A Ocorrência de Sintomas e Transtornos Psicóticos Devido ao Consumo de Maconha

A Ocorrência de Sintomas e Transtornos Psicóticos Devido ao Consumo de Maconha
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Resumo: Este artigo objetiva descrever as consequências do uso de maconha no organismo e esclarecer se seu consumo propicia o surgimento de sintomas e transtornos psicóticos. Para tanto, foi realizado como procedimento metodológico uma revisão bibliográfica dos estudos já existentes sobre o tema, com consultas a revistas especializadas, livros e sites da internet. Concluiu-se que o consumo contínuo de maconha aumenta o risco de desenvolvimento de sintomas e transtornos psicóticos.

Palavras-chave: Maconha, Sintomas psicóticos, Transtornos psicóticos;

1. Introdução

O presente artigo aborda, através de revisão bibliográfica, os efeitos que o consumo de maconha causa no organismo dos usuários e se essa droga aumenta as chances dos indivíduos virem a apresentar sintomas e doenças psicóticas.

O interesse pelo tema surgiu a partir do conhecimento dos vários efeitos maléficos que essa droga causa em quem a consome e da constatação da existência de muitos pacientes em hospitais psiquiátricos que estão lá porque desenvolveram transtornos psicóticos, como a esquizofrenia, resultante de um longo consumo da maconha.

As estatísticas do mundo inteiro mostram que ela é a droga mais consumida por jovens e adultos, que a utilizam por vários motivos, sendo um deles os efeitos prazerosos que ela causa inicialmente, mas depois da euforia, as consequências são as mais adversas possíveis.

Diante disso, é importante um estudo sobre os males que a maconha causa, para que haja uma conscientização daqueles que a consomem e de certa forma, a educação de jovens, para que conhecendo o que essa droga causa, não venham a consumi-la.

2. Maconha e Histórico

A maconha é atualmente uma das drogas ilícitas mais consumidas entre os jovens e merece toda a atenção de pais e educadores. Segundo relatório da ONU de 2010 entre 2,9% e 4,3% da população mundial entre 15 e 64 anos utilizam a substância.

Trata-se de uma erva cujo nome científico é "Cannabis sativa" e que apresenta mais de sessenta substâncias psicoativas chamadas canabinóides, sendo o Delta-9-tetrahidrocanabinol a substância com maior efeito psicoativo no organismo (KAPLAN e SADOCK, 2009).

A maconha (palavra de origem angolana) é uma das drogas extraídas de plantas mais antiga que existe, os registros mais remotos datam de 2723 a.C., quando foi mencionada na Farmacopeia chinesa. Outras informações históricas evidenciam a existência da maconha em uma cerâmica com marcas da fibra do vegetal encontrada há mais ou menos 4.000 a.C. no norte da China Central. Difundiu-se gradualmente para a Índia, Oriente médio, chegando à Europa somente nos fins do século XVIII e início do XIX, passando pelo norte da África e atingindo as Américas. Até então, era utilizada principalmente por suas propriedades têxteis e medicinais (ÁREASEG, 2009).

Até o século XX, a maconha era mais famosa nas Américas como fibra têxtil e como planta medicinal. De meados do século XIX até os anos 40, a maconha constava na farmacopeia oficial de vários países. Remédios à base de maconha eram disponíveis em qualquer farmácia.

Em meados do século XX, porém, os cientistas identificaram os efeitos colaterais da maconha e seu uso acabou restringido ou excluído nas farmacopeias, sendo proibido por lei em vários países. O consumo da maconha, entretanto, passou a ser disseminado no mundo nos anos 60. A difusão do Rock e de Woodstock, bem como o avanço hippie, em muito colaborou para que a maconha se espalhasse pelos Estados Unidos e desde esse país fosse disseminada para o mundo todo.

