Envelhecimento, Promoção de Saúde e Políticas Públicas: um estudo sobre os moradores da Vila dos Idosos

(Tempo de leitura: 13 - 25 minutos)

Resumo : Esta pesquisa teve  como objeto um projeto piloto  implantado no município de São Paulo.Um conjunto habitacional residencial, que  oferece moradia para  idosos, acompanhados ou não de seus familiares. O objetivo foi  analisar o desenvolvimento de políticas públicas de habitação como forma de garantia dos direitos de autonomia dos idosos. Entrevistamos  nove , moradores do conjunto habitacional, escolhidos aleatoriamente, de ambos os sexos . Após análise das entrevistas, entendemos queo projeto  implantado em São Paulo, atende á necessidade de moradia, lazer,  e convivência social. No  entanto, não há infra-estrutura de apoio, como padarias, açougues, supermercados, farmácias, etc..., próximos ao local . O residencial , é um projeto piloto, sujeito a eventuais falhas a serem superadas em projetos futuros, mas mostra um caminho seguro no sentido de atender as principais demandas oriundas da 3ª idade.
Palavras –Chave : Envelhecimento, Promoção de Saúde, e Políticas Públicas 

Introdução

A ONU (Organização das Nações Unidas) considera o período de 1975 a 2025 como a Era do Envelhecimento. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), são considerados idosos os sujeitos com 60 anos de idade ou mais, conforme determinação da ONU, estabelecida em assembléia realizada em Viena em 1982. Entre os 45 e 59 anos, temos a idade média da fase adulta; entre 60 e 74 anos, considera-se  a fase  como característica das pessoas idosas; dos 75 aos 89 anos, a fase considerada como velhice; e, a partir dos 90 anos, a grande velhice (VIEIRA, 1996).

TEIXEIRA (2002), analisa que a longevidade provoca a perda de autonomia, devido à imagem negativa da velhice, somada a perdas funcionais, fisiológicas, psicológicas e sociais. Além disso, os fatores sociais são causa importante  das patologias orgânicas a que os idosos estão expostos, que podem levar a morte, tais como viuvez e a aposentadoria. A  perda dos vínculos sociais, a solidão e a inatividade física, contribuem significativamente para configurar o quadro da velhice. Por tais condições, a autora buscou investigar de que forma a participação de pessoas idosas em programas que valorizam o envelhecer, favorece a inclusão e contribuem para a valorização positiva do idoso, concluindo que esta participação favorece a autonomia, pois os grupos funcionam como uma rede de apoio psicológica e social que pode ser benéfica tanto para o idoso como para a sociedade.

Por outro lado, uma das características do envelhecimento consiste na transformação de adultos saudáveis em adultos frágeis .Com o passar dos anos, há uma forte tendência ao depauperamento dos sistemas fisiológicos do ser humano, assim como um maior risco de doenças e  morte. Como o idoso perde potencial, especialmente para seus afazeres diários, os asilos são vistos pela família como uma importante solução, muito embora estes lugares tragam vários aspectos negativos. É evidente que essa deveria ser a última opção a ser considerada , por isso, faz-se necessário estabelecer novas metas para o sistema de saúde, no sentido de  garantir autonomia , independência e qualidade de vida para o idoso (NAVARRO e MARCON, 2006). Desta forma, urge a necessidade de buscar políticas públicas, principalmente as que possam atender as demandas de moradia desta população.

Considerando a relação entre três fatores: envelhecimento, promoção de saúde e políticas públicas , esta pesquisa teve como objeto de estudo um projeto piloto  implantado no município de São Paulo. Trata-se de um conjunto habitacional que  oferece moradia para os idosos, acompanhados ou não de seus familiares. Ao conhecer mais sobre este projeto, analisamos  se esta experiência de fato  promove autonomia e melhoria da qualidade de vida para os residentes no local.

