Relação entre Traição e Perdão nos Relacionamentos Amorosos

Relação entre Traição e Perdão nos Relacionamentos Amorosos
(Tempo de leitura: 14 - 28 minutos)

Resumo: A ideia de amar ou estar com alguém pressupõe fidelidade, sendo assim os relacionamentos amorosos são marcados por votos de lealdade e cumplicidade, conforme uma herança cultural do “amor romântico” advinda desde o período medieval. Porém, no nosso mundo contemporâneo, muitos valores estão sendo invertidos e os relacionamentos passam a se estabelecerem de diversas maneiras. A traição, algo que sempre existiu nas sociedades, sendo praticada em sua maioria por homens, agora é vista como comum e natural e praticada por ambos os sexos, no entanto mesmo vista como comum, ninguém quer ser traído. Como consequência a traição consegue desestabilizar os relacionamentos mais curtos ou mais longos. O perdão quer no sentido de esquecer por completo quer no sentido de aceitar, nem sempre é concedido, dessa forma esta pesquisa visa conhecer a relação existente entre a traição e o perdão nos relacionamentos amorosos. Metodologia: pesquisa básica com abordagem qualitativa, com dez participantes, sendo cinco mulheres e cinco homens. Resultados: perfil do sexo masculino, idade entre 29 e 49 anos; tipo de relacionamentos: namoros e casamentos, e tempo de relacionamento entre 03 e 14 anos, com elevada instrução escolar; perfil do sexo feminino, idade entre 24 e 40 anos; tipo de relacionamentos: namoros e casamentos e tempo de relacionamento entre 03 e 22 anos, com elevada instrução escolar. Percebeu-se que os conceitos acerca da traição e perdão ultrapassam gerações, os pensamentos são semelhantes.

Palavras-chave: relacionamentos amorosos; traição; perdão.

1. Introdução

Durante algum tempo na antiguidade os relacionamentos amorosos nem sempre o fora como os são no contexto presente, as pessoas trocavam voto de lealdade não por paixão ou desejo, mas devido a quantidade de guerras que existiam nesse período, os homens para preservar a linhagem, precisavam ter a garantia de que as mulheres com que coabitavam, só mantinham relações sexuais com ele, a partir dessa necessidade de deixar herdeiros, houve uma transição do heterismo para à monogamia, onde apesar de proibida as relações extraconjungais, os homens mantinham suas práticas sexuais.

Na idade média tal concepção foi sendo modificada por um notável amor romântico e idealizado, mas os casamentos eram escolhidos pelas famílias por questões econômicas e por conveniências sociais, então os jovens buscavam aquele amor impossível, que somente nos sonhos poderiam ser alcançados.

Porém na contemporaneidade com o advento da mulher na sociedade, e o controle da própria fecundidade, estas passaram a ter liberdade de escolha dos seus parceiros, entretanto mesmo com as mudanças ocorridas no decorrer do tempo, ainda é possível perceber a influência dos períodos da antiguidade com a conservação do domínio do homem nas relações e no que se refere ao período medieval na busca do amor idealizado.

Na atualidade com a inversão de valores da sociedade, os relacionamentos se estabelecem de diversas maneiras, as pessoas unem-se por comodidade, por atração física, em busca de aventura e também por amor, e por muitas vezes os relacionamentos são tidos de forma banalizada, o que aumenta a frequência do número de traições e naturalidade com que estas sejam realizadas.

Na ideia de que amar ou estar com alguém pressupõe fidelidade, a traição apesar de ser algo comum na sociedade de hoje, ainda é um “fantasma”, que acarreta sofrimento nos relacionamentos, há quem não suporte e não perdoe uma traição, contudo quem perdoa, passa por uma reconciliação que pode ser vagarosa e difícil, pois a confiança foi quebrada, mas o sentimento de traição não é esquecido voltando sempre à tona no relacionamento. É importante destacar que os relacionamentos são uma construção social e que muda conforme as épocas vão mudando.

Esta pesquisa se propõe a apresentar conhecimentos a respeito do que vem a ser o perdão em meio aos relacionamentos amorosos após uma traição extraconjugal, seus principais aspectos históricos, sócio-culturais, como também suas principais representações.

