Conversas ao Celular e Direção: Alterações na Percepção e Atenção do Condutor

Conversas ao Celular e Direção: Alterações na Percepção e Atenção do Condutor
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Resumo: Este artigo trata-se de uma revisão bibliográfica dos experimentos de Strayer em conjunto com vários pesquisadores com intuito de dissertar sobre as alterações da percepção e atenção do motorista ao dirigir enquanto faz uso do celular (com uma mão live ou com duas – viva-voz). Para muitas pessoas, o ato de dirigir parece algo simples. Entretanto, ao analisar todos os processos que envolvem funções cognitivas e psicológicas, vê-se que tal ação não pode ser tão simplificada. Conduzir um veículo abrange não só o ato em si. Implica memória, atenção, tomada de decisão dentro de um ambiente com diversas interações que ocorrem concomitantemente e acabam por influenciar o condutor. E através desta perspectiva, indaga-se como o celular interfere na forma de conduzir um veículo e quais as alterações (positivas ou negativas) pertinentes às funções cognitivas perceptivas–atencionais do motorista.

Palavras-chave: Avaliação da Atenção, Celular e Direção, Psicologia do Trânsito.

1. Introdução

Este artigo dissertará sobre os prejuízos que conversas ao telefone celular (seja utilizando uma mão, seja com as duas mãos livres: viva-voz), têm sobre algumas funções cognitivas, mais especificamente em relação à atenção e percepção do condutor. Portanto, tem como objetivo dissertar sobre os processos envolvidos na condução de automotores e expor os danos causados nas interações referentes às funções psicológicas e cognitivas quando o indivíduo que dirige utiliza o celular.

A escolha desta temática se deu através dos inúmeros estudos aplicados à área em que constam impactos negativos na execução concomitante de várias tarefas. A metodologia utilizada foi o levantamento científico-bibliográfico presente em artigos e pesquisas realizadas da temática adotada.

Se o ato de dirigir envolve a operacionalização de várias tarefas (coordenação motora, noção espacial, atenção, percepção, concentração, entre outras habilidades psicológicas e cognitivas), como falar ao celular interfere no desempenho de conduzir um veículo?

Para muitas pessoas, o ato dirigir parece algo simples. Entretanto, ao analisar todos os processos que envolvem funções cognitivas e psicológicas, vê-se que tal ação não pode ser tão simplificada. Conduzir um veículo abrange não só a ação em si. Implica memória, atenção e tomada de decisão dentro de um ambiente com diversas interações que ocorrem concomitantemente e acabam por influenciar o condutor.

É necessário discorrer primeiro sobre o histórico do telefone celular, como consta no capítulo 01, Histórico do Telefone Celular, temos um breve relato sobre a história e evolução do celular. No capítulo 02, Quais são os tipos de atenção utilizada pelo condutor? Quais processos cognitivos e psicológicos aplicados nesse meio? Também será dissertado sobre a percepção e como ela se integra com a atenção e outras habilidades necessárias para dirigir.

Já no capítulo 03, iremos tratar sobre os fatores que causam alteração na atenção ao citá-los brevemente (como álcool, drogas, sono, fármacos, entre outros) e enfatizar como o celular prejudica processos perceptivos-atencionais na condução de veículos.

Diante do que foi exposto nestes capítulos, o capítulo 04 dissertará sobre as pesquisas de Strayer e Jhonston (2001) e de McCarley et al (2001). Estes estudaram sobre os comprometimentos na atenção devido ao uso do aparelho celular, quando pareado com o ato de dirigir. McCarley et al. comprovaram a tese de Strayer e Jhonston que conversas por celular prejudicam de forma implícita e explícita a memória de reconhecimento de informação visual dos condutores participantes da pesquisa.

Por fim, no capítulo 05, é apresentado a pesquisa de Strayer, Drews e Johnston (2003) onde analisam como o celular induz falhas na atenção visual em uma simulação de direção. Os pesquisadores testaram como conversas ao telefone feitas com o viva-voz (mãos livres para condução) e falar com uma mão ocupada (segurar o celular) apresentam o mesmo coeficiente de redução de atenção e percepção ao conduzir um veículo.

