A Psicopedagogia e o Bullying Escolar

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Resumo: Dentro da instituição educacional o bullying escolar é uma forma de agressão disfarçada, que causa danos, frequentemente irreversíveis, na vida daqueles que estão envolvidos, de forma a destruir-lhes a saúde psicológica e física. As consequências como baixa auto-estima, depressão e marginalização, podem estimular desejos e também atitudes de suicídios e assassinato. Por isso, merece a intervenção de profissionais qualificados, de preferência em uma atuação constante e em equipe, na qual também participa a família e a escola. A psicopedagogia institucional e clinica, com sua parcela de participação, tem como objetivo resgatar o desejo de aprender e até mesmo de viver o que foi perdido pela vitima do agressor e de todos os envolvidos. Através de uma pesquisa bibliografia considerando as contribuições de autores como FERNÁNDEZ (1991), PIAGET (1987) COSTANTINI (2004) entre outros, procurando desenvolver uma ligação entre o bullying e a teoria psicopedagogia, para que possa possibilitar o desenvolvimento de uma intercessão entre ambos, capaz de auxiliar profissionais, pais e aqueles que já estão envolvidos.

Palavras-chave: Aprendizagem, Transtornos de aprendizagem, Agressão. Comportamento, Saúde do adolescente, Bullying.

1. Introdução

O presente trabalho tem como tema A Psicopedagogia e o bullying Escolar, uma vez que isto é, infelizmente, um evento onde ocorre a agressão velada, física, verbal ou psicológica, sendo capaz de originar enorme prejuízo emocional, psicológico e social no indivíduo vitimizado. Assim sendo, por ser tratar de uma realidade cada dia mais presente no âmbito escolar, capaz de comprometer o processo de aprendizagem, a psicopedagogia não poderia deixar de analisá-lo, bem como de preparar-se para atuar em situações correlacionadas.

O objetivo desse artigo é desenvolver uma ligação entre o bullying e a teoria psicopedagógica, tendo como alvo os profissionais preocupados com o fenômeno, os próprios envolvidos, pais e interessados, para que recebam mais informações capazes de remetê-los a uma atitude eficaz na prevenção, diminuição, e quem sabe no combate ao fenômeno bullying e seus efeitos.

2. Desenvolvimento

A psicopedagogia se ocupa do estudo do processo de aprendizagem humana, de forma preventiva e terapêutica. Ainda que o foco da psicopedagogia seja o problema de aprendizagem, faz necessários que se ocupe do processo de aprendizagem como um todo, para que se possam descobrir as barreiras que impedem ou atrapalham o aprendiz de se autorizar, a saber.

Trabalhando com uma concepção de aprendizagem, a Psicopedagogia, participa desse processo como um equipamento biológico com disposições afetivas e intelectuais que interferem na forma de relação do sujeito com o meio, de modo que essas disposições influenciam e são influenciadas pelas condições socioculturais dos sujeitos e do seu meio.

Os fatores biológicos (intrínsecos) têm tanta importância quanto os sociais (extrínsecos), pois, além de estarem completamente entrelaçados, influenciam positivamente ou negativamente no processo de aprendizagem. Deste modo, de  acordo com Paín (1992), existem dois tipos de condições para a aprendizagem: as externas, que definem o campo do estimulo, e as internas, que definem o sujeitos.

Segundo, Fernández (1991) para aprender é necessário que existam conexões de aprendizagem, que supõem a articulação como meio, dos intercâmbios afetivos, cognitivos, orgânicos, simbólicos e virtuais. Essa afirmação entende que a aprendizagem está relacionada a um ser que aprende e a um que ensina – sendo este, não somente o professor, mas qualquer pessoa participante do processo educacional do sujeito - e no vinculo estabelecido entre eles.

Fernández (1991) afirma ainda que todo o processo de aprendizagem está ligada a quatro dimensões articuladas, de modo anão será aceito falar de aprendizagem excluindo qualquer uma. São elas: organismo, corpo, inteligência e desejo.

