Além do Que se Vê: a atuação dos profissionais do Instituto Médico-Legal (IML) em um ambiente onde a vida começa, transcorre e termina

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Resumo: A morte e a violência faz com que as pessoas fiquem mais sensíveis à vida.  Sendo assim, esse artigo tem o objetivo de compreender como esses profissionais se posicionam frente ao exercício que realizam em prol da justiça; verificar a saúde mental e as condições gerais de trabalho, bem como conhecer as estratégias de resiliência utilizadas pelos colaboradores, para lidar com situações de violências e mortes sem carregar fatos que causem algum dano psíquico. A pesquisa foi realizada por meio de roteiro semi-estruturado com cinco profissionais, dois médicos legistas e três auxiliares que atuam nos Institutos Médico-Legais (IMLs), das cidades do extremo oeste catarinense e da região central do Rio Grande do Sul. O método utilizado para explanar os dados foi o qualitativo, que busca compreender os significados e características situacionais. A partir da análise dos relatos pode-se perceber que o cuidado, a coerência e o profissionalismo são os pontos fundamentais, que permeiam suas atuações na instituição. As situações presenciadas e o enfrentamento exigem trabalhadores resilientes que adquiram estratégias de minimização dos fatos para que suas atividades profissionais não tragam agravos futuros. Por meio dessa pesquisa, compreendeu-se que é fundamental que esses colaboradores vivam em equilíbrio para que possam desenvolver seu trabalho eticamente a fim de garantir a integridade e segurança dos indivíduos. Assim, constata-se a importância da atuação do profissional da psicologia para facilitar o processo de compreensão desses profissionais acerca da importância de suas atuações diante da busca pela justiça mútua.

Palavras-chave: Instituto Médico-Legal, Profissionais, Justiça, Sentimentos, Resiliência.

1. Introdução

Visto pela sociedade como sinônimo de repulsa e evitação, o Instituto Médico-Legal (IML) ou Posto Médico-Legal (PML) é uma instituição que tem a função de manter a ordem pública garantindo o bem-estar da sociedade de maneira geral. A busca pela justiça, o trabalho coerente, ético e a conduta prezando pelo ser humano na sua singularidade, são características que permeiam o cotidiano dessa instituição e de todos os profissionais que atuam frente a ela.

Por tratar da violência em seus múltiplos âmbitos e adjuntamente ao trabalhar com a morte é que a maioria das pessoas evita falar sobre esse assunto a fim de não se aproximar de algo que causa medo, tristeza, ou angústia, característica visível na vivência de todo o ser humano. A morte representa uma das maiores dores sentida pelo ser humano, a dor da perda, que apesar de todos os esforços, não pode ser negada, ignorada. Visto como tabu cultural e histórico, a finitude humana ainda é um assunto que precisa ser desmistificado e trabalhado a fim de que ela possa ser compreendida como um ciclo natural da vida humana nos reconhecendo como seres finitos.

O Instituto Médico-Legal (IML) é responsável pela avaliação de casos de pessoas que foram violentadas ou decorrentes de morte e tem como objetivo assegurar o cuidado singular encontrando as causas de tais violências a fim de buscar pela justiça e assegurar a integridade do ser humano.

O trabalho foi desenvolvido com o intuito de buscar, analisar e transmitir em que é pautado o exercício desenvolvido nos IMLs; qual é a importância que este tem diante da comunidade; como os colaboradores avaliam suas atividades e quais as condições de trabalho e de saúde desses profissionais.

Contudo, o exercício realizado pelos colaboradores que atuam frente ao Instituto Médico-Legal (IML) ainda é pouco conhecido e valorizado pela sociedade, o que, por vezes, os coloca como meros atores em um cenário do qual na realidade são protagonistas. A sublime atividade desenvolvida por eles frente à comunidade é pautada na busca pela segurança, justiça e cuidado pleno para todas as pessoas que a procuram. Bem como suas condutas de zelarem pelos corpos, garantindo que as histórias e identidades sejam mantidas sob sigilo e cuidado a fim de garantir a integridade de cada ser humano.

2. Fundamentação Teórica

2.1 Concepções Gerais Acerca da Compreensão do Trabalho Realizado no Instituto Médico-Legal (IML)

O Instituto Médico-Legal (IML) é o órgão da Polícia Civil responsável pela realização de perícias médicas e pela emissão de laudos para subsidiar as investigações e o julgamento de processos criminais sobre agressões físicas, acidentes, estupro, atentado violento ao pudor, tentativas de homicídio, homicídios consumados e suicídios. A instituição que tem como missão manter a ordem pública, a moralidade, a saúde pública e assegurar o bem-estar coletivo é vista, por boa parte da sociedade, como sinônimo de amoralidade, ameaça à saúde, à vida, ao bem-estar coletivo (ALDÉ, 2003).

O estigma carregado pelo IML aos olhos da sociedade é diferente do estigma da Polícia, até porque as pessoas sequer associam uma instituição à outra. Não se sabe que o IML está subordinado à Polícia Civil porque não se deseja saber nada sobre o IML. Ninguém quer conhecer, de preferência nem passar perto do IML. A identidade institucional é “amaldiçoada” pela natureza do trabalho, pela intimidade que este tem com a morte, tabu cultural e histórico difícil de romper (RODRIGUES, 1983).

De acordo com Costa (1999) apesar de a morte ser reconhecida como natural universal e inevitável, o homem é incapaz de imaginar a sua própria morte e, por esta razão, na sociedade a maioria das pessoas tende a evitá-la. A sociedade marcada por um ritmo alucinante, parece ter deixado de lado o fato de todos nós sermos finitos. Assim, o homem, tende a não pensar sobre sua finitude e a das pessoas que o rodeiam. Nota-se um despreparo no que diz respeito ao enfrentamento dessa situação (FIDELIS 2001).

Os IMLs não trabalham somente com situações já decorrentes de mortes, mas com um número cada vez maior de lesões e outras agressões que não chegam a provocar a letalidade. De acordo com Francalacci (2011), noventa e cinco por cento das perícias são realizadas em pessoas vivas que se dirigem aos órgãos do IML.

O serviço realizado pelo Instituto Médico-Legal (IML) é o de pronto atendimento, ou seja, tem que estar à disposição da população 24 horas por dia. O problema com a falta de profissionais também se faz presente nessa área. Há necessidade de incremento efetivo de Peritos Médicos Legistas para adequar a demanda de serviço e agilizar o atendimento (FRANCALACCI, 2011, p.15).

