Aprendendo com o Corpo Inteiro

(Tempo de leitura: 14 - 27 minutos)

Introdução

O trabalho foi realizado na Unidade Integrada “Osmar Ferreira Brandão”, instituição de ensino pública, localizada na cidade de Parnarama-MA, com alunos cursando o 6ª ano (5ª série) do ensino fundamental. 

Este trabalho busca a observação dos processos de ensino e aprendizagem dos alunos, especialmente, na disciplina de matemática e a indisciplina. E também tenta incluir a esses processos alguns exercícios psicomotores, a fim de tentar uma conciliação entre a educação tradicional e a educação do corpo, visando uma melhoria nesta aprendizagem.

O tema é bastante pertinente, visto que temos a perspectiva de valorizar o desenvolvimento da criança como um todo; a sua formação integral, nos diversos campos; emocional, cognitivo, nos aspectos físicos, no social e cultural. Como bem cita Freire e Scaglia “a escola não pode se ater somente á cabeça da criança, mas ao corpo inteiro”.

Separação Corpo e Mente

Segundo Fonseca (1995) apud Alves (2010) desde a civilização grega, contemplando a Idade Média, e outros períodos, a concepção do corpo passou por várias transformações. Sofreu com a negligência de vários teóricos, citando como exemplos: Platão que concebia; a “alma” separada do corpo, sendo o corpo apenas “matéria” que falece, e a alma como imortal e retentora de todo o conhecimento; e René Descartes que tinha também a visão de corpo separado da mente. O corpo, de certa forma, foi considerado apenas como um “objeto” dissociado da estrutura racional do homem.

Com a história da psicologia, que como ciência social que é, confunde a sua história própria história a da humanidade, também não foi muito diferente, o próprio termo psicologia vem do grego psyché“alma” e logos “razão”, sendo assim psicologia tem como significância “estudo da alma”(BOCK, 2001). Discriminando assim, ao menos no início de sua prática, a importância da consciência do corpo, priorizando os estudos da mente.

Assim pode-se salientar que com as práticas de ensino o processo também, ao menos em seu início, não foi diferente. Era e continua sendo valorizada apesar de obervamos esforços para modificar esta prática, apenas a educação em seus aspectos cognitivos, onde, segundo ás práticas tradicionais,só precisamos do cérebro pra pensar e atingir nossos objetivos intelectuais.

O Desenvolvimento Humano como um Todo

Esta forma de educação profissional está aos poucos sendo reformulada. Muitos pensadores contribuíram para que isso ocorra, dentre eles Piaget; com seu estudo sobre os estágios infantis, Vygotsky; com seu estudo sobre a aprendizagem como sendo  uma interação entre o individuo e o meio em que ele está inserido, Wallon; relacionando o movimento com o afeto e a emoção, influenciando toda a vida do individuo e Ajuriaguerra; traz o corpo como elemento essencial para o desenvolvimento como um todo, dentre outras grandes contribuições que todos trouxeram.

Mais para que isso ocorresse foi necessário que pessoas como eles olhassem a aprendizagem de uma forma diferente, que percebessem a ineficiência do sistema tradicional, que limita o individuo a receber uma única espécie de educação e utiliza um único método, onde quem não se adéqua , é considerado incapaz, e acaba eclodindo pelos caminhos da evasão escolar e da reprovação.  

A educação, na maioria das práticas, acaba não percebendo os tantos outros fatores que influenciam na aprendizagem, como a cultura, o social, o emocional e especialmente o corpo. Nos primeiros anos de vida escolar, a educação psicomotora é trabalhada, entretanto, acaba sendo limitada ao fato da criança ser capaz de manusear o lápis, identificar letras e números, dentre outras pequenas coisas, limitando a motricidade á apenas movimentos motores. Com o passar do tempo e da evolução escolar, a psicomotricidade é retirada cada vez mais do âmbito escolar, como se o movimento do corpo já não fosse mais bem vindo, menos consciente do seu próprio corpo, a criança se torna cada vez mais rígida em seus movimentos, e por consequentemente em seu modo de encarar a realidade.

