A Amorosidade na Construção de Projetos Interdisciplinares: um olhar da pedagoga em formação

A Amorosidade na Construção de Projetos  Interdisciplinares: um olhar da pedagoga em formação
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Resumo: Este trabalho se propõe a mostrar a relevância da amorosidade e dialogocidade e seus variados sentidos na construção e execução de projetos interdisciplinares.  Dentro desta proposta, verificamos as possibilidades de vivenciar as teorias apreendidas em sala em diferentes espaços e tempos e aplicá-las na prática educativa. Ao realizar esses projetos constatamos que a interdisciplinaridade confirma uma prática vivenciada com ciência e consciência voltada para a integração das disciplinas com o intuito da consecução de aproximação teoria e prática, com o objetivo de potencializar o educador durante o curso de Pedagogia para a compreensão do desenvolvimento desse  processo de construção de projetos, a fim de trazer ao pedagogo em formação  um olhar diferenciado para a prática pedagógica, criando possibilidades de desempenho em sala de aula.

Palavras-chave: Amorosidade, Interdisciplinaridade e Formação da Pedagoga.

1. Introdução

Este artigo refere-se a um relato de experiência, a partir da vivência das pedagogas em formação realizada na Faculdade de Conchas com o intuito de refletir sobre o trabalho interdisciplinar enquanto um processo de dialetação permanência mudança e, consequentemente, um elemento constitutivo da reflexão crítica sobre a prática dentro do processo educativo (Freire,1996), criando possibilidades de desempenho para sensibilizar o olhar do pedagogo em formação.

O entusiasmo ao desenvolver este trabalho surgiu por meio das inquietações ao refletir na busca constante e contínua em transgredir a concepção fragmentária do conhecimento e encontrar uma forma de garantir espaço e tempo no currículo para a integração dos saberes, sem que isso, todavia, signifique desconsiderar as especificidades disciplinares, entendendo que tal transgressão se configura um dos grandes desafios na formação de pedagogos/as. 

A interdisciplinaridade, neste sentido, trabalha diferentes áreas do conhecimento, com a intencionalidade de integrar as teorias apreendidas no curso e de representar as inúmeras vivências da vida diária dos alunos na prática, contribuindo para que os pedagogos em formação aprendam a lidar com o outro e com o mundo ao qual está inserido, ressignificando o processo de ensino aprendizagem (ZABALA,1998).

Para o educador Paulo Freire (2005, p.91) 

Não há diálogo, porém, se não há um profundo amor ao mundo e aos homens. Não é possível a pronúncia do mundo, que é um ato de criação e recriação, se não há amor que o funda. Sendo fundamento do diálogo, o amor é, também, diálogo. Daí que seja essencialmente tarefa de sujeitos e que não possa verificar-se na relação de dominação.

Entendemos, portanto, que estabelecer essas relações é fundamental para que a aprendizagem tenha significado à formação do pedagogo/a e o ambiente seja favorável a tais processos educativos. Deste modo, a problemática levantada neste trabalho recai na seguinte questão: em que medida o conceito de amorosidade e dialogicidade (FREIRE, 2005), se fez presente no processo de ensino aprendizagem, durante as primeiras experiências do curso, na visão das pesquisadoras a partir do que aprendemos em sala de aula.

Sendo assim passamos a refletir sobre os momentos em que as proposições freiriana aproximaram-se ou distanciaram-se no contexto das relações entre educadores e educandos durante a construção de projetos interdisciplinares. 

1.1 Objetivos da pesquisa

Geral:

Este artigo propõe-se relatar as percepções acerca da experiência das pesquisadoras nas práticas educativas interdisciplinares à luz do conceito Freiriano de amorosidade e dialogicidade.

Específicos:

- Elucidar os conceitos de amorosidade e a dialogicidade de Paulo Freire destacando as contribuições no processo de formação de professores;

- Relatar as experiências vivenciadas durante as práticas educativas interdisciplinares pelas pesquisadoras e qual foi sua contribuição para o processo formativo. 

