A Compreensão do Professor Sobre o TDAH

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Resumo: O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é considerado pelos professores uma preocupação maior na fase escolar, pois este é o momento propício à observação de alguns sintomas no aluno. Esse transtorno é caracterizado por desatenção, impulsividade e hiperatividade, sendo recomendado em alguns casos o uso de medicamentos para diminuir a manifestação hiperativa. Deste modo, o objetivo desta pesquisa foi investigar a percepção dos professores sobre o TDAH numa escola pública do interior de Rondônia. Para realização da pesquisa, utilizou-se de pesquisa de campo com método descritivo e exploratório, em abordagem qualitativa e quantitativa. Como instrumento utilizou-se um questionário validado, com perguntas abertas e fechadas, elaborado por Seno (2010), e adaptado para este trabalho. Participaram da pesquisa sete professores que atuam no primeiro ciclo do ensino fundamental de uma escola pública. Os resultados obtidos excluem a hipótese de pouco conhecimento e instrução sobre o conceito de hiperatividade, constatou-se que todos os colaboradores souberam identificá-la, apesar dos educadores não terem conhecimento suficiente para discorrer com propriedade sobre o TDAH, se apresentaram de modo favorável na análise da classificação causas/identificação de sintomas. Conclui-se que o TDAH ainda é um assunto pouco conhecido pela maioria dos educadores, assim, sugere-se realização de cursos de formação acerca desse e demais transtornos, para um melhor desenvolvimento escolar dos alunos.

Palavras-chave: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Escola. Professores. Aprendizagem.

1 Introdução

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade está sendo uma problemática encontrada no âmbito escolar, nesse sentido se faz necessário verificar a percepção de professores que atuam no primeiro ciclo do ensino fundamental, por ser esta à idade recomendada pelos pesquisadores em que os sintomas começam a aparecer em fase escolar. Para tanto, se faz necessário ressaltar a importância do conhecimento que os professores devem ter sobre o que é TDAH, e mesmo tendo a noção de como o psicólogo escolar trabalha esse assunto, devem ajudar o aluno hiperativo sem prejudicar as demais crianças, por meio de estratégia que facilitam o bom rendimento da criança na escola. Desta maneira, isto influência na forma como trabalham com estas crianças em sala de aula, apresentando, portanto dificuldade em identificar métodos pedagógicos coerentes com o possível diagnóstico e que possibilite o desenvolvimento educacional e escolar da criança.

Neste sentido, o interesse nesta pesquisa se deu através de uma visita a uma instituição do interior de Rondônia onde a pesquisadora realizou Estágio Supervisionado em Processos Educativos em que se observou a realidade institucional e o pouco conhecimento de alguns professores sobre o conceito de hiperatividade, principais sinais e sintomas.

Além disso, encontrou-se apenas uma pesquisa com este objetivo na região norte e nenhuma no local onde se pretende realizar este trabalho. Dessa maneira considera-se que está pesquisa se torna relevante para a sociedade, pois compreender a percepção dos professores sobre TDAH trará a possibilidade de organizar projetos de formação continuada tendo como base o conhecimento que possuem sobre o assunto, bem como trabalhos a serem realizados em outras localidades servindo de métodos de avaliação e modelos preventivos.

2 Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatidade (TDAH)

No decorrer da vida profissional, o professor depara-se com vários obstáculos que interferem no processo de aprendizagem do aluno. São fatores das mais variadas causas sendo elas de ordem pedagógica, e social. E uma das causas mais comum na criança em idade escolar é o Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH). De acordo com Vasconcelos et al. (2003), a apresentação clínica do TDAH compreende três categorias principais de sintomas — desatenção, impulsividade e hiperatividade — que se manifestam em ambientes diferentes e causam comprometimento funcional. Sam Goldestein (2003) ressalta que os sintomas são originados por disfunção no funcionamento cerebral e embora os estudos não sejam ainda definidos, sabe-se que esses sintomas são provenientes de alterações em diferentes sistemas de neurotransmissores.

