O Stress no Motorista de Ônibus Urbano

O Stress no Motorista de Ônibus Urbano
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Resumo: O trabalho de conclusão de curso trata-se de uma exigência para graduação de Psicologia que foi apresentado a Faculdade Anhanguera de Jundiaí/SP.  A metodologia foi realizada através de levantamento bibliográfico com o objetivo de avaliar as características do stress em motoristas de transportes coletivos. Foi embasado em livros e textos científicos, levantando discussões e reflexões sobre a psicologia na área da saúde, tendo em vista conhecer os conceitos contemporâneos em relação ao stress e seus fatores, identificar os níveis de stress, o stress ocupacional e seu percurso, quais reações e os sintomas presentes no organismo humano seus componentes psicológicos, fisiológicos e mentais. Foram apresentados dados históricos sobre o transporte coletivo e o seu condutor desde a sua origem até os dias atuais. Fatores e conflitos entre as exigências institucionais e populacionais, importantes sobre a consequência do stress e por fim, expondo estratégias preventivas ou mitigatórias e sugestões técnicas de relaxamento, habilidades sociais dentro da terapia cognitiva comportamental com a finalidade de amenizar o stress ocupacional.  Portanto, para a população e os motoristas terem um cotidiano menos estressante é necessário repensar o contexto de trabalho na sua totalidade, amenizando fatores que interferem na relação homem e trabalho. 

Palavras-chave: Stress ocupacional, Motorista de ônibus, Técnicas de relaxamento.

1. Introdução

O tema em questão que será apresentado refere-se ao estresse ocupacional em motoristas de ônibus urbano, o qual tem sido objeto de estudo e discussão devido aos inúmeros fatores estressantes presentes na profissão tais como: condições de trabalho, dos itinerários, do veículo, do relacionamento com os passageiros e com a empresa.

Os profissionais que atuam na área de transporte coletivo urbano têm no seu contexto fático dentro das inúmeras profissões um dos níveis de stress a ser considerado preocupante o que motivou a elaboração deste trabalho acadêmico.  

 Assim, o propósito será avaliar estes níveis, quais seus principais percussores e ainda tentar proporcionar níveis satisfatórios tanto para empregado como para empregadores, que também são atingidos indiretamente.

O stress dessa classe trabalhadora pode estar relacionado à pressa e ao excesso de responsabilidade, gerando comportamentos acompanhados de emoção e sentimento, sendo a emoção um impulso neural que move um individuo para a ação, enquanto o sentimento é a capacidade que uma pessoa tem de sentir e perceber o que as coisas eventuais lhe provocam (LIPP, 2014, p.67).

A preocupação com os efeitos desse stress ocupacional em que os trabalhadores se submetem em função de inúmeras tarefas exigidas dentro da organização, de horas despendidas e sobrecarga em que se coloca se faz necessário um processo investigatório com o intuito de prevenir os quadros estressores sobre as principais causas e influencias que possam contribuir para o desencadeamento destes fatores.

A sociedade pós-industrial, em suas demandas por constantes adaptações sociais, exige reações do individuo capazes de prejudicar a sua racionalidade e igualmente capazes de minar a saúde daqueles que tem dificuldades de enfrentar as pressões (ZANELLI, 2010, P.20).

Segundo Rossi, Quick e Perrewé (2009, p.66), o nível de stress vivenciado pelos indivíduos no trabalho provavelmente é o resultado da interação entre vários fatores, como o tipo de trabalho (sua ocupação), a presença de estressores no trabalho, o grau de apoio que recebem no trabalho.

Propõem-se como prevenção e tratamento do stress o Treino do Controle de Stress (TCS) baseado em princípios do Treino de Inoculação do Stress por Meichenbaum, e de outras técnicas e procedimentos cognitivos comportamentais que Lipp identificou como relevante para o tratamento e controle do stress (KINAPP e BECK, 2008).

