A Mediação de Conflitos entre Alunos e Professores na Escola Comum

1 1 1 1 1 Avaliações 0.00 (0 Avaliações)
(Tempo de leitura: 13 - 26 minutos)

Resumo: A mediação de conflitos escolares é um grande desafio para as instituições de ensino contemporâneas que já sofrem fortes críticas de pedagogos, filósofos e sociólogos, quanto ao seu desempenho em um âmbito geral, de conteúdos, indefinição de uma linha pedagógica, etc. O projeto ora apresentado buscou conhecer e identificar alguns tipos de embates na escola comum (de Fortaleza) e dificuldades encontradas no intuito de desenvolver resoluções positivas que podem e devem ser tomadas em circunstâncias conflitantes enfrentadas por uma comunidade escolar. Considerando o contexto, efetuamos uma pesquisa qualitativa e bibliográfica que serviu como apport para o método etnográfico que utilizamos para coleta de dados em uma escola pública (Municipal) de Fortaleza de nível Fundamental, com um grupo de alunos, com a coordenadora e com a secretária escolar, onde, nos baseamos nos seguintes autores:  Chrispino  (2002),  (2004),  (2007),  Santos  (2006),  Beleza  (2011), Freire (1886), (1996), (2005), Sales (2007), (2010) e Joca (2009). Os conflitos escolares, perpassam os muros da escola, que por outro lado, com uma organização fragilizada pedagogicamente e socialmente, não consegue ir muito além de reproduzir ou espelhar uma sociedade estigmatizada, violenta a qual esses sujeitos especialmente são expostos já no momento em que são concebidos.

Palavras-chave: Mediação, Conflito, Escola, Violência.

1. Introdução

Um país como o nosso Brasil que é fruto de uma diversidade racial, geográfica, social e religiosa, que passa um momento político e cultural distinto, com uma democracia que foi conquistada com muitas dificuldades e hoje já não consegue identificar seus valores, como a reestruturação da família, além disso, temos ainda figurando volta e meia nesse cenário, os escândalos econômicos e políticos, eventos internacionais, disseminando e deixando cada vez mais gritante as desigualdades sociais e prolifera a violência nas ruas, nas instituições e, sobretudo nas pessoas.

Independente de raça, religião, orientação sexual ou condição financeira a intolerância e a banalização da violência está consumindo cada vez mais a população brasileira, onde a escola como uma instituição educacional atuante, contribui de forma significativa para uma regulação social, porém, sofre ao enfrentar desafios como o fenômeno das gangues, o bullying, o despreparo de profissionais, entre  outros. Acreditamos que essas instituições procuram construir de forma coletiva (comunidade escolar) respostas positivas para coibir ou reduzir as expressões de violência, constituindo-se como um local no mínimo seguro de convivência e aprendizagem.

De acordo com Anselmo de Lima (2013) diretor e representante da organização não governamental “Terre des hommes Lousanne” no Brasil, (que atua há mais de 30 anos em 33 países com projetos de promoção dos direitos infanto-juvenis) a lei federal 12.594 de 2012, coloca a temática de medidas restaurativas como pauta das políticas públicas brasileiras, principalmente daquelas que abordam o atendimento com adolescentes em conflito com a lei, contudo, o presente projeto se propõe a questionar e/ou investigar como se estabelecem os conflitos dentro da escola? E considerando o contexto, que medidas restaurativas são tomadas neste sentido e de que forma são aplicadas?

Ao desempenhar durante nove anos funções no ambiente pedagógico escolar, e durante esse tempo se deparar por vezes com diversos conflitos dentro da escola, sejam eles, entre alunos, aluno e professor, entre professores, entre funcionários, pais e professores, onde, já se tornaram corriqueiros, alguns mais violentos envolvendo agressões físicas e verbais enquanto outros apenas verbais, porém, mesmo antes da graduação, durante o ensino fundamental e médio já havia presenciado confrontos, desentendimentos, discussões acirradas nessas instituições de ensino, documentários, reportagens de adolescentes que se envolvem em “brigas” que seus “colegas” filmam e disponibilizam as imagens na internet, identificamos que esse é um problema que não escolhe faixa social.

