Depressão em Policiais Militares: Uma Possível Decorrência das Atividades Laborais

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Resumo: A depressão nos policiais militares em atividades laborais tem sido estudada como um reflexo das condições de trabalho na contemporaneidade, pois esse profissional é conduzido à grande zona de vulnerabilidade diante dessa nova realidade social. Este estudo objetivou avaliar a sintomatologia da depressão e qual o seu nível. Foi realizado na Polícia Militar da região metropolitana, da cidade de Natal/RN, com 47 policiais militares, do sexo masculino, idade entre 23 a 48 anos na função externa entre as seguintes patentes: tementes, subtenentes, capitão, sargento, cabo e soldados que responderam a um questionário sócio demográfico e a Escala Beck (BDI). Os dados apontaram que os policiais militares, apesar de lidarem no seu cotidiano com a violência e a criminalidade, quando avaliados quanto ao fator depressivo, constata-se que as variáveis relacionadas à sintomatologia depressiva não os afetam diretamente, demonstrando a capacidade do profissional em lidar com as questões afetivas, direcionando para um não adoecimento.

Palavras-chave: Atividades laborais, Policiais militares, Depressão;

1. Introdução

Na contemporaneidade o modo de vida e as condições de trabalho têm mostrado um índice elevado de doentes em consequências das atividades desenvolvidas, revelando que o ambiente laboral é um forte potencializador para o adoecimento, principalmente, por se viver em um sistema capitalista.

Na atualidade, com os avanços econômicos, sociais, tecnológicos, entre outros, emergiu também um aumento da violência, criminalidade, roubos, furtos e demais delitos, e com isso o militar é forçado a trabalhar em zona de risco e precisa estar sempre alerta, precisando em muitas situações trabalhar além do seu horário de serviço e em condições muitas vezes inadequadas. Wisner (1994) descreve que nesta realidade as atividades induzem a auto-aceleração mental revelando possíveis sinais de sofrimento psíquico.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) (2007) mostra que aproximadamente em todo o mundo 160 milhões de pessoas adoecem por males coligados ao trabalho. Destes 22 milhões chegam a óbitos todos os anos por decorrência de doenças laborais e acidentes causados pela precariedade na atmosfera do trabalho. Dentro das enfermidades que causam o afastamento ou falecimento do profissional, encontram-se os transtornos mentais que causam sofrimentos psíquicos, entre outros, tem-se, a depressão, ansiedade e síndrome do pânico.

Este estudo se propõe a abordar a depressão, esta atualmente vem sendo discutida a nível mundial. No último relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS 2001) a depressão foi classificada em quarto lugar entre as principais causas dentre todas as doenças e as probabilidades são ainda mais ameaçadoras. Se até 2020 continuar com essa incidência, a depressão estará em segundo lugar perdendo somente para as doenças isquêmicas cardíacas.

2. Desenvolvimento

Segundo Paparounis (2002, p. 26-29), “sem nenhum tratamento preventivo, os médicos dão como certo que vão surgir 2 milhões de novos deprimidos no mundo em cada ano. Só no Brasil, 10 milhões sofrem hoje da doença”. Além de que, segundo Diniz (2007), há um descrédito do brasileiro em aceitarem que exista a depressão enquanto doença. Quando esta doença cerceia o âmbito do trabalho, se torna mais difícil a sua compreensão, sendo muitas vezes, vista de forma preconceituosa por chefes e colegas, fortalecendo esse sintoma como um tabu.

O sofrimento psíquico da depressão manifesta-se sobre forma de tristeza e apatia que atinge o corpo e a alma (POUDINESCO, 2000). Para Baba e colaboradores (1999), a depressão é definida pelo prolongamento de sentimentos negativos e a incapacidade de concentração ou do funcionamento normal. Já Maciel (2000) relata que a depressão é denominada como a “patologia da liberdade” expressando uma falta de tensão entre as forças internas que responde a diversas demandas com que os sujeitos se confrontam.

A depressão aos poucos e sem sinalizar, pode alterar muito o desempenho no trabalho e a qualidade de vida de um sujeito (MORENO, 2005). Os transtornos psicológicos têm aumentado a cada ano na população geral e na força de trabalho esse índice já é preocupante (BOURBONNAIS; CONEAU; VÉZINA; DION, 1998).

