A Ausência dos Pais na Vida Escolar das Crianças de Ensino Fundamental

A Ausência dos Pais na Vida Escolar das Crianças de Ensino Fundamental
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Atualmente podemos observar com frequência a ausência dos pais na vida escolar de seus filhos. A tendência sempre, à primeira vista, é de criticar ou até mesmo utilizar a famosa frase: “Comigo isso não aconteceria!”. Na verdade, quando se surge a necessidade de falar sobre algum assunto relacionado à educação de filhos, tendemos a expressar uma falsa praticidade, ou seja, o ato de encontrar culpados é bem mais fácil e interessante do que se procurar compreender as complexidades relacionadas ao assunto.

O mundo capitalista no qual vivemos tem estimulado e consequentemente influenciado diretamente nas relações familiares. A necessidade de se obter o melhor para a família, a troca de valores baseada, construída em torno de uma visão capitalista, infelizmente sugere que “coisas são mais importantes do que pessoas”. Daí a situação frequente onde pais tentam compensar o tempo não gasto com seus filhos através de presentes, passeios etc. Enquanto sabemos muito bem que tudo isso nunca substituirá sua presença que gradativamente vai se tornando rara.

A visão que os pais desenvolvem da escola, também deixa claro sua escala de valores, ou seja, a escola muitas vezes não passa de uma empresa disfarçada ou fantasiada de creche e isto está diariamente tornando-se comum. Os filhos são lançados na escola e muitas vezes esquecidos por um transporte escolar que chega com algum tempo de atraso quase todos os dias. Por essas e outras razões, todos os dias são percebidas e diagnosticadas várias dificuldades de aprendizagem em crianças aparentemente saudáveis e normais.

Este artigo pretende mostrar a importância que devemos dar e tratar deste problema que é a ausência dos pais na vida escolar de seus filhos, alunos do ensino fundamental. Este artigo foi organizado a partir de uma pesquisa bibliográfica e tivemos suporte teórico de autores como Rolando O. Benenzon (1987), George Guilder (1996), Gérard Guillot (2008), Isabel Parolin (2002), Alícia Fernandes e outros.

Percebendo tal problemática, ou seja, a ausência dos pais, é que nos sentimos motivados a realizar uma pesquisa voltada para essa necessidade. Este artigo está organizado de forma sistemática em que relacionamos o assunto em destaque (A Ausência dos Pais na Vida Escolar das Crianças de Ensino Fundamental) com as questões ligadas à aprendizagem. É de vital importância abordar tal assunto, já que ele é tão presente em nossos dias.

1. Os Companheiros das Crianças e Substitutos dos Pais

Encontramos inseridos na rotina dos filhos, alguns substitutos dos pais, ou seja, substitutos da presença materna e paterna.  A criança desamparada pelo pai e pela mãe procura parentes, empregados, vizinhos e amigos para interagir. Algumas vezes consegue compartilhar sua vida em outra esfera social, mas muitas vezes, vítima da negligência dos pais, cresce sem amparo e sem atenção. O uso de drogas ou álcool, o comportamento violento ou a prostituição são formas encontradas pelos adolescentes negligenciados para reagir ao sofrimento causado por essa rejeição (GOMIDE, 2005, p. 74).

Isso ocorre porque a necessidade de amparo, cuidado e atenção que as crianças trazem consigo muitas vezes não demonstra tão abertamente o que realmente elas sentem, ou seja, mascaram tais sentimentos por causa do comportamento dos pais deste século. Já que isso tem se tornado tão comum, resolvemos destacar alguns substitutos a seguir descritos:

1.1 Vídeo-game

Os jogos de vídeo-game têm sido, sem dúvida nenhuma, um dos escapes e companhia das crianças e adolescentes. O problema é que, se por um lado, as crianças conseguem se manter concentradas nos jogos, por outro elas vão supervalorizando-os e, gradativamente, essa atividade vai ganhando tempo e espaço em suas vidas. Outra dificuldade é que o lado tendencioso dos jogos revela-se cada vez mais nocivo, mostrando a violência e influenciando as crianças e adolescentes a essa postura absolutamente destrutiva, à perda de limites, à rebeldia e outros comportamentos que vão de encontro aos verdadeiros valores que deveriam nortear nossa sociedade.

Hoje em dia, diversas pessoas têm gasto boa parte de seu dia e de sua noite na frente de computadores ou de televisores, desejando alcançar o próximo nível de seus jogos. Sabemos que quando trocamos o dia pela noite, nossa produção sofre uma perda muito grande, uma vez que o cansaço baixa sobremodo nosso rendimento. Quando vamos adquirir novos conhecimentos se a nossa mente demonstra sinais de esgotamento físico e nervoso? Ora, se uma criança vai à escola com sono, a aprendizagem certamente será comprometida, pois onde ela encontrará disposição para aprender?

A noção de tempo é também um fator a ser observado. Atualmente, milhares de crianças utilizam a Internet para jogar e ou baixar jogos e ficam horas e horas na frente do computador brincando. O fato de brincar, de usar jogos como entretenimento é algo positivo, considerando-se alguns tipos de programas. Entretanto, o problema é quando as pessoas começam a perder a noção de tempo, trocando o dia pela noite e vice-versa, deixando de lado as atividades, responsabilidades, afazeres e permanecendo um bom tempo na internet, no Orkut etc. Os resultados são visíveis como crianças sonolentas em sala de aula, agressivas sem motivos aparentes, senhoras de si e de seus horários.

1.2 A Televisão

A televisão já conseguiu invadir a vida das pessoas sem nenhuma sutileza. Basta observarmos a maneira como fica exposta na sala ou no quarto. A disposição dos móveis é feita em torno do aparelho, como se fossem adoradores prestando culto a um poderoso deus. É claro, não podemos negar que a televisão é uma forma de entretenimento muito interessante. O problema é que tal instrumento possui a capacidade de influenciar e atrair inadvertidamente o público infanto-juvenil. Se observarmos com atenção, perceberemos que a mídia consegue interferir no estilo de vida das pessoas como moda, costumes, valores etc.