Tais técnicas e procedimentos são aplicados através da terapia cognitiva (TC) e o termo genérico terapia cognitivo-comportamental (TCC) são usados com frequência como sinônimos para descrever psicoterapias baseadas no modelo cognitivo. O TCC também é utilizado para um grupo de técnicas nas quais há uma combinação de uma abordagem cognitiva e de um conjunto de procedimentos comportamentais (KINAPP e BECK, 2008).

1.1 Objetivos

O objetivo deste trabalho foi desenvolver um levantamento bibliográfico sobre os sintomas ocupacionais de stress em motorista de ônibus e estabelecer possível prevenção e tratamento que possam amenizar os sintomas proporcionando melhor qualidade de vida.

1.2 Procedimentos Metodológicos

Os procedimentos metodológicos utilizados para estrutura desse trabalho foram feitos a partir de levantamento bibliográfico através de livros, artigos científicos e revistas periódicas, que pudessem nortear as características e sintomas do stress, e as possibilidades de diagnosticar, prevenir e tratar o stress ocupacional em adultos e a fase em que a pessoa se encontra (alerta, resistência, quase exaustão e exaustão),

1.3 Estrutura do trabalho

Este trabalho está esquematizado da seguinte forma:

O capítulo 1:

É introdutório nele contem uma breve descrição dos efeitos do stress no motorista de ônibus urbano e a preocupação de amenizar este quadro que desfavorece tanto o profissional motorista quanto a empresa de transporte coletivo.

O capítulo 2:

Apresenta uma síntese sobre o tema escolhido. São tratados os assuntos sobre a história do stress, a profissão de motorista e o transporte coletivo.

O capítulo 3:

Foi descrito de forma mais específica sobre cada assunto do tema escolhido exposto no capítulo dois.

O capítulo 4:

Foram apresentados os principais resultados da pesquisa, sendo os mesmos discutidos à luz dos conceitos dos autores escolhidos e presentados na Fundamentação Teórica.

Por fim, nas considerações finais, a partir do estudo bibliográfico, uma reflexão sobre a atualidade dos conceitos e a aplicação prática destes.

2. Fundamentação Teórica

Os conceitos contemporâneos em relação ao Stress evolucionaram a mais de dois mil anos. No princípio da era clássica, Heráclito foi o primeiro a sugerir que um estado exaltado, sem mudança não era uma condição natural, mas antes que a capacidade de sofrer mudanças constantes era intrínseca a todas as coisas (SANTOS, 1998).

Em seguida, Empédocles sugeriu que toda a matéria consistia em elementos e qualidades, numa oposição ou aliança dinâmicas uns com os outros, e que esse equilíbrio ou harmonia era condição necessária para a sobrevivência dos organismos vivos (SANTOS 1998).

Hans Selye começou suas pesquisas sobre o stress em 1925, estudante de medicina, o que chamava de síndrome de se sentir que para doente ele era mais instigante do que buscar a cura específica para uma doença específica (ARANTES e VIEIRA, 2002, P. 19). 

Conforme descreve Troncoso (2012):

“Selye desenvolveu a pesquisa sobre o stress em seus pacientes e descobriu que vários deles, independente da doença que apresentava tinham um aspecto em comum. Haviam passado por situações extremamente difíceis em suas vidas antes de adoecerem ou durante o desenvolvimento da doença. Tinham perdido entes queridos, perdido o emprego, encontrava-se em dificuldades financeiras ou tinham passado por algum tipo de violência entre situações difíceis de suportar”. 

Selye deu sequência a suas investigações e em 1950 denominou este estado de tensão de stress. Stress é um termo oriundo da língua inglesa e é utilizado na mecânica para designar a tensão entre as peças de uma máquina (TRONCOSO, 2012).