Freire e Scaglia (2010), falam que “considerando o tempo em que cada aluno passa na sua escola, no ensino fundamental e médio, se obtém cerca de 9.600 horas de confinamento dentro de uma sala de aula, e que a maior parte desse tempo passam em um espaço ainda menor, cerca de meio metro quadrado que é equivalente aos limites das carteiras”.

O que compromete a evolução da criança como um todo. Espera-se que o aluno tem uma postura rígida, que realize poucos movimentos, que continue “sentado na carteira”, que não expresse opiniões divergentes e que saiba que o brincar está reservado a poucos momentos e que estes momentos já estão programados.

Segundo Fonseca (2006), “frequentemente, o desejo do professor é que o aluno fique quieto, ouça as explicações que tem para dar, faça corretamente os exercícios e pronto. Se as atividades acontecerem, o professor se sentirá realizado”.

E assim é difícil se ter um bom desenvolvimento de todas as competências que uma criança pode desenvolver, o movimento consciente pode trazer a esta criança a evolução dela como pessoa física, cultural, social, cognitiva, emocional e ajuda a forma sua personalidade e Ajuriaguerra fala justamente sobre isso, (1956,1961, 1962,1972,1974,1976,1978,1980,1981 apud  FONSECA,  2008, p.104):

“[...] a evolução da criança é sinônimo de consciencialização e de conhecimento cada vez mais profundos do seu corpo, ou seja, do seu eu total. É com o corpo, diz-nos este autor, que a criança elabora todas as suas experiências vitais e organiza a sua personalidade única, total e evolutiva [...]”.

É só pensar em uma criança, ou na época em que se era criança pra lembrar o quanto o corpo diz sobre a nossa personalidade, sobre nossas experiências vitais. Os bebês são um rico exemplo disso, o corpo deles é que dá sinal através do choro, de quando eles estão precisando se alimentar, trocar ás fraudas dentre outras coisas. O corpo diz, também, sobre o nosso estado de humor, se estamos felizes, sorrimos, por exemplo.

O pressuposto de Ajuriaguerra corrobora inclusive com o que o E.C.A. (Estatuto da Criança e do Adolescente) traz, onde diz que as crianças como cidadãs que são, tem direito ao brincar, a não querer e a querer, ao afeto, a sonhar, a opinar e a conhecer. Trabalhando assim o seu eu como um todo que é. Parece uma coisa obvia o que o ECA traz, mas são coisas que na escola, que é um dos âmbitos em que a criança mais evolui, é dificilmente respeitado.

A falta de estrutura física, de incentivo, de tempo, a quantidade grande de alunos acaba sendo a “desculpa” para não se procurar outros métodos de aprendizagem, o tradicional, parece mais fácil. Não podemos negar, que em muitos casos realmente é mais fácil, por que a realização de atividades extracurriculares é custosa, as escolas públicas realmente, em sua maioria, não possuem estrutura, e tudo acaba ficando por conta da criatividade do professor, que muitas vezes, em sua própria formação não foi ensinado a procurar outras soluções ou métodos de ensino, a sobrecarga de trabalho também é um grande impedimento.

Um professor que tem que dar aulas em quatro ou cinco turmas, principalmente das disciplinas de português e matemática, que possuem uma carga horária maior, dificilmente vai conseguir adequar o seu método aos alunos, então acaba que os alunos é que se adéquam ao método do professor, e os que não conseguem, são os considerados indisciplinados, os repetentes, até acabarem evadindo da escola.

Para Wallon e Vygostky (apud Fonseca, 2006), o vínculo afetivo e de respeito entre o educador e o aluno é fundamental para construção do conhecimento efetivo. A qualidade da interação pedagógica também irá conferir um sentido afetivo para o aluno, o que significa dizer que se o aluno gosta de está na escola, ele acaba aprendendo mais, e temos que considerar também nesse processo as experiências vividas.