Em alguns casos a traição não é superada e casais não conseguem sustentar a relação, tendo como consequência a separação, os casais que optam continuar juntos após uma traição são envolvidos por uma série de sentimentos, mas por acreditarem no amor e no desejo de permanecer juntos preferem colocar um ponto-final na história. Diante de tais questões, faremos o questionamento de que num relacionamento amoroso existe perdão no sentido de aceitação numa traição?.

Dessa forma, vale ressaltar que a escolha em pesquisar tal tema está voltada para o interesse de aprofundar esse conhecimento, e assim chegar ao final do trabalho com uma bagagem de pesquisa teórico-prática, para que o mesmo sirva de apoio para nossa formação acadêmica e aplicação profissional, absorvendo conceitos até então desconhecidos.

2. Objetivos

2.1 Objetivo Geral

Conhecer a relação existente entre a traição e o perdão nos relacionamentos amorosos.

2.2 Objetivos Específicos

1. Identificar os conceitos de traição e perdão relacionando-os entre si;

2. Enumerar os motivos que causam a uma traição nos relacionamentos amorosos;

3. Entender como se estabelece a convivência no relacionamento após a traição

3. Revisão de Literatura

3.1 Traição e seus significados

Segundo Almeida (2005) existe alguns vestígios da literatura grega clássica que revelam registros anteriores à prática monogâmica, dos povos gregos e asiáticos, onde homens mantinham relações sexuais com várias mulheres, assim como mulheres mantinham relações com vários homens, sem que isso fosse violação da moral.

Após a mudança da heteromia para a monogamia, as mulheres passaram a desempenhar o papel de governante da casa, que devia tolerar tudo, guardar a castidade e de se manter fiel rigorosamente, enquanto que os homens conservavam os comportamentos anteriores a monogamia sem maiores implicações.

Scottini (1998, p.455) conceitua traição como “ação de trair, infidelidade, abandono, ruptura de um pacto”, como apresentado acima a traição é uma ato que nos acompanha desde as antigas civilizações e que perduram até os dias atuais. A traição para muitos pode ser entendida como beijar, praticar sexo, ter contato íntimo, desenvolvimento de apego ou comportamentos de paquera com uma pessoa que não seja aquela que se estabelece compromisso, de acordo com o Almeida (2010), a traição pode envolver aspectos emocionais ou sexuais.

O mesmo autor ainda ressalta que a fidelidade não é uma lei natural do homem, mas um condicionante cultural, tais como a moral e a religião, pois o controle da sexualidade é regulado por meio de discursos sociais. A traição ainda hoje religiosamente é associada ao pecado, e na sociedade ocidental em termos jurídicos a poligamia é considerada crime, o que em outras sociedades acontece naturalmente.

Complementando o fator do condicionamento cultural referente a traição, Ramos (2011) coloca que num relacionamento estamos constantemente sujeitos a estímulos que nem sempre vem do parceiro fixo, o que nos remete a pensar que estabelecer um relacionamento amoroso com uma pessoa não elimina o interesse amoroso ou sexual por outras pessoas, mas também não descarta que por trás da traição podem existir alguns motivos inerentes, como: desgaste de uma relação, perda de interesses comuns, falta de cumplicidade, insatisfação sexual, procura de algo novo ou até mesmo uma paixão arrebatadora.

3.2 Perdão e seus significados

De acordo com Ferreira (2008) perdão possui como significado a remissão da pena, o desculpar, que por sua vez corresponde ao ato de eliminar ou atenuar a culpa. Ao trazer em voga o conceito de perdão podemos pensar o perdão em dois sentidos: esquecer ou aceitar. O esquecer traz consigo preceitos religiosos, onde os ensinamentos bíblicos demonstram que o arrependimento, o que consiste a mudança da mente, merece o esquecimento do ato culpabilizador cometido, no que concerne ao aceitar, é o aprender a conviver com tal ato culpabilizador, entretanto sem permitir que esta atitude atrapalhe a convivência nos relacionamentos de um modo geral.