O nosso organismo constitui a infra-estrutura neurofisiológica de todas as coordenações possíveis e possibilita a memória dos automatismos, ou seja, é um funcionamento já codificado, que necessita do corpo. Em concordância, Weiss (2002) afirma que alterações nos órgãos sensoriais impedirão ou dificultarão o acesso aos sinais do conhecimento. Portanto, é conveniente destacar que pessoas com limitações orgânicas podem não apresentar problemas na aprendizagem, visto que,dentro de suas possibilidades, não há déficit, ou seja, o processos de aprendizagem flui corretamente dentro de suas limitações.

Por sua vez o corpo, é o meio por onde passa a aprendizagem, do inicio até o seu fim. È por meio da exploração do corpo que o bebe começa absorver as suas primeiras aprendizagens e a formar sua identidade. Sendo assim, os sentimentos e os pensamentos são transmitidos a partir do corpo e, portanto, o conhecimento é fornecido e adquirido igualmente a partir dele.

Caracterizando-se pela construção da objetividade, a dimensão cognitiva, que engloba a inteligência, refere-se à estrutura lógica. A inteligência tende a objetivar buscar generalidades, classificar, ordenar, procurar o que lhe é semelhante, o comum. Piaget (1987) afirma que a cognição utiliza os mecanismos de acomodação e de assimilação, os quais participam da absorção do conhecimento ao longo do processo de amadurecimento das ações mentais da criança em busca de uma organização lógica dois objetos e do mundo. Uma aprendizagem normal refere-se a um equilíbrio entre os movimentos assimilativos e acumulativos.

O conhecimento provém de ensino sistemático ou assistemático, porém, a possibilidade de processar este conhecimento depende da presença, nos sujeitos, de uma estrutura cognitiva adequada ao nível de compreensão requerido e de um vínculo que possibilite representá-lo.

A linguagem, o gesto e os afetos agem como significados ou significantes, com os quais o sujeito pode dizer como se sente ao mundo. Expressa nossos sonhos, nossos erros, nossas lembranças, nossas falhas, nossos mitos. Trata-se, por conseguinte, das significações dadas aos representantes psíquicos existentes no inconsciente, caracterizando a importância do meio externo à formação psíquico do sujeito.

A aprendizagem é um processo que se significa familiarmente, ainda que se aproprie individualmente, intervindo o organismo, o corpo, a inteligência e o desejo do aprendiz e também de quem ensina. O aprender interage com a inteligência e com o desejo. Portanto, para aprender é necessária a articulação entre os quatro níveis.

Em conformidade, Vocaro (2005), afirma que a causa dos problemas de aprendizagem passam a ser analisadas a partir de três modelos: 1) a causalidade organiza, a qual remete a problemas biológicos, genéticos e físicos; 2) a causalidade a partir de determinação dada pela escola fracassada, ou seja, é decorrente da conduta da escola e 3) a causalidade determinada pela posição da criança no discurso dos pais, isto é, oriunda das questões parentais, que demonstram que a série de significantes inconscientes relacionada ao ato de aprender inibiu a aprendizagem.

Por tanto, a família e a escola, são efetivamente contribuintes e definidores do desenrolar saudável ou do fracasso da aprendizagem. Os educadores possuem uma grande importância no estimulo de um processo de aprendizagem, sua postura, seu exemplo, sua maneira de lidar com o sujeito, com o objeto de conhecimento e com a forma de circulação do saber são fundamentais para desenvolver no sujeito  uma motivação  para o saber. Em contrapartida, no caso de uma má condução, são capazes, igualmente, de desenvolver bloqueios e de impedir que a aprendizagem se processe corretamente.

De acordo com Paín (1992), os problemas de aprendizagem são perturbações produzidas durante a aquisição e não nos mecanismos de conservação e disponibilidade, embora estes aspectos mereçam consideração. Assim, com exceção das rupturas muito preciosas, a significância do problema de aprendizagem não deve procurar-se no conteúdo do material sobre o qual se opera, mas, preferencialmente, sobre a operação como tal.