De acordo com Croce e Croce Júnior (2007), todo procedimento médico promovido por autoridade policial ou judiciária, realizados por profissionais da medicina visando prestar esclarecimento à justiça, denomina-se perícia ou diligência médico-legal. A medicina legal é uma disciplina que utiliza vários ramos da medicina para ajudar a resolver situações jurídicas e que estão a serviço da justiça.

Gomes (2004) salienta que a Medicina Legal, ou os médicos legistas tem muita importância, pois auxilia tanto na elaboração de novas leis, quanto na execução de antigas e na interpretação de dispositivos legais. Todos quando relacionados com o seu campo de estudo, têm como método esmiuçar um ferimento, analisá-lo, descrevê-lo, afim de que a justiça aplique a pena determinada pela lei ao causador do ferimento. Enfatiza que a necropsia médico legal deve ser realizada por dois peritos médicos e sua realização deve sempre ser diurna, exceto em casos excepcionais, e a utilização de todos os equipamentos e material cirúrgico faz-se necessário para o bom desempenho do procedimento.

De acordo com o Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba-Paraná, as áreas técnicas do IML estão divididas em Clínica Médico-Legal que oferece serviços de realização de exames de conjunção carnal, ato libidinoso, lesão corporal, verificação de aborto, verificação de idade, sanidade física, sanidade mental, identificação de sexo somático, psiquiátrico; emitindo seus laudos. Laboratórios, que executam serviços de realização de exames anatomopatológicos, toxicológicos e de química legal emitindo seus laudos. Existem outros trabalhos realizados no IML necessários como complementação aos demais serviços mencionados, como: identificação do cadáver, radiologia para localização de projéteis/objetos, antropologia (exame em ossadas), coleta de material para dosagem alcoólica, controle dos materiais analisados, etc.

Ainda afirmam que o médico legista é responsável por fazer o exame de corpo de delito em vítimas vivas ou mortas, relacionando-se com os mais diversos campos do direito, e elaborando laudos que permitam a análise de fatos ocorridos durante o crime, de armas utilizadas, da causa da morte. Esses laudos auxiliam na investigação de cada caso, e é imprescindível na resolução de casos judiciais, consubstanciando os inquéritos e ações penais.

De acordo com Alfradique (2007) de todas as perícias, o mais importante é o corpo de delito, que é o conjunto de elementos sensíveis do fato criminoso, ou seja, o conjunto de vestígios materiais deixados pelo crime. Nas infrações criminais que deixam vestígios, é necessário o exame de corpo de delito, isto é, a comprovação dos vestígios materiais por ela deixados torna-se indispensável, sob pena de não se receberem a queixa ou a denúncia.

De acordo com Barros e Silva (2004), a atividade do auxiliar médico legal consiste em descrever o cadáver com precisão de detalhes: vestes, cabelos, olhos, dentes, cor, sinais particulares como cicatrizes ou tatuagens e lesões externas; também, realizar as incisões necessárias ao exame de necropsia. É importante ressaltar que, embora o trabalho prescrito seja o de auxiliar o médico nessas atividades, efetivamente, é o próprio auxiliar quem realiza as dissecações. O médico-legista acompanha todo o processo e orienta a realização do trabalho, de acordo com o que necessita ser investigado.

Para os auxiliares, pode-se constatar que há um descaso do Estado em relação ao IML. Não há investimento condizente com as reais necessidades, comprometendo cada vez mais a atividade dos profissionais envolvidos. Essas dificuldades sentidas pelos trabalhadores aceleram o seu desgaste físico e mental, nesse cotidiano do IML, transformando o trabalho em fonte de fadiga e angústia (FRANCALACCI, 2011).

2.2 A Humanização do Ambiente de Atendimento

Aldé (2003) salienta que o ambiente do Instituto Médico-Legal (IML) causa medo, nojo, incômodo. É interessante observar a reação das pessoas quando retratam como alguém pode se interessar em estudar este ambiente que é desagradável, execrado, e excluído da sociedade.

Para Francalacci (2011), melhorar a imagem do IML é um desafio. A sociedade precisa ser mais bem atendida e tomar conhecimento de que o IML não é sinônimo de “morte”, mas sim de justiça. Temos que lutar para que o cidadão não tenha medo de procurá-lo quando necessário e lhe instruir sobre a real função do IML, mostrando a eles em que situações devem recorrer à instituição e a importância deste ato.

A autora destaca que as vítimas de violência precisam de um atendimento diferenciado, ágil e de qualidade, que possa ao menos aliviar a dor das pessoas atendidas e dar suporte aos familiares que perderam seus entes queridos. Por este motivo, precisam-se humanizar os ambientes de atendimento, tornando-os mais confortáveis e reservados. Afinal, são situações de extrema delicadeza que ali são tratadas.

De acordo com Barros e Silva (2004) o trabalho realizado pelos profissionais que atuam junto ao Instituto Médico-Legal (IML) ainda é pouco compreendido pela sociedade. As atividades por eles desempenhadas têm uma grande dimensão, surtindo situações de trabalho saturadas de sofrimento mental. Conforme relatos de profissionais, as primeiras experiências nesse local de trabalho foram de sentimento de certo mal-estar, deixados pelo cheiro e pela visão de corpos a ser necropsiados. Segundo a Lei Orgânica da Polícia Civil – Lei n. 5.406/69 – o auxiliar de necropsia.

É o servidor policial que, no serviço médico-legal, tem seu cargo de trabalho que consiste em auxiliar em exumações, operação e dissecação, recomposição, suturas e pesagens de cadáveres, sob orientação imediata do médico, e em cuidar de limpeza e desinfecção dos locais e dos instrumentos de trabalho (BARROS; SILVA, 2004, p. 321).

O odor característico de corpos em decomposição aliado aos riscos potenciais de contaminação e prática de medicina forense, que envolve evidências de crime em muitos casos, limitam consideravelmente o trânsito de pessoas nesse local. Vale ressaltar que, o odor também é responsável muitas vezes pela manutenção das portas abertas durante o procedimento de necropsia o que contribui para a inadequação da temperatura ambiente e dificuldade da sala em relação à refrigeração ideal. Nesse ambiente é fundamental o emprego dos equipamentos de proteção individual, que reduzem os riscos de contaminação (FRANKLIN, 2011).

Francalacci (2011) pontua que as atividades desenvolvidas no âmbito dos IMLs buscam compreender o efeito patogênico do trabalho executado nesses ambientes, trazendo a melhoria das condições por meio do efetivo pessoal necessário, bem como dos equipamentos e instalações físicas adequadas. São, em grande parte, atividades cuja natureza implica contato com conteúdos repugnantes, dejetos e/ou cadáveres que impregnam o sujeito e a sua atividade com significados estigmatizantes, podendo levar o trabalhador a incorporar-se e a identificar-se com esses conteúdos.

