A Ética Aplicada à Psicologia do Trânsito

A Ética Aplicada à Psicologia do Trânsito
(Tempo de leitura: 7 - 14 minutos)

Introdução

O trânsito hoje, de acordo com o Ministério da Saúde, virou questão de saúde pública, por conta dos inúmeros casos de acidentes envolvendo motoristas, pedestres, ciclistas, e todos aqueles que constituem o trânsito. 6% das deficiências físicas em todo o mundo devem-se a acidentes de trânsito. No Brasil, os acidentes de trânsito são o segundo maior problema de saúde pública, perdendo apenas para a desnutrição. O país é dono de 3,3% da frota mundial de veículos, mas também de 5,5% do total mundial de acidentes. O número de acidentes fatais no Brasil, em 2007, para cada 10.000 veículos, está na proporção de 4,7%, enquanto que no Piauí é de 12,1%, segundo dados do DETRAN. O total de acidentes com vítima registrado no Piauí no ano de 2008 foi de 3.522.

Esses dados retratam uma realidade alarmante, onde nota-se necessário encontrar as causas desses acidentes e realizar uma conscientização com os participantes do trânsito. Para isso, a atuação do Psicólogo do Trânsito é imprescindível.

A Psicologia do trânsito é uma área recente, quando comparada aos demais campos da Psicologia, e ainda tem a avaliação psicológica como o único reconhecimento do seu papel. Entretanto, ao psicólogo do trânsito cabe analisar o comportamento daqueles que compõem o trânsito, a fim de evidenciar as causas e conseqüências desses comportamentos, e trazer possíveis soluções.

Nesse sentido, a ética se faz presente, pois um psicólogo precisa de elementos cerceadores na construção de um perfil profissional, tendo em vista uma capacitação para lidar com o seu objeto de estudo, no caso, o trânsito.

A avaliação psicológica se utiliza desses instrumentos cerceadores, os testes. Estes abrangem todo um aparato ético e psicológico na sua validação, preocupado com uma melhor interação biopsicossocial com o cliente.

Referencial Teórico

Conceitos de Trânsito

O trânsito é “o conjunto de deslocamentos de pessoas e veículos nas vias públicas, dentro de um sistema convencional de normas, que tem por fim assegurar a integridade de seus participantes” (ROZESTRATEN apud PAGNO, 2004). Este mesmo autor assegura que uma definição de trânsito será completa apenas ao incorporar os conceitos de “conjunto de deslocamentos”, “vias públicas”, “sistema convencional” e “finalidade”.

A expressão “conjunto de deslocamento” significa que para a perfeita caracterização de trânsito deve haver um objetivo e certo número de integrantes. Já o significado de “vias públicas” consiste na validade apenas dos fatos aí ocorridos porque eventos em espaços particulares não é trânsito oficial. O componente “sistema” explica–se pela necessidade das diversas partes interagirem conforme certas normas para que o objetivo comum, no caso a circulação, seja alcançado. Pode-se imaginar o caos resultante da ausência de regras estabelecidas para a circulação de veículos e pessoas. “Sistema convencional” difere de sistema apenas por se tratar de normas acordadas, que podem variar conforme tempo e espaço. “Finalidade” significa a garantia de integridade dos participantes para que estes alcancem suas metas sem sofrerem danos (ROZESTRATEN apud SCHWARZER, 2006).

Trânsito é uma disputa pelo espaço físico, que reflete uma disputa pelo tempo e pelo acesso aos equipamentos urbanos, é uma negociação permanente de espaço, coletiva e conflituosa. Essa negociação, dadas as características de nossa sociedade, não se dá entre pessoas iguais: a disputa pelo espaço tem uma base psicológica e política; depende de como as pessoas se vêem na sociedade e de seu acesso real ao poder. (VASCONCELOS apud PAGNO, 2004).

Psicologia do Trânsito

Segundo Rozestraten (1981), Psicologia do Trânsito é o estudo científico do comportamento dos participantes do trânsito. Ela estuda o comportamento dos pedestres – de todas as idades – do motorista amador e profissional, do motoqueiro, do ciclista, e de todos os que constituem o trânsito. Este comportamento pode incluir processos de atenção, de detecção, de diferenciação e de percepção, a tomada de processamento de informações, a memória a longo e curto prazo, a aprendizagem e o conhecimento de normas e de símbolos, a motivação, a tomada de decisão bem como uma série de automatismos percepto-motores, de manobras rápidas e uma capacidade de reagir prontamente ao feedback, a previsão de situações em curvas, em cruzamentos e em lombadas, e também, uma série de atitudes em relação aos outros usuários, aos inspetores, às normas de segurança, ao limite de velocidade, etc.