Ao pensar na palavra perdão, achamos que para conceder perdão é necessário primeiramente esquecer. Para a Psicologia, segundo Silveira (2000) o perdão não tem nada haver com o esquecimento, como a visão religiosa coloca, mas com a aceitação.Mas, temos que estar atentos, pois, o perdão não é conivência com a coisa errada. Mas sim trabalhar a mágoa, a ofensa, para que a mesma vá perdendo o significado. E à medida que vamos descobrindo esses valores, ela vai desaparecendo e com isto podemos fechar o ciclo entre o perdoar e o esquecimento.

Coelho (S/D) coloca que perdoar liberta tanto o ofensor quanto o ofendido, pois acúmulos de mágoas sem se liberar o perdão, causam adoecimentos em ambas às partes como também você sente como se uma grande carga estivesse sendo “levada nas costas e no coração”, pois o perdoar é essencial para o crescimento e amadurecimento e mudança do relacionamento.

Ainda de acordo com o mesmo autor a traição significa a quebra de confiança e mostrar que o respeito que havia entre o casal foi quebrado. Desta forma, perdoar o parceiro traidor (a) é uma tarefa complicada para quem ama e que leva o relacionamento a sério. Além destes fatores, a pressão familiar e da sociedade correspondem indicadores para que a pessoa traída sinta-se constrangida em perdoar o companheiro (a). Não existe um guia para conseguir superar este difícil problema, cabe somente a pessoa traída ou ofendida decidir, ou seja, esquecer da opinião dos outros, do que os vizinhos e sociedade vão pensar.

Há quem não acredite em perdão da traição, e assim argumenta que o perdão foi dado devido a coisas mais importantes na relação do que o sentimento, mas será que isso é verdade? O fato é que muitos casais conseguem conviver muito bem ou até mesmo melhor após o descobrimento da traição, pois desta forma, este acontecimento serviu apenas como mais um obstáculo na vida de ambos.

No capítulo VI: 14-15, do livro de Mateus na Bíblia Sagrada, o perdão é colocado como importante aos homens e como algo sagrado, vindo dos céus e deixado como exemplo na terra, de cunho religioso. "Se perdoardes aos homens as ofensas que vos fazem, também vosso Pai celestial vos perdoará os vossos pecados. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará os vossos pecados". Este perdão é tido como símbolo de remissão dos pecados, na contemporaneidade voltando-se aos relacionamentos amorosos este perdão serve como uma aceitação, sendo que no primeiro momento de raiva, o desencadeador do problema sempre volta à tona, dessa forma não existe esquecimento total.

3.3 Traição versus Perdão

Quando um relacionamento é iniciado, podemos dizer que tudo são “flores”, onde existe compreensão, romantismo, atração mútua, sexualidade intensa, é neste momento que a paixão está instalada, é nesta fase que as expectativas são construídas, porém esse sentimento é passageiro e logo toda esta sensação vai dando lugar a realidade tal como ela é, essa mudança poderá ser transformada em amor ou em um relacionamento mais amadurecido. Segundo Almeida (2010), inconscientemente espécies de acordos vão se constituindo como fundamento entre a vida a dois, entre eles a fidelidade assume o sentido de exclusividade, como extensão de completude, e para que isto aconteça se faz necessário a repressão de impulsos para garantir esta fidelidade, instituído de certa maneira por padrões sociais e culturais estabelecidos.

Diante dos prazeres efêmeros, desprovidos de laços de afetivos, além dos intensos “bombardeios” da mídia, com exposição de novos modelos de relacionamentos, as relações tornaram-se descartáveis e a fidelidade é vista como ultrapassada. Almeida (2010) coloca que por algum tempo vivíamos na “era dos sentimentos” onde os projetos eram experenciados a longos prazos, originado do amor romântico, contudo nos dias de hoje levados pelo enfraquecimento da sociedade patriarcal vivemos na “era das sensações” de forma que existe o culto as satisfações imediatas, sendo assim a traição é uma palavra que está “em alta” nos relacionamentos, levados justamente por esta “era das sensações”. Não significa dizer que todos os relacionamentos são constituídos de tais pressupostos.