2. Histórico do Telefone Celular

Alexandre Graham Bell e Thomas Watson foram as pessoas que fizeram a primeira ligação telefônica, e doze anos depois, Heinrich Hertz fez a descoberta das ondas eletromagnéticas, o que tornou possível o avanço das pesquisas em transmissão de códigos pelo ar, realizadas pelo laboratório Bell.

A Bell Company tornou possível a comunicação móvel através de antenas colocadas em carro, entretanto, quem deu o pontapé inicial para a ligação entre dois aparelhos celulares foi sua concorrente, a Motorola.

Na década de 90, os aparelhos celulares começaram a ter um avanço no mercado de bens de consumo. No começo, era utilizado pelo público adulto para realizar chamadas. Estes aparelhos eram grandes, sem muitas funcionalidades, caros e, portanto, acessível apenas à classe alta.

Em contraste com os anos 90, o início dos anos 2000, com empresas de telefonia móvel já consolidadas, o foco, como consequência do marketing e publicidade, passou a atingir um novo público: os jovens. Tal fato pode ser justificado devido ao forte clamor publicitário ligado à liberdade, revolução digital e conectividade.

“Pôde-se constatar a mudança significativa da linguagem publicitária, pois, à medida que os telefones ficavam mais inteligentes, a narrativa buscava a liberdade, a convergência e a conectividade [...] Palavras como ‘revolução digital’, ‘convergência’ e ‘estilo’ foram o carro-chefe das propagandas” (DUTRA, 2016, p. 05).

O celular é um meio tecnológico útil, pois facilita a comunicação, a criação de novas redes de interações sociais, além de facilitar a geolocalização através de seus aplicativos cada vez mais modernos. Entretanto, muitos estudos apontam que seu uso enquanto o indivíduo dirige, pode trazer muito mais malefícios do que benefícios; pois ao fazer uma ligação e manter uma conversação ao telefone, fatores relacionados à cognição, tomada de decisão, percepção e tenacidade são afetados negativamente (BERVIQUE et al., 2007)

3. Tipos de Atenção

Segundo Hoffmann (2000), a psicologia do trânsito está em constante mutação, e isto está ligado diretamente por estar restrita a testes psicotécnicos que são utilizados em determinada etapa para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Os instrumentos utilizados nessa área ajudam a antecipar, mesmo que sem precisão, situações de risco. Por meio dessa prática científica validada, o profissional atuante tem como função avaliar fatores internos, externos, conscientes e inconscientes da conduta de um sujeito dentro do ambiente de trânsito e não apenas avalia se a pessoa está apta ou não para dirigir um veículo.

Na intenção de gerar ações mais eficazes em respeito ao desempenho e conduta nesse meio, a psicologia do trânsito faz uma ponte com outras ciências. Isto se dá com o intuito de preservar e proteger a qualidade de vida do ser humano, devido aos altos índices de acidentes de trânsito (especialmente entre pessoas de 18 a 30 anos) que prejudicam de alguma forma a sua autonomia devido a sequelas causadas. Por consequência, essa área ampliou seu horizonte e objeto de estudos (HOFFMAN, 2000).

Hoffmann e Gonzáles (2003) discorrem sobre as funções psicológicas utilizadas pelo condutor ao dirigir um veículo. Citam que além de habilidades motoras e da capacidade de tomada de decisões rápidas, a condução de automóvel também sofre influência da personalidade, estilo cognitivo, capacidade de aprendizagem e funções cognitivas. Esta última refere-se principalmente à atenção e percepção que estão interligadas entre si. A atenção perceptiva-atencional está relacionada à aptidão de captar, identificar e discriminar os estímulos relevantes ao redor do motorista, para evitar, antecipar e/ou minimizar acidentes de trânsito.

No campo funcional da percepção, estão correlacionadas as tarefas de detecção de objetos, percepção de movimentos e estimativa de velocidade. Já no campo de atenção, as tarefas demandadas resumem-se na reação de eventos inesperados, atenção seletiva, foco e varredura do campo perceptivo (HAKAMIES-BLOMQVIST, 1996).