Do ponto de vista psicossocial, uma série de tarefas e ocupações pode apresentar significados que levem a uma discriminação e desvalorização de seus executantes, em decorrência, por exemplo, da natureza e do conteúdo de atividades em que há contato com dejetos (trabalho em esgotos e depósitos de lixo) ou cadáveres, (coveiros). A desvalorização frequentemente é introjetada. Isto é, o trabalhador tende a se autodesvalorizar e, muitas vezes, a se identificar com os conteúdos “sujos” e “mortos” do seu trabalho. As resultantes, em termos psicossociais, podem ser várias, destacando-se o alcoolismo, frequente nestas ocupações socialmente discriminadas (SELIGMANN-SILVA, 1994).

Para os profissionais, após algum tempo, o cheiro torna-se passível de adaptação. No entanto, segundo eles, a sensação de repulsa persiste mesmo depois da higienização do necrotério. Há um “ranço” que permanece no ar: o cheiro torna-se não só um tipo de “delimitação” do necrotério, mas também do espaço onde suscita tristes sentimentos: a perda de entes queridos e a violência, em todas as suas formas. A verdade é que os corpos chegam e saem e os trabalhadores ficam nesses ambientes, em contatos decorrentes, uma vida inteira (FRANCALACCI, 2011).

2.3 O Posicionamento e Conduta dos Profissionais do Instituto Médico-Legal (IML) Frente à Responsabilidade de um Trabalho Ético

Os profissionais que trabalham nas áreas em que a morte ocorre frequentemente devem compartilhar sentimentos e reações com os outros. A vivência desses colaboradores que trabalham no Instituto Médico-Legal (IML), por vezes desperta sentimentos de angústia, aflição, desconforto emocional e dores que precisam ser analisadas e cuidadas (MUCCILLO, 2006).

Quando se fala sobre a forma como as pessoas respondem ao estresse, utilizamos a palavra enfrentamento, que se refere às formas cognitivas, comportamentais e emocionais como as pessoas administram situações estressantes. Ele envolve qualquer tentativa de preservar a saúde mental e física mesmo que tenha valor limitado (STRAUB, 2005, p. 276).

O enfrentamento é um processo dinâmico e não uma reação única, ou seja, é uma série de respostas que envolvem a interação do indivíduo com seu ambiente. As estratégias de enfrentamento, ou seja, a maneira como as pessoas lidam com situações estressantes visam moderar ou minimizar os efeitos de estressores sobre o bem-estar físico e emocional (STRAUB, 2005).

Francalacci (2011) destaca que aspecto digno de nota é o elevado desgaste psicológico dos profissionais que atuam no IML, tendo em vista o contato direto com cenas de crimes graves que exigem do profissional um grande preparo emocional. Também é produzido sobre o trabalhador um alto grau de pressão institucional, onde os prazos processuais são curtos, e devido à escassez de recursos e profissionais, esses prazos, por vezes, não são cumpridos, surgindo então à pressão do judiciário, ameaçando o perito com a instauração de procedimentos para apurar crime de desobediência.

Por vezes, a rotina desses profissionais se dá de forma árdua, onde a carga horária de trabalho excede o que está estabelecido, fazendo com que os colaboradores desempenhem suas funções acompanhadas de esgotamento e cansaço. Partindo de tal pressuposto, é importante que eles desenvolvam a autoeficácia, que segundo Bandura (1977), são as crenças individuais na capacidade de organizar e executar os cursos de ação necessários para lidar com situações potencialmente estressantes mantendo o equilíbrio mental.

O equilíbrio mental de modo geral é a coordenação ou unificação das partes de uma totalidade dos processos mentais. É o processo de desenvolvimento em que pulsões, experiências, habilidades valores e características de personalidade separadas são gradualmente reunidas em um todo organizado  (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSICOLOGIA, 2010, p.349).

De acordo com Straub (2005), as pessoas que possuem forte sensação de controle pessoal têm mais probabilidade de utilizar formas adaptativas e focalizadas nos problemas para lidar com eles. Aumentos na percepção de estresse estão, em geral, acompanhados por aumento no enfrentamento focalizado na emoção, mas em um grau menor do que em pessoas que percebiam ter bastante controle pessoal sobre suas vidas.

Maranhão (2008) enfatiza que, os laços afetivos tão fundamentais e inerentes ao ser humano, diante dos processos de nascer e de morrer, não são experenciados na sua plenitude nas instituições. Não se cria vínculos entre médicos e pacientes pelo fato de a equipe técnica temer à sua própria morte. Mantêm-se um distanciamento em relação aos seus pacientes, sendo vista como uma autodefesa que objetiva evitar o seu envolvimento afetivo.

3. Método

Essa pesquisa, de caráter qualitativo, se deu a partir da coleta de dados, estes obtidos por meio de roteiros semi-estruturados com cinco participantes, dois médicos legistas e três auxiliares, que atuam nos Institutos Médico-Legais (IMLs), de uma cidade do oeste catarinense e outra da região central do Rio Grande do Sul. Buscou-se entrevistar profissionais que trabalham nessas cidades, pois tais municípios são referências em atendimentos em suas regiões.

As entrevistas foram gravadas, mediante a assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, garantindo a fidedignidade dos dados e o sigilo. Posteriormente, os mesmos foram estudados na íntegra, através do método da análise de conteúdo de Bardin (2009), que se caracteriza como um conjunto de técnicas de análise das comunicações e que utiliza procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens.

Através de instrumentos qualitativos (entrevistas e observação dos participantes) de coleta de dados, o estudo apresentou relatos e percepções dos profissionais a respeito dos aspectos envolvidos ao processo de trabalho e à saúde: a percepção dos profissionais diante da importância do trabalho que realizam; as condições emocionais e de trabalho que estão expostos; as estratégias que utilizam para lidar com todo o processo de trabalho desenvolvido cotidianamente e a percepção da sociedade em geral diante da imagem do IML.

Segundo Bógus e Martins (2004), os pesquisadores qualitativistas ocupam-se com os processos. Querem saber como os fenômenos ocorrem naturalmente e como são as relações estabelecidas entre esses fenômenos. Para Richardson (1999), “a pesquisa qualitativa pode ser caracterizada como a tentativa de uma compreensão detalhada dos significados e características situacionais apresentadas pelos entrevistados”.

