Um Breve Estudo da Dependência Química: Ilustrações com o Filme “Trainspotting – Sem Limites”

(Tempo de leitura: 12 - 24 minutos)

Resumo: Este artigo tem por objetivo elucidar o conceito Droga e conceitos concernentes a seu uso, a saber, Dependência química, Abstinência, Tolerância e Overdose, e, por consequência, ilustrar esses conceitos lançando mão do filme “Trainspotting – Sem Limites”. Além disso, tem por objetivo analisar a crítica social que esse filme põe em prática através de seu enredo e, por fim, compreender se ele faz apologia ao uso de drogas, ou, ao contrário, trata-se de uma película claramente proibicionista.

Palavras-chave: Psicologia, Dependência Química, Tratamento, Equipe interdisciplinar, Trainspotting – Sem Limites.

1. Introdução

É necessário considerar o dependente químico não como tal, mas, sim, como um ser humano. Ele, mesmo que esteja sucumbido à sua dependência, não tendo pois controle de sua liberdade e autonomia, é passível de compreender que sua condição é deplorável e, assim, querer e/ou decidir mudá-la, ao contrário que a massa deduz. Por conservar sua potência enquanto ser, pode, sem dúvida, transformar sua condição problemática em um projeto cujo objetivo visa principalmente à ressignificação de seu valores. “Desse modo, descobrindo o significado da sua história pessoal.”. Embora seja um ser confuso, que está sozinho e ferido, externa e internamente, é passível de manifestar suas qualidades e de ter consciência, “Desenvolve-se partindo de si mesmo em direção aos outros.”. Enfim, um ser susceptível à renascença à reorganização de sua vida, logo, à reaquisição de sua autonomia e de sua liberdade (Química, D. 2010, p. 4).

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Em relação a seu tratamento, torna-se necessário conceber, primeiramente, que a dependência química é um problema que compreende a saúde, tanto física quanto psíquica, os contextos sociocultural e familiar, isto é, um problema sistêmico. Desse modo, necessita de um enfoque integrado, ou seja, interdisciplinar, e não unilateral. Aliás, necessita de um enfoque que vise à integração do trabalho e do estudo de diversas áreas do conhecimento científico, para a obtenção de uma compreensão mais holística do problema da dependência química e como seus fatores correlacionam-se. Além disso, por ser esse um tratamento dinâmico e complexo, a equipe interdisciplinar se coloca diante de três etapas principais, onde, em cada uma, agirá de maneira específica (Química, D. 2010).

Em um primeiro momento, na etapa de acolhimento do sujeito, a equipe objetiva estabelecer uma rede de apoio para o tratamento, com quem procura por uma ajuda profissional, assim, elegendo um porta-voz para estabelecer vínculo com dependente químico. Quatro pontos são indispensáveis nessa etapa: (1) habilidade para acolher e estabelecer vínculos. (2) Construção de estratégias que visem à mobilização daquele para a aceitação da ajuda proporcionada pela equipe e seus familiares. (3) Executar, também, a acolhida com os familiares, os que procuram ajuda para o dependente químico, assim, trabalhando em uma perspectiva sistêmica, porque eles são fundamentais para sua mobilização. (4) Colher elementos que norteiem o diagnóstico e a avaliação tanto do dependente químico quanto de sua família, deste modo, executando o diagnóstico potencial, para compreender os recursos existentes em seu contexto, e, em seguida, executando o psicodiagnóstico do dependente químico e seu encaminhamento ao tratamento terapêutico específico (Química, D. 2010).

Em um segundo momento, etapa de execução do tratamento, seguindo os parâmetros da Política de Assistência na Área da Saúde Mental, que regem os Centros de Atenção Psicossocial CAPS ad II, a equipe interdisciplinar – um médico psiquiatra, um enfermeiro especializado em saúde mental, um médico clínico, quatro profissionais de nível superior: psicólogo, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, pedagogo., seis profissionais de nível médio: técnico de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão – tem de proporcionar as seguintes atividades: (1) atendimento individual, isto é, medicamentoso, psicoterápico e de orientação. (2) Atendimento em pequenos grupos, que visem à psicoterapia, ao trabalho em grupo operativo e a atividades de suporte social. (3) Atendimento em oficinas terapêuticas cujos dirigentes sejam profissionais que possuam nível médio ou superior. (4) Atendimentos e visitas domiciliares. (5) Atendimento às famílias. (5) Atividades comunitárias que visem à integração do dependente químico na comunidade e sua reinserção nos grupos familiar e social. (7) Refeição diária aos que dependentes químicos. (8) Atendimento de desintoxicação (Química, D. 2010).

