Medicalização da Existência

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Resumo: A partir das necessidades de rapidez e aligeiramento em que vivem os indivíduos, o sujeito tem sido reduzido à condição biológica em detrimento dos aspectos psicológicos, naturalizando assim o sofrimento psíquico, transformando demasiados modos de sofrimento em doença. Submetidos às curas rápidas na saúde, a sociedade brasileira vive um momento crescente de medicalização. Esse artigo tem como finalidade elucidar o processo de medicalização da existência, perpassando pela medicalização da infância, a favor da juventude e como única forma de tratamento.

Palavras-chave: Medicalização. Existência, Saúde, Psicologia da Saúde.

1. Introdução

A crescente medicalização da atualidade provoca um disfarce na vida humana, já que concebe grande parte das situações cotidianas como prováveis distúrbios médicos, passíveis de serem tratados com medicamentos, estimulando, diretamente ou indiretamente, o paciente a automedicar-se ou ingeri-los, no passar do tempo, de uma forma irracional, inclusive com apoio da mídia. Esse comportamento transforma o medicamento em objeto de consumo permanente da população, numa tentativa desenfreada de buscar uma melhoria na sua qualidade de vida de uma forma totalmente desprotegida, caracterizando uma medicina despreocupada, desleixada e desumana.

Medicalização é o processo pelo qual o modo de vida dos homens é apropriado pela medicina e que interfere na construção de conceitos, regras de higiene, normas de moral e costumes - sexuais, alimentares, de habitação - e de comportamentos sociais. Este processo está intimamente articulado à idéia de que não se pode separar o saber produzido cientificamente em uma estrutura social de suas propostas de intervenção na sociedade, de suas proposições políticas implícitas.

A expressão medicalização foi difundida por alguns autores, com destaque para Ivan Illich em 1982, em seu livro A expropiação da saúde: Nêmesis da medicina (Nemesis medica), ao alertar que a ampliação e extensão do poder médico minavam as possibilidades de as pessoas lidarem com os sofrimentos e perdas decorrentes da própria vida e com a morte, transformando as dores da existência em doenças (MOYSÉS e COLLARES, 2013).

Nesse contexto atual, temos como objetivo neste trabalho o estudo da Medicalização da Existência, onde perpassaremos pela medicalização na infância, como única forma de tratamento e a favor da juventude.

2. Medicalização da Existência

A medicalização é um fenômeno através do qual a vida cotidiana é apropriada pela medicina e interferem na construção de conceitos, costumes e comportamentos sociais. O consumo abusivo de medicamentos, muitas vezes origina-se de uma medicina desumanizada, que possui como preceitos o ato medico, onde o mesmo possui o poder de discernir a saúde do paciente.

Michel Foucault (1977, 1980 apud MOYSÉS; COLLARES, 2013, p. 14), autor fundamental quando se discute medicalização afirma que um dos elementos de sustentação do tema é a dupla promessa da medicina, ao se afirmar capaz de curar e prevenir as doenças, a ponto de poder construir um futuro em que sua própria existência será dispensável, pois terá eliminado todas as doenças. Embora sua impossibilidade de realizar tais promessas esteja se evidenciando mais e mais, as medicinas as mantêm em seu discurso.

Entretanto, a mídia tem influenciado bastante para o uso excessivo de medicamentos, utilizando-se de métodos verbais e visuais que incutem a ideia de promoção de saúde. Vivemos atualmente uma situação na qual as indústrias farmacêuticas têm constantemente buscando criar novas doenças resultando, consequentemente, na mudança no modo de as pessoas lidarem com seus problemas reais, até então vistos como simples indisposições, convencendo-as de que são dignos de intervenção médica.

Como afirma Guarido (2007) à ampla gama de sintomas presentes nos manuais, bem como a forma diagnóstica proposta por eles permitem que muitos acontecimentos cotidianos, sofrimentos passageiros ou outros comportamentos, possam ser registrados como sintomas próprios de transtornos mentais.

