A Atuação do Psicólogo no Contexto Escolar

A Atuação do Psicólogo no Contexto Escolar
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Resumo: Este trabalho tem como objetivo apresentar, de forma sintetizada, o amplo leque de possibilidades de atuação do psicólogo na instituição escolar. Baseado em pesquisas bibliográficas e em breve pesquisa de campo com psicólogos atuantes em uma escola privada da cidade do Natal, efetua sucintas considerações sobre o papel do psicólogo escolar bem como menciona algumas teorias que tem sido referenciadas pelos profissionais da área.

Palavras-chave: Psicologia escolar, instituição escolar, escola, atuação do psicólogo

1. Introdução

O objetivo deste trabalho é mapear de forma sucinta, a atuação do psicólogo no contexto escolar. Percebe-se que as complexas demandas da conjuntura educacional brasileira abrem um campo cada vez maior para a atuação do psicólogo no ambiente escolar. Amplia-se o leque de possibilidades de atuação do psicólogo não apenas na dimensão psicoeducativa da instituição escolar, mas também na sua dimensão psicossocial.

Ressalte-se a importância deste profissional vinculado ao trabalho dos outros profissionais no contexto escolar. Portanto, a necessidade do trabalho em equipe interdisciplinar impõe-se ser reconhecida como uma tarefa de aprimoramento do espaço educativo.

Para ilustrar nossas ideias, efetuou-se breve pesquisa de campo com profissionais psicólogos, atuando em uma escola de educação infantil e nível médio, na cidade do Natal, utilizando-se de uma entrevista aberta e informal para a coleta de informações.  Os resultados da pesquisa teórica e de campo originaram o presente texto.

2. Metodologia

Nosso trabalho desenvolveu-se em dois momentos:

  • Pesquisa bibliográfica - leitura de artigos e consultas a internet.
  • Realização de uma pesquisa de campo que consistiu numa investigação preliminar sobre o papel do psicólogo numa instituição escolar de Educação Infantil e Ensino Médio, o Colégio Henrique Castriciano, sugerido pela Profª Priscilla Araújo, docente da disciplina Práticas Integrativas, devido a praticidade de um contato anteriormente existente entre a professora da disciplina e a psicóloga da escola, Sra . Narjara Macedo. O relatório referente a esta pesquisa, encontra-se em anexo a este trabalho.
  • O instrumento para a coleta primária de informações consistiu de uma entrevista aberta, informal realizada a partir de quatro questões centrais construídas pela equipe em sala de aula e apresentadas à professora da disciplina.
  • Os dados levantados conjuntamente com os textos teóricos consultados permitiram a realização deste trabalho final.

3. Desenvolvimento

O papel do psicólogo no âmbito escolar se norteia pela perspectiva de procurar relacionar os conhecimentos específicos da Psicologia com os conhecimentos educativos. Trata-se, pois, de um trabalho de reflexão sobre a prática, a partir da teoria. Os profissionais precisam dispor de conhecimentos dos temas tratados pela educação, da problemática do contexto escolar e das teorias pertinentes ao assunto a fim de explicitarem e fundamentarem adequadamente suas práticas.

Uma grande tarefa que o psicólogo pode desenvolver nas instituições educacionais é participar da formação dos educadores, contribuindo para que eles estejam cada vez mais fortalecidos e instrumentalizados para uma atuação de qualidade junto aos alunos, entre si e com o corpo de funcionários das escolas.

Listamos, a seguir, algumas das atuações que o psicólogo pode desenvolver junto aos educadores segundo Souza (2002);

  • Ajudar o educador a refletir sobre sua infância, para assim compreender melhor a infância de seus alunos;
  • Ajudar o educador a refletir sobre sua família para compreender melhor a dinâmica familiar dos alunos;
  • Auxiliar o educador no convívio das relações grupais, nas relações de equipe e no trabalho de constituição de grupos;
  • Auxiliar o educador a conhecer e refletir sobre o processo de desenvolvimento humano e os processos de ensino-aprendizagem e as teorias a respeito;
  • Refletir sobre as questões éticas e políticas relacionadas à educação e ao cenário escolar;
  • Conduzir intervenções no cenário escolar, com respeito à figura do educador, dialogando com ele, colaborando em suas necessidades de reflexão e de construção do conhecimento, sem imposições, direcionamentos ou controle.

