Escola: um Diálogo Entre Ensino e Aprendizagem

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Resumo: Este artigo discorrerá sobre a necessidade de se estabelecer no contexto escolar um diálogo entre ensino e aprendizagem, enfatizando o papel da psicopedagoga como interventora em situações que demandam atendimento mais criterioso.  Sendo assim, de início será definido a psicopedagogia, destacando aspectos históricos sobre o seu surgimento, bem como o campo de atuação. Observar-se-á também quando a Psicopedagogia estabeleceu-se como profissão, bem como sua regulamentação.  Dando continuidade será abordado sobre a escola como um importante organismo no conjunto da sociedade, a qual tem se defrontado com inúmeros problemas, pois ao trabalhar com seres humanos que advém de realidades diferentes, necessitam de profissionais habilitados para dar suporte e tornar possível o desenvolvimento de trabalhos que auxiliem na superação das dificuldades, principalmente no que tange a aprendizagem, pois a grande maioria dos alunos são de famílias de baixa-renda e consequentemente de baixo nível cultural, cujos pais não possuem suporte para dar acompanhamento na educação dos filhos, auxiliando nas dificuldades.  Aí entra em cena a importância do psicopedagogo no contexto escolar para auxiliar os professores, alunos e familiares para que a educação aconteça.  Num segundo momento é que enfocar-se-á o ensino de jovens e adultos, onde foi relatado sobre uma instituição de ensino, observando seu projeto político pedagógico, o perfil dos alunos, como também o resultado obtido por ocasião da pesquisa de campo, podendo com isto constatar que quando existe uma equipe que dê suporte, o trabalho acontece.
Palavras-chave: Psicopedagogia, Escola, Aprendizagem, Educação.

Introdução

A Psicopedagogia centra o estudo da aprendizagem, como um processo individual, em que a trajetória da construção do conhecimento é valorizada e entendida como parte do resultado final. Para tanto, sua preocupação maior está no ser que aprende, o ser cognoscente, buscando desenvolver e trabalhar esse ser de forma a potencializá-lo como uma pessoa autora, construtora da sua história, de conhecimentos, e adequadamente inserida em um contexto social.

Com o objetivo de evitar ou debelar o fracasso escolar em uma visão do sujeito como um todo, facilitando o processo de aprendizagem, a Psicopedagogia foca o cognitivo, o afetivo e social, orientando o ensino para que não se torne ensinagem, um meio de transmissão, de depósito de conhecimento.

Nesta direção, este trabalho buscou apresentar alguns apontamentos referentes ao ensino-aprendizagem e o trabalho do psicopedagogo quanto a estes processos.  Para tanto se optou em analisar a Escola Carmen Teixeira Cordeiro, de Ensino de Jovens e Adultos (EJA).

Assim, num primeiro capítulo foram abordados aspectos da história da Psicopedagogia, suas definições e direcionamentos (clínicos e institucionais), além da situação da regulamentação como profissão. Num segundo momento e também identificado como capítulo, foi buscado definir alguns elementos da aprendizagem no âmbito biológico, psicológico e sócio-econômico.

Já no terceiro capítulo identificou-se a posição de cada agente do ensino-aprendizagem, incluindo o professor, aluno, família e equipe da escola. E por fim, num quarto e último capítulo foi feita a análise da pesquisa de campo revelando dados de uma investigação feita na referida Escola.

Trata-se de um trabalho de cunho bibliográfico, o qual procurou se apoiar em diversas obras que abordam o tema proposto, afim de bem embasá-lo.  Para tanto foram utilizados os métodos dedutivo e indutivo no decorrer da leitura e fichamento das obras, como também utilizou-se do método monográfico na redação do trabalho.

1. Aspectos da Psicopedagogia:

A Psicopedagogia envolve muitos aspectos, podendo mais que um simples conceito. Sendo assim, não é apenas a aplicação da Psicologia à Pedagogia, ela recebe um caráter interdisciplinar, assumindo especificidades de uma área de pesquisa com seu próprio objeto de estudo o qual estuda o processo de aprendizagem e suas dificuldades, englobando os vários campos de conhecimento, numa forma em que são englobados e sintetizados.

Num campo de atuação a partir do espaço físico e epistemológico, fundamentado em outras áreas de estudo do ser humano, a Psicopedagogia não se vale somente da experiência, mas de conceitos fundamentais da existência concreta do conhecimento. Deste modo,

A psicopedagogia nasceu como uma ocupação empírica pela necessidade de atender as crianças com dificuldades na aprendizagem, cujas causas eram estudadas pela medicina e psicologia. Com o decorrer do tempo, o que inicialmente foi uma ação subsidiária destas disciplinas, perfilou-se como um conhecimento independente e complementar, possuidor de um objeto de estudo (o processo de aprendizagem) e de recursos diagnósticos, corretores e preventivos próprios. VISCA (1987, p. 7).