Na década de 30 do século passado, Walter Cannon buscou compreender o que acontece em nosso corpo durante nossas reações emocionais. Boa parte de seus resultados está baseado em estudo com animais de laboratório. Cannon observou que ao enfrentar situações de perigo, além de expressar o sentimento de medo, o organismo passa por profundas alterações internas (TRONCOSO, 2012).

Para Cunha (2011, p. 138) “o stress significa tensão limítrofe, algo que está prestes a ocorrer. O termo tornou-se corrente e pode ser aportuguesado como estresse, originando também o adjetivo estressado”. 

Chama-se de stress a um estado de tensão que causa uma ruptura no equilíbrio interno do organismo. É por isso que às vezes, em momentos de desafios, nosso coração bate rápido demais, o estômago não consegui digerir a refeição e a insônia ocorre. Todo organismo deve funcionar como uma orquestra, em sintonia e mantendo o seu próprio ritmo (LIPP, 2013, p. 12).

2.1 O stress ocupacional

Nas considerações de Lipp (2014, p. 69) a pressão interna e a auto cobrança ocorre por meio de pensamentos antecipatórios de preocupação e de exigências excessivas.

“No intuito de aliviar as emoções, os sentimentos negativos e as reações fisiológicas decorrentes desse modo de pensar, como medo, tristeza, angústia, ansiedade, stress e raiva, o indivíduo acaba acumulando muitas responsabilidades e tarefas, advindas de preocupações antecipatórias como “tenho que ser bom”, “tenho que dar conta de tudo”, “se eu não for o melhor perderei meu emprego”, “não posso falhar”, “é um vexame não conseguir terminar esta tarefa”, “não posso perder tempo falando com fulano, tenho que terminar este projeto da melhor forma possível”, “não posso sair com meu filho, tenho que avaliar todas as possibilidades para a reunião amanhã” (LIPP, 2014, p.69).

O desequilíbrio entre as exigências do trabalho e os princípios, necessidades e expectativas pessoais abre caminho para o desgaste físico e emocional. As pessoas que vivem esse cotidiano, estando em constante pressão interna e auto-cobrança para obtenção de metas, certamente não encontram tempo para as delicadezas da vida e assim não conseguem desfrutar de férias passeios e etc. deixando o seu lado humano de lado, pois “não tem tempo para essas coisas” (LIPP, 2013, p. 21).

Para Lipp (2013, p. 22) é importante saber que fenômeno é esse que contribui para tornar a pessoa tão estressada e sua qualidade de vida tão deficiente, classificando um padrão de comportamento do tipo A ou a doença da pressa. Dentre os agentes estressantes no ambiente de trabalho destacam-se: demandas acima das condições efetivas de produção ou prestação de serviços de qualidade; pouco reconhecimento profissional; dificuldades de promoção; pressão do tempo, problemas de comunicação entre outros (ZANELLI, 2010, p.23).

Nas considerações de Cunha (2011, p. 139):

“a tensão diária dentro de certos limites pode ser denominada como “estresse positivo” e é considerado fundamental para respostas rápidas que garantam a sobrevivência. Nessa condição permanecemos em alerta, e o corpo e a mente tornam-se mais ágeis durante situações cotidianas que envolvem desafios, nos auxiliando a alcançar novos objetivos”. 

2.2 O stress e seu percurso

Stress é uma reação do organismo com componentes psicológicos, físicos, mentais e hormonais que ocorre quando surge a necessidade de uma adaptação grande a um evento ou situação de importância (LIPP, 2005).

Chama-se de stress a um estado de tensão que causa uma ruptura no equilíbrio interno do organismo. É por isso que, às vezes, em momentos de desafios, nosso coração bate rápido demais, o estômago não consegui digerir a refeição e a insônia ocorre. Todo organismo deve funcionar como uma orquestra, em sintonia e mantendo o seu próprio ritmo (LIPP, 2013, p. 12).

