Breves Relatos de Experiências como Estagiárias de Psicologia no Centro de Atenção à Saúde da Mulher e da Criança no Município de Pará de Minas-MG

Breves Relatos de Experiências como Estagiárias de Psicologia no Centro de Atenção à Saúde da Mulher e da Criança no Município de Pará de Minas-MG
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Resumo: A Psicologia da Saúde é uma área relativamente recente no Brasil, considera-se que ela ainda está descobrindo novos campos e formas de atendimento. A falta de material teórico é uma dificuldade que os psicólogos, estudantes e simpatizantes de psicologia possuem. O artigo vem discutir brevemente uma postura dos profissionais em um equipamento especializado na atenção à saúde da mulher e da criança no município de Pará de Minas-MG (CASMUC), bem como vem descrever um relato de experiência como estagiárias do curso de psicologia nesses mesmos serviços. O que possibilitou um contato com adolescentes que seriam atendidos por este equipamento. As intervenções geraram grande satisfação tanto para os adolescentes tanto para nós, pois consideramos de grande relevância a inserção da Psicologia no campo da Saúde e sobretudo no atendimento grupa.

Palavras-chave: Adolescência, CASMUC, Estágio Básico, Infância, Psicologia da Saúde.

1. A Psicologia da Saúde

Na década de 1970 a Psicologia da Saúde emerge oficialmente como uma área de atuação, porém psicólogos já trabalhavam em outras instituições de saúde, adaptando sua prática clínica para o contexto inserido.  Foi somente na década de 1990 que a Psicologia da Saúde no Brasil ampliou seu campo de exercício, nos quais se trabalhava com a saúde dos indivíduos e comunidades, incluindo atendimentos primários, secundários, terciários e multidisciplinares (CASTRO 2007; SOBROSA et al, 2014).

A Psicologia da Saúde é uma área relativamente recente no Brasil, considera-se que ela ainda está descobrindo novos campos e formas de atendimento. A falta de material teórico é uma dificuldade que os psicólogos, estudantes e simpatizantes de psicologia encontram fora a inadequação da formação acadêmica de psicologia para trabalhar na Saúde Pública e a escassez de conhecimento em políticas públicas, o que os deixa sem referências de atuação nesse âmbito, precisando enfrentar diversos obstáculos (PAULIN & LUZIO, 2009; SOBROSA et al, 2014).

O domínio dessa área refere-se à psicologia como um todo, como ciência e profissão, capaz de atuar nos campos da saúde e da doença, que compreendam questões físicas, mentais,

sociais, ambientais e culturais. O profissional realiza intervenções, programas de prevenção e manejo de situações decorrentes, afim de que o indivíduo inclua em seu projeto de vida um conjunto de atitudes e comportamentos ativos, garantindo seu bem-estar, o da família e o da comunidade.

Contextualizando a prática do estágio no campo de atuação da Psicologia da Saúde o presente artigo constitui uma breve discussão e reflexão da atuação do psicólogo na saúde pública, a inclusão do psicólogo nessa área. Assim como, propõe um relato de experiência das intervenções desenvolvidas pelas alunas estagiárias do curso de Psicologia da Faculdade de Pará de Minas (FAPAM) no Centro de Atenção à Saúde da Mulher e da Criança (CASMUC). As atividades foram concernentes aos Estágios Básicos, sendo desenvolvidos durante os anos de 2016 e 2017.

Este estudo possibilitou a compreensão de como funciona o serviço prestado pelo profissional da psicologia no equipamento escolhido, promovendo uma comunicação entre a produção teórica estudada nas disciplinas e a vivência prática no campo institucional, para a construção de uma intervenção eficiente (MANUAL DE ESTÁGIOS BÁSICOS CURSO DE PSICOLOGIA-APAM, 2015).

Foram realizadas pesquisas bibliográficas acerca do tema, observação do campo, levantamento de dados, entrevistas estruturadas, questionário e levantamento de perfil sociodemográfico que acaba por caracterizar-se como pesquisa de levantamento, para a elaboração desse artigo.

2. O Centro de Atenção à Saúde da Mulher e da Criança – CASMUC

A instituição trabalhada foi o Centro de Atenção à Saúde da Mulher e da Criança (CASMUC) no Município de Pará de Minas-MG, que vem atender a demanda de atendimentos infantis, médico e psicológico, e assistência a mulheres gestantes e lactantes.