Segundo Lafer (2006, p. 31) “a depressão é um transtorno mental grave, de curso episódico, recorrente ou persistente ao longo do tempo, que traz prejuízos funcionais nas esferas psicológicas comportamentais, sociais, familiares e ocupacionais”. Sendo, portanto, uma doença que altera o estado de humor, deixando o sujeito angustiado, desanimado com falta de energia e com muita tristeza, atingindo também os sentimentos e deixando a pessoa em conflito e confuso diante das ideias e pensamentos.

As alterações no mundo do trabalho, acarretadas pelo aumento da internacionalização do capital, adentraram mudanças substanciais em alguns setores do funcionalismo público. A precarização do trabalho, a defasagem de salários e a solicitação por mais segurança causaram um novo fenômeno social.

Os profissionais que exercem a função de proteção e segurança têm suas atividades classificadas como uma das ocupações mais estressantes do mundo (DANTZER, 1987; SELVE, 1984). Essa classificação é organizada diante das funções exercidas e ocupadas (ex. trabalho por turnos e excessos de horas de trabalho), estes profissionais ainda têm que enfrentar risco de vida para si mesmo e para os demais.

O viver contínuo em zona de risco cria fortes tensões desencadeando alguns comprometimentos físicos (ex. doenças cardiovascular, elevado colesterol, gastrite etc.), podendo atingir dimensões psicológicas, relacionadas a transtorno de humor e desordens mentais (VIOLANT et al, 2006; ABDOLLAHI 2002; LAMBERT; GERSONS, 2000; STEPHENS; LANS; FLETT, 1999).

A temática sobre a prática policial e o adoecimento já vem sendo pesquisada por diversos autores, abordando, por exemplo, as percepções sobre o ingresso na carreira policial (MENANDRO; SUZA, 1996); o estresse e o comportamento em policias militares (OLIVEIRA; BARDAGI, 2009; COSTA, 2007).

Os profissionais da área militar vivem em grande zona de risco no seu cotidiano, pois eles são responsáveis pela ordem, funcionamentos e segurança da sociedade e com tamanha responsabilidade e rigidez que o militar é obrigado a viver diariamente, pode-se perceber um grande número de militares adoecendo a cada ano (KAPLAN; SADOCK, 1984). No Brasil, a criminalidade e a violência têm aumentado e perante essa nova realidade fez-se necessário estudar e pesquisar o processo e organização do trabalho militar, que é de suma importância para a sociedade. Porcione (2005) relata que as políticas adotadas para policia civil e militar é inerme no combate a essas situações.

Os indivíduos que prestam serviços em caráter permanente ou transitório nas companhias de polícia são titulados como servidores militar. Desta forma, caracterizam-se como profissionais que desenvolvem suas funções nas esferas estaduais ou federais, sendo pago para realizar as atividades laborais. Gaparini e Jesus (2001) relatam que para o bom desempenho profissional, o policial militar deve compreender o conjunto de tarefas a ela confiada e não se abster de cumprir a determinações, mesmo que isso gere uma implicação em algum dilema ideológico pessoal.

Para o policial militar a sua função não é apenas quando o mesmo encontra-se de serviço, ele está sempre em alerta até no seu período de folga. O policial é um defensor da sociedade e por esse motivo em sua função o mesmo precisa confrontar a conduta irregular ou criminosa da sociedade (MARABETE, 1998; GUIMARÃES, 1999).

Os policias são influenciados o tempo todo por diversos fatores negativos que geram depressão, estresse, ansiedade, etc. O cansaço físico e mental e a falta de equilíbrio emocional conduzem esse profissional a assumirem, em alguns momentos, atitudes inconsequentes durante situações confusas. Com essa realidade o desempenho do policial poderá ser comprometido expondo ainda mais a vida do militar e da população a um perigo em potencial.

Além do perigo potencial que a prática do policial acarreta para si mesmo e a população, a morte é uma realidade constante na vida desse profissional, visto que o mesmo precisa lidar com a morte das vítimas, dos bandidos, dos companheiros de farda e com a possibilidade de sua vida ser ceifada a qualquer momento durante o confronto (VALLA, 2002).

