Análise do Comportamento Violento entre as Torcidas Organizadas de Futebol

Resumo: O seguinte estudo trata os fatores que podem influenciar no comportamento agressivo das torcidas organizadas de futebol, com enfoque para a situação social do Brasil e como ela interfere na conduta do torcedor organizado. Também é feita a distinção entre o torcedor “comum” e o torcedor “organizado”, assim como na maneira do torcer de ambos. Também é traçada uma linha do tempo desde as origens do futebol moderno, criado na Grã-Bretanha, passando pela criação das primeiras torcidas organizadas do Brasil, até o presente momento, apresentando dados sobre as consequências da violência entre as torcidas organizadas. Busca-se, deste modo, explicar como um comportamento agressivo pode ser aprendido por meio da aprendizagem observacional, também chamada de modelação ou modelagem, teoria proposta por Bandura. Tal pesquisa é baseada em literatura já existente, através de livros e artigos.

Palavras-chave: Futebol, Violência, Torcidas Organizadas, Modelagem.

1. Introdução

O futebol no Brasil, assim como em diversos países, apresenta-se como fenômeno predominantemente urbano, guiado pela competição esportiva, com um sentimento lúdico, um ambiente festivo e de entretenimento, mas também vivido fora dos estádios. Muitas vezes ligado a um comportamento transgressor, com desordem nas ruas, ainda, despertando interesses políticos, potencializando as diferenças (TOLEDO, 1996).

Ao fenômeno futebolístico, pode-se dizer que é um espetáculo assistido por milhões de pessoas, tendo uma parcela presente em estádios, enquanto a imensa maioria acompanha seu time do coração a distância. A esses amantes do futebol, dá-se o nome de “torcedor”. Este que é o trabalhador, o estudante, a dona de casa, o malandro, o policial, o dirigente, o político. A condição de torcedor é apenas mais uma entre tantos outros papéis sociais desempenhados pelos indivíduos na sociedade (TOLEDO, 1996).

Se o amor pelo time de futebol une povos completamente diferentes, o próprio jeito de se torcer difere entre os clubes e regiões do Brasil, em escala ainda maior pelo mundo. Porém, o que se nota com mais relevância é a diferença de torcedor dentro da torcida de um mesmo clube. É possível distinguir entre “torcedor comum” e “torcedor organizado”.

O torcedor comum é representado como composto por famílias, mulheres, crianças, senhoras e senhores, apenas interessados em “admirar o espetáculo”. A eles é remetido um clima de pacificidade, alegria, paz e democracia. Em torno da categoria do torcedor organizado, giram representações como as de bandidos, criminosos, como se fossem uma quadrilha criminosa, que apenas traz elementos negativos ao futebol. Por mais que elementos externos ao esporte contribuam, a violência dos Organizados é remetida à sua condição de “facção criminosa” (NETO, 2013).

A razão deste estudo é a busca pela compreensão do que motiva o torcedor, nesse caso, uma parcela pequena de torcedores violentos a agirem de forma agressiva e perigosa contra outras pessoas, sejam elas de torcidas organizadas ou não. Segundo Murad (2017), “o Brasil é o país que ocupa o primeiro lugar em mortes comprovadas de torcedores, mortes causadas por conflitos entre grupos violentos e delinquentes que se infiltram nas torcidas organizadas de futebol.”

2. Origens do Futebol no Brasil

2.1 O Nascer do Esporte

As histórias e versões sobre a origem do esporte mais popular do mundo são inúmeras, porém, o futebol como conhecemos hoje surge no século XIX. A primeira partida entre universidades aconteceu em New Brunswick, estado de Nova Jérsei, entre as universidades de Princeton e Rutgers. A partida foi realizada em um grande campo, com 25 jogadores de cada lado, os pontos eram marcados quando os jogadores colocavam a bola dentro de uma baliza. Era proibido correr com a bola nas mãos, como no rúgbi, esporte esse que surge de uma divergência entre os praticantes do futebol na Grã-Bretanha. Nessa época, na década de 1860, haviam muitos praticantes de futebol, portanto, era preciso que regulamentações fossem estabelecidas. Em países de língua inglesa, como a Inglaterra, EUA e Austrália, os regulamentos criados evoluíram para o código de regras que é utilizado atualmente. No fim de 1863, foi criado o primeiro desses códigos, e o jogo devidamente regulamentado foi chamado de association football (MURRAY, 2000).