De acordo com Lima (2005), a atenção é uma concentração da atividade psíquica em um estímulo específico, podendo ser uma representação, afeto, sensação ou percepção com intuito de elaborar conceitos e o pensamento. Acrescido a este conceito, a atenção também é uma capacidade de selecionar e focar os processos mentais em alguma parte do ambiente interno ou externo do sujeito onde ocorre respostas aos estímulos que lhe são significativos, vindo a coibir respostas de outros estímulos que não lhe são inerentes.

A atenção pode ser definida como a capacidade do indivíduo responder predominantemente os estímulos que lhe são significativos em detrimento de outros. Nesse processo, o sistema nervoso é capaz de manter um contato seletivo com as informações que chegam através dos órgãos sensoriais, dirigindo a atenção para aqueles que são completamente relevantes e garantindo uma interação eficaz como meio (LIMA, 2005, p. 02)

O conceito de percepção está relacionado à atenção, e por esses dois conceitos estarem próximos, muitas vezes são confundidos. Enquanto a atenção é a resposta concentrada a um estímulo específico como Lima (2005) discorreu, a percepção é a forma como as informações são processadas através do processo de interpretar, selecionar e organizar o conteúdo. Ela dá sentido ao que foi captado pela atenção (ROZESTRATEN, 1988).

A atenção é fundamental no trânsito, principalmente ao condutor do veículo que lida com diversos estímulos (pedestres, animais, som, ciclistas, sinalizações e outros veículos). Através da discriminação dos estímulos que é possível perceber sinais de perigo ao dirigir um automóvel (BALBINOT; ZARO; TIMM, 2011).

Segundo Sternberg (2000) têm-se como os tipos de atenção e suas funções principais:

  • Atenção seletiva: É a capacidade de selecionar determinado estímulo dentre vários, o que permite, dessa forma, verificar previsões oriundas da memória de eventos regulares no ambiente. Como estudar ouvindo música, momento em que o sujeito concentra-se em alguns estímulos ao invés de outros.
  • Atenção vigilante: Conhecida também como atenção concentrada/ sustentada, atribuída a capacidade de identificar o surgimento de um estímulo específico. Já a atenção de sondagem está associada a sondagem/procura de estímulos específicos como procurar um lápis perdido.
  • Atenção dividida: Capacidade do sujeito manter atenção em diferentes estímulos para executar uma ou mais tarefas simultâneas (exemplo: dirigir). Esta, indica que uma informação é mediada pelo processamento automático e a outra por meio do esforço cognitivo (processamento controlado).

Dalgalarrondo (2000), acresce que a atenção sustentada é a capacidade da pessoa manter o foco atencional em um estímulo ou na sequência de estímulos durante o desempenho de um afazer. Apesar da nomenclatura sugerir processos semelhantes, a atenção alternada e a atencional são distintas. Sendo a primeira descrita como uma alternância de foco entre estímulos, a segunda descreve o tipo de atenção que é pareada a outros estímulos através do processamento automático da tarefa.

3.1 Fatores que Causam Alterações na Atenção

Sabe-se que muitos fatores quebram a atenção do motorista, como celulares e eletrônicos, ingestão de bebidas alcoólicas, de fármacos, drogas, entre outros. Neste artigo iremos nos concentrar no uso do celular e de outras tecnologias que mesmo com intuito de facilitar a condução do motorista, acabam por distraí-los.

O uso do celular, mesmo que acionado o viva-voz tanto no aparelho quanto no carro, assistir vídeos em equipamentos televisivos acoplados no veículo e escutar músicas em altura inadequada fazendo com que o som do próprio veículo e barulhos externos tornem-se inaudíveis, também são fatores que dificultam a tenacidade do motorista (DEPARTAMENTO NACIONAL DE TRÂNSITO, 2005 apud BALBINOT; ZARO; TIMM, 2011).

Em relação a segurança dos condutores, Wickens et. al. (2008), relatam que esta pode ser comprometida pelo potencial de distração de aparelhos eletrônicos. Ao dirigir, o indivíduo tem uma tendência maior à distraibilidade por conta do aumento da carga cognitiva.