Poucas pessoas conseguiam imaginar que, em mais ou menos uma década, a televisão se tornaria uma força peremptória na cultura norte-americana, definindo as notícias, remodelando a política, reorientando a vida familiar e refazendo as expectativas culturais de várias gerações de norte-americanos. Ninguém previu que, em algumas décadas, 98% dos domicílios norte-americanos possuiriam um aparelho de televisão, ultrapassando o nível de posse de telefones em cinco pontos percentuais, e por uma margem bem maior nos lares dos pobres (GILDER, 1996, p. 30).

O referido eletrodoméstico tem se tornado mais do que um companheiro: um assustador número de pessoas organizam suas vidas a partir de sua programação. Isso não é diferente com as crianças e adolescentes. Podemos constatar facilmente isso através de um simples corte de cabelo, um modelo de roupa, uma marca de tênis, expressões utilizadas por famosos etc. Além de tudo, vemos valores morais básicos sendo totalmente deturpados: a ideia do bandido e do mocinho, por exemplo, é algo que tem sido distorcido com frequência nos filmes de Hollywood. Um bandido que se torna mocinho, mas que continua matando, roubando etc. A imagem de educadores sendo ridicularizados e estigmatizados nos programas e filmes para o público “teen” também é um fator a se considerar. Tais situações exibidas têm gerado questionamentos interiores como: para que estudar, se posso ter facilidades e vantagens de maneiras imediatistas?.

Além disso, temos outra agravante: a exibição e exposições dos menores ao sexo e outras apologias afins. A visão distorcida de liberdade é algo que também é presente nos dias de hoje quando é transmitida para o público adolescente através de telenovelas a falsa necessidade de fugir, sair de casa para conquistar um espaço onde se possa fazer de tudo sem ter que dar satisfações a ninguém.

As famílias desconhecem os efeitos nocivos que filmes e programas violentos podem causar para o desenvolvimento de seus filhos. Pesquisas dos últimos trinta anos são contundentes em demonstrar que as crianças e os adolescentes que assistem a muitos filmes violentos apresentam mais comportamentos agressivos que aqueles que veem poucos ou não assistem a programas violentos. Esse efeito da violência na televisão é muito mais acentuado em crianças que são negligenciadas e deixadas aos cuidados da “babá televisão”. Isso ocorre porque as mães permitem que outros personagens ocupem o seu lugar fornecendo modelos e valores a seus filhos, muitos deles, contrários aos seus desejos (GOMIDE, 2005, P. 80-82).

1.3 O Computador

Do senso de praticidade e da criatividade humana surgiu o computador, que também veio popularizar-se, tornando-se um meio poderoso de comunicação quando especificamente utilizamos a internet e acessamos o Orkut, o MSN, criamos um blog, um twitter etc. Torna-se muito fácil nos dias de hoje conhecer pessoas e comunicar-se com elas através da internet. Esse instrumento poderoso não é somente utilizado para conversar com pessoas, mas também para pesquisar, estudar etc. Fukuyama relata que a internet serve para que milhões de pessoas separadas por milhares de quilômetros conversem horas a fio teclando suas frases nos computadores a pagando o preço de uma ligação telefônica local. Serve para consultar um livro ou um documento em 200 bibliotecas que podem ser acessadas à distância 24 horas por dia. É a verdadeira “aldeia global”. “A internet permite ao usuário invadir bibliotecas do mundo inteiro, visitar o Louvre e ver seus quadros ou reservar uma passagem no próximo voo para qualquer país. Pela internet, fala-se com o mundo.” (FUKUYAMA apud OLIVEIRA, 2001, p.46).

Torna-se um grande problema quando achamos que conhecemos as pessoas e as pessoas nos conhecem, ou seja, hoje em dia é muito comum as pessoas assumirem uma falsa identidade, usando um nome falso, expondo uma fotografia de outra pessoa, dados irreais com a finalidade de se beneficiarem de alguma forma. Os jornais, revistas e telejornais noticiam com frequência pessoas que foram enganadas, usurpadas por redes de prostituição, pedofilia, e ladrões virtuais. Um instrumento que é utilizado para a aquisição de cultura, conhecimento e lazer também tem sido usado de forma nociva.

Segundo Alessandro Vieira dos Reis, analista de comportamento e game designer, o psicólogo da internet, Joseph Licklider, tinha como objetivo ou utopia, fazer uso da ARPAnet (um programa inovador do departamento de defesa dos EUA) para criar uma rede de comunicação que democratizasse o saber visando trocas, como o mútuo aprendizado de seus membros. Sua tese seria a de que pessoas conectadas poderiam instruir-se umas às outras à distância, criando assim o primórdio das atuais comunidades virtuais. Com sua popularização, ocorrida por volta de 1995, a internet saiu dos laboratórios universitários e adentrou empresas e lares. Para ser mais preciso, invadiu o cotidiano de milhões de pessoas no mundo (REIS, 2009, p. 31).

Algumas propagandas enganosas, mas atraentes, podem levar contaminação do computador por vírus eletrônicos os quais têm o poder de apagar seus arquivos e outras áreas. Pedidos de dados para criação de e-mails, blogs, orkuts etc devem ser encarados com muito cuidado.

1.4 Os Professores

Sabemos que as crianças permanecem uma boa parte de seu dia na escola, em alguns casos, permanecem o dia todo, retornando somente à tarde e em outros casos só nos finais de semana. Muitas dessas crianças por sentirem a ausência dos pais, tornam-se carentes e geralmente identificam-se afetivamente com seus professores, chegando a chamá-los de pai e mãe. Tais vínculos são positivos até certo ponto, pois se crê que isso auxilia no processo de ensino e aprendizagem da criança, mas por outro lado um professor não é o pai do aluno, ele não pode tomar para si a responsabilidade no aspecto integral e legal da situação. O fato é que muitos pais têm confundido as responsabilidades do professor no que diz respeito a seus filhos. A falta de reconhecimento de seus próprios deveres como pais, os tem levado a prejuízos incalculáveis, desde o desejo das crianças de chamarem a atenção para si por meio de várias idas à direção da escola até expressões de agressividade física e ou verbal. E a aprendizagem?