“Na década de 1880, além da Grã-Bretanha, o futebol só era praticado na Suíça, Alemanha, e França, mas basicamente por estudantes, e no Uruguai e Argentina, por estudantes, marinheiros, operários e britânicos expatriados.” (MURRAY, 2000, p. 44). Já na virada do século XX, diversas formas de futebol floresciam nos países de língua inglesa. Com raras exceções, apenas o futebol foi adotado pelos povos que não falavam inglês, tornando-se o esporte mais popular do mundo (MURRAY, 2000).

Foram os países mais próximos da Grã-Bretanha sob aspectos comerciais, econômicos, educacionais ou morais os pioneiros no futebol: Argentina e Uruguai na América do Sul, Suíça e Dinamarca na Europa, seguidos por Bélgica, Países Baixos, países escandinavos, Alemanha, França e, em seguida, na virada do século XX, as cidades de Viena, Budapeste e Praga. Apesar de seu sucesso posterior, o Brasil, a Itália e a Espanha foram comparativamente tardios em adotar o futebol (MURRAY, 2000, p. 45).

Segundo Murray (2000, p. 55) “no fim do século XIX, a economia e o futebol se expandiram nas regiões litorâneas meridionais da América do Sul, principalmente nas grandes cidades situadas no estuário do rio da Prata: Buenos Aires e Montevidéu.” É então, após isso, que o futebol enfim chega ao Brasil sobre a tutela de Charles Miller.

2.2 Brasil e Futebol

Atribui-se a Charles Miller vinda do futebol para São Paulo, cidade onde nasceu. Enviado à Inglaterra para estudar, passou dez anos em Southampton, voltando ao Brasil em 1894. Quando voltou, tinha vinte anos, trazia algumas bolas e descobriu que não tinha com quem jogar. Audacioso, criou um time na empresa onde trabalhava, a São Paulo Railway Company. Não contente, estimulou a English Gas Company e o London and Brazilian Bank a fazerem o mesmo, além de convencer o São Paulo Athletic Club a incluir o futebol e o críquete entre suas atividades esportivas (MURRAY, 2000).

Em 1898, surge o primeiro time brasileiro de verdade, formado pelo colégio Mackenzie. Em 1901, Miller e Antônio Casimiro da Costa criaram o primeiro campeonato paulista. Nessa competição, a primeira grande rivalidade era entre o São Paulo AC e o CA Paulistano, que cedeu aos confrontos mais plebeus entre Corinthians e a Sociedade Esportiva Palmeiras (MURRAY, 2000).

Na época, as atividades de lazer ao ar livre mais praticadas pela elite eram os esportes náuticos. Porém, na virada do século XX, alguns dos luxuosos clubes de esporte do Rio de Janeiro e de São Paulo criaram um departamento de futebol. Não demorou muito para o esporte se tornar popular o bastante para que clubes de futebol fossem criados separadamente. Essas foram as origens de um dos mais famosos clássicos da história do futebol: Flamengo x Fluminense, mais conhecido como "Fla-Flu" (MURRAY, 2000).

Murray (2000) ainda destaca que “os ‘Fla-Flu’ chegam a atrair multidões acima de 150 mil torcedores. Em 1963, 177.656 torcedores lotaram o estádio do Maracanã, estabelecendo um recorde mundial para jogo entre clubes.” Mostrando a grandeza que o futebol atingiu em um âmbito nacional, hoje, o "esporte do povo" é praticado em todos os países do mundo e é a maior paixão popular na maioria desses países.

3 Torcidas Organizadas e a Violência no Futebol

3.1 a Origem das Torcidas Organizadas

Em uma breve contextualização sobre a formação das torcidas organizadas, pode-se dizer que o surgimento destas acompanha as mudanças ocorridas na década de setenta. As torcidas organizadas impuseram, de maneira gradativa, outras formas de torcer e desfrutar o futebol, diferentes do comportamento usual nos estádios (TOLEDO, 1996).

[...] a partir de 1970 a relação do torcedor e o futebol adquiriu outros contornos, que foram além da mera paixão pelo clube. O futebol definitivamente torna-se um esporte de massa largamente incentivado pelo Estado, pela mídia, vindo a sofrer um refluxo em termos econômicos apenas na década de 80. Este refluxo foi traduzido na baixa média de público, violência nos estádios, venda dos passes dos principais jogadores para o exterior, altos preços dos ingressos em contrapartida à pobreza dos torcedores. O futebol só voltaria a se constituir novamente em um campo de investimentos a partir da década de 90 com a entrada de capital privado e externo patrocinando alguns grandes clubes (TOLEDO, 1996, p.26).

