Transtornos Alimentares na Adolescência: avaliando antecedentes

Transtornos Alimentares na Adolescência: avaliando antecedentes
(Tempo de leitura: 4 - 8 minutos)

Atualmente, já se descreve o que poderia ser chamado de comportamento de risco para desenvolver um distúrbio alimentar. Em geral, os pacientes bulímicos ou anoréticos, muito antes da doença estabelecida, já apresentam alguma alteração emocional e/ou do comportamento. Emocionalmente esses pacientes de risco apresentam alguma crítica constante a alguma parte do corpo, insatisfação com o peso, enfim, alguma alteração na percepção corporal (dismorfia) com diminuição gradativa de suas atividades sociais, ou do prazer antes associado a elas.

Comportamentalmente, apresentavam hábito de fazer dieta mesmo quando o peso estava proporcional à estatura e, mesmo ao perderem peso, continuavam com a dieta . É importante lembrar que todas essas modalidades de comportamento são de avaliação muito difícil quando se trata de um adolescente, haja vista que nessa faixa etária, o isolamento, os problemas de relacionamento, a preocupação e vergonha com o corpo, a distorção da autoimagem, o aumento do apetite, os modismos alimentares, etc., são característicos e esperados, fazendo parte da chamada Síndrome da Adolescência Normal.

Na Psicologia, podemos fazer uma comparação, a grosso modo, diferentemente do que acontece na Obstetrícia, onde a pessoa ou está ou não está grávida, podemos encontrar alterações em graus variados. É como se a pessoa pudesse estar muito grávida ou pouco grávida. E assim acontece com as alterações da autoimagem corporal.

Sabe-se que para se desenvolver a Anorexia Nervosa e a Bulimia é necessário que o paciente experimente antes a Dismorfia Corporal. A característica essencial da Dismorfia Corporal (Transtorno Dismórfico Corporal pela CID.10 e DISM.IV ou, historicamente, Dismorfofobia) é uma preocupação com algum aspecto na aparência, sendo este aspecto obsessivamente imaginado ou, se realmente houver algo presente, a preocupação sobre isso é acentuadamente excessiva e desproporcional. Essa preocupação exagerada causa sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento sócio ocupacional.

Mas, como vimos antes, sendo a psicologia uma área caracteristicamente pautada em graus de variações em suas alterações, a Dismorfia Corporal pode ser leve, moderada e grave. Para alterações na Conduta Alimentar é necessário que a pessoa tenha uma autoimagem alterada quantitativamente ou qualitativamente. Pode estar se achando muito gorda, quando na realidade seria apenas “cheinha”, pode estar se vendo apenas gorda, quando na realidade é normal ou até magra, enfim, pode estar se vendo (e sentindo) distante de algum padrão ideal de configuração.

O conceito ideal atual a se perseguir incessantemente é ser belo (a), jovem e magro(a). As pessoas, em geral, e os adolescentes em particular, costumam crer que modelos, artistas de cinema e de televisão sejam protótipos a serem copiados. A questão estética deixa de ser harmonia e passa a ser imposição. Na cultura ocidental atual, o conceito de beleza está associado à juventude, como se o belo fosse, necessariamente, igual a ser jovem. Talvez por isso nossa era vive  batendo recordes na cirurgia de rejuvenescimento e no consumo de medicamentos para emagrecer.

A investigação nos Transtornos da Conduta Alimentar tem constituído um foco de atenção em psicologia e psiquiatria nessas três últimas décadas (TORO, 2000). De concreto, temos que as investigações epidemiológicas vêm mostrando um aumento considerável no número de pessoas acometidas de Bulimia Nervosa e Anorexia Nervosa nos últimos anos (EAGLES et. al, 1995; SÁIZ et al, 1999).

Calcula-se, de fato, que a prevalência desses transtornos oscila entre o 0,5 e o 4% (CARBAJO et. al, 1995). Concretamente, o DSM-IV assinala a prevalência da Anorexia Nervosa na população adolescente e juvenil feminina entre o 0,5 e o 1%, e a da Bulimia Nervosa entre o 1 e o 3% (DSM.IV). O que não significa que os meninos não sofram desse transtorno. O que antes era de um menino para cada 10 meninas, agora  o é de um para cinco meninas.

O tema tem sido predominantemente tratado em assuntos da adolescência por que se estima que 50% dos casos de Bulimia Nervosa ocorra antes dos 18 anos, porém como seu diagnóstico não tem sido fácil nessa faixa etária, tem-se a impressão de sua incidência ser maior acima dessa idade.

A média de idade do início da Bulimia Nervosa foi de 16,3 anos, variando de 13 a 19 anos (HERZOG et al, 1991). Sua principal característica são os episódios de comer compulsivo (binge-eating) e esse comportamento é caracterizado por ingestão de alimentos muito calóricos, de forma compulsiva até o limite da capacidade gástrica e num espaço de tempo inferior a duas horas.