Dessa maneira, o coração bate no ritmo adequado às suas funções, pulmões, fígado, pâncreas, e estômago tem seu próprio ritmo que se entrosa com os outros órgãos, nessa consideração Lipp (2013, p. 12) afirma:

“A orquestra do corpo toca o ritmo da vida com equilíbrio preciso. Mas quando o stress ocorre, esse equilíbrio, chamado de homeostase pelos especialistas, é quebrado e não há mais entrosamento entre os vários órgãos do corpo. Cada um trabalha em um compasso diferente devido ao fato de que alguns órgãos precisam trabalhar mais e outros menos para poder lidar com o problema. Isso é o que se chama de stress inicial”.

Para Selye (1936-1946 apud ARANTES; VIEIRA, 2002) a síndrome passa então a ser composta por três fases:

  • A fase (ou reação) de alarme;
  • A fase da resistência;
  • A fase da exaustão.

Trata-se de uma síndrome geral, é provocada por agentes que afetam grande parte do corpo, causando defesa generalizada e sistêmica. É de adaptação, pois ajuda na busca e na manutenção de um estado de equilíbrio. E finalmente, é chamada de síndrome, porque as manifestações são coordenadas e parcialmente interdependentes (ARANTES E VIEIRA, 2002, p. 25).

Entretanto nas considerações de Lipp (2005) as fases do stress são compostas por quatro fases:

  • Fase do alerta;
  • Fase de resistência;
  • Fase de quase exaustão;
  • Fase de exaustão.
“Fase do alerta é a fase positiva do stress, quando o ser humano automaticamente se prepara para a ação. É caracterizada pela produção e ação de adrenalina que torna a pessoa mais atenta, mais forte e mais motivada.
Fase de resistência: Se a fase de alerta é mantida por períodos muito prolongados ou se novos estressores se acumulam o organismo entra em ação para impedir o desgaste total de energia entrando na fase de resistência, quando se resiste aos estressores e se tenta, inconscientemente, reestabelecer o equilíbrio interior (chamado de homeostase) que foi quebrado na fase de Alerta. A produtividade cai dramaticamente. Caracteriza-se pela produção de cortisol. A vulnerabilidade da pessoa a vírus e bactérias se acentua.
Fase de quase exaustão: (A fase recém-descoberta) Quando a tensão excede o limite do gerenciável, a resistência física e emocional começa a se quebrar, ainda há momentos em que a pessoa consegue pensar lucidamente, tomar decisões, rir de piadas e trabalhar, porem tudo isso é feito com esforço e estes momentos de funcionamento normal se intercalam com momentos de desconforto. Há muita ansiedade nesta fase. A pessoa experimenta uma gangorra emocional. O cortisol é produzido em maior quantidade e começa a ter efeito negativo de destruir as defesas imunológicas. Doenças começam a surgir.
Fase de exaustão: É a fase mais negativa do stress, a patológica. É o momento em que um desequilíbrio interior muito grande ocorre. A pessoa entra em depressão, não consegue concentrar ou trabalhar. Suas decisões muitas vezes são impensadas. Doenças graves podem ocorrer, como úlceras, pressão alta, psoríase e vitiligo” (LIPP, 2005).

De acordo com Cunha (2011, p. 139-140):

“Quando doenças ou disfunções corporais surgem de forma correlacionada com o estresse, é comum o uso do termo doença psicossomática (do grego, psique, mente e soma, corpo), ou ainda dizer que certa pessoa “somatizou” um problema”.

2.2.1 O transporte coletivo e o Condutor

Dados históricos nos remetem ao ano de 1662 onde surgiram em Paris às primeiras carruagens públicas entre Luxembourg e a Porte de Saint Antoine, tornando-se conhecidas do povo como carroces à cinc sous. Contendo lugar para oito passageiros mais o condutor e seu ajudante que vestiam casacas azuis, cujos enfeites variavam nas suas cores de acordo com o itinerário da linha (NUNES, 2007).

