio às famílias acometidas pela violência intrafamiliar infantil, no que concerne a existência de possível confusão de papéis entre os membros dessas famílias, o suporte de intervenção primeiramente deve abrangê-la como um todo, visando a saúde emocional de todos para então, seguir na intervenção individual. As autoras ressaltam que a terapia familiar é eficaz tanto no sentido avaliativo da refuncionalização dos papéis dessa família de forma holística, quanto na intervenção individual das partes  (RAMOS, 1992; PARDECK, 2004 apud SEI; GOMES, 2015, p. 136).

Cavalcanti (1999) divide o processo de intervenção em duas etapas sendo uma delas, prevenção; que junto ao Programa de Saúde da Família com a equipe de profissionais realizam visitas aos lares com o intento de formar e fortalecer os vínculos entre familiares e profissionais e, proteção; na prevenção, identificação e intervenção no que diz respeito à violência intrafamiliar. 

Citando Araújo (2002) salienta a necessidade de uma equipe multidisciplinar aliando medidas de intervenção, punição, protetoras e terapêuticas (CAVALCANTI, 1999; ARAÚJO, 2002 apud SEI, 2008, p. 203). 

Ainda citando Blau & Cols (1993) no que diz respeito ao atendimento de intervenção a criança, o mais usado frequentemente é o individual. Levando em consideração que se trata de uma população com muitas dificuldades de se expressar, necessitando adquirir autoconfiança, confiança no profissional e no ambiente acolhedor, traz como exemplo de terapia “o brincar”, sugerindo como uma intervenção mais apropriada para a criança expressar os comportamentos e sentimentos. O terapeuta por sua vez precisa desempenhar uma figura que transmite confiança, acolhedora e desenvolver um ambiente que possibilite a criança se sentir protegida, proporcionando a ela adquirir confiança em si mesma (BLAU et al., 1993; ROTONDARO, 2002 apud SEI, 2008, p. 203).

Conclusão

Os maus-tratos a criança são identificados há muito na história da humanidade, no entanto, a compreensão da infância como um período de vida que necessita de proteção e afeto, procede há pouco mais de dois séculos. 

A violência contra crianças é uma realidade muito tocante na atualidade, onde temos acesso nos vários meios de comunicação de casos assustadoramente tristes, que incitam em nosso interior um conjunto de sentimentos de repulsa, indignação e tristeza, de pessoas que deveriam proteger, amar e cuidar. Mesmo com toda dificuldade da Saúde Pública em programas de prevenção e intervenção, hoje existe o Conselho tutelar que amparado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), vem com o intuito de atender as vítimas de violência infantil, assim como, acolher e aconselhar pais ou responsáveis, numa tentativa de conscientização.

No estado Brasileiro as causas de mortes por violência contra crianças e adolescentes ainda seguem no ápice entre todas as outras mortalidades na faixa etária dos 05 a 19 anos e a segunda, no período de 01 a 04 anos. Segundo os dados numéricos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1996, foi o fator responsável por 22,6% de todas as mortes de crianças de 01 a 04 anos, por 48,2% das mortes na faixa etária de 05 a 09 anos, por 56,3% na faixa de 10 a 14 anos e por 72,2% no grupo de 15 a 19 anos. Estes dados indicam que na população brasileira, crianças e adolescentes morrem mais por conflitos sociais e violência do que por doenças (IBGE, 1997).

A violência está presente em todos os níveis socioeconômicos, culturais, étnicos e religiosos de nosso país, mas é predominante em grupos que vivenciam a carência econômica trazida pelo desemprego e baixo nível de escolaridade, o que, de certa forma, expõe estas famílias ao risco da violência doméstica. Ainda observa-se o fato de a violência ser utilizada como forma de disciplinar os filhos, demonstrando a carência de informação e preparo dos pais de crianças e adolescentes. As consequências são devastadoras tanto nas áreas psicológicas, sociais, comportamentais quanto afetivas e cognitivas.

É imprescindível que os profissionais que lidam com essa população vitimizadas pelos maus-tratos estejam se empenhando na intervenção às crianças, com medidas cabíveis de proteção, punição, acolhimento e medidas terapêuticas, visando o seu bem-estar físico e emocional. O terapeuta necessita transmitir confiança, acolher e desenvolver um ambiente que possibilite a criança se sentir protegida e confiante em si mesma, onde ela permita uma reconstrução dos seus papéis que foram perdidos. Que essa população frágil e carente de atenção não carregue por toda vida as consequências de ter sofrido violência na infância e, que esse mal de hoje não a transforme num adulto abusador de amanhã.

Sobre a Autora:

Laudisseia Ederique Nogueira Machado - Psicóloga; Bacharelada em Psicologia pela Associação Vitoriana de Ensino Superior – IESFAVI; Pós-Graduanda em Terapia Familiar e Políticas Sociais de Atenção à Família – Faculdade Unida de Vitória.

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