Na profissão policial é de grande importância que o trabalhador tenha um ambiente familiar saudável e horas para descanso e lazer, pois, isto melhora bastante a qualidade de equilíbrio mental, já que atividade exercida é tão perigosa. Mas a maioria dos policias militares prestam serviços nos dias de folga, como forma de aumentar a renda familiar (ASSIS; MINAYO 1999; SOUZA; CONSTANTINO, 2007). O trabalho extra é exercido de forma paralela com as atividades da corporação, com essa escolha ou necessidade o policial fica com maior probabilidade do desgaste físico e mental.

Souza e Minayo (2005) relatam que o índice de agravos à saúde física e mental dos policias militares é altíssimo. Com isso, os policiais têm maiores possibilidades a acidentes e violência que podem acarretar à morte prematura. Esse fato gera sofrimento psíquico diminuindo o vigor da atuação no trabalho (PORTO, 2004).

O sujeito em atividades laborais que tem no seu cotidiano vulnerabilidade é necessário uma maior atenção, pois em seu exercício o mesmo poderá vir a sofrer psicologicamente ou ter sintomatologia depressiva e se faz necessário um olhar diferente a fim de transformá-lo e reorganizá-lo de forma mais favorável diante do processo de trabalho.

A depressão nesse contexto é resultado da influencia mútua que o policial recebe diante da interação vivenciada por ele, através do meio interno e externo que é obrigado a conviver diariamente, é isso se abrolhar através da percepção que o sujeito traz diante da capacidade de resposta e enfrentamento (DEJOURS, 1992; LIPP, 1996).

O sofrimento psíquico pode ser percebido como uma variação entre as demandas do trabalho e a capacidade de resposta dos trabalhadores. Fatores depressivos em um ambiente de trabalho onde existe um grau de enfrentamento, a violência, morte, cumprimento de ordens, longas jornadas de trabalho, recursos escassos, insatisfação com a atividade e o salário, exposição ao sofrimento da população e a problemas pessoais, é um grande facilitador ao sofrimento ou distúrbios psíquicos e, para os policiais militares todos esses fatores estão presentes (LIPP; PERREIRA; SADIR, 2005; MINAYO; SOUZA, 2003; ROMANO, 1996).

A depressão pode se estabelecer pelo episódio de que o sujeito não consegue figurar uma saída para suas dificuldades (HOLMES, 1999). Na depressão aparecem alguns sintomas que varia de indivíduo para indivíduo: tristeza persistente, ansiedade ou sensação de vazio, desesperança, pessimismo, sentimento de culpa, inutilidade, desamparo, perda do interesse ou prazer em atividades que anteriormente causavam prazer, insônia, perda de apetite e/ ou peso, ou excesso de apite e ganho de peso, diminuição da energia, fadiga, sensação de desânimo, ideia de morte ou tentativa de suicídio, inquietação, irritabilidade, dificuldade para concentra-se, recordar e tomar decisões, sintomas físicos e persistentes quer não respondem a tratamento; por exemplo, dor de cabeça, distúrbio digestivo e dor crônica (LAFER, 2006).

A depressão é uma doença mental que tem a tristeza marcada ou prolongada como uma particularidade, apresentado falta de interesse por trabalhos rotineiros antes agradáveis (BAHLS, 2002).

Apresentar sentimentos depressivos é comum, especialmente após experiências ou mesmo em ocorrências que afetam os sujeitos de forma negativa. Porém, se os sintomas se penduram por mais de duas semanas sucessivas, deve-se buscar ajudar (MENESES; NASCIMENTO, 2002).

A depressão pode afetar os sujeitos de qualquer faixa etária, desde a infância à terceira idade, e se não for identificada e tratada, pode acarretar ao suicídio, uma consequência quem tem se tornado comum (BAHL, 2002).

As perturbações depressivas podem ser episódicas, recursivas ou crônicas e acarreta a redução sintética da competência do indivíduo em afirmar as suas responsabilidades do dia a dia. Consistindo assim, os sintomas podem durar meses a anos. No entanto, em cerca de 20% dos episódios torna-se uma doença crônica sem remissão. Estes casos devem-se, basicamente, à falta de tratamento adequado (OLER et. al, 2005).

Segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID 10) a depressão pode ser classificada da seguinte forma:

  • F32     Episódios depressivos
  • F32.0  Episódios depressivos leve
  • F32.1  Episódios depressivos moderado
  • F32.2  Episódios depressivos grave sem sintomas psicóticos
  • F32.3  Episódios depressivos grave com sintomas psicóticos
  • F32.8  Outros episódios depressivos
  • F32.9  Episódios depressivos não especificado
  • F33.0  Transtorno depressivo recorrente, episódio atual leve
  • F33.1  Transtorno depressivo recorrente, episódio atual moderado
  • F33.2  Transtorno depressivo recorrente, episódio atual grave sem sintomas psicóticos
  • F33.3  Transtorno depressivo recorrente, episódico atual grave som sintomas psicóticos
  • F33.4  Transtorno depressivo recorrente, atualmente em remissão
  • F33.8  Outros Transtorno depressivo recorrente
  • F33.9  Transtorno depressivo recorrente sem especificação
  • F34.1  Distimia
  • F38.1  Outros transtorno do humor (afetivos) recorrentes
  • F38.8  Outros transtorno especificados do humor (afetivos)
  • F39     Transtorno do humor (afetivo) não especificado

Uma das potencialidades da depressão no trabalho do policial pode estar relacionada à limitação que a cultura militar submete pessoas quanto às revelações de suas angústias, frustrações e emoções. Essa exigência se torna mais grave nos policiais, pois se não há espaço para tais revelações serem expostas e trabalhadas, possivelmente esses sintomas podem passar a prejudicar diante das atividades de risco.

Os policiais convivem com os riscos reais e imaginários na profissão. Sendo assim o sofrimento e a depressão apresentam perigos e podem desencadear respostas de alerta ou levar a morte.

O policial militar recebe muitas críticas diante da sua atuação, por ser alguém que promove segurança pública. Diante dessa realidade, este estudo tem como finalidade observar os aspectos que atravessam a saúde mental no que diz respeito à depressão nos policiais militares, sujeitos que colocam muitas vezes suas vidas em risco em prol do bem estar e proteção do cidadão em geral.

Diante da realidade contemporânea a depressão nos profissionais militares vem ganhando atenção dos pesquisadores e um olhar especial da psicologia, uma vez que a profissão do policial militar é considerada de grande importância para a sociedade e diante das considerações levantadas, entende-se a hipótese de que os profissionais militares em diferentes atuações podem ser vitimas do cansaço físico e mental. Diante da percepção que os policiais da força tática e de rua têm acerca dos fatores externos que permeiam sua saúde mental, foi pensado este estudo, com o objetivo de identificar a incidência de sintomatologia depressiva no contexto do trabalho militar.

3. Metodologia

Tratou-se de um estudo de campo, de caráter quantitativo do tipo descritivo-exploratório, realizado em 03 comandos da Policia Militar com 47 policiais entre as patentes de Capitão, subtenentes, sargentos, cabo e soldados. Utilizou-se como instrumentos um Questionário sócio demográfico que teve o objetivo de investigar o perfil dos policias e a Escala de Beck, Inventário de Depressão Beck (BDI) que foi desenvolvida por Ward et al (1960) e revisada por Beck et al (1982). Para Cunha (2011), esta escala consiste em um questionário composto por 21 itens, que incluem atitudes e sintomas cuja intensidade varia de 0 a 3, e que estes se referem à sensação de diversos tipos como, distúrbio do sono, fadiga e perda de apetite. A partir da aplicação desses instrumentos pretende-se analisar se há sintomatologia da depressão ou não e qual seu nível.

Os dados foram analisados através de estatísticas descritivas, com o intuito de descrever as características de determinada população (HANDEM et al, 2008), por meio de instrumentos psicológicos. 

4. Procedimento

Após a liberação dos comandos para aplicação dos instrumentos, onde foi agendado o dia e local, os policiais responderam os questionários em um local similar a uma sala de aula.  Garantimos o direito de recursa (participação voluntária), o anonimato e a segurança, que as devidas, informações só serão utilizadas para o estudo solicitado.

Em respeito às Diretrizes e Normas Reguladoras de pesquisa Envolvendo Seres Humanos (Resolução CNS 196/96), foi disponibilizado aos participantes da pesquisa um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), o qual foi assinado após exposição e esclarecimento por parte dos pesquisadores acerca da natureza da pesquisa, seus objetivos, métodos, formulado no terno de consentimento e autorizado sua participação voluntária na pesquisa.