 É tácito que mesmo mediante a sedução das sensações desencadeadoras de prazer, continuamos buscando relações que proporcionem segurança e garantia de comprometimento, desse modo a traição é encarada como desarranjo que interfere profundamente na confiança e intimidade do casal. Nesse sentido o perdão demanda maior esforço da parte traída, pois não existe receita para esquecer o fato ocorrido, existe apenas a possibilidade de que a partir do empenho de ambas as partes o relacionamento pode sobreviver, alguns estudiosos acerca do tema acreditam que por momentos a traição pode ser significante para a reestruturação do casal, na tentativa de reavivar um relacionamento monótono (Almeida, 2010).

Torna-se evidente que mesmo com essa massificação de mudanças de crenças, disseminação de novos padrões, e a busca de individualidade a traição é algo que não é aceitável nos relacionamentos, a realização pessoal ainda é mantida no outro, no sentido da representação do amor, manifestando que o perdão está incutido não como forma de apagar os acontecimentos, mas na maneira de aprender a conviver de maneira construtiva.

4. Método

4.1 Quanto ao nível da Pesquisa

Com referência à utilização do nível da pesquisa foi utilizada a pesquisa básica, proposta por Appolinário (2006) empregada no incremento do conhecimento científico, sem propósito comercial.

Quanto ao local da coleta de dados a pesquisa realizada foi de campo pelo fato do sujeito não estar estabelecido numa situação controlada, e ainda segundo o mesmo autor a unidade da pesquisa está no sujeito.

4.2 Quanto à forma de abordagem

Quanto à forma de abordagem foi utilizada a pesquisa qualitativa com base na interação social entre o pesquisador e o fenômeno pesquisado. Justificando-se por ser a forma adequada de possibilitar um maior nível de profundidade e entendimento das particularidades do comportamento dos indivíduos.

4.3 Quanto aos objetivos

No que se refere ao objetivo o método utilizado foi o exploratório que segundo Gil (1999) intenciona proporcionar uma visão geral acerca de determinado tema.

4.4 População e Amostra

A população que participou da pesquisa teve como critério de participação o envolvimento em relacionamento amoroso, com convivência de no mínimo 02 (dois) anos. A amostra será constituída de 10 (dez) indivíduos, sendo 05 (cinco) do gênero masculino e 05 (cinco) do gênero feminino e a faixa etária será entre 20 (vinte) e 50 (cinquenta) anos de idade.

4.5 Coleta de Dados

Quanto à coleta de dados para atingir nosso objetivo, optamos pela técnica de entrevista semi-estruturada (APÊNDICE), pelo fato da mesma seguir um roteiro que funciona como guia, direcionando a entrevista, respeitando-se a liberdade de expressão dos entrevistados.

4.6 Análise de dados

Analisamos os dados que foram coletados em conformidade com a análise de conteúdos expressa por Bardin (1977), caracterizando-se como procedimento sistemático, visando à compreensão das mensagens transmitidas, relacionando-as com os conhecimentos relativos à construção produção/recepção das mensagens.

4.7 Procedimentos éticos

Quanto aos procedimentos éticos foi utilizado nesta pesquisa o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (anexo), para garantir que todas as informações fornecidas pelo entrevistado terão como finalidade o desenvolvimento desta pesquisa, garantindo-se o anonimato e sigilo das respostas.

4.8 Procedimentos

Inicialmente buscamos os entrevistados por conveniência, ou seja, pessoas que estejam inseridas no nosso meio social, partindo desse pressuposto os objetivos do projeto foram expostos, e consecutivamente os pretendentes a participantes tiveram acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), onde os mesmos puderam aceitar ou não a participação na pesquisa.

O tempo de aplicação das entrevistas foi indeterminado, permitindo que os entrevistados falassem o que julgassem necessário. As entrevistas foram realizadas individualmente.

5. Resultados e Discussão

Os resultados serão apresentados destacando-se as informações obtidas conforme a relevância dos temas. Os temas abaixo foram categorizados para a melhor compreensão e análise acerca da traição e o perdão nos relacionamentos amorosos.

Perfil dos Participantes

Segue abaixo os dados dos participantes da pesquisa por sexo, faixa etária, grau de escolaridade, tipo e tempo de relacionamento. Ver quadro 1.

