Aspectos Emocionais e Coping em Pacientes Oncológicos Brasileiros

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Resumo: O câncer é uma doença que, tipicamente, caracteriza-se pela perda do controle da divisão celular e pela capacidade de invadir outras estruturas orgânicas (metástases), em um processo muito invasivo, determinando a formação de tumores. Ainda hoje, é uma doença associada a uma sentença de morte, cujo diagnóstico é acompanhado de sentimentos diversos, exigindo dos pacientes mudanças de papéis e de estratégias de enfrentamento [EE] (coping) para situação. O presente trabalho teve como objetivo avaliar os aspectos psicológicos e as estratégias de enfrentamento de pacientes oncológicos. Foram utilizadas as Escalas de Beck de Ansiedade (BAI) e de Depressão (BDI) e a Escala Modos de Enfrentamento de Problemas (EMEP). A amostra foi constituída por 20 pacientes oncológicos, sendo 10 homens e 10 mulheres que frequentavam o Hospital Santa Maria e uma instituição sem fins lucrativos, Brota Vida, ambas na cidade de Araçatuba, SP, Brasil. Esses pacientes tinham entre 21 e 83 anos de idade (M= 60 anos), com escolaridade predominante de Ensino Fundamental completo (35%), seguido de Ensino Superior (30%) e 25% com Ensino Médio completo. Os dados sugerem que, para os aspectos emocionais avaliados, possivelmente as EE utilizadas têm sido eficazes, uma vez que não foram encontrados níveis altos de depressão e de ansiedade na maioria dos pacientes. Outro aspecto relevante é o ambiente de saúde frequentado por eles, composto de equipe interdisciplinar, com trabalhos específicos do setor de Psicologia, sendo uma variável que pode estar diretamente ligada aos baixos níveis de sintomas emocionais apresentados pelos pacientes.

Palavras-chave: Sintomas psicológicos, Coping, Câncer.

Introdução

Câncer sempre foi uma doença temida por todos e também associada a algo vergonhoso e sem cura. Muitas vezes quando se recebe um diagnóstico de confirmação da doença tem-se a sensação de uma sentença de morte.

Além da crença que o câncer é uma doença mortal, o paciente vivencia no tratamento uma série de situações que acarretam prejuízos em suas habilidades funcionais e sociais. Os pacientes passam por processos cirúrgicos agressivos, vivenciam dolorosos tratamentos como a radioterapia e quimioterapia e isso tudo acaba trazendo alterações severas nos níveis de ansiedade vividos pelo paciente por ver sua vida tomar um rumo diferente e por trazer implicações em seu cotidiano e em suas relações com as pessoas de seu contexto familiar e social.

É variável o grau de ansiedade e depressão em pacientes oncológicos durante o processo de tratamento, não só quanto à crença de o câncer estar vinculado à morte, mas por estar correlacionado aos medos que emergem devido à possibilidade de sofrer mais dores e mutilações parciais ou totais de membros de seu corpo, ou até mesmo sofrer metástase como também a reincidência da doença.

Para mensuração dos aspectos emocionais do paciente oncológico foram utilizadas as Escalas de Beck de Ansiedade (BAI) e de Depressão (BDI) e a Escala Modos de Enfrentamento de Problemas (EMEP) com coleta dos dados e apresentação dos resultados obtidos.

Depressão

A Depressão, segundo o DSM-IV-TR, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da AssociaçãoAmericana de Psiquiatria, descreve como característica de um Episódio Depressivo Maior a presença de um período mínimo de duas semanas durante as quais há um humor deprimido, perda de interesse ou prazer em quase todas as atividades.

Afirma também que a pessoa deve experimentar pelo menos quatro sintomas extraídos de uma lista que inclui: alterações do apetite ou peso; sono e atividade psicomotora; diminuição da energia; sentimentos de desvalia ou culpa; dificuldades para pensar, concentrar-se e/ou tomar decisões; pensamentos recorrentes sobre morte ou ideias suicidas. Descreve ainda que os sintomas devem persistir na maior parte do dia, praticamente todos os dias, por pelo menos duas semanas consecutivas (DSM-IV, 2002).

Não há um padrão para definir se um sujeito está ou não propenso a desenvolver um quadro de depressão ao longo de sua vida. Diversos fatores são determinantes para a instalação deste quadro, porem sabe se que alguns estão mais vulneráveis do que outros, e em relação à vulnerabilidade à depressão não podemos descartar a influência das diferenças nos repertórios comportamentais e patológicos.

Em se tratando do paciente oncológico anseios que o permeiam como o medo da morte, a interrupção dos planos de vida, tristeza, sentimentos de incapacidade e perda da autoestima que surgem geralmente com as mudanças da imagem corporal, mudanças no estilo social e financeiro, são questões fortes o bastante para justificarem o desânimo e a tristeza presentes neste contexto. Assim é de extrema importância uma atenção maior neste diagnóstico para com estes indivíduos diante dos sintomas apresentados, sendo muito significativa uma ação conjunta do tratamento oncológico com um possível quadro depressivo.