5. Resultados

Neste item encontram-se descritos os resultados obtidos com o estudo. No que se referem aos dados sócios demográficos, estes estão descritos nos Gráficos 01, 02, 03, 04, 05 e 06. Já os dados referentes à Escala Beck – BDI encontram-se descritos nos gráficos 08 e 09.

Gráfico 01 – Dados sócios demográficos sobre a  faixa etária

Gráfico 01 – Dados sócios demográficos sobre a faixa etária.

Fonte: Dados da pesquisa (dezembro/2012).

No gráfico 01 encontram-se os dados referentes à faixa etária dos participantes. Percebe-se que a grande maioria dos policiais do grupo pesquisado está na faixa etária acima de 30 anos o que corresponde cerca de (43%). Com 38% encontram-se os participantes que estão na faixa etária acima dos 40 anos e com 19% os participantes que estão abaixo dos 30 anos.

Levando em consideração o Gráfico 04, que trata das patentes dos participantes, pode-se concluir que os militares acima de 30 anos, na sua maioria fazem parte dos cargos mais elevados desse grupo de estudo como: sargento, tenente, capitão. Ainda correlacionando com o Gráfico 04, se deduz que o grupo abaixo de 30 anos, formam o quadro de praças dos policiais militares, sendo um número significativo da corporação militar pesquisada.

Gráfico 02 – Dados sócios demográficos sobre  estado civil

Gráfico 02 – Dados sócios demográficos sobre estado civil.

Fonte: Dados da pesquisa (dezembro/2012).

Observa-se no gráfico 02, a descrição dos dados referentes ao estado civil dos participantes, constatando-se uma predominância de casados (72%) na população pesquisada, seguida dos solteiros (26%) e divorciado (2%).

Percebe-se que muitos permanecem na categoria de soldados, após longo período de prestação de serviço como prestadores de segurança para a população. Isso se dá porque muitos iniciam sua carreira militar como solteiro e com o passar dos anos passa seu estado civil para casado constituindo assim, sua família e muitos não procuram fazer concurso interno para elevação de sua patente ficando assim, por longos anos como praças da policia militar.

Gráfico 03 – Dados sócios demográficos sobre  escolaridade.

Gráfico 03 – Dados sócios demográficos sobre escolaridade.

Fonte: Dados da pesquisa (dezembro/2012).

O gráfico 03, revela o nível de escolaridade dos participantes, onde 79% tem como grau de escolaridade o ensino médio completo, relacionando esses dados com o Gráfico 04, sobre as patentes dos participantes, deduz-se que esse contingente é compatível com a patente de soldado. Para os que possuem a escolaridade de superior incompleto a porcentagem é de 15% apenas e os que possuem escolaridade de curso superior completo são de 17%.

É importante ressaltar que para ingressar nas companhias de policia militar se faz necessário ter no mínimo a escolaridade em nível de ensino médio, e para tal, a patente oferecida é a de soldado, contingente maior dos participantes desta pesquisa, conforme o gráfico 04. Para uma patente mais elevada se faz necessário um grau de escolaridade maior e seguido de um novo concurso público (www.pm.rn.gov.br/).

Gráfico 04 – Dados sócios demográficos sobre  patentes.

Gráfico 04 – Dados sócios demográficos sobre patentes.

Fonte: Dados da pesquisa (dezembro/2012).

O gráfico 04, descreve as patentes dos participantes deste estudo. 72% são de soldados, 11% de cabos, 11% de sargentos, 4% de tenentes e 1% de capitão. A predominância de soldados (72%), conclui-se que é a patente dos que exercem suas funções diretamente em confronto com as demandas da sociedade no seu dia a dia de trabalho.

A Polícia Militar é uma grande pirâmide, cujo vértice é ocupado pelo superior em torno do qual se vão dispondo em graus.  A hierarquia torna a Polícia Militar mais sólida e ressalta o poder, comenta o Comandante Maj. Irineu Ozires Cunha. A forma de trabalho na polícia militar é hierarquizada, e esta se faz indispensável, pois ao se trabalhar com companhias e tropas militares, estas devem agir conforme as regras do comando, daí a importância das patentes para transmitirem essas regras numa comunicação uníssona. Sendo comum nos Batalhões a predominância da patente de soldado. (www.pm.rn.gov.br/).