Conforme Topczewski (2011), a hiperatividade se dá através de um desvio comportamental, caracterizado por mudanças de atitudes e atividades exageradas. Portanto para um TDAH se manter quieto por um período estabelecido pelo professor para desenvolver suas atividades escolares/ou tarefas do dia-a-dia se torna impossível. Assim, Topczewski (2011), postula que os professores são responsáveis pelas primeiras observações, onde percebem os comportamentos de agitação comparados ao de outras crianças.

Segundo Rohde e Benczik (1999), os sintomas que fazem parte do grupo de desatenção, são: a dificuldade para concentrar-se nas tarefas ou jogos e não prestar atenção ao que lhe é dito; a dificuldade em seguir regras e instruções, não terminar o que começa, ser desorganizado com as tarefas e com os materiais, evitar atividades que exijam esforço mental, perder coisas importantes, distrair-se facilmente com coisas que não tem nada a ver com o que está fazendo, esquecer-se dos compromissos e tarefas recomendadas. E os outros sintomas que fazem parte da hiperatividade a impulsividade, onde a criança pode apresentar o comportamento de remexer mãos e pés quando está sentada, correm excessivamente em situações impróprias, para se divertir, fala demasiadamente exagerada, responder as perguntas antes de serem terminada, dificuldade em esperar certas coisas e interferir em conversas de outras pessoas.

Assim Rohde et al., (2004, p. 9), “[...] O tratamento do aluno TDAH, engloba intervenções psicossociais e psicofarmacológicas, através do uso do medicamento adequado ao TDAH tem uma melhor concentração e pode acompanhar os outros alunos”. É importante que a família seja orientada e que participem de programas de treinamentos sobre como lidar com TDAH usando estratégias que não prejudiquem o seu desenvolvimento no âmbito escolar. Assim como os pais, os professores também devem receber cursos de formação continuada para receber este aluno, a fim de que desenvolva técnicas adequadas no acompanhamento pedagógico e encaminhamentos.

Para Seno (2010) um ponto importante no tratamento de pessoas com TDAH é o uso de medicamento, que provoca tranquilidade e aumento da atenção, porém na maioria das vezes também causa sonolência. Este aspecto no uso do medicamento é considerado como um fator preocupante pelos professores de alunos em fase de desenvolvimento escolar, pois é neste momento que a criança tem o contato com a leitura e a escrita, sendo necessária a participação ativa no processo de alfabetização. É nesta etapa que há maior chance de repetência em razão do baixo rendimento escolar.

3 Critérios para Diagnóstico

O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é caracterizado por padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade/impulsividade. De acordo com Amaral e Guerreiro (2001), alguns destes sintomas podem estar presentes antes dos sete anos, no entanto se tornam mais evidentes no ambiente educacional. Ainda de acordo com as definições do mesmo autor (2001), o diagnóstico do TDAH não pode ser feito se os sintomas ocorrerem exclusivamente na presença de transtorno invasivo do desenvolvimento, como por exemplo, algum outro transtorno mental. Souza et al. (2007), postulam que entendia-se o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) equivocadamente como um diagnóstico com poucas implicações na vida dos pacientes. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 4º ed. (DSM-IV), a prevalência de TDAH é estimada em 3% - 5% das crianças em idade escolar. Porém, este dado sofre uma variação que gira em torno de 1% - 20% das crianças na escola.

Segundo Peixoto e Rodrigues (2008, p. 92) “[...] Em função da complexidade do diagnóstico do TDAH, recomenda-se que os profissionais utilizem em seu julgamento clínico os critérios do DSM-IV juntamente com informações obtidas junto aos pais e professores, buscando conhecer o comportamento da criança”.

De acordo com Lopes et al. (2005),  uma avaliação adequada consiste na participação interdisciplinar de diversos profissionais, sendo eles: psicólogo, neurologista e psiquiatra. Segundo Rohde et al. (2004), para ser estabelecido um diagnóstico, os sintomas devem causar comprometimento em dois ou mais diferentes contextos, alguns dos sintomas causadores desse prejuízo estão presentes antes dos sete anos de idade, apesar desse último critério ter sido questionado em pesquisas de campo mais recentes.