Ansiedade

Escocard (2007) afirma que tanto o DSM-IV-TR (2002) como a CID-10 (1993) define diferentes Transtornos de Ansiedade através de critérios claros garantindo assim, a formulação de diagnósticos mais precisos e confiáveis. Ainda segundo a autora, existe uma grande concordância entre o DSM-IV-TR (2002) e a CID-10 (1993) com relação aos vários transtornos de ansiedade. Por exemplo, no que diz respeito ao Transtorno de Ansiedade Generalizada (no DSM-IV-TR, 300.02 e na CID-10, F41.1), esses dois sistemas o caracterizam por um quadro ansioso generalizado e persistente, não restrito à circunstâncias ambientais. Pacientes assim diagnosticados apresentam, na maior parte das vezes, sentimentos crônicos de nervosismo, preocupações excessivas, persistentes e desproporcionais à realidade acompanhado por vários sintomas somáticos, como: apreensão; tensão motora (inquietação, cefaléia tencional, tremores, incapacidade de relaxar); alta vigilância cognitiva; irritabilidade persistente; dores musculares; disfunções gastrointestinais; sudorese; taquicardia; desconforto epigástrico; tontura; boca seca; palpitações e taquicardia (Shinohara & Nardi, 2001; Papp & Gorman, 1999). Dentre os vários fatores desencadeantes do Transtorno de Ansiedade em pacientes oncológicos destaca-se a ansiedade produzida pela falta de conhecimento dos tratamentos bem como seu prognóstico.

A falta de informação a respeito das intervenções que serão realizadas no seu tratamento como cirurgias, quimioterapias ou radioterapias causam insegurança e um medo que podem em alguns casos levar o paciente a desenvolver este transtorno.

Enfrentamento

Segundo Cerqueira, 2000, apud Souza e Araújo (2010) enfrentamento corresponde ao conjunto de “esforços cognitivos e comportamentais que mudam constantemente, para manejar (enfrentar) exigências extremas e/ou externas específicas, que ameaçam ou ultrapassam os recursos do indivíduo” (p.281). As estratégias de enfrentamento podem ser consideradas efetivas quando amenizam sensações desconfortáveis e sentimentos desagradáveis associados a ameaças ou a perdas. São avaliadas como disfuncionais quando são pouco efetivas, ou insuficientes, para garantir a qualidade de vida, o bem-estar físico, emocional e social, ou quando acabam por comprometer o equilíbrio psiconeuroendocrinológico dos pacientes (Peçanha, 2008). Para o modelo transacional de enfrentamento, uma estratégia não é melhor ou pior do que outra, pois para julgar é preciso analisar o contexto em que se encontra o indivíduo (Gimenes, 1997). Segundo a análise de Lazarus e Folkman (1984) apud Silva (2005, p. 20) o enfrentamento tem duas funções: 1) modificar a relação da pessoa com o ambiente, controlando ou alterando o problema causador (enfrentamento centrado no problema). Estas estratégias exigem, em geral, uma postura ativa de aproximação em relação ao estressor; 2) adequar a resposta emocional ao problema (enfrentamento centrado na emoção), podendo representar atitudes de afastamento ou paliativas em relação à fonte de estresse. Em geral, as formas de enfrentamento centrados na emoção acontecem quando já houve uma avaliação de que nada pode ser feito para modificar as condições de dano, ameaça ou desafio ambientais. De qualquer maneira, enfrentamentos centrados no problema e na emoção não são excludentes e podem ser utilizados simultaneamente para lidar com a situação estressora.

Método

Participantes

A pesquisa foi composta por 20 pacientes oncológicos, sendo 10 homens e 10 mulheres que frequentavam o Hospital Santa Maria e uma instituição sem fins lucrativos, Brota Vida, ambas na cidade de Araçatuba, SP, Brasil.

Esses pacientes tinham entre 21 e 83 anos de idade (M= 60 anos), com escolaridade predominante de Ensino Fundamental completo (35%), seguido de Ensino Superior (30%) e 25% com Ensino Médio completo.

Instrumentos

Foram utilizadas as Escalas de Beck de Ansiedade (BAI) e de Depressão (BDI) e a Escala Modos de Enfrentamento de Problemas (EMEP). Inicialmente aplicou-se com o auxilio das pesquisadoras as Escalas de Beck de Ansiedade (BAI) e de Depressão (BDI).