Outras tarefas concernentes ao psicólogo no âmbito escolar são ainda apontadas por Sousa (2002) como complementando a rede de atuação do psicólogo, como apresentamos a seguir:

  •  Desenvolver trabalhos de Orientação Profissional e Vocacional com os alunos;
  • Desenvolver ações preventivas ao uso de drogas;
  • Desenvolver ações sobre temas como sexualidade, ética, agressividade junto com o corpo docente;
  • Desenvolver ações sobre desenvolvimento humano, prevenção ao uso de drogas, sexualidade, agressividade, ética junto com o corpo docente direcionadas ao esclarecimento da comunidade;
  • Dialogar junto com o corpo docente, com os pais sobre o desenvolvimento acadêmico dos alunos, metodologia e objetivos da escola bem como sobre dificuldades dos alunos;
  • Participar, junto com toda a equipe da escola, da construção do seu projeto político-pedagógico;
  • Desenvolver trabalho de relações grupais para que a equipe da escola possa melhorar cada vez mais suas relações interpessoais;

Entretanto, é bem conhecido o fato de que a maioria das escolas, sejam públicas ou privadas, não inclui ainda o psicólogo em suas equipes e que possui professores despreparados para acolher um trabalho desta natureza e sem direcionamento para desenvolver seus trabalhos em sala de aula.

A presença do psicólogo na Escola pode contribuir bastante para o melhor desempenho dos aprendentes, pois suas dificuldades de aprendizado ou de comportamento poderão ser detectadas, acompanhadas e, caso necessário, poderão ser encaminhados para atendimento terapêutico fora da Escola, em Instituições especializadas.

Os psicólogos educacionais desenvolvem seu trabalho em conjunto com os educadores de forma a tornar o processo de aprendizagem mais efetivo e significativo para o educando, principalmente no que diz respeito à motivação e as dificuldades de aprendizagem, focam sua atenção nas necessidades da criança na escola, no desenvolvimento das capacidades e nas dificuldades de aprendizagem, como no caso da desordem por déficit de atenção, hiperatividade, problemas emocionais, problemas comportamentais etc.

Os psicólogos educacionais apoiam-se em diversas teorias de ensino e da aprendizagem como: Cognitivismo, Construtivismo, Cognitivismo Social, Teorias Motivacionais, Teorias do Desenvolvimento, Behaviorismo, Teoria sócio-histórica. Entre os teóricos mais referidos na área pode-se citar Piaget, Vygotsky, Rogers, Maslow, Skinner, Bruner e Bandura.

Foge ao escopo deste trabalho discorrer sobre todas essas teorias e teóricos.   Entretanto, efetuar-se-á uma referência sucinta às abordagens piagetiana e sócio-histórica por terem sido mencionadas pelas profissionais na pesquisa de campo efetuada para este trabalho.

O Construtivismo é uma das correntes teóricas empenhadas em explicar como a inteligência humana se desenvolve como resultado das ações mútuas que transcorrem entre o indivíduo e o meio.  Jean Piaget (1896-1980) defendeu uma abordagem interdisciplinar e fundou a Epistemologia Genética que seria uma teoria do conhecimento com base no estudo da gênese psicológica do pensamento humano.  Através de minuciosa observação de seus filhos e de outras crianças, Piaget criou a teoria cognitiva onde propõe a existência de quatro estágios de desenvolvimento cognitivo do ser humano: o sensório-motor, o pré-operacional (ou pré-operatório), o operatório-concreto e o operatório-formal.

Para Piaget, as crianças só poderiam aprender quando atingiam o estado de maturação necessário a cada fase de aprendizagem, quando estivessem prontas para assimilar.  Aos professores, caberia aperfeiçoar o processo de descoberta dos alunos. Seus estudos o levaram a afirmar que a capacidade cognitiva humana nasce e se desenvolve, não vem pronta, opondo-se assim ao behaviorismo e a Gestalt, defendendo o ponto de vista de que o conhecimento origina-se da interação sujeito-objeto e assim inspirou toda uma corrente educacional hoje denominada de construtivismo que se opõe ao ensino autoritário, tradicional, herdado do século XIX. No Brasil, essas ideias influenciaram o movimento chamado de Escola Nova, ativa, que se contrapôs ao ensino tradicional onde o professor discorre, dita e o aluno copia e repete.