Essa torna-se comprometida, queimando etapas primordiais no processo de aquisição de conhecimentos-chave para o desenvolvimento da criança como um todo.

Alguns professores que trabalham com crianças “esquecidas” pelos pais, já ouviram muitos de seus alunos a sutil proposta de serem adotados, de os levarem para casa etc. É muito interessante observar a postura dessas crianças que “gritam em seus corações” por presença paterna e por incrível que pareça isso atrapalha o processo de ensino-aprendizagem.

Os professores de certa forma não são preparados em sua formação para lidar com alguns problemas típicos da rotina de educador. Muitos desses professores se queixam de uma formação que não está voltada para a realidade do dia-a-dia escolar. “Sem critérios bem definidos para a implementação dos programas acabam sendo oferecidos, a título de formação continuada, cursos de curta duração, palestras e seminários que não têm o poder de acompanhar a evolução do professor nem de mudar a forma como ele trabalha.” (MARTINS, 2008, p. 54-61).

1.5 Os Amigos em Comum

Os grupos sociais são formados na verdade por causa de interesses afins, ou seja, uma visão em comum, os mesmos objetivos etc. No caso das crianças não é diferente e por haver essa identificação com os outros da mesma faixa etária ou um pouco mais velhos, surgem também as influências por parte daqueles que são considerados os ”problemáticos” e se os pais ou responsáveis não perceberem a tempo, a aprendizagem do indivíduo torna-se comprometida. É comum observarmos em sala de aula que às vezes um aluno consegue influenciar todos os outros e, geralmente, para pior. Ao contrário do que se pensa, criança tem muito assunto para falar com os colegas, é só parar perto de dois ou mais garotos da mesma idade ou de idades aproximadas e pode-se notar logo os gostos semelhantes. Por incrível que pareça, em alguns casos, tais relações prejudicam o desenvolvimento do aluno, implicando em dificuldades em suas relações interpessoais.

Outra situação importante dentro da perspectiva das influências por parte dos amigos em comum é o contato com bebidas, drogas etc. algo a se refletir é como está a auto-estima de nossas crianças. Uma criança com baixa auto-estima pode ser uma presa fácil para aqueles que possuem grande tendência a manipular. “Quem tem uma boa auto-estima vai ser capaz de dizer não, porque não teme perder o apoio do grupo”, avalia Tania Zagury, educadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, especializada em adolescentes. Mas se a criança for insegura, não vai resistir ao primeiro ‘filhinho da mamãe’, acaba cedendo (ZAGURY apud VEIGA, 2000, p.71)

Segundo Veiga (2000), os estudos que avaliam a importância da auto-estima no bom desenvolvimento das crianças proliferam nos países desenvolvidos, onde os problemas básicos já foram resolvidos e é possível se concentrar nas angústias da alma. Ela ainda relata que no começo do ano 2000, pesquisadores da Universidade Harvard concluíram que, na dolorosa seara da anorexia e da bulimia, os distúrbios alimentares mais graves, a baixa auto-estima é um requisito essencial para a evolução da doença: toda menina obcecada em emagrecer age assim porque não se acha bonita e, se não é bonita, não vai conseguir arranjar amigos (VEIGA, 2000, p.71).

É bem verdade que, além dos amigos em comum, temos aqueles nos quais nos espelhamos como é o caso de atores, cantores e pessoas do meio artístico em geral. Atualmente, a mídia exerce grande influência na vida das crianças e adolescentes e por que não dizer sobre as pessoas de um modo geral? Isso tem gerado um padrão muito elevado de beleza, ou seja, um padrão em que muitos não podem se encaixar.

1.6 As Atividades Extra-escolares

Atualmente, vivemos situações constantes de disputas no que concerne ao mercado de trabalho. As pessoas têm sacrificado seu tempo de descanso, de estar com a família ou até mesmo de lazer para estudar, se especializar. Por um lado isto é ótimo para suas vidas profissionais, mas por outro, perdem os momentos cruciais de estarem com seus filhos, os quais sentem a reclamam a ausência dos pais. Os pais, por outro lado, tentam compensar essa ausência de algumas formas, dentre elas, está o desejo de seus filhos serem bons profissionais, mas eles não percebem que, de certa forma, ao introduzirem na rotina de suas crianças várias atividades extra-escolares como balé, karatê, judô, capoeira, natação, línguas etc. podem estar sobrecarregando seus filhos e colhendo frutos amargos.

O desejo de alcançarem o melhor para os filhos e de prepará-los para a obtenção de uma vida financeira estável não os tem preparado para a vida em si. Consequentemente, vemos hoje crianças e adolescentes dormindo em sala de aula, estressados, hipersensíveis também pelo excesso de atividades extra-escolares.

Para o aspecto cognitivo, ou seja, no que diz respeito à aprendizagem, o baixo rendimento é uma possibilidade a ser considerada. “sob o ponto de vista behaviorista, a pedagogia entende o aprendiz não como uma máquina de acúmulo de conhecimentos, mas um indivíduo único e modificado para o resto da vida” (SKINNER apud REIS, 2009, p. 37).

A ideia de que as crianças brincam e que devemos deixá-las brincar até se cansarem e depois elas dormirão, ainda permanece impregnada na sociedade de forma bem sutil. Logo, quanto mais atividades a criança tiver para realizar durante o dia, menos “trabalho” dará a seus pais, pois quando chegar a sua casa, irá descansar. É claro que no meio de toda essa discussão existem pais esclarecidos e criativos que mesmo com todas as responsabilidades e correrias encontram soluções para estarem mais presentes na vida de seus filhos. Por outro lado, a Agência de Notícia de Jornalismo Científico diz que as crianças que não brincam sofrem de falhas nas capacidades de interação social e valorização da auto-estima (PROGRAMADOS, 2009).