Temos que salientar que o Brasil como um todo, tem melhorado e procurado fazer mudanças no seu sistema educacional, tentando, mesmo que devagar, tornar essa educação mais preocupada com os aspectos sociais e culturais dos alunos. O que se reconhece é que apesar desses esforços se precisa fazer maiores modificações visto que o aluno não chega “vazio” ao meio escolar, ele traz consigo as suas experiências afetivas, sociais, culturais, ele está inserido em um meio ambiente que o influência em todos os seus aspectos e quando isso não é respeitado e/ou trabalhado,o aluno acaba por perder o seu interesse nas atividades escolares,  Wallon (apud Alves, 2010) fala sobre isso:

“(...), é essencial considerar todos os aspectos da estrutura pessoal da criança, inclusive, o biológico que tanto é desprezado, do contrário, o que se terá é uma educação deficiente que não responde bem as necessidades básicas da criança em formação e que, muitas vezes é fator agravante para os problemas encontrados na sua personalidade e comportamento escolar, como: indisposição para permanecer na escola, com dificuldades de aprendizagem, não consegue se expressar bem, efetuar uma leitura tranquila sem tropeçar nas palavras, inquietação, desatenção, agressividade, desmotivação”.

A psicologia, e mais especificamente a psicomotricidade, pode trazer grandes benefícios que podem auxiliar o educador para os problemas encontrados no comportamento escolar e na personalidade citados acima por Wallon. Tendo ela um papel conciliador entre a educação tradicional que muitas vezes se torna necessária pela dificuldade de realizar uma educação mais individualizada, e as necessidades dos alunos. Alves (2010) acredita que “as concepções de educação precisam abrigar a responsabilidade corporal e suas ramificações na aprendizagem e na formação da personalidade, e isso seria essencial para desenvolver práticas de ensino-aprendizagem que correspondam satisfatoriamente”.

O psicólogo escolar e/ou educacional ou o psicomotricista engajado na área educacional, se utiliza muitas vezes da observação em sala de aula e nos horários livres, da utilização de atividades lúdicas, e de testes psicológicos entre outros.

Este profissional quando chega a escola, como bem cita Machado (2008), acaba intensificando as expectativas de que ele vai apontar os alunos problemáticos individualmente assim encontrando a  solução para qualquer problema, e o psicólogo por sua vez, tende a se perguntar o por que dos alunos agirem  de terminada maneira. E esse tipo de indagação acaba que por transformar um problema que normalmente é coletivo, em culpa apenas dos alunos, ou do aluno. O que se busca neste trabalho é um olhar para além dos alunos, um olhar que faça referência às práticas dos professores, para tentar averiguar se o alto índice de reprovação na disciplina de matemática e a indisciplina são dados somente pela falta de disposição á aprender dos alunos.

Objetivos

Observar os processos de ensino e aprendizagem de uma escola pública, com o intuito de perceber como está sendo, ou não, a educação do corpo dos alunos.

 Propor algumas atividades que possa proporcionar aos estudantes uma “redescoberta” do seu corpo, tendo como meta tentar fazê-los ter um novo olhar pra sua aprendizagem relacionada com o movimento.

Tentar relacionar a indisciplina em sala de aula e a má absolvição do conteúdo na disciplina de matemática, com a falta de práticas que incentivem o movimento corporal.

Materiais e Métodos

Inicialmente houve a observação do como ocorrem os processos de ensino e aprendizagem, utilizando para isso algumas visitas à unidade de ensino, sendo que em apenas uma visita, foi acompanhada a aula do professor. Depois foram realizados alguns exercícios psicomotores, tentando envolver a disciplina de matemática e atividades lúdicas, a fim de propiciar o reconhecimento do próprio corpo e a própria melhora da aprendizagem.

 Saber também a opinião do educador através de questionário [01] a fim de conhecer o que ele acredita ser a causa da indisciplina em sala de aula, e como ele considera está sendo o próprio processo de aprendizagem na sua disciplina de matemática, depois em uma conversa perguntar a ele se concorda que essas práticas psicomotoras devem ou não, serem continuadas. Além de relacionar a indisciplinar á falta de exercícios psicomotores.

Houve uma breve explicação sobre os objetivos da pesquisa. Os alunos e profissionais envolvidos foram todos voluntários podendo eles desistir em qualquer momento da pesquisa.