4 O Papel da Escola e do Professor

Embora a criança portadora de TDAH apresente os sintomas no ambiente familiar, estudos apontam que é a partir da entrada da criança na escola que se observa maior consciência do problema. De acordo com Silva (2003), dificuldades maiores começam a surgir no âmbito escolar quando a criança é solicitada a cumprir metas e seguir rotinas. Ainda em conformidade com a autora descrita à criança hiperativa precisa ajustar-se às regras e à estrutura de uma educação continuada, em cobra seu desempenho, trazendo grande desconforto. O papel da escola, segundo Silva e Souza (2005), é fundamental para o desenvolvimento global da criança, incluindo o desenvolvimento social e de linguagem, principalmente para as que são portadoras de TDAH. O professor tem papel fundamental no acompanhamento e encaminhamento da criança que apresenta sinais de TDAH. Gonçalves (2011) postula que o professor deve ser capaz de orientar os pais, indicando o caminho até o psicopedagogo tornando-se o elo principal entre a família e os especialistas envolvidos no tratamento.  Assim o autor defende que não é papel do professor fazer o diagnóstico, mais sim esclarecer a família sobre as inúmeras complicações na vida acadêmica, social e pessoal da criança, bem como acompanhar o desenvolvimento pedagógico.

5  Metodologia

5.1 Sujeitos

O contato com os sujeitos desta pesquisa foi realizado por meio da recomendação da orientadora pedagógica da escola. Desta maneira, foram entregues doze questionários a doze professores, dos quais retornaram apenas sete para analise. Sendo assim, os sujeitos da pesquisa foram sete docentes que atuam no primeiro ciclo (ensino fundamental 1º ao 5º ano).

O quadro abaixo contém características dos docentes colaboradores, lembrando que os nomes dos mesmos são fictícios, utilizando nomes de pássaros a fim de garantir o sigilo dos participantes conforme prevê o conselho de ética em pesquisa com seres humanos.

Quadro 1- Características dos educadores, Rondônia, 2011.

Nome

Gênero

Nível de escolaridade

Função atual

Tempo de formação

Beija-flor

Feminino

 Ensino Superior

Professora

4 anos

Andorinha

Feminino

Pós- graduada

Orientadora Educacional

6 anos

Sabiá

Feminino

Ensino Superior

Professora

3 anos

Canário

Masculino

Ensino Superior

Professor

4 anos

Bentivi 

Feminino

Pós- graduada

Professora

8 anos

Garça

Feminino

Ensino Superior

Professora

5 anos

Águia

Feminino

Pós- graduada

Professora

10 anos

Fonte: A autora (2012).

Diante os dados apresentados no quadro, entre os educadores há uma orientadora educacional, e seis professores, sendo um do sexo masculino e seis do sexo feminino. Conforme as informações colhidas através dos questionários, o tempo de formação dos educadores está em máximo de dez anos de trabalho, e mínimo de três anos, sendo a formação máxima em pós-graduação e a mínima de formação em pedagogia.

5.2 Instrumentos

Os dados foram coletados através de um questionário validado por Seno (2010) através da pesquisa divulgada no artigo “Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH): O que os educadores sabem”. Este instrumento conta com dezessete questões, sendo nove dissertativas, sete com as opções “sim” e “não”.

5.3 Métodos

Utilizando-se de uma abordagem quanti-qualitativa, o presente trabalho sustenta-se nas afirmativas de Gonçalves (2003, p. 67) onde, na pesquisa quantitativa “[...] o pesquisador terá que quantificar os resultados para obter uma análise mais precisa dos seus resultados conforme ressalta que a pesquisa quantitativa significa à tradução em números as informações obtidas para classificá-las e analisá-las”. Considerando os dados coletados por meio do questionário, a análise foi através de análises descritivas, levando em consideração o índice do conhecimento do professor sobre TDAH. Para tanto, utilizar-se-á a pesquisa descritiva a qual, segundo Gil (2008), tem como objetivo a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou estabelecimento de relações entre variáveis. 