3. Efeitos da Maconha no Organismo

Ao chegar à corrente sanguínea, a maconha passa por todos os tecidos do organismo. As sensações experimentadas variam com o teor de Delta 9THC das preparações (que varia de acordo com a parte da planta utilizada e o modo como são preparadas), via de introdução e absorção do Delta 9THC. Os efeitos variam muito de indivíduo para indivíduo e dependem da personalidade e mesmo do grau de experiência do indivíduo no uso da droga (ÁREASEG, 2009).

As principais consequências da utilização da maconha na saúde dos jovens estão relacionadas a prejuízos na memória, na atenção, na percepção, a ocorrência da síndrome amotivacional, prejuízos na imunidade, doenças respiratórias, câncer de pulmão e dilatação dos vasos sanguíneos da conjuntiva (KAPLAN e SADOCK, 2009).

Estudos em animais mostram que a utilização da maconha pode prejudicar consideravelmente a memória, pois receptores canabinóides ativados no cérebro do usuário agem no hipocampo cerebral, área relacionada com a memória.

A síndrome motivacional frequentemente associada ao consumo pesado de maconha durante longo prazo consiste na perda de energia, cansaço, apatia, falta de motivação, desinteresse, inabilidade de realizar planos para o futuro, falta de ambição, prejuízo na memória, diminuição na assertividade, queda do rendimento escolar e no trabalho (KAPLAN e SADOCK, 2009).

Em curto prazo, os efeitos comportamentais típicos da maconha são: euforia, desorientação espacial e temporal, diminuição da coordenação motora, confusão de idéias, entre outros (ÁREASEG, 2009).

Doses mais altas da droga podem levar a: alucinações, ilusões, paranóias, pensamentos confusos e desorganizados, despersonalização, ansiedade e angústia que podem levar ao pânico, medo da morte e disfunção sexual.

4. Transtornos Psicóticos e Substâncias

O termo psicótico tem recebido, historicamente, diversas definições diferentes, nenhuma conquistando aceitação universal. A definição mais estreita de psicótico está restrita a delírios ou alucinações proeminentes, com as alucinações ocorrendo na ausência de insight para sua natureza patológica.

Uma definição levemente menos restritiva inclui também alucinações proeminentes que o indivíduo percebe como sendo experiências alucinatórias. Ainda mais ampla é a definição que também inclui outros sintomas positivos da Esquizofrenia (isto é, discurso desorganizado, comportamento amplamente desorganizado ou catatônico). Diferentemente dessas definições baseadas em sintomas, a definição usada em classificações anteriores (por ex., DSM-II e CID-9) provavelmente era demasiado abrangente e focalizada na gravidade do prejuízo funcional, de modo que um transtorno mental era chamado de "psicótico" se resultava em "prejuízo que interfere amplamente na capacidade de atender às exigências da vida" (Psiquiatria Geral, 2010).

Finalmente, o termo foi conceitualmente definido como uma perda dos limites do ego ou um amplo prejuízo no teste de realidade. Na Esquizofrenia, no Transtorno Esquizofreniforme e no Transtorno Psicótico Breve, o termo psicótico refere-se a delírios, quaisquer alucinações proeminentes, discurso desorganizado ou comportamento desorganizado ou catatônico. No Transtorno Psicótico Devido a uma Condição Médica Geral e no Transtorno Psicótico Induzido por Substância, psicótico refere-se a delírios ou apenas àquelas alucinações que não são acompanhadas de insight (Psiquiatria Geral, 2010).

As características essenciais do Transtorno Psicótico Induzido por Substância são alucinações ou delírios proeminentes considerados decorrentes dos efeitos fisiológicos de uma substância.

O diagnóstico não é feito se os sintomas psicóticos ocorrem apenas durante o curso de um delirium. Este diagnóstico deve ser feito ao invés de um diagnóstico de Intoxicação com Substância ou Abstinência de Substância, apenas quando os sintomas psicóticos excedem aqueles habitualmente associados com a síndrome de intoxicação ou abstinência e quando os sintomas são suficientemente severos para indicar uma atenção clínica independente (DSM-IV, 2009).      