Outra grande corrente que vem influenciando a Educação e a Psicologia contemporâneas, é o sócio-interacionismo ou abordagem sócio-histórica desenvolvida a partir dos estudos sobre a linguagem, a mente, a aprendizagem de Lev Vygotsky (1896-1934).

O seu interesse pela Psicologia nascente, levou-o a estudar, entre muitos outros assuntos, as teorias da Gestalt, da Psicanálise e do Behaviorismo, além das ideias de Jean Piaget.  Influenciado pelas idéias socialistas e pela conjuntura da Revolução Russa de 1917, inspirado nos teóricos do marxismo e do leninismo, Vygotsky propôs a reorganização da Psicologia, a partir das proposições teóricas do materialismo histórico e dialético, concebendo o que ele denominou de psicologia cultural e histórica.  Sua ideia central é a de que o desenvolvimento intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e das condições de vida. Para ele, os signos, a linguagem simbólica, os instrumentos de trabalho estabelecem uma relação de mediação entre o homem e a realidade. Para este autor quando aprendemos a linguagem do nosso meio sócio-cultural, transformamos radicalmente os rumos do nosso próprio desenvolvimento. Vygotsky enfatizava a dimensão social, interpessoal na construção do sujeito psicológico.

Um dos seus conceitos mais divulgados é o de zona de desenvolvimento proximal que muito tem influenciado os estudos do processo de ensino-aprendizagem contemporâneos. Este conceito se refere à diferença entre o que a criança consegue realizar sozinha e aquilo que, embora não consiga realizar ainda sozinha, é capaz de aprender e fazer com a ajuda de uma pessoa mais experiente (adulto, criança mais velha ou com maior facilidade de aprendizagem).

A zona de desenvolvimento proximal seria, pois, tudo o que a criança pode adquirir em termos intelectuais quando lhe é dado o suporte educacional devido. A aprendizagem relaciona-se ao desenvolvimento, desde o nascimento, sendo a chave para o desenvolvimento do ser. Haveria estreita relação entre quem aprende e quem ensina, como participantes de um mesmo processo, mediado pela cultura, pela interação com signos, símbolos culturais e objetos.

A prática profissional do psicólogo, dialogando com a abordagem sócio-histórica, seria fundada na intervenção no processo psicológico, atuando-se com vistas a transformação do processo de leitura do mundo que as pessoas fazem, recriando sentidos e refazendo projetos de vida, transformando igualmente as possibilidades de intervenção no mundo.

As contribuições de Piaget e Vygotsky encontram-se bem presentes no trabalho tanto dos educadores como dos psicólogos, nas escolas contemporâneas.

A seguir é exposta a trajetória da pesquisa de campo empreendida.

3.1 Pesquisa de Campo

No dia 20 de março, nosso grupo de alunos de Psicologia, 3º.periodo noturno, da Faculdade Maurício de Nassau teve a oportunidade de um encontro com psicólogas atuantes no Complexo Educacional Henrique Castriciano, com o objetivo de levantar informações para a melhor compreensão do papel do psicólogo no ambiente escolar. Fomos muito bem recebidos e esclarecidos quanto ao nosso tema de pesquisa.

Chegando à escola, já ali se encontrava um outro grupo da nossa Faculdade. Foi proposto, então, pelas psicólogas, um encontro conjunto informal onde seria exposto o quadro geral de atuação do psicólogo escolar, mas sempre com referência específica a experiência de trabalho que as entrevistadas desenvolvem no dia a dia da Escola Henrique Castriciano, ampliando assim o âmbito da nossa enquete.

A Escola em questão possui três psicólogas e quatro estagiários do curso de Psicologia da FARN, servindo, pois, de campo de estágio e laboratório através de projetos de extensão do curso de Psicologia da FARN, integrante do grupo educacional.