Por volta do ano de 1825 um concessionário de uma casa de banhos localizada a cerca de dois quilômetros de Nantes colocou a disposição de sua crientela um veiculo cumprido de tração animal com dois bancos laterais com capacidade para oito pessoas (NUNES, 2007).

“Naquele tempo as casas não possuíam números e o comércio usava, para o conhecimento de seus fregueses, tabuletas mais ou menos engenhosas. Assim, o Sr. Omnes, para atrair a freguesia, mandou escrever estas palavras na frente de seu estabelecimento: “OMNES – OMNIBUS”, ou seja OMNES PARA TODOS. Como as viaturas do concessionário saíam da frente desse estabelecimento, o povo associou a palavra omnibus a elas e o nome pegou” (NUNES, 2007).

O primeiro ônibus a motor a combustível do mundo que se tem notícia foi criado em 1895, por Carl Benz. Nesse período, o principal transporte coletivo utilizado era o trem (NUNES, 2007).

Para quem não conheceu, as primeiras Jardineiras chegaram ao Brasil em 1919, pois se utilizou do bonde com tração animal até meados de 1900. Com lugar para oito pessoas, eram ônibus montados sobre caminhões onde a única parte original externa mantida no veículo era a frente, com o capô do motor, faróis e pára-choque (NUNES, 2007).

A partir de 1926 foram importadas as jardineiras chamadas de "Yellow Coach". Mas o primeiro ônibus brasileiro só foi fabricado em 1941 pelos irmãos Grassi, com capacidade para 45 pessoas (NUNES, 2007).

Nos dias de hoje o transporte coletivo é considerada uma necessidade primária da população em geral, que diariamente tem que se locomover quer seja para o trabalho, para estudar, para cuidar da saúde e inclusive para o lazer do cidadão. Portanto existe a preocupação com as condições da realidade diária dos condutores destes transportes coletivos.

Um dos fatores importantes é a consequência do stress em motorista de transporte coletivo devido à própria natureza da profissão. Existe um conflito entre fatores das exigências institucionais e populacional que são: Conseguir cumprir as escalas e horários de trabalho, dirigir com segurança e atender bem os passageiros.

A atividade de dirigir não é um ato mecânico, mas envolve uma série de requisitos tais como demonstrar percepção de profundidade, orientação espacial, rapidez de reflexos, senso de responsabilidade, atenção, discriminarem ruídos, além de demandar um bom estado de saúde e equilíbrio emocional (MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2009 apud ZANELATO e CALAIS, 2010).

De acordo com Almeida (2002) Os estudos a respeito das condições de trabalho de motoristas no transporte coletivo por ônibus são recentes e em pequena quantidade se comparados a pesquisas com outras categorias profissionais, em sua maioria, procuram estabelecer relação entre as condições de trabalho e o adoecimento.

Em relação ao transporte coletivo, o comportamento de seus operadores é muito importante, pois se trata de atividade essencial à população e de significativa responsabilidade. Falhas no trabalho podem acarretar acidentes que colocam em risco a vida de dezenas de pessoas (ALMEIDA, 2002).

Indica-se que pode haver uma relação entre stress e acidentes de trânsito, na medida em que mais da metade dos acidentes ocorreu no final da jornada de trabalho ou enquanto os motoristas dobravam sua jornada de trabalho, ou seja, alguns acidentes podem ter como causa o cansaço e o stress (CÂMARA, 2002 apud ALMEIDA, 2002).”

Na profissão do motorista, os fatores de risco seriam: o contexto de trabalho estressante; a possibilidade de acidente, morte e assalto; conflitos no relacionamento entre motorista e passageiro. Os fatores de proteção seriam estratégias de enfrentamento eficazes, recursos pessoais, apoio social e familiar, reconhecimento e valorização da profissão e relações positivas com os usuários do transporte (ZANELATO e CALAIS, 2010).