Numa abordagem mais prática observa-se que a Psicopedagogia, segundo BOSSA (2000), procura condições favoráveis à aprendizagem, correlacionando necessidades envolvidas no processo educativo para a reelaboração da aprendizagem daquele que apresenta dificuldades. Neste caso, o objeto de estudo, o homem cognoscente passa a ser um processo em construção num aspecto amplo, pluridimensional, relacionado às áreas afetiva, desiderativa, social e relacional. Assim a Psicopedagogia toma “por objetivo fundamental a construção da individuação e da autonomia do eu cognoscenteidentificando e clarificando os obstáculos que impedem que esta construção se faça.” (SILVA, 1998, p. 51).

É possível analisar a definição desta área como uma a ciência aplicada que integra princípios e conhecimentos de outras ciências como o objetivo de compreender o processo de aprendizagem do ser humano, bem como suas variações. Contudo, ela pode atuar tanto de forma preventiva quanto terapêutica, além de voltar-se, também, para os transtornos que ocorrem nos processos de transmissão dos conhecimentos, buscando questões que envolvem os padrões "normais" e patológicos em consideração a intervenção em relação ao meio, a família, escola e sociedade no desenvolvimento do indivíduo, trabalhando com instrumentos como o diagnóstico, o tratamento e a prevenção.

1.1. Surgimento e Possibilidades.

Esta área de estudo surgiu na França, segundo SILVA (1998) no séc. XIX como uma tentativa de resolver as questões que se apresentavam como fracasso escolar, esta por sua vez, relacionava conhecimento como Medicina, Psicanálise e a Pedagogia. Contudo foi na Universidade Del Salvador, em Buenos Aires, que foi oferecido o primeiro curso de graduação da história em 1960. Nesta ligava-se uma concepção organicistas e lineares, que percebia as dificuldades de aprendizagem como patológicas.

Uma década depois, em 1970, a Psicopedagogia chega ao Brasil como um curso de extensão. Em 1979, surge como curso de especialização ligada aos problemas de aprendizagem e, em 1985, também como especialização, já num enfoque preventivo, abertos para todos os profissionais ligados a Pedagogia, Psicologia, Serviço Social Fonoaudiologia, Fisioterapia, entre outros.

É interessante observar que a Psicopedagogia surgiu no Brasil da necessidade de se ter um profissional que pudesse preencher um espaço que não poderia ser, nem da psicologia, como também não poderia ser da pedagogia, sondando e buscar soluções eficientes como o intuito de inserir o aluno na escolaridade normal, diminuindo o fracasso escolar.

Os campos de atuação deste profissional, conforme COLL (2000) podem ser classificados em atendimentos clínicos e institucionais, podendo estar ligados à escola, empresas e hospitais. No atendimento clínico, procura-se promover a reelaboração do processo de aprendizagem daquele que apresenta dificuldade, promovendo o despertar de uma autonomia. Neste caso, o primeiro passo é o diagnóstico quanto aos sintomas da dificuldade utilizando técnicas específicas de coleta de dados e integrando outros exames como neurológicos, escolares, psicológicos e fonoaudiólogos. O próximo passo é o trabalho com as hipóteses, entrevistas, a seleção de amostra e o processamento final dos dados. O tratamento pode ser individual ou grupal, como orientações ao grupo familiar e junto à escola apontando aspectos importantes evidenciados no diagnóstico.

Outro atendimento é o institucional que participa em conjunto com a instituição familiar, escolar educacional e sanitária, cumprindo um papel de construtor de conhecimento. Nesta, o procedimento, num primeiro momento, é identificar as causas das dificuldades através de técnicas específicas de análise institucional e pedagógica. Outro passo a ser tomado é observar a aprendizagem do sujeito diante de diferentes metodologias, analisando as questões sócio-pedagógicas, histórica, antropológica e etnológico-educativa, elaborando um quadro estatístico-analítico do campo de atuação. A intervenção, e não o tratamento é a conscientização dos conflitos que levaram a fragmentação dos conhecimentos por meio de informações sobre as atitudes pedagógicas de ensino que levaram às dificuldades de aprendizagem, implantando recursos preventivos.