5.4 Procedimentos

O presente trabalho foi revisado e aprovado pela banca avaliadora da Psicologia da Farol, e procurou atender todos os requisitos éticos envolvidos na pesquisa com seres humanos. Para isto, utilizou-se da Carta de Anuência e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, garantindo a participação dos docentes por livre e espontânea vontade. O prazo estabelecido aos participantes para entrega dos questionários respondidos foi de 24 horas. Após o recebimento dos questionários, os mesmos foram transcritos e submetidos á analise de conteúdo.

6  Apresentação e Discussão dos Resultados

 O TDAH é uma síndrome heterogênica, de origem multifatorial, dentre os quais inclui fatores genéticos e familiares, adversidades biológicas e psicossociais. Caracteriza-se por influenciar o desempenho dos mecanismos que regulam a atenção, a reflexibilidade e a atividade motora (SENO, 2010).

Partindo dessa premissa, o objetivo dessa pesquisa foi verificar a percepção dos professores de uma Escola Estadual do Interior de Rondônia sobre TDAH. Dessa forma, a análise das respostas dos educadores foram classificadas em: Causas/identificação de sintomas; Tratamento; Escola/processos educacionais.  

Na classificação causas/identificação de sintomas investigou-se à percepção dos educadores sobre as principais causas, elencando os pré-conceitos atribuídos para a identificação dos sintomas, bem como a idade para o início, a prevalência sexual, relação com o desenvolvimento de doenças mentais e modificação dos sintomas com o avançar da idade.

De modo que ao investigar o conhecimento do significado da nomenclatura TDAH, constatou-se que todos os participantes souberam identificá-la, bem como apresentaram algumas causas, sinais e sintomas como: hereditariedade, neurobiologia (áreas cerebrais), influências ambientais, substâncias ingeridas na gestação (tabagismo, alcoolismo, drogas), sofrimento do feto, exposição ao chumbo.

Os resultados obtidos excluem as hipóteses de que seria identificado pouco conhecimento e instruções sobre o conceito de hiperatividade. Contudo os participantes apresentaram alguns sinais e sintomas possíveis de serem observados no comportamento de uma criança com TDAH, onde foram citados: inquietação, fala excessiva, agitação, dificuldade de concentração, desobediência, hiperatividade, desatenção, dificuldade na aprendizagem, impulsividade.

A fim de corroborar com os resultados acima, Rohde et al. (2000) afirma que os principais sinais e sintomas do TDAH são apresentados pela tríade: desatenção, hiperatividade e impulsividade. De modo que independente do sistema utilizado para essa classificação, as crianças com TDAH podem ser reconhecidas tanto em clínicas, como escolas e em casa.

Por outro lado é necessário durante o processo de classificação e diagnóstico saber que os sintomas devem estar presentes frequentemente, pois é claro que de vez em quando é natural que crianças, adolescentes e até mesmo os adultos manifestem alguns desses sintomas (TEIXEIRA, 2006).

Quanto à idade na qual inicia os sintomas, um participante relatou que é desde a infância, três disseram ser a partir dos quatro anos e três que são a partir dos sete anos. Em relação à prevalência sexual todos participantes assinalaram o sexo masculino.

Embora os participantes tenham nomeado três idades para o início da manifestação do TDAH, encontram-se na literatura diversos conceitos sobre essa característica, alguns teóricos afirmam que o início é precoce ocorrendo durante os cinco primeiros anos de vida (SENO, 2010). Outros como Rohde eHalpern (2004) propõem que os sintomas estão presentes antes dos sete anos de idade. Também é possível encontrar autores que enfatizam que o TDAH é mais comum na infância, na idade escolar, presentes desde o início da vida podendo persistir até a vida adulta (GRILLO; SILVA, 2004; TEIXEIRA, 2006).