4. Apresentação e Discussão dos Resultados

Ao acompanhar o dia-a-dia dos profissionais no Instituto Médico-Legal (IML) nota-se que suas condutas diante dos corpos, tanto de cadáveres quanto de pessoas que foram violentadas, são dignas de muito respeito e admiração. A sabedoria, o cuidado, a responsabilidade e o profissionalismo que permeiam suas atuações fazem com que se torne visível tamanha importância que esses colaboradores têm diante da sociedade, pelo fato de trabalharem eticamente, buscando sempre pela justiça. Para poder mensurar a grandiosidade do exercício dessas profissões, usou-se o nome de pedras preciosas para nomear cada um dos cinco participantes. Sentimentos de comprometimento, coerência, zelo, acompanham os profissionais: Esmeralda, Alexandrita, Ametista, Safira e Rubi.

4.1 Profissionais Frente o Compromisso de um Trabalho Autêntico

Ao perceber o trabalho realizado pelos profissionais que atuam junto ao IML, como sendo de imensa responsabilidade, coerência, ética e amor pela profissão, observou-se como os colaboradores se posicionam frente ao seu exercício:

“Eu encaro com muita responsabilidade. Eu dou muito valor pra isso. Eu fiquei cinco anos na pediatria. E eu simplesmente não quis mais. E aí eu só me dedico a isso. Quando os próprios chefes falam em dedicação exclusiva, eu acho que eu sou a única no estado. Então por aí você pode avaliar como eu encaro. Entendeu?” (Esmeralda)
“Com muito orgulho e satisfação, sabendo que serei a última chance de uma pessoa se defender após a sua morte.”(Alexandrita)
“Pra nós é a busca do motivo da violência, uma prova para pegar o cara que fez o crime. Tudo o que a gente lida é um crime. Alguém que brigou na rua, alguém que foi assaltado, que foi estuprada, que sofreu acidente de carro, alguém que se enforcou. Nós temos que mostrar o sinal, achar a prova.” (Rubi)

Os colaboradores expressam sentimentos de responsabilidade e satisfação por poder trabalhar, diante de casos onde suas atuações, por vezes, são a última chance que a pessoa vai ter para se defender. Os profissionais buscam investigar as causas e fazer justiça, diante da violência que foi praticada perante o corpo para que sua integridade seja preservada. Foi notável o cuidado que esses trabalhadores têm em não se envolver emocionalmente diante de cada caso, mantendo assim a resiliência para poder seguir nessa atividade de imenso comprometimento para com o outro.

Tavares (2001, p. 52) desenvolveu a tese de que a resiliência não deve ser apenas um atributo individual, mas pode estar presente nas instituições/organizações, gerando uma sociedade mais resiliente. Para o autor, uma organização resiliente é uma organização reflexiva, onde todas as pessoas são responsáveis, competentes, e funcionam numa relação de confiança, empatia, solidariedade. “Trata-se de organizações vivas, dialéticas e dinâmicas cujo funcionamento tende a imitar o do próprio cérebro que é altamente democrático e resiliente”.

Na busca cuidadosa de indagar acerca dos desafios percorridos diante desse trabalho, os profissionais meticulosamente retrataram:

“Aqui são condições de trabalho. Porque graças a Deus não tem faltado material. A gente já passou por gestões políticas que a gente não tinha material né. A gente tinha que dizer para o auxiliar de perícia olha, lava essa luva aí que você vai ter que usar ela para a outra necropsia, entendeu. Então era diferente. Hoje assim, a gente gostaria de estar em um lugar melhor, mas a gente está se encaminhando para ver se a gente consegue um convênio melhor.” (Esmeralda)
Na questão dos materiais, por exemplo, eu já cansei de pedir 1,2,3,4,5 vezes. Uma vez eu pedi uma serra para abrir crânio e demorou 3 anos para ela chegar(...) sem falar nas péssimas condições de trabalho que incluem a falta de materiais e o espaço físico. As necropsias são feitas em uma sala dentro do hospital nossos materiais estão vinte anos atrasados é tudo precário. Agora, por exemplo, eles estão lá remendando a geladeira. Já comprei luvas com o meu dinheiro, eu cansei de comprar coisas. Eu lembro que uma vez eu estava pedindo para enviarem agulhas de procedimento e eu pedi durante algum tempo. Como eu precisava de uma eu fiz uma agulha com cabo de guarda-chuva.” (Safira)

Compreendendo a singularidade de cada relato, nota-se que há diferença entre os apontamentos, sendo que em um dos estados, os três participantes não colocaram a falta de material como sendo um desafio, pois atualmente os mesmos contam com materiais suficientes para que possam exercer seu trabalho com excelência. Em contra partida, dois dos participantes que pertencem ao outro estado, destacaram a falta de material como sendo, se não o principal desafio, um dos mais difíceis de ser solucionado pelo fato de dependerem de superiores para que tal situação seja revertida.

Barros e Silva (2004) salientam que a falta de condições adequadas de trabalho impossibilita a valorização do colaborador e perverte o sentido da criatividade do homem, predominando nelas, a expropriação da dimensão simbólica de se trabalhar, a exploração da força de trabalho e a alienação do trabalhador. Dessa forma, a autoimagem do trabalhador é atacada e sua identidade se desgasta.

Aspecto importante é a diferença que existe entre as instituições dos dois estados. Enquanto uma delas consegue realizar seu trabalho em um ambiente que atenda a demanda e o número de colaboradores é suficiente para cumprir os prazos determinados pelos superiores, a outra instituição tem um número reduzido de funcionários, os quais têm uma carga horária de trabalho que excede as horas propostas sendo que os plantões são feitos apenas pelos dois auxiliares que atuam no IML. O espaço físico e os equipamentos, segundo eles, estão vinte anos atrasados e o local não é adequado para a realização dos procedimentos.

Por ser um trabalho de imensa prudência e ética, onde os colaboradores lidam com seres humanos que chegam à instituição em estados extremamente delicados, por ter sido violentados das mais variadas formas, é que os profissionais destacam a importância de ter um espaço físico que atenda a essas necessidades para que suas atividades possam ser realizadas da maneira mais autêntica possível.

4.2 Além do Que se Vê: Vivências que Deixaram Marcas em suas Atuações

Trabalhar com a morte e com a violência é sinônimo de um trabalho repleto de desafios diários e de vivências que demarcam a vida dos colaboradores. Experienciar momentos de intensa angústia, de tristeza, de sentimentos de perdas, de injustiças e por vezes, comoção e abalo, requer profissionais resilientes que saibam lidar com as situações sem deixar com que tais acontecimentos despertem a sensação de incapacidade ou de recuo diante dos fatos que ali são apresentados.

De acordo com Francalacci (2011) o Instituto Médico-Legal (IML) trabalha com o produto final, com o resultado final das demandas que as políticas de prevenção e mesmo de repressão, não tiveram a capacidade de impedir. O trabalho pericial pode contribuir muito para uma melhor compreensão e minimização dos fenômenos motivadores. Talvez, das muitas causas que poderiam ter sido evitadas com pequenas ações, sobretudo, educativas.