Acredita-se que a mediação de conflitos escolares seja um grande desafio para a instituição de ensino contemporânea, que já sofre fortes críticas de pedagogos, filósofos, sociólogos, ao seu desempenho em um âmbito geral, de conteúdos, indefinição de uma linha pedagógica, questionamentos se estão formando pessoas alienadas ou não, ou ainda formando cidadãos conscientes, críticos ou apenas técnicos, preocupados somente com conteúdos e exames seletivos e não com o real aprendizado, contudo, considerando a diversidade cultural brasileira, os conflitos dentro da escola perpassam as críticas, assolando e corroborando para o descrédito do sistema de ensino nacional.

O projeto ora apresentado busca dialogar sobre medidas restaurativas que contribuam na mediação dos conflitos, atuando e se desenvolvendo com os próprios atores que formam uma comunidade escolar.

Conhecer e identificar alguns tipos de embates na escola comum e dificuldades encontradas no intuito de desenvolver resoluções positivas que podem e devem ser tomadas em circunstâncias conflitantes enfrentadas por uma comunidade escolar é um caminho a ser perquirido.

1.2 Mediação de Conflitos como Prática Restaurativa na Escola

Acredita-se que para desenvolver algum trabalho em torno da mediação de conflitos como uma prática restaurativa, ou alguma outra linha de estudo precisou inicialmente entender e conceituar cada ponto, pois, somente podemos discutir sobre o que conhecemos, mesmo que minimamente, contudo, começaremos por mediação, que em poucas palavras, ao nosso olhar seria um ato de interpor em uma situação de desacordo entre pessoas, procurando fazer uma “ponte” entre essas no intuito de ajudar as mesmas a solucionarem da melhor forma possível o desacordo.

No entanto para Sales (2007),

A mediação é um procedimento consensual de solução de conflitos por meio do qual uma terceira pessoa imparcial – escolhida ou aceita pelas partes – age no sentido de encorajar e facilitar a resolução de uma divergência. As pessoas envolvidas nesse conflito são as responsáveis pela decisão que melhor as satisfaça. (p.23).

O conflito seja ele na escola, nas ruas ou em qualquer outra instituição, é algo natural no convívio do ser humano, pois, as rotinas, o dia - dia, e considerando cada indivíduo como um ser único, com expectativas e visão de mundo diferente uns dos outros o desacordo pode se tornar até imprescindível para se buscar estratégias diferentes, gerar pesquisa, conhecimento, obviamente guardando as devidas proporções, pois, esse pode ainda ter outra conotação de violência, de intolerância sobre tudo dentro da escola. Ainda no intuito de compreender o conceito podemos colocar que o conflito tem origem nas diferenças de interesses, sem um entendimento de certo ou errado e sim nas razões que são defendidas frente a outras, diferente.

Chrispino (2002) define e exemplifica o conflito da seguinte forma:

Conflito é toda opinião divergente ou maneira diferente de ver ou interpretar algum acontecimento. A partir disso, todos os que vivemos em sociedade temos a experiência do conflito. Desde os conflitos próprios da infância, passamos pelos os conflitos pessoais da adolescência e, hoje, visitamos pela maturidade, continuamos a conviver com o conflito intrapessoal ou interpessoal, sobre o qual nos deteremos. São exemplos destes a briga de vizinhos, a separação familiar, as guerras, o desentendimento entre alunos. (p. 16).

Em relação à prática restaurativa, percebemos a princípio essa prática como uma estratégia para restaurar o diálogo em uma situação conflituosa, onde, devemos nos utilizar do mesmo como principal ferramenta no intuito de se estabelecer resoluções positivas para ambos os lados. O diálogo instaura a confiança entre os seres humanos, rompe silêncios e implica um pensar crítico sobre si, a coletividade e a realidade conflituosa – diálogo problematizador (FREIRE, 2005, p.90).

Para a instituição “Terre des hommes Lausanne no Brasil” (2013), a prática restaurativa pode ser compreendida no Brasil da seguinte maneira:

Práticas restaurativas é o nome que se dá a um conjunto de metodologias de resolução positiva de situações de conflitos, violência e atos infracionais (estes também compreendidos como violência). Têm como objetivo central a restauração. Ao lidar com os conflitos não se intenta estabelecer culpados ou punições, mas oportunizar-lhes o entendimento sobre motivações e necessidades que geraram os conflitos e atos violentos, restaurar as relações entre as pessoas (TERRE DES HOMMES LAUSANNE NO BRASIL, 2013, p.13).

O crescente número de casos de violência nas escolas envolvendo todos que fazem sabidamente ou não parte de uma comunidade escolar nos levam a perceber que os conflitos entre alunos e entre professores e alunos são os mais corriqueiros. Levando em consideração nossa prática podemos observar que esse fenômeno vem se tornando em mais um grande desafio para a escola que termina por refletir uma sociedade arraigada de preconceitos, desigualdades sociais e marcada por um sistema capitalista cada vez mais avassalador, onde, a ética e os valores morais estão sendo colocado à prova todos os instantes, corroborando para a intolerância e atos violentos sem o menor receio ou respeito ao próximo.

Percebemos que no que diz respeito à escola existem tipos diferentes de violência, uma que acontece dentro da instituição, com gritos, desrespeito de alunos entre si, de professores para alunos e de alunos para professores, agressões verbais, físicas e até ameaças de ambas as partes. Professores que encaminham “ocorrências” de sala de aula para coordenações que terminam por tentar mediar o conflito, onde, muitas vezes, envolve ou pelo menos deveria envolver os pais ou  responsáveis, porém, a violência nas ruas, na sociedade, nas famílias propicia esse fenômeno nas escolas, contudo, devemos levar em consideração fatores como profissionais mal preparados, mal remunerados, organizações com estruturas físicas questionáveis, propostas pedagógicas indefinidas, enquanto uns preparam apenas para uma boa colocação em exames seletivos, outros tentam preparar para uma criticidade e cidadania, outros existem sem propósitos claros e etc.

Para Abramovay (2002 apud SALES, 2007),

Em primeiro lugar, existe uma violência que é da sociedade, e não da escola. Ela entra lá por se tratar de um espaço da juventude, cheio de adolescentes curiosos que são vistos como possíveis compradores de drogas. Uma vez instalada lá dentro, transforma a escola num lugar onde vale tudo, onde as regras não são claras e onde professores, diretores e alunos têm medo. Onde impera a lei do silêncio e da ameaça, que é a lei do tráfico. Mas existe a violência que é interna à escola, que eu chamo de institucional (p. 162).

Acredita-se que à prática restaurativa dentro das escolas já seja uma realidade inata dessa instituição, pois, a mesma deve se utilizar de ações para prevenir e apaziguar situações de desentendimentos, que são inevitáveis e inerentes ao convívio, sobretudo entre adolescentes, contudo, a maneira como é praticada, o momento, o preparo das pessoas para tal, as próprias pessoas que tentam mediar (geralmente são coordenadores pedagógico, fiscais, orientadores, auxiliares, porteiros, todos e qualquer um dentro da organização), ou seja, as estratégias utilizadas para essa prática são questionáveis.

É relevante ressaltar que a necessidade de projetos para esse público de escolas privadas ou públicas que envolvam os “atores” imersos em uma determinada comunidade escolar, com técnicas de mediação bem definidas, podem e devem fazer uma grande diferença no atual cenário de alunos e professores. Não podemos esquecer que o problema social brasileiro que influencia atitudes de intolerância na escola é bem mais amplo, a mediação como prática restaurativa seria apenas uma estratégia diante de uma realidade que assusta!

De acordo a instituição “Terre des hommes Lausanne no Brasil” (2013), “as práticas restaurativas tanto oferecem ao autor a oportunidade de compreender as razões e consequências de suas atitudes, além de permitir que ele repare os possíveis danos provocados, em um processo de reflexão e responsabilização que ele próprio ajuda a construir”. A função do mediador que propicia essa reflexão e responsabilização do autor ou autores é dotada de uma técnica, com sutileza, respeito e congruência, onde, todos que perfazem uma instituição escolar podem exercer, porém, não qualquer um, é preciso uma sensibilização, um projeto bem construído e trabalhado cotidianamente.

2. Metodologia

2.1 Tipo de Pesquisa e Abordagem

Este trabalho teve início a partir de observações feitas durante nossa experiência como pedagogo em instituições públicas e privadas, em cursos que participamos sobre o referido tema e durante as aulas de pós-graduação em gestão e coordenação escolar que frequentando durante 18 meses. A pesquisa qualitativa e bibliográfica serviu como o apport para o método etnográfico que utilizamos na execução do projeto ora apresentado.

2.2 Espaço da Pesquisa

Os dados dessa investigação foram coletados em uma escola comum, pública, de nível fundamental, situada na cidade de Fortaleza.

2.3 Participantes da Pesquisa

Participaram desta pesquisa, cinco alunos do 4º ano B, manhã, bem como a coordenadora e secretária da escola.

2.4 Instrumentos de Coleta de Dados

Os instrumentos desta pesquisa além da observação foram às entrevistas feitas a partir de perguntas pré-determinadas (entrevista semiestruturada) com alunos e coordenador escolar, onde, registramos respostas e observações em um diário de campo.

3. Resultado e Discussão

A experiência como pedagogo e atuação em algumas escolas publica de Fortaleza contribuíram para uma observação mais “apurada” e uma confirmação dos fatos relatados durante as visitas que realizamos no período de seis de outubro de dois mil e quatorze a onze de outubro de dois mil e quatorze, com duração de aproximadamente noventa minutos cada momento na escola.

No intuito de efetivar a coleta de dados realizamos entrevistas semiestruturada com um grupo de cinco alunos (crianças entre 10 a 12 anos) do quarto ano, e com Rubi, a coordenadora da escola, (não falamos com a diretora, porque está de licença) que acumula segunda ela a função de vice-diretora também, onde podemos observar certo desconforto de tal profissional com o desempenho de seu papel atualmente na organização visitada.

Contudo, para nossa surpresa, além do grupo de alunos e da coordenadora Rubi, que sempre estava presente em nossos momentos na escola, tivemos a participação da secretária escolar (Ametista), que ficou de coadjuvante nesse processo, pois, sua participação se deu a pedido de Rubi, porém, Ametista se limitou a ficar como ouvinte, pois, não emitiu nenhum comentário durante as visitas.

Aplicamos inicialmente um questionário oral com seis perguntas ao grupo de alunos, onde, em nossa primeira indagação perguntamos: Você gosta dessa escola? Três alunos responderam que não, e que só iam por eram obrigados pelos responsáveis, enquanto os outros dois disseram que sim. Em nossa segunda indagação perguntamos: O que vocês mais gostam na escola? Todos responderam que gostam mais da recreação e do recreio.

Nesse aspecto observamos que o grupo estava bastante desestimulado, que não encontra nenhum atrativo para estudar realmente ou para se dirigir a escola com esse intuito, o de aprender, onde, nem com a família que simplesmente obriga a maioria das crianças a frequentar a escola por motivos diversos (além de aprender ou desenvolver algum conhecimento), sem orientação, muitas vezes por não saber como fazer isso, e nem com a escola (gestão), que cercados de cobranças inautênticas não conseguem estimular seu corpo docente e seus alunos, através de projetos, propostas pedagógicas e sociais que envolvam a comunidade do entorno e seus próprios colaboradores, no intuito de estimular o interesse ao aprendizado e uma cultura de paz entre todos.

Concordamos com Joca, (2009), no aspecto de “chamar” a responsabilidade da escola.

Nesse cenário, a escola, como peça de engrenagem social, é a instituição destinada à educação formal dos sujeitos, responsável, tanto pelo desenvolvimento cognitivo quanto pela formação humana. Ela envolve em suas ações educativas, aspectos sociais, morais e éticos essenciais para o desenvolvimento dos sujeitos em sociedade (p. 101).

Seguimos perguntando as crianças selecionadas para entrevista: Como são suas amizades na escola? Todos responderam que são boas e que já são amigos há alguns anos. Continuamos com a quarta pergunta: Como são os momentos de recreação na escola? Todos responderam que é muito legal, porém, as atividades praticadas nessa recreação são simplesmente a pratica de futsal e algumas brincadeiras que se repetem sempre, segundo eles, como carimba e brincadeira de pular corda. Fato relevante na colocação das crianças foi que essa recreação é ministrada por professores (pedagogos) e não pelo professor de Educação Física.

Quinta pergunta: Como acontece o recreio de vocês? Todos responderam que brincam muito, pois, sempre vão merendar antes e depois brincar, pedimos para falarem quais eram as brincadeiras? Polícia e ladrão, futebol, homem pega mulher e brincadeira de “peia” (lutas), falaram ainda que em todos os dias sempre aconteciam brigas durante o recreio e quase todos os dias os professores colocavam alguém para coordenação.

Todos vocês se sentem seguros na escola? Três responderam que sim, os outros dois disseram que não, pois, segundo eles, os alunos maiores sempre batem neles, por vários motivos, tomar algum dinheiro que vez por outra levam, para brincar com outros colegas que assistem a situação, entre outros, além de conflitos que acontecem no entorno da escola com alunos maiores, onde, “gangues” ameaçam invadir a escola para agredir o envolvido, porém, os entrevistados dizem que ficam com medo.

Sexta pergunta: Vocês percebem que existe diálogo e respeito entre alunos e entre alunos e professores na escola? Todos responderam que não, não existe respeito com ninguém, diálogo sim! Pedimos para explicarem melhor, então relataram que os alunos não se respeitam e por isso estão sempre brigando, mais depois ficam bem, com relação aos professores três crianças disseram que alguns são ignorantes (ríspidos) e gritam muito e eles não respeitam mesmo, e os outros dois disseram que só não respeitam porque não respeitam nem os pais, por isso fazem o que querem mesmo.

Devemos levar em consideração a fragilidade social em que essas crianças e adolescentes estão inseridos, onde, a escola nesse contexto é vista por essas famílias como uma única “válvula de escape” para eles, que massacrados socialmente, estigmatizados, com famílias despedaçadas, essas crianças são vítimas fazendo vítimas. Os conflitos escolares, na verdade perpassam os muros dessa instituição, que por outro lado, com uma organização fragilizada pedagogicamente e socialmente, não consegue muito além de reproduzir ou espelhar uma sociedade estigmatizada, violenta a qual esses sujeitos especialmente são impostos, já no momento em que são concebidos. Acreditamos que a mediação de conflitos poderia colaborar para diminuir ou amenizar esses conflitos dentro e fora da escola.

A mediação, definida como um método pacífico de solução de conflitos, é essencialmente um instrumento de desenvolvimento e promoção da cultura de paz, de acordo com a declaração por uma cultura de paz da Unesco (UNESCO, 1999).

Realizamos cinco perguntas dentro do tema para Rubi (coordenadora).

1) O que você entende por Mediação de conflitos?

Acredito que mediação de conflitos seja algo ou alguma atitude que tomamos ou fazemos para intervir, separar ou acalmar uma situação em que esteja acontecendo algum tipo de confronto, briga, discussão, que é o que acontece muito nas escolas hoje em dia, principalmente entre adolescentes. (Rubi)

2) Que tipos de conflitos são mais comuns nessa escola?

Geralmente o que mais acontece são brigas entre meninos, porém, as meninas agora também estão mais  valentes, brigam entre elas e algumas vezes batem também nos meninos. Essas confusões acontecem geralmente durante o recreio, que por mais que a gente coloque os funcionários da escola para ficar olhando, não adiantam, eles não respeitam é mais ninguém! Às vezes eles já vêm para escola pensando em resolver problemas que tiveram entre eles na rua onde moram. (Rubi)

Observamos que o pouco conhecimento da entrevistada sobre o tema e as situações conflituosas corriqueiras e já colocadas como algo banal, onde práticas restaurativas como a própria mediação precisam ser aplicadas com urgência, nos remetem para questões estruturais da educação em geral. Chrispino, (2007), já chamava atenção para a situação da educação que estamos vendo na prática.

A educação no Brasil, apesar da existência de programas importantes como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério – FUNDEF-, vem sofrendo com a falta de políticas públicas de longo prazo e efetivas que atendam as necessidades da comunidade, vem sendo esvaziadas pelo afastamento de bons docentes por conta do desrespeito e da perda significativa dos salários, vem sendo “sucateada” quando a história nos ensinou sobre uma escola cercada de respeito, pertencimento e “sacralidade”. (p.13)

3) Quem é responsável por mediar esses conflitos?

É quem tiver na hora, os funcionários (porteiro, serviços gerais), há, os estagiários e um rapaz que do projeto amigo da escola, ajudam também, eles ficam circulando durante o recreio e são os primeiros que pegam, separam as brigas e trazem para a sala da coordenação ou da direção, aí quem tiver na hora, eu, ou a diretora resolve. Acontece também, as vezes do próprio professor trazer, quando a confusão é na aula dele ou quando as vezes eles veem pelos corredores. (Rubi)

4) Escola desenvolve algum projeto que promova o diálogo entre alunos e estimule uma cultura de paz?

É assim, não temos vice-diretor ainda, e nossa diretora está de licença já faz algum tempo, essa escola está com o prédio interditado e estamos usando esse espaço alugado, onde não podemos utilizar alguns locais aqui, porém, temos o professor do mais educação que desenvolve projetos de teatro e danças, temos o projeto recreio é para brincar, onde os menores (educação infantil) trazem brinquedos de casa e o alunos do terceiro ao quinto ano recebem jogos, temos quarta da leitura, que uma vez por semana são feitas atividades na sala de leitura com todas as turmas e vez por outra aparecem outros projetos, o problema é que estamos ainda nos adaptando a nova situação (Rubi)

Percebemos que um indivíduo para mediar os conflitos não pode e nem deve ser todos e qualquer um, pois, é preciso ser alguém “preparado” com algumas habilidades específicas para desenvolver tão importante função. Geralmente são os coordenadores e/ou diretores que cumprem essa função, contudo, a postura colocada por Rubi, fomenta o descrédito nos discentes diante da falta de projetos de prevenção de conflitos, bem como a de práticas restaurativas.

A pessoa que for nomeada como mediador de acordo com a instituição “Terre des hommes Lausanne no Brasil” (2013), deve:[...] buscar sair de conclusões imediatas, dos dualismos comuns (eu X outro; certo X errado; bom X mau); respeita a complexidade e o contraditório. Suspende julgamento e mobiliza a imaginação. Interroga (-se). (p. 80)

5) Na sua opinião, você acha que seria interessante um projeto específico que trabalhasse a mediação dos conflitos, se for sim, quem você que seria responsável por essa iniciativa?

Sim, com certeza! Acho que a responsabilidade é de todos nós que fazemos á escola, porém, penso eu que deveria partir da direção, para mobilizar todos, professores, pais e regional! Às vezes quando a confusão é muito séria a regional manda uma pessoa que segundo eles é uma mediadora de conflitos, que fez um curso [...] e essa pessoa fica sabendo do acontecido faz algumas visitas conversando com os envolvidos e deveria resolver ou melhorar a situação, só que é uma pessoa que não está no dia-dia da escola, não passa para a gente nada, vem conversa e vai embora! Na única vez que veio não resolveu muito. Mais acho que se tivesse dentro da escola algo do tipo, mais que conhecesse nossa realidade, tenho certeza que seria bem melhor! (Rubi)

6) Como é a relação entre professores, alunos e funcionários nessa escola?

Nesse  momento  Rubi  fica  olhando  por  alguns  segundos  para  Ametista,  respira profundo e começa:

Olha, vez por outra acontece alguns “bate bocas” entre professoras, mais nunca na frente dos alunos, geralmente são por motivos banais, às vezes até com a gente mesmo acontece de desentender, comigo com a diretora, é que o pessoal aqui tem mania de fazer “tempestade em copo d’água. Mais sempre fica tudo bem depois, com os outros funcionários ainda não tivemos nenhum problema, só uma vez que um porteiro quis agredir um menino, mais faz tempo (Rubi).

É relevante que a coordenadora reconheça a importância de uma prática restaurativa e que essa atitude seja não somente de um sujeito, mais de todos, porém, não concordamos que a iniciativa ou o “primeiro passo” seja dado somente pela diretora, mesmo porque a mesma está ausente, e na falta de uma vice, é a Rubi que está acumulando as funções, compreendemos que seus desafios acumulando funções dificultam bastante para o desempenho de um trabalho satisfatório e a construção de projetos, no entanto, acreditamos que se ela solicitar um auxílio para o setor de educação da prefeitura, procurar mobilizar professores, dialogar com as famílias, com alunos, possivelmente algo de melhor vai acontecer, pois, aceitar que meninos e meninas se agridam todos os dias e achar natural é que não é possível!

De acordo com Ramos Júnior, (2012);

Pergunta-se como exigir um comportamento exemplar de uma criança e/ou adolescente, inclusive, adulto em conflito com alguém, se a essa pessoa não foi dada a oportunidade de aprender a se comportar pacificamente? Para muitos alunos, tudo que aprenderam da vida foi lutar. Tendo uma disputa com colega, eles vão brigar. Daí a importância de ensinar outro caminho. Ao mostrar outra via, pode-se responsabilizá-los. É por isso que a existência de um projeto sobre resolução de conflitos faz sentido em qualquer escola. (p. 10).

Chrispino (2007), tenta explicar uma causa para tantos conflitos na escola;

Com a massificação, trouxemos para o mesmo espaço alunos com diferentes vivências, expectativas, sonhos, valores, culturas e com diferentes hábitos, mas a escola permaneceu a mesma! Parece obvio que este conjunto de diferenças é causador de conflitos que, quando não trabalhados, provocam uma manifestação violenta. Eis, na nossa avaliação, a causa primordial da violência escolar (p.16)

Percebemos que a escola visitada sofre com a falta de projetos que contemplem  ou  abordem  práticas  restaurativas  que  contribuam  no  mínimo  para diminuição dos conflitos dentro da escola, notamos ainda, uma fragilidade organizacional e pedagógica que corroboram para desentendimentos mesmo entre educadores, onde, a necessidade de uma boa relação entre corpo gestor, docentes, discente e famílias, é de fundamental importância para construção de um clima de paz entre todos que formam esta comunidade escolar, que deve “refletir” para a sociedade valores éticos e morais com respeito ao próximo, e não somente aceitar essa “onda” de violência que desafiam o sistema educacional de maneira geral.

4. Considerações Finais

O trabalho ora apresentado revelou que os conflitos nas escolas podem se estabelecer por diversas formas e motivos, porém, é na forma de violência física que se tem mais relatos e os motivos em sua maioria são banais, contudo, identificamos que crianças e adolescentes se utilizam de comportamentos violentos e de intolerância muitas vezes por não mais conseguirem distinguir mesmo o que é violência e o que é natural, pois, notamos durante nossa pesquisa que algumas crianças e adolescentes agridem e são agredidas sem nem se dar conta que estão sendo vítimas de atos de brutalidade, sem motivos aparentes, reproduzindo esse tipo de comportamento por não conhecer outro possível para situações de intolerância.

Observamos que a violência é fruto da sociedade, contudo, a escola como uma instituição social precisa está atenta e preparada para não cair na “armadilha” de simplesmente refletir essa sociedade, pois, seu papel é de desenvolver ações educativas de aspectos não só cognitivos mais, éticos e sociais, não pode se “acomodar” com o contexto em que está inserida, pois, em casos como a escola que visitamos, essa pode ser a única oportunidade de crianças e adolescentes de determinadas comunidades carentes de conseguir uma oportunidade de conhecer outras maneiras de se colocar no mundo, de descobrir outras formas de se relacionar.

No intuito de contribuir para um clima de paz dentro da escola algumas medidas podem ser tomadas pelo núcleo gestor, no entanto, no caso de escolas municipais (de Fortaleza) a Secretaria de educação do município precisa e deve apoiar os gestores em suas ações de prevenção e restauração da paz nas escolas. Porém, seja diretor ou coordenador, é preciso buscar parcerias com outras escolas que  tenham  conseguido  amenizar  a  violência,  pesquisar  por  soluções,  mobilizar pessoas, procurar desenvolver projetos que envolvam os professores, que também são vítimas e que em alguns casos ainda fazem vítimas sem nem se dar conta, envolvendo alunos, famílias, e comunidade escolar como um todo.

Entendemos a mediação de conflitos como mais uma peça de uma engrenagem para as práticas restaurativas na construção de um clima de paz, onde, valores morais e éticos sejam respeitados e trabalhados dentro da escola. Compreendemos que o trabalho do gestor escolar não é algo simples, sobretudo, no que diz respeito aos atritos constantes existentes na escola e não só entre alunos, porém, se a escola não der o exemplo quem mais poderia dar para essa juventude?

Sobre os Autores:

André Luis Silva Batista - Pedagogo e especialista em coordenação e gestão escolar, aluno do sétimo semestre do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza, mediador de conflitos escolares, título conferido pela Instituição Terre dos Homens no Brasil, atua a pelo menos onze anos como coordenador pedagógico, professor do ens. Fundamental do município de Fortaleza, atuou como educador social da equipe de rua da extinta FUNCI, fundação da criança e da família cidadã de Fortaleza entre outros.

Raimunda Cid Timbó - Orientadora Professora Mestre Raimunda Cid Timbó, UECE.

Referências:

BELEZA, Flávia Tavares. Estudar em paz: mediação de conflitos no contexto escolar. Participação: revista do decato  de  extensão  da  Universidade  de  Brasília. Ano 2011, v. 11 , n. 20 , mês DEZ ,  páginas 52-59.

CHRISPINO, Alvaro. Políticas educacionais de resolução da violência: mediação do conflito escolar. São Paulo: Editora Biruta, 2002.

_______________. Mediação de conflitos: cabe a escola tornar-se competente para promover transformações. Revista do professor, Porto Alegre, ano 20, n. 79, p. 45-48, jul./set. 2004.

_______________. Gestão do conflito escolar: da classificação dos conflitos aos modelos   de   mediação.   Ensaio:   avaliação   e   políticas    publicas    em educação.  Ano 2007,  v. 15 , n. 54 , mes JAN/MAR ,  páginas 11-28.

FREIRE, Paulo. Essa Escola Chamada Vida: Depoimentos ao repórter Ricardo kotscho. São Paulo: Editora Ática, 3ª ed. 1986.

_______________. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à Prática Educativa. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1996. (Coleção Leitura).

_______________.  Conscientização:  Teoria  e  Prática  da  libertação.  Introdução  ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Centauro, 2005.

JOCA, Alexandre Martins. Desatando Nós: Fundamentos para a práxis educativa sobre o gênero e diversidade sexual. Fortaleza: Edições UFC, 2009.

SALES, Lília Maia de Morais. Mediação de conflitos: Família, Escola e Comunidade- Florianópolis: Conceito editorial, 2007.

_______________. Mediare: um guia prático para mediadores – Rio de Janeiro: GZ ed., 2010.

SANTOS, Jose Vicente Tavares dos. A Superação da violência na escola: o saber crítico e o reconhecimento dos jovens. Ciência em movimento. Ano 2006, v. 8 , n. 16, páginas 67-78.

TERRE DES HOMMES, Lousanne no Brasil. Justiça juvenil restaurativa e práticas de resolução positiva de conflitos. Fortaleza, Ceará, 2013.

Informar um Erro Assinar o Psicologado