O  residencial é exclusivo para pessoas acima de 65 anos, adequado  às necessidades físicas dos moradores, com portas mais largas, áreas de acesso fácil, barras nas paredes dos banheiros para oferecer mais segurança e evitar acidentes, altura das janelas e pisos adequados, e elevadores.São 145 apartamentos distribuídos em quatro pavimentos, com 88 quitinetes de 29m² e 57 apartamentos com  43m².Desse total, 16 quitinetes e 9 apartamentos estão localizados no piso  térreo e  foram planejados para pessoas  com dificuldade de locomoção, facilitando a circulação de cadeiras de rodas.

O preço do aluguel varia de acordo com a renda familiar , a maioria paga 10% do valor do salário mínimo , arcando também com as despesas de luz, gás e condomínio, que foram avaliados em R$ 40,00. Para a seleção dos moradores são utilizados  como critérios: ter acima de 65 anos, possuir renda de até três salários mínimos e residir  há mais de quatro anos na cidade. As pessoas com deficiência física e com mobilidade reduzida tiveram prioridade na seleção, assim como as pessoas que vivem sozinhas  ; no caso do único idoso da casa falecer, os familiares terão de se mudar, visto que a procura por uma moradia no residencial é grande.  (www.prefeitura.sp.gov.br).

Promoção de saúde e o envelhecimento ativo

A Política Nacional do Idoso (Lei n. 8.842, de 4 de janeiro de 1994) tem como base a promoção do envelhecimento saudável, integrando as mais diversas áreas sociais. Envelhecer bem é o ideal que todas as pessoas buscam, desta forma, é preciso que haja melhores condições de saúde, segurança e oportunidade para que essas pessoas participem da sociedade de acordo com o seu desejo, capacidade ou necessidades e, ao mesmo tempo, é necessário que o Estado crie uma rede de proteção a essa população.

A base é fortalecer a idéia de autonomia dos sujeitos e dos grupos, é reforçar a idéia de o sujeito cuidar de si mesmo e diminuir a tarefa do Estado (SANTOS et al, 2008).

Políticas públicas para idosos

Siqueira (2007), analisando os resultados de uma pesquisa realizada pelo SESC/Fundação Perseu Abramo, aponta que, apesar das inúmeras políticas públicas destinadas a amparar os idosos brasileiros, ainda existem necessidades específicas que não foram contempladas , e/ou se foram, não estão sendo postas em prática, seja pela ineficiência dos serviços públicos, seja por desinformação do idoso.

As políticas públicas de saúde e de renda são importantes para uma avaliação mais positiva de qualidade de vida na velhice. A renda dos aposentados, de modo geral, é gasta em alimentação, moradia e medicamentos, por isso, a gratuidade do transporte público é um facilitador para que o idoso tenha acesso ao lazer, normalmente em eventos promovidos pela sociedade civil.

No quesito saúde, para a população idosa é de vital importância, pois a grande maioria declara ter alguma doença, especialmente crônicas e incapacitantes. Os homens são menos vulneráveis do que as mulheres, isto porque os homens morrem, em média, 7 anos mais cedo do que as mulheres e muitos não procuram assistência médica preventiva. Em contrapartida, as mulheres sofrem mais com doenças degenerativas e incapacitantes. A pesquisa revela que no item prevenção à saúde, vacinas, parar  de fumar e nutrição adequada são os itens mais mencionados pelos idosos. A Política de Saúde do Idoso visa priorizar a prevenção como forma de promover a autonomia, e vê no Programa Saúde da Família, a principal forma de prevenção e atenção à saúde do idoso (SIQUEIRA, 2007).

No âmbito relações familiares, a pesquisa mostrou que as famílias dos idosos, são pequenas, na grande maioria composta de duas pessoas; é grande também o número de idosos que vivem sozinhos e, dentre eles, as mulheres são maioria, os homens normalmente são casados e vivem com suas esposas. Para a autora, as políticas públicas no Brasil centralizam na família a obrigação de cuidar dos idosos, isto porque entende que a família é a base do estado, bem como fonte de referência identitária e emocional para o idoso.