O “nascer” das primeiras torcidas organizadas fez parte da mobilização e oposição ao período do regime militar que o Brasil passava (1969-1985). Dessa forma, junto a outras organizações e associações, foram responsáveis pela formação de canais de participação e representação popular perante a ausência de partidos e outras representações legais. É comum também associar essas torcidas a gangues juvenis, responsáveis, muitas vezes, pelo caos urbano, assustando os outros torcedores dos estádios, além da depredação a patrimônios e a agregação de malandros, marginais e desocupados de todos os tipos (TOLEDO, 1996).

Os tabloides esportivos associam a emergência das torcidas organizadas com ocasiões específicas, sendo em momentos com interesses políticos dos dirigentes ou de políticos envolvidos com o esporte, ou em momentos de atuação de gangues que têm a violência explícita e gratuita como principal forma de expressão. (TOLEDO, 1996).

Toledo (1996) ainda cita um trecho de uma reportagem da Folha de São Paulo, um dos jornais de maior circulação em todo o Brasil.

[...]A primeira torcida organizada de SP foi criada para bater. A Gaviões da Fiel, fundada em 1969, tinha como intuito "derrubar" o presidente corintiano Wadih Helou. A Mancha Verde, surgiu para acabar com a história de sermos saco de pancadas dos outros[...] (Folha de São Paulo, 9 de fevereiro de 1992 apud TOLEDO, 1996, p.29)

Pimenta (1997) demonstra que a maioria dos filiados às torcidas organizadas têm, em média, de 13 a 22 anos de idade, enquanto Toledo (1997) vai mais a fundo e específica em sua pesquisa e aponta que:

[...] o torcedor organizado típico-ideal é do sexo masculino, situado entre as classes C e B, possui idades entre 15/17 anos, com o grau de instrução entre o primário e o secundário. Esses números confirmam as torcidas organizadas como sendo agrupamentos homogêneos de jovens, reforçando no imaginário coletivo a ideia de uma formação de gangues coloridas juvenis. Essa imagem é reiterada na mídia e consolidada nos altos índices de rejeição que esses grupos e torcedores suscitam na população.

Portanto, a violência parece funcionar como uma forma de solidificar e desenvolver a personalidade de seus membros, estes que veem nas torcidas organizadas o espaço propício para suas manifestações individuais e coletivas. (PIMENTA, 1997). La Taille (1992) explica dizendo que o homem é social em sua essência, sendo impossível pensar neste como ser isolado da sociedade em que nasce e vive. Logo, o homem isolado, não social, visto como independente das influências da sociedade que convive, distanciado das tradições de seu meio, é um homem que não existe. Assim, o jovem se encontra na instituição das torcidas organizadas.

3.2 sobre a violência

Os números revelam que não são poucos os casos de agressão entre as torcidas organizadas no decorrer dos anos, sendo “[...] o Brasil, o país ocupa o primeiro lugar em mortes comprovadas de torcedores, mortes causadas por conflitos entre grupos violentos e delinquentes que se infiltram nas torcidas organizadas de futebol” (MURAD, 2017, p. 21).

De 2010 até 2016 foram 117 homicídios comprovados, média de quase 17 a cada ano, sendo o auge em 2013, ano em que atingiu-se 30 mortes, média de 2,5 ao mês (MURAD, 2017). Para Pimenta (1997), a violência entre as torcidas organizadas fica mais drástica a partir dos anos noventa:

[..] é a partir dos anos noventa que a "coisa fica brava" - mortes frequentes, depredações de patrimônio público e privado, danos aos trens e metrô - surgindo grupos diferentes que começam a travar lutas corporais além dos limites do estádio, criando uma identificação de que os mais "fudidos" merecem mais admiração e respeito, não só na ótica dos grupos, mas também, dos integrantes desses grupos que assimilam, ferozmente, os códigos e as regras existentes.