Ao examinar a postura dos participantes frente a esse trabalho que é visto pela sociedade como essencial, mas ao mesmo tempo evitado por tratar da violência em todos os seus aspectos, questiona-se, quais as vivências que marcaram suas atuações?

“Eu acredito que é a criança que mobiliza mais, sabe, as suas sensações, as suas emoções. Quando é um bebê, quanto menor, pior eu acho. Mas assim teve caso de uma mãe que sofreu acidente de trânsito e o bebê morreu junto, no útero. Isso mobiliza bastante.” (Esmeralda)
“... perda da inocência de crianças trazidas a exame pericial, que foram abusadas de todas as formas por adultos que deveriam zelar por elas são também situações de perplexidade e pesar.” (Alexandrita)
“A única coisa que influencia muito é tratar com crianças. Criança eu acho que é a mais chocante de tudo. É um ser sem noção né. A recém está sendo gerado, está se desenvolvendo. Esses são os mais chocantes.” (Ametista)
 “O que mais mexe é criança, eu perdi uma criança. (choro). Em 1986 eu perdi uma filha e eu lutei muito para salvar ela. (choro). Desculpe (pausa). Eu comecei a trabalhar no IML em 1994, mas eu ainda não consegui superar isso.” (Safira)
“De marcar psicologicamente, só de crianças quando o cara fica assim, não tem como não se envolver. Daí eu me identifico com o meu filho lá também né, eu viro as costas se não eu choro.” (Rubi)

Os cinco participantes trazem como vivências que marcaram de maneira significante, o ato de necropsiar crianças ou até mesmo de trabalhar diante de corpos que foram abusados, os quais são trazidos como seres ingenuamente atingidos por violências das quais não conseguiram se defender. Mais do que isso, que foram violentados por adultos que deveriam zelar por elas. As necropsias e atendimentos realizados em corpos de crianças são vivências que deixam marcas nas psiques desses colaboradores que se utilizam de estratégias para vivenciar esses momentos de comoção e abalo emocional.

Barros e Silva (2004) destacam que os profissionais criam suas estratégias desde a primeira necropsia realizada. Não olhar detalhadamente o cadáver é uma delas. Ao realizar a necropsia, ele evita fixar seu olhar em detalhes que julga desnecessários à realização de sua tarefa. O corpo fica reduzido a órgãos e lesões.

“Durante as necropsias eu assobio, canto não fico olhando no olho, nos órgãos genitais. A gente não olha para o lado emocional do ser vivo, porque se não, não tem como. A gente coloca a mão.”(Safira)

Compreendendo a totalidade do ser humano e dando ênfase as situações que os colocam diante de realidades que chocam e deixam cicatrizes, os profissionais trouxeram também as tragédias envolvendo um maior número de pessoas, como sinônimo de vivências que marcaram suas vidas profissionalmente.

“É um negócio que vai marcar pelo resto da vida. Marcar de que jeito? Porque foi um grande número. Porque a situação toda, toda aquele envolvimento e tudo mais, aquilo lá tudo foi uma coisa muito surrealista entendeu. Foi muito do além e inesperada né. Vinte e cinco anos de profissão e ninguém imaginou que um dia iria passar por um negócio daqueles. A tua cidadezinha que até então tinham poucas necropsias por mês, aí numa vez só aumenta mais de 500%.”(Esmeralda)
“Tragédias ocorridas no meu plantão, impressionam por várias razões, desde a massiva presença da morte até a brutal constatação do desleixo que é característica nacional em relação à segurança.” (Alexandrita)

As falas dos participantes, ao retratarem as vivências que marcaram suas profissões, foram os momentos, durante as entrevistas, que mais mexeram com os sentimentos dos colaboradores.  Por vezes, os profissionais faziam pausas durante as entrevistas, refletindo sobre os fatos que estavam sendo retratados. Era como se as cenas estivessem acontecendo novamente, ali, naquele momento. Essa reflexão surtiu falas carregadas de sentimentos de angústia e pesar, pois os profissionais sabem que está em suas mãos a missão de fazer um trabalho ético prezando pelas identidades, pelas histórias que através de corpos, agora sem vida fisiológica, estão sendo representados diante de suas mãos.

4.3 O Lidar com a Morte: Tabu Cultural e Histórico que Permeia a Sociedade

De acordo com Hohendorff e Melo (2009), a maneira como a morte é compreendida é dinâmica ao longo do desenvolvimento humano. Desde a infância, as pessoas têm contato com perdas e inúmeras são as variáveis relacionadas com o desenvolvimento humano. A cultura e as situações de perda que vivenciamos contribuem para que formemos nossa visão sobre a finitude humana.

A morte humana é um tabu social com significados e consequências. Regras sociais básicas nos ensinam a evitar pensar e falar sobre a morte, e ritualizá-la quando ela se torna concreta, incontornável (ALDÉ, 2003). Ao defrontar a morte com o ambiente de trabalho, é preciso manter uma postura rígida, compreendendo que por mais envolvente que seja os profissionais estão ali para encontrar as causas das violências ou mortes e esclarecer para a família. Partindo de tal pressuposto, direcionou-se aos profissionais a indagação diante de suas condutas frente à morte.

“Pra mim é normal. Quando eu vou recolher um corpo, por exemplo, eu peço licença e digo‘agora eu vou trabalhar com você’. Pra mim é um corpo, uma matéria. O trabalho precisa ser cuidadoso, porque do lado de fora tem uma família ansiosa, triste. Eu fico realizado quando eu consigo entregar o corpo logo. A gente precisa pensar na família.” (Safira)

Sem preparo, acompanhamento psicológico e de saúde ou condições de trabalho que atenuem a crueza de sua função, são obrigados a enfrentar a morte nua, despida de qualquer dos ritos socioculturais que protegem a todos da incompreensão e do terror encerrados nesse tabu (ALDÉ 2003). Ao exprimir tal relato, destaca-se a forma como esse profissional se coloca diante do seu trabalho. O fato de pedir licença para recolher um corpo de uma pessoa sem vida só reforça a imagem de um trabalho de extremo cuidado e respeito, de profissionais humanizados que prezam pelo corpo que está em suas mãos. A preocupação em desenvolver um trabalho ético é levada como princípio por esses colaboradores, que trabalham para que possam entregar o corpo de forma que a família perceba que este foi manuseado com cuidado, que não foi maltratado, e que foi preservado e zelado a fim de não expor a família a situações de constrangimento.