Quando se trata de residência em instituições de longa permanência (asilos), isto quase sempre tem como motivo a impossibilidade da família de arcar com a responsabilidade imposta pelo Estado de cuidar do idoso, devido a falta de condições econômicas e  sociais. Tal fato reforça a necessidade de uma política digna no que tange a este tipo de instituição. Debert e Simões (2006 apud SIQUEIRA 2007) alertam que conferir às famílias a responsabilidade pelo cuidado com o idoso, é uma forma do setor público se eximir da falta de investimento em setores institucionais que garantam dignidade ao idoso, e que as instituições públicas e privadas devem ser capazes de garantir atenção e cuidado na velhice como forma de manter a independência financeira e a autonomia dos idosos perante os filhos, permitindo uma relação mais afetiva e prazerosa entre gerações.

As discussões apresentadas acima revelam a urgência na adoção de políticas publicas capazes de garantir os direitos sociais, econômicos e culturais dos idosos. O Estado deve fortalecer as administrações municipais, já que é através delas que se dá a execução e prática das políticas propostas no Estatuto do Idoso.

O objetivo desta pesquisa foi  analisar o desenvolvimento de políticas públicas de habitação como forma de garantia dos direitos de autonomia dos idosos, visando conhecer, de modo profundo e abrangente, a singularidade de cada situação analisada, para isso, foram  aplicadas  entrevistas semi-estruturadas com os idosos  moradores do residencial.

Foram selecionados,  nove moradores escolhidos aleatoriamente, de ambos os sexos (4 do sexo masculino e 5 do sexo feminino), tendo como critérios de inclusão, a idade acima de 65 anos e que residam sozinhos. A amostra foi dividida em dois grupos: 5 idosos que residam no local desde o início do projeto (2007) e 4 idosos que residam há  menos de um ano (a partir de 2009).

Discussão dos Resultados

A partir dos resultados encontrados, partimos para a seleção das unidades mais significativas ; articulando as unidades de significado encontradas, com a bibliografia consultada para a pesquisa.

  1. Projeto residencial para idosos :

Em relação à avaliação que os pesquisados fazem do residencial , constatamos que, de fato, ela atende a necessidade não só de moradia, mas também de segurança, promoção de saúde, integração social, lazer e diversão, proporcionando àqueles que ali vivem mais dignidade e autonomia, mostrando-se como uma opção viável, em contraposição ao asilamento.

Tendo como base a Política Nacional do Idoso (Lei 8.842 de 04/01/1994), a qual afirma  que “Envelhecer bem é o ideal que todas as pessoas buscam”, consideramos que isto está amplamente contemplado neste residencial.

“(...) Eu adoro isso aqui! Porque aqui eu tenho vida” (S.2).

“(...) Eu só saio daqui no dia que Deus me chamar (...) ” (S.3).

Para os autores Navarro e Marcon (2006), é urgente a necessidade de buscar políticas públicas, principalmente as que possam atender as demandas de moradia e que possam oferecer condições dignas para a população idosa.

“(...) Olha eu, por exemplo, moro num apartamento, (...) tem uma bela de uma sala, tem a cozinha, um banheiro grande, corredor e quarto” (S.1).

Alguns idosos relatam que o caminho é árduo para chegar a morar no residencial. Alguns ficaram mais de 6 anos na fila, aguardando para ser chamados.

“(...) Desde que pôs a primeira pedrinha, (...) que eu queria vir pra cá...” (S.4).

SCARDUA (2010) define a casa como um lugar que  oferece conforto e proteção e que isto vem desde os tempos primordiais, quando o homem ainda habitava as cavernas. Segundo a autora, a casa tem também o papel de nos diferenciar dos demais, conferir  identidade, espelhar nossa personalidade, nossos valores, nossa forma de agir no mundo. E é com este sentimento de pertencimento, que ouvimos frases como:

“(...) Isso aqui era o meu sonho, eu queria vir prá cá.” (S. 5).

Ainda, segundo a autora, um ambiente agradável permite perceber coisas que antes passavam despercebidas, tais como a existência do outro, pensamentos, sentimentos, emoções, perdidos no redemoinho do coletivo. Para ela ,é  no aconchego do  lar, que “surge  uma possibilidade de aliviar nosso corpo e mente”, o que respalda a fala de outro de nossos entrevistados

“(...) Na época da primavera é uma maravilha, então vêm os pardais vêm na tua porta, então isso é importante, porque essas coisas me fazem bem” (S. 9).