Considerando as pesquisas de Zanelato e Calais (2010) a identificação de estressores laborais está relacionada com:

“a) condições do trabalho – carga horária elevada, exposição a assaltos, falta de sanitários, movimentos repetitivos e mecânicos, ruídos e vibrações do motor, baixo reconhecimento social, conflitos com passageiros, pressão para cumprir horário e excesso de paradas durante as viagens; b) condições das vias – asfalto irregular, alagamento, congestionamento e travessia inadequada, tanto de pedestres como de condutores; c) condições climáticas – calor excessivo, incidência de raios solares e chuva; e d) condições do veículo – falhas nos equipamentos e falta de manutenção”.

Além das condições expostas sobre as identificações de estressores laborais existe a questão avaliativa dos motoristas que se caracterizam através de testes psicológicos. Diante disso, pergunta-se: como as pesquisas podem ser direcionadas para tentar caracterizar melhor a relação entre testes psicológicos e segurança no trânsito?

Na pesquisa elaborada por Silva e Alchieri (2010) realizou-se ampla sistematização da produção empírica sobre os estudos de personalidade, habilidades e inteligência com motoristas e concluíram que, em cinco décadas, a pesquisa não evidencia de maneira sistemática e consistente os ganhos efetivos com a segurança no trânsito por meio da avaliação dos condutores.

“Os autores sugerem algumas diretrizes para futuras pesquisas: a) delineamentos longitudinais e de follow-up, que acompanham por um período de tempo os (futuros) motoristas, b) incremento de ações integradas/parcerias entre a universidade e as instituições responsáveis pelo trânsito e transporte rodoviário, a fim de estudar amostras representativas de determinada população de motoristas, c) estudos de validade preditiva que possibilitem identificar em que medida os testes são capazes de oferecer aos psicólogos indicadores de comportamentos futuros dos motoristas” (SILVIA e ALCHIERI, 2010).

3. Terapia Cognitiva

Na década de 70, quando o papel da cognição na terapia foi descrito pela primeira vez na literatura tem possuído um progresso contínuo no desenvolvimento da teoria e da terapia cognitivas. Entretanto, as características essenciais da TC persistiram especialmente a ênfase na influência do pensamento distorcido e da avaliação cognitiva irrealista de eventos sobre os sentimentos e comportamentos do indivíduo (KINAPP e BECK, 2008).

De acordo com Kinapp e Beck (2008), Aaron Beck, o fundador da terapia cognitiva, formulou uma base teórica coerente antes do desenvolvimento de estratégias terapêuticas. As diretrizes para desenvolver e avaliar o novo sistema de psicopatologia e psicoterapia foram:

  • Construir uma teoria abrangente de psicopatologia que dialogasse bem com a abordagem psicoterápica;
  • Pesquisar as bases empíricas para a teoria;
  • Conduzir estudos empíricos para testar a eficácia da terapia.

Conforme Kinapp e Beck (2008), as pesquisas subsequentes envolveram diversos estágios:

A tentativa de identificar os elementos cognitivos idiossincráticos derivados de dados clínicos em vários transtornos; desenvolver e testar medidas para sistematizar essas observações clínicas; e preparar planos de tratamento e diretrizes para terapia.

Segundo Zanelli (2010, p. 90), na maioria das vezes as intervenções são aplicadas na forma de workshops em palestras de sensibilização, conferencias sobre o stress no contexto organizacional, sucedidas pela identificação de fatores que auxiliam a enfrentar as situações de estresse.

3.1 Terapia Cognitiva Comportamental

O tratamento pode ter inicio e ser realizado de varias maneiras, identificando e questionando pensamentos automáticos, o terapeuta pode orientar os pacientes a avaliar seus pensamentos automáticos, especialmente quando há uma excitação emocional percebida durante a sessão, perguntando: “O que está se passando na sua mente?”, ou qualquer alteração desta pergunta (KINAPP e BECK, 2008).