Assim como a aprendizagem participa de um processo, a não aprendizagem também. O não-aprender é originado de um processo desenvolvido no âmbito no qual o sujeito está envolvido, com participação de outras pessoas, outros desejos, outros significantes, embora a um possível fato específico lhe sejam atribuída a “culpa”. Nota-se, entretanto, que muitas vezes o fator gerador da dificuldade de aprendizagem tem menos valor do que o processo dele decorrente.

A psicopedagogia visa, juntamente, desenvolver um trabalho com a criança família e a escola, sensibilizando-os sobre a importância de sua conduta institucionalmente, onde o trabalho psicopedagógico contribui para a prevenção ou diminuição de dificuldades de aprendizagem, com o objetivo de favorecer um ambiente educacional saudável que não estimule bloqueio ou limitações da aprendizagem, por meio da aplicação de métodos preventivos com os alunos, a equipe, por meio de profissionais e a família. Ademais, visa detectar os problemas já instalados e, caso necessário, propor mudanças na estrutura geral da escola, na conduta de profissionais específicos e/ou encaminharem o discente a um clínico.

A psicopedagogia clinicamente contribui para o tratamento das dificuldades instauradas. Bossa (2000) considera, ainda, que o trabalho clínico na Psicopedagogia tem função preventiva na medida em que, ao tratar determinados problemas pode prevenir o aparecimento de outros.

 Quando o psicopedagogo, ao receber um sujeito com queixa de dificuldades de aprendizagem, seja ele encaminhado pela escola, por outro profissional, pelos pais ou por iniciativa do próprio, inicia um processo diagnostico para investigação da causa do problema.

De acordo com o resultado do diagnostico adotada algumas das seguintes medidas: inicio do atendimento psicopedagógico, encaminhamento a especialistas diversos (seja por não ser atuação de psicopedagogo, seja para trabalho multidisciplinar), intervenção na escola e intervenção na família.

 O atendimento psicopedagógico, no caso de o diagnostico apontar a sua necessidade, está respaldado, nos seguintes pilares: 1) a re-significação das fantasias relacionadas ao ato de aprender; 2) a restauração do vinculo que o sujeito estabelece com o objeto de conhecimento; 3) a reconstrução da auto-imagem do sujeito enquanto aprendente, e 4) a reparação do vínculo do sujeito com o ensinante.

Uma das características mais marcantes da proposta oferecida é a busca e valorização das possibilidades do ser que aprende, viabilizando o caminho para a auto-estima que se constitui a chave-mestra, ou seja, quais questões ocasionam o distanciamento do aprendente com o saber (orgânicas, escolares familiares).

Bullying de acordo como dicionário, deriva do inglês bully que representa duas definições: como substantivo e como verbo. Como substantivo o termo bully significa agressor e como verbo significa intimidar, ficando seu derivado bullying definido como comportamento agressivo. Podemos encontrar outras definições para o termo bullying como: valentão, brigão, brutal, tirano, insolente e também verbos como maltratar e ameaçar.  O bullying sempre presente em todas as escolas, passou a ser estudado cientificamente somente nas ultimas décadas, tamanho a preocupação dos profissionais ao perceber a capacidade da agressão gerar traumas, muitas vezes irreversíveis nos envolvidos, a violência velada, caracterizada pela constância e repetição de agressões - físicas verbal ou psicológica – a uma criança ou adolescentes, passou a ser denominada bullying.

 FANTE (2005) define de forma concisa o termo bullying, facilitando a sua compreensão. De acordo com ela:

“[...] bullying é um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas  que ocorrem sem motivação evidente, adotado por um  ou mais alunos contra outro(s),  causando dor, angustia e sofrimento. Insultos, intimidações, apelidos cruéis, gozações que magoam profundamente, acusações injustas, atuação de grupos que hostilizam, ridicularizam e infernizam a vida  de outros alunos levando-os à exclusão, além de danos físicos, morais e materiais, são algumas das manifestações do “comportamento bullying”(FANTE,2005, p. 28 e 29).