A princípio, acreditava-se que ao usar celular, o condutor estaria vulnerável a acidentes pelo fato do aparelho limitar seus movimentos e por manter apenas uma mão ao volante. Entretanto, estudos provaram que a questão do celular não limita-se apenas ao objeto em si, já que colocar a ligação no modo viva-voz também foi considerada perigosa. Drews, Pasupathi e Strayer (2008) desenvolveram uma pesquisa com ajuda de um simulador, onde foi possível constatar o efeito de conversas por telefones em motoristas. O teste era conduzido da seguinte maneira: os participantes dirigiam sob diversas condições falando com um celular à mão e por intermédio do viva-voz. Deveriam cumprir tarefas simples, como dirigir por vários quilômetros pela estrada e encontrar uma saída que foi estipulada, dirigir por ruas movimentadas que tivessem semáforos, mudar de faixa, prestar atenção em pedestres e controlar velocidade.

Através da coleta de dado dessas circunstâncias, foi concluído que ao dirigir, o indivíduo aprende olhar de forma instintiva e contínua para os lados. Porém, com a utilização do celular, a tendência do motorista é fixar o olhar à frente do volante e isso interfere na visão periférica e limita a varredura do campo perceptivo do condutor, o que é fundamental (DREWS; PASUPATHI; STRAYER, 2008).

No nível estratégico de desempenho, os motoristas que falavam ao celular enquanto dirigiam, foram mal na tarefa de navegação. Duas explicações podem ser dadas para esse déficit: Primeiro, os motoristas ao conversar pelo celular apresentam problemas com a manutenção da intenção de sair da área de descanso na memória de trabalho. Segundo, os condutores podem não processar suficientemente bem as informações da condução do ambiente (sinalização de saída)  (DREWS; PASUPATHI; STRAYER, 2008, p. 07, tradução nossa).

3.2 Comprometimentos na Atenção à Direção Devido ao Uso de Celular

Dirigir é algo complexo e exige percepção e habilidades cognitivas. Existe ampla evidência que a performance diretiva é afetada negativamente se ocorrer simultaneamente conversas ao telefone, tanto em motoristas mais jovens quanto em motoristas mais velhos (DREWS; PASUPATHI; STRAYER, 2008).

Groeger (1999) especificou três níveis de desempenho. O primeiro trata do desempenho operacional ou de controle de nível, que envolve a habilidade de manter o veículo em um curso pré-determinado. Se houver um déficit neste nível, o motorista mostrará uma diminuição no controle lateral e o veículo passa a se mover para o lado da estrada. Uma variedade de estudos mostrou que essa tarefa é afetada negativamente pela execução de uma tarefa adicional, como conversar ao telefone.

O segundo nível envolve habilidades necessárias para manusear o automóvel no tráfego. É também chamado de comportamento tático, e exemplo de déficit pode ser descrito pela aproximação excessiva de outros veículos ou o ato de ignorar os veículos que se aproximam ao virar à esquerda em um cruzamento (DREWS; PASUPATHI; STRAYER, 2008).

Estudos que encontraram déficits neste nível de desempenho de condução, descrevem mudanças na velocidade, mudanças na aceleração e tempos de reação atrasados quando os motoristas estão envolvidos em uma conversa por celular (DREWS; PASUPATHI; STRAYER, 2008).

O terceiro nível envolve mais aspectos executivos e direcionados à condução,  refletindo o desempenho estratégico (Barkley, 2004). Problemas nessa área podem ser exemplificados através de falhas na execução de tarefas de navegação e/ou planejamento de viagens (destino, rotas) relacionadas a viagens. Strayer et. al. (2003) averiguaram se a hipótese dos déficits em cada nível poderia ser atribuída ao uso de celular enquanto uma pessoa dirige, e então chegaram a seguinte descoberta:  o celular altera de forma negativa a atenção, causando de certa forma um tipo de cegueira por desatenção.

Em uma pesquisa realizada por Strayer e Drews (2007), os pesquisadores demonstraram uma redução da amplitude de P300 como resultado das respostas de conversa por telefone. O P300 refere-se aos componentes cerebrais relacionados ao evento (ERP: event-related brain potentials) que são sensíveis à atenção que é destinada à tarefa. Esse componente foi utilizado para medir a discriminação entre os níveis de dificuldade da tarefa. Notou-se que houve uma redução à medida que a demanda das tarefas aumentava.