É importante comunicar que os dependentes químicos não necessariamente apresentam demanda de tratamento psicoterápico e acabam por se identificarem com atividades outras de valor terapêutico que proporcionam, por exemplo, cuidados com o corpo e com sua espiritualidade. As terapêuticas alternativas também podem auxiliar e muito para o processo de tratamento do dependente químico. Sendo assim, torna-se necessária a avaliação singular de cada demanda (Química, D. 2010).

Em um terceiro momento, etapa final de reinserção social do dependente químico, a equipe não pode prescindir de seu enfoque interdisciplinar que é tal qual importante como nas duas primeiras etapas do tratamento. Nesta etapa, orientações referentes ao trabalho, à escolarização, à formação profissional, aos relacionamentos interpessoais e familiares e, enfim, ao lazer, são impreterivelmente abordados, sendo sempre evidenciado o não uso de drogas. Cada equipe, em sua especificidade mas com um único objetivo, tem de criar estratégias para auxiliar esta fase final do tratamento, visando a prevenir recaídas e a garantir qualidade de vida ao sujeito (Química, D. 2010).

É importante manifestar que o sujeito pode não aderir ao modelo de tratamento sugerido acima, deste modo, podendo buscar alternativas outras de tratamento. Um deles é o assim chamado Grupo de mútua-ajuda. A saber, foi criado em, aproximadamente, 1935 e se baseia nos 12 Passos dos Alcóolicos Anônimos – AA. É uma proposta conjunta entre um psiquiatra e um psicólogo, Dr. Daniel Anderson, que perceberam serem eficazes para o tratamento as partilhas executadas pelos sujeitos em problemas com álcool e, também, o trabalho de uma equipe multidisciplinar. Por considerarem impróprio o contexto do hospital, onde foram realizadas as primeiras reuniões, ambos os profissionais decidiram executá-las fora dessa instituição, o que gerou conflitos com seu corpo administrativo, mas que se tornou um dos principais modelos de tratamento de dependentes químicos do mundo, baseado nos 12 Passos do AA e em uma abordagem multidisciplinar, conforme ressaltado acima (Química, D. 2010).

Evidenciadas essas informações preliminares, cumpre dizer que este artigo, para efeito de melhor compreensão, foi divido em três momentos. Em um primeiro momento, através de revisões bibliográficas de artigos científicos, elucidou, de maneira breve, o conceito Droga e conceitos outros que conferem a seu uso. Mais especificamente, Dependência, Abstinência, Tolerância e Overdose. Além disso, objetivou ilustrar esses quatro conceitos com o auxílio do filme Trainspotting – Sem Limites. Em um segundo momento, objetivou refletir acerca da crítica social que ele executa, em suas cenas incipientes, através de um monólogo executado por Renton, seu personagem principal. Em um terceiro momento, objetivou compreender esta inquietude: O filme Trainspotting – Sem Limites faz apologia ao uso de drogas, ou, ao contrário, trata-se de uma película claramente proibicionista?. Enfim, aduziram-se as considerações finais.

2. Desenvolvimento

De maneira mais ampla, o conceito Droga se refere a um conjunto de substâncias químicas – naturais e/ou sintéticas –, que acometem o sistema nervoso central. Com efeito, suscitando “alterações na mente, no organismo e no comportamento das pessoas.”, as quais podem variar de acordo com o tipo da substância. Logo, podendo reduzir a atividade mental, se forem drogas depressoras, aumentar a atividade mental, se forem drogas ativadoras, e ocasionar o rompimento com a realidade, se forem drogas alucinógenas. Além das subcategorias drogas naturais e drogas sintéticas, há as subcategorias drogas lícitas e drogas ilícitas. Naquela se inscrevem o álcool, o fumo, os ansiolíticos e os barbitúricos. Nessa, a maconha, a cocaína, a heroína, o LSD, o ecstasy e o crack (SOLIDÁRIO, [...], pp. 3-4).