O sociólogo Maurício Murad fez um levantamento com líderes de torcidas do Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás, Bahia, Pernambuco e Minas Gerais, sendo que aproximadamente 70% dos consultados afirmaram que "a violência em campo contamina as arquibancadas". Machado (2007, p. 107) confirma dizendo que “um fenômeno que também ocorre no esporte é a transferência dos processos emocionais entre o praticante e a torcida”

“O que significa dizer que a consciência coletiva e, digamos, ‘civilizatória’ [...] de todos os agentes no mundo do futebol tornaram-se uma prioridade necessária e imediata.” (MURAD, 2017, p. 11)

3.3 Teorias sobre a Origem da Agressividade entre as Torcidas

Não é raro nos dias atuais notícias voltadas para a violência entre torcedores e, até mesmo, jogadores de futebol. Violência essa que a cada momento se encontra mais presente no meio esportivo. O público esportivo é extremamente relevante, tendo uma parcela de culpa no comportamento dos jogadores dentro de campo, o que provoca um clima tenso, tendo como consequência o clima tenso de brigas durante os jogos, ou, até mesmo, apatia e inércia (MACHADO, 2007).

Ainda que as brigas entre jogadores, as rixas entre torcidos, árbitros e outros integrantes do jogo fossem considerados parte da cultura do futebol (MURRAY, 2000), atualmente, essa ideia é extremamente repudiada. Essa violência é retratada desde os primórdios futebolísticos, como conta Murray (2000, p. 34) sobre um tumulto causado em 1909, no clássico escocês Glasgow Rangers contra Celtic:

O tumulto foi em 1909, quando os dirigentes impediram a realização da prorrogação para o desempate no segundo jogo final entre Rangers e Celtic, em Hampton Park. Os torcedores dos dois times invadiram o campo, derrubaram as traves e incendiaram as bilheterias. Os bombeiros foram atacados e tiveram suas mangueiras cortadas, e diversos policiais ficaram feridos nas batalhas que atravessaram a noite. Os torcedores do Rangers e do Celtic, movidos por ódios sectários, continuariam a brigar entre si por décadas, mas nessa ocasião se uniram. Existiram outros ataques de violência, principalmente nos anos imediatamente seguintes à Primeira Guerra Mundial, e a linguagem chula, as brigas entre as torcidas e as bebedeiras, eram parte da cultura futebolística da classe operária.

Nesse caso, o que se percebe é um evento raro de união das torcidas por uma mesma causa, que, apesar de sua rivalidade sangrenta, uniram-se com um mesmo objetivo. Outro ponto destacável é o ambiente social em que se contextualiza a briga. A tensão causada pela Primeira Guerra Mundial transpassa as trincheiras e invade os gramados.

[...] a agressão no desporto é consequência ou parte integrante da agressão existente na sociedade e que parece utópico querer eliminar a agressão do desporto sem modificar a situação geral da sociedade. (GUAY, 1998 apud MACHADO, 2007, p. 119)

Em um contexto de guerra, é compreensível que os ânimos estejam exacerbados. E em tempos de “paz”, o que explicaria a violência nos estádios de futebol? Machado (2007, p. 106) diz que “[...], o avanço tecnológico, as grandes populações urbanas e as circunstâncias de vida das grandes cidades elevaram o potencial agressivo do homem, tornando-o mais perigoso na procura de seu espaço.”

No anseio de satisfazer às suas necessidades, a interação desses sentimentos com a razão resulta no desencadeamento de várias ações dirigidas ao meio ambiente ou aos seres que o cercam, podendo ser manifestados comportamentos agressivos ou mesmo afáveis. A agressividade surge como um dos vários componentes do comportamento humano. É pela agressão que o homem defende seu território, luta por comida e procura sua sobrevivência (MACHADO, 2007, p. 106-107).

Portanto, é possível dizer que contra a violência, usa-se violência (PIMENTA, 1997), e ainda que o meio social exerce influências para a aprendizagem de atitudes emocionais diversas, como é o caso do comportamento agressivo (BANDURA, 1973 apud MORAES, 2007). Chiland (apud MACHADO, 2007) define agressividade como um comportamento interativo entre um agressor e a vítima.

 

4 perspectivas sobre o comportamento agressivo e violento

4.1 Fisiologia do Comportamento

Ao se basear em todos os dados anteriormente demonstrados, observa-se que o comportamento violento está consumado na sociedade, e, de maneira reflexiva, transpassa as portas dos estádios e chega até o torcedor, este que, em uma via de mão dupla, inflama o jogador de futebol em campo, e vice e versa. Portanto, é necessário esclarecer possíveis razões para essa conduta violenta.