Redelmeier e Tibshirani (1997) alertaram sobre uma evidência encontrada no resultado de seus experimentos. Descobriram através de uma análise de 699 indivíduos que envolveram-se em acidentes automobilísticos, que o celular aumentava cerca de quatro vezes a probabilidade de entrar em um acidente e que poderia ser comparado a acidentes causados por consumo de bebidas dentro do limite legal daquela época.

Strayer e Johnston (2001), após testagens, consideraram que conversas ao celular se pareadas com outras atividades auditivo-verbais (transmissão de rádio, audiobooks, músicas, etc.) prejudicam a detecção e reação do motorista em relação ao ambiente externo, enquanto estas últimas não afetaram a reação e percepção dos sinais de trânsito simulado.

McCarley et al. (2001) confirmou a tese de Strayer e Jhonston (2001) ao também detectarem que a percepção de mudanças no cenário de trânsito foi prejudicada em participantes que conversavam através do viva-voz. Entretanto, não foi detectado nenhuma defasagem de desempenho em participantes que ouviram conversas de outros participantes.

As principais descobertas são que (a) quando os participantes estavam envolvidos em conversas telefônicas, eles perdiam o dobro do sinal de tráfego simulado de quando não falavam no telefone celular e levavam mais tempo para reagir àqueles sinais que detectavam; esses déficits foram equivalentes para usuários de celular e viva-voz; e o erro de rastreamento aumentou quando os participantes usaram o telefone celular para realizar uma tarefa de geração de palavras ativa e que exige atenção [...]  (STRAYER; JOHNSTON, 2001, p. 04, tradução nossa).

O engajamento ativo à conversa ao telefone foi o experimento que mais demonstrou interferência na condução. O condutor que está envolvido em uma conversa ao celular, seja utilizando uma das mãos para segurar o aparelho, seja com as mãos livres, apresentaram decréscimo de desempenho na tarefa de dirigir (STRAYER; JOHNSTON, 2001).

3.3 Celular Induz Falhas de Atenção Visual Durante Simulação de Direção

Em um experimento realizado para examinar como as conversas telefônicas afetam a atenção do motorista durante a condução do automóvel. Strayer, Drews e Johnston (2003) constataram a diferença de desempenho entre participantes que estavam apenas dirigindo, sem realizar qualquer outra ação (tarefa única), e participantes que estavam dirigindo e conversando por intermédio de um celular com mãos livres (dupla tarefa). Utilizaram o paradigma de memória de reconhecimento incidental (memória de trabalho) para avaliar que informações no cenário de condução os participantes da pesquisa processaram enquanto estavam dirigindo.

O procedimento exigiu que os participantes executassem tarefas numa simulação de condução em que estes não saberiam que sua memória para objetos em cena seria testada subsequentemente. Cada participante recebeu uma tarefa de memória de reconhecimento surpresa em que mostraram objetos que foram apresentados enquanto dirigiam. Estes deveriam discriminar esses objetos de outros que não estavam presentes no trajeto. A memória de reconhecimento incidental avalia a memória explícita dos participantes, ou seja, eles teriam que descrever verbalmente o objeto que viram enquanto dirigiam. Esse procedimento mostra-se vantajoso, pois estabelece que a atenção é necessária para memórias explícitas de longa duração. Então, a partir de diferenças na memória de reconhecimento incidental entre motoristas que receberam tarefas únicas e duplas, foi possível elaborar uma estimativa de grau de atenção à informação visual presentes no ambiente onde o mesmos foram distraídos por conversas pelo celular (STRAYER; DREWS; JOHNSTON, 2003).