Foram utilizados como materiais para realização das atividades, os exercícios psicomotores sugeridos por Freire e Scaglia (2010), uma bola, apito, folha A4, giz, quadro negro.

Métodos

Primeiro se utilizou o método da observação participante, que permite o pesquisador observar como ocorrem os acontecimentos no mesmo estante em que eles acontecem. Em segundo momento utilizamos uma bateria de jogos de teor lúdico, tentando tanto trabalhar o corpo, como envolver a disciplina de matemática, e também trabalhando a importância do trabalho em grupo e a indisciplina.

O primeiro exercício é a formação dos grupos, onde solicitamos que os alunos andem pela sala, acompanhando o ritmo de uma música ou a marcação do orientador. Então, o orientador grita um número, por exemplo, doze. Nesse instante, sem parar de se deslocar, os alunos devem forma grupo de doze esses serão os grupos de trabalho.

O segundo exercício é o revezamento em círculos. Os grupos escolhidos na dinâmica anterior formam círculos dos quais, um de cada grupo é escolhido para iniciar. A um sinal, ele deve correr por fora de seu círculo e entregar um objeto predeterminado (uma bola) ao colega seguinte. O colega seguinte para prosseguir deve responder uma pergunta simples da tabuada, se não acertar o grupo adversário, ganha o direito de responder a pergunta e ganha a vez. O revezamento acabará quando todos tiverem recebido a bola e dado uma volta ao redor do círculo.   

O terceiro exercício é a corrida dos números dando as mãos. As crianças devem forma quatro colunas, os grupos formam duas colunas cada, com igual número de componentes e uma numeração. Cada aluno deve ter um número que seja igual ao número do colega que ocupa a posição correspondente, na coluna do lado. Quando o professor chamar o número 3, por exemplo, os alunos de número 3 das duas primeiras colunas devem dar a mão entre si, assim como os de números 3 das outras duas colunas. Então as duplas devem correr, de mãos dadas, até certo ponto, onde irão responder uma pergunta referente ao assunto da disciplina de matemática que eles estão estudando,no caso, as quatro operações( adição, subtração, multiplicação e divisão) só podendo contorna voltar ao seu lugar de origem na coluna, se souberem a resposta. Marcará ponto o grupo que terminar primeiro a corrida.

O quarto exercício é o de descobrir os sons que podem ser reproduzidos pelos alunos na escola. Eles podem, por exemplo, rasgar papéis, arrastar as carteiras, bater com objetos ou com a mão nas carteiras. Depois conversar sobre qual desses sons na opinião deles incomodam mais os professores.

O quinto exercício é o de brincar de robô, parado e em movimento. Uma criança é o robô, e seu parceiro, o guia. O orientador estabelece sinais para a movimentação do robô. Se tocar a orelha esquerda do robô, ele deve virar para o lado esquerdo, se tocar na orelha direita, ele deve virar para o lado direito, se tocar nas costas deve seguir para frente e se tocar o ombro deve parar.

O sexto exercício é o passo 10. O orientador deve jogar uma bola para o alto. O aluno que pegar a bola deve tentar passá-la para um companheiro, sem que ela seja interceptada pelo adversário. Se isso for feito por componentes do mesmo time cinco vezes seguidas, sem que a bola seja interceptada, o grupo tem direito a escolher uma pergunta de matemática. Acertando ganhos dois pontos, errando apenas um. O passo 10 pode ser realizado com números diferentes de passos, ou 10, 8, 12, etc.

O sétimo exercício é o maestro. É formada uma roda. Uma delas deve ficar no meio, isolada, enquanto as outras escolhem um maestro, a criança do meio não deve saber quem é o maestro e ele deve realizar movimentos, com as mãos, com os pés, ou com o corpo todo, que deve ser imitados pelas outras crianças. O maestro tem de gesticular sutilmente para poder ser imitado e, ao mesmo tempo, enganar o colega do meio, que terá três chances de descobri-lo. As demais crianças devem disfarçar a direção do olhar para que o colega do meio não perceba quem é o maestro.

A última atividade é introduzir uma música, como atividade de relaxamento, a fim de que os alunos relaxem e possam, sem pressa, ficarem absolutamente concentradas em si mesmas, e em sons musicais.