Distorções cognitivas podem ser descobertas perguntando, por exemplo, “Quais são as evidências da sua conclusão?”, “Você está omitindo evidências contraditórias?”, “A sua conclusão segue logicamente as observações que você fez?”, “Existem explicações alternativas que podem ser mais precisas para explicar este episódio em especial?” (KINAPP e BECK, 2008).

Convidados a pensar sobre explicações alternativas, os pacientes podem perceber que suas explicações iniciais das situações evoluíram através de inferências inválidas, levando-os ao passo seguinte de fazer interpretações diferentes, produzindo, novas atribuições e significados às situações (KINAPP e BECK, 2008).

3.2 Treino De Inoculação Do Stress

Dentro da terapia cognitiva, a técnica Treinamento de Inoculação Estresse (TIE) desenvolvido por Meichenbaum em 1974, inicialmente como uma forma de tratamento geral para as fobias que também pretende dar ao paciente um domínio sobre seus medos através da ressignificação da memória traumática e do ensino de habilidades de manejo frente às situações temidas (KNAPP e CAMINHA, 2003).

O TIE está dividido em duas fases segundo Knapp e Caminha (2003),

“Primeiramente realiza-se um mapeamento da gravidade e impacto do problema, considerando a frequência da resposta, sua magnitude, duração, amplitude, conseqüências e resultados, sendo necessária uma compreensão situacional do problema, bem como dos aspectos comuns e padrões envolvidos. A primeira fase prepara o paciente para o tratamento, incluindo um enfoque educativo que permite a compreensão da natureza e origem do medo e da ansiedade, Também é fornecida uma explicação do modelo cognitivo-comportamental, que enfatiza e ensina o paciente a identificar as complexas relações interdependentes entre os fatores afetivos, cognitivos, comportamentais, fisiológicos e sociais/ambientais. Ainda nesta primeira fase do tratamento, paciente e terapeuta constroem conjuntamente o entendimento cognitivo do trauma vivido pelo paciente, equacionando os prováveis pressupostos, regras, crenças e decorrentes comportamentos de proteção que o paciente utiliza para diminuir seu sofrimento.

A segunda fase do TIE é o treinamento de habilidades de manejo e enfrentamento, com orientação para a solução de problema, que inclui, em sequência; definição de habilidade de manejo, com uma base racional e uma explicação do mecanismo pelo qual a habilidade funciona; várias demonstrações e ensaios da habilidade dentro do consultório através de dramatizações e outras técnicas; aplicação pelo paciente, fora da sessão, da habilidade em uma área problemática que não esteja necessariamente relacionada com os comportamentos visados; revisão em sessão de como a habilidade funcionou, com avaliação da auto eficácia do paciente; promoção de reajustes necessários; e, por fim, aplicação e prática da habilidade com um dos medos focalizados, desde o considerado mais fácil de enfrentar, até o mais difícil”.

O Treinamento de Inoculação de Estresse (TIE) é mais uma abordagem multicomponente de habilidades de enfrentamento, está baseado na premissa teórica de que, ao aprender a lidar com níveis leves de estresse, os clientes basicamente se tornam “inoculados” contra níveis incontroláveis de estresse (KINAPP e BECK, 2008).

3.3 Técnicas de Relaxamento

As técnicas de relaxamento ajudam o paciente a controlar sintomas fisiológicos antes ou durante os eventos temidos. A principal técnica de relaxamento utilizada é o Relaxamento Progressivo de Jacobson. Essas técnicas de relaxamento são apropriadas a pacientes com fobia social que apresentam intensos sintomas fisiológicos de ansiedade durante uma situação social ou de desempenho (REY e PACINI, 2006).

Para Knapp e Caminha (2003), a respiração e o relaxamento muscular podem auxiliar como técnicas de redução da ansiedade e de favorecimento do adequado processamento da informação. Relaxamento e Respiração são técnicas auxiliares quando o paciente prova fortes aumentos de ansiedade. Contudo, sem a autoinstrução e a variação do repertório não garantem por si só a eficácia terapêutica.