Lembrando que para haver identificação dos participantes da pesquisa, denominou-se de PF1 à primeira entrevistada do sexo feminino e PM1 o primeiro entrevistado do sexo masculino, PF2 à segunda entrevistada do sexo feminino e PM2 o segundo entrevistado do sexo masculino, e assim sucessivamente.

Quadro 1: Perfil dos Participantes

Participantes

Sexo

Faixa Etária

Grau de Escolaridade

Tipo de Relacionamento

Tempo de Relacionamento

PF1

F

24 anos

Superior Incompleto

Namoro

3 anos

PM1

M

29 anos

Superior Incompleto

Namoro

9 anos

PF2

F

36 anos

Superior Completo

Namoro

8 anos

PM2

M

33 anos

Superior/Pós

Casado

7 anos

PF3

F

33 anos

Superior Completo

Namoro

8 anos

PM3

M

38 anos

Superior/Pós

Casado

14 anos

PF4

F

38 anos

Superior/Pós

Casada

12 anos

PM4

M

43 anos

Superior/Pós

Casado

13 anos

PF5

F

40 anos

Superior/Pós

Casada

22 anos

PM5

M

48 anos

Superior Completo

Casado

3 anos

As informações expostas revelam que a amostra foi constituída de 10 (dez) participantes, sendo 05 (cinco) do gênero feminino entre as idades de 24 (vinte e quatro) e 40 (quarenta) anos, e em sua maior parte os tipos de relacionamentos estabelecidos são namoros, com tempo de relacionamento de 03 (três) até 22 (vinte e dois) anos, possuem grau de escolaridade elevada, constando nível superior e pós graduação.

A outra parte da amostra é formada por 05 (cinco) participantes do gênero masculino entre as idades de 29 (vinte e nove) e 49 (quarenta e nove) anos, fica evidenciado também grau de escolaridade elevado com níveis superior e pós graduação, todos são casados com exceção de apenas um participante, com tempo de relacionamentos entre 03 (três) e 14 (quatorze) anos.

Os dados evidenciaram que apesar das mulheres apresentarem maior tempo de relacionamento, estas se mostram mais “resistentes” ao casamento do que os homens, este fato pode ser justificado pelas mudanças ocorridas no mundo contemporâneo, onde a mulher começa a ocupar espaço na sociedade e a ter controle sobre suas escolhas. A pesquisa quis conhecer através desta amostra os significados acerca da traição e do perdão nos relacionamentos amorosos atribuídos a partir dos gêneros, das diferentes idade e das singularidades de cada indivíduo.

1. Tema: Perdão

Categoria 1 - Aceitação – (...) deixar para trás; (...) “página virada” (...).

Categoria 2 - Compreensão – (...) entender que o outro é ser humano; (...) passível de cometer erros.

Categoria 3 Esquecimento – (...) esquecer por completo; (...) consegue realmente apagar realmente a mágoa causada (...).

PM1- Perdoar é entender que o outro é ser humano e, por isso, passível de cometer erros.

PM2- Perdão significa não levar em conta uma ofensa cometida contra si.

PM3-(...) É compreender que o Ser Humano erra, e aceitar esta realidade como atávica. Perdoar é, portanto, aceitar o erro como próprio à natureza humana (...).

PM4-Entendo por perdão como capacidade de assimilar algo que alguém me fez de ruim e convertê-lo em um aprendizado para com o outro (...).

PM5-Significa que a pessoa aceitou o fato de ter sofrido com alguma coisa que lhe foi proporcionado (....).

PF1-Compreender o erro do outro como experiência e amadurecimento de ambos (...).

PF2-Perdão é uma forma de deixar para trás, sem ressentimento, uma ofensa ou qualquer outro ato que venha a machucar o íntimo da pessoa. É como uma “página virada” (...).

PF3-(...) O verdadeiro perdão é aquele no qual a pessoa consegue apagar realmente a magoa causada (...)

PF4-Penso ser um mecanismo que temos para fazermos que uma determinada ofensa ou traição seja esquecida (...)

PF5-Perdão é o meio pelo qual damos a quitacão de uma dívida contraída (...)