Indagadas quanto ao trabalho ali desenvolvido, as profissionais informaram  que o principal objetivo, como deveria ser em qualquer escola, não é fazer atendimento clínico mas sim encontrar e aplicar ferramentas que lhes possibilitem lidar com questões de aprendizagem e comportamento encaminhando, posteriormente, caso necessário, situações específicas para clínicas externas. Trabalham coletivamente as turmas, num processo gradativo, sem deixar, contudo, de conferir atenção aos casos individuais.

Sobre a questão de como lidam com a adaptação de alunos novatos, informaram efetuar anamnese das crianças com dificuldades de adaptação, entrevistando igualmente os familiares. Apontaram que é no Ensino Médio onde se encontram mais problemas tais como deficiências de aprendizagem, pais que não conseguem fazer os filhos estudar, conflitos de várias ordens.

Na Educação Infantil, além das dificuldades de adaptação  das crianças que vem pela primeira vez à Escola, há que lidar com a socialização, agressões como mordidas, beliscões, socos e dificuldades de aprendizagem como,por exemplo, distinguir cores, formas  geométricas, obedecer limites etc.

Entretanto o trabalho é muito facilitado por que as crianças seguem uma rotina pedagógica cotidiana com aulas de linguagem, inglês, música, educação física, estudos sociais, artes, entre outras. Há uma interlocução dos psicólogos com os pedagogos, professores, coordenadores.

Ressalte-se que não se trabalha crianças individualmente, mas as turmas, os grupos, não se deixando, porém, de atender individualmente crianças e familiares que manifestam dificuldades, encaminhando-os, quando necessário, a atendimento clínico externo. No ensino fundamental I,as questões mais complicadas referem-se a aprendizagem e à socialização. No ensino fundamental II e Ensino Médio, o grande problema é que tanto a escola como os pais conferem mais autonomia aos estudantes, mas não conseguem fazer com que muitos dos seus filhos estudem mais. Os jovens resistem a terem mais responsabilidades. Ressaltam, porém, os psicólogos, que os alunos são prejudicados, neste processo, pelos próprios pais, pois, muitos apresentam em seus lares, falta de rotina e ausência de monitoramento por parte dos pais sobre as atividades demandadas pela escola.

Alguns dos problemas que requerem a intervenção  do psicólogo foram então apontados, tais como:

1. O uso de tecnologias em sala de aula (Celulares, smartphone... etc.)

2. Invasão da privacidade dos colegas cm filmagens sem ética alguma, registro de situações embaraçosas.

3. Brincadeiras desagradáveis, “bullying”.

4. Conflitos entre alunos e professores, entre alunos e pais e até mesmo entre pais e professores quanto a discordância de atuação.

5. No último ano, pré-vestibular, o serviço de orientação vocacional depara-se com as angústias dos alunos que procuram o serviço por não estarem certos de suas escolhas ou desabafam que estão sendo pressionados pelos pais a optarem por caminhos que não são de seu agrado.

6.  Aparentemente a escola não enfrenta problemas com drogas. Tem-se notícias de episódios esporádicos que ocorreram fora da escola, particularmente com uso de álcool.

O professor de Ética trabalha valores e temas transversais como drogas, sexualidade, educação ambiental em sua disciplina.

7. Não se permitem comportamentos sensuais ou sexuais chocantes e não se tem notícias de casos assim. Caso algum casal se comporte de maneira considerada inadequada para o ambiente escolar, independentemente de suas opções sexuais, é chamada para uma conversa e solicitado a comportar-se de forma mais adequada.

8.  Quanto a preconceitos, sejam por opções sexuais ou relativos a raça, situação sócio-econômica ou outros, foi informado que não se lembram da ocorrência de problemas dessa ordem. Lembraram apenas de um caso de gestação no fundamental 2 onde a jovem estava preocupada com a reação dos colegas de classe. Entretanto, a questão foi trabalhada na classe que demostrou um comportamento maduro de apoio e solidariedade que muito comoveu a jovem envolvida.

Enfim, as psicólogas afirmaram que trabalham no sentido de orientar os jovens a vivenciar suas diferentes fases, e procuram conduzi-los a um processo reflexivo.

Quanto a questão de separação dos pais ou pais já separados, foi informado que entabulam uma conversa com os jovens e depois com os pais. Atende-se crianças também. Há um serviço de orientação, de aconselhamento, julgando-se necessário, encaminha-se a família para atendimento terapêutico.