O autor também diz que a Psicologia do Trânsito serve para conhecer toda a gama de comportamentos neste tipo de situações, comportamentos individuais e sociais, contribuindo para um melhor conhecimento do homem. Também, os estudos dos diversos fatores perceptivos, cognitivos e de reação podem contribuir para melhorar por um lado a situação da estrada e da sinalização rodoviária e urbana, e por outro lado pode aperfeiçoar os veículos, permitindo maior visibilidade, melhor feedback e colocação mais eficiente dos comandos.

Como consequência, a Psicologia do Transito pode contribuir para diminuir a enorme quantidade de acidentes nas estradas. Ela também pode dar as diretrizes educacionais, sugerindo recursos mais eficientes para o ensino. (ROZESTRATEN, 1981).

Outros autores afirmam que, além do funcionamento e da estrutura física do trânsito, deve-se levar em consideração quem participa dele, suas individualidades, seus interesses e sua postura perante o mundo (BEZERRA et al. apud PAGNO, 2004). Segundo o DETRAN, 2008, no Brasil, constatou-se que 90% dos acidentes de trânsito ocorrem por responsabilidade do condutor do veículo, e em Teresina, esse número vai para 66,2%, sendo a falta de atenção a causa maior desse tipo de acidente.

Para reduzir a quantidade de acidentes é necessário dar mais atenção à qualidade dos condutores. Embora no trânsito haja outros protagonistas importantes, é o número de condutores que são habilitados a dirigir que cresce a cada dia. Deve-se ter em mente que um condutor de veículo se sente com mais direito à circulação do que um pedestre, o que os deixa mais vulneráveis a situações de risco.

Avaliação Psicológica e Ética

Um dos maiores desafios ao trabalho do psicólogo de trânsito sempre foi a construção do perfil de bom motorista, cuja fundamentação científica ainda não foi alcançada, porém. A importância de se conhecer o perfil de bom motorista estaria na possibilidade de se desenvolverem ferramentas de avaliação psicológica em conformidade com este perfil, e que, portanto, selecionariam adequadamente os candidatos à carteira de habilitação (FARINA apud SCHWARZER, 2006).

Em 1941, houve a criação do primeiro Código Nacional de Trânsito (CNT), onde são estabelecidos exames psicotécnicos para aspirantes a condutor profissional e para motoristas envolvidos em acidentes, mas apenas em 1953 os testes psicotécnicos se tornam obrigatórios a todos os candidatos à Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Em 1966 um novo código de trânsito entra em vigor, constituindo-se em importante marco, porque “viria ratificar com mais força a obrigatoriedade da introdução dos exames psicológicos para a obtenção da carteira de habilitação em todos os Estados brasileiros. Além disso, este Código foi extremamente importante na medida em que proporcionou os conceitos de unificação e uniformidade em relação à avaliação de condutores” (HOFFMANN apud SCHWARZER, 2006).

De acordo com a Resolução CFP 007/2009, o candidato, independente da atividade (se utiliza o veículo automotor para atividade remunerada ou não remunerada), deverá ser capaz de apresentar:

1. TOMADA DE INFORMAÇÃO

1.1. Atenção em seus diferentes tipos, como: atenção difusa / vigilância / atenção sustentada; atenção concentrada; atenção distribuída / dividida; atenção alternada, conforme definidas pela literatura e pelos manuais de instrumentos padronizados.

1.2. Detecção, discriminação e identificação: estes aspectos fazem parte e são recursos utilizados quando se responde a um instrumento para avaliar a atenção. Porém, eles também devem ser aferidos por meio da entrevista, criando situações hipotéticas vivenciadas no ambiente do trânsito com a finalidade de identificar a capacidade de perceber e interpretar sinais específicos do ambiente/contexto do trânsito.

2. PROCESSAMENTO DE INFORMAÇÃO E TOMADA DE DECISÃO

2.1. Inteligência: capacidade de resolver problemas novos, relacionar idéias, induzir conceitos e compreender implicações, assim como a habilidade adquirida de uma determinada cultura por meio da experiência e aprendizagem.