Um Transtorno Psicótico Induzido por Substância é diferenciado de um Transtorno Psicótico primário com base no início, curso e outros fatores. No caso de drogas de abuso, deve haver evidências de intoxicação ou abstinência, a partir da história, exame físico e achados laboratoriais.

Os Transtornos Psicóticos Induzidos por Substância surgem apenas em associação com estados de intoxicação ou abstinência, enquanto os Transtornos Psicóticos primários podem preceder o uso da substância ou ocorrer durante períodos de abstinência prolongada.

Uma vez iniciados, os sintomas psicóticos podem perdurar enquanto continuar o uso da substância. Uma vez que o estado de abstinência para algumas substâncias pode ser relativamente protelado, o início dos sintomas psicóticos pode ocorrer até 4 semanas após a cessação do uso da substância (Psiqweb, 2009).

Uma consideração adicional é a presença de aspectos atípicos de um transtorno psicótico primário (por ex., idade de início e curso atípicos). Por exemplo, o aparecimento de delírios pela primeira vez em uma pessoa com mais de 35 anos, sem uma história conhecida de Transtorno Psicótico Primário, deve alertar o médico quanto à possibilidade de um Transtorno Psicótico Induzido por Substância (Psiqweb, 2009).

 Mesmo uma história prévia de Transtorno Psicótico primário não descarta a possibilidade de um Transtorno Psicótico Induzido por Substância. Foi sugerido que 9 em 10 alucinações não-auditivas são produtos de um Transtorno Psicótico Induzido por Substância ou de um Transtorno Psicótico devido a uma Condição Médica Geral.

Em comparação, os fatores que sugerem que os sintomas psicóticos são melhor explicados por um Transtorno Psicótico primário incluem persistência dos sintomas psicóticos por um período substancial de tempo (isto é, cerca de 1 mês) após o final da Intoxicação com Substância ou Abstinência aguda de Substância; o desenvolvimento de sintomas substancialmente excessivos aos que seriam esperados, tendo em vista o tipo ou quantidade da substância usada ou a duração do uso; ou uma história de transtornos psicóticos primários recorrentes.

Outras causas de sintomas psicóticos devem ser consideradas, mesmo em uma pessoa com Intoxicação ou Abstinência, porque os problemas pelo uso de substâncias não são incomuns entre as pessoas com Transtornos Psicóticos (presumivelmente) não induzidos por substância.

5. Transtornos e Sintomas Psicóticos Relacionados ao Consumo de Maconha

Segundo estudo publicado no British Medical Journal, de Londres (2010), adolescentes e jovens adultos que consomem maconha são mais propensos a sofrer de transtornos psicóticos na idade adulta O levantamento foi realizado por uma equipe de cientistas da Maastricht University, da Holanda.

Cientistas alemães e holandeses, assim como especialistas do Instituto de Psiquiatria de Londres, analisaram o comportamento de 1.900 pessoas, com idades entre 14 e 24 anos, durante oito anos. Os voluntários foram divididos em dois grupos: os usuários da substância e os não usuários.

De acordo com os cientistas, o consumo de maconha é um fator de risco para o desenvolvimento de sintomas psicóticos. Entre os sintomas elencados no estudo, a alucinação se mostrou a mais frequente. E, segundo os dados levantados, quanto mais intenso o uso da droga, mais severos os sintomas apresentados.

Este estudo acrescenta informação adicional às evidências estabelecidas de que o consumo contínuo de maconha aumenta consideravelmente o risco de sintomas e doenças psicóticas (MURRAY, 2010).