Nessa perspectiva, convém dizer que os seres humanos podem passar a fazer uso dessas substâncias por motivos vários. A saber, por uma necessidade de estabelecer laços sociais, por curiosidade, por buscar sensações de prazer e/ou por pretender fugir de problemas (Solidário, [...], p. 6).

Não menos, conforme escreveu Freud, devido à vida ser demasiado árdua. Durante suas existências, o que é mais proporcionado aos seres humanos são dores, decepções e dilemas indissolúveis. Eles são porosos ao sofrimento, que pode ser proveniente destas três fontes principais: (1) de seus próprios corpos, (2) do mundo externo, porque age sobre eles com forças potentes, (3) e de suas relações com outros seres humanos. Sendo que os provenientes da terceira fonte são os mais penosos. Sendo assim, são obrigados a lançar mão de recursos que lhes deem, pelo menos em uma primeira instância, consolação. Um desses recursos se refere à intoxicação do organismo, diga-se de passagem, o mais cru e o mais eficaz (FREUD, 2011, [1930-36], pp. 18-22).

Explicado, mesmo que de maneira breve, o conceito Droga, é possível pôr em prática tanto a elucidação quanto a ilustração dos quatro conceitos supracitados. Esses dois processos serão realizados nos parágrafos que se seguem.

Em relação ao conceito Dependência, ou Adicção [01], refere-se ao desejo intenso e compulsivo, seja de ordem física ou psicológica, por consumir qualquer coisa. No que diz respeito à dependência de substâncias psicoativas, de maneira mais específica, refere-se a um conjunto de sintomas que acomete a saúde como um todo (FAVARO e PAULA, 2012, p.41). Estando nessa condição, os seres humanos passam a depender da satisfação obtida através do consumismo dessas substâncias para sobreviverem (SOLIDÁRIO [...], p. 10).

Duas cenas do filme “Trainspotting –Sem Limites” ilustram precisamente o conceito Dependência.

A primeira cena é quando Renton profere:

Mais ou menos nesse momento, Spud, Sick Boy e eu... tomamos a decisão democrática e sadia de voltar para [indicando através dessa preposição período indeterminado, por longo prazo] a heroína logo. [...] parece fácil, mas não é. Parece uma opção suave... mas viver assim é como um trabalho em período integral (TRAINSPOTTING,1996, 32:32 - 33:00).

A escolha dessa cena está pautada pela metáfora elaborada por Renton entre o trabalho e o uso intensivo de heroína. Por outras palavras, o que ficou evidenciado em seu discurso foi que o uso da heroína tem de ser diário, por períodos abrangentes e é imprescindível. Tal qual o trabalho. Como se sabe, os seres humanos, via de regra, trabalham diariamente, por períodos abrangentes e, não tenha dúvida, é imprescindível, sobretudo para suas sobrevivências.

A segunda cena é quando Renton profere:

Mas os bons tempos não duram para sempre. Acho que Allison gritou o dia todo... mas eu não tinha percebido. Poderia ter gritado uma semana, pelo que eu sabia. Há dias eu não ouvia ninguém... embora alguém certamente devesse ter dito algo nesse tempo todo. [...]. Nada mais longe da verdade. Na verdade, nada ficaria bem. Pelo contrário, ia ficar ruim. Ruim? Tudo ia ficar ainda pior do que já estava. [...]. O bebê não era meu. Não era minha filha. [...]. Vou preparar um baque (TRAINSPOTTING, 1996, 36:53 - 39:12).

A escolha dessa cena está pautada, sobretudo, pela consequência do uso intenso e compulsivo de heroína em uma casa – Madre Superiora – cuja condição era deplorável. Ou seja, a morte do bebê Dawn. Allison, que era sua mãe, juntamente com os demais, de tanto fazer uso de heroína, ausentou-se da realidade. Com efeito, não executando sequer os cuidados necessários à filha. É cabível aditar, ainda, que, após ver o bebê falecido, lastima. Mas, em seguida, volta a fazer uso de heroína. Indubitavelmente, uma das cenas mais terrificantes desse filme.