Este trabalho abrange a reformulação da prática pedagógica, conforme VEIGA (2000). Isso significa uma mudança que começa por parte do corpo docente e terminando no currículo. Na reelaboração do currículo o profissional pode considerar o nível de desenvolvimento cognitivo, os conhecimentos prévios adquiridos ou não e a aprendizagem significativa. Quanto ao projeto político-pedagógico é uma base de construção da identidade escolar, a psicopedagogia pode auxiliar na sua elaboração e execução, dando o suporte técnico e como coordenador de sua execução orientando uma mudança de comportamento visando solucionar os problemas da educação e do ensino. Quanto ao aspecto preventivo, o psicopedagogo pode traçar estratégias para serem inseridas num projeto pedagógico e no treinamento de professores para auxiliar os portadores de dificuldades de aprendizagem. Sua atuação através de dinâmicas de grupo, trabalhando a verdadeira inserção das crianças especiais num contexto educacional.

Dois campos não muito comentados, mas que também fazem parte da atuação do psicopedagogo são o atendimento em hospitais e os atendimentos em empresas. No primeiro o trabalho é direcionado a principalmente crianças que, por doença, passam muito tempo internadas, sendo, portanto necessário o atendimento ao leito do paciente para que suas estruturas cognitivas não sejam prejudicadas pelo tempo longe da escola ou pelo choque do afastamento. É o caso, por exemplo, de crianças que fazem hemodiálise e dependem de freqüentar hospitais, ao menos, três vezes na semana.

O atendimento em empresas está ligado à aprendizagem de sujeitos que irão exercer uma nova função, auxiliando num desenvolvimento pleno das atividades.

1.2  Profissão e Regulamentação

A necessidade de regulamentação do profissional em Psicopedagogia, no Brasil, já é uma questão de caráter oficial desde 1970 nas instituições universitárias. Regulamentada pelo MEC em cursos de pós-graduação e especialização, segundo o CONSELHO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOPEDAGOGIA (1997) com carga mínima de 360 horas, considerando que muitos são oferecidos com mais de 720 horas. Nos dias de hoje, existem cursos em mais de 15 estados do país.

A profissão “Psicopedagogia” vem para formalizar a área que lida com a compreensão e o tratamento dos problemas de aprendizagem ampliando o foco através da contribuição de outras áreas do conhecimento como a Didática, Lingüística, Psicanálise, Psicologia, Filosofia, Sociologia, entre outras. Desta forma, nenhuma das graduações existentes contempla a especificidade da formação deste profissional e nenhuma das graduações alcança a totalidade da dimensão do processo de aprendizagem.

A procura de se regulamentar a profissão permitiria a normatização da formação e exercício profissional, além de estender este atendimento à população de baixa renda, através de convênios de assistência médica e sistema público de saúde e educação.

Um projeto de Lei tramita pela Câmara dos Deputados desde 1997, o Projeto de Lei nº 3.124/97 do Deputado Barbosa Neto, que a pedido de algumas psicopedagogas, criou este documento buscando regulamentar a profissão de Psicopedagogo e cria o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Psicopedagogia, identificando-o como profissional que auxilia na identificação e resolução nos problemas no processo de aprender. Este projeto foi encaminhado à Comissão de Trabalho no dia 15/5/97 e aprovado pela mesma Comissão no dia 03/9/97. Após esta aprovação este Projeto de Lei foi encaminhado à Comissão de Educação, Cultura e Desporto onde permaneceu por quatro anos e também foi aprovado, com algumas emendas, no dia 12/9/01. Atualmente este Projeto de Lei está na Comissão de Constituição e Justiça e de Redação esperando pela sua aprovação. Caso seja aprovado, irá para o Senado para a sua apreciação e, depois ser sancionada pela Presidente da república.

Segundo este projeto poderá exercer a profissão de Psicopedagogo no Brasil os portadores de certificado de conclusão em curso de especialização em Psicopedagogia em nível de pós-graduação, expedido por escolas ou instituições devidamente autorizadas ou credenciadas nos termos da legislação pertinente.

É certa a idéia que os profissionais em Psicopedagogia já possuem um órgão de classe, a Associação Brasileira de Psicopedagogia, ABPP, criada há mais de 18 anos com sede em São Paulo composta por seções e núcleos nas diferentes regiões do Brasil, contudo considerando que a formação do Psicopedagogo já vem ocorrendo em caráter oficial nas Universidades com muita procura, e há um grande número de profissionais formados nas Universidades Brasileiras desde a década de sessenta, a regulamentação da profissão torna-se não só legítima, mas urgente. É importante ressaltar que a ABPP é uma entidade de caráter científico cultural. Fundada em 1980, tem como objetivo principal congregar profissionais psicopedagogos e profissionais afins e promover estudos, pesquisas, cursos, encontros e compartilhamentos e não legitima a profissão.