Os agressores costumam estarem em situações de poder, autoridade e admiração, atingindo a vitima com constantes emissões de ameaças, chantagens dentre outros, tal comportamento é decorrente de carência afetiva, ausência de limites e maus-tratos e explorações emocionais violentas provenientes dos pais, caracterizando uma ausência de modelos educativos ético-humanistas, além de poder levá-lo a desenvolver uma tendência ao uso de drogas e ampliação do fenômeno bullying em casa e no trabalho.

Os espectadores ou testemunhas, por razões diversas, presenciam à violência, porém nada fazem, mesmo que sejam desfavoráveis ao fato. Podem se sentir inseguros e incomodados com a situação e, portanto, também tendem a ter o processo de aprendizado comprometido do desenvolvimento do pensamento a partir da internalização da crença em si mesmo e consolidação de um objeto permanente. Isso lhe possibilitará a libertação da afetividade, formação de vínculos e, consequentemente, da motivação para a busca do saber.

A psicopedagogia, em suma, visa possibilitar que as quatros dimensões (orgânica, corporal, cognitiva e simbólica), quando desarmônicas, sejam novamente intercambiáveis, a ponto de possibilitar que o processo de aprendizagem deslanche com a fluidez necessária. As demais cabe-lhes detectar a causa de tal desarmonia,

A vítima, por sua vez, tende a ter um perfil típico, que engloba “timidez, ansiedade, insegurança, falta de habilidades para se impor, medo de denunciar seus agressores, baixa auto-estima”, o que a torna vulnerável e passiva à ação do agressor. Muitas das vezes, possui algumas características físicas ou comportamentais marcante, como obesidade, baixa estatura, sardas, não gostar de praticar esportes, dentre outras, o que a destaca e a faz diferente dos demais, despertando a atenção do agressor.

MARTINS (2005) tendo como base vários autores sobre o tema, insere os comportamentos de bullying em três categorias:

  • Direto e Físico: Inclui bater ou ameaçar faze-lo; dar pontapés, roubar ou estragara objetos que pertençam aos colegas, extorquir dinheiro ou ameaçar faze-lo, forçar comportamentos sexuais ou ameaçar faze-lo, obrigar ou ameaçar os colegas a realizar tarefas servis contra a sua vontade;
  • Direto e Verbal: Engloba insultar, pôr alcunhas desagradáveis, fazer gozações, fazer comentários racistas, salientar qualquer característica ou deficiência de um colega de forma negativa;
  • Indireto: Refere-se a situações como excluir alguém sistematicamente do grupo de pares, ameaçar com freqüência a perda da amizade ou a exclusão do grupo como forma de obter algo do outro  ou como retaliação de uma suposta ofensa previa, espalhar boatos sobre os atributos e/ou condutas de alguém com vista a destruir a sua reputação, em suma manipular a vida social dos pares.

Em decorrência do bullying, a vitima pode desenvolver ou estimula pensamentos suicidas, isolamentos, ansiedade, ira, indignação, rebaixamento ainda maior da auto-estima, depressão, medo, traumas, angustias, vergonha, desejo de vingança, problemas psicossomáticos, marginalização, muito mais sofrimento e aversão à escola.

Essas mobilizações psíquicas de medo, constrangimento, angústia e raiva reprimida poderão aprisionar sua mente a construções inconscientes de cadeias de pensamentos, que resultarão em dinâmicas psíquicas destrutivas de si  mesma e da sociedade como, por exemplo, a instalação do desejo de matar, por vingança, o maior numero possível de pessoas,seguindo de suicídio. O trágico é que as vitimas desse fenômeno são feridas na área mais preciosa, intima e inviolável do ser a sua alma.

Porém, mesmo que as sequelas não atinjam fatalidades irreversíveis, podem acarretar um prejuízo incalculável, em diversos âmbitos, a vítima, aos agressores e às testemunhas, caso não recebam o atendimento necessário.