Em relação ao conceito Abstinência, diz respeito às consequências, físicas e/ou psicológicas, ocasionadas devido à interrupção do uso de determinada substância psicoativa. A saber, alto nível de ansiedade, desejo incontrolável [fissura] de consumi-la novamente, sudorese excessiva, impotência, tremores musculares, taquicardia, dentre outras alterações. Cumpre dizer que, nesse caso, o “desejo incontrolável” que domina os seres humanos não está exclusivamente relacionado à droga de uso habitual. Logo, pode estar relacionado também ao uso de outras drogas cujos efeitos são mais potentes em seus organismos (Solidário, [...], pp. 11-12).

No filme em questão, duas cenas ilustram o conceito Abstinência de modo preciso. A primeira é quando Renton profere:

Abondando a droga. Primeira fase: preparação. Para isso é preciso: um quarto, onde você não vai sair... música suave, 10 latas de sopa de tomate... 8 latas de sopa de champignon, para serem comidas frias... um pote grande de sorvete de baunilha... um vidro de leite de magnésia... Paracetamol, anti-séptico bucal, vitaminas, água mineral... Lucozade, pornografia...um colchão, um balde para urina, um para fazer fezes, outro para vômito... [...] (TRAINSPOTTING, 1996, 05:42 - 06:39).

Contudo, após esquematizar seu “abandono da heroína”, aparece eminentemente ansioso e denotando tremores musculares. Indo, sobretudo, à procura de um traficante para mitigar seu desejo intenso pela droga. A segunda cena é quando Renton, estando em pós-processo de overdose trancado em um quarto, começa a dizer estas palavras:

Ainda não me sinto mal, mas, com certeza, vou me sentir. Estou no limbo dos viciados...enjoado demais para dormir, cansado demais para ficar acordado. Mas o mal-estar vem aí. Suor, arrepios, náuseas, dor e ansiedade. Uma necessidade diferente de tudo o que já senti se apossará de mim. Está vindo (TRAINSPOTTING, 1996, 48:20 - 53:44).

Com efeito, começou a manifestar todos aqueles sinais característicos da abstinência. Sobretudo, tendo alucinações com o bebê Dawn, a qual andava de cabeça para baixo no teto, até que seus pais o contiveram.

Em relação ao conceito Tolerância, diz respeito a dois fenômenos. Primeiro, é quando os seres humanos precisam de uma dosagem mais elevada de uma substância psicoativa, já utilizada há algum tempo, para obter os mesmos efeitos que ela lhes proporcionara em usos pregressos. Segundo, é quando eles precisam substituir um tipo de substância psicoativa por outra que tenha efeitos mais potentes em seus organismos. Assim, obtendo as mesmas satisfações proporcionadas pela droga anterior, ou, aliás, satisfações mais elevadas (CAMPOS E SOARES, 2004, p.5).

A cena em que Renton expressa estas palavras é a que melhor ilustra o conceito Tolerância:

Swanney nos ensinou a amar o sistema de saúde do país... pois era a nossa fonte. Roubávamos drogas... comprávamos, vendíamos, fazíamos cópias de receitas médicas... ou trocávamos drogas com vítimas de câncer... alcóolatras, aposentados... aidéticos, epilépticos, donas de casa entediadas. Era morfina, diamorfina, ciclozina, codeína, Temazepam... [...]. As ruas estão cheias de drogas pra infelizes ou doentes... e a gente tomava todas. Porra, a gente injetaria até vitamina C, se fosse proibida. Desgraça sobre desgraça. Jogar na colher, dissolver... [...]. Pois, por mais que você tenha ou roube, nunca tem o bastante (TRAINSPOTTING, 1996, 35:29 - 40:00).

Ora, pois, fica claro que o protagonista do filme faz uso de várias substâncias psicoativas para conseguir a satisfação almejada, e cada vez em doses mais elevadas. Todavia, nunca a obtém, conforme ele mesmo afirma.

Em relação ao conceito Overdose, diz respeito à superdosagem de uma substância psicoativa (CAMPOS E SOARES, 2004, p. 5). Em certos casos, a morte é certa. Seus principais sinais são a convulsão, a falência cardíaca e/ou a depressão respiratória (BRASIL, 2010, p. 25).

