Brincando na Escola: Meios de Construir a Felicidade

(Tempo de leitura: 7 - 13 minutos)

Introdução

O bem-estar subjetivo pode ser tomado como sinônimo de felicidade, sendo um aspecto imprescindível na constituição do ser humano. É comum observarmos que as crianças expressam alegria ao brincar, e o ambiente escolar é o espaço em que a criança sente-se livre para interagir com outras crianças e brinquedos e criar inúmeros momentos de felicidade. Partindo desta ideia, este trabalho tem como objetivo refletir a relação do brincar na escola com o bem-estar subjetivo e os efeitos desta relação na criança.

Tomando como foco a criança, podemos perceber que uma das formas de ser gerado o bem-estar subjetivo, é quando a criança está brincando. Baseando-se nesta questão percebemos a relevância de refletir sobre a relação do brincar e o bem-estar.

Ao nos depararmos com pesquisas sobre o ser humano, suas relações e comportamentos, encontramos uma série de estudos acerca dos desequilíbrios psicológicos e da vida sobre efeitos negativos, como por exemplo, os agentes estressores. Andrews e Withey (1976) nos apresentam como componentes do bem-estar, o julgamento de satisfação de vida, o afeto positivo e o negativo, e para eles, a felicidade seria a presença de afetos positivos e relativa ausência de negativos.

Segundo Diener, Suh, Lucas e Smith (1999), os aspectos positivos ou prazerosos estariam indicados pela alegria, orgulho, contentamento, afeição, entre outros, e os negativos ou desprazerosos são culpa, vergonha, tristeza, ansiedade, estresse, depressão, entre outros. Tomando como base essas divisões e subdivisões do bem-estar subjetivo, surgem algumas questões, quais são as melhores formas de se alcançar um bem-estar subjetivo? E quando partirmos para as crianças: quais os meios de viver que as crianças precisam aprender para conquistar a felicidade?

A partir disto surgem interesses de refletir mais a fundo sobre temáticas como estas, faz-se necessário que as pessoas experimentem mais afetos positivos, para viverem mais em harmonia e equilíbrio. Investigar sobre a felicidade se faz importante para contribuir para o bem-estar de todos. No caso das crianças um dos meios que compreendemos ser importante é sobre o brincar, em específico as brincadeiras na escola, visto que estas, não mais importantes do que outras formas, são também importantes formas de socialização e de produção de afetos prazerosos.

Para Winnicott (1975, p.63) o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais”. Através do brincar, a criança dá sinais de vivacidade, ela se comunica com ela mesma e com os outros, entra em um processo de socialização, ou seja, de agrupamento, sendo, com isto, permitido, que ela se integre a uma realidade, mas uma realidade vista por uma ótica prazerosa e isto é possível através do brincar.

Por acreditarmos que o brincar provoca o movimento de socialização e consequentemente contribui para o desenvolvimento do ser humano e para a promoção do bem-estar, Oliveira (2007) nos traz a seguinte pontuação:

“(...) é brincando que a criança elabora progressivamente, o luto da perda relativa dos cuidados maternos, assim como encontra forças e descobre estratégias para enfrentar o desafio de andar com as próprias pernas pensar aos poucos com a própria cabeça, assumindo as responsabilidades pelos seus atos”.

A busca pela independência permite com que a criança explore e crie um mundo que ela acredite ser o melhor. É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self)” (Winnicott 1975, p.79). Bednar e Peterson (1995) afirmam que para alcançar níveis de bem-estar positivos, avaliações positivas do self são necessárias.

Conhecendo o Bem Estar Subjetivo

Diversos estados e experiências podem produzir felicidade, como: o amor, a alegria, a saúde, a saciedade, o prazer sexual, o contentamento, a segurança e a serenidade. Também, podem produzir emoções e estados afetivos que costumam diminuir a felicidade como: tristeza, medo, raiva, nojo, ansiedade, angústia, dor e sofrimento (Ferraz, Tavares & Zilberman, 2007). Segundo Novo (2005) a felicidade é valorizada e vivida por cada pessoa e época, sendo uma motivação da vida humana e critério fundamental para o Bem-Estar (BE). Desta forma, o BE possui diversos termos: felicidade, afeto positivo, estado de espírito, ânimo e avaliação subjetiva da qualidade de vida (Gonçalves, 2006).