Gráfico 05 – Dados sócios demográficos sobre  tempo de serviço

Gráfico 05 – Dados sócios demográficos sobre tempo de serviço.

Fonte: Dados da pesquisa (dezembro/2012).

No gráfico 05, constata-se que o percentual foi significativamente elevado para o que tem maior tempo na instituição (64%), revelando um contingente já experiente profissionalmente. Acima de 05 anos de serviço, temos um total de 19% e de 17% aqueles que se encontram abaixo de 05 anos na prática policial.

Foi possível observar em umas das aplicações do BDI, que os servidores que fazem parte do grupo que se encontra com maior tempo de serviço na corporação, começam a integrar e formar grupos com a finalidade de quebrar um pouco a rotina do militarismo centrado nas reuniões internas. Como por exemplo, um grupo de militares, formado entre as categorias de soldados e sargentos, contracenando histórias de cultura geral brasileira, como forma de aliviar tensões diante de novas ordens superiores.

No dia em que assistimos a apresentação desse grupo teatral, os militares tinham acabado de receber as novas ordens e diretrizes para o novo porte de arma institucional e essas novas modalidades deixou o grupo bem agitado. O comandante daquela unidade após expor todas as ordens recebidas do seu superior, como forma de “acalmar” sua equipe fez o seguinte comentário: “Vamos assistir e prestigiar um grupo de companheiro que se disponibiliza em suas horas vagas a ensaiar para realizar apresentações aliviando um pouco nossas reuniões”. No inicio da apresentação um dos integrantes do grupo teatral relatou que esse grupo é o primeiro do Brasil formado em sua totalidade por servidores militares e que existe também em outras cidades, porém com participações de civis e uma pequena amostra de militares na formação de seus grupos cênicos.

Gráfico 06 – Dados sócios demográficos sobre  religião

Gráfico 06 – Dados sócios demográficos sobre religião.

Fonte: Dados da pesquisa (dezembro/2012).

No gráfico 06, encontra-se o perfil de religião dos participantes, constata-se que o catolicismo é predominante cerca de (51%), seguido dos evangélicos com 34%, sendo que 2% afirmam professar a religião espírita e 13% outros credos. Os percentuais elevados de católicos e evangélicos na amostra estudada podem ser explicados pela própria estrutura da polícia militar que exige nos comandos, a obrigatoriedade de dois oficiais titulados de capelão, onde um seja Sacerdote Católico Apostólico Romano e o outro Pastor Evangélico Cristão (www.pm.sc.gov.br).

5.1 Escalas Beck de Depressão – BDI

O inventário de depressão de Beck - BDI admite a medida da autoavaliação de depressão mais utilizada. No Brasil sua tradução e validação foram realizadas por Goreinstein e Andrade (1998).

O BDI é formando por 21 questões que avaliam a presença de sintomas depressivos, em relação da semana anterior á aplicação do teste. Cada questão é composta por quatro alternativas, as quais apresentam traços que caracterizam o conjunto depressivo. Como exemplo:

  • (0) Eu não me sinto triste
  • (1) Eu me sinto triste
  • (2) Eu me sinto triste todo o tempo e não consigo sair desta situação
  • (3) Eu me sinto tão triste ou infeliz que não consigo suportar

Para avaliar o resultado, um valor de 0 a 3 é determinado para cada resposta e o resultado final é comparado para determinar a severidade ou não do quadro depressivo, tendo como itens a tristeza, pessimismo, sentimento de fracasso, insatisfação, ideias suicidas, choro, irritabilidade, retraimento, indecisão, mudança na autoimagem, dificuldade de trabalhar, insônia, fatigabilidade, perda de apetite, perda de peso, preocupações somáticas e perda da libido. A aprovação brasileira foi realizada com cinco mil casos, propondo o seguinte resultado:

  • 00 a 11- mínimo
  • 12 a 19 - leve
  • 20 a 35 - moderado
  • 36 a 63 - grave

As alternativas alteram entre zero (ausência de sintomas depressivos) a três (presença maior de sintomas depressivos); a escala aceita um escore de 0 a 63, sendo que os valores conferidos aos itens foram somados, exceto o item 19 que apresenta uma resposta secundária, neste caso, quando respondido sim, o item não foi considerado.