É possível ilustrar o conceito Overdose, com o auxílio do filme supracitado, fazendo uso de suas cenas contidas entre os minutos 43: 20 e 47: 36. A saber, Renton, após o uso intenso e compulsivo de heroína, demonstrou falência de seus órgãos. Por consequência, foi conduzido ao hospital. Cabe evidenciar, aqui, a maneira como isso ocorreu. Primeiramente, à rua e ao táxi, pelo traficante. Segundamente, ao hospital, pelo taxista. Uma desconsideração do ser humano!

Executadas a elucidação e a ilustração dos conceitos acima, buscar-se-á refletir acerca da crítica social que o filme “Trainspotting – Sem Limites” elabora em suas cenas incipientes, através deste monólogo feito por Renton:

Escolha viver. Escolha um emprego. Escolha uma carreira, uma família. Escolha uma televisão enorme. Escolha lavadoras... carros, CD players e abridores de latas elétricos. Vamos! Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário. Escolha uma hipoteca a juros fixos. Escolha sua primeira casa. Escolha seus amigos. Escolha roupas esporte e malas combinando. Escolha um terno numa variedade de tecidos. Escolha fazer consertos em casa e pensar no domingo de manhã. Escolha sentar-se no sofá e ficar vendo game shows chatos na TV... comendo porcaria. Vamos! Escolha apodrecer no final, beber num lar que envergonha... os filhos egoístas que pôs no mundo para substituí-lo. Escolha o seu futuro. Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. E os motivos... Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína? (TRAINSPOTTING, 1996, 00:10 - 01:42).

Ora, pois, o protagonista do filme, na execução de seu monólogo, escarnece dos sujeitos que se renderam aos padrões do sistema capitalista. Desse modo, consumindo exacerbadamente a fim de saciar seus desejos. Não sabem eles, nunca o serão, pelo menos não integralmente. Tornando-se, assim, um ciclo vicioso. Embora consumam aparentemente a bel-prazer, sempre estão consumindo segundo a imposição do outro. Ele, em contraste, não, embora também pertença à classe de consumidores ávidos. Isso, porque se despoja do que é imposto como padrão pelo social. Com efeito, não tendo uma “vida infeliz” como a dos demais. Se viver é se assujeitar a essa perversa alienação, é preferível não viver, conforme o proferiu Renton (TRAINSPOTTING, 1996, 00:10 - 01:42): “Escolha viver. Mas por que eu iria querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa.”. Em detrimento dos demais consumidores ávidos, dos quais zomba, ele está salvo pela “heroína”: intitulada assim porque o salva dessa alienação [02]. Nesse sentido, porventura, a pergunta a ser fazer seria esta: “Quem é mais escravo do consumismo, os intoxicados pelas drogas ou, aliás, os “intoxicados” pelos padrões sociais de consumo?”.

Isso é assaz convincente. Como se sabe, há algumas décadas vem ocorrendo o deslocamento dos mecanismos capitalistas. Quer isso dizer, já não mais estão circunscritos apenas às empresas e aos seus estratagemas de ascendência capital. Pelo contrário, difundiram-se de modo que, com efeito, estão a permear as relações interpessoais.

Por consequência, as pessoas começaram a considerar o outro como mercadoria. Concomitantemente, não menos, começaram a comportar como tal. Não havendo, assim, mais a divisão entre as coisas a serem consumidas e as pessoas que as consumem. A sociedade na qual coabitamos se diferencia das demais sociedades justamente devido ao “embaraçamento e, em última instância, a eliminação das divisões citadas acima” (BAUMAN, 2008, pp. 20-26).

Sendo, portanto, o consumismo [03] um de seus traços mais evidentes, a sociedade moderna se baseia no compromisso de liquidar todos os  “[...] desejos humanos em um grau que nenhuma sociedade do passado pôde alcançar, ou mesmo sonhar, mas a promessa de satisfação só permanece sedutora enquanto o desejo continua insatisfeito; [...]” (BAUMAN, 2008, p. 63).