 A literatura divide o Bem-Estar em dois modelos: 1) Bem-Estar Subjetivo, que se baseia no equilíbrio favorável às emoções, sentimentos e afetos positivos sobre negativos. O Bem-Estar Subjetivo está centrado numa perspectiva hedônica, isto é, na identificação do nível de felicidade e de satisfação dos indivíduos, buscando identificar as condições sócio-demográficas, políticas e culturais que lhes estão associadas; 2) Bem-Estar Psicológico, juntamente com o Bem-Estar Social, representam o bem-estar enquanto funcionamento positivo, adaptável e em constante desenvolvimento. O Bem-Estar Psicológico identifica os atributos positivos do self e o Bem-Estar Social, é a capacidade de enfrentar os desafios sociais através da realização de tarefas. Ambos estão enraizados no pensamento de Aristóteles, sobre a eudaimonia (felicidade), orientados para a perfeição e realização pessoal do daimon(self). (Novo, 2005).

O modelo do BE Subjetivo visa considerar a avaliação que as pessoas fazem das suas vidas, tendo como referência as experiências emocionais, positivas e negativas, além dos valores, necessidades, expectativas e crenças pessoais (Novo, 2005). Deste modo, de acordo com Gonçalves (2006), há quatro subcomponentes para este modelo de BE: satisfação de vida, afeto positivo e negativo e felicidade, a Figura 1 ilustra estes componentes:

Figura 1: Componentes do Bem-Estar Subjetivo (Gonçalves, 2006)

A satisfação de vida é um aspecto cognitivo sobre a situação atual e a expectativa do indivíduo em relação a seus objetivos; a felicidade consiste na preponderância dos afetos positivos sobre os afetos negativos; e os afetos negativos e positivos são as frequências de afetos experienciados em um passado recente (Gonçalves, 2006).

Um nível de BE Subjetivo adequado é aquele que o indivíduo reconhece um nível elevado de satisfação com a vida, com alta frequência de experiências emocionais positivas e baixas frequências de experiências emocionais negativas (Siqueira & Padovam, 2008).

Assim, o BE Subjetivo mostra um indicador de qualidade de vida, ou seja, uma dimensão positiva da saúde (Siqueira & Padovam, 2008; Galinha & Ribeiro, 2005). Contudo, Gonçalves (2006) nos chama atenção na dificuldade para conceituar qualidade de vida, pois este conceito é empregado com designações divergentes que possuem significados diferentes, para pessoas, lugares, situações e momentos históricos diferentes.

Minayo, Hartz e Buss (2000) vão ao encontro com a visão de Gonçalves (2006), e afirmam que o termo, qualidade de vida abrange muitos significados que perpassam por valores não materiais na sua composição, como: amor, liberdade, solidariedade e inserção social, realização pessoal e felicidade. Dessa forma, os autores destacam que a qualidade de vida é um campo semântico polissêmico, pois de um lado estão voltados para as condições e estilos de vida, de outro, inclui desenvolvimento sustentável e ecologia humana, além do desenvolvimento e dos direitos humanos e sociais.

Pelo fato do termo qualidade de vida, ser um campo amplo que perpassa por inúmeros significados diferentes, o Bem-Estar não fica de fora desta composição. Gonçalves (2006) cita Pereira (1997), o qual pontua que o BE Subjetivo é uma forma de qualidade de vida, pelas experiências subjetivas da vida e pelos indicadores emocionais de satisfação e de felicidade.

Assim, o BE Subjetivo articula sobre estados emocionais, emoções, afetos e sentimentos (positivos e negativos), e também no campo da cognição, que se operacionaliza por avaliações de satisfação (Siqueira & Padovam, 2008). Esta concepção pode contribuir na identificação de características e condições que permitem os indivíduos se desenvolverem como pessoas produtivas, criativas, saudáveis, felizes, motivadas e sociais (Novo, 2005).

Brincando na escola: o comportamento recreativo das crianças

É através do brincar que as crianças se sentem mais livres para criar, imaginar e se incorporarem de seus comportamentos recreativos, sendo um papel fundamental de mediação com experiências internas e externas, desenvolvendo a subjetividade da criança. Acredita-se que é importante que a criança desenvolva o comportamento recreativo, pois, implicará no seu desenvolvimento cognitivo, bem como na sua estrutura corporal e emocional.