Resultados

Na observação participante, que foi realizada na Escola durante uma aula de matemática, pode-se notar a indisciplina e as dificuldades que o professor de matemática enfrentava.

A aula que assistir era de revisão sobre o conteúdo da ultima avaliação que fecharia o bimestre, o assunto trabalhado foi as “Operações Matemáticas”, sendo elas a Multiplicação e a Divisão. Como já se era esperado a presença de um observador acabou que por interferir um pouco na dinâmica da aula, os alunos pareciam está mais atentos ao observador do que na explicação do professor, que também se esforçava para mostrar o melhor de si.

O Professor parecia estressado e logo no início de sua aula acabou expulsando dois alunos. Em geral, os alunos não pareciam ter domínio do conhecimento e sentiam muita dificuldade em responder as atividades propostas. O Professor, aproveitando-se também da presença do observador, ausenta-se muito da sala de aula dando assim espaço para os alunos agirem de forma libertina, brigando, correndo, saindo da sala, usurpando material dos colegas, depredando carteiras e materiais escolares e comportamentos afins. Os alunos, na ausência do professor, pouco se intimidavam com a presença de um estranho ao meio deles. Alguns ainda se esforçavam em realizar a atividade que o professor deixou, mas precisavam ter muita concentração e força de vontade, pois a maioria “bagunçava” e ao perceber alguém tentando fazer tentavam atrapalhar.

A sala era em sua maioria composta por meninos, o que pode contribuir para a bagunça, brigas, e tantos outros comportamentos violentos, as meninas não eram tão mais participativas apenas não se envolviam nas brigas, embora também fossem frequentes alvos de brincadeiras de alguns meninos.

Tive que por muitos momentos interferir na dinâmica da sala, mesmo sabendo dos problemas que isso pode trazer a pesquisa. A falta do professor em sala, me obrigou a interferir nas brigas dos meninos, que agrediam uns aos outros com ponta pés, socos, empurrões e a fim de evitar que algum aluno se feri-se, me sentir obrigada a interferir, tive também que ensinar alguns alunos a responder a atividade proposta pelo professor, por este está ausente e ter sido solicitada a minha ajuda.

O professor disse que “é impossível da aula de matemática ou de qualquer outra coisa pra eles, não adianta nada, nem que se façam jogos ou qualquer coisa, eles não querem nada”, e acabou como punição a um aluno, dando nota zero, o aluno pareceu não se importar.

A diretora da instituição estava em seu dia de folga, o que pareceu contribuir para a indisciplina dos alunos, ela e outros professores comentaram que esta turma de 6ª ano, é difícil, são muito indisciplinados, e só respeitam a autoridade dela. A diretora comentou também que “os professores em sua grande maioria, não fazem questão de impor limites e autoridade aos alunos, que se comportam como querem e na minha ausência eles sentem a liberdade de fazer tudo e os professores se tornam coniventes por que não interferem”.

As crianças não conseguem ficar sentadas por muito tempo, não conseguem parar pra ouvir o professor, e ele tentava a custo de gritos e ameaças chamar a atenção deles, no fim de duas aulas de 50 minutos cada, ele havia expulsado três alunos da sala, dado nota zero a outro aluno, e ficado cerca de 30 minutos em sala, sendo a observadora, a responsável pela turma na maior parte do tempo.

Os alunos apesar de toda indisciplina pareceram simpatizar com a observadora, isso pode ser devido à maioria ser do sexo masculino, e eles de alguma forma acabavam querendo agradá-la, cortejá-la, situação essa, totalmente controlada, pois a postura mantida não dava espaço pra esse tipo de abordagem, as meninas também pareceram gostar da presença da observadora. Todos perguntavam se ela iria voltar.

A estrutura física do prédio estava um pouco debilitada, mas havia uma reforma, algumas carteiras estavam quebradas, alguns dos alunos sentavam-se em carteiras faltando braço, e havia muitos deles depredando as carteiras que ainda estavam inteiras.