1.2 Justificativa

Muito se tem comentado sobre a importância do trabalho em projetos interdisciplinares (FAZENDA,1993) como um dos fundamentos para a formação docente. Sabemos que a consolidação desses projetos se efetua como um segmento que busca trabalhar uma prática dialógica entre educador e educandos, que se encontram interligados com o objetivo de trabalhar integralmente as disciplinas, ressignificando o estudo dentro das instituições de ensino.

Dessa forma, refletir sobre a atuação das práticas educativas interdisciplinares realizados pelos pedagogos/as durante o curso proporcionou o desenvolvimento de novas percepções para retroalimentar a comunidade acadêmica, bem como refletir em como conseguimos aproximar do conceito freiriano em que nos distanciamos dele para a chegada de uma ação educativa, sensibilizada na aproximação de teoria e prática.

Analisando os projetos realizados durante o curso de Pedagogia, percebemos a relevância de uma prática educativa interdisciplinar que se aproxima da amorosidade e dialogicidade inserido na dialeticidade do conceito freiriano.

1.3 Metodologia       

Aprendemos que a aula não se limita apenas em teorias apreendidas dentro de quatro paredes, o curso de Pedagogia presencial da Faculdade de Conchas integra seu plano de ensino com teoria e prática, elaborado no formato de seminários, participação em mídias via internet, projetos interdisciplinares, bem como a apresentação de aportes teóricos que integra cada disciplina. 

Deste modo, desde 2016, a Faculdade de Conchas vem ressaltando um processo de integração dos conhecimentos por desenvolver projetos interdisciplinares como essência para a formação docente, pois considera relevante aderir todo embasamento teórico à construção de projetos na prática para que de forma interdisciplinar seja possível que as alunas do curso de Pedagogia percebam a integralidade das disciplinas bem como sua atuação em uma possível prática pedagógica.

O artigo fundamenta-se no relato de experiências das alunas do curso de Pedagogia com base na teoria do educador Paulo Freire, que destaca o papel das relações sociais.  Ele afirma que a mente humana é construída ao longo da vida através da interação com o outro, e que é importante a mediação da interação entre o indivíduo com o meio, porque isso ajuda no processo psicológico mais elevado do ser humano, desenvolvendo assim suas relações com o mundo e com outros.

Quando o docente em formação percebe a importância da amorosidade, que favorece nas relações de interação e a aquisição do conhecimento, tanto ele quanto seu professor expressam a vontade de relações interpessoais e as situações de sentimento contribuem para reflexões importantes, favorecendo assim o processo de aprendizagem no decorrer do curso.

Por conseguinte, optamos por organizar nosso relato em dois momentos: nosso entendimento acerca dos conceitos de amorosidade e dialogicidade em Freire e a descrição de alguns projetos a partir destes entendimentos. 

Dessa forma, escolhemos como metodologia para esse artigo, um sucinto relato de experiência das pedagogas em questão, que durante seu processo de formação tiveram a sensibilidade e a percepção de avaliar a mudança dentro do currículo e a proposta de construção de projetos interdisciplinares. Isso porque o interdisciplinar é viável, pois a formação docente consiste em construir uma postura interdisciplinar por meio de teoria e prática através dos projetos interdisciplinares que a Faculdade de Conchas vem fomentando no decorrer do curso de Pedagogia e como essa prática educativa interdisciplinar se aproxima da amorosidade e dialogicidade freiriana. 

2. A Concepção de Paulo Freire Sobre Amorosidade a Dialogicidade

Para que possamos compreender o ser humano, precisamos antes compreender as relações que eles estabelecem entre si, e a amorosidade se demonstra um importante elemento psíquico em nossas vidas.

Segundo Paulo Freire (1996, p.76-77)

“[...] O mundo não é. O mundo está sendo. Como subjetividade curiosa, inteligente, e como elemento que interfere na objetividade com que dialeticamente me relaciono, meu papel no mundo não é só de quem constata o que ocorre, mas também o de quem intervém como sujeito de ocorrências. Não sou apenas objeto da História, mas seu sujeito igualmente. No mundo da História, da cultura, da política, constato não para me adaptar, mas para mudar.” (FREIRE, 1996, p. 76). 