No gráfico 07, encontram-se descritos os escores gerais, que inferem a presença de sintomatologia depressiva, nos participantes do estudo.

Gráfico 07 – BDI

Gráfico 07 – BDI.

Fonte: Dados da pesquisa (dezembro/2012).

Os dados constantes no gráfico 07 descrevem a ocorrência de sinais de depressão por meio do BDI. Foi realizada a soma dos pontos de cada questão por indivíduo, que posteriormente foram classificados, segundo o Manual da Escala de Beck.  Dos 47 policias investigados 66%, representou sintomatologia mínima, 17%, representaram leve, 15% representaram moderadas e 2% representaram como grave. Ao contabilizarmos do nível leve ao grave, que são indicativos de sintomatologia depressiva, totalizando 34%, o que nos faz concluir que já emerge uma presença de sintomatologia depressiva.

O policial tem uma rotina muito agitada onde o desgaste geral do organismo poderá leva-lo a um estresse muito elevado, causado por alterações psicofisiológicas fazendo com que os mesmos possam enfrentar as situações de risco que de uma forma ou de outra, o irrite, amedronte, excite ou confunda, ou mesmo o faça feliz (LIPP, 1986).

Os policiais militares em atividades poderão adoecer em suas funções, isso é decorrente diante do contato direto com a violência, quanto das distintas vivências relacionadas ao trabalho (AMADOR; SANTORUM; CUNHA; BRAUM, 2002).

A segurança pública desperta preocupações e se torna uma questão que apreende a toda a população. Respectivamente, é vista e catalogada sem levar em conta a historia de vida do policial, e suas encostas psicológicas diante do mundo, pois os mesmo são visto como pessoas que jamais poderão demonstrar fraqueza, esquecendo a sua subjetividade, e que os mesmos são seres humanos como qualquer outro, submetidos aos mesmos sofrimentos e doenças como qualquer cidadão. Com isso o policial tem sua vida emocional e afetiva sem dar muita importância, tendem a não permitir que seus sentimentos ou emoções atrapalhem o seu desempenho.

Além disso, Adorno (1999) afirma que a cultura organizacional da policia militar pode ser considerada uma cultura de violência, pois dependendo da atitude de cada profissional, podem ocorrer profundos danos à saúde mental entre os servidores das companhias militares. Seguindo essa premissa, Minayo e Souza (2003) afirmam que as condições de trabalho e a grande vulnerabilidade que os mesmo encontram no seu exercício imputam-lhes um grau de sofrimento que poderá desencadear a ruptura do equilíbrio psíquico, acrescentando ainda que se faz necessário “ações direcionadas à capacitação dos militares, com ênfase na sua motivação e no seu bem-estar” (MINAYO; SOUZA, 2003, p. 338).

Segundo Mendes (2003), ainda, há pouco interesse em estudos sobre o policial. Essa ausência pode ser reflexo de um ressentimento de origem que acabou por colocar a sociedade e estudiosos em oposição aos agentes da segurança pública, o que foi potencializado durante a ditadura militar no Brasil. Mendes (2003) ainda relata que a consideração da segurança pública como questão democrática e objeto da ciência social vem se concretizando aos poucos a partir de 1990.

No entanto o estudo revelou que a maior parte dos participantes desta pesquisa, os policiais militares encontram-se com níveis de sintomatologia depressiva mínima, ou seja, quase inexistente, demonstrando o quanto é satisfatório esse resultado, uma vez que para a prática do policial, o mesmo encontrar-se constantemente em risco e não possuir um transtorno de humor possibilita um melhor desempenho nessa prática.

Mesmo sendo observado que as condições oferecidas pelo estado para os trabalhadores públicos não tem uma qualidade na sua infraestrutura que ajude melhor no desempenho para execução de suas atividades, os militares conseguem desenvolver suas funções sem grandes prejuízos psíquicos e emocionais, mesmo vivendo diariamente em zona de grandes conflitos e risco para consigo e seus companheiros, os mesmos estão lidando bem com essas demandas da sociedade contemporânea.

