O Olhar, o Escutar e o Escrever como Ferramentas para o Itinerário Terapêutico

O Olhar, o Escutar e o Escrever como Ferramentas para o Itinerário Terapêutico
(Tempo de leitura: 4 - 8 minutos)

Resumo: Novas formas de promover o tratamento na saúde surgem com o passar do tempo, tendo em vista as mudanças nos modelos assistenciais e seus aprimoramentos. Com isso, o itinerário terapêutico aparece como uma nova maneira de pensar o processo terapêutico, fazendo-nos refletir acerca de um papel ativo dos sujeitos nas escolhas do tratamento. Dessa forma, é necessário perceber a construção do itinerário terapêutico como uma relação que não deve ser negligenciada, lançando uma nova forma de perceber os cuidados na saúde. Sabendo disto, procuro por meio deste texto pensar o olhar, o escutar e o escrever como ferramentas para a construção dessa nova prática, onde as histórias de vida de cada um aparecem como componentes essenciais.

Palavras-chave: Itinerário terapêutico, olhar, escutar, escrever.

Em sua formação, o itinerário terapêutico rompe com o modelo biomédico, este tendo seus limites moldados por um pensamento linear que desconsidera a história de vida do sujeito. Com a proposta do itinerário terapêutico uma nova forma de pensar sobre o indivíduo que está sendo cuidado se estabelece, onde se torna possível o exercício de criticar um modelo que parece não reconhecer o indivíduo como colaborador para a construção de seu próprio processo terapêutico. Mângia e Muramoto (2008, p. 179) salientam que

Tais dimensões não deveriam ser negligenciadas pelas equipes de saúde e mais do que isso, deveriam fazer parte das estratégias de cuidado, de forma a tornar o reconhecimento das experiências singulares o motor da construção de projetos de cuidado.

Sendo assim, essa proposta vem assumir uma nova maneira de se relacionar com o sujeito do tratamento, onde outros elementos que antes eram colocados de lado, agora surgem como pertinentes na formação dos projetos terapêuticos de cada indivíduo.

Novas condições começam a ser fundamentais, claramente no tocante ao fator relacional durante o processo, visto que começa a se dar importância ao que o indivíduo vem a falar sobre suas experiências. Sabendo de suas formações subjetivas sobre como ele entende suas necessidades na saúde, utiliza-se destes saberes na formação do processo de intervenção.

Dessa maneira, o itinerário terapêutico nos aparece também como uma relação de acolhimento e de inclusão cidadã, fazendo valer sua construção a partir do plano das autonomias, centrando-se assim, nas necessidades dos usuários, operando a partir de um modelo assistencial pautado na produção do cuidado de forma integralizada.

Com isso, o estar em campo torna-se uma abertura a diversas possibilidades de repensar nossas práticas de intervenção, desafiando-nos a construir e utilizar ferramentas importantes: o olhar, o escutar e o escrever emergem como fundamentais, aparecendo como “sutilmente imbricadas umas as outras, como uma pequena rede potencialmente utilizável na prática da intervenção e da formação de diversas formas e conexões” (DIEHL, MARASCHIN, TITTONI, p. 410).

A partir do itinerário terapêutico, pensar esses elementos é uma tarefa essencial. Há de se ter uma visão apurada, variando de ângulos e perspectivas. O olhar deve ser pensado como uma implicação, e não como o simples ato de ver. Diehl, Maraschin, Tittoni (2006, p. 412) explicam que

O olhar impõe considerar a posição do observador como implicado naquilo que observa. Considera ainda suas limitações como observador parcial e também determinado, abandonando a busca de uma realidade acessível objetivamente e passando a tomá-la como construída coletivamente.

Portanto, o profissional de Psicologia encontrará por muitas vezes obstáculos que colocarão em questão suas capacidades de percepção, e cabe a ele controlar sua ânsia de ajudar, como também ter a sabedoria de desconstruir e construir saberes para a constituição de novos olhares. O perigo de atropelar pequenos detalhes importantes sempre está presente, onde muitas vezes somos impregnados de imagens ideais e mais confortáveis.

Por várias vezes, no contato com o outro, podemos ser tomados por uma angústia, parecendo ser insuportáveis as diferenças presentes no mesmo, distorcendo nossa visibilidade. Entretanto, devemos abrir nosso olhar para o diferente, procurando retirar as máscaras plásticas que colocamos para o nosso conforto, buscando o olhar atento, invocando assim, a dimensão política do ato de olhar.

Com o itinerário terapêutico em meio a uma nova perspectiva relacional e dinâmica, o olhar nos aparece como uma ferramenta que levanta novas possibilidades. Procura assim, uma intervenção mais clara, não impondo apenas as nossas concepções de mundo, mas também a daqueles que agora mais do que os que se submetem ao tratamento, são nossos aliados na formação do projeto terapêutico.