Para Kubler-Ross (2008), a morte ainda é vista como um acontecimento que provoca medo e pavor é um medo universal, mesmo que o homem saiba que se pode dominá-lo em vários níveis. Ela é um dos fenômenos que a sociedade ainda vê como um tabu. Num primeiro momento é aquele choque, porém com o passar do tempo as coisas se acalmam, vê-se que a vida muda, que as coisas podem ser feitas de outra forma, que as pessoas envolvidas passam por um processo de adaptação para aprender a viver sem aquela pessoa, mas ainda não se descobriu uma preparação efetiva para a morte, dificilmente encontram-se pessoas que afirmam ter se conformado com a morte de alguém.

Conforme pontua Silva (2013), vida e morte são laços da existência humana, onde, cada um desses momentos se faz representar pelos elos que, concomitantemente se formam a partir do nó que os interpõem. Este, além de representar a dinâmica do próprio tempo, representa também as vivências de situações de vulnerabilidade, inerentes ao processo de existir. Desse modo, ao mesmo tempo em que ele denuncia a fragilidade da existência humana, afirma a íntima relação entre a vida e a morte, de modo que ao se tentar desfazê-lo, ainda que de modo sutil, através de qualquer uma das pontas que se formou, o elo oposto será afetado.

4.4 A Família como Sinônimo de Esclarecimento e Busca por Justiça

Ao tratar com os familiares das vítimas que morreram ou que sofreram algum tipo de violência, observa-se a conduta de extremo esclarecimento à família que permeia a atuação dos profissionais. A família é quem vai buscar pela justiça e pela integridade de seu ente querido e é a partir dessa busca que os colaboradores refletem o quão importante é seu papel diante dos corpos que ali estão.

São muitas as situações vivenciadas no IML envolvendo familiares, sendo que cada uma delas é tratada na sua singularidade, com alto grau de cuidado e presteza:

“Quando chega uma pessoa que não foi identificada, eles colocam um meio, uma publicação chamando os familiares, daí a gente deixa entrar um familiar de primeiro grau. Chega ali, reconhece às vezes se abraça e chora. Às vezes agarra, não quer sair. Aí a gente é obrigado a retirar daí né.” (Ametista)

De acordo com Kubler-Ross (2008), quando perdemos alguém, ficamos com raiva, zangados, desesperados, sendo que deveriam deixar que extravasássemos estas sensações. Em geral, as pessoas preferem ficar sozinhas, logo que autorizam os profissionais para realizarem a necropsia e muitas vezes são incapazes de enfrentar a brutal realidade. Os profissionais destacam que nem sempre é fácil lidar com as reações e sentimentos que são trazidos por eles, mas é preciso sabedoria para tentar compreender a dor da perda:

“Quando o familiar quer entrar para ver o corpo, eu digo: ‘não é assim que eu acho que a senhora deve lembrar do seu familiar. A senhora espera, nós vamos fazer o nosso trabalho, depois a gente vai liberar, aí depois a senhora ou o senhor aguardem porque daí vocês vão poder ficar com os entes queridos de vocês’. Então a gente evita ao máximo,entendeu?” (Esmeralda)
Eu sou irredutível. É sim, não. Familiares eu trato friamente, não posso me envolver sentimentalmente. Se eu me envolver sentimentalmente com eles ‘eu embarco em uma canoa furada sem retorno’. Porque a gente lida com o sentimento das pessoas né.”(Ametista)
“As vezes a gente tem que ser duro. Tem vezes que a gente diz para as pessoas que querem entrar: ‘não, não pode’. Aconteceu duas vezes do cara querer entrar e eu ter que aumentar o tom de voz e dizer‘não, não pode entrar, é lei’. Tu não quer chegar a esse ponto às vezes, mas para o bem de todo mundo, tu tem que bater o pé e tal. Mas tem que ter uma jogada de cintura, usar da psicologia até, tentar entrar na cabeça deles e dizer depois ‘você vai ver ele no caixão bonitinho e tal’. ‘Ah mas eu queria ver’. Você vai querer gravar essa imagem na tua cabeça pra que? Vai pra casa, toma um chazinho, toma um banho, depois vocês vão se encontrar lá. Aí você vai ver ele bonitinho, arrumadinho que é como você vai lembrar dele’. Aí geralmente isso funciona.” (Rubi)

Diante de situações que envolvem familiares de vítimas, é visível perceber o quão é importante que esses profissionais estejam bem, físico e emocionalmente para que a partir desse bem-estar possam auxiliar os familiares da melhor maneira possível, fazendo com que estes compreendam seu trabalho e que deem suporte também nesse momento, que pode se tornar ainda mais dificultoso se as famílias não se sentirem acolhidas ou compreendidas. Em contra partida, é importante ressaltar a importância do não envolvimento diante de cada caso, para que tais vivências não tragam consequências emocionais futuras para os trabalhadores.

De acordo com Barros e Silva (2004) o controle sobre o tempo, em virtude da pressão dos chefes e familiares para a rápida liberação dos corpos, vem se somar aos fatores adversos e geradores de sobrecarga/desgaste físico e mental, nesse cotidiano do Instituto Médico-Legal (IML), transformando o trabalho em fonte de fadiga e angústia.

As sensações experimentadas, quando se entra numa sala de necropsia, são sentidas de maneira diferente, de acordo com a singularidade de cada um, mas as situações de trabalho pelas quais passam e com as quais devem lidar os profissionais não são tão variadas, já que todos têm como objeto de trabalho o corpo humano e o que decorre desse fato (BARROS E SILVA, 2004, p. 324).

Esses profissionais precisam agir de forma sábia, sem se envolver. Em alguns momentos os familiares julgam como frieza, mas se olharmos de maneira minuciosa entende-se o porquê não pode haver esse envolvimento. Conforme trazido pelos profissionais, no momento da realização de necropsias e avaliações de pessoas que foram violentadas, o trabalho precisa ser minuciosamente realizado, sem que haja nenhum tipo de envolvimento, pois tal pode trazer pontos negativos na realização do trabalho, bem como agravos futuros para a vida dos colaboradores.