Segundo Desqualdo (2008) brincar é algo sério, e por isso, toda criança deveria brincar, pois não são apenas fontes de estímulo cognitivo, social e afetivo, mas é uma forma de autoexpressão. Assim, as brincadeiras são uma forma para as crianças expressarem sentimentos, emoções e ansiedades, sendo que estes, provavelmente não teriam oportunidade de ser expressa de outra forma a não ser através do brincar (Bowden & Greenberg, 2005).

O brincar proporciona prazer e diversão, logo, o brincar é uma fonte de autodescoberta, prazer e crescimento (Moyles, 2002 citado porValladares; Machado, 2007). Por esta razão, pesquisas baseadas na observação dos comportamentos da criança ao brincar devem-se ao fato de proporcionar no desenvolvimento infantil evidências nas áreas cognitiva, social e emocional (Oliveira, s/d). 

“O brincar é uma atividade saudável e muito útil, quer no plano físico quer no mental. Pois o brincar desintoxica e distrai, repousa e diverte; mais que tudo livra do que está a mais – toxinas, preocupações, dor e angústia, faz a reparação do desgaste e recompõe o equilíbrio, acrescenta prazer e vai aumentar o bem-estar; isto é, dissolve o desprazer e mal-estar e conquista gozo e alegria” (Carvalho & Abreu, s/d). 

Vygotsky (1991) citado por Salgado, Pereira e Souza (2005) destaca o brincar como um cruzamento entre realidade e imaginário, desta forma, a criança integra-se ao real, capaz de criar outras realidades. Logo, a criança não apenas observa e experimenta o cotidiano, mas se apropria de tais.

“No brincar, a criança manipula fenômenos externos a serviço do sonho e veste fenômenos externos escolhidos com significado e sentimento oníricos” (Winnicott, 1975, p.76). Assim, Winnicott (1975), analisa o brincar como uma atividade ligada ao espaço (área) que se comunica com essa realidade interna e externa que é vivenciado nas relações sociais, sendo um fenômeno de transição que permite a subjetividade como intercâmbio junto com a observação objetiva (citado porSalgado, Pereira & Souza, 2005).

Conforme a Teoria da Brincadeira de Winnicott (1975), a brincadeira tem uma relação direta com o desenvolvimento do potencial criativo e da afetividade, pois o clima afetivo envolve a experiência criativa e proporciona sentimento de confiança, este sentimento permite o indivíduo experimentar estado de relaxamento que manifesta o impulso criativo (Sakomoto, 2008).

Considerações finais

Qualquer pessoa experencia situações agradáveis e desagradáveis, mas obviamente, as pessoas preferem sentir com frequência alegria, satisfação, felicidade, pois as tornam mais fortes para enfrentar os problemas e conflitos do cotidiano. É a felicidade que nos impulsiona para sermos mais criativos com as situações indesejadas, estabelecendo assim, uma qualidade de vida.

O Bem-Estar Subjetivo está interligado com qualidade de vida, pois é na felicidade e satisfação que contribui na saúde psíquica da pessoa. Podemos defender a causa de que felicidade é sinônimo de saúde, e que provavelmente a sociedade estaria mais saudável se as pessoas pudessem ter mais experiências positivas para superar seus conflitos negativos.

As crianças são um belo exemplo deste cenário que inspira felicidade. As crianças brincam, exploram e constroem esse mundo imaginário do brincar, principalmente no ambiente escolar em que convivem com outras crianças e compartilham estes momentos de descontração e alegria. O brincar é algo imprescindível em seu desenvolvimento que deve ser levado em conta pelos pais, professores, escola, creche, e outros, pois é neste simples comportamento recreativo que irá constituir o mundo subjetivo dessa criança, ou seja, seu mundo interno.

Além desta constituição subjetiva, há estímulos cognitivos e sociais que perpassam durante o brincar. A cognição irá atuar nas avaliações de satisfação frente às experiências, ou seja, a criança será capaz de falar se gostou ou não gostou, e argumentar seu ponto de vista frente ao que foi experenciado. O social desenvolverá atividades em grupo, em que precisam compartilhar brinquedos, além da atuação de aspectos básicos como o respeito e o cuidado com o outro.

Assim, o brincar se constitui como um momento em que a felicidade está presente, que deve ser estimulado para que a criança se aproprie de componentes afetivos, cognitivos e sociais, tornando-se pessoas saudáveis e principalmente, felizes. 

Sobre os Autores:

Elaine Oliveira Nunes - Psicóloga, Mestranda em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco.

Winnie Gomes da Silva - Psicóloga, Mestranda em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco.

Referências:

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