1.7 Os Avós

A cada dia que passa, torna-se mais complicado contratar alguém para tomar conta das crianças, uma babá por exemplo. A onda de perigo está alta. Pessoas violentas e desestruturadas emocionalmente e psiquicamente, estão se candidatando para cuidar de nossas crianças. Muitos pais, percebendo esse perigo, valem-se dos avôs, ou seja, de seus próprios pais para desempenharem tal função. Segundo Guillot (2008, p. 88), em 2020 os avós representarão 40% da população (17 milhões) e em 2040 serão 21,5 milhões. Outra situação real e corriqueira é que alguns, por carregarem suas dificuldades interiores como ansiedade, carência etc. acabam queimando etapas de suas vidas e de repente encontram-se em tenra idade e com filhos para cuidar, vendo a grande problemática em que se meteram, correm e pedem socorro para seus pais. Daí a intervenção dos avós que, cheios de boa intenção, pensando estar contribuindo para uma boa formação de seus netos e no geral desencadeiam atitudes de mimo e superproteção que deixam marcas e uma má formação na personalidade da criança que em contrapartida torna-se um adulto cheio de dificuldades, sejam elas de ordem emocional, psíquica etc.

Infelizmente, vemos numerosas histórias iguais ou muito parecidas onde muitas crianças problemáticas, rebeldes e desinteressadas pelos estudos, sem postura alguma para aprender, para viver uma vida escolar plena, crianças perdidas dentro de si mesmas, onde suas escalas de valores estão totalmente invertidas, a um passo da marginalidade. O costume de pedir à mãe para ficar com o bebê ou as crianças menores enquanto vai ao centro, está vivo até nos dias de hoje. É certo que a necessidade existe, mas muitas necessidades transformam-se em hábitos. Os avós também precisam de descanso, mas infelizmente muitos filhos e filhas não percebem que a privacidade ensinada por seus avós, funciona também para seus pais e passam a semana entregando seus filhos a eles e nos finais de semana estão todos novamente na casa de seus pais. Alguns avós até gostam, no entanto com o passar do tempo, sentem-se cansados e sem condições para continuarem a cuidar de seus netos. Muitas famílias desestruturadas vivem em torno de seus patriarcas e matriarcas e vivem dependentes não somente no aspecto emocional, mas também financeiro.

As relações também são desordenadas e é muito fácil ver os netos chamarem seus avós de “Pai” e “Mãe” e não somente isso, mas vivenciando toda uma relação, um vínculo afetivo paternal. Na cabeça de uma criança, o relacionamento em que se misturam as funções de pais e avós pode desencadear uma confusão muito grande com consequências marcantes para toda sua vida.

As novas famílias, os novos padrões, os novos modelos familiares são reais e complexos e quanto mais complexos, mais surgem dificuldades por parte das crianças no que diz respeito à divisão mental dos papéis familiares, isso interfere diretamente na aprendizagem, na aquisição de novos valores. O fato é que quanto mais simples as relações, as divisões de tarefas, de responsabilidades parentais mais probabilidade de saúde emocional, psíquica, equilíbrio da autonomia pessoal.

1.8 As Domésticas

Outra situação é a questão da contratação de domésticas, babás, serviçais etc. Infelizmente, os pais passam a maior parte do tempo fora de seus lares e as crianças quando, não estão na escola, estão em casa, é claro. A pergunta é: O que essas crianças farão sozinhas em casa? Daí a necessidade de se contratar domésticas. Tais mulheres acabam não somente realizando tarefas do lar, mas também cuidando das crianças que, por outro lado, desenvolvem vínculos afetivos com essas mulheres.

Por outro lado, alguns têm uma opinião diferenciada e dizem que a relação entre pais e babá é diferente de qualquer outra que envolve patrão e empregado. Babás veem os patrões de roupão, ensinam os filhos a comer, estão presentes em todas as festas de família. No entanto, são apenas relativamente distantes da família, sem vínculos afetivos. Assim, esse é uma convivência em que o emocional e o profissional se misturam a todo momento (AS BABÁS, 2010).

Nas telenovelas que têm como contexto histórico a época da escravatura, é comum observar as crianças e moças brancas chamarem suas serviçais de “Bá”, ou seja, as mulheres que cuidavam como se fossem mães dessas pessoas. Atualmente, é muito raro encontrar domésticas que inspirem confiança, pessoas que já estão morando por algumas gerações com famílias. A construção de vínculos é progressiva e profunda. A grande problemática é que geralmente essas pessoas tão queridas, são desprovidas de conhecimentos pedagógicos necessários para acompanhar essas crianças. Se possuem, durante algum tempo conseguem acompanhar as crianças nas tarefas de casa, mas quando essas crianças passam para séries mais avançadas, falta-lhes o suporte necessário por causa da formação limitada de alguns.

1.9 Crianças que Cuidam de Crianças

A necessidade de prover o alimento e as demais coisas do lar é que trouxe, por parte dos pais, o desejo de estarem inseridos no mercado de trabalho e em alguns casos, os pais precisam deixar as crianças com alguém, no caso de haver um adulto com quem possam contar. Se não houver, deixam com o filho mais velho que não é tão velho assim, ou seja, não passa de mais uma criança que assume as responsabilidades de um adulto.

Uma grande porcentagem de acidentes domésticos ocorre com crianças no próprio lar, pois os cuidadores assumem a tarefa de preparar os alimentos, limpar a cozinha, cuidar das crianças, fazer as compras. E quando essas responsabilidades são impostas às crianças? Esse é um ponto digno de constante reflexão por parte de todos. Será que uma criança possui estrutura suficiente para cuidar de si mesma e de outras crianças? Cremos que a visão de responsabilidade de uma criança é bem diferenciada da visão de um adulto. Por exemplo: sua necessidade de brincar é algo permanente e com ela sua escala de valores. Por outro lado, existem aqueles que declaram que as crianças conseguem se adaptar bem à ausência dos pais, os quais precisam trabalhar fora para manter financeiramente suas famílias.

Segundo Veiga (1999), as crianças têm outra visão do assunto. De acordo com ela, as crianças aceitam que seus pais estejam fora de casa desde que mostrem e provem que, estejam onde estiverem, permaneçam sempre sintonizados com os pimpolhos e desde que no fim do mês ponham um bom dinheiro em casa. Tais informações são fonte de uma pesquisa realizada no mesmo ano nos Estados Unidos com mais de 1000 crianças e adolescentes entre 7 e 18 anos. O estudo foi feito pela educadora Ellen Galisnky.