Primeiro, é necessário definir o que é um comportamento. Partindo de um princípio biológico, um comportamento é “toda e qualquer reação instintiva e puramente animal que tem como finalidade a preservação do indivíduo ou da espécie.” (OLIVEIRA, 1999, p. 149). Ou seja, o comportamento origina-se dos mais primitivos instintos do homem, sendo responsável pela sobrevivência desde os primórdios da existência da espécie. Não obstante, o conceito de conduta é atribuído ao comportamento manifestado de maneira adequada ao meio por conta da aprendizagem, sendo, portanto, uma manifestação de aprendizado, não instintiva, ao contrário do comportamento por si só (OLIVEIRA, 1999).

“Portanto, o comportamento não é determinado pelo meio. A conduta, ao contrário, é adquirida, mas se relaciona com o comportamento instintivo: maior ou menor sexualidade, maior ou menor agressividade, etc” (OLIVEIRA, 1999, p. 150).

Essa conduta é uma forma de expressão. Existem variadas formas de se expressar, não só a fala, mas qualquer capacidade de comunicação ou de simplesmente “expressar algo”, podendo ser por meio de mímicas, desenho, ações, expressões faciais, entre outras. Todas essas ações são motoras, logo, a capacidade de expressão é uma função motora proveniente da área de Broca (OLIVEIRA, 1999).

Oliveira (1999, p.43) ainda mostra que “o hemisfério direito do cérebro é responsável pelas funções não-racionais e emocionais, opondo-se ao hemisfério esquerdo, caracterizado pelos processos racionais e lógicos.” Portanto, o comportamento parte do hemisfério direito, vindo de áreas instintivas e agindo conforme a emoção, com racionalidade extremamente limitada.

4.2 o Comportamento por Modelagem

Neste ponto do trabalho, será analisado a teoria de aprendizagem por modelagem de Bandura, que propõe que “uma maneira fundamental de os humanos adquirirem habilidades e comportamentos é observar o comportamento dos outros” (1962, 1977b, 1986 apud HALL, 2000), pois quando as pessoas observam o resultado de seu comportamento e do comportamento dos outros, elas desenvolvem hipóteses sobre possíveis consequências ao produzir determinado comportamento no futuro (HALL, 2000).

Como forma de controle do comportamento, as pessoas tendem a representar simbolicamente os resultados previsíveis, podendo, assim, converter as consequências de tal ação em motivadores do atual comportamento. Assim, grande parte das ações está sob controle antecipatório (BANDURA, 1977b, p.18 apud HALL, 2000).

A aprendizagem observacional, também chamada de modelação, é constituída por quatro processos: atenção, retenção, produção e motivação (HALL, 2000, p. 464). Todas essas etapas da modelagem serão explicadas e relacionadas a violência entre as torcidas organizadas de futebol.

Sobre processo de aprendizagem por modelagem de Bandura, Hall (2000, p. 464) fala o seguinte sobre o processo de atenção:

As pessoas não vão aprender nada a menos que prestem atenção a aspectos significativos do comportamento a ser modelado e que os percebam acuradamente. É mais provável que prestemos atenção a comportamentos relevantes, simples e que prometam ter algum valor funcional. Em consequência, um modelo vívido, atraente, competente e visto repetidamente tende a chamar mais a nossa atenção. Além disso, o que uma pessoa nota é influenciado por sua base de conhecimento e orientação atual. As características dos observadores também determinam quanto comportamento imitativo vai ocorrer em uma dada situação.

É possível associar essa etapa do processo de aprendizagem ao jovem membro de gangues que se infiltra nas torcidas organizadas, como visto anteriormente. Este busca a sua identificação e consolidação social, já sendo parte de uma vivência por vezes agressiva, tendo como modelo principal de seu meio o traficante, o bandido, o corrupto, o líder da gangue; nota-se que seus princípios e sua orientação é oriunda de bases violentas. O jovem cresce em um ambiente hostil, seja familiar ou na rua, com orientação ao lado agressivo de seus instintos, e, ao perceber o sucesso de um modelo que pratica tais atitudes violentas, é muito provável que este oriente sua atenção para tal modelo.