ESPINOSA (1983) buscou identificar qual o bem capaz de dar ao homem a suprema felicidade: segundo nossos entrevistados,  este bem supremo, já foi conquistado, é o seu lar, o seu espaço, o resgate da  dignidade e da cidadania.

“(...) Aqui é uma maravilha olha, qualquer lado que você vai tem uma visão gostosa (...)  quem não gostar daqui, não gosta de lugar nenhum” (S.8).

  1. Lazer

Um dos temas que emergiu das entrevistas foi a quantidade de atividades de lazer que são oferecidas naquele local. Quase todos os idosos fizeram menção a alguma festa ou atividade cultural da qual participaram.

 “Sabe e a gente tem muitos eventos, tem muitas festas, como você já viu aí nas fotos né...” (S.1).

“Temos shows, cinema...(...) tem festa, tem grito de carnaval, bailes...” (S.9).

Para Requixá (1980), o lazer assume o sentido de uma ocupação por escolha, de livre interesse, e que é importante na  recuperação psicossomática e de desenvolvimento pessoal e social.

Em vista disso, o lazer, além de proporcionar a melhora das relações sociais, pode também amenizar os problemas sócio-psicológicos dos idosos.

Ih eu gosto de freqüentar os grupo de 3ª idade, fazer ginástica, yoga (...)origami  (...) baile (...)  quando tem uma excursão eu vou .....” (S.8).

Uma das questões relevantes do idoso é a solidão, que, na grande maioria, é motivada pelo abandono, aposentadoria e isolamento. Assim, a participação nas atividades de lazer diminui  a solidão , visto que a participação em atividades  de lazer, favorece a possibilidade de relacionamento com outras pessoas, propiciando um viver com mais prazer, esperança, alegria. 

 “(...) É difícil passar um mês que não tem uma doação de um almoço.”(S.3).

 “Então tem, festinhas, pessoas que patrocinam, empresas que patrocinam festas” (S.9).

  1. Saúde do Idoso ;

Para promoção e prevenção da saúde do idoso, faz-se necessário condições para  um envelhecimento ativo e saudável,  manutenção e reabilitação da capacidade funcional, além de  apoio ao desenvolvimento de cuidados informais. O que nos leva a uma segunda questão, abordada por VERAS ( 1993), de que a maioria dos atendimentos aos idosos,  é realizada por clínicos gerais o que é uma incoerência por parte do governo.

“Olha, a primeira coisa que eu acho que  o governo  devia fazer é um hospital especial para o idoso (..)  médicos ali, seriam todos geriatras, eu acho” (S. 8).

CHAIMOWICZ (1997)  chama a atenção para as questões de capacidade funcional e autonomia do idoso que podem ser mais importantes que a questão da doença, pois se interligam diretamente à qualidade de vida. Num inquérito domiciliar realizado em São Paulo Ramos, R.L. & Saad, P.M. (apud Chaimowicz) mostrou proporção crescente, de acordo com o aumento da idade, de indivíduos que necessitavam de auxílio para realização de atividades da vida diária (AVDs).

“Aqui o velhos, os senhorzinhos precisam de um acompanhamento pra médico, tem que fazer exame em um tal lugar e ele não tem com quem ir, eles tem acompanhantes aqui dentro(...)cada um tem sua companhia pra levar onde for” (S. 5).

O autor,  cita uma pesquisa da Organização Mundial de Saúde realizada em doze países da América Latina, que concluiu serem a situação econômica e a falta de acesso aos serviços de saúde os principais problemas enfrentados pelos indivíduos idosos . O que dá certo suporte à seguinte fala: 

“(...) nós pedimos um médico aqui (...)  Tem um posto médico que tem que andar 1 km...”  (S. 7).