Sobre a prevalência sexual os teóricos afirmam que a presença do TDAH é predominante em crianças do sexo masculino, a proporção entre menino e meninas é no máximo de dois meninos para cada menina. De modo que as meninas tendem a apresentar mais sintomas de desatenção, sendo que nos meninos aparece em maior evidência o sintoma de hiperatividade (ROHDE;HALPERN 2004; CARDOSO; SABBAG; BELTRAME, 2007).

Ao verificar a relação do TDAH com o desenvolvimento de doenças mentais, quatro participantes afirmaram “sim”, e 3 participantes afirmaram “não”. Ressalta-se que pacientes com sintomas de TDAH que apresentam outros tipos de transtornos, em comorbidade, constituem um grupo com significativo comprometimento funcional, representando um desafio para os profissionais em saúde mental na infância e adolescência (ROHDE; BENCZIK, 1999; SOUZA et al. 2007).

Sobre a modificação dos sintomas com o avançar da idade 4 participantes afirmaram “sim” e 3 participantes afirmaram “não” há ocorrência de modificações. No entanto, conforme apresentado no DSM-IV-TR (2002), embora o TDAH seja mais diagnosticado na infância, em alguns casos, persiste até a vida adulta, manifestando parcialmente melhora da hiperatividade e da impulsividade por volta do final da adolescência (MATTOS et al. 2006).

Na classificação “tratamento”, serão apresentadas as respostas dos professores sobre o diagnóstico a fim de verificar o conhecimento destes sobre exames e especialistas adequados para comprovar o TDAH, bem como investigar o conhecimento relacionado à cura, formas de tratamento e medicação.

Sobre os exames necessários para diagnosticar o TDAH, quatro participantes referiram-se ao eletroencefalograma (EEG), dois participantes referiram-se a neuroimagem e tomografia, e um participante afirmou que não existir exames para o diagnóstico. É interessante ressaltar que estudos revelam que recentemente pesquisas em genética, neuroimagem e neuropsicologia têm contribuído na forma de compreender o TDAH (SOUZA et al. 2007).

Os resultados apontam que os participantes demonstraram pouco conhecimento sobre exames necessários para diagnosticar o TDAH, dificuldades encontradas também na literatura, pois em razão da alta frequência de comorbidades psiquiátricas apresentadas pelos pacientes com TDAH o processo diagnóstico assim como para o tratamento se tornam complexos, especificamente pelo caráter dimensional dos sintomas de desatenção e/ou hiperatividade (SOUZA et al. 2007; TEIXEIRA, 2006). No entanto, sabe-se que o diagnóstico é fundamentalmente clínico, pois não existem exames específicos que comprovem a existência do TDAH.

Existem escalas que descrevem os sintomas de atenção, hiperatividade e impulsividade, bem como medem a intensidade desses sintomas. Há ainda o exame neurológico evolutivo, realizado por neurologistas de crianças, que pode indicar dados para o diagnóstico, porém o resultado dessa avaliação isoladamente ou em combinação não é suficiente para o diagnóstico ou exclusão do TDAH (ROHDE; BENCZIK, 1999).

Assim, para o diagnóstico do TDAH os participantes afirmaram que os especialistas aptos para realizar os exames são: o psiquiatra, neurologista e neuropsiquiatra, de modo que cinco participantes responderam que não existe cura para o TDAH e apenas dois participantes acreditam na existência.

Os resultados obtidos comprovam que os participantes demonstraram pouco conhecimento quanto aos especialistas aptos para realizar esses exames, uma vez que a avaliação adequada para o TDAH consiste em um número relevante de profissionais sendo eles um psicólogo, neurologista e psiquiatra (ROHDE; HALPERN, 2004).

Entretanto, o diagnóstico só deve ser realizado por um profissional de saúde mental, podendo ser um médico ou psicólogo. A indicação desses profissionais para o diagnóstico do TDAH decorre por diversas razões, como a necessidade avaliação global da criança e do adolescente pela alta frequência de ocorrência de outros problemas de saúde mental em conjunto com o TDAH. Bem como, é necessário o profundo conhecimento de desenvolvimento normal de crianças e adolescentes, para a diferenciação entre o normal e o patológico (ROHDE; BENCZIK, 1999).