Nesses comportamentos, às vezes considerados irrelevantes, pesa de maneira decisiva a ausência de intervenção por parte dos adultos. A escola, deste modo, enquanto instituição educadora, não pode ser omissa ao fenômeno bullying e deve ser compromissada em ater-se ao fato, buscar atualizar-se e agir eficiente no combate ao mesmo.

Todos os profissionais do âmbito escola devem estar engajados no processo, comprometidos com a elaboração e desenvolvimento de debates, palestras, campanhas, trabalhos específicos, parcerias com a família e com demais profissionais, dentre outros, para que, futuramente, possam se orgulhar do ambiente sadio e pacífico que estimularam, em decorrência do desenvolvimento de uma vinculação entre cognição e afeto dentro do ambiente escola.

Em condição de parceria, a família, de todos os envolvidos, não deve deixar que a situação seja resolvida somente pela escola, devendo contribuir com uma participação ativa. A influência familiar é definidora no desenvolvimento da estrutura psicológica da criança, portanto, os pais devem se comprometer a oferecer-lhe, desde o seu nascimento, uma formação digna, respeitosa e saudável.

Todo esforço dispensado não será em vão, visto que, o bullying e o desrespeito tendem a desaparecer onde haja um clima de atenção e de vinculo entre as pessoas. De acordo com a psicopedagogia, o bullying é considerado um dos atuais causadores de problemas de aprendizagens, veste ser capaz de desarmonizar as dimensões cognitivas, simbólicas, orgânica e corporal. A aprendizagem, de acordo com Negrini, necessita de motivação como componente inerente ao processo, veste estar sempre presente como desencadeadora da ação.

Spitz (2004) afirma que os afetos determinam a relação entre percepção e cognição, e servem para explicar comportamentos e acontecimentos psicológicos. Natural, então, que o objeto de aprendizagem deixe de ser objeto de desejo e passe a ser considerado objeto de repulsa, acarretando, portanto, o não-aprender.

Então é evidente que o processo educacional se torne comprometido, visto que o aluno, desmotivado, passa a não mais ter interesse em frequentar a escola. Por esse motivo, passa a inventar qualquer motivo para falta às aulas, não se preocupa em realizar as tarefas, não presta atenção às explicações, não se socializa, enfim, não desenvolve um envolvimento emocional saudável com o ambiente escolar. Em consequência, o aprendente tende à retenção de série, troca de escola e, até mesmo, evasão escolar.

Portanto o ambiente escolar, torna-se inadequado à vitima, uma vez que os colegas, que deveriam estar enquadrados em um nível de amadurecimento e de comportamento similares, passam a ser considerados como agressores ou impotentes; o agressor, propriamente dito, amedronta-lhe, de modo a faze-la perder qualquer motivação relacionada ao estudo (ou a si mesma), além de tender a ter o seu próprio processo educacional abalado; as testemunhas passam a ser vistas como rivais e desinteressadas na resolução do problema, além de também poderem estar comprometidas educacionalmente; a família e a escola, por sua vez, quando desconhecem o fato, igualmente não se tornam contribuinte ao fim do sofrimento e, quando ignoram-na, considerando tratar-se de comportamentos comuns à idade e sem importância.

Consequentemente, a isso tudo, a vitima tende a se excluir de todos os envolvidos e a manter-se em um completo isolamento, por considerar-se sozinha, abandonada e incompreendida. Na maioria das vezes como não pode dispensar a escola, sozinha em seu sofrimento, acaba forçando uma motivação para frequentar aquele espaço, se, obviamente, aproveitar devidamente as ofertas educacionais, gerando as falhas no seu processo de aprendizagem.

 A superação dos traumas causados pelo fenômeno poderá ou não ocorrer, dependendo das características individuais de cada vitima, bem como o da suas habilidades de se relacionar consigo mesma, com o meio social e, sobretudo, com a sua família.

A escola juntamente com o psicopedagogo deve estar atenta às questões que possam vir a afetar os grupos sociais, investigando e procurando possíveis formas de sanar ou amenizar os problemas trazidos pelas demandas escolares. Segundo Bossa (1994, p. 11), a psicopedagogia permite que se estude:

[...] as características da aprendizagem humana, como se aprende como essa aprendizagem varia evolutivamente e está condicionada por vários fatores, como se produzem as alterações na aprendizagem, como reconhece-las, trata-las e preveni-las.