  1. Infra-estrutura: localização e uso do espaço comum

Segundo QUEVEDO (2002), com o aumento da população idosa cresceu o interesse por residências para o cuidado de idosos, gerando a necessidade de criar projetos arquitetônicos adequados às suas necessidades, no qual possa acomodá-los de forma digna, confortável e segura , considerando a restrição de renda, os preconceitos da sociedade e a falta de estruturas para essa finalidade .

Podemos observar, ao longo das entrevistas, que os idosos afirmam ter esses requisitos no local onde moram, como por exemplo, as instalações necessárias.

“Eu pedi pro engenheiro quando ele tava trabalhando aqui ainda, ele pôs barra, perto do vaso e pra mim tomar banho, pendurar toalha, tudo” (S.3)

Porém, em relação a segurança, eles não se sentem protegidos.

“No começo tinha um vigilante aqui sentado, agora tiraram e num coloco mais, não sei porque,(...) Saio, chego aqui sozinha e, aqui tem um portão, um portão é... é baixo aqui no fundo e então..., mas não tem mais segurança aqui no fundo” (S.6).

Segundo PERLINI (2007), um bom local para o idoso morar é aquele que oferece conforto, tranqüilidade, segurança e corresponde a todas as necessidades ligadas à moradia, como roupa limpa, alimentação, ambiente limpo, aspectos físicos e sociais. Ao longo das entrevistas,  pode-se perceber que os idosos possuem estas necessidades, mas que  não são supridas como deveriam.

“(...) roupa eu mando lavar fora, até uma lavanderia que tá lá tudo montado lá até hoje, ninguém abriu prá nós, (...) Tá fechada até hoje. ” (S. 9).

“(...) Aqui atrás tem um espaço aqui, podia o governo arrumar isso ai e fazer um restaurante que é só a pessoa atravessar e comer fora por um real.” (S.3)

Os assuntos referentes à velhice em sua idade avançada , preocupam os familiares , uma vez que os idosos apresentam  limitações para a realização de tarefas do dia a dia , impossibilitando a administração da  casa, como por exemplo, fazer sua comida, pagar contas, utilizar transportes públicos, entre outros (PERLINI, 2007).

 “(...) aqui, é ruim pra mercado, essas coisas aqui não tem, tem mais não tem o que você precisa, quer dizer, não tem ....” (S.4).

 “A padaria aqui é longe bem longe,” (S.3).

  1. Convivência 

Ter qualidade de vida é ter  um bom convívio  social com todos. Conviver é uma arte que exige compreensão na busca por um relacionamento saudável entre as pessoas. As relações  humanas ou interpessoais são acontecimentos que se verificam nos grupos, no lar, na escola, na empresa. Quando há  conflito no relacionamento interpessoal,  há problemas nas relações humanas (MINICUCCI, 1992).

O residencial é um espaço social com grande número de pessoas que convivem como vizinhos e é normal que aconteçam atritos.  

“Há moradores aqui que são desagradáveis, mas em todo lugar, até no paraíso vocês vão encontrar o demônio né, então” (S.4).

A  convivência exige alguns requisitos como  tolerância, compreensão, paciência e respeito, sendo assim, a relação social ocorre de maneira conjunta. A vida em comunidade exige de todos , certo grau de comprometimento, isto porque a vida em comunidade perpassa  relações onde estão presentes as múltiplas determinações de cada sujeito.

“Tem aqui, tem uma horta aqui ao lado... Por essa horta chamaram até o delegado local, prá vir acabar com a horta. (S.9).

“(...) que os moradores aqui... qué alimentar os animais, gatos aqui, e a gente vive, se encrenca bastante... porque no contrato não pode alimentar os animais aqui.” (S.6).

A comunicação é essencial para a sobrevivência do homem, em especial para o idoso, afim de minimizar a carência afetiva e emocional , resultantes dos impactos causados pelo envelhecimento, diminuição de atividades e  a perda biológica que acomete o indivíduo á medida que envelhece.

“Só tem uma pessoa que eu não converso, não sinto alegria de conversar com essa pessoa.....” (S.2).