Em um momento posterior realizou-se os exercícios e jogos que segundo Ribeiro(2009), é uma “contraposição a um modelo de escola, ou de professor em sua prática, que privilegia atividades rotineiras e repetitivas com muito pouco, ou nenhum estímulo á criação e a investigação, e um trabalho com jogos matemáticos, ou atividades lúdicas que envolvam a matemática pode representar a mudança para uma nova configuração escolar, voltada para o desenvolvimento dos sujeitos criativos, críticos, reflexivos, entusiastas, inventivos, num exercício permanente de promoção da autonomia”.

Os alunos estavam, como nas outras visitas, muito agitados, mas assim que anunciei que iria fazer algumas brincadeiras e que daria um prêmio no final eles começaram a prestar mais atenção no que dizia. No inicio alguns estavam meio tímidos, e na maioria do tempo eles estavam tão agitados que não conseguiam me ouvir dando as explicações, então acabei perdendo muito tempo chamando a atenção deles. E no tempo de 1 hora que tive com eles só foi possível aplicar três exercícios, isso também foi devido ao interesse que me obrigava a ficar por mais tempo numa atividade, perdendo assim tempo para outras.

Foi observado que na divisão dos grupos, não houve uma socialização entre toda a sala, eles mantiveram os grupos que eles já tinham costume de trabalhar. Os líderes já estavam escolhidos pelo grupo, e eram respeitados e seguidos na sua decisão. Em alguns momentos, como no passe 10, era perceptivo que eles excluíam alguns colegas, talvez por não acreditarem que eles conseguiriam realiza a atividade  bem.

Eles embora com muita dificuldade de fazer silêncio, mostravam muito interesse em ganhar a atividade, em mostrar que era o melhor, na terceira atividade dos círculos, eles possuíram uma dificuldade inicial de acreditarem serem incapazes de responder as perguntas de matemática, mas a competição acabou por fazê-los persistir na atividade, e eles mostraram domínio da resolução das questões, respondiam rápido, sem demonstrar grandes dificuldades, diferente do que foi observado em sala de aula durante a aula do professor, onde pareciam está muito mais inseguros do conteúdo.

No maestro eles não conseguiram completar a atividade com êxito por que acabavam contando para os colegas quem era o maestro, eles tentavam a todo o momento, “roubar” no jogo, tentavam manipular a quantidade de pontos que estavam no quadro.

De modo geral eles respeitaram as ordens dadas a eles, mas ainda havia alunos que se dispersavam atrapalhando um pouco o decorrer das atividades. Com o tempo curto não pode ser realizados outras atividades.

Dados Coletados

“Questionário Proposto” (Educador)

  1.  Qual a maior dificuldade em ministrar aula na turma do 6ª ano?

R. Indisciplina por parte da maioria dos alunos.

  1. Você acredita que a condição sócio econômica dos alunos interfere no rendimento escolar deles?

R.Perfeitamente, as condições socioeconômicas tem interferência direta no rendimento escolar.

  1.  Na sua opinião  a turma  é indisciplinada? Se for aponte os motivos que  você acredita que seja a causa desta indisciplina?

R. Indisciplinada; desestruturada familiar, condições socioeconômicas.

  1. Você acredita que os alunos conseguem compreender o conteúdo exposto?

R.A grande maioria não

  1.  Você acredita que a utilização de outros métodos de ensino poderia melhorar a aprendizagem dos alunos na disciplina de matemática?

R. Sim, embora nesta turma especificamente não obtive bom êxito.

  1.  O fato de a turma ser composta por maioria de meninos, em sua opinião, afetaria o comportamento bom ou ruim da turma?

R. Sim, uma turma composta por a maioria de meninos afeta diretamente o comportamento.

  1. Você acredita que ao fim do ano letivo os alunos vão ter um rendimento escolar satisfatório na sua disciplina?

R.Não muito, pois durante da realidade atual da turma com os níveis de indisciplina o rendimento certamente será afetada.

  1.   Você acredita que esteja faltando algo para que a aprendizagem ocorra de forma mais satisfatória? Se estiver, aponte o que seria.

R.Sim, a disponibilidade para aprender e maior participação familiar.