2.2. Memória: capacidade de registrar, reter e evocar estímulos em um curto período de tempo (memória em curto prazo) e capacidade de recuperar uma quantidade de informação armazenada na forma de estruturas permanentes de conhecimento (memória de longo prazo).

2.3. Orientação espacial, identificação significativa, julgamento ou juízo crítico e tomada de decisão: estes aspectos devem ser avaliados por meio de entrevista, com o objetivo de obter informações a respeito da capacidade do indivíduo situar-se no tempo e espaço; de sua escala de valores para perceber e avaliar a realidade para, dessa forma, identificar quais os julgamentos que levam a atitudes seguras no trânsito.

3. COMPORTAMENTO

Conjunto de reações de um sistema dinâmico em face das interações propiciadas pelo meio. No caso do ambiente do trânsito, por meio da entrevista e situações hipotéticas deverão ser aferidos comportamentos adequados às situações no trânsito, como tempo de reação, coordenação viso e áudio-motora, assim como a capacidade para perceber quando as ações no trânsito correspondem ou não a comportamentos adequados, sejam eles individuais ou coletivos.

4. TRAÇOS DE PERSONALIDADE

Equilíbrio entre os diversos aspectos de personalidade, em especial os relacionados a controle emocional, ansiedade, impulsividade e agressividade.

O resultado da aplicação pode ser enquadrado em três categorias: “apto”, “inapto temporariamente” e “inapto". Um candidato está apto “quando apresentar desempenho condizente na Avaliação Psicológica para condução de veículo automotor na categoria pretendida.” Considera-se inapto temporário o candidato “quando não apresentar desempenho condizente para a condução de veículo automotor, porém passível de adequação.” A condição de “inapto” é atribuída ao sujeito “quando não apresentar desempenho condizente para a condução de veículo automotor.”

Todo profissional tem princípios éticos importantes que norteiam suas ações, e isso não é diferente com o psicólogo do trânsito. Ele deve dominar conceitos adquiridos nas Resoluções e no Código de Ética, bem como os princípios morais éticos vivenciados no cotidiano. O Código de Ética deve expressar de um lado, a dinamicidade própria da liberdade, do risco e da criação, e por outro lado, mostrar um conjunto de comportamentos que seja representativo da realidade social e cultural, com os quais o Homem convive diariamente inserido no meio ambiente em que se move.

O Código é a expressão da identidade profissional daqueles que procuram nele, inspirações, conselhos, normas de conduta. O código é uma resposta, porque encarna uma concepção da profissão, do profissional de psicologia dentro de um contexto social e político, e confere-lhe um selo de identidade, é o código que confere seriedade ao psicólogo (OLIVEIRA e CAMÕES, 2002).

Nele se apresentam alguns artigos que devem ser focados pelo Psicólogo do Trânsito. O Artigo 1°, letra C, mensura que se deve “prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional”. Seguindo a esse, na letra I, ressalta-se a importância de “zelar para que a comercialização, aquisição, doação, empréstimo, guarda e forma de divulgação do material privativo do psicólogo sejam feitas conforme os princípios deste Código”. Já no Artigo 2°, é vedado ao Psicólogo “d) acumpliciar-se com pessoas ou organizações que exerçam ou favoreçam o exercício ilegal da profissão de psicólogo ou de qualquer outra atividade profissional”, “h) interferir na validade e fidedignidade de instrumentos e técnicas psicológicas, adulterar seus resultados ou fazer declarações falsas”, e “o) pleitear ou receber comissões, empréstimos, doações ou vantagens outras de qualquer espécie, além dos honorários contratados, assim como intermediar transações financeiras”.

O Artigo 18° diz que “o psicólogo não divulgará, ensinará, cederá, emprestará ou venderá a leigos instrumentos e técnicas psicológicas que permitam ou facilitem o exercício ilegal da profissão”.

Conclusão

Esse trabalho teve como finalidade identificar os princípios éticos que norteiam o profissional de Psicologia do trânsito. Constatou-se que a ética é de extrema importância para este profissional que, dentre outros, vai lidar com testes, os quais são de uso individual do psicólogo, estando em foco seu sigilo e o respeito para com o cliente. O profissional também vai conviver com questões práticas do cotidiano, que irão exigir uma postura íntegra e segura das normas éticas, esteja ela dentro do Código de Ética do Psicólogo, ou de uma ética pessoal, singular.

