O Que é a Psicologia do Trânsito?

Resumo: A psicologia do trânsito é uma área de conhecimento que tem a finalidade de estudar o comportamento humano no contexto do trânsito, a partir de uma investigação dos processos externos e internos, e os fenômenos conscientes e inconscientes que ocorrem nesse contexto. Desse modo, neste artigo objetiva-se explanar uma visão acerca do que se configura a psicologia do trânsito, entender o comportamento no trânsito, promover uma discussão sobre essa área no Brasil e esclarecer o que faz esse profissional e suas competências. Nesse sentido, entende-se que essa é uma área em ascensão e que tem ampliado o seu universo de atuação com base no compromisso social de estabelecer uma relação de harmonia entre o sujeito com o meio ambiente.

Palavras-chave: Psicologia do trânsito, trânsito, comportamento no trânsito

Considerações Iniciais

A psicologia do trânsito é uma “área da psicologia que investiga os comportamentos humanos no trânsito, os fatores e processos externos e internos, conscientes e inconscientes que os provocam e o alteram” (Conselho Federal de Psicologia, 2000, p. 10).

Essa é uma área da psicologia que vêm crescendo e ganhando visibilidade no meio científico nos últimos anos, pois o psicólogo torna-se figura indispensável no entendimento do comportamento no trânsito, bem como nos processos de avaliação psicológica que são realizadas a fim de estabelecer uma concessão no que diz respeito às práticas e direitos de conduzir veículos.

A esfera de estudo da psicologia do trânsito é constituído de três sistemas principais: o homem, a via e o veículo. Sendo o homem o subsistema mais complexo e, portanto, tem maior probabilidade de desorganizar o sistema como um todo. A psicologia do trânsito estuda os comportamentos humanos no trânsito e os fatores e processos internos e externos, conscientes e inconscientes que os provocam ou os alteram, de modo que engloba a todos os usuários, como pedestres, ciclistas, motoristas.

Deve-se considerar, ainda, que as graduações de psicologia, em aspectos gerais, não apresentam disciplinas específicas, cursos de aperfeiçoamento ou experiências que propiciem embasamento sobre a área, o que dificulta a expansão e crescimento desse trabalho. Desse modo, as produções e materiais acerca dessa temática ainda é um tanto escassa, o que dificulta na identificação e no trabalho de fomentar a psicologia do trânsito como um campo de atuação desse profissional.

No tocante à atuação do psicólogo do trânsito, foi publicada a Resolução 267/2008 do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) que estabelece, após 15 de fevereiro de 2013, somente os profissionais com título de especialista no trânsito reconhecido pelo CFP poderão atuar na área. Assim, alguns cursos de especialização estão surgindo a fim de atender tais demandas, e trazer visibilidade a essa área de atuação que começa a ganhar respeito na sociedade.

O Comportamento no Trânsito

O trânsito é considerado atualmente uma problemática das mais importantes do século XXI em função dos altos custos sociais e econômicos que geram, além dos sofrimentos incontáveis para vítimas e familiares decorrentes, principalmente, dos acidentes (IPEA, DENATRAN & ANTP, 2006; Ministério da Saúde, 2007; OMS, 2009). (SILVA, 2010).

O comportamento no contexto do trânsito é algo que abrange uma compreensão de todas as pessoas que se movimentam, isso independe da idade, do sexo, da condição sócio-econômica, profissão, ou nível de instrução. Esse campo envolve uma complexidade de fatores, e por assim dizer, não é muito fácil de ser estudado.

Para que se produzam comportamentos adequados no trânsito, são necessárias pelo menos três condições: a presença de estímulos que possam ser observadas e percebidas, um organismo em condições de perceber, uma aprendizagem prévia dos sinais e normas que devem ser seguidas. Ou seja, existe uma série de fatores em conexão que irão ser determinantes na totalidade dessa ação no trânsito.

Há fatores que são necessários ser compreendidos como formando um núcleo dentro do círculo dos processos, por um lado, ligados à memória e à aprendizagem e, por outro, à emoção, à motivação, à atitude e à personalidade. É importante compreender que este ciclo é contínuo, que é vida e não para um momento sequer, mas sua divisão em etapas nos clarifica seus eventos mais importantes.

A psicologia do trânsito, como psicologia aplicada, mantém contatos com as áreas da psicologia básica e especializada e como outras áreas da psicologia aplicada

A Psicologia do Trânsito no Brasil

De acordo com ROZESTRATEN (2006) a Psicologia do Trânsito surgiu como consequência de numerosas pesquisas em dezenas de institutos, laboratórios e centros de pesquisa nas últimas duas décadas. Podemos defini-la como o estudo científico do comportamento dos participantes do trânsito, entendendo-se por trânsito o conjunto de deslocamentos dentro de um sistema regulamentado.

No Brasil, a história da psicologia aplicada ao trânsito remonta à década de 1930, quando se iniciaram as primeiras aplicações de instrumentos psicológicos de orientação e seleção profissional dos futuros profissionais das ferrovias em São Paulo. Nas décadas posteriores, principalmente 1950 e 1960, em razão do avanço da indústria automobilística e do aumento da demanda por segurança, formação e orientação dos condutores, a psicologia do trânsito direcionou suas atividades para o transporte rodoviário, a fim de tentar frear o aumento nos índices de acidentes (Mange, 1956; Trench, 1956 citado por SILVA et al 2007).

Existem alguns obstáculos que impedem a psicologia do trânsito se firmar como tal, isto é, a participação no trânsito não é vista como um trabalho em si, mas como uma atividade mais ou menos rápida; a psicologia do trânsito é identificada como psicotécnico, e ainda não existe no Brasil nenhum cargo de Psicólogo do Trânsito nos órgãos do governo, isso faz com que existam pesquisas incipientes acerca da temática.