“Da moradia, do ambiente , do apartamento que eu moro, eu gosto (....), mas, aquele velhinho chatinho lá... ”(S.8).

Viver em comunidade é o melhor antídoto para o sofrimento psicossocial, pois no espaço comunitário se desenvolve o sentimento de pertencimento , o que possibilita pensar e sentir como um grupo. Sentimento este descrito em algumas frases como: 

Até agora nem tem o que me desagrada,  é agradável pra mim eu sou uma pessoa que me dou bem com os outros, né, respeito á todos então todos me tratam da maneira como eu trato eles né, não tenho problema assim com ninguém”(S.1).

 “Todo mundo amigo, (...) se passar das 22h00 horas e a porta do vizinho tiver fechado o outro bate e pergunta: tá tudo bem ai?”(S.4).

  1. Participação Social

Quando se fala em participação do idoso compreende-se que essa esteja ligada a questões sociais, econômicas e culturais. Aprender a participar é apropriar-se de idéias, hábitos e desenvolver potencialidades para assumir uma posição em relação a questões cotidianas; também significa possuir autonomia, independência e  opinião social . Segundo a Política Nacional do Idoso, a participação social  cria condições para incentivar sua autonomia, integração e participação na sociedade (NUNES, 2000).

A participação política é exercida com o intuito de minimizar as dificuldades da vida cotidiana:

“Quando tem reunião a gente fala o que a gente precisa” (S.3).

“ Participo, todas e quaisquer reuniões que existem eu participo, eu posso expor, se tiver queixas a fazer eles aceitam também (....)  é um regime democrático”(S.5).

Porém , não são todos que a exercem , ainda existe uma lacuna muito grande entre a teoria e a prática da participação social.

“(...) uns participam da assembléia, outros não tão nem aí... muitos. ” (S.6),

 “ Não (...), porque vai sair briga e eu não quero, eu quero é paz né, porque tem muita gente que impõe é isso e aquilo (...) e o que fazer prá mim  tá bom”( S.9).

Segundo Foucault apud Kroeff (2001), o idoso é colocado à margem da sociedade e sua luta é para reconquistar sua cidadania e respeito, não se submetendo as normas impostas pela sociedade. A inserção do idoso no mercado de trabalho também pode ser interpretada como autonomia e integração social se ele realizar tal tarefa por prazer.

“(...) eu participei do concurso agora do (...) Banco Santander, e o Banco Real, é o Talento da Terceira Idade (...)” (S.9).

“agora eu não to trabalhando, só to procurando trabalho (...), mas eu ainda vou voltar a trabalhar no meu trabalho. Não tem limite de idade (...)” (S.4).

Nota-se uma grande necessidade do idoso em estar ativo, ele quer exercer funções como qualquer cidadão, como: trabalho, cursos, turismo, voluntariado, bailes, entre outros.  (NUNES, 2000).

  1. Direitos Sociais

      Direitos Sociais são prestações de serviço, em forma de normas constitucionais ditadas pelo Estado com o intuito de proporcionar igualdade e melhores condições aos usuários (SILVIA, 2007). 

SIQUEIRA (2007) afirma que há várias políticas públicas voltadas para os idosos, mas que  existe  uma defasagem ,tanto por falta de informação suficiente aos idosos como  porque não são colocados em prática os serviços necessários .

”Eu ainda não to por dentro do que o governo tem que dar, (...) acho que precisa ser melhor” (S.3).

Os municípios junto com outros setores e novas formas de atendimento devem fazer levantamentos para saber as reais necessidades da demanda dos idosos e, a partir disto, promover programa de apoio, orientação e informação tentando garantir seus direitos civis e sociais , além de cultura, lazer, educação e saúde. Na visão de alguns  entrevistados, o que o governo  oferece é insuficiente e  há queixas quanto ao que é oferecido.

“Eu acho que eles fazem mais tem mais coisas pra fazer, (...) que nem eu (...) tem muita gente que não consegue fazer comida, tem gente de 80 anos que mora sozinha” (S. 3).