4.5 Utilização de Estratégias Diante da Atuação de Profissionais Resilientes

Ao longo da investigação acerca do trabalho realizado pelos profissionais no Instituto Médico-Legal (IML), pontua-se a importância dos colaboradores estarem em equilíbrio físico e emocional para que consigam lidar com as mais variadas situações que chegam até eles. Compreendendo que esta instituição é sinônimo de morte e de violência, indagou-se quais as estratégias que os profissionais utilizam para lidar com todo o processo enfrentado por eles nesse cotidiano repleto de responsabilidades que exige profissionais resilientes:

“Que eu saiba que eu tenho consciência, nenhuma. Talvez comer né, talvez eu não seria tão redonda (risos). A única coisa que lá no começo foi que um dia a gente estava fazendo necropsia de um cadáver em putrificação. E aí eu cheguei em casa e meu pai, ele fazia, aquelas linguiças, e daí elas estavam muito novinhas e a gente gostava de comer aquilo cozido que não tava ainda defumado e aí cozinharam aquele negócio. Aí eu cheguei e aquele negócio era a mesma coisa do que um cadáver entendeu. E aí aquele negócio foi dose sabe. Não vai dar para comer hoje, deu. A única coisa que eu me lembro, lááá no começo quando eu sai da escola e vim pra cá sabe. Então foi um dos poucos que sabe, que me marcou. Ou seja, e a vida continua. (Esmeralda)
“Frieza. Eu não consigo. O pessoal tem ah, quando a gente vai almoçar, ‘como é que tu consegue comer carne’. Meu psicológico é super bom, é excelente. Eu não consigo pensar. Profissional, profissional, parte técnica né. Eu não consigo me envolver com isso. Como um cara tranquilo. Às vezes eu to lá dentro com os corpos tomando café, o pessoal fica chateado, né não sei o que, como é que tu aguenta. Quando chega a pessoa por exemplo eu não uso máscara não uso nada. O meu subconsciente eu acho que é muito forte. Eu tenho que não sentir o cheiro  e o resto é tranquilo né. O embalsamento eu gosto de fazer porque eu não gosto de me envolver com as outras pessoas né meu.” (Ametista)
“Eu procuro não me envolver em nada né. Não levar isso pra casa né, porque o que acontece é luto daquela família, eu não tenho nada a ver. Na minha casa eu vou chegar, vou fazer festa com o meu filho, vou brincar. Fechou as portas, acabou. Coloca o papel na gaveta e é mais uma estatística. Eu acho que assim é melhor pra mim. É assim que eu levo para mim não me afetar.” (Rubi)

De acordo com a Associação Americana de Psicologia (2010), a negação é um mecanismo de defesa no qual pensamento, sentimentos, desejos ou fatos são ignorados ou excluídos da atenção consciente. É um processo inconsciente que funciona para resolver conflitos emocionais ou reduzir a ansiedade. Sabe-se que os seres humanos precisam de válvulas de escape que possam dar suporte a vida desses profissionais que vivem em meio à morte e a violência. Uma das estratégias, quem sabe e mais evidente, é a negação diante desses processos diários que exigem trabalhadores resilientes e de extrema responsabilidade e cuidado.

A conduta dos profissionais chama a atenção pela forma como eles lidam com todo o cenário de trabalho. Esse exercício, que é visto pela sociedade como algo sórdido, é tido pelos colaboradores como sinônimo de busca pela justiça, de lutar pelos direitos das pessoas que chegam até a instituição sem condições para fazer isso por si só. Sendo que essas atuações vêm acompanhadas de sigilo e respeito mútuo buscando sempre pela integridade do corpo que está a sua frente.

“É aquilo que me ensinaram na academia. Manter em sigilo morre comigo. Só se chegar um profissional e me perguntar isso e aquilo, vamos discutir o que que houve, aí sim. O delegado, o escrivão, a doutora ou os peritos né, aí a gente discute, mas questão pessoal não.” (Ametista)

É fascinante analisar a postura desses colaboradores e perceber o respeito e zelo que estes têm diante do ser humano. O que é visto como desprezível por grande parte das pessoas passa a chamar a atenção e surpreender ao compreender que se têm profissionais com alto grau de responsabilidade, cuidado e empatia, onde ao lidar com os corpos, há sempre o pensamento em relação ao sentimento dos familiares que chegam até a instituição comovidos e se deparam com situações-limites que exigem do ser humano um alto grau de controle.

“Eu sou médico e ali estou , naquele momento, fazendo um ato médico. Sou o profissional individualmente mais habilitado a tratar com respeito e humanidade aquele ser maltratado que se apresenta para um exame físico ou aquele corpo que pertenceu a alguém que existiu e teve direitos como qualquer outra pessoa. Alguns destes ainda existem para o cadáver, e a garantia de direitos é o que diferencia a civilização da barbárie.” (Alexandrita).

Aldé (2003) afirma que estudar a atuação do IML também interessa à saúde pública porque a instituição abriga, em seus quadros, profissionais da saúde, realizando exames clínicos em pessoas agredidas ou acidentadas e exames necrológicos em vítimas fatais da violência. O Instituto Médico-Legal (IML) está historicamente vinculado ao campo da saúde e da Medicina Legal, e uma discussão pertinente diz respeito ao seu caráter institucional, que para muitos deveria ser autônomo da Polícia, passando a funcionar como um órgão da Saúde, da Justiça.

É pensando nos direitos do ser humano que é pautado o trabalho desses profissionais que diariamente investigam e traçam estratégias para amenizar a dor de pessoas e de famílias que passam pelo IML. Eles sabem que os seres humanos passam por vivências que os colocam em situações de fragilidade e é pensando na plenitude da vida humana que esses colaboradores dotam-se de estratégias que venham a amenizar a tristeza e/ou angústia para continuarem buscando pela legitimidade de cada caso.

4.6 O Sentimento Escondido no Interior de cada Colaborador

O ser humano é admirável em sua singularidade e age de tal forma que suas atitudes podem revelar o que de mais íntimo existe em suas personalidades e psiques. Principalmente ao término das entrevistas que pontos importantes foram trazidos em cada relato. Durante elas, pareceu que cada colaborador tinha uma imagem e conduta a zelar e, por esse motivo talvez, não pudessem deixar extravasar seus sentimentos.

Ao compreendermos o ser humano em sua totalidade sabemos que as emoções precisam ser compartilhadas ou trabalhadas em momentos oportunos para que essas não interfiram negativamente na atuação das pessoas diante de suas relações. Foi a partir dessa compreensão que surgiram sentimentos de desabafo:

“Eu ainda acho que nós deveríamos ter um local para ficar aqui. De sobre aviso, de plantão. Entendeu? Porque às vezes o auxiliar nos telefona, a gente também tem direito a almoço, tem direito a tomar banho, né. E às vezes num tempo pequeno já é motivo para falatória. Então assim, se o nosso serviço dispusesse de um local adequado, você vê que aqui é tudo (pausa), tudo. Só que médico nenhum vai ficar aqui nessas condições e com esse tipo de remuneração né. Então por isso que, eu faço o possível aí, entendeu.” (Esmeralda)
 “É como eu te falei, a realidade é essa né. Se eu pudesse, nós ficaríamos sentados assim. Mais histórias para te contar. Várias. Eu quando estou sentado lá fora no sol sentado na minha cadeira tomando um chimarrão, às vezes eu sinto vontade de escrever um livro né. Eu teria condições de escrever um “Best Seller”. Eu como é que eu vou te dizer. Eu não sei como que eu estou aqui conversando contigo. Não sou de me abrir, sou até estúpido as vezes com as pessoas. As vezes vem o pessoal da TV, do jornal. Não falo, é só bom dia, boa tarde, maiores informações só lá na delegacia.” (Ametista).