Ao perguntar sobre o que se entendia por perdão ficou constatado nas respostas dos participantes que a aceitação se faz mais vigente, seguida de compreensão e depois de esquecimento. Desse modo os sujeitos entendem o que a Psicologia de fato coloca, o perdão como a aceitação, como o balizador para a permanência de um relacionamento. A compreensão se dá pela capacidade de empatia do ser humano, consistindo no colocar-se no lugar do outro.

Quanto ao esquecimento, percebe-se uma concepção minoritária dos participantes, sendo que dessa menor parte são as mulheres que acreditam nesse perdão como esquecer por completo, quiçá por virtude ainda da cultura do amor romântico, pregado na Idade Média (Almeida, 2005).

2. Tema: Traição

Categoria 1 - Ausência de Comprometimento – (...) é toda falta de compromisso (...).

Categoria 2 - Rompimento – (...) rompimento do pacto de confiança (...).

PM1-Trair é quebrar um acordo tácito, implícito nos relacionamentos humanos.

PM2-Traição é todo ato que viole a confiança que uma pessoa deposita em outra.

PM3-Trair, ao menos para mim, é rompimento do liame de verdade e do compromisso com esta verdade (...).

PM4-Entendo por traição um evento que me agride profundamente, seja feito por mim ou pelo outro.

PM5-Processo pelo qual há perda de confiança.

PF1-Quebra de confiança em relação ao parceiro e negação dos princípios conservadores.

PF2-Traição é uma espécie de quebra de compromisso firmado com alguém (...).

PF3-Traição é uma decepção, é ser infiel, é violar um compromisso que foi assumido (...).

PF4-Para mim é toda falta a um compromisso (...)

PF5-Traição é o rompimento do pacto de confiança firmado por duas ou mais pessoas (...)

Ao se investigar o conceito de traição os participantes atribuíram significativamente a ausência do compromisso e o rompimento da confiança estabelecida. Como conseqüênciaTessari (2008) coloca que a traição seria a quebra do vínculo de confiança entre o casal e a desestruturação na referência de vida. Neste quesito homens e mulheres possuem respostas semelhantes, sendo que as mulheres mostram-se mais sensibilizadas na descrição de suas respostas.

3. Tema: Perdoar

Categoria 1 - Indecisão – (...) dependeria muita da situação (...).

PM1- Só passando para saber esta resposta. “A linha entre a razão e a loucura é tênue”.

PM2- Sim, porque sou cristão (...)

PM3- Sinceramente, depende (...)

PM4- Perdoaria, como já perdoei. Porque acredito que as pessoas têm o direito de corrigir algo que fez de errado.

PM5- Creio que sim (...).

PF1- Sim. Porque todos nós somos humanos (...).

PF2- Talvez. Depende muito da situação e do contexto (...).

PF3- Não sei! Acho que dependeria muito da situação (...).

PF5- Sim (...)

Os dados revelaram que quanto ao perdoar que é o ato de conceder perdão, os entrevistados sinalizaram que perdoariam, contudo no decorrer das respostas demonstram indecisão, afirmando que é necessário passar por alguma situação para ter certeza se o perdão realmente iria se manifestar. Apesar da imagem do homem como “machista” nesta pesquisa responderam que perdoariam, enquanto que as mulheres não, contrariando o que Tessari (2008) aponta que a mulher adota uma postura de mãe compreensiva perdoando e o homem apresenta mais dificuldade de perdoar porque se sente na obrigação de tomar uma atitude perante a sociedade.

4. Tema: Motivos de uma Traição

Categoria 1 - Insatisfação – (...) tentar suprir a ausência de algo que sente falta.

PM4- (...) pode ser motivada por uma insatisfação na relação (...)

PF1- (...) desmotivação para buscar o melhor para o futuro (...)

PF2- (...) vai tentar suprir a ausência de algo que sente falta.

PF3- (...) O desgaste do relacionamento, onde muitas vezes os casais acabam caindo na rotina sem perceberem isso (...)

PF4- Ausência. Tanto a física como a emocional. A falta de envolvimento, de comprometimento.

PF5- (...) traição é a insatisfação da alma do agente (...)