Além disso, esse processo de atenção a modelos é variável de uma série de fatores antecedentes, partindo desde a instituição familiar. Em um segundo momento, ao ter maior contato com o meio social, os exemplos a serem seguidos não são os mais pacíficos, a criança acaba sendo obrigada a entrar em gangues juvenis.

Dando continuidade as etapas da modelagem, a retenção é explicada como:

Um comportamento não pode ser reproduzido a menos que o lembremos por meio de uma codificação simbólica. A retenção do comportamento observado depende principalmente das imagens mentais e das representações verbais. A memória pode ser aumentada pela organização do material e pelo ensaio. O material retido geralmente é transformado para corresponder a algum conhecimento ou expectativa existente por parte do aprendiz. (HALL, 2000, p. 465)

Como dito anteriormente, ainda sobre o processo de atenção, é necessário que o comportamento seja observado para ser reproduzido, ou seja, se o jovem que nasce em um ambiente hostil deixa de viver nesse meio social antes de ter aprendido valores agressivos, é muito improvável que ele vá cometer atitudes similares às dos moradores daquele local perigoso em que nascera. Porém, se o jovem convive o suficiente com  atitudes agressivas à sua volta e toma isso como verdade, como modelo, independente da sociedade em que mora, mas, por exemplo, problemas na instituição familiar e tem como modelo cuidadores violentos, é muito provável que ele atente a esses comportamentos agressivos e os retenha na memória, a forma como foi agredido, as maneiras de se portar perante a agressividade.

Então, após a observação de um modelo, o comportamento deste já foi retido na memória, a terceira etapa da aprendizagem por modelagem entra em funcionamento: a produção – ou reprodução – do comportamento.

O aprendiz precisa ser capaz de reproduzir o comportamento que foi observado. Um comportamento observado, independentemente de quão bem é lembrado, não pode ser encenado sem as necessárias habilidades e capacidades. (HALL, 2000, p. 465)

Em outras palavras, por mais que o observador queira reproduzir o comportamento observado, nada garante que ele o conseguirá, pois são necessários outros fatores para isso, como um conhecimento prévio sobre tal comportamento, uma habilidade específica, condicionamento físico, entre outros. É um caso que se aplica entre os integrantes das torcidas que, apesar de ter o modelo, observado diversas hostilidades entre torcida-torcida, ou torcida-jogadores, tenha aprendido como é o comportamento destas, não consegue reproduzir por medo, ou falta de força física. Porém, encontra outros meios de reproduzir essa agressividade, como por exemplo, as redes sociais e o anonimato da internet.

Junto a isto, é atribuído o quarto ponto da aprendizagem por modelos, as motivações.

A teoria da aprendizagem social de Bandura enfatiza a distinção entre aquisição e desempenho porque as pessoas não encenam tudo o que aprendem. O desempenho de um comportamento observado é influenciado por três tipos de incentivo: direto, vicário (indireto) e auto administrado. Um comportamento aprendido será encenado se levar diretamente ao resultado desejado, se observamos que foi efetivo para o modelo ou se for auto satisfatório. Em outras palavras, é provável que tenhamos um certo comportamento se acreditarmos que será benéfico agirmos assim (HALL, 2000, p.465).

É possível traduzir o trecho acima com um exemplo. O membro de torcida organizada que aprende o comportamento violento através da observação e o reproduz, não o faz apenas pelo simples “porque sim”, o agressor tem suas motivações e motivos, sejam elas positivas ou negativas para si. Nesse ponto, o que se pode inferir, em um caso entre tantos, como forma de exemplificar, é o membro de gangue que se infiltra em uma torcida organiza.

O jovem vive em um ambiente hostil, agressivo, tendo como conhecimento básico a violência familiar. Ao conhecer o meio social em que vive, percebe que o “sucesso” de seu círculo, ou o modelo a ser seguido, tem princípios violentos. Em busca de sua afirmação social e identificação, o jovem passa a fazer parte de gangues juvenis, estas que se infiltram nas torcidas organizadas de futebol com o intuito único e exclusivo de ser violento. Junto com efeitos agregadores, como o clima do estádio, a provocação, a tensão do jogo, e a própria rivalidade entre os times, essa parcela de torcedores incitam um ato violento contra outra torcida - por vezes entre a mesma – como um método de se mostrar superior, mais poderoso. A motivação destes torcedores pode ser compreendida como uma maneira de afirmação social.