No que se refere à descrição das características isoladas do BDI, estas estão descritas no gráfico 08.

Gráfico 08 – Itens dos níveis de depressão

Gráfico 08 – Itens dos níveis de depressão.

Fonte: Dados da pesquisa (dezembro/2012).

No que se refere ao gráfico 08, constata-se que ao analisar os itens do BDI isoladamente, alguns indicadores demonstram percentuais significativos para a depressão, como irritabilidade (49%), insatisfação (28%), pessimismo (28%), preocupações somáticas(45%), perda de apetite (30%) e insônia (38%), apesar de na forma geral, conforme o gráfico 7, não ter dado indicativo de sintomatologia depressiva, os dados demonstram que, os participantes desta pesquisa, já apresentam características, mesmo que isoladas, indicativas de sintomatologia depressiva, que não trabalhadas, podem posteriormente serem indicativos de adoecimento.

Ressalta-se que esses indicadores encontrados isoladamente e de forma geral demonstram que os sujeitos da pesquisa têm um controle na sua realidade profissional, mesmo sendo um serviço que gera grandes índices de estresse, os mesmos tem a capacidade de lidar com esse desgaste emocional evitando com isso um adoecimento em suas atividades laborais.

6. Considerações finais

Nesta pesquisa, buscou-se identificar em 03 comandos da Policia Militar em Natal e grande Natal/RN a presença ou não de sintomatologia depressiva diante das atividades laborais exercidas pelos servidores públicos.

Para coleta de dados foi usado um questionário sócio demográfico juntamente com o inventário de depressão de Beck (BDI) como instrumento de coleta dos dados, como forma de apontar que em suas vivências de trabalho que os mesmos poderão ou não a vir a desenvolver um transtorno de humor.

O presente estudo, buscou identificar os níveis de sintomatologia depressiva encontrada nos policiais militares dos 3 comandos, além de verificar variáveis e outros aspectos pessoais e do trabalho como tempo de serviço, área de atuação, idade, escolaridade, patente e religião, Os resultados   foram semelhantes entre os comandos. O que nos faz pensar que os policias militares tem a sua disposição estratégia para lidar com os eventos estressores.

As pesquisas que envolvem policiais militares no que diz respeito às atividades laborais, são voltadas em sua grande maioria os fatores de risco a saúde, como o estresse em situação de urgência e emergência, poucos são os estudos encontrados em relação à corporação Militar, como também em relação a depressão, apesar da prática desenvolvida pelos policiais serem de risco e geradoras de vulnerabilidades física e emocionais.

Pode-se observar, pelos resultados encontrados, que o instrumento utilizado para avaliar a sintomatologia depressiva em policiais militares é estável. Os valores do BDI encontrados revelam bons indicadores da superação dos servidores militares diante da vulnerabilidade encontrada no dia a dia na função de prestadores de serviços a sociedade.

Os resultados mostraram que os policias militares, apesar de lidarem no seu cotidiano com a violência e a criminalidade, quando avaliados quanto ao fator depressivo, constata-se que as variáveis relacionadas à sintomatologia depressiva não os afetam diretamente, demonstrando a capacidade do profissional em lidar com as questões afetivas, direcionando para um não adoecimento.

Muitos aspectos desse estudo precisam ser melhorados, mas essa pesquisa se mostrou muito favorável na caracterização diante das atividades dos servidores de segurança pública perante o transtorno de humor. Os policiais militares precisam de mais atenção à saúde como forma preventiva, pois dessa forma estarão sendo protegidos e ganharão mais qualidade de vida, e com isso o próprio estado estará com servidores militares mais dispostos a viver os conflitos existentes na sociedade contemporânea.

Essa pesquisa traz como efeito uma indicação que a saúde do policial em relação ao transtorno de humor é satisfatória, porém se faz necessária estratégia de melhoramento diante das atividades desenvolvidas e exercidas, pelos mesmos, pois os níveis de alteração de humor são evidentes diante das ocorrências vivenciadas pelos servidores militares e com isso poderá levar ao adoecimento sim, desse profissional a médio e longo prazo.

Sobre os Autores:

Adriana da Câmara Costa - Graduanda em Psicologia pela Universidade Potiguar – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Ionara Dantas Estevam - Orientadora. Doutora em Psicologia. Professora da UnP – e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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