Um fato comum que ocorre é se o casal possui mais de um filho e resolve deixá-los só em casa, o mais velho toma conta do mais novo, assumindo algumas tarefas que exigem o contato com coisas que apresentam certo grau de perigo. O filho mais velho encontra-se numa situação em que requer dele mais do que geralmente pode oferecer. Vê-se, invariavelmente, tendo de tomar decisões que caberiam somente a adultos.

2. Os Porquês da Ausência

Muitas são as razões da ausência dos pais na vida escolar dos filhos. Sabemos que alguns pais não possuem menor tato com as crianças, externando assim a falta de preparo emocional, intelectual e de outras ordens afim. O fato é que a dificuldade é palpável e latente. Bem sabemos que muitos pontos referentes à ausência dos pais estão diretamente vinculados às relações familiares.

Tentaremos explanar algumas razões dessa ausência. Destacaremos aquelas que estão diretamente relacionadas às dificuldades de aprendizagem apresentadas pelas crianças do Ensino Fundamental.

Segundo Pichon, a família é a estrutura social básica de um sujeito. Daí a importância que a escola tem dado à família de seus alunos e os terapeutas à família de seus alunos e aprendizagem. (RIVÈRE apud PAROLIN, 2002).

2.1 A Visão Pessoal da Educação

Sabemos que muitos pais não vivenciaram uma boa história com a educação. Alguns tiveram que abandonar a escola por um período de suas vidas porque seus pais acharam que eles deveriam ajudar na lavoura ou em outros afazeres que ajudariam na complementação da renda familiar. Outro contexto pode ser porque suas famílias eram humildes, financeiramente falando, e eles tiveram que trabalhar durante o dia e estudar à noite. Tal situação é bastante desgastante e é necessária muita força de vontade para continuar mantendo esse ritmo e muitos tiveram que fazer suas próprias escolhas, sendo que uma grande maioria optou pelo trabalho, pararam de estudar, não podendo mais preparar-se para melhores oportunidades.

Nos dias de hoje a problemática da “Evasão Escolar” continua. O abandono dos estudos, salas de aula quase vazias é um fato muito presente no nosso país Os anos se passaram e as pessoas que deixaram os estudos pela metade são também muitos dos pais de hoje. É bem verdade que o exemplo é maior do que palavras e no caso de estimular os filhos nos estudos, nem se fala. Se uma criança percebe que seus pais, por algum motivo não estudam, não leem um livro, uma revista, um jornal etc. não irá se sentir estimulada a permanecer numa sala de aula durante quatro ou quase cinco horas durante 200 dias letivos, por vários anos de sua vida.

O problema é que a visão distorcida da Educação é reproduzida na vida das crianças, adolescentes e jovens que constituem as novas gerações. Não há como cobrar posturas diferentes dos filhos em relação à aprendizagem de conteúdos, notas acima da média, comportamento excelente se só estamos cobrando, depreciando e nunca acompanhando e elogiando os avanços ainda que pareçam pequenos.

Se não atentarmos para os mecanismos de distração que a sociedade vigente está oferecendo para nossas crianças, iremos perdê-las gradativamente para um mundo imaginário onde o desejo de facilidade é algo presente e real e onde o errado é o certo, o mentiroso é o verdadeiro e o criminoso é o herói.

O fato é que se faz necessário uma reeducação dos pais para que eles possam estar mais presentes na vida escolar de seus filhos de forma equilibrada e que expressem um verdadeiro cuidado.

2.2 A Visão Decadente da Educação

Nos primórdios, a educação era vista com outros olhos, ou seja, bastante elitista. Os nobres investiam em seus filhos, os quais eram enviados para outros países para que se formassem em universidades de renome na Europa. Somente os filhos dos nobres poderiam dar continuidade aos estudos

Os tempos passaram e com eles, houve uma democratização do conhecimento. A educação tornou-se acessível a todos e um grande problema surge com tal acessibilidade. Isto é, a perda da qualidade do ensino nas escolas públicas. Daí, surge também a popularização das instituições de ensino particular. Essas instituições ganham um perfil de empresas onde os papéis organizacionais são bem definidos: Empregador, Empregado e Clientes, ou melhor dizendo, Diretor, Professor e Pais de alunos em que aos professores é transmitida as responsabilidades dos pais por parte dos próprios pais.

O acúmulo de responsabilidades e a criação de mais tarefas para o professor realizar gerou imediata falta de estímulo, de prazer em realizar um bom trabalho. Salas superlotadas, provas para elaborar e corrigir em curto espaço de tempo, diários de classe, organização de projetos e apresentações teatrais para ensaiar, sábados pedagógicos e inúmeras atividades extras que surgem no dia-a-dia do professor. Além de tudo, a falta de estímulo o faz repensar sua permanência no campo da educação.

A questão da falta de estímulo e desvalorização dos professores é algo sério e que pesa muito na queda da qualidade do ensino no Brasil. Uma reportagem realizada por Ana Rita Martins, Beatriz Santomauro e Rodrigo Ratier da Revista Nova Escola compara a valorização de Educadores brasileiros com educadores finlandeses, japoneses e coreanos e relata o investimento que o governo desses países realiza na formação continuada desses profissionais além de vários estímulos financeiros e morais (MARTINS, 2008, p. 58 – 61).

2.3 A Postura dos Pais Perante a Escola

Infelizmente, nos dias de hoje, muitos pais não têm compreendido quais são suas responsabilidades como pais presentes. Muitos têm visto a escola como um lugar onde vão para cobrar posturas do diretor, coordenadores e professores. Os deveres como pais não são tão importantes para aqueles que possuem tal visão. Isso tem gerado pessoas exigentes, imediatistas, mas ao mesmo tempo ausentes. O sentido de presença vem sendo distorcido através dos tempos. Na verdade, a presença possui uma amplidão maior em seu sentido e contextos. Estar presente não é somente suprir as necessidades financeiras ou fisiológicas de uma criança, mas também expressar o cuidado, o diálogo em construção e manutenção de vínculos. Enquanto inconscientemente procuramos achar culpados para as dificuldades emergentes no que se refere ao desenvolvimento da criança bem como sua aprendizagem escolar, não chegaremos a lugar algum, ou seja, continuaremos num ciclo vicioso de apontar culpados e nunca soluções.