 Podemos observar que em nossas vidas, muitas vezes nos programamos, nos planejamos para executarmos uma determinada tarefa, mas quando nos deparamos com a situação real, com o momento em que só depende de nós tomarmos a decisão, agimos de uma forma totalmente diferente daquela que planejamos anteriormente. Isso ocorre porque situações em que o amor se demonstra fazem com que tomemos decisões diferenciadas influenciados por ele. O amor é que dá sentindo às situações que acontecem no nosso cotidiano. 

Demonstrar amorosidade nem sempre se torna uma tarefa simples. A complexidade de hábitos, os sentimentos e histórico familiar envolvido contribuem para alterar a facilidade de demonstrar essa qualidade em nossa prática, isso se traduz em aprendizagem, não basta seguir regras predefinidas, requer empenho de nossa parte. De acordo com Paulo Freire (1996, p.77), “ninguém pode estar no mundo, com o mundo e com os outros de forma neutra”.

O grande educador brasileiro Paulo Freire (2005) em sua obra Pedagogia do oprimido ressaltou o rumo em que a educação estava sendo conduzida. Freire se apercebe que através do ensino bancário as pessoas eram incapazes de exercer sua cidadania de forma consistente, isso o estimulou para sua concepção de demonstrar a amorosidade no processo educativo, (2005, p. 67) na visão “bancária” da educação o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Isso levou Freire a desenvolver uma teoria que estivesse totalmente contrária a doutrinação pelo método de ensino tradicional que leva à alienação. 

O educador deixa expresso em sua obra Pedagogia do Oprimido que o professor precisa apropriar-se da amorosidade na sua prática pedagógica, isso o leva a validar sua própria prática com superação e consistência.

De acordo com Freire (2005, p.37),

Daí a necessidade que se empoe de superar a situação opressora. Isto implica o reconhecimento crítico, a “razão” desta situação, para que através de uma ação transformadora que se incida sobre ela, se instaure uma outra, que possibilite aquela busca do ser mais. 

 No entanto, requer esforço acontecer essa transformação. Para alcançar a prática pedagógica efetiva nas relações interpessoais, acreditamos ser uma questão de disposição associada ao planejamento e rigorosidade para que o pedagogo/a em formação possa atingir um desenvolvimento adequado de aproximar a teoria que leva à prática desejada. Neste caso a teoria de Freire pode ampliar a compreensão do professor sobre as possibilidades do aluno no processo ensino-aprendizagem e fornecer elementos para uma reflexão de como o ensino pode criar intencionalmente condições para favorecer esse processo, proporcionando a aprendizagem de novos comportamentos, novas ideias, novos valores. 

O conceito de Freire sobre ação e reflexão vai nortear a ação pedagógica do professor trazendo um diferencial para sala de aula.

Para Freire (2005) o docente precisa desenvolver um conceito de amorosidade pelos educandos de uma prática voltada para a realidade dos alunos com a intencionalidade da ação e reflexão que leva à emancipação. 

Nesse sentido devemos ter compreensão da dimensão amorosa e de sua relevância no desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem. Outro objetivo é suscitar reflexões sobre a prática na tentativa de aprimorar cada vez mais a fim de que possamos chegar a uma resposta satisfatória tanto para o professor quanto para o aluno. O processo de ensino-aprendizagem é o recurso fundamental do professor para sua compreensão, e o papel da amorosidade nesse processo é um elemento importante para aumentar a sua eficácia, bem como para a elaboração de projetos interdisciplinares que irão auxiliar a formação dos estudantes. Segundo Paulo Freire (1996, p. 99)  

O autoritarismo e a licenciosidade são rupturas do equilíbrio tenso entre autoridade e liberdade. O autoritarismo é a ruptura em favor da autoridade contra a liberdade; e a licenciosidade; a ruptura em favor da liberdade contra a autoridade. Autoritarismo e licenciosidade são formas indisciplinadas de comportamento que negam o que vinham chamando a vocação ontológica do ser humano. Assim como inexiste disciplina no autoritarismo ou na licenciosidade, desaparece em ambos, a rigor, a autoridade ou liberdade. Somente nas práticas em que a autoridade e liberdade se afirmam e se preservam enquanto elas mesmas, portanto no respeito mútuo, é que se pode falar de práticas disciplinadas como também em práticas favoráveis à vocação para o ser mais.