Observando a trajetória aqui apresentada, fica claro que a Psicopedagogia exige do psicopedagogo uma articulação, uma abordagem e um avanço qualitativo inerentes a uma maturidade profissional, com recursos que possibilitem entender quais as dificuldades que aquele sujeito está enfrentando para aprender e quais as possibilidades para mudança que ele apresenta. Percebe-se que, se o projeto de lei que regulamenta a profissão for aprovado, será possível cuidar da qualidade dos cursos oferecidos e estender o atendimento à comunidade como um todo, já que surge também a viabilidade de concursos públicos, de convênios, entre outros benefícios. A aprovação do projeto de lei será uma oficialização do que já está socialmente reconhecido.

A dificuldade de aprendizagem de uma forma pode parecer perturbação na compreensão em conteúdos como Língua Portuguesa, Lógica, e outros, contudo significa muito mais do que isto, e envolve também uma avaliação bem maior do que aplicar provas e corrigir deficiências será possível observá-las a seguir.

1.3  A Escola

A escola é uma ramificação da sociedade que se abre para a criança quando esta deixa um período do seu dia na família para freqüentá-la, contudo nem sempre esta instituição está preparada para receber esta criança. De um lado o aluno nem sempre é o modelo que todos esperam e de outro a escola não está preparada nem para o modelo, quanto menos para os que têm dificuldades. Os aspectos psicológicos e sócio-culturais que intervém no desenvolvimento da criança precisam ser prioridades na escola para que o ajustamento da criança aconteça e seu rendimento escolar possa crescer gradualmente.

Embora o professor seja o contato direto com o aluno, dentro da escola, a equipe pedagógica precisa estar atenta às dificuldades de aprendizagem, sendo muito importante a avaliação do aluno desde a sua entrada até a sua saída, analisando possíveis mudanças que venham a surgir. 

Nesta direção, é muito importante a avaliação global do aluno, considerando as diversas possibilidades de alterações que resultam nas dificuldades de aprendizagem, para que o tratamento seja o mais específico e objetivo possível. Especificamente estas dificuldades podem ser Primárias e Secundárias, de acordo com sua origem. As Primárias seriam aquelas cuja causa não pode ainda ser atribuída a elementos psico-neurológicos bem estabelecidos ou esclarecidos. Esses casos englobam, principalmente, as chamadas disfunções cerebrais e, dentro das dessas disfunções, teríamos os Transtornos da Leitura, Transtorno da Matemática e Transtorno da Expressão Escrita, bem como os transtornos da linguagem falada, os quais englobam o Transtorno da Linguagem Expressiva e o Transtorno Misto da Linguagem Receptivo-Expressiva. Já as Secundárias seriam aquelas conseqüentes às alterações biológicas específicas e bem estabelecidas e alterações comportamentais e emocionais bem esclarecidas. Em relação às alterações biológicas (neurológicas) teríamos as lesões cerebrais, epilepsia e deficiência mental, que envolvem também os sistemas sensoriais, através da deficiência auditiva, deficiência visual, entre outros.

Quanto aos problemas emocionais temos a depressão infantil e a ansiedade (de separação) na infância.  A importância do diagnóstico dos problemas emocionais, segundo DROUET (1995) que levam a criança a apresentar um baixo rendimento escolar se justifica por:

_ melhor possibilidades de tratamento;

_ importantíssimo para fazer diagnóstico diferencial quadro muito traumático para familiares e com mau prognóstico;

_ proporcionar um desenvolvimento satisfatório o mais rapidamente possível.

Muito embora as crianças estejam sujeitas à maioria dos transtornos emocionais encontrados nos adultos, na maioria das vezes seu diagnóstico é pobremente realizado, e isto, quando realizado. A maioria das pessoas ainda acredita que criança não fica "nervosa", porque criança não tem problemas, ou coisas assim.

É interessante salientar que muitas vezes as tentativas de se estabelecer diagnósticos para avaliar esses problemas servem para encobrir outras incompetências pedagógicas. Muitas vezes o diagnóstico pouco criterioso de hiperatividade ou fobia escolar, serve como atenuante para alguma comodidade ou incapacidade da escola para lidar com processos e métodos de aprendizagem. Não é segredo que muitas escolas estão longe de cumprir sua tarefa de instruir e educar. Percebe-se, assim, que algo está muito errado e que, nem sempre, o erro é exatamente das crianças (POPPOVIC, 1980).