Participaram 20 universitários, sendo estes 11 homens e 09 mulheres da Universidade de Utah (Estados Unidos da América). As idades variaram entre 18 a 24 anos. Todos possuíam acuidade de visão corrigida ou normal e carteira de habilitação válida. Os participantes realizaram dois testes: tarefa única e dupla tarefa. Quinze informaram que possuíam celular e 73% afirmaram que utilizavam o celular enquanto dirigiam (STRAYER; DREWS; JOHNSTON, 2003)

Foi utilizado um simulador de condução de alta fidelidade, um banco de dados de estradas suburbanas foi usado como cenário. Sendo os cenários: áreas residenciais, comerciais e centrais da cidade. Cada estrada tinha 1,9 km de comprimento. Metade dos cenários foi utilizado em condição de tarefa única e o restante para tarefa dupla (STRAYER; DREWS; JOHNSTON, 2003).

Quantos aos estímulos, Strayer, Drews e Johnston (2003), posicionaram cinco outdoors em cada cenário. Foram colocados de forma que ficassem claramente visíveis aos participantes enquanto estes passavam pelos cartazes. Quarenta e cinco imagens foram utilizadas no total, sendo que um terço dos outdoors foram apresentados na condição de tarefa única, mais um terço mostrado na condição de tarefa dupla e outro terço utilizado como controle de estímulos em tarefas de memória de reconhecimento incidental; sendo que estes últimos não foram aplicados nos cenários testes de condução. Outdoors de controle foram acrescidos para produzir estimativas das taxas de adivinhação na tarefa de memória de reconhecimento. Foi criada uma atribuição aleatória de outdoors para cada participante.

Ao chegar para o experimento, os participantes tinham que preencher um questionário que avaliava seus interesses em tópicos potenciais de conversas telefônicas, e foram em seguida fazer a familiarização do aparelho simulador de condução por vinte minutos. O experimento foi dividido em seis seções de 1,9 km. Metade dos cenários foram empregados na condução de tarefa única e metade na condição de dupla tarefa (STRAYER; DREWS; JOHNSTON, 2003).

Os participantes deveriam conduzir através de cada cenário de acordo com as regras da estrada. Receberam instruções para virar à esquerda ou à direita em cruzamentos, utilizando sinais de seta esquerda ou direita que foram colocados de maneira clara na sinalização da estrada. Imediatamente após a condução, os participantes realizaram uma avaliação para averiguar a memória de reconhecimento, onde julgavam se cada um dos 45 outdoors foram apresentados no cenário de condução (15 foram apresentados na tarefa única, 15 na condição de dupla tarefa e mais 15 foram painéis de controle que não tinha sido apresentados na parte de condução do estudo). Cada outdoor foi apresentado separadamente em uma tela de computador e ficou à vista até que os participantes fizessem seu julgamento. Não houve relação entre ordem de apresentação dos outdoors no teste de direção e a ordem de apresentação na tarefa de memória de reconhecimento. Só após de terem completado a avaliação, os participantes foram avisados que estavam sendo avaliados (STRAYER; DREWS; JOHNSTON, 2003).

Com o resultado, Strayer, Drews e Johnston (2003), sustentaram que a hipótese de que conversa ao celular altera negativamente o desempenho à medida que desvia a atenção do ambiente externo associado à tarefa de condução, para um atraente contexto interno associado à conversação por celular. Todavia, uma interpretação alternativa dos dados colhidos é que o desempenho deficiente da memória de reconhecimento pode ser justificado por uma interrupção da varredura visual do ambiente de condução, enquanto se dá uma conversa ao telefone celular e não na diferença na percepção de objetos apresentado na fixação (STRAYER; DREWS; JOHNSTON, 2003).

Em suma, sugerimos que o uso de telefones celulares interrompa desempenho, desviando a atenção para um envolvimento cognitivo contexto diferente do ambiente externo imediatamente associado com a condução. Nossos dados sugerem ainda que as iniciativas legislativas que restringem dispositivos portáteis, mas permitem dispositivos de mãos livres provavelmente não eliminará os problemas associados ao uso de telefones durante a condução, porque esses problemas são atribuídos em grande parte para os efeitos de distração das conversas telefônicas em si, efeitos que parecem ser devidos à direção de atenção longe do ambiente externo e em direção a um contexto cognitivo interno associado à conversa telefônica (STRAYER; DREWS; JOHNSTON, 2003, p. 09, tradução nossa).