Fazendo esse trabalho, pôde-se constatar que o perito do trânsito tem responsabilidade na aprovação de futuros motoristas, e se isso for feito de uma maneira insuficiente, pode influenciar até no número de acidentes, direta ou indiretamente.

Percebeu-se, também, que a função de um perito do trânsito ainda está muito ligada a aplicação de testes. Essa idéia em si é insuficiente para completar o significado da Psicologia no trânsito, que abrange questões como conscientização, avaliação, qualidade de vida, questões sociais e ambientais, dentre outros. Notou-se, por exemplo, que uma das causas para o comportamento falho e causador de acidentes seria a forma como o homem lida com o sair de sua casa para enfrentar o trânsito. Na sua casa, o indivíduo é tratado como pessoa única, onde o estranho não entra, o elemento regulador seria a emoção; já na rua, o indivíduo é mais um cidadão, é como um outro qualquer, e o elemento que regula, e por isso mesmo tem também o poder de excluir, é a lei em suas normas e regras diretas. A casa é o espaço privado, onde se faz o que quer. A rua é o espaço público onde não importa quem ou o que se é, mas sim as regras e leis, no caso de trânsito, que atingem a todos de maneira igualitária. A rua é o lugar onde se deve abrir mão de “seu privado”, por outro lado, é onde se entra em contato com o outro e deve-se respeitar o espaço privado do outro para o bom uso do espaço público. Essa questão pode ser inserida com mais intensidade na formação dos motoristas, a qual deve ser trabalhada pelo Psicólogo.

Uma das condições para a resolução desse conflito no trânsito seria a mudança no comportamento e a conscientização de que o espaço público, como o nome já diz, é de direito de todos e deve ser utilizado de maneira igualitária. Para que ocorra tal mudança o meio encontrado é o da educação para o trânsito. É preciso que seja desenvolvida uma forma de educação, que além de ensinar as regras de trânsito, fosse capaz de criar cidadãos, que utilizariam o espaço público de forma respeitosa e equilibrada.

Sobre o Artigo:

Artigo desenvolvido em 2009, pela disciplina "Ética" do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Piauí - UESPI

Sobre os Autores:

Breno de Oliveira Ferreira - Universidade Estadual do Piauí – UESPI. Faculdade de Ciências Médicas – FACIME/ CCS e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. ;

Hélem Soares de Meneses - Universidade Estadual do Piauí – UESPI. Faculdade de Ciências Médicas – FACIME/ CCS, e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.;

Referências:

Código de Ética Profissional do Psicólogo.

DETRAN – Departamento Estadual de Trânsito. Anuário Estatístico de Acidentes de Trânsito 2008. Disponível em <http://www.detran.pi.org.br/> Acesso em 21 de novembro de 2009.

GARATTONI, Bruno. A psicologia do trânsito: a ciência do trânsito. Revista Superinteressante, 12/2008. Disponível em <http://www.joaodefreitas.com.br/psicologia-do-transito.htm> Acesso em 16 de novembro de 2009.

OLIVEIRA, Maria de Fátima & CAMÕES, Cristina. A ética na avaliação psicológica: uma perspectiva psico- filosófica. O portal dos Psicólogos [online], 2009.

PAGNO, Evelyne. Conflito: nos grupos e no trânsito. Curitiba, 2004. Disponível em <http://www.npt.ufpr.br/> Acesso em 17 de novembro de 2009.

ROZESASTREN, Reinier J. A. Psicologia do Trânsito; o que é e para que serve. FFCL Ribeirão Preto, 1981. Disponível em <http://pepsic.bvs-psi.org.br/pdf/pcp/v1n1/06.pdf> Acesso em 17 de novembro de 2009.

RESOLUÇÃO CFP N.º 007/2009.

SCHWARZER, Clodoaldo. O que é ser bom motorista: a perspectiva de condutores de ônibus urbano. Curitiba, 2006. Disponível em <http://www.npt.ufpr.br/>Acesso em 17 de novembro de 2009.

SILVA, Valdeci Gonçalves da. O que é psicotécnico? Disponível em <http://www.algosobre.com.br/psicologia/o-que-e-psicotecnico.html> Acesso em 22 de novembro de 2009.

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