3. Medicalização da Infância

A medicalização da vida de crianças e adolescentes, ocorre a partir da articulação com a medicalização da educação na invenção das doenças do não-aprender e com a medicalização do comportamento. A medicina afirma que os graves – e crônicos – problemas do sistema educacional seriam decorrentes de doenças que ela, medicina, seria capaz de resolver; cria, assim, a demanda por seus serviços, ampliando a medicalização (MOYSÉS; COLLARES, 2013).

Assim, a infância tem se tornado como um meio de lucro para a medicina. Os processos normais e desenvolvimento das crianças têm sido alvos principais da indústria que visa normatizar, padronizar e homogeneizar as crianças e adolescentes. Em busca de controlar a vida do outro, os processos de evolução do indivíduo modificam-se a partir do prisma da medicalização, resultando na patologização da vida.

A aprendizagem e os modos de ser e agir – campos de grande complexidade e diversidade – têm sido alvos preferenciais da medicalização. Em conseqüência, crianças e adolescentes são os mais atingidos. Os discursos medicalizantes referem-se principalmente à:

  • Dislexia;
  • transtorno por déficit de atenção e hiperatividade (TDAH);
  • transtorno do espectro autista (TEA);
  • transtorno de oposição desafiante (TOD).

4. Medicalização como Única Forma de Tratamento

Conforme relata Aguiar (2004) a vida passa a ser regulada pelo discurso científico. Todo sinal de incompatibilidade com o ideal social passa ser entendido como um erro a ser corrigido. O limite entre a tristeza e a depressão parece desaparecer, e a própria tristeza, como sentimento, passa a ser entendida com queda da serotonina. O culto a felicidade perpetua e subsidia as indústrias farmacêuticas e profissionais da medicina que cada vez lucram mais com indicação de medicamentos.

A relação do homem com suas alterações de humor, suas paixões se alterou profundamente, a ponto de se produzir uma aspiração social de estesia do psíquico (BIRMAN, 2007). O desenvolvimento dos psicofármacos possibilitou que a sociedade ocidental optasse por mudar seu entendimento sobre a dor mental. A jura de prazer imediato é permeada pela idéia capitalista de consumo. A promessa de satisfação rápida e eficiente esta ao alcance de todos.

Sendo assim, percebemos um grande desafio para nós profissionais da psicologia, pois, num contexto no qual as propostas medicamentosas são altamente valorizadas, o investimento em um processo psicoterapêutico tem se tornado algo cada vez mais difícil de concorrer com as grandes promessas de “cura” e apaziguamento dos sintomas de forma rápida e eficaz dos remédios, somando-se a postura do profissional médico que diversas vezes por interesses próprios de lucro e vantagem sobre o paciente, preferem indicar o uso de medicamentos, como a alternativa mais eficiente.

Contudo, sabemos que sem a ação interdisciplinar da psicoterapia em conjunto da medicina e se necessário a utilização de medicamentos, os resultados são diminuição momentaneamente dos sintomas, causando alívio no indivíduo pelo aparente encerramento da ansiedade causada, porém, sem o trabalho ativo do psicoterapeuta sobre os efeitos subjetivos a consequência será ilusão de controle do sujeito quanto ao uso dos medicamentos e seus resultados.

5. Medicalização a Favor da Juventude

A sociedade exige hoje em dia uma verdadeira ditadura do consumo. Implícito a tal fato, está à ideia de culto a juventude e afastamento ao máximo do envelhecimento. São embutidos na população discursos para desempenhos de todos os tipos, em todos os domínios as ações medicamentosas e cirúrgicas são mobilizadas de maneira crescente. 

Uma das tendências fortes da nossa sociedade coincide com a grande expansão das técnicas destinadas não apenas a conservar e alongar a vida, mas também a melhorar a “qualidade de vida”, a resolver cada vez mais nossos problemas existenciais cotidianos nas crianças, nos jovens e idosos. Não nos dando espaço nem oportunidade para sentir tais problemas.