A visão pedagógica do educador (FREIRE, 2005, p 90) nos mostra que “[...] não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação reflexão”, isso é mais que uma teoria educacional, o educador soube reconhecer a necessidade que o país estava e continua enfrentando de transformar a educação para efetivar uma prática de liberdade. Ele se preocupava em eliminar pela raiz as relações autoritárias, criando círculos de cultura por meio do diálogo. Desta forma, podemos entender que renunciamos a nós mesmos para entendermos aos outros, fazendo-se necessário a reflexão sobre como promover um ensino de qualidade mediados pela dialogicidade.  

No entanto, temos que levar em consideração, que quando nos relacionamos com o meio social, há inúmeros fatores que devem ser levados em consideração. Nestas situações, devemos sempre refletir sobre a importância da permanência do diálogo e amorosidade para desenvolver um trabalho pedagógico interdisciplinar com qualidade que leva à prática desejada. E que precisa ser levado em consideração os vínculos da relação pedagógica quando perpassa o diálogo e o afeto pautados em Freire ao assumir o desenvolvimento do processo educativo como prática de liberdade e de humanização.

Em Pedagogia da Autonomia aprendemos que, ao realizar um trabalho interdisciplinar para a formação pedagógica, implica o direito de respeitar as diversidades de opiniões, de indagar, questionar e criticar afim de estabelecer um trabalho coletivo. “[...] não posso ser professor sem me pôr diante dos alunos, sem revelar com facilidade ou relutância minha maneira de ser, de pensar politicamente.” (FREIRE, p. 96). 

Deste modo para alcançar tais objetivos, é preciso que o pedagogo em formação esteja convicto da importância do trabalho interdisciplinar para atuar com competência e com métodos sempre inovadores, buscando através da criatividade e da afetividade despertar o prazer pela busca ao conhecimento.

Percebemos que desenvolvendo este tipo de trabalho tanto professor quanto os alunos em formação docente só terão benefícios, pois o professor elevará o seu trabalho como profissional sempre respeitado, valorizado, competente, que conseguiu ser compreendido e entendido pelo seu aluno, trilhando assim o seu caminho como educador. Por outro lado, o pedagogo em formação sairá beneficiado deste processo, pois amplia seus conhecimentos, desenvolvendo suas habilidades, tornando-se cada vez mais capaz e preparado para enfrentar os desafios aos quais é submetido na realidade escolar. [...]” sua experiencia na escola é apenas um momento, mas um momento importante que precisa ser autenticamente vivido.” (FREIRE, 1996, p. 113).

Analisando a situação desta forma, estamos dando uma atenção especial ao processo de formação docente, e que as experiências vividas pelos pedagogos/as são uma constante superação dos obstáculos, consolidando sempre o fazer pedagógico, uma vez que os envolvimentos dos discentes nesses projetos desenvolvidos aprofundam os aspectos cognitivo, afetivo e social que se encontram interligados, pois um sempre complementa o outro.

Ressaltamos que o planejamento com os projetos interdisciplinares é um meio educativo que se faz no processo de elaboração e de construção. Nele aprendemos e exercitamos manifestações de resoluções de problemas em busca do desconhecido para se construir uma identidade educativa no coletivo através da dialogicidade.

Queremos chegar ao nosso destino rumo a formação de uma prática de liberdade, caminhando para uma atuação cada vez mais interdisciplinar demonstrando amorosidade no planejamento traçado com a intencionalidade de potencializar nosso processo de formação no curso em questão, habilitando assim nas alunas em formação uma prática educativa de qualidade.

3. Nosso Olhar Sobre a Interdisciplinariedade no Percurso Formativo         

Entendemos que o papel da escola vem contribuindo para a formação de pessoas para o mercado de trabalho por meio de um currículo fragmentado. A esse respeito foi apresentadas às alunas do curso de Pedagogia a proposta de trabalhar com projetos interdisciplinares, cuja a intenção é, durante a formação docente, auxiliar as futuras pedagogas para uma prática educativa atualizada, colaborando para romper o modelo tradicional de ensino por meio de disciplinas ministradas sem integração, superando a alienação e fragmentação do ensino na educação; sendo assim, a proposta do curso se materializa em uma reorganização do trabalho, aproximando teoria e prática através de projetos interdisciplinares.