Precisamos compreender que devemos parar de ver a escola como uma creche e os professores de nossas crianças como babás. Necessitamos enxergar a escola sobre novos prismas. É mister compreender que os verdadeiros professores não são e jamais serão inimigos de nossos filhos e sim que eles querem o melhor para nossas crianças. Como poderemos gerar o prazer de estudar em nossas crianças, se estamos tão preocupados em achar culpados ou nos esconder atrás de bodes expiatórios?

2.4 Os Tempos São Outros

É importante ressaltar a condição da educação burguesa do Século XVIII para podermos entender as mudanças pelas quais a educação tem passado até os dias de hoje. Devemos observar como o conceito de autoridade tem sofrido transformações com o passar do tempo.

O tempo, aquele da história, era autoridade. A palavra dos antigos era uma referência (ainda é o caso em algumas civilizações). Em nossas democracias ocidentais, os antigos, ou se tornaram “velhos”, ou buscam o rejuvenescimento. O tempo era a ordem que fazia da anterioridade um critério de autoridade. Desde a época feudal e a da realeza, a transmissão dos títulos e dos bens obedecia a essa lógica e, entre os sucessores, era dada prioridade ao filho mais velho (GUILLOT, 2008, p. 83-84).

Até o final do século XVIII, como vimos, a escola era um privilégio dos nobres, do clero e dos burgueses ricos. Lavradores, operários e pobres em geral não tinham acesso à educação escolar. A escola que educava os filhos dos nobres e os futuros membros do clero era uma escola voltada para o passado, para a conservação da ordem vigente, que fornecia privilégios às classes dominantes.

Na verdade, depois de algum tempo, através de reivindicações é que o povo conseguiu acesso a uma educação supostamente pautada nos princípios de igualdade. De certa forma, a distância que havia entre os menos favorecidos ao conhecimento e à informação diminuiu significativamente.

A invenção e a inclusão da TV, do computador e outros aparelhos tiveram seu poder de influência na educação formal dos nossos dias. Muitas vezes os livros têm sido substituídos por sites, comunidades, orkuts, MNS, jogos de computador. O grande desafio dos educadores gira em torno do questionamento de como tornar a educação atraente, como incluir esses instrumentos tecnológicos em aulas consideradas entediantes pelos alunos. E com relação aos pais que geralmente sentem-se impotentes diante de crianças que permanecem por horas na frente de computadores, trocando seus horários, sua rotina por horas na internet.

Um ponto crucial a se pensar é a questão da construção de limites que se deve iniciar na tenra infância, pois há uma maior facilidade em se trabalhar limites e valores afins nesta fase. Cada dia que adiamos esse importante passo da educação, mais dificuldades teremos na tentativa de se resgatar esses limites com o passar dos anos. A educação formal fluirá somente a partir do momento em que os pais, escola e alunos realizarem sua “tarefa de casa”.

2.5 A Educação Informal e Seus Reflexos Na Aprendizagem Formal

Partindo do pressuposto que a aprendizagem estabelece um par dialético entre o desejo e o não desejo de aprender e que o desejo de aprender está intimamente relacionado com o tipo de interação que a criança estabeleceu e continua estabelecendo com sua família, percebe-se que o conhecimento da família do aprendiz e sua modalidade de aprendizagem são muito importantes para o trabalho educacional (FERNANDEZ apud PAROLIN, 2002, p.37).

Para muitos estudiosos, cientistas e pais “o costume de casa vai à praça”.  Na verdade, esta frase popular tem fundamento quando falamos sobre educação informal. É perceptível uma criança que é acompanhada em casa, possua uma postura equilibrada e saudável em sala de aula. Sua interatividade com o professor é algo visível. Por outro lado, quando não há uma base familiar no que diz respeito a limites e valores, os educadores logo percebem também.

A grande questão é que atualmente o número de crianças, adolescentes e adultos com baixo rendimento escolar, indisciplinados e rebeldes parecem bem maior que o de costume. De acordo com Isabel Parolin, Psicopedagoga e Mestra em Psicologia da Educação é a família que dará noções de poder, autoridade, hierarquia, funções que têm diferentes níveis de poder e onde aprendem habilidades diversas como adaptar-se às diferentes circunstâncias, a flexibilizar, a negociar, enfim, desenvolver o pertencimento da criança ao seu núcleo familiar. À medida que a criança vive em família e se submete aos seus rituais, processo e desenvolvimento, ela vai se individualizando, diferenciando-se em seu sistema familiar. Quanto mais as fronteiras entre os membros da família estiverem nítidas, mais possibilidade de individualizar-se a criança terá (PAROLIN, 2002, p.37).

O fato é que há uma grande facilidade para as crianças e os professores em sala de aula quando se percebe a presença saudável dos pais na vida escolar dos filhos. Há um maior rendimento de ambas as partes. Isso se dá quando a criança possui bons modelos de conduta dentro de casa, pois a criança observa as ações dos adultos para depois imitá-los. Segundo Gomide (2005, p. 79), quando dizemos “tal pai tal filho”, estamos nos referindo a uma forma de aprendizagem, a de aprender segundo o modelo. Os filhos copiam o modelo fornecido por seus pais porque gostam deles e os admiram. Esse processo acontece mediante a observação. Essa atitude de observar a postura dos pais diante de várias situações é que fará a diferença na postura da criança perante sua rotina, inclusive sua rotina escolar.

2.6 Severidade ou Diálogo

Segundo Gomide (2005, p.34), a maioria das pessoas reconhece que crianças espancadas serão adultos problemáticos. As pesquisas mostram que 95% dos adolescentes infratores foram espancados na infância. Seus pais ou padrastos usaram de ferramentas ou objetos para bater, provocando sérias lesões em seu corpo, além de usarem o espancamento como meio mais frequente para “corrigir” os maus comportamentos. Os pais pensam que ensinaram à criança, por meio da surra, pois, naquele momento, apenas naquele momento, o comportamento cessa.