 O embargo é que, via de regra, por serem “Bombardeados de todos os lados por sugestões de que precisam equiparar com um outro produto fornecido pelas lojas”, os consumidores têm por incumbência consumirem para serem considerados sujeitos, manterem suas posições sociais e protegerem suas autoestimas. Caso contrário, contrário, sejam eles “[...] de ambos os sexos, todas as idades e posições sociais irão sentir-se inadequados, deficientes e abaixo do padrão a não ser que respondam com prontidão a esses apelos.” (BAUMAN, 2008, p. 74).

Contudo, apenas consumir exacerbadamente não lhes faz receber a identidade de sujeitos. Não é bem por aí. É forçoso, também, que esses consumidores sôfregos sigam a massa. Quer isso dizer, devem consumir aquilo que é imposto, que é considerado “atual”, “novo”, “moderno”. Por outras palavras, a:

“sociedade de consumidores” se distingue por uma reconstrução das relações humanas a partir do padrão, e à semelhança, das relações entre os consumidores e os objetos de consumo. Esse efeito notável foi alcançado mediante a anexação e colonização, pelos mercados de consumo, do espaço que se estende entre os indivíduos – esse espaço em que se estabelecem as ligações que conectam os seres humanos e se erguem as cercas que os separam (BAUMAN, 2008, p. 19).

Do mesmo modo, cabe adir, ainda, que tais objetos não podem ter suas validades perenes. Pelo contrário, quanto mais fadados ao descarte, melhor. Sendo assim, os bens duráveis, que antes eram fonte de prazer, tornaram-se “monstruosidade e estigma de vergonha.” (BAUMAN, 2008, p. 52).

Freud, perspicazmente, já percebia essa padronização presente nas relações interpessoais. Com efeito, afirmando que a sociedade atual em geral se tornou sedenta por ela. O sujeito, assiduamente, segue os padrões, a massa. Isso, porque é uma maneira de evitar a angústia. Aliás:

A ordem é uma espécie de compulsão de repetição quem uma vez estabelecida, resolve quando, onde e como algo deve ser feito, de modo a evitar oscilações e hesitações em cada caso idêntico. [...] ela poupa energias psíquicas. [...] ninguém a porá em segundo plano, como coisas acessórias (FREUD, 1930-36, p. 38).

Nesse sentido, fica mais salutar seguir o que impõe o outro, do que correr o risco de ser, assim como mercadorias outras, descartado por não acompanhar as tendências dominantes.

Antes de ultimar este trabalho, é forçoso compreender se o filme ““Trainspotting – Sem Limites” faz apologia ao uso de drogas, ou, ao contrário, trata-se de uma película claramente proibicionista?”.

Portanto, nem um nem outro. Aliás, a resposta para essa pergunta está intimamente relacionada à compreensão interna daqueles que assistem ao filme: uma obra artística. Ora, pois, como se sabe, a arte nunca deve ser compreendida apenas por um anglo. Ela é polissêmica, aberta a múltiplas interpretações [04] (Freitas, 2001, p. 36-37). Esse, talvez, tenha sido o intuito principal de Danny Boyle, seu diretor. Ou seja, colocar a cargo de seus contempladores a elaboração das inferências sobre o que é elucidado pelo filme, sendo eles guiados por suas – mas não próprias – percepções internas do fenômeno.

Entretanto, sem dúvida, haverá aqueles que se renderão às compreensões de que esse filme faz apologia ao uso de drogas. Sendo assim, é necessário desmenti-los evidenciando que seus discursos estão atravessados por estigmas sociais. Esse tipo de discurso tem por objetivo elaborar “[...] um julgamento extremamente negativo lançado pelos grupos sociais dominantes sobre os grupos subalternos e oprimidos e, por extensão, sobre tudo o que caracteriza seu modo de ser, sua cultura [...]” (BAGNO, 2003, p. 67). A verdade é que, infelizmente:

[...] aquilo que vem do alto, das classes dominantes, é considerado indiscutivelmente bom, bonito, digno de ser imitado, e passa a ser considerado como um valor natural, incontestável, como se suas qualidades brotassem da própria natureza das coisas desde o início das eras...No mesmo movimento, tudo o que não se encaixa nesse modelo é considerado “feio”, “indigno”, “corrompido” “inculto” (BAGNO, 2003, p. 66).