Na educação infantil é mais fácil perceber os conflitos familiares através do comportamento das crianças. Elas próprias se manifestam em sala de aula, no meio de atividades desenvolvidas pelos orientadores. Quando tem oportunidade, desabafam, contam seus problemas.

Foi narrada uma situação peculiar de uma criança do sexo masculino que se interessava por comportamentos femininos com mãe permissiva e um pai machista e que apareceu com uns sinais que a escola julgou ser  de espancamento, mas foi apurado que era fruto de uma brincadeira familiar.

Quanto a questão das referências teóricas que orientam o trabalho da escola e das psicólogas, foi informado que a E.H.C. trabalha com uma visão ampla que incorpora várias perspectivas, mas, notadamente, a sócio- construtivista representada pelas teorias de Piaget e Vigotsky mas não deixam de incorporar Paulo Freire e Freinet.

As psicólogas seguem distintas linhas, Psicanalítica, TCC, Gestáltica, mas nem por isso deixam de trabalhar juntas, num trabalho fecundo de diálogo entre as diversas linhas e com os estagiários para que se familiarizem com as estratégias das diversas abordagens. Afirmaram, porém, que o trabalho da Escola, a nível psicológico, é balizado pela abordagem sócio-histórica, proposta por Vygotsky, onde se procura ver a inter-relação entre cultura, família, instituição e indivíduo. Segundo as psicólogas entrevistadas, essa abordagem proporciona uma leitura crítica muito útil na contemporaneidade.

Quanto a questão de como trabalham com as crianças ou jovens com necessidades especiais, foi informado que a instituição, como um todo, tem um histórico de acolher pessoas com transtornos em geral. Foi mencionado que a proposta é institucional e foi lembrado o caso muito conhecido de uma jovem com Síndrome de Down que hoje é professora auxiliar na Escola Doméstica que pertence ao grupo educacional.

Não consideram que todos os professores estejam preparados para lidar com a questão de atendimento a alunos com necessidades especiais.  A filosofia da escola é acolher e lidar caso a caso, porque cada situação e cada indivíduo têm suas peculiaridades. Os professores estão ainda se preparando, como, aliás, ocorre por todo o Brasil, para aprender a lidar conjuntamente com os psicólogos, com as crianças e jovens com necessidades especiais, adotando estratégias diversas e diferenciadas para cada caso que é acompanhado cuidadosamente pela equipe.

Efetuam encaminhamentos específicos para fonoaudiólogos, psicopedagogos mas, às vezes, os pais não colaboram dizendo que não tem tempo ou recursos para os serviços sugeridos fora da escola. Os psicólogos explicam ser necessário um acompanhamento específico, individualizado fora da escola, mas nem sempre são atendidos pelos pais.

Quando logram êxito nesses encaminhamentos, os membros das equipes da escola procuram manter contato com os profissionais indicados a fim de acompanharem melhor a evolução do tratamento dos alunos.

4. Conclusão

Os estudos realizados bem como a pesquisa efetuada mostram que as possibilidades de atuação do psicólogo na instituição escolar são ainda tema de debate e reflexão. Entretanto, há um amplo leque de possibilidades de atuação que vem evoluindo devido às complexas demandas da educação brasileira. Aponta-se a importância do trabalho em equipe e a atuação do psicólogo não só na dimensão psicoeducativa como também na dimensão psicossocial da instituição escolar.

Percebe-se pelo exposto que as demandas da sociedade brasileira indicam a existência de um crescente campo de trabalho para o psicólogo nas instituições educacionais. Entretanto, essa ampliação e diversificação das possibilidades de atuação do psicólogo estão na dependência de aberturas da sociedade e da efetivação de políticas públicas voltadas à educação para a sua efetiva implantação em esferas mais amplas. Nesse processo a pressão popular por serviços de saúde de melhor qualidade, numa perspectiva interdisciplinar de trabalhos conjuntos de equipes, em várias áreas da sociedade, inclusive a educacional, deverá desempenhar um papel relevante na efetivação dessas demandas sociais.