No entanto, os estudiosos da punição já demonstraram, a partir de pesquisas, que o comportamento reprimido reaparece assim que a criança estiver fora do alcance dos pais ou daquele que a puniu. A punição, geralmente, só é capaz de controlar o mau comportamento diante daquele que pune. A criança não aprende que não é para fazer alguma coisa; aprende que não é para fazer tal coisa diante dos pais. Longe deles ela continuará fazendo. E quando não mais tiver medo dos pais, irá enfrentá-los ou fugir de casa.

É bem verdade que a severidade é provocada pela frustração dos pais não receberem retorno de filhos, seja no desempenho escolar ou referente a outras situações da vida da criança. Geralmente, a severidade é adotada como a primeira reação a ser tomada pelos pais. O diálogo em geral toma o último lugar quando se recebe o boletim recheado de notas baixas do filho. Quando se há o hábito de dialogar, se o diálogo é algo que parte da visão de alguns pais e é possível perceber a dificuldade momentânea ou permanente (se tratando de dificuldades de aprendizagem diagnosticadas) e outros problemas. A severidade possui muitas faces e uma das mais frequentes é o questionamento relacionado aos conteúdos propostos durante o ano letivo. É correta a atitude dos pais em se preocuparem com os conteúdos dados em sala de aula? Se tais conteúdos estão em dia? Sim, é correto. O que não é certo é uma preocupação exagerada se os conteúdos estão sendo ministrados à risca, pois é bem verdade que o dia-dia de um professor não é feito só de conteúdos, mas algumas vezes ele precisa parar e conversar com a turma. Afinal, educação formal e informal andam juntos em vários âmbitos sociais.

Além do mais, existem outras tarefas que fazem parte da rotina de um professor, como planos de aulas, ou seja, como os educadores irão transmitir determinado conteúdo, diários de classe os quais precisam estar devidamente preenchidos, correção de provas com prazos curtos para entrega. Sem contar que às vezes os professores precisam voltar em alguns assuntos que a turma não compreendeu muito bem. Portanto, a severidade não é estendida somente para os alunos, mas para os professores também.

Geralmente a severidade vem com o desejo e a boa vontade dos pais que se auto-projeta nos filhos e anseiam que seus sonhos profissionais sejam realizados por seus eles. O discurso dos pais é o mesmo, somente muda de família: eles querem que seus filhos tenham uma boa formação e consequentemente uma boa profissão para que os filhos não vivenciem o sofrimento vivido por eles.

É importante considerar as facilidades, ofertas e convites à rebelião que as crianças são expostas diariamente e a solução apresentada pelo diálogo. Assim, as crianças não sofrerão com as influências que as cercam por todos os lados.

O diálogo é um meio de fortalecer e manter os vínculos já existentes com os filhos. Sem o diálogo, os pais em sua boa intenção de corrigir seus filhos correm um grande risco de serem trocados pelos “amigos” do filho.

Outra face da severidade é a agressão física por parte dos pais. É bem sabido que muitos perdem o controle em momentos de estresse e castigam fisicamente seus filhos. O pediatra Lauro Monteiro defende que é necessário impor limites, mas sem violência. Ele diz ainda que o castigo deve ser aplicado quando o filho age de forma errada, mas não pode ser físico. A criança deve refletir sobre o que fez e a punição tem de ser proporcional à falta. Também é importante que seja aplicada assim que o erro é cometido a fim de que fique claro o motivo da advertência. Para o pediatra, a idéia de que bater é um meio de ensinar os filhos a respeitar limites é equivocada e ajuda a perpetuar uma cultura de violência.

O diálogo continua sendo a primeira atitude a ser tomada e previne muitas situações de conflito e estresse em nossas famílias e nos ajuda a conservar a unidade no seio familiar. Segundo os autores do livro “Pais e Mães Emocionalmente Inteligentes”, a compreensão dos pontos de vista dos outros nos dá acesso ao que eles devem estar pensando, ao modo pelo qual eles encaram e definem uma situação, ao que eles planejam fazer. Essa compreensão, é claro, se desenvolve com o tempo. Depende do nível de crescimento cognitivo e também é ampliada por nossas experiências de vida.

2.7 O Resgate de Papéis

Quando falamos de papéis, falamos de responsabilidades distintas. Os pais com suas responsabilidades de pais, os professores com suas responsabilidades de professores, diretores, coordenadores, os avós com suas responsabilidades e os alunos com as suas.

Atualmente, estamos vivendo numa crise de papéis em que de um lado ficam os pais que exigem dos professores posturas que são próprias dos genitores, do outro, professores debatendo sobre a total falta de atenção e ausência por parte dos pais na vida de seus filhos e no meio, crianças carentes, ansiosas, agressivas e desinteressadas que também usam bodes expiatórios para assumirem suas irresponsabilidades escolares.

Segundo Guillot (2008, p. 89), uma tendência à horizontalidade das relações tende a substituir sua verticalidade tradicional. Todo mundo no mesmo plano (ainda não completamente no chão!). O tabuleiro de xadrez substituiu a árvore genealógica, e o rei ou rainha não são aqueles ou aquelas que acreditamos ser. O vínculo intergeracional às vezes está até invertido: a criança, inclusive bem pequena, é chamada a socorrer o adulto. O infantil reina cada vez com mais frequência em casa.

A conscientização é lenta mas progressiva. É uma estratégia muito importante no resgate desses papéis. É interessante ressaltar que todos devem ser orientados a assumirem seus papéis tanto os pais como tios, avós etc. para que todos possam promover e fortalecer a autonomia de suas crianças para que tal postura seja repassada para as futuras gerações.

Quanto à execução dos papéis, é importante destacar que não se é preciso realizar coisas extraordinárias para expressar a verdadeira presença na vida escolar, mas coisas básicas que ao mesmo tempo é de suma importância no processo de geração da autonomia e do prazer de estudar. Pais e professores podem unir-se na missão da geração de bons hábitos, tais como:

1. Os professores explicam os conteúdos em sala. Os pais reforçam os conteúdos em casa.

2. Os professores observam o desenvolvimento escolar dos alunos em sala no que diz respeito à aprendizagem.

Os pais observam o desenvolvimento escolar dos filhos na hora das tarefas de casa (se realmente eles captaram o que foi explanado pelos professores).