Esse conhecimento surgiu como intuito de estudar todos os comportamentos do homem no contexto do trânsito, desde o comportamento dos pedestres, dos motoristas (amadores e profissionais, do ciclista, do motoqueiro, dos passageiros e do motorista de coletivos, e ainda, de modo abrangente, aqueles que fazem parte dos sistemas áreas, ferroviários e fluviais de transporte. No que concerne à psicologia do trânsito ela tem como foco o estudo do comportamento do homem nas rodovias e nas redes viárias de urbanização.

A metodologia não difere essencialmente daquela usada nas outras áreas de Psicologia: ao lado de muitos estudos experimentais, realizados em laboratórios, tem sido desenvolvidos numerosos estudos observacionais feitos nas rodovias e nos cruzamentos urbanos, alem de análises pormenorizadas dos casos de acidentes. Entre o método de observação em situação real e o experimento no laboratório está o método que usa simuladores, estes últimos variando do mais simples ao mais sofisticado. Tem sido também utilizados em pesquisas, carros equipados com todos os registradores possíveis de movimentos e modificações fisiológicas durante a direção do veículo. Um primeiro carro deste tipo foi introduzido na França por G.Michaut, no Laboratoire de Psychologie de la Conduite de ONSER, em Montlhery, onde tive o prazer de estagiar durante um ano. (ROZESTRATEN, 2006).

Para fomentar seus estudos, técnicas e manejo, a psicologia do trânsito se comunica com diversas áreas de conhecimento, bem como a psicofísica e psicofisiologia, a psicologia do desenvolvimento, a gerontologia, a psicologia da motivação e da aprendizagem, a psicopedagogia, a psicologia social, etc.

O que Faz o Psicólogo do Trânsito?

Compete ao psicólogo do trânsito atuar nesse contexto com o intuito de desenvolver pesquisas como foco nos problemas psicológicos, psicofísicos, psicossociais no que tange aos problemas do trânsito; realizar exames psicológicos a fim de emitir um parecer para candidatos a Carteira de Habilitação Nacional; participar de programas voltados à prevenção de acidentes no trânsito; desenvolver trabalhos de educação no trânsito, estudar as implicações do alcoolismo e de outros distúrbios no contexto do transito; colaborar com a justiça e apresenta, quando necessário, laudos, pareceres, depoimentos, dentre outras funções.

Para Hoffmann (2005, p.22), a Psicologia do Trânsito constitui-se num “campo extremamente surpreendente no microcosmo do comportamento humano e na circulação viária, onde Psicologia Social, Psicologia Experimental e Psicologia Ambiental se encontram” porque os problemas, variáveis e pautas de pesquisa podem englobar, por exemplo, desde a pesquisa sobre a acuidade visual mínima indispensável a um motorista até a pesquisa sobre a representação social do automóvel feita por determinado grupo.

A expansão do campo de atuação dos psicólogos nos Departamentos de trânsito, incluiu, ainda, ações para prevenir acidentes; perícias em exames com motoristas objetivando sua readaptação ou reabilitação profissional e tratamento de fobias ao volante. Outro ponto que merece destaque é a inserção profissional de estudantes de psicologia através de estágios curriculares, propiciando experiência de aprendizagem (Departamento Estadual do Trânsito do Rio Grande do Norte, 2005; Alchieri, Silva, & Gomes, 2006).

Apesar de a psicologia do trânsito ser uma área em crescimento, necessita-se que as matrizes curriculares dos cursos de psicologia já que os graduandos, em sua maioria, não possuem disciplinas específicas e têm poucas oportunidades de estudar e produzir conhecimento que fomente a área.

Considerações Finais

À guisa de conclusão, pode-se considerar que a psicologia do trânsito sinaliza uma proposta de entendimento dos comportamentos individuais e sociais das pessoas no contexto do trânsito. Essa, ainda é uma área nova na psicologia, porém, desponta em avanços para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Nesse sentido, tem ganhado visibilidade no que diz respeitos às suas competências, que se expande a um universo muito mais abrangente do que simplesmente um processo de avaliação psicológica para condutores. Em suma a psicologia do trânsito oferece subsídios para garantir a todo sujeito melhores condições e maior segurança no trânsito, promove trabalhos para educação do trânsito e tenta despertar uma consciência crítica de todos aqueles que compõem o contexto do trânsito a fim de minimizar riscos e preservar à vida.

Sobre o Autor:

Alex Barbosa Sobreira de Miranda - Departamento de Psicologia. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Teresina, PI, Brasil, email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 012/2000. 2000. Disponível em: <http://www.pol.org.br/pol/export/sites/default/pol/legislacao/legislacaoDocumentos/relucao2000_12.pdf.>.

Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Norte (2005). Manual da COMEP – Coordenadoria Médica e Psicotécnica. Rio Grande do Norte: Autor.

HOFFMANN, M. H. Comportamento do condutor e fenômenos psicológicos. Psicologia, pesquisa e trânsito. São Paulo, v. 1, n.1, p. 17-24, Jul../Dez. 2005.

ROZESTRATEN, Reinier J.A.. Psicologia do trânsito: o que é e para que serve. Psicol. cienc. prof. [online]. 1981, vol.1, n.1, pp. 141-143. ISSN 1414-9893. 

SILVA, Fábio Henrique Vieira de Cristo e; ALCHIERI, João Carlos. Validade preditiva de instrumentos psicológicos usados na avaliação psicológica de condutores. Psic.: Teor. e Pesq.,  Brasília,  v. 26,  n. 4, dez.  2010 .   Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722010000400013&lng=pt&nrm=iso.