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Anexo: A Entrevista

 

  • Identificação do Profissional
    • Nome: Narjara Medeiros de Macedo
    • Local de trabalho: Escola Doméstica de Natal e Complexo Educacional Henrique Castriciano/Natureza: Instituição sem fins lucrativos
    • Formação da Profissional: Graduação em Psicologia (UFRN). Conclusão em 2001/ Especialização strictu sensu em Psicologia (UFRN). Área de concentração: Psicologia, Sociedade e Qualidade de Vida. Conclusão: 2003 - Mestrado em Psicologia (UFRN) – Núcleo de Estudos Socioculturais da Infância e Adolescência - Conclusão :2005
    • Formada há 11 anos
    • Tempo de atuação na instituição: de 2002 até os dias atuais
    • Forma de ingresso: seleção (entrevista, atividade prática)
    • Carga horária: 40h semanais
    • De 2001 a 2010 atuou  em clínica e enquanto docente (UFRN – profa. Substituta/ FARN), concomitantemente ao Complexo de Ensino Noilde Ramalho (ED/HC). Desde 2011, não atuo u em outros locais, em regime de dedicação exclusiva à instituição.

Atuação Profissional

A descrição do cargo para Psicologia Escolar prevê as seguintes funções:

  • Orientação, capacitação e treinamento de professores e equipe técnica a respeito de abordagens e posturas em sala de aula que favoreçam o aprendizado e o desenvolvimento socioafetivo dos educandos, respeitando a Proposta Politico-Pedagógica da instituição;
  • Orientação ao docente, à equipe técnica, ao aluno e aos seus responsáveis acerca das adequações curriculares pertinentes aos alunos com dificuldades de aprendizagem e/ou deficiências, considerando a avaliação e as orientações dos especialistas extraescolares;
  • Realização de intervenções e implementação  de oficinas e projetos, em conjunto com o professor, em sala de aula ou em outros espaços educativos;
  • Desenvolvimento de grupos operativos de docentes, equipe técnica e/ou famílias;
  • Acolhimento, aconselhamento psicológico e encaminhamento para especialistas extraescolares aos educandos e seus familiares, colaborando desde o processo de adaptação escolar até busca de estratégias de enfrentamento diante das situações vivenciadas pelo educando;
  • Colaboração no processo de Inclusão Escolar e identificação de dificuldades de aprendizagem e de deficiências, nos seguintes aspectos: a) Encaminhamento e contato com profissionais extraescolares que acompanham o educando; b) Acolhimento e acompanhamento do educando e sua família na aceitação e no enfrentamento das dificuldades apresentadas; c) Implementação, junto à equipe técnico-pedagógica, das adequações curriculares pertinentes; d) Produção de atas de atendimentos e de reuniões de planejamento em que participem educadores, alunos, familiares e/ou especialistas, bem como sistematização de todos os registros produzidos e documentações recebidas em um banco de dados acessível ao Núcleo Pedagógico da instituição.
  • Realização de intervenções em sala de aula, quando necessário, ou em grupos operativos de alunos (grupos lúdicos, grupos de Orientação Profissional, grupo do Internato, grupos reflexivos associados aos atos socioeducativos, grupo de lideranças, etc.);
  • Participação dos encontros e reuniões de planejamento ou avaliação pedagógica, bem como dos eventos previstos no calendário escolar, especialmente aqueles relacionados ao Setor de Psicologia e ao Setor Pedagógico ao qual o estagiário estiver vinculado;
  • Desenvolvimento de pesquisas junto à comunidade escolar, com o intuito de maior compreensão e instrumentalização para atuar em suas demandas;
  • Elaboração e atualização de relatórios e mapas de acompanhamento do aluno e da turma, de atas de reunião, de registros de atendimento e de intervenção individual e coletiva, e de protocolos de recebimento e expedição de documentos;
  • Treinamentos, grupos de estudo e supervisões com a equipe de estágios em Psicologia escolar;
  • Desenvolvimento de atuação comprometida com os processos educacionais e postura coerente com o Regimento Escolar da Instituição e com o Código de Ética do Psicólogo;

Principais demandas:

Educação Infantil e Ensino Fundamental I

  • Dificuldades na adaptação escolar
  • Dificuldades de aprendizagem, de atenção/concentração, no desenvolvimento da oralidade
  • Crianças com agitação acentuada e/ou com dificuldades na aceitação de normas de convívio social
  • Dificuldades no desenvolvimento da autonomia
  • Dificuldades de socialização
  • Situações de casos de crianças com necessidades educacionais especiais (Síndrome de Down, autismo, deficiência auditiva, etc.)
  • Crianças e pais com dificuldade em lidar com mudanças e eventos significativos para o grupo familiar (separação dos pais, alienação parental, adoecimento ou falecimento de entes queridos, mudança de residência, cidade ou país, nascimento do irmão, etc.)
  • Dúvida sobre como lidar com questões especifica do desenvolvimento – lidar com mordidas, retirada das fraldas, primeiro ingresso na escola, introdução da alimentação sólida, divisão dos brinquedos com os colegas no período egocêntrico, postura diante da alfabetização, passagem para novo segmento de ensino, etc.)

Principais desafios:

  • Resistências individuais - A abertura da família para receber a informação de que algo precisa ser trabalhado ou o despojamento para deixar-se trabalhar é um processo delicado, em que as resistências constituem principal obstáculo (questões trazidas pela criança envolvem aspectos, dinâmicas, hábitos familiares); Muitas vezes, as resistências em reconhecer as questões do filho ou do grupo familiar  envolvem mecanismos de defesa judiciais (é muito comum a postura ameaçadora de processar a escola ou de alegar questões do gênero). Também percebem-se  resistência no educador, que precisa reconhecer-se como sujeito além de técnico ou profissional no fazer educativo.
  • Resistências institucionais – Com frequência, queixas de um indivíduo refletem a necessidade de rever práticas e políticas institucionais, o que ocorre dentro de uma dinâmica particular da instituição e dos momentos que esta vai vivenciando. Por vezes, certas questões precisam de tempo, de processos de negociação e reflexão em diferentes instâncias até que medidas apropriadas sejam alcançadas.

Encaminhamentos: recebem encaminhamento das coordenações pedagógicas. Profissionais externos (psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos, psicomotricistas, Terapeutas ocupacionais, professores de reforço escolar, médicos) entram em contato para discutir os casos que acompanham e construir estratégias compartilhadas de trabalho.

Necessidade do psicólogo na área: a presença de um agente mediador sensível aos processos individuais, coletivos e institucionais propicia leituras e intervenções melhor apropriadas e, consequentemente, significativas. Uma medida adotada diante de uma queixa de indisciplina de um aluno, por exemplo, precisa levar em consideração múltiplas dimensões:

a) a história pessoal do sujeito e o papel que aquela postura tem em sua vida

b) o papel da postura diante do grupo em sala de aula (o grupo pode reforçar, valorizar, entender como um desafio, excluir aquele membro, etc.), pois muitas vezes há um processo de retroalimentação e uma pessoa ou um grupo pequeno torna-se “porta-voz” de um processo coletivo subliminar ou não reconhecido como tal.

c) o papel que essa postura tem diante da postura do professor e de sua metodologia (o educador pode responder a esse comportamento de forma rotuladora, sentindo-se desautorizado e resistente, como também pode perceber elementos que estão “por trás” e atuar de modo a minimizar aquele tipo de interpelação. Muitas vezes pode perceber a necessidade de rever sua forma de trabalhar o conteúdo ou sua forma de acessibilidade ao aluno)

d) o papel que essa postura tem diante da politica educacional da instituição (em escolas nas quais a disciplina é construída de forma rígida e repressora, alguns acabam reprimindo conteúdos ou expondo de forma opositora; em escolas nas quais há uma maior possibilidade de construção democrática, essa questão pode vir a ser tema de debate em assembléia para ampliação do regimento e do código de conduta do grupo escolar; em escolas muito liberais ou pouco atentas, essa postura pode não ser percebida ou escamoteada, etc.)

Refletir acerca de uma situação, envolvendo os demais atores (alunos, grupos, professores, famílias, coordenações, direção, etc.) demanda um olhar e uma escuta aberta, sensível e compreensiva para a multiplicidade de atravessamentos que possam constituí-la. Um profissional de psicologia enriquece e amadurece a equipe nesse sentido, ampliando a possibilidade de construir estratégias de ação em uma ou mais dimensões.