Nessas crises chega-se a ingerir até 20.000 cal, depois das quais sobrevém um sentimento de culpa e uma tentativa de compensar o “pecado” com horas de exercício físico exaustivo ou, literalmente, por “livrar-se” (de forma mágica/fantasiosa) da comida através do vômito, laxantes e/ou diuréticos.

Em 30% dos casos de Bulimia há provocação de vômitos. Alguns usam diuréticos ou laxativos e uma porcentagem pequena usa medicação indicada para hipotireoidismo. Esses episódios ocorrem com frequência de até 3 vezes por semana. Os pacientes bulímicos estão sujeitos a grande variação de peso, com ganhos e perdas frequentes.

Outros comportamentos impulsivos podem estar presentes nesses pacientes como: roubar, gastar desmesuradamente, abuso de drogas, e promiscuidade . Uma história de abuso sexual pode estar presente em até 50% dos casos. Por outro lado, a severidade na distorção da percepção da imagem corporal, extremamente grave nos pacientes com Anorexia e Bulimia, pode ser um sério fator de risco no desenvolvimento de Transtornos da Conduta Alimentar.

Na linha de recentes investigações, a porcentagem de mulheres adolescentes que, numa primeira fase apresentam risco potencial de sofrer algum tipo de Transtorno da Alimentação se situa em 17,3% da mostra estudada, contra 0,6% nos homens adolescentes. Por outro lado, as adolescentes que manifestam maior sintomatologia própria dos Transtornos da Alimentação, também apresentam maior insatisfação com a própria imagem corporal associada. Falta-nos, entretanto, levantar dados para saber quais são, exatamente, os elementos culturais atrelados à valorização do próprio corpo. Que tipo de tirania cultural tem vitimado as pessoas a se sentirem insatisfeitas com o próprio corpo (portanto, consigo mesmas).

Do ponto de vista da prevalência dos Transtornos da Conduta Alimentar, outros estudos recentes têm mostrado uma tendência similar. Um desses estudos (Sáiz et al, 1999), com 816 adolescentes de ambos os sexos, estudantes do curso de ensino médio, encontrou 7,7% das mulheres e 1,1% dos homens com riscos potenciais de desenvolver Transtornos da Conduta Alimentar. Essa diferença entre os sexos se repete em outros trabalhos (TORO et al, 1989; BUDDEBERG-FISCHER et al, 1996; COTRUFO et al, 1998). No que diz respeito à imagem corporal e propensão aos Transtornos Alimentares, numerosas investigações têm documentado o importantíssimo papel da auto-avaliação e da insatisfação da pessoa sobre sua imagem corporal . Os estudos indicam também que as alterações da imagem corporal podem ser a causa de problemas emocionais importantes na adolescência e início da juventude (CASH et al, 1989), podendo atuar como um fator de risco predisponente, precipitante ou mantenedor dos Transtornos da Conduta Alimentar.

O que seria um fator por si só, já de grande valia para nós, profissionais da saúde mental, servindo de alerta para investigação desses jovens que viriam a sofrer futuramente com Transtornos da Conduta Alimentar, uma vez identificados os problemas na autoavaliação corporal.

Sobre o Autor:

Martina Garcia Barbosa - Psicóloga. Especialista em Gestão de Pessoas. Psicóloga Perita Examinadora de Trânsito. Psicóloga Escolar da rede Federal de Instituto de ensino Técnico e Tecnológico Farroupilha. Psicóloga Clínica Forense.

Referências:

Buddeberg-Fischer B., Bernet R., Sieber M., Schmid J., Buddeberg C.; Epidemiology of eating behaviour and weight distribution in 14 to 19 year-old Swiss students. Acta Psychiatri. Scand. 1996; 93: 296-305.

Carbajo G., Canals J., Fernández-Ballart J., Doménech E.; Cuestionario de actitudes alimentarias en una muestra de adolescentes: dos años de seguimiento. Psiquis 1995; 16(4): 21-26

Cotrufo P., Barreta V., Monteleone P., Mai M.; Full-syndrome, partial-syndrome and subclinical eating disorders: an epidemiological study of female studens in Southern Italy. Acta Psychiatr. Scand. 1998: 98: 112-115.

Eagles J. M., Johnston M. J., Hunter D., Lobban M., Millar H.; Increasing incidence of anorexia nervosa in the female population of Northeast Scondland. Am. J. Psychiatry 1995; 152: (12) 66-71.

Herzog DB, Keller MB, Lavori PW, Bradburn IS. Bulimia nervosa in adolescence. J Dev Behav Pediatr, 1991, 12(3): 191-195.

Sáiz, P. A., González M. P., Bascarán M. T., Fernández J. M., Bousoño M., Bobes J.; Prevalencia de trastornos de conducta alimentaria en jóvenes de enseñanza secundaria: un estudio preliminar. Actas Españolas de Psiquiatría 1999; 27(6): 367-374.

Toro J., La epidemiología de los trastornos de la conducta alimentaria. Med. Clin 2000; 114: 543-544.

Toro, J., Castro J., García M., Cuesta L.; Eating attitudes, sociodemographic factors and body shape evaluation in adolescence. Bri. J. Med. Psychology 1989

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