Na  década de 1970 o município identificou a carência de um atendimento hospitalar pediátrico em decorrência da demanda da população e a falta de espaço para atendimento infanto/juvenil. Em agosto de 1978 foi instalada a Fundação Municipal de Saúde (FUMUSA).  Posteriormente o foco e a demanda tornou-se o atendimento à mulher e a criança, e em setembro de 2005, A FUMUSA deu a lugar ao Centro de Atenção à Saúde da Mulher e da Criança (CASMUC) funcionando até os dias atuais.

Composta por uma equipe multidisciplinar, divididos entre médicos, psicólogos, enfermeiros, fonodiológo, nutricionistas, mastológistas, técnicos da área, entre outros. Contando com diversos responsáveis no atendimento psicológico, sendo ele oferecido para crianças de 0 a 15 anos, em caso de procura espontânea ou não, acompanhados por pais ou responsáveis. Quando necessário há o encaminhamento para órgãos de apoio, tais como: Coordenadorias Regionais de Educação (CRE), Centro de Referência de Assistencia Social (CRAS), Unidade Básica de Saúde (UBS) dentre outros.

De acordo com o informado pelos profissionais que atuam no CASMUC, após o acolhimento do paciente, este será avaliado pelo psicólogo responsável, o que possibilitará uma avaliação da necessidade de um atendimento emergencial ou se poderá ser encaminhado para a lista de espera da instituição. Os atendimentos variam de acordo com as queixas descritas durante as sessões, sendo as práticas clínicas e os referenciais teóricos adaptados ao contexto que se encontram e a demanda. O psicólogo irá trabalhar de forma livre nos atendimentos, podendo cada profissional utilizar de sua abordagem durante a sua atuação, desde que a mesma seja suficiente para as queixas que o indivíduo apresenta. O atendimento tem duração de até no máximo 40 minutos, sendo necessário resguardar 10 minutos de cada atendimento para questões burocráticas, anotações aos prontuários e preechimento de outros documento que forem necessários.

Segundo Castro (2007), as habilidades de enfrentamento da criança diante algum problema de natureza psicológica ou biológica é diferente das habilidades dos adultos, devido a sua menor carga de repertórios em parte por causa do seu estágio de desenvolvimento e suas poucas experiências. Como forma de integrar um diagnóstico de qualidade, é necessário usufruir de fontes como: pais, familiares, amigos, professores, prontuários e outros, além do próprio paciente, e quando necessário à utilização de técnicas lúdicas (COUTO, DUARTE & DELGADO, 2008).

Segundo Castro (2007) há diferentes modos de exercício do psicólogo para com a criança nas terapias, para um tratamento menos estressante e eficiente. A sala de atendimento é um local do paciente, onde o sujeito expressa e coloca sua subjetividade. A primeira sessão servirá para a coleta de informações, tais como se está sendo encaminhado por outra instituição ou profissional, a existência de algum diagnóstico, as queixas que levaram à procura do serviço, dados familiares e etc.

A psicoterapia voltada para o público infantil envolve técnicas de brincar, jogos, histórias, desenhos entre outras atividades lúdicas. A intervenção lúdica é utilizada nas terapias infantis pela maioria dos profissionais do CASMUC para a obtenção de dados e informações a respeito do contexto e do sofrimento psíquico daquela criança, para então elaborarem estratégias a serem trabalhadas durante as sessões. Enquanto que para o adolescente utiliza-se mais da escuta e observação.

Em tempos programados os profissionais se reúnem para discussões dos casos, ou seja, são realizadas reuniões da equipe infanto-juvenil junto à coordenadora de saúde mental do município e o psiquiatra responsável pelas medicações, mensalmente para a discussão de casos, apresentação de dados e queixas que acharem relevantes a serem levantadas.

Embora o CASMUC seja uma instituição de origem municipal, existem programas semelhantes, de nível federal, que proporcionam serviços de atendimento à saúde da mulher e da criança. Como o Centro de Atenção Psicossocial Infanto-Juvenil – CAPSI e o programa Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher – PAISM. É importante salientar a existência de outros centros de atenção com a mesma perspectiva, desenvolvidos para atender a demanda de seu município. 

3. Perfil Sócio-Demográfico do Público Atendido pelo CASMUC

O perfil sócio-demográfico trata-se de um levantamento de dados culturais, sociais, biológicos de determinado contexto. É importante para que se obtenha conhecimento sobre as atitudes e os comportamentos dos indivíduos inseridos no meio de pesquisa, considerando os problemas sociais encontrados. 