Para Fazenda (1994, p. 57):

“[...] a comunicação possui uma força criadora na medida em que ela procura interpretar, explicar, compreender e modificar. Ela dá ao sujeito uma nova capacidade: a de que ele se compreenda a si próprio, a de torná-lo um novo ser no mundo... assim, a linguagem cria para nós, mais do que o presente, uma natureza apta a explicar o passado, a encaixar o futuro.” 

Sabemos que a ciência, no decorrer dos anos fragmentou o saber diversificando o conhecimento em uma multiplicidade de disciplinas (ZABALA.1998), dessa forma, a organização dos conteúdos dentro das escolas consiste em apresentar diversas disciplinas apresentadas como matérias de estudo. De acordo com o autor Antoni Zabala podemos estabelecer três conceitos de relações disciplinares: multidisciplinar, transdisciplinar e interdisciplinar. 

Para o autor a multidisciplinaridade “[...] é a organização de conteúdos mais tradicional.  Trata-se de uma organização somativa.” (ZABALA, 1998, p.143), dessa forma o autor expõe que os conteúdos educativos são apresentados de forma multidisciplinar, ou seja, várias disciplinas que, porém, não se integram, são fragmentadas. De forma que o conjunto de disciplinas dentro da visão do educador é proposto simultaneamente, sem aparecer as relações que existem entre elas.

Sendo assim, trabalhar de forma multidisciplinar não se torna viável uma vez que na formação pedagogo aprendemos sobre integrar as disciplinas a fim de apresentar um conhecimento totalizado para compreender a realidade inserida, contrariando a fragmentação do ensino.

Analisando a transdisciplinaridade, na visão de Zabala, o autor nos ensina que o trabalho transdisciplinar [...] é o grau máximo de relações entre as disciplinas, o autor relata que [...] ele favorece uma unidade interpretativa, com o objetivo de constituir uma ciência que explique a realidade sem parcelamento. Atualmente de acordo com o autor constitui mais um desejo do que uma realidade, (ZABALA,1998, p.144).

A interdisciplinaridade segundo Zabala (1998, p.134):

“A interdisciplinaridade é a interação entre duas ou mais disciplinas, que pode ir desde a simples comunicação de ideias até a integração reciprocados conceitos fundamentais e da teoria do conhecimento, da metodologia e dos dados da pesquisa. Estas interações podem implicar transferências de leis de uma disciplina para outra e, inclusive, em alguns casos dão lugar a um novo corpo disciplinar.” (ZABALA, 1998, p.143).

Neste caso, não se pode definir um conceito para interdisciplinaridade, na medida em que não existe uma definição única possível para esse pressuposto, pois isto envolve um leque de muitos outros conceitos, tantos quantos sejam as experiências interdisciplinares em curso no campo de conhecimento, dentro desta premissa entende-se que se deva evitar procurar uma definição linear e abstrata para o trabalho interdisciplinar. 

A interdisciplinaridade é fundamentada num regime de cooperação, possibilitando o diálogo entre as diversas áreas, o que leva a uma interação, condição indispensável para a efetivação do trabalho em equipe. É necessário que os profissionais tenham a capacidade de trabalharem numa visão de totalidade, sem anular o seu saber individual diante do saber coletivo. Na prática, a interdisciplinaridade constrói estratégias enriquecedoras para a ação profissional produzindo competências que dificilmente o indivíduo sozinho teria.

De acordo com Zabala, em seu livro A Prática Educativa Como Ensinar, o autor comenta que:

“A disciplina é o objeto de aprendizagem, e este fato é indiscutível. É preciso dominar o corpo conceitual da disciplina e seus métodos e técnicas específicos. O conhecimento sobre a aprendizagem em geral não tem que servir para questionar a disciplina, mas, sim para estabelecer as propostas didáticas mais apropriadas para sua aprendizagem. Uma vez aceita a disciplina como objeto de ensino, será aplicado o conhecimento de como se aprende para determinar a metodologia adequada.” (ZABALA, 1998, p.156).

Ninguém nasce competente, isso ocorre por meio da busca do saber conhecendo novas teorias, técnicas e as colocando em prática com comprometimento e responsabilidade junto ao trabalho. A questão do saber está diretamente relacionada ao nosso cotidiano, o que nos leva a buscar novos conhecimentos e a repensar nossas atitudes como profissionais. 