Ademais, haverá aqueles que aduzirão que “Trainspotting – Sem Limites” tem por objetivo apresentar um discurso proibicionista das drogas. Com efeito, pior ainda, vendo-o como um recurso para prevenir seus usos [05].

Ora, pois, um discurso proibicionista “[...] leva a encarar o usuário unicamente como um drogado, ignorando a profundidade dessa pessoa, suas condições de vida, sua história, os elementos que levaram ela ao consumo de drogas ilegais.”. Além disso, “tem sido motor de todo um aparato político, de um aparato policial que coíbe o uso de drogas. Não importa quais substâncias sejam. O que importa é o atrelamento dela a proibição. É isso que gera o mercado ilegal” (CORRÊA, 2011, p. 1).

Conforme ressaltado acima, o filme, por sua vez, evidencia a realidade de muitas pessoas que são, infelizmente, dependentes de substâncias psicoativas. Logo, deixando a cargo de seus contempladores a elaboração das inferências. Com isso, entretanto, poderão deduzir que ele, então, não tendo um discurso proibicionista, está a favor do uso de drogas. Muito pelo contrário:

A visão não proibicionista não é, portanto, a favor do uso das drogas, ela apenas expõe os problemas gerados pela ilegalização de determinadas substâncias e apoia um trabalho focado nas pessoas. Não é porque estamos discutindo e problematizando a questão da droga que nós somos a favor delas. Nós estamos em outro ponto. É importante não aderir a ser a favor ou contra as drogas. Não estamos dentro dessa polaridade (CORRÊA, 2011, p.1).

3. Considerações finais

É imprescindível analisar e trabalhar a dependência química de maneira holística, quer isto dizer, com uma equipe interdisciplinar. Com efeito, não compreendo o dependente químico apenas como tal, mas, sim, como um ser humano que, mesmo estando nesta condição, ainda, está susceptível à reorganização de sua vida. Para isso, precisa de profissionais que o auxilie nessa caminhada e ressignificação de sua realidade e a compreensão de si como ser integrante dela. Da mesma maneira, é necessário que haja, ainda mais, discussões sobre esse assunto. Somente assim é que serão dissipadas suas controvérsias e o discurso preconceituoso das classes privilegiadas perderá sua vitalidade contra as classes de desprestígio, aplacando os estigmas. Como se sabe, infelizmente, quando aqueles fazem uso de droga, é pomposo, possui status. Quando esses o fazem, é ruim, deve ser combatido, é hábito de marginais que residem nos arrabaldes, portanto, que deve ser combatido. Não pelas consequências, mas, sim, infelizmente, porque não faz parte de um ideal de vida: torna-se, então, terrificante.

Além disso, mesmo que já tenham sido evidenciadas considerações acerca do filme Trainspotting – Sem Limites, cabe destacar as últimas. Portanto, ele deve ser mais divulgado, devido às profundas reflexões que permite. Trabalha a questão das drogas de maneira sistêmica, e não focada, embora superficialmente deduza alguns. Toca no que a maioria não quer fazê-lo, na realidade de quase todas as sociedades: a dependência química. Ademais, embora permita inúmeras interpretações, elucida precisamente o quanto todos nós somos adictos. Se não em drogas ilícitas, em substâncias outras e em atividades das mais diversas. Logo, o que diferencia os primeiros dos demais é, sobretudo, o tipo de vício. Saem do padrão estabelecido pelo social. Com efeito, não sendo rechaçados porque são viciados, é claro, mas por não consumirem tenazmente o mesmo que a massa. Da mesma maneira, elucida, em especial, os efeitos da tecnologia nas relações familiares. Renton, ao buscar dinheiro para comprar drogas, passa despercebido por seus pais, que estão na sala assistindo a programas televisivos. O diretor do filme fez questão de colocá-lo na cena como pano de fundo. Uma técnica bastante apurada. Aliás, seus pais aparecem poucas vezes no transcorrer do filme. Assim, denotando a fragilidade das relações da principal instituição a que o sujeito pertence: a família.

Sobre o Autor:

Jonathas Rafael dos Santos - Discente do Curso de Psicologia da Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis de Divinópolis/MG – FACED (2011 – 2015), Brasil. E-mail de contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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