Os dados são consistentes com a hipótese de que a conversa do celular perturba o desempenho, desviando a atenção do ambiente externo ambiente associado com a tarefa de condução, para um envolvente contexto interno associado à conversação por telefone celular. Contudo, uma interpretação alternativa desses dados é que o deficiente desempenho da memória de reconhecimento pode ser devido a uma interrupção da varredura visual do ambiente de condução enquanto conversava o celular, e não à diferenças na percepção de objetos apresentado na fixação. A memória de reconhecimento para outdoors foi prejudicada enquanto participantes estavam conversando ao celular pela função viva-voz (STRAYER; DREWS; JOHNSTON, 2003).

3. Considerações Finais

Estudar aspectos relacionados ao Trânsito e tudo que o permeia, bem como esse ambiente irá interagir com o comportamento dos condutores, as funções psicológicas e cognitivas relacionadas ao ato de conduzir um veículo, são essenciais para um melhor entendimento deste cenário que pode auxiliar na prevenção e na diminuição de fatalidades.

O celular é um aparato tecnológico bastante útil em nosso cotidiano, pois facilita a comunicação, entretanto, conforme as pesquisas elencadas neste artigo demonstraram, o celular torna-se prejudicial, pois é tido como um fator distrativo. O uso dessa tecnologia afeta negativamente processos cognitivos e perceptivos utilizados no ato de dirigir, o que pode ocasionar danos, desde leves a graves.

Foi possível perceber através dos vários estudos realizados por Strayer em conjunto com outros pesquisadores, que o uso do celular interfere de forma negativa enquanto o indivíduo conduz um veículo. Estas pesquisas fornecem sustentação à tese de que manipular o aparelho celular ao mesmo tempo enquanto dirige, causa uma desatenção similar à cegueira.

Conversas ao celular atrasam reflexos e percepções de estímulos no ambiente de direção, pois a atenção está direcionada a outro lugar (celular). Ao invés de fazer uso da atenção do tipo dividida, o motorista concentra-se apenas em um estímulo, vilipendiando outros estímulos advindos do espaço de trânsito, utilizando, portanto, a atenção seletiva. Mesmo que o motorista esteja olhando para objetos contidos no ambiente, ele simplesmente pode deixar de vê-lo, pois a atenção está dirigida a outro meio.

Mesmo para motoristas mais aptos (maior tempo de direção), os resultados mostram que eles também sofrem uma influência negativa ao conduzir e utilizar o celular. Tal fato corrobora ainda de forma mais enfática do quão nocivo torna-se dirigir e participar de uma ligação telefônica.

Dirigir e falar ao celular por intermédio do viva-voz mostra-se também algo prejudicial. Mesmo que o motorista tenha as mãos livres, o foco direcional muda, causando também letargia no reflexo (lentidão ao receber e perceber estímulos, prejudicando a tomada de decisão e antecipação de eventos) e cegueira atencional (ultrapassar semáforos, não respeitar limites de velocidade, etc.) no trânsito.

Segundo as pesquisas descritas, restringir o uso de celular, mas permitir usá-los com mãos livres, não eliminará os problemas associados ao uso de telefone durante a condução do veículo. Isto porque o fator que causa acidentes não é apenas justificado pelo não uso das mãos ao volante, mas é justificado também pelo fator distração, causado pelas conversas telefônicas em si.

Sobre as Autoras:

Ana Cristina Vale da Cruz Santos - Graduada em Psicologia. Discente do curso de Pós-graduação em Psicologia do Trânsito com ênfase em Avaliação Psicológica pela Faculdade da Amazônia Ocidental (FAAO, Acre).

Adaucilene da Silva Amorim - Graduada em Psicologia. Discente do curso de Pós-graduação em Psicologia do Trânsito com ênfase em Avaliação Psicológica pela Faculdade da Amazônia Ocidental (FAAO, Acre).

Referências:

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  21. WICKENS, C.M.; TOPLAK, M.E.; WIESENTHAL, D. L. Cognitive failures as predictors of driving errors, lapses, and violations. Accident Analysis and Prevention. (Tradução nossa). Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0001457508000134 . Acesso em : 18 de junho de 2018.

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