Em relação à cura para o TDAH os participantes apresentaram-se de modo satisfatório, pois com o tratamento medicamentoso tem-se uma melhora significativa em 70 a 80% dos casos, como afirmam Grillo e Silva (2004), e não a cura como responderam os participantes. Pesquisas comprovam que 30 a 60% dos indivíduos continuam a apresentar sintomas significativos ao longo da vida adulta (ROHDE; HALPERN, 2004; MATTOS et al., 2006; DESIDÉRIO; MIYAZAKI, 2007). 

Quanto ao tratamento os participantes apresentaram como melhor procedimento a prescrição de medicamento,  jogos para estimular a concentração e psicoterapia estrutural. De modo que 4 participantes consideraram o uso do medicamento como sendo sempre utilizado durante o tratamento e 3 participantes afirmaram que nem sempre se faz necessário.

Conforme exposto pelos participantes sobre tratamento e medicação, estes englobam intervenções psicossociais e psicofarmacológicas, através do uso do medicamento adequado para o TDAH (ROHDE; HALPERN, 2004; GRILLO; SILVA, 2004).

Faz-se importante ressaltar que o uso de medicação nem sempre é necessário para o tratamento de TDAH, mas quando utilizado deve ser realizado por um médico que atua com maior eficácia em pacientes com prejuízos significativos na vida em função dos sintomas. Nesses casos a prescrição do medicamento é utilizada para auxiliar no controle dos sintomas (ROHDE; BENCZIK, 1999; MATTOS et al., 2006; TEIXEIRA, 2006).

Quando não necessário o uso da medicação, o tratamento pode ser realizado por um psicólogo que atua com maior eficácia em pacientes com sintomas mais leves e com boas capacidades cognitivas, pois muitas vezes o transtorno é acompanhado de sintomas de ansiedade, de depressão, de baixa autoestima, e nesses casos, é importante que o psicólogo realize intervenções psicoterápicas e estratégia de manejo cognitivo-comportamentais tanto em casa quanto na escola, a fim de auxiliar na compreensão das dificuldades pelas quais a criança ou adolescente estejam passando (ROHDE; BENCZIK, 1999).

A classificação escola/processo educacional refere-se às respostas dos participantes acerca das possibilidades de uma criança com TDAH manter-se concentrada, bem como sobre a ocorrência de dificuldade de aprendizagem. Se o TDAH realmente existe ou seria falta de limites, elencando ainda sobre a própria percepção da criança com relação ao seu transtorno.

Quanto à possibilidade de uma criança concentrar-se em uma única atividade por um longo período de tempo, todos os participantes (7) afirmaram não ser possível. Nessa perspectiva, vale ressaltar que a capacidade de parar quieto e de concentrar-se em uma atividade, não necessariamente ocorra com todas as crianças com TDAH, pois algumas crianças e adolescentes conseguem ficar por bastante tempo quietas e atentas a uma determinada atividade, tendo em vista que a atenção e o controle motor são dependentes da motivação e de atividade individualizadas (ROHDE; BENCZIK, 1999).

Supõe-se, portanto, que se a criança ou adolescente com TDAH ao realizar atividades em que a motivação é muito grande e os estímulos são mais individualizados, estas podem parar quietas e concentradas.

Ao investigar a ocorrência de dificuldade de aprendizagem em crianças com TDAH, seis participantes assinaram sempre apresentar e um participante assinou que pode não apresentar.  Para os sete participantes o TDAH realmente existe.

Desse modo, conforme Rohde e Benczik (1999) uma criança ou adolescente com TDAH consequentemente pode apresentar problemas de aprendizagem, caracterizada pela presença de dificuldade no funcionamento escolar devido aos sintomas, pois a desatenção e a hiperatividade se tornam frequentes, causando prejuízos na vida da criança. Por outro lado algumas crianças bastante inteligentes podem apresentar TDAH e não apresentar um prejuízo visível nas suas vidas. Assim, nem todas as crianças com TDAH apresentaram necessariamente dificuldades de aprendizagem, no entanto isso tem se tornado mais comum entre crianças e adolescentes com TDAH.