No estágio básico foi realizado o levantamento do perfil dos usuários do CASMUC, através de questionários que foram aplicados em 65 atendidos pelo serviço, escolhidos aleatoriamente. Levantando as questões: serviço prestado pela instituição, sexo, idade, frequência, vínculo com outro equipamento, demanda do atendimento, renda familiar, escola, como chega a instituição, quem acompanha o atendimento, moradia e quantas pessoas vivem na mesma casa.

A dificuldade encontrada no levantamento desses dados foi a possibilidade de recolhermos os dados da mesma pessoa mais de uma vez, sendo que não poderia ser registrado o nome do entrevistado e a possibilidade da omissão de alguma informação por parte do entrevistado.

Através da pesquisa foi possível constatar que os usuários do CASMUC, em sua maioria são usuários do atendimento psicológico, chegando a 83% da amostra. Cerca de 61% são do sexo masculino e 39% do sexo feminino, com idades entre 7 e 12 anos são cerca de 51%. 91% são estudantes de escola pública, com renda até 1,5 salário mínimo são em torno de 55,5%. E 69% possuem casa própria, 52% residem com uma quantidade entre 4 a 6 pessoas, sendo que 77% não recebe nenhum benefício do Governo.

Entre os usuários, cerca de 71% não possuem vínculos com outros equipamentos da rede pública. A frequência com que utilizam o serviço por mês (de 1 a 2 vezes) é de 76%. Apresentam demanda espontânea 33,84%, são encaminhados pelas escolas 34%. Cerca de 83% são acompanhados por suas mães. E para acessar o equipamento utilizando transporte público chega aos 60%.

4. Um Relato da Atuação com os Adolescentes: resultados alcançados 

A adolescência corresponde à fase da vida em que ocorre um conjunto de mudanças evolutivas na maturação, física e biológica e enquadramento psicológico e social do indivíduo. É uma etapa marcada por transformações e escolhas, onde os adolescentes enfrentam realidades diferentes das que já experimentaram, vivenciando constantes desafios, sejam eles problemas reais ou imaginários, frente ao mundo, que espera dele respostas adequadas em várias situações (PAPALIA, OLDS & FELDMAN, 2008).

Nessa fase a personalidade do indivíduo é dinâmica e volátil, torna-se importante a elaboração de oficinas educativas com o objetivo de conscientizar, pois através do conhecimento o adolescente poderá agregar valores à construção da sua subjetividade.

As demandas acolhidas pelo CASMUC e apresentadas pelos profissionais que ali trabalham remetem à pensamentos suicidas, tentativas de autoextermínio, depressão, transtornos compulsivos, transtornos do pânico, transtornos de ansiedade, entre outros. Considerando uma extensa lista de espera, o grande número de procura pelos serviços, a escassez de profissionais para atendimento de toda a demanda, foi pensado em articular um projeto de intervenção grupal que atendesse a este público.

Participaram da proposta, cerca de 10 adolescentes que não estavam em nenhum atendimento no momento no CASMUC, com idade entre 13 e 15 anos. A partir da lista de espera para atendimento psicológico foram selecionados adolescentes que atendiam ao critério da idade e através do contato telefônico com os responsáveis aos que demonstravam interesse, o convite era repassado aos adolescentes para a confirmação da participação.

As intervenções tiveram o intuito de promover a consciência de si e do outro, fortalecer os vínculos interpessoais, desmistificar crenças e preconceitos, possibilitar a formação de um indivíduo crítico e assegurar a saúde mental dos adolescentes. Além disso, as intervenções tiveram interesse de propiciar a discussão entre adolescentes sobre assuntos diversos relacionados a essa fase do desenvolvimento e demandas psicológicas do contexto atual, a fim de promover maior bem-estar e qualidade de vida. Sensibilizar os adolescentes quanto às realidades sociais, possibilitar a formação de atitudes racionais e promover o fortalecimento da empatia.

Foram cinco encontros pré-programados, com temáticas sobre o preconceito, bullying, autoextermínio, mídia e orientação profissional; realizados nas terças feiras entre os meses de setembro e Outubro de 2017.

Os encontros foram separados por temas trabalhados, no primeiro houve a apresentação de cada um, foi tratado o tema das influências digitais e finalizado com um coffee break. O segundo e terceiro encontro abordaram os temas autoextermínio, bullying, preconceito e sexualidade. Os dois últimos encontros focaram a orientação profissional, o feedback do grupo e propiciou aos adolescentes voltarem o olhar para si.