Os profissionais sabem que tem um trabalho a prezar e a esclarecer diante da sociedade, por conseguinte o que trouxeram durante as entrevistas prova o quanto o profissionalismo é importante diante das situações que vivenciam. Porém a necessidade de dividir com alguém os sentimentos que os acompanham, transpareceu em determinados momentos. Foi visível a sensação de um espaço exclusivo, onde os colaboradores se sentiram a vontade para dividir o que de mais íntimo estava presente em suas vidas e foi extraordinária a conduta de transparência e de quanto é importante se manter em sigilo e atuar eticamente diante de tudo que passa pelo Instituto Médico-Legal (IML).

“Tu não pode ficar gravando rosto, eu sempre digo para os meus amigos ‘o que acontece em Las Vegas fica em Las Vegas’, (risos). Fechou as portas tchau, eu esqueço. Se guardar tudo lá dentro da cabeça vai começar a ocupar espaço e não é saudável né. Tu faz o teu trabalho certinho, bonitinho, mas sem ligação nenhuma. Para a sua própria saúde mental, você não pode ter ligação nenhuma.”(Rubi).

De maneira geral os colaboradores sabem da importância de não se envolver em cada acontecimento que ocorre dentro da instituição, pois o envolvimento pode trazer consequências para a vida deles e limitá-los em suas atuações o que surtirá prejuízos futuros.

O desgaste, uma resultante do trabalho que afeta tanto o organismo quanto a saúde mental dos profissionais que trabalham nessas condições, gera intensos graus de fadiga física e psicológica, podendo os levar à alienação. Segundo Seligmann-Silva (1994, p. 292) “corrói a identidade, ao atingir valores e crenças, podendo inclusive ferir a dignidade e a esperança”. Os prejuízos à identidade do trabalhador correspondem, a empobrecimentos de personalidade, e em consequência, de sociabilidade.

Esmeralda, Alexandrita, Ametista, Safira e Rubi são profissionais que respeitam a integridade dos seres humanos e entendem que o corpo que foi violentado, ou até mesmo um corpo que não tem mais vida fisiológica, devem ser respeitados e cuidados como qualquer outro. E que cada ser, na sua singularidade, carrega uma identidade, uma história e por isso deve ser preservado. Esses trabalhadores, que por momentos negaram sentimentos, mas que, por conseguinte os deixaram transparecer enriquecendo a pesquisa, são pessoas que choram, que sorriem, que sentem e que permitem o despertar de seus sofrimentos psíquicos.

5. Considerações Finais

Ao trilhar esse caminho repleto de informações importantes para que pudesse ser realizado um trabalho coerente e digno do exercício realizado por esses colaboradores, foi identificado o quão influente é a atuação desses trabalhadores diante da segurança pública e integridade das pessoas. A busca constante pela justiça, que os faz profissionais de corpo e alma, vai muito além do que se é visto e do que a sociedade conceitua como verdade quando se trata de Instituto Médico-Legal (IML).

Cada relato trouxe intimamente vivências que demarcaram fatos consideráveis na vida profissional e pessoal de cada colaborador, o que aponta a importância do papel da psicologia nessa instituição. Não no âmbito de curar a dor, mas de trabalhar os sentimentos experienciados por eles diante de constantes violências e perdas que são vivenciadas, com o intuito de fazer uma escuta cuidadosa, fonte de acolhimento para essas pessoas que veem a vida começar, transcorrer e terminar.

Desenvolver esse trabalho foi um grande desafio para mim, pois ao buscar bem no fundo o que estava guardado no íntimo de cada pessoa, surtiu momentos de entrega que, quando trazidas suas vivências em detalhes, evidenciaram que esses colaboradores são extremanete admiráveis.

Estar constantemente em contato com situações de violências e mortes deixam  marcas que podem ser irreparáveis se não forem destinadas a elas os cuidados necessários para que não se tornem maléficas para a vida dos profissionais. Marcas essas que foram sentidas pela resistência dos trabalhadores ao falarem de suas atuações quando contatado, em momentos iniciais, os convidando a participarem dessa pesquisa.

Ao considerar o ser humano como sendo o responsável por ser protagonista de uma história, por ter uma identidade, por ser digno de respeito mútuo e de cuidado até a sua finitude, é que se pontua a importância desses colaboradores poderem contar com uma pessoa que os escute sem julgar, sem os criticar e sem amenizar suas dores, pois o que acontece, de fato, em suas vidas, precisa ser trabalhado a fim de resgatar em cada um deles suas potencialidades, os permitindo o direito a uma vida digna.

Agradece-se imensamente a cada um dos participantes por confiarem nessa escuta durante as entrevistas e dividirem o que de mais profundo se encontrava em seus interiores. Ver essas preciosidades nos melhores e nos mais delicados momentos foi indescritível. Ver a vida começar, terminar e tudo o que acontece no meio brotar diante das entrevistas, foi fantástico. Presenciar a capacidade das pessoas para o amor, coragem e resistência foi algo que jamais sairá da memória, assim como a participação e confiança que cada um teve diante dos momentos em que se esteve junto.

Os relatos que foram apresentados são apenas algumas pedras. Pedras verdes, pedras azuis, pedras vermelhas... Eles foram escritos para indicar um lugar ou um caminho pelo qual essas raridades pudessem dividir com sabedoria o que de fato está presente em suas psiques. O trabalho de ir buscar lá dentro, no fundo de cada relato, o diamante que está escondido, é tarefa de cada um. Esmeralda, Alexandrita, Ametista, Safira e Rubi, são seres que tocaram sem encostar e que permitiram fazer mágica com tudo o que foi trazido. Dedica-se esse trabalho a vocês, que são os protagonistas desse cenário.

Sobre o Artigo:

Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado como pré-requisito para a obtenção do Título de Graduação em Psicologia, da Universidade do Oeste de Santa Catarina – UNOESC, Unidade de Pinhalzinho.

Sobre os Autores:

Chancarlyne Vivian - Acadêmica do 10º período do Curso de Psicologia da Universidade do Oeste de Santa Catarina – Unidade  de Pinhalzinho.

Amanda Saraiva Angonese - Orientadora. Psicóloga. Professora do curso de graduação em Psicologia da UNOESC. Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre/UFRGS, Pós-graduanda em Saúde Mental Coletiva pela UNOESC.

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