Em relação à própria percepção da criança sobre o seu transtorno quatro participantes afirmaram que “sim” elas percebem que são diferentes e três participantes afirmaram “não” elas não tem essa percepção. Entretanto, a crianças terá essa percepção a partir do momento em que seus comportamentos inadequados são reforçados pelos pais ou professores, de modo se forem comparados a outras crianças, poderão ter essa percepção, de que são diferentes por não se comportarem igual as demais, como não prestar atenção, ser inquietas, desorganizadas, dificuldade em esperar sua vez, perder coisas importantes, pular e correr excessivamente, entre outros (CARDOSO; SABBAG; BELTRAME, 2007).

Por fim os educadores apresentaram algumas propostas para ajudar o aluno com TDAH como: encorajar frequentemente, não provocar constrangimentos, recompensar esforços, colocar limites claros e objetivos, estimular interesses, orientação aos pais para ajudá-los com as atividades em casa, propor atividades possíveis de serem realizadas, motivação, planejamento e implementação de técnicas e estratégias de ensino, sentar o aluno próximo à professora, dispor de mais tempo para concluir as atividades, direcionar a fala e o olhar, envolvê-lo em atividades dinâmicas, reduzir ou dar atividades por etapas.

Essas intervenções dos educadores são necessárias e relevantes para ajudar a minimizar o impacto negativo que o TDAH causa a vida da criança, pois esse transtorno quando não tratado, pode estar associado a experiências negativas de ordem social, familiar e escolar, permanecendo durante a adolescência e a vida adulta.

7 Considerações Finais

A presente pesquisa teve como objetivo verificar a percepção dos professores de uma Escola Estadual do Interior de Rondônia sobre TDAH. Dessa forma a partir da revisão teórica e análise de dados sobre TDAH verificou-se que esse transtorno realmente existe, porém para se pensar em um diagnóstico é necessária a presença de sintomas em pelo menos dois ambientes diferentes.

O estudo permitiu destacar a importância da intervenção do psicólogo no processo de diagnóstico e tratamento do transtorno, visto que o TDAH se refere a uma abordagem múltipla, que inclui intervenções psicossociais e farmacológicas. Dessa forma sabe-se que o medicamento age no controle dos sintomas, e não no auxílio a lidar com os sintomas. Assim, o psicólogo atua frente à demanda do paciente de modo a ajudá-lo a compreender e a controlar seu comportamento de desatenção, hiperatividade e impulsividade.

Os resultados obtidos demonstraram que, apesar dos educadores não terem conhecimento suficiente para discorrer com propriedade sobre o TDAH, conseguem identificar possíveis causas e sintomas. No entanto, vale destacar que a generalização dos sintomas pode levar a equívocos na avaliação sobre o comportamento e aprendizagem do aluno.

Verificou-se que os educadores descreveram intervenções fáceis de serem aplicadas, uma vez que para a realização depende exclusivamente do próprio educador, que lança de uma metodologia adequada.

Conclui-se que o TDAH ainda é um assunto pouco conhecido pela maioria dos educadores, assim, sugere-se realização de cursos de formação acerca desse e demais transtornos, para um melhor desenvolvimento escolar dos alunos, tendo em vista que o manejo adequado desses alunos permite que tenham suas diferenças respeitadas e sejam realmente incluídos na sala de aula regular.

A criança com TDAH requerer atenção especial em diversos contextos, no qual a escola se destaca. Assim, a colaboração destes se torna relevante para o diagnóstico e desenvolvimento escolar da criança e adolescente com TDAH.

Sobre o Autor:

Deize Katiele da Silva Kurdt - Acadêmica do décimo período de Psicologia da Faculdade de Rolim de Moura – FAROL. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. .

Sobre o Artigo:

Trabalho apresentado à Faculdade de Rolim de Moura – FAROL, como requisito final de avaliação para conclusão do curso de Graduação em Psicologia no ano de 2012, sob a orientação da Professora mestre Elisangela Sobreira de Oliveira, CRP 01/12.396.

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