“Eu acho que é muito pouco aí... principalmente moradia, porque é uma coisa que todo cidadão tem direito de ter um banheiro,  uma cama prá dormir,(...). então eu acho que  precisa mais, muito mais” (S.9).

Por outro lado, há aqueles que afirmam estar recebendo o melhor do governo no que tange a medicação, todos tem acesso rápido e fácil assim como exames clínicos.

“Muito bom eu estou de acordo com o governo e acho que tá trabalhando muito bem. Não deixa nada a desejar (...) e eu acho que está bom, não tem nada a reclamar. Pra você  os remédios, você vai lá no posto com a receita eles te dão né, tratamento do idoso tá em primeiro lugar, se precisar de um exame rápido você encontra” (S.1).

No entanto, a maioria de nossos entrevistados, ressalta a  necessidade de um lugar que ofereça comida a preços acessíveis ;

“(...) Eu acho que tinha que ter um lugar que fizesse comida,(...) , que é um real.” (S.3).

Considerações Finais:

Conforme  análise acima, o projeto piloto implantado em São Paulo, atende á necessidade de moradia, lazer,  e convivência social. O lugar está adaptado para as necessidades  dos idosos, como portas mais largas, barras de segurança, etc. ... No entanto, há muito ainda por ser feito, como por exemplo, melhoria no transporte coletivo, que é a maior queixa dos idosos, que vai desde a demora à espera dos ônibus  até  a dificuldade que eles encontram para adentrar nos veículos, pois os degraus são altos , os motoristas  não param , ou  reclamam porque eles estão demorando para entrar.Outra grande dificuldade dos idosos desse residencial, é que não há infra-estrutura de apoio, como padarias, açougues, supermercados, farmácias, etc... por perto, tudo é longe, a feira livre fica  à cerca de 1 km de distância do residencial. A demanda pelo restaurante Bom Prato, também é significativa e merece  atenção  especial das autoridades, já que  muitos têm dificuldade para  cozinhar e a alimentação regular e balanceada é sinônimo de saúde para o idoso, por outro lado, deve-se também considerar que  o restaurante Bom Prato, teria impacto significativo na renda do aposentado, uma vez que  a maioria dos moradores  , ganham em média um salário mínimo.

No quesito prevenção e promoção de saúde, o residencial atende apenas parcialmente às necessidades dos idosos, com a presença de assistente social e a visita regular de um médico do Programa Saúde da Família, mas os idosos demandam  necessidades especiais, e por isso propõe um hospital diferenciado para atendimento ao idoso, com médicos especialistas em 3ª idade ( geriatras), indisponíveis nas Amas.

 No que tange aos direitos políticos e sociais, podemos observar que os idosos são conscientes de seus direitos básicos, como aposentadoria, transporte gratuito, remédio grátis, no entanto, desconhecem outros como por exemplo direito à viagens interestaduais gratuitas tanto em ônibus como em aviões, mas entendemos que tal desconhecimento se estende a maior parte da sociedade, sendo importante e necessário, a impressão e distribuição de cartilhas explicitando todos os direitos garantidos pelo estatuto do idoso. Constatamos também, que embora alguns se abstenham de sua  participação política,outros  fazem questão de comparecer aos locais de votação mesmo que distantes e desobrigados de exercer esta atividade, também acompanham movimentos por moradia para os idosos e não idosos, e têm opinião formada sobre os políticos, não se deixando influenciar por visitas e promessas feitas em épocas de eleição ,fazendo valer seu legitimo direito de cidadão.

Em síntese : O residencial , é um projeto piloto, sujeito a eventuais falhas a serem superadas em projetos futuros, mas mostra um caminho seguro no sentido de atender as principais demandas oriundas da 3ª idade. È de suma importância que projetos como estes sejam construídos em maior quantidade e principalmente em menos tempo, tendo em vista que a espera média pela chamada é de 06 anos, tempo demais, para quem tem tempo de menos.

“(...) E isso não é coisa de outro mundo:

é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela

não seja nem curta,

nem longa demais,

mas que seja intensa, verdadeira e pura...

enquanto durar. “   Cora Coralina ( Não sei )

Referências:

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