Outra ferramenta que aparece como fundamental na construção do itinerário terapêutico é o escutar, onde esta deve ser entendida como um andar sobre algo complexo, onde na travessia é que a meta se constrói e não ao contrário, onde prevalece a meta ao invés do percurso. Deve-se então compreender que a produção se faz no encontro de nossos saberes e que a fórmula, emissor e receptor, aparece como algo modelador, afastando-nos das experiências e saberes dos sujeitos.

Com isso, deveremos atentar para não nos aproximarmos da escuta surda. Heckert (2007, p.7) explica que:

Uma escuta surda se constitui quando no lugar de indagar as evidências que nos constituem como sujeitos, nos deixamos conduzir por estas, reificando-as. Produz-se aí uma medicina das evidências, uma psicologia das evidências, uma enfermagem das evidências que, tendo seus procedimentos dirigidos por naturalizações, pouco consegue captar as singularidades que permeiam o humano, a variabilidade e imprevisibilidade que constitui o vivo.

Sendo assim, não podemos deixar que a escuta se restrinja a uma coleta de informações, onde nosso papel tenha um mero caráter interpretativo, ficando o usuário no lugar de objeto de sua ação. A escuta surda torna-se uma atividade julgadora de práticas e que prescreve as formas de viver dos sujeitos, reduzindo-os a uma identidade suposta por quem a promove.

Portanto, é imprescindível uma escuta de experimentação, que faça prevalecer o estranhamento dos modos que são instituídos de existência, gerando assim uma responsabilidade coletiva com aquilo que construímos e faz parte de nossas vidas. É necessário um sujeito que escuta outro sujeito, movido por princípios ético-políticos, onde não há espaço para práticas tecnicistas que considerem os sujeitos como seres sem experiência e a-históricos. Sendo assim, entender os processos de intervenção a partir do uso da escuta-cuidado, é de fundamental importância, sendo crucial na geração do itinerário terapêutico. Heckert diz que (2007, p.10)

A escuta-experimentação não visa a apreender uma realidade, uma verdade do sujeito, e sim abrir espaço para criação de modos de existência compatíveis com uma vida solidária e generosa, acompanhar os movimentos que criam paisagens por vezes suaves, por vezes endurecidas, por vezes mortificadoras

O escrever também surge como uma ferramenta importante no itinerário terapêutico, onde a produção de um modo de escrever em que nos incluímos colabora para que possamos produzir inscrições de uma construção dotada de experiência. É necessária uma escrita narrativa e não apenas a escrita que descreve e interpreta. Além disso, com o escrever podemos revivenciar nossas experiências e levar novos questionamentos para essas situações, fazendo com que se produzam novos diálogos e reflexões a respeito daquilo que foi vivido.

Sendo assim, a escrita se apresenta como um ponto fundamental também para identificar na fala de outros, pontos que antes, durante a experiência, podemos não ter dado relevância. Com isso, a importância da escrita surge para o itinerário terapêutico como uma ferramenta para arquivar e provocar reflexões posteriores, colaborando para repensar sua atuação, tendo nos elementos advindos dos indivíduos no material escrito conteúdo de modo a contribuir para suas formas de intervenção.

Por fim, considero o itinerário terapêutico uma nova prática que deve ser vista com bons olhos, tendo em vista sua nova forma de olhar para o sujeito, procurando não negligenciar seu saber e suas experiências, percebendo uma nova forma de pensar seu tratamento, dando-lhe voz. As ferramentas olhar, escutar e escrever surgem como elementos para a construção dessa prática, precisando ser exercitadas e repensadas nessa nova forma de se relacionar na criação de um projeto terapêutico que assume uma parceria com o próprio usuário em sua formação.

Sobre o Autor:

Autor: Vinícius Dieison Morais Rocha - Estudante do 5º semestre do curso de Psicologia da UFC, campus Sobral. Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Referências:

DIEHL, R ; MARASCHIN, C;  TITTONI, J. Ferramentas para uma psicologia social.Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 2, p. 407-415, mai./ago. 2006

HECKERT, A. L. C. Escuta como cuidado: o que se passa nos processos de formação e de escuta? In: PINHEIRO, Roseny; MATTOS, Ruben Araújo de. (Org.). Razões públicas para a integralidade em saúde: o cuidado como valor. 1 ed. Rio

de Janeiro: ABRASCO/CEPESC, 2007, v. 1, p. 199-212.

MÂNGIA, E.F & MURAMOTO, M. T. Itinerários terapêuticos e construção de projetos terapêuticos cuidadores. Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo, v. 19, n. 3, p. 176-182, set./dez. 2008.

SEGATA, J. & SEGATA, J. B. Os caminhos da cura: itinerários terapêuticos e práticas populares de saúde no alto Vale do Itajaí – Santa Catarina. Revista Caminhos, On-line, “Dossiê Humanidades”, Rio do Sul, a. 2, n. 1, p. 25-35, jan./mar. 2011.

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