Em seguida, foi feita a aplicação, também com o auxilio das pesquisadoras, da Escala Modos de Enfrentamento de Problemas (EMEP). Foi utilizado o instrumento validado por Seidl, Tróccoli e Zannon (2001) apud Faria e Seidl (2006) para identificar as estratégias de enfrentamento que o paciente utilizava em relação à oncologia. A escala é composta de 45 itens, distribuídos em quatro fatores: (1) enfrentamento focalizado no problema (18 itens; alpha = 0,84), estratégias comportamentais que representam aproximação em relação ao estressor, voltadas para o seu manejo ou solução, bem como estratégias cognitivas direcionadas para a reavaliação e a ressignificação do problema; (2) enfrentamento focalizado na emoção (15 itens; alpha = 0,81), estratégias cognitivas e comportamentais de esquiva e/ou negação, expressão de emoções negativas, pensamento fantasioso, autoculpabilização e/ou culpabilização de outros, com função paliativa ou de afastamento do problema, (3) busca de práticas religiosas/pensamento fantasioso (7 itens; alpha = 0,74), comportamentos religiosos e/ou pensamentos fantasiosos como modos de enfrentamento e manejo do estressor; (4) busca de suporte social (5 itens; alpha = 0,70), procura de apoio social emocional ou instrumental para ajudar a lidar com o problema. Respostas são dadas em escala Likert de 5 pontos (1 = nunca faço isso; 5 = faço isso sempre). Escores mais elevados são indicativos da maior utilização de determinada estratégia de enfrentamento. Análise fatorial exploratória e da consistência interna dos fatores mostrou que a estrutura fatorial da EMEP foi replicada nessa amostra específica, com alphas de Cronbach variando entre 0,83 e 0,65.

Procedimentos

Para a aplicação dos testes fora optado por realizar com o auxilio das pesquisadoras, visto que a maior parcela dos participantes apresentavam dificuldades ora com a leitura, ora com a escrita.

Já a correção dos testes aplicados foi realizada de acordo com as orientações dos testes, sendo que fora adotado a escala percentual para melhor mensurar os dados colhidos.

Resultados

Os resultados não apresentaram diferenças significativas em relação ao gênero dos pacientes, indicando que 85% da amostra apresentaram nível de depressão “mínimo” e o restante (15%) em nível “leve”.

gráfico: depressão em pacientes oncológicos brasileiros

Em relação à ansiedade, 70% apresentaram nível “mínimo”, 25% “leve” e 5% “moderado”.

gráfico: ansiedade em pacientes oncológicos brasileiros

A estratégia de enfrentamento [EE] mais utilizada foi a focalizada no problema (34,53%), seguida de EE focalizada em pensamento mágico/práticas religiosas (31,67%) e na busca de suporte social (20,12%), sendo que 13,68% utilizaram a EE focalizada na emoção.

gráfico: Estratégias de Enfrentamento em pacientes oncológicos brasileiros

Os dados sugerem que, para os aspectos emocionais avaliados, possivelmente as EE utilizadas têm sido eficazes, uma vez que não foram encontrados níveis altos de depressão e de ansiedade na maioria dos pacientes.

Outro aspecto relevante é o ambiente de saúde frequentado por eles, composto de equipe interdisciplinar, com trabalhos específicos do setor de Psicologia, sendo uma variável que pode estar diretamente ligada aos baixos níveis de sintomas emocionais apresentados pelos pacientes.

Ferrão (2003) apud Simongini (2005, p. 18) observa que “a escuta de um profissional se torna fundamental ao paciente para auxiliar o mesmo na elaboração destes sentimentos, ouvir suas fantasias com relação à doença, orientá-lo a participar ativamente de seu tratamento. Considera também que, talvez, o primeiro grande passo para lidarmos de forma positiva e construtiva com experiências como a do câncer seja a aceitação ativa da situação. Aceitar não significa que o paciente deva se tornar passivo e conformado, mas “ir à luta” com realismo e consciência, pois todos os sofrimentos podem ser suportados se os convertermos numa história ou se conseguirmos encontrar uma história sobre eles”.

Referências:

DSM-IV-TR™ - Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Trad. Cláudia Dornelles; 4. Ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2002.

ESCOCARD, M. R. P. G. Propriedades Psicométricas da Escala de Sensibilidade à Ansiedade Revisada. PUC-Rio Certificação Digital nº 0510398/CA: Rio de Janeiro, 2007. In. http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.br/11082/11082_3.PDF Acesso em: 08 dez. 2012.

FARIA, J. B.; SEIDL, E. M. F. Religiosidade, enfrentamento e bem-estar subjetivo em pessoas vivendo com hiv/aids. Psicol. estud. vol. 11 nº 1: Maringá, Jan./Apr., 2006. In: <http://www.scielo.br/> Acesso em: 09 dez. 2012.

SILVA, G. Processo de enfrentamento no período pós-tratamento do câncer de mama. USP – Dep. de Psicologia e Educação: Ribeirão Preto, 2005.

SIMONGINI, E. C. O adoecer de câncer e o processo de individuação. Universidade de Marília, 2005.

SOUZA, J. R.; ARAÚJO, T. C. C. F. Eficácia terapêutica de intervenção em grupo psicoeducacional: um estudo exploratório em oncologia. Estudos de Psicologia: Campinas, abril-junho 2010.

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