[...] a teoria da aprendizagem social conceitualiza o comportamento em termos de um determinismo recíproco: as influências pessoais, as forças ambientais e o próprio comportamento funcionam como determinantes interdependentes, ao invés de autônomos. O efeito de cada um dos três componentes é condicional aos outros (HALL, 2000, p. 467).

Então, apenas os indivíduos oriundos de ambientes hostis podem ser violentos? Nem sempre. Apesar de tudo, há sempre um ponto moral que regula as atitudes das pessoas, mas que em determinadas ocasiões, no chamado “calor do momento”, podem agir de uma maneira que fuja dos seus padrões.

Pessoas ponderadas realizam atos condenáveis devido à dinâmica recíproca entre determinantes pessoais e situacionais, e não devido a defeitos em suas estruturas morais. O desenvolvimento de capacidades auto reguladoras não cria um mecanismo de controle invariante dentro da pessoa (BANDURA, 1978 apud HALL, 2000, p. 470).

Ainda é possível entender as justificativas dos atos dos torcedores organizados violentos. Segundo Hall (2000, p. 470-471):

[...] os padrões internos em comparação com os quais o comportamento é julgado são extraídos das nossas experiências. [...] as influências ambientais podem alterar a maneira como julgamos nosso comportamento. [...] E existem fatores externos que promovem a "ativação e o desligamento seletivo" de influências auto reativas.
[...] No nível do comportamento em si, o comportamento repreensível pode tornar-se aceitável quando a pessoa o percebe mal, como ocorrendo a serviço de uma causa moral. A justificação moral e a rotulação eufemística são frequentemente usadas para evitar a auto reprovação e a reprovação social, e os atos que deveriam ser deplorados podem tornar-se aceitáveis quando comparados com flagrantes desumanidades. Um outro conjunto de medidas defensivas opera distorcendo o relacionamento entre uma ação e seus efeitos. Assim, o deslocamento da responsabilidade para as autoridades superiores e a difusão da responsabilidade para um grupo maior podem ser usados pela pessoa para se dissociar da culpabilidade, criando a ilusão de que ela não é pessoalmente responsável. Outro conjunto de mecanismos para desligar-se das funções da autocondenação é distorcer as consequências do ato.

O torcedor agressivo pode retorcer os motivos de seus atos, assim como suas consequências, podendo interpretar aquilo apenas como uma maneira de defender seu clube, sendo que o comportamento que está sendo demonstrado é contrário a isso, pois acaba prejudicando sua equipe, ferindo outras pessoas, por vezes inocentes, além de ser um crime passível de condenação.

3. Considerações Finais

Portanto, após tudo que foi descrito acima, é possível concluir que a violência entre as torcidas organizadas de futebol não é exclusiva ao Brasil, nem a última década. É um problema que vem sendo tratado como tradição futebolística, pois existe desde a origem do esporte que “nasceu” violento por si próprio, dentro e fora de campo.

Além disso, as torcidas organizadas não surgiram apenas no intuito de bater. Originaram-se como forma de torcer e de cobrar o time de futebol, porém, graças a uma parcela de delinquentes infiltrados, tomaram rumos e rótulos de violência gratuita. É como afirma Toledo (1997, p. 32):

Concretamente, estes indivíduos vivenciam experiências comuns que não podem ser, todavia, reduzidas somente a um discurso normativo sobre a violência, expresso nos jornais como foram criadas para bater. Não obstante, a violência é um fenômeno próximo e constante entre os torcedores, sobretudo aqueles oriundos das camadas populares. Violência enraizada no meio urbano em que vivem, quer seja objetivada nas ações dos órgãos repressivos do Estado, nas relações cotidianas, nas imagens veiculadas pela mídia, nas condutas autoritárias que perpassam as instituições em geral, entre as quais aquelas vinculadas mais diretamente ao futebol (federações, clubes) e que, sob este aspecto, as torcidas organizadas e os indivíduos que a elas convergem não estão descolados desta realidade. Estes agrupamentos de torcedores igualmente carregam consigo ambiguidades, contradições, expressas muitas vezes em práticas políticas relacionais e até mesmo clientelistas no contato com dirigentes ou políticos, mas que, como enfatiza Gilberto Velho remetendo-se a um outro contexto mais geral, mesmo assim, "[...] Tais projetos constituem uma dimensão da cultura, na medida em que sempre são expressão simbólica[...] diretamente ligados à organização social e aos processos de mudança social[...]" (VELHO, 1987, p. 34 apud TOLEDO, 1997, p. 32).