A proposta de uma nova metodologia de ensino pautados em projetos interdisciplinares no curso de Pedagogia deu início no ano de 2016 com professores que a propuseram como forma de aperfeiçoar prática e teoria. A intencionalidade objetivava otimizar as aprendizagens e o trabalho interdisciplinar aproximando teoria e prática. Durante esse período as autoras desse artigo participaram das ações interdisciplinares no decorrer do curso.

 Refletindo sobre algumas das práticas educativas da qual participamos durante o curso de Pedagogia, nosso primeiro projeto apresentava o desafio de trabalhar interdisciplinarmente com as disciplinas Metodologia da Língua Portuguesa, Alfabetização e Letramento e Educação Especial, objetivando que se criasse um ambiente propício para a aprendizagem através do lúdico, estimulando a criatividade, curiosidade e integração das crianças. Com a era da inclusão, o projeto estava direcionado primariamente à integração da Educação Especial, fazendo com que as alunas viessem a aprender como preparar um ambiente receptivo as crianças inclusas. A princípio a proposta não agradou muitos causando um impacto nas alunas, que tiveram de sair da zona de conforto e atuar na prática educativa.

No segundo projeto, trazendo um pouco das experiências adquiridas do primeiro projeto, a proposta apresentada foi de trabalhar as disciplinas Metodologia do Ensino de Ciências Naturais, Didática e Relação Étnico Racial e Pluralidade Cultural com a intencionalidade de aprender sobre as técnicas da aula passeio e as contribuições da cultura afrodescendente para formação de novas culturas dentro da educação brasileira. O objetivo dessa prática consistia em vivenciar com os alunos uma aula para além dos muros da escola, e integrar a contribuição de outras culturas, neste caso a dos africanos, para gerar novos horizontes a fim de ampliar o conhecimento da classe. Foram necessárias adaptações proporcionando um novo entendimento sobre pluralidade cultural, além de valorizar as riquezas do patrimônio da nossa região.

No terceiro projeto interdisciplinar, as alunas aprenderam a trabalhar com as disciplinas Currículo e Programas, Libras e Gestão Educacional com a intencionalidade de destacar o que o município tem a oferecer como contribuição da aprendizagem para uma prática pedagógica proporcionando a integração dos alunos surdos-mudos por meio da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). O objetivo era a conscientização e educação para prevenção à dengue, a partir da realidade inserida em Conchas. Visava a participação e atividades em grupos bem como a inclusão de alunos com deficiência auditiva chamados surdos-mudos desenvolvendo o respeito e a diversidade de opiniões, além de conscientizar a família, a comunidade quanto à importância de sua participação no combate à dengue sendo um dever de todos.

O quarto projeto interdisciplinar, constituía em trabalhar com as disciplinas Metodologia de Ensino de Arte, Avaliação Institucional e Educacional e Estudos Integradores com a proposta de adquirir competências e habilidades em trabalhar na prática com o ensino de Arte priorizando as necessidades históricas e sociais de seus alunos. O objetivo era estabelecer conexão e mostrar capacidade de trabalhar multidisciplinar integrando as práticas pedagógicas desenvolvendo as habilidades artísticas que auxilia no processo cognitivo a coordenação motora para estimular a criatividade, em busca da superação e desenvolvendo novas formas de aprendizagem.

O último projeto interdisciplinar que as alunas desenvolveram trazia o desafio de trabalhar com as disciplinas de Literatura Infanto-Juvenil, Educação no Campo e Legislação e Políticas Públicas da Educação Básica e Política Educacional. A intencionalidade nesse último trabalho educativo trouxe a responsabilidade de uma aula prática em uma escola do campo para apresentar a literatura infantil às crianças de primeiro e segundo ano, ou seja, uma sala multisseriada. O objetivo foi elaborar um planejamento escolar e executá-lo, através da narrativa de uma história da Literatura Infantil ensinando sobre a importância da etnia racial, fazendo com que as crianças aprendessem a respeitar as diferenças, adquirindo uma postura e valores respeitosos à pluralidade racial promovendo um ambiente de respeito e valorização na escola.  