As informações expostas constataram respostas desde motivos que são inerentes ao homem, como parte da sua natureza cultural e biológica, até questões referentes ao caráter do indivíduo, demonstrado pela conduta de desamor com ele mesmo e com o próximo pouco importando o trair ou o não trair. Freud dizia que as pulsões em si não são nem boas nem más; são apenas impulsos que buscam satisfação. O que vai conferir-lhes um juízo de valor é o modo de inserção destes impulsos no contexto cultural e as possibilidades, a eles atribuídas, de contribuição para a sobrevivência da espécie e da vida comunitária.

De fato a insatisfação se faz presente na maioria das respostas, além de corresponder a ausência de algo, alguma coisa, sentimento, entre outros, representa também a construção do caráter, ou seja, ausência de compromisso. Tessari (2008) expressa que diversos são os motivos para uma traição entre eles: rotina, falta de atenção, questões culturais, a busca pelo novo, carências, insatisfações, vingança. E que ocorre também quando um dos dois não vê satisfeito seus desejos ou suas expectativas, com a mudança de visão do século a mulher não depende mais do homem para sustentar-se tanto financeiramente como emocionalmente.

O homem apresenta mais dificuldades de perdoar porque se sente na obrigação de tomar uma atitude perante a sociedade, por mais que a supremacia masculina permaneça, eles mostram-se mais dependentes dos cuidados femininos e acabam por relacionarem-se novamente ou até mesmo perdoando traições.

5. Tema: Tempo de Convivência versus traição

Categoria 1 - Indefinido – (...) onde existe a promessa de uma fidelidade até a morte, mas não se ama o suficiente para ser fiel. Viver junto até a morte não significa ser fiel no mesmo tempo (...).

PM2- Não. Quanto maior o tempo de relacionamento mais os casais têm motivos para manterem-se firmes em seu compromisso.

PM3- Nem tempo, nem filho, nem causas econômicas justificam a existência de traição, como igualmente não justificam (nem explicam) a manutenção de relacionamento algum.

PM4- Não acredito nisso. Teoricamente, o tempo de relacionamento deve ser fator preponderante para mostrar que essa relação é sólida e o casal está junto por escolha. Não cabe traição.

PF1- Não. Pelo contrário, dependendo do relacionamento que se constituiu, elimina-se essa possibilidade.

PF2- Não necessariamente. O que incentiva uma traição não é o tempo, mas a ausência de satisfação

PF4- Não

No que se refere ao tempo de convivência a maioria dos sujeitos destacaram que o tempo de convivência não incentiva uma traição nos relacionamentos, mas pelo contrário, o tempo de convivência deveria estabelecer alianças “inquebráveis” onde não houvesse motivos pertinentes para uma traição, desde que dentro da convivência estão inerentes aspectos indissociáveis.

Entretanto houve participantes que afirmaram existir perante muito tempo de relacionamento incentivo para a traição, pois a atração por novidades decorrente da perda do gosto da conquista são fatores que podem possibilitar uma traição, é como se o pertencimento fosse sinônimo de monotonia, o que define bem a colocação de Amélio apud Almeida & Rodrigues (2010) onde estabelecer um relacionamento amoroso com outra pessoa não elimina o interesse amoroso ou sexual por outras pessoas.

6. Tema: Traição: descoberta versus comportamento

Categoria 1- Reflexão – (...) primeira reação muito provavelmente seria uma auto reflexão (...).

Categoria 2- Alteração de Humor – certamente ficaria muito triste (...).

PM1- Só passando para saber esta resposta (...)

PM2- Abatimento.

PM3- (…)A primeira reação muito provavelmente seria uma autorreflexão (...)

PM4- (...) refletir juntar e lutar para o bem da relação (...)

PF1-Eu silenciaria e distanciaria do problema. Cabeça fria pensa melhor.

PF2- A princípio, além de ficar decepcionada, iria procurar o meu companheiro para conversar.

PF4- Certamente ficaria muito triste (…)

PF5-(…)o controle emocional é indispensável! Sabemos o quanto é difícil em meio a uma turbulência, daí a importância dos fatores tempo e distância. É necessário um tempo de se reservar, tempo para refletir (...)