Segundo Rey e Pacini (2006) no treinamento de habilidades sociais as técnicas usadas são a modelagem pelo terapeuta, ensaio comportamental, reforçamento social e o treinamento realizado fora da sessão (tarefas de casa).

A aplicação de técnicas de treinamento de habilidades sociais tem sido recomendada para todos os pacientes, quer manifestem déficit de habilidades sociais quer não, pois este recurso tem se mostrado bastante eficaz em reduzir a ansiedade no confronto interpessoal (REY e PACINI, 2006).

Nas considerações de Kinapp e Beck (2008), o treinamento de autoinstrução foi desenvolvido na década de 70 por Donald Meichenbaum, com foco especial na relação entre autoinstrução verbal e comportamento. Com ênfase nas tarefas graduais, modelagem cognitiva, na orientação do treinamento mediacional e auto reforço.

De acordo com Lipp (2041, p. 77) “algumas orientações práticas para o controle da pressa e a diminuição do excesso de responsabilidade podem ajudar a diminuir o stress”:

“Dedicar um tempo para si, aproveitando para passear sem pressa ou horário; Reservar um horário para dedicar-se a atividades prazerosas e praticar técnicas de relaxamento; Procurar fazer uma atividade de cada vez, gastando, menos energia e se concentrando em apenas uma tarefa, que provavelmente será feita mais rapidamente. Isso levara a pessoa a reservar sua energia para situações de emergência em que necessite se focar em varias atividades de cada vez; Buscar diminuir o ritmo, comendo, andando e dirigindo mais devagar; Quando diante de alguém um pouco mais lento, procurar ouvi-lo sem interrompê-lo e sem concluir as frases por ele; treinar dar atenção ao outro e respeitar seu próprio tempo; Quando acreditar que não pode deixar de assumir mais tarefa, acalmar cuidadosamente se realmente tem que arcar com mais essa responsabilidade; Estabelecer prioridades e resolvê-las uma a uma; Desenvolver uma postura positiva e dinâmica diante da vida e procurar ver o lado bom dos acontecimentos; Planejar o tempo para a alimentação adequada, a atividade física, a família, o trabalho, o lazer e os amigos” (LIPP, 2014, P. 77).  

4. Considerações Finais

O stress é um fenômeno que afeta milhares de pessoas no decorrer de suas vidas, muitas vezes o indivíduo é incapaz de identificar ou perceber que possa estar acometido por stress. A rotina diária, a pressa, as responsabilidades exigidas faz com que esse fenômeno se instale no organismo sem que essas pessoas percebam, provocando vários sintomas físicos e psicológicos podendo afetar todo o contexto familiar, social, profissional e o mais importante à saúde.

Embora a palavra stress seja popularmente conhecida, muitos não têm noção das consequências que podem ser devastadoras causando mau desempenho na relação do individuo com o ambiente ao qual está inserido e debilitando o seu estado físico e emocional.

Considerando os autores fica evidente que as pesquisas sobre as condições de trabalho dos motoristas de ônibus são mínimas em relação a outras profissões, além de haver a necessidade de elaboração de testes psicológicos de personalidade que indique o perfil ideal do individuo para a profissão.  

Portanto, é fundamental que haja nas empresas de transporte coletivo uma conscientização para a prevenção do stress, possibilitando a diminuição dos riscos de acidentes de transito e evitando conflitos no relacionamento entre motorista e usuários.

Antes que seja estabelecido o stress no organismo é importante um pré diagnostico através de inventários que possam identificar os sintomas, favorecendo a prevenção e o tratamento, e também que faça parte da rotina diária de trabalho dos motoristas a prática de técnicas como a inoculação do stress para que sejam capazes de lidar com stress e técnicas de relaxamento para reduzir a ansiedade.

Sobre o Autor:

Rosana Valério Feitoza - Formada em Psicologia em 2014.

Referências:

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