Para transformar a educação na visão de Freire (2005) não podemos nos tornar professores paliativos, sabemos que o docente tem autonomia dentro da sala de aula, porém, o professor utiliza de forma amorosa deixando sua posição de único detentor do conhecimento para passar para o mesmo nível do aluno. Assim ele ensina aprendendo e aprende ensinando, isso surge através do diálogo onde acontece a troca de saberes.

O mesmo acontece dentro do âmbito escolar, nos dias atuais isso engloba atuação e preparação que vão desde o aproveitamento de seus alunos, na construção do conhecimento, o espaço, os recursos existentes para desempenhar as atividades, o tempo que o professor tem para trabalhar na sala de aula e a relação de amorosidade entre professor e aluno. Modificar o conceito de como trabalhar didaticamente dentro da sala de aula torna-se um verdadeiro desafio, configura-se em um grande duelo que perpassa entre as disciplinas seguidas pelo professor e que integra o currículo escolar. De acordo com Paulo Freire (1996, p.66)

O respeito à autonomia e à dignidade de cada um como um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros [...] o professor que desrespeita a curiosidade do educando, seu gosto estético, a sua inquietude, a sua linguagem, mais precisamente, a sua sintaxe e a sua prosódia; o professor que ironiza o aluno, que o minimiza, que manda que “ele se ponha em seu lugar” ao mais tênue sinal de sua rebeldia legítima, tanto quanto o professor que se exime do cumprimento do seu dever de propor limites à liberdade do aluno, que se furta ao dever de ensinar, de estar respeitosamente presente à experiência formadora do educando, transgride os princípios fundamentalmente éticos de nossa existência. (FREIRE, 1996, P.66).

 A intencionalidade de desenvolver os projetos interdisciplinares durante o curso de Pedagogia compõe uma oportunidade de construir um conhecimento por meio de teoria e prática, na relação de amorosidade pautado no grande educador Paulo Freire (FREIRE, 1996), para ampliar o saber das futuras pedagogas, através das interações em sala de aula. Dessa forma os professores auxiliam no processo de aprendizagem por apresentar um currículo que valoriza não apenas os conteúdos, mas respeita a cultura que cada aluna carrega consigo, permitindo assim que elas desenvolvam suas potencialidades ao buscar cada vez mais autonomia durante a trajetória da formação docente.   

4. Práticas Pedagógicas Interdisciplinares: Aproximações e Distanciamentos com Perspectiva Freireana

De acordo com os relatos citados acima, percebemos que durante o percurso dos projetos interdisciplinares foi levado as autoras à aprender por meio de teoria e prática sensibilizando o olhar para a futura atuação em sala. Percebemos que através da relação de amorosidade chegamos à práxis.

Percebemos que durante os primeiros projetos houve um distanciamento da amorosidade, pela falta da dialogicidade em sua totalidade, fazendo com que as alunas não tivessem dimensão da relevância da prática educativa interdisciplinar; resultando assim na fragmentação da teoria e prática. Houve momentos em que nossas percepções estavam limitadas somente à prática, sem fazer a ligação com a teoria apresentada.

Aprendemos que a prática educativa interdisciplinar na concepção do educador Paulo Freire sobre amorosidade e dialogicidade não se trata de mero ajuntamento de conteúdo, método ou disciplina, mas implica em questionamentos que vêm acarretar em um novo pensar e agir, levando a uma abertura de vivências interativas mediadas por um conhecimento diversificado e integral, superando a fragmentação do ensino e potencializando a formação do pedagogo, preparando para atuação. 

Neste sentido aprendemos que para transformar o olhar do pedagogo faz necessário estudar constantemente sobre as relações humanas, uma vez que elas criarão vínculos com seus futuros alunos através da interação, e que na sua atuação não serão apenas mediadoras do conhecimento, mas sim através da amorosidade e dialogicidade em ação dentro da prática pedagógica promoverão uma aprendizagem de qualidade favorecendo assim a relação entre professor e aluno.

Dessa forma levaremos em conta que a aprendizagem através da amorosidade em todas as etapas do ensino torna o centro do processo educativo, e que o futuro pedagogo precisa lembrar-se que antes de tudo ele está em constante aprendizado durante sua atuação.