Pois, atualmente não se deve sofrer. O culto a felicidade esta sendo cultivado em todas as esferas de nossa vida. Seja jovem e seja feliz, é o slogan da modernidade atual. Sono, ansiedade, sofrimento, humor, luto, depressão, sexualidade, obesidade, angústia, fadiga, magreza, insônia, beleza – desempenhos de todo tipo, em todos os domínios as ações medicamentosas e cirúrgicas são mobilizadas de maneira crescente. Não necessitamos sentir nada disso, apenas utilizar remédios para “prevenir” e “afastar” tais males e teremos uma vida plena e feliz.  

Lipovetsky (2007) afirma que as soluções de nossos males não são mais procuradas em nossos recursos interioresO indivíduo que era desejoso de dirigir ou de retifica a seu gosto sua interioridade, transforma-se em indivíduo “dependente”. Assim, perde-se a noção de autonomia, quem controla a sociedade é a indústria do consumo, e, ainda faz a população pensar ilusoriamente que está no comando.

A mídia afirma que seremos felizes se fomos eternos jovens, e para isso lança mão de recursos como, produtos cosméticos de rejuvenescimento, pílulas de hormônios, medicamentos para manter um ideal esperado de beleza. A liderança da indústria farmacêutica sobre tais aspectos é notória. Basta refletir sobre o considerável aumento do número de lojas farmacêuticas e farmácias de manipulação. Se o número aumenta, logo, o público aumenta também. Portanto a mídia fabrica tais ideais e a população aceita e obedece a seu uso.

6. Considerações Finais

Esta pesquisa forneceu-nos um conhecimento enriquecedor na temática trabalhada, fazendo com que conjeturássemos a partir de uma perspectiva ética, os abusos da sociedade em prol do bem-estar, e a influência por parte das indústrias farmacêuticas e da medicina, em perpetuar essa ideia.

Neste contexto de predomínio médico, simultaneamente permeado por outros profissionais de saúde, cabe nos questionarmos sobre o papel da psicologia frente a esse contexto, como ciência e prática. É preciso estar atentos ao fato de que, tal aspectos se concretiza com o sintoma da sociedade contemporânea, e que crucial uma atuação profissional ética e comprometida, aplicada de forma interdisciplinar, ou seja, junto aos demais profissionais da saúde.

Concluiu-se, que a medicalização em alguns casos é imprescindível, contudo, da forma indiscriminada, como tem sido utilizada, não favorece a autonomia do sujeito.  Chamamos a atenção para a fragilidade do projeto terapêutico diante do sujeito medicalizado, resultando possivelmente em abafamento das questões e desconfortos subjetivos, como principal dificuldade para que se dê o processo terapêutico. Percebe-se necessidade de um novo modelo de saúde, onde se possa caminhar por diretrizes que ressignifiquem o consumo de medicamentos, não como via única e principal, e, sim como uma possibilidade.

Sobre os Autores:

Agnes Regina Silva dos Santos - Graduanda do último período de Psicologia na Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE).

Camila Cássia Alves do Nascimento - Graduanda do último período de Psicologia na Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE).

Carla Tatiane Gomes Miranda - Graduanda do último período de Psicologia na Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE).

Maria Cecília da Silva Laurentino - Graduanda do último período de Psicologia na Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE).

Kamila Lúcia dos Santos - Graduanda do último período de Psicologia na Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE).

Nataly Pereira da Costa - Graduanda do último período de Psicologia na Faculdade Frassinetti do Recife (FAFIRE).

Mestre Hely Almeida - Orientadora do Artigo.

Referências:

AGUIAR, Adriano Amaral de. A psiquiatria no divã: Entre as ciências da vida e a

medicalização da existência. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2004.

BIRMAN, Joel. Mal-estar na atualidade: A psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

GUARIDO, Renata. A medicalização do sofrimento psíquico: considerações sobre o discurso psiquiátrico e seus efeitos na Educação. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.33, n.1, p. 151-161, jan./abr. 2007.

LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, 402 p.

MOYSÉS, Maria Aparecida Affonso; COLLARES, Cecília Azevedo Lima. Controle e medicalização da infância. UFRJ, Rio de Janeiro, Revista eletrônica Desidades, n°1, Ano 01, p. 11-21, dez. 2013.

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