Logo, as torcidas organizadas são apresentadas como o lado violento e perigoso do futebol. Elas fazem parte de um conjunto muito mais amplo de relações sociais que acabam refletindo as mudanças tanto no futebol profissional quanto na sociedade brasileira, num âmbito mais abrangente (TOLEDO, 1997).

Como foi apresentado, a conduta violenta pode ser aprendida por modelação, sendo uma forma de explicar as razões das torcidas organizadas serem, em partes, perigosas. Mas, ao mesmo tempo, o seu jeito de torcer é contagiante e apaixonante, deixando de lado a violência e hostilidade, são elas que tornam o espetáculo do futebol ainda mais belo.

Ainda que sejam rotuladas como perigo do esporte, as torcidas organizadas são apenas aglomerações de trabalhadores, o povo em geral, de todas as etnias, cores e credos, sendo agente pacificador de divergências externas. São pessoas que vestem a mesma camisa para apoiar o time de coração, do jeito que for preciso, seja cantando, gritando, pulando, e, em casos extremos e infelizes, com violência.

“O futebol possui seu lado negativo e não dispõe de soluções para um mundo em que a vida é dura e miserável para muitos; entretanto a situação poderia ser ainda mais cruel sem a alegria e a satisfação por ele proporcionadas” (MURRAY, 2000, p. 18).

Sobre o Autor:

João Matheus de Souza - Discente do Curso de Psicologia - Faculdades Integradas do Vale do Iguaçu/Uniguaçu - União da Vitória, PR

Referências:

  1. BRANDÃO, M. R. F. et al. Coleção Psicologia do Esporte e do Exercício: Teoria e Aplicação. São Paulo, Atheneu, 2007, 171 p.
  2. HALL, Calvin S.; LINDZEY, Gardner; CAMPBELL, John B. Teorias da personalidade. 4. ed. Porto Alegre, Artmed, 2000.
  3. LA TAILLE, Yves de; OLIVEIRA, Marta Kohl de; DANTAS, Heloísa; Piaget, Vygotsky, Wallon: Teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus,1992. 117 p.
  4. MURAD, Mauricio. A Violência no Futebol: Novas pesquisas, novas ideias, novas propostas. 2. ed. São Paulo, Benvirá, 2017, 264 p.
  5. MURRAY, Bill. Uma História do Futebol. 1. ed. São Paulo: Hedra, 2000.
  6. NETO, Edi A. O. Violência no Futebol e Torcidas Organizadas: Um estudo em representações sociais. 2013. Monografia (Especialização) - Curso de Sociologia, Universidade de Brasília, Brasília, 2011.
  7. OLIVEIRA, Maria Aparecida Domingues de. Neurofisiologia do comportamento. 3. ed. Canoas, ULBRA, 1999.
  8. PIMENTA, C. A. M. Torcidas Organizadas de Futebol: Violência e auto-afirmação - Aspectos da construção das novas relações sociais. Taubaté, Vogal Editorial, 1997, 160 p.
  9. TOLEDO, Luiz Henrique. Torcidas Organizadas de Futebol. Campinas, Autores Associados/Anpocs, 1996, 176 p.

Como citar este artigo:

Seguindo normatização ABNT para citação de sites e artigos online:

SOUZA, João Matheus de. Análise do Comportamento Violento entre as Torcidas Organizadas de Futebol. Psicologado, [S.l.]. (2019). Disponível em https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-do-esporte/analise-do-comportamento-violento-entre-as-torcidas-organizadas-de-futebol . Acesso em .

Seguindo normatização APA para citação de sites:

Souza, J. M., 2019. Análise do Comportamento Violento entre as Torcidas Organizadas de Futebol. [online] Psicologado. Available at: https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-do-esporte/analise-do-comportamento-violento-entre-as-torcidas-organizadas-de-futebol [Acessed 12 Jul 2020]

Seguindo normatização ISO 690/2010 para citação de sites:

SOUZA, João Matheus de. Análise do Comportamento Violento entre as Torcidas Organizadas de Futebol [online]. Psicologado, (2019) [viewed date: 12 Jul 2020]. Available from https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-do-esporte/analise-do-comportamento-violento-entre-as-torcidas-organizadas-de-futebol