3. Os professores observam o comportamento dos alunos em sala.

Os pais observam o comportamento dos alunos em casa, nos passeios etc.

4. Os professores orientam as realizações de tarefas, trabalhos e avaliações em sala.

Os pais acompanham, orientam as tarefas, trabalhos escolares, pesquisas e estudos para avaliações em casa.

Portanto, essa definição de papéis relacionados à educação da criança como um todo é que servirá como ponto de partida para se expressar o sentido de presença paterna na prática do cuidado. Vale ainda ressaltar que os professores não são inimigos dos pais e nem das crianças e vice-e-versa, pois, quando pensamos dessa forma, nos livramos de uma responsabilidade pessoal e não compreendemos ainda que nosso trabalho é um trabalho de equipe. Coordenadores e diretores também são muito importantes no trabalho em equipe, pois eles têm a tarefa de desenvolver projetos educativos e direcionar melhor as atividades elaboradas por eles e seus educadores.

2.8 Ausência Versus Presença

Primeiramente, precisamos entender que o sentido de “Estar Presente” no contexto de vida escolar é muito diferente de deixar os filhos na porta da escola, do que dar o dinheiro do lanche ou pagar a mensalidade escolar.

A forma como eu enxergo a educação, como eu vejo o assunto faz toda a diferença na minha postura como pai ou mãe presente. Estar presente é muito mais que uma conversa rara com os professores dos meus filhos. Na verdade, a presença na vida escolar começa em casa através de conversas informais sobre a importância dos estudos, o acompanhamento nas tarefas de casa, o incentivo à leitura com muito amor e diálogo mesclados com o lúdico que toda a criança adora.

Os pais que se dizem presentes precisam compreender que o verdadeiro significado de presença na vida escolar, inicia-se com a presença na vida familiar. Os professores experientes percebem e diferenciam com precisão àqueles que são pais ausentes e os que são pais presentes através da rotina escolar das crianças. Há certa relatividade no sentido de presença no que se refere a estar presente fisicamente, mas ausente em suas responsabilidades como pais.

Ser pai ou mãe é muito mais do fazer ou não, proteger ou não, suprir ou não. Ser pai no sentido amplo da palavra é compreender que se tem uma missão que é contribuir no processo de formação de outro ser.

Até o presente momento falamos sobre a ausência paterna e materna. O que dizer dos pais que realmente compreendem seus papéis? A presença paterna começa desde o planejamento ou aceitação da criança. A vinda de uma criança ao mundo é sempre motivo de felicidade ou quase sempre. Para alguns pais que planejam sua paternidade ou maternidade, a vinda de um bebê seria bem vista? Alguns quando sabem do resultado positivo da gravidez, rejeitam suas crianças ainda em estado de gestação. Tais crianças possuem maiores propensões de portarem algum tipo de problema emocional, psíquico, motor ou cognitivo.

Alguns especialistas em crianças portadoras de autismo falam de uma rejeição profunda das mães por seus bebês como uma das causas do autismo.

Segundo Benenzon (1987, p.31) desde a morte de um ente querido, as mudanças, as emigrações, as repressões e afastamentos dão lugar a enfermidades não somente psíquicas como também físicas, inclusive e formação de tumores.

Através de perguntas que ele fez às mães das crianças autistas, aprofundando suas sensações e sentimentos durante a gravidez dessas mulheres, ele se deu conta de que durante a gestação de uma criança autista houve angústias, dúvidas, rejeições e situações traumáticas importantes que desviaram a atenção dessa mãe para situações externas. Ele percebeu também que as perdas sofridas pelas mães desvinculavam e desconectavam o feto. O feto é abandonado. Encapsula-se, isola-se e depois do nascimento mantém essa atitude.

3. Considerações Finais

O crescente índice de pais ausentes na vida escolar de seus filhos tem gerado sérios problemas que somente serão amenizados através de uma conscientização progressiva, de um amor comprometido com a família e respectivamente com a educação dos filhos. É bem visto que em certos casos pode ser caracterizado por um ciclo habitual, um modelo ímpar na criação desses pais. Não podemos deixar de abordar as consequências na vida das crianças que passam por tal dificuldade e como isso afeta na aprendizagem, a atenção, o emocional, o psíquico e a interação com o meio. Precisamos perceber a necessidade de recorrer a todas as possibilidades possíveis no intuito de resgatar a autonomia nos limites, a alegria de estar presente na vida dos filhos, não somente na vida escolar.

Atualmente, a existência de projetos, de conscientização dos pais sobre a presença paterna e materna na vida dos filhos, sobre qualidade de tempo, estímulo à leitura etc. tem sido executados por escolas e associações de pais e responsáveis. Um número crescente e expressivo de terapeutas familiares tem tomado parte nesse trabalho. Muitos deles têm sido requisitados para palestrarem e também para acompanharem famílias em suas questões. O importante é que as necessidades estão sendo identificadas e trabalhadas, mas tal necessidade ainda é latente e precisa-se continuar o trabalho informativo e conscientizador. Cabe aos pais refletirem sobre como mudar suas posturas perante sua família. O diálogo é uma ferramenta muito importante nesse processo de mudança, nessa antiga forma de ver as relações e papéis que deve ser resgatada com urgência. Na verdade, todos precisam contribuir para melhorias nas relações pais e filhos, pais e escola, escola e alunos. Se tomarmos consciência de nosso papel nessa interação, com certeza veremos mudanças positivas.

Sobre o Autor:

José Reinaldo Alves de Paula - Teólogo, Formado em Letras, Psicanalista, Psicopedagogo, Professor Universitário, Estudante de Psicologia e Mestrando em Educação.

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As babás e o bem-estar de seus filhos. Disponível em: <http://www.divirta-se.uai.com.br> Acesso em: 12 de jul. 2010.

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