  1. Você acredita que as condições físicas do prédio escolar interfere na qualidade do ensino?

R. Sim, mas neste caso não pois a indisciplina ocorre principalmente dentro da sala-aula recém reformada.

 

“Questionário Proposto” (Diretora da Instituição)

  1. Você acredita que a condição sócio econômica dos alunos interfere no rendimento escolar deles?

R- Sim, os pais são em geral analfabetos e por este motivo acabam não valorizando o ensino dos filhos como deveriam. E o analfabetismo é reflexo das baixas condições financeiras que eles possuem.

  1. Em sua opinião, a turma do 6ª ano, é indisciplinada? Se for aponte os motivos quevocê acredita que seja a causa desta indisciplina?

R- Sim, e isto se deve a superlotação da sala e aos professores visarem em seu trabalho apenas o retorno financeiro, embora sejam formados na área eles não dão o melhor de si, a aprendizagem do aluno está sempre em segundo plano.

  1.  Você acredita que a utilização de outros métodos de ensino poderia melhorar a aprendizagem dos alunos na disciplina de matemática?

R- Com certeza, o uso de jogos que envolvam o raciocínio lógico e matemático iria estimular aprendizagem deles e a integração da turma.

  1. O fato de a turma ser composta por maioria de meninos, em sua opinião, afetaria o comportamento bom ou ruim da turma?

R- Afeta negativamente, as meninas ficam sem espaço na sala de aula, e os meninos ficam bem mais agitados.

  1. O que você acredita que esteja faltando para que a aprendizagem ocorra de forma mais satisfatória? Se estiver, aponte o que seria.

R- a integração da equipe da escola desde a direção, coordenação e o corpo docente, envolvendo todo o seguimento.

  1. Você acredita que as condições físicas do prédio escolar interfere na qualidade do ensino?

R- Sim, o prédio deve oferecer a escola espaços internos e externos a sala de aula que promova uma aprendizagem mais satisfatórios.

  1.  Há recursos disponíveis, como kits educativos, material desportivos, dentre outros, para que os educadores utilizem em sala de aula, para tornar a aula mais dinâmica?

R- Atualmente sim, depois que a escola foi contemplada com o programa mais educação e o PDE interativo a escola pode comprar alguns equipamentos e matérias didáticos adequados às atividades lúdicas, de esportes e de raciocínio lógico matemático.

  1. Explane um pouco como é a participação da família na educação das crianças. Eles costumam participar das reuniões? É frequentemente a visita deles a instituição pra saber como “anda” os filhos? A maioria das crianças tem como responsável os pais biológicos?

R- nas reuniões a frequência nunca é de 100% normalmente é 60%, visita a escola só os pais dos alunos que não dão trabalho, os que tem alguma dificuldade até fogem dar escola para não ouvir nenhuma reclamação, as crianças em sua maioria são criadas com os pais biológicos.

Discussão e Conclusão

Uma grande dificuldade encontrada foi à falta de hábito do professorem realizar essas atividades, ele diz que esse tipo de atividade não funcionaria nesta turma especifica. Grando (apud Ribeiro, 2009) traz que “ao observamos o comportamento de uma criança em situações de brincadeira e/ou jogo, percebe-se o quanto ela desenvolve sua capacidade de fazer perguntas, buscar diferentes soluções, repensar situações, avaliar suas atitudes, encontrar e reestruturar novas relações, ou seja, resolver problemas”.

Nas atividades eles estavam dispostos a realizar os exercícios, o que significa que a dificuldade de aprendizagem está mais ligada outros problemas e a metodologia aplicada a eles, do que a disposição deles em aprender. O que pode apontar para uma revisão por parte do educador de sua metodologia, a fim de ter melhores resultados na aprendizagem escolar. Mas, ele não acredita que o problema da dificuldade de aprendizagem está na sua metodologia e sim na falta de disposição dos alunos a aprender e na falta de participação familiar. No entanto, os resultados desse trabalho, serão expostos a ele, e serão deixadas algumas sugestões de jogos e exercícios com o corpo que sejam de fácil aplicação e que não fujam tanto da prática conservadora que ele possui.