O cientista McGrath (2010), do Instituto Neurológico de Queensland, na Austrália, estudou mais de 3.801 homens e mulheres nascidos entre 1981 e 1984 e os acompanhou após 21 anos para perguntar-lhes sobre seu uso de maconha, avaliando os pacientes para episódios psicóticos. Cerca de 18 por cento relataram uso de maconha durante três anos ou menos, 16 por cento de quatro a cinco anos e 14 por cento durante seis ou mais anos.

Comparados aos que nunca haviam usado cannabis, jovens adultos que tinham seis ou mais anos desde o primeiro uso de maconha tinham duas vezes mais chances de desenvolverem psicose não-afetiva (como esquizofrenia) (MCGRATH, 2010).             

Tinham também quatro vezes maior probabilidade de obterem resultados altos nos testes de delírio, e um chamado relacionamento “resposta-dosagem” mostrava que quanto maior o tempo desde o primeiro uso de cannabis, mais alto o risco de sintomas relacionados à psicose (MCGRATH, 2010).

Verdoux et al estudaram populações de estudantes e constataram que a maconha é um fator de risco para experiências psicóticas na vida diária. Uma meta-análise realizada recentemente mostrou que a maconha duplica o risco de psicose e contribui para 8 a 13% dos casos de psicose na população (JUNGERMAN; BRESSAN, 2005).

Mary Cannon et al analisaram dados de um estudo de coorte populacional realizado na Nova Zelândia e mostraram que a maconha estava associada à emergência de psicose em uma minoria de usuários portadores de uma variação alélica do gene da enzima COMT (catechol-O-methyltransferase). Estes achados evidenciam a interação entre predisposição genética e a exposição ambiental à maconha no desenvolvimento dos quadros psiquiátricos, já que os indivíduos portadores de genes relacionados com a esquizofrenia têm uma chance muito maior de desenvolver a doença quando usam maconha do que os que não têm o gene (JUNGERMAN; BRESSAN, 2005).

6. Considerações Finais

Pretendeu-se neste trabalho proporcionar, de forma objetiva e estruturante, uma exposição dos principais danos causados pela maconha, bem como o risco de ocorrência de sintomas e doenças psicóticas. Para satisfazer este objetivo, optou-se por uma descrição sequencial dos aspectos relacionados ao uso dessa droga. A partir dos estudos expostos, pode-se concluir que o uso de maconha, sobretudo o pesado, causa muitos e graves prejuízos a seus usuários e aumenta a probabilidade dos indivíduos virem a apresentar delírios, alucinações e transtornos psicóticos, como a esquizofrenia.

Sobre o Autor:

Lanna Valéria Silva Almeida - Psicóloga das áreas de saúde e social, trabalha em um Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) de Teresina-Piauí.

Referências:

CLASSIFICAÇÃO DE TRANSTORNOS MENTAIS E DE COMPORTAMENTO DA CID-10. Porto Alegre: Artmed, 1993.

DROGAS psicoativas. Brasileiros Humanitários em Ação, Rio de Janeiro, mar. 2010. Disponível em: <http://www.braha.org/pt/drogas-psicoativaas/1893>. Acesso em: 30 jun 2011.

JUNGERMAN, Flávia S et al. Maconha: qual a amplitude geral de seus prejuízos. Revista brasileira de psiquiatria, São Paulo, v.27, n.1, p 38-40, mar. 2005.

KAPLAN & SADOCK. Compêndio de Psiquiatria. 9. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.

MACONHA aumenta risco de distúrbios psicoativos. VEJA, São Paulo, 2011. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/noticia/saude/maconha-aumenta-risco-de-disturbios-psicoticos>.

SUBSTÂNCIAS que causam e podem causar malefícios à saúde. Equipe Harmônica, Rio de Janeiro, set. 2007. Disponível em: <http: www.equipeharmônica.com.br>. Acesso em: 30 jun 2011.

TÓXICOS. Site de segurança do trabalho, São Paulo, mar. 2009. Disponível em: <http://www.areaseg.com/toxicos/maconha.html>. Acesso em: 29 jun 2011.

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