O Desejo pela Gravidez da Gestante e de seu Parceiro: Características de um Grupo informativo sobre Gravidez, Parto e Puerpério em uma Cidade do Interior Paulista

O Desejo pela Gravidez da Gestante e de seu Parceiro: Características de um Grupo informativo sobre Gravidez, Parto e Puerpério em uma Cidade do Interior Paulista
(Tempo de leitura: 4 - 8 minutos)

1. Introdução

A confirmação da gravidez a uma mulher é singular e cheia de significados positivos e negativos, independentemente se a mesma foi planejada ou não, com ou sem intencionalidade, consciente ou inconsciente, algumas têm condições psicológicas, sociais, financeiras e apoio familiar, enquanto outras se veem sozinhas perante as transformações e incertezas que estão por vir (SZEJER e STEWART, 1997)

Para que uma gravidez ocorra é necessário que exista na mulher um desejo, que segundo os psicanalistas, não pertence apenas ao nível consciente, mas principalmente  ao inconsciente (SZEJER e STEWART, 1997), ou seja, não basta apenas falar que não quer ficar gravida quando as atitudes demonstram o contrario, como o esquecimento de tomar a pílula por exemplo. Freud (1923-1925) fala deste fenômeno como formação reativa, que significa que o desejo inconsciente é na verdade o contrário do que o sujeito acredita desejar, fazendo com que uma mulher venha a gestar, independendo do seu discurso manifesto

A vivência da gravidez se manifestará no decorrer dos três trimestres, onde há ambivalência do “querer e não querer” a gestação. Estar grávida, em geral traz sentimentos de rejeição e aceitação. Os sentimentos pela gestação não são constantes ao longo dos trimestres, eles podem mudar, conforme ocorre as transformações internas e externas, sociais e psicológicas (MALDONADO, 1988)

A forma como a gestante irá encarar esse período de transição poderá também ter influência na reação do seu parceiro e de seus familiares, ou seja, do ambiente no qual está inserida diante da confirmação da gravidez. O apoio emocional e financeiro fornecido pelo pai da criança é um fator protetor para a saúde do bebê e para a gestante (SILVA e PICCININI, 2009).

Esse trabalho tem como objetivo identificar as características sociodemográficas e o desejo da gestante em relação a gravidez das mulheres que participaram de um grupo informativo a respeito da gravidez, parto e puerpério

Participaram da pesquisa, 28 gestantes a partir do segundo trimestre  de gestação que frequentaram um grupo de informação sobre gravidez, parto e puerpério em uma cidade do interior paulista. O grupo de gestantes ocorreu como atividade de estágio, realizando-se seis encontros, onde os mesmos ocorreram uma vez por semana, cada encontro teve a duração de duas horas. Foi utilizado um questionário estruturado com perguntas fechadas para captar dados sociodemográficos da gestante, de sua saúde e de suas expectativas em relação à gestação.

2. Resultados

A idade das gestantes variou de 14 a 38 anos, sendo que dessas 36% (n=10) tinham idade entre 10 - 19 anos, 46 % (n= 13) idade entre 20 - 29 anos e 18% (n=05) idade entre 30 - 39 anos. Quanto ao desejo favorável a gestação, notou que 70% (n=07) das gestantes com idade entre 10 - 19, 62% (n=08) com a idade entre 20 - 29 anos, e 80% (n=04) das com idade entre 30 - 39 anos, desejaram a gravidez.

A escolaridade das gestantes que desejaram a gravidez foi de 16% (n=03) para as que não concluíram o ensino fundamental, 10% (n=02) para as que concluíram o ensino fundamental, 58% (n=11) para as que concluíram o ensino médio e 16% (n=03) para as que concluíram o ensino superior.

Com relação ao estado civil das que desejaram a gravidez 42% (n=08) tinham união estável, 42% (n=08) eram casadas, 11% (n=02) solteiras, 5% (n=1) estavam namorando.

Quanto à renda familiar das mulheres que desejaram a gravidez, verificou-se que 47% (n=09) possuem renda familiar de até um salário mínimo e as outras 53% (n=10) renda familiar acima de um até três salários mínimos.

Quanto ao desejo dos parceiros pela gestação foi observado em 82% (n=23), enquanto  que 18% (n=05) não desejaram, segundo relato das gestantes entrevistadas.

Os resultados indicaram que a maioria das entrevistas possuíam faixa etária de 14 a 29 anos, ensino médio completo, moravam junto com o seu parceiro, possuem renda familiar de um a três salários mínimos e estavam desempregadas, no momento da entrevista.

Os resultados indicam os aspectos sociodemográficos como escolaridade, idade , renda familiar e estado civil esses dados parece não influenciar no desejo pela gestação, visto que em todas as categorias analisadas o desejo foi observado pela maioria, em todos os quesitos dos dados socidemográficos, não havendo variação que pudesse relacioná-los a algum fator que possa influenciar no desejo da gestação.

Também observou-se que a maioria dos parceiros desejaram a gravidez das participantes dessa pesquisa.

3. Considerações Finais

Os resultados encontrados neste trabalho indicam a necessidade de se fazer mais pesquisas que contemplem o planejamento da gravidez, relacionando-o, ao desejo da gravidez em diferentes períodos, levando em consideração outros fatores que possam influenciar nos sentimentos pela gravidez, desde o planejamento familiar e os meses gestacionais que se seguem, para melhor compreender esse período tão importante na vida da mulher e do casal

Concluí-se que o desejo pela gestação parece não estar relacionada aos dados sociodemográficos como renda familiar, idade, nível de escolaridade ou estado civil, pois o desejo das gestantes foi semelhante em todas as categorias

Necessita-se de mais pesquisas que abordem a gravidez, para que se possa compreender esse período importante da vida da mulher e de seu parceiro, clarificando dúvidas, angústias e medos com relação à gestação, além de conhecer e compreender seu desejo, conhecendo assim suas características e peculiaridades para futuras intervenções em grupos informativos e preventivos de promoção e prevenção à saúde da gestante

Precisando assim conscientizar gestantes e profissionais da saúde sobre a importância dos cuidados durante a gestação, parto e puerpério, contribuindo para maior adesão e participação dessas em grupos informativos, prevenindo prejuízos e danos que a falta de informação ou ansiedade possa acarretar à gestante e ao bebê, possibilitando mais informações nesse momento especial pela qual a mulher está passando, onde muitas dúvidas e medos podem surgir e com alguns esclarecimentos poderia contribuir para a melhora da saúde física e mental da mulher nesse período tão delicado e importante de sua vida e  do seu bebê.

Referências:

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