Por isso, cada caso deve ser avaliado particularmente, incluindo na avaliação do entorno familiar e escolar. Se as dificuldades estão presentes no ambiente escolar e ausente nos outros lugares, o problema deve estar no ambiente de aprendizado e não em algum "distúrbio neurológico" misterioso e não-detectável.

Conforme FERNANDEZ (1991) essa dificuldade seletiva para o ambiente escolar, é detectada quando a criança aprende bem em outros locais, aprende manipular aparelhos eletro-eletrônicos com facilidade, tem boa performance em atividades lúdicas, enfim, quando ela mostra fora da escola que pode aprender como as demais.

É conveniente afirmar que a própria escola, com todas as suas fontes de tensão e ansiedade, estejam agravando ou causando essas dificuldades. Desta forma, muitas vezes as dificuldades são reações compreensíveis de crianças neurologicamente normais, porém, obrigadas a adequar-se às condições adversas das salas de aula. Muitas crianças sensíveis e emocionalmente retraídas passam a apresentar dificuldades de aprendizagem depois de submetidas a alguma situação constrangedora não percebida pelos demais. Trata-se de uma situação corriqueira agindo sobre uma criança afetivamente diferenciada, que nem sempre a escola, incluindo a professora, orientadora, coordenadora e demais colegas de classe, percebe.

Normalmente as crianças que apresentam dificuldades específicas no início da escolarização, embora não tenham nenhum problema neuropsiquiátrico, provavelmente são aquelas que precisarão de maior atenção. São crianças que terão de desenvolver suas habilidades de apreensão daquilo que é ensinado. Portanto, cada uma delas precisa ser investigada e compreendida particularmente em suas dificuldades.

Quando o problema é da escola, uma exagerada restrição das atividades pode favorecer falsos diagnósticos de crianças hiperativas, se as aulas carecem de atrativos pedagógicos, podem surgir falsos diagnósticos de déficit de atenção, e assim por diante.

Pode-se perceber dois extremos que comprometem a escola ou a escola superestima a questão, acreditando comodamente que a criança é um problema, logo deve ter algum comprometimento neuropsiquiátrico quando, às vezes, o problema é de relacionamento ou de adequação difícil às normas da escola. Ou, ao contrário, subestima um verdadeiro comprometimento neuropsiquiátrico levando a dificuldade de aprendizagem a tratar-se de algum problema disciplinar, de método de ensino, de má vontade, etc.

A importância da escola está, portanto em:

_ considerar que o conceito de aprendizagem é bastante amplo;

_ observar a motivação como um fator de grande importância para a aprendizagem;

_ levar em conta que a criança tem mais motivação para aprender quando as coisas têm um significado para ela, que aprende melhor quando participa ativamente do processo de ensino;

_ no processo de aprendizagem deve-se respeitar a individualidade e a verdadeira potencialidade de cada criança;

_ e, por fim, que dificuldade de aprendizagem não é desculpa de dificuldade de ensinagem.

Enfim, as dificuldades acabam por ter diversas variáveis, pessoais (hereditariedade ou lesões cerebrais), ambientais (ambientes familiares e educacionais pobres) ou combinação interativa de ambos. Salientando que, segundo DROUET (1995), a aprendizagem, é parte de um processo de comunicação que apresenta quatro elementos: o comunicador ou emissor (professor), a mensagem (conteúdo educativo), receptor da mensagem (aluno), e o meio ambiente (escolar, familiar, social). Se qualquer um deles falhar, haverá um obstáculo à comunicação, o que poderá causar problemas de aprendizagem.

1.4. O Aluno

Num primeiro momento, é importante questionar se a criança apresenta deficiência de aprendizagem, realmente ou se seu rendimento não satisfaz as expectativas do professor ou da escola. Um desenvolvimento incomum nem sempre denuncia alguma patologia, podendo refletir dificuldades pessoais eminentemente circunstanciais.

É importante que a psicopedagogia seja apenas uma das muitas maneiras de avaliar o ser humano, o qual pode ser influenciado pela sociologia, antropologia, pela religião, e assim por diante.

Portanto, não é possível rotular o aluno sem saber as reais causas pela sua não aprendizagem. Profissionais completamente desfamiliarizados com o diagnóstico psicopedagógico, até por uma questão de conforto emocional ou poder, preferem diagnosticar sem avaliar.

E outra situação pior, na maioria das vezes a família só é mobilizada a procurar ajuda especializada para suas crianças quando fica evidente ou ameaçado o rendimento escolar e a aprendizagem num âmbito “médico”. Infelizmente, na maioria das vezes essa ajuda é procurada incorretamente, pois, na medida em que a família se sente ameaçada por algum estigma cultural,