Os alunos têm muitas dificuldades em se concentrar, em parar pra ouvir os professores, eles têm muita energia, embora tenha sido um período muito curto, e seria necessário, mas tempo pra observações mais concretas, deu pra observar que os alunos tem uma autoestima baixa, não acreditavam ser capazes de responder as perguntas de matemática, houve um aluno que inclusive utilizou esta frase: “a gente é tão burro que em vez de comer arroz e feijão em casa, a gente come capim”.

Mesmo não acreditando que conseguiriam deram tudo de si pra participar, o que mostra que eles tem sim, disposição para aprender, o que falta, na minha opinião, é confiança neles mesmos, valorização por parte dos educadores, e a noção de limites, que pelo exerço de liberdade dada a eles, acabam tornando a sala de aula numa baderna. Acrescentando aqui, que a participação familiar é muito pequena, nem todos os pais participam das reuniões, o que torna ainda mais difícil o trabalho dos educadores na educação dessas crianças.

Acaba-se concluindo que embora a parte motora seja bastante delimitada, não podemos inferir que ela seja por si só, a única causa do déficit de aprendizagem dos alunos em questões, pois o conjunto de relações, entre família, professores e alunos também está debilitado tendo essas relações grande parte da responsabilidade pela falta ou da debilidade de aprendizagem.

Análise dos Resultados Esperados X Resultados Alcançados

O que pode-se observar é que os objetivos deste trabalho foram em grande parte conseguidos, por que pode-se demonstrar na prática, tanto para o educador, quanto para os alunos que existem outras formas de aprender, que não apenas a tradicional, e que os alunos respondem bem a mudança de metodologia, ao aprender brincando, ao aprender se movimentando.

Entretanto, não pode-se deixar de se colocar que o trabalho não está encerrado, que foi apenas um passo em busca da melhoria da educação, e que se não houver outros trabalhos mais duradouros essas práticas nunca vão saí de projetos e se torna parte do cotidiano da escola.

E para que isso ocorra precisa que haja um esforço coletivo de professores, pais e alunos para que a educação realmente seja melhorada. As relações entre esses três alicerces para uma boa formação também precisam ser melhoradas, ou iniciadas de forma a trazer bons resultados.

O projeto precisa demais tempo e esforço para que consolide uma mudança real na educação desta escola.

Conclusão

 Os resultados encontrados foram satisfatórios, os alunos mostraram que mudar a metodologia, nem que seja só em um dia, estimula a participação deles, eles se tornam mais ativos, críticos, interessados no que se está tentando ensinar,e mostraram que um outro fator importante é a participação familiar, entretanto, outros estudos mais aprofundados deverão ser realizados, com amostras maiores e mais diversificadas, além de um acompanhamento mais duradouro a instituição de ensino, tentar buscar o contato com a família,a fim de testar outros aspectos relacionados com as problemáticas envolvidas.

Referências:

ALVES, Jean Silva. Com o corpo também se aprende: A abordagem da psicomotricidade na educação escolar de crianças de 0 a 6 anos. 2010.57 f. Monografia (Conclusão do curso de pedagogia) — Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Salvador, 2010.

BOCK,Ana Mercês Bahia. FURTADO, Odair. TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi.Psicologias – uma introdução ao estudo de psicologia. 13 ed.São Paulo: Saraiva, 2001.

FONSECA, Christiane Giselle dos Santos. A construção da disciplina em sala de aula na educação infantil — a importância da psicomotricidade nesse processo. 2006. 72 f. Monografia (pôs- graduação). Rio de Janeiro, 2006. 

FONSECA, Vitor da. Aprender a Aprender: A Educabilidade Cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 1998.

FREIRE, João Batista; SCAGLIA José Alcides. Educação como prática corporal. São Paulo: Scipione, 2010.

MACHADO, Adriana Marcondes. Os psicólogos trabalhando com a escola: intervenção a serviço do quê?[200-?]. 12f. Artigo cientifica. Instituto de Psicologia da USP, São Paulo, [200-?].

RIBEIRO, Flávia Dias. Jogos e modelagem na educação matemática. São Paulo: Saraiva, 2009.

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