Na concepção das Siqueira, Edlinger e Barbosa (2012) o docente deve ser sempre um discente, pois o processo de ensinar possibilita o profissional de educação a aprender, tornando-se um sujeito dialógico em constante crescimento e aprendizado com as diferenças, é deste modo que a amorosidade é importante no processo educativo e não autoritário, assim fica mais fácil para os estudantes despertarem para o mundo, descobrindo sua verdadeira vocação.

É na convivência amorosa com seus alunos e na postura curiosa e aberta que assume e, ao mesmo tempo, provoca-os a se assumirem enquanto sujeitos sócio histórico-culturais do ato de conhecer, é que ele pode falar do respeito à dignidade e autonomia do educando. Pressupõe romper com concepções e práticas que negam a compreensão da educação como uma situação gnosiológica (FREIRE, 1996, p. 11).

De acordo com as vivências apreendidas durante as práticas educativas do curso de Pedagogia, aprendemos que o fazer interdisciplinar é uma ponte para o melhor entendimento das disciplinas entre si, capacitando a formação do pedagogo/a para uma recriação conceitual e teórica.

5. Conclusão 

 Diante dos desafios e da responsabilidade da ação docente, no sentindo que recai sobre a formação do outro, este trabalho vem explorar fundamentalmente duas questões de suma importância, retroalimentar a Faculdade de Conchas ao analisar os projetos desenvolvidos por ela e fornecer um aprofundamento científico para a prática do pedagogo/a em formação. 

O artigo buscou levantar as aproximações e os distanciamentos que os projetos interdisciplinares desenvolvidos na Faculdade de Conchas tiveram em relação ao conceito de amorosidade e dialogicidade em Paulo Freire.

Sendo que diante da análise desses projetos surge uma questão relevante, o que os projetos interdisciplinares trouxeram de aprendizagem e aprimoramento para a formação de pedagogo/a? 

Aprendemos que a prática interdisciplinar surge para promover a interação das disciplinas através da qual articulam as estruturas curriculares, evidenciando o estudo de um planejamento dos conteúdos aprendidos na teoria e refletir ação de forma coletiva pela equipe de trabalho. Esse trabalho é o meio pelo qual buscamos aprender a tomada de consciência na transformação da formação docente despertando a capacidade de resgatar valores, respeito, verdade, diálogo e amorosidade. 

Trabalhar os projetos interdisciplinares na Faculdade trouxe uma nova dimensão para a graduação, possibilitou atuar na prática antes mesmo da formação, de maneira que fomos protagonistas desses projetos desenvolvendo autonomia e amorosidade ao confrontarmos com os desafios que iam surgindo a cada tema desenvolvido, contribuindo assim para nossa formação.

Deste modo aprendemos que trabalhar de maneira interdisciplinar dentro do planejamento escolar permanece um aliado do professor para delinear suas ações, ele se torna norteador na busca do objetivo que pretende alcançar e demonstra que tipo de cidadão (aluno) pretende-se formar.

Sobre os Autores:

Karine Simão Cardoso - Aluna graduanda em Pedagogia pela FACON – Faculdade de Conchas

Rosângela Fumagalli Lisum - Aluna graduanda em Pedagogia pela FACON – Faculdade de Conchas

Luciana C. Godoy Zotelli - Orientador (a) em Pedagogia pela FACON – Faculdade de Conchas

Referências:

FAZENDA, Ivani C. A. Práticas interdisciplinares na escola. São Paulo: Cortez, 1993.

FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 51ed. – São Paulo: Cortez, 2011. (Coleção questões da nossa época; v.22).

______. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

______. Pedagogia do oprimido. 57.ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. 

HAAS, Celia Maria. A interdisciplinaridade na construção dos projetos pedagógicos: Práticas experimentadas. [Artigo]. São Paulo: UNICID 1997 SIQUEIRA, Cleuza Maria Camargo; EDLINGER, Aline; BARBOSA, Magda Simone. A essência da amorosidade na Educação para Freire. [Artigo]. Rio Grande do Sul IFRS: 2012.

ZABALA, Antoni. A prática educativa como ensinar. Porto Alegra: Artmed, 1998. 

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