As informações expostas de um modo geral identificam quais seriam os comportamentos manifestados mediante a descoberta de uma traição, entre tais reações podemos perceber a auto-reflexão e a alteração de humor, já que quando um relacionamento é firmado, a “exclusividade” faz parte desta aliança, e ao descobrir que o “pacto” foi quebrado, é provável que exista uma desestrutura emocional.

De acordo com Tessari (2008) a pessoa traída tende a avaliar se de alguma forma ela favoreceu para que essa traição ocorresse, entendendo que houve uma parcela de culpa por parte dela, ou simplesmente culpabiliza o outro lado e se faz de vítima. O fato é que não existem sentimentos positivos diante a descoberta de uma traição.

7. Tema: Tempo de convivência versus perdão

Categoria 1- Afirmativa – Com certeza. As qualidades pesarão mais que os defeitos.

Categoria 2- Cumplicidade – (...) pelo gostar, pelo interesse em manter a sociedade; pelo interesse de manter a “família”; por interesses econômicos; por laços culturais e por costumes.

PM1- Acredito que sim. Um mês e uma década de relacionamento têm substâncias emocionais e afetivas muito diferentes. (...)

PM2- Sim, porque quanto maior o tempo de relacionamento mais aprendemos que somos falhos (...).

PM4- (...) tempo de casa depõe a favor de qualquer pessoa.

PM5- Sim. Pelo gostar; pelo interesse em manter a sociedade; pelo interesse em manter a “família”; por interesses econômicos; por laços culturais; por costumes.

PF1- Com certeza. As qualidades sempre pesarão mais que os defeitos.

PF2- Com certeza. O tempo de convivência fortalece os sentimentos entre as pessoas. (...)

PF3- (...) sendo mais propenso a perdoar pelo fato de já terem vivido muitas coisas juntos e não quererem que tudo isso acabe. (...)

Ao investigar a influência do tempo de convivência e o perdão, ficou evidente que de forma quase unânime os participantes afirmaram que no “final das contas” o que prevalece mesmo são todas as experiências vividas, em termos de cumplicidade o gostar prevalece a traição e favorece o perdão.

Apenas com exceção de três entrevistados onde acreditam que da mesma forma que o tempo de convivência não incentiva uma traição, esse mesmo tempo também não irá influenciar o perdão, que quanto mais tempo tem um relacionamento, mais difícil fica de perdoar. Levando a entender que tal questão dependerá da forma com que cada casal enfrentará a situação.

Sendo assim quando existe aceitação, ou seja, o perdão de fato, o recomeço existirá, colocando-se um ponto final na história, porém quando este perdão não é liberado, com certeza a separação será consequente e definitiva para a vida o casal.

6. Conclusões

A pesquisa quis conhecer a relação entre a traição e o perdão nos relacionamentos amorosos, ao investigar, desse modo, se existe o verdadeiro perdão. Os sujeitos que participaram de tal pesquisa mostraram que não se trata de gênero, idade, tipo ou tempo de relacionamento, o que importa são os sentimentos construídos acerca do mesmo.

A traição do modo como é hoje, tornou-se consequência do modelo civilizatório, já que são as diferenças culturais que selam o pacto de fidelidade. Um movimento de forças contrárias entre lei e desejo, que sempre existiu e sempre existirá. A natureza humana, apesar de racional, também é regida por instintos que acabam por denunciar os mais fortes desejos, como bem colocou Freud. A questão da traição é norteada dessa forma por questões de leis morais.

O perdão abarca a capacidade relativizadora, demonstrando que conseguimos estabelecer novos pactos com a mesma pessoa, aceitando-a e ampliando o respeito da vida a dois em suas diversas manifestações.

Contudo, é tácito que os relacionamentos necessitam de uma construção diária, onde a comunicação e o diálogo são instrumentos para um espaço salutar entre casais, para que não haja lugar para novas atrações e sentimentos de posse, que acabam por fundamentar os medos e as preocupações que uma traição pode provocar. Sendo assim, a conquista deve ser diária para que o cotidiano não se torne uma rotina.

Referências:

APPOLINÁRIO, Fábio. Metodologia da Ciência: Filosofia e Prática da Pesquisa. Pioneira Thomson Learning. São Paulo: 2006.

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