No decorrer dos encontros foi observado o nível de comprometimento de cada participante com o projeto, frente aos desafios da adolescência, os temas trabalhados, a dificuldade de perceber o outro e a falar sobre si mesmo. Um fato interessante foi que mesmo após o término dos encontros alguns participantes voltaram ao serviço de saúde para pedir que houvessem mais encontros, pois gostaram muito da proposta e que também nos mostra a carência de propostas como esta para a comunidade paraminense.

5. Considerações Finais

A partir dessas experiencias oportunizadas pelos Estágios Básicos podemos observar a prática do psicólogo no atendimento à criança, aprendemos como funcionam os programas de saúde para a mulher e criança no município de Pará de Minas e até em outros municípios do Brasil. A saúde pública e a psicologia trabalham juntas muito mais do que imaginávamos e a multidisciplinariedade é muito importante em qualquer tratamento, tornando-o o mais humanizado possível.

As atividades desenvolvidas na instituição de estágio partiram em um primeiro momento da familiarização com o local, integração com os funcionários, orientações com a supervisora, pesquisa e descrição sobre o ambiente físico e sócio histórico. Posteriormente houve uma pequena interação com os pacientes, conhecimento do perfil sócio demográfico dos usuários e suas demandas, bem como as práticas de escuta e intervenção.

As intervenções com os adolescentes foi um momento de muita aprendizagem para nós, pois acreditamos que abordar esses assuntos que permeiam e sempre irão permear a vida deles, possibilita ajuda-los a conhecer a realidade que permeiam e as profissões que imaginam querer seguir.

Esse estágio foi o que mais nos aproximou, até agora, da realidade dos atendimentos no CASMUC e assim como nos estágios anteriores participamos de reuniões e palestras relativas á saúde municipal. Houve também participação em acolhimentos e reuniões de equipe, elaboração e discussão do projeto de intervenção e a aplicação do mesmo com o auxílio da Psicóloga/Supervisora.

É importante frisar que há muitos desafios ainda para serem supridos, principalmente com atendimentos de adolescentes. Pensamos que a inciativa deste trabalho possibilite a ampliação e o interesse de outros profissionais para este assunto, assim como para a integração da Psicologia com a Saúde, bem como para os tipos de intervenções grupais. 

Sobre os Autores:

Eunaihara Ligia Lira Marques - Doutoranda em Ciências da Saúde (IAMSPE), Mestre em Psicologia (UFMG). Especialista em Neuropsicologia (FACINTER). Psicóloga. Professora da Faculdade de Pará de Minas-MG.

Isadora Evelyn Nogueira Martins - Discentes do curso de Psicologia da Faculdade de Pará de Minas-MG.

Letícia Chagas Faria - Discentes do curso de Psicologia da Faculdade de Pará de Minas-MG.

Tainá Dutra de Faria - Discentes do curso de Psicologia da Faculdade de Pará de Minas-MG.

Referências:

CASTRO, E. K. Psicologia Pediátrica: a Atenção à Criança e ao Adolescente com Problemas de Saúde. Psicologia Ciência e Profissão, pp. 396-405, 2007.

COUTO, M.C.V.; DUARTE, C. S.; DELGADO, P. G. G. A Saúde Mental Infantil na Saúde Pública Brasileira: situação atual e desafios. Revista Brasileira de Psiquiátria, pp. 390-398, 2008.

MANUAL DE ESTÁGIOS BÁSICOS CURSO DE PSICOLOGIA-APAM. Versão 2015.

PAULIN, T.; LUZIO, C. A. A Psicologia na Saúde Pública: desafios para a atuação e formação profissional. Revista de psicologia UNESP, 8(2), 2009.

PAPALIA, D. E.; OLDS, S. W.; FELDMAN, R. D. Desenvolvimento Humano. 7ª Ed. Editora: Mcgraw Hill, 2008.

RONCHI, J. P.; AVELLAR, L. Z. Saúde Mental da Criança e do Adolescente: a experiência do Capsi da cidade de Vitória, ES. Psicologia: Teoria e Prática, p. 71-84, Espírito Santo, 2010.

SANTOS, K. L.; QUINTANILHA, B. C.; ARAUJO, M. D., A Atuação do Psicólogo na Promoção da Saúde. Psicologia: Teoria e Prática, v. 12, n. 1, São Paulo, 2010.

SOBROSA, R. et al. O Desenvolvimento da Psicologia da Saúde a partir da Construção da Saúde Pública. Revista de Psicologia IMED, pp. 4-9, 2014.

TRAVERSO-Yépez, M. A Interface Psicologia Social e Saúde: Perspectivas e Desafios. Psicologia em Estudo, pp. 49-56, 2001.

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