Compreender o aluno, não significa partir das condições reais de sua existência, seus limites, suas habilidades, atitudes, cultura, forma d e ler o mundo e a si próprio, suas possibilidades, condutas, etc., tudo o que determina sua vida. Existe uma demanda de crianças e adolescentes que sofrem esse tipo de assédio, e é comum as mães ou próprias vitimas chegarem a direção da escola se queixando desse tipo de pratica no ambiente escolar, essas agressões entre alunos, físicas ou morais, trazem consequências sérias, tanto para quem as comete como para suas vitimas.

Não sobram duvidas de que o fenômeno bullying é capaz de acarretar prejuízo na aprendizagem daqueles que nele estão envolvidos. Entretanto, como não apenas o campo do conhecimento torna-se comprometido, é necessário que outros profissionais intervenham, além do psicopedagogo, a fim de resgatar os demais desejos perdidos do sujeito.

3. Conclusão

O bullying é um tipo de problema que se apresenta de forma diferente em cada situação que de certa maneira, afeta toda a sociedade, seja como agressor, vitima ou até espectador, tais ações marcam, deixam cicatrizes imperceptíveis em curto prazo capaz de desenvolver sérios comprometimentos ao processo de aprendizagem, visto que desenvolve, na instituição educacional, um ambiente nocivo não somente às vitimas, mas a todos direta ou indiretamente envolvidos.

Seus efeitos são capazes de efetivamente desarmonizar as dimensões cognitivas, corporal simbólica e orgânica, acarretando um conflito entre as questões internas e externas do sujeito. Os estragos emocionais, sociais e psicológicos graves gerados têm força suficiente para impedir que o sujeito tenha um desenvolvimento saudável e propicio com o objeto de conhecimento. Sua prevenção entre estudantes constitui-se em uma medida capaz de possibilitar o pleno desenvolvimento entre os sujeitos, habilitando-os a uma convivência social sadia e segura.

Embora o bullying seja evidentemente estudo da psicopedagogia, deve receber também devida importância e apoio de todos os profissionais que atendem à criança, tais como psicopedagogo, psicólogo, pedagogo, psicanalista, dentre outros, todos com o objetivo de fortalecer a estrutura emocional do sujeito e possibilitar que suas relações inter e intrapessoais sejam bem (re) estruturadas.

A escola e a família, como contribuintes do surgimento e desenvolvimento do bullying por sua forma de atuação, também devem ser responsáveis pela sua prevenção e pelo seu fim, o que demanda conscientização efetiva do seu papel no processo da estruturação dos sujeitos que estão diretamente ligados com o contexto escolar para que o problema seja efetivamente controlado.

Trata-se de um trabalho de combate em equipe, em que cada um deve oferecer uma contribuição eficaz. É evidente que não se trata de algo fácil, não somente, e principalmente por se tratar de seres humanos fato que atinge a individualidade, estruturas familiar, social, educacional arraigada, etc.

O psicopedagogo deve contribuir com ações que tornem a educação uma pratica de inclusão social, de formação da cidadania e emancipação dos sujeitos sociais, trabalhando diretamente com a problemática neste caso o bullying na educação, com a oportunidade de possibilitar as pessoas que se tornem conscientes e sujeitas de suas próprias histórias.

Ainda há muito a ser explorado, elaborado, simbolizado sobre o bullying, começar pela própria questão nominal, a qual no Brasil continua sem tradução do inglês. Qual seria o motivo para que não haja uma palavra ou termo equivalente em português? Concluo este artigo, dessa forma, deixando-o em aberto, como demonstração explicita de que a realidade da referida violência merece receber continuado estudo.

Sobre o Autor:

Denaide da Conceição Brito - Pedagoga formada pela Faculdade do Norte do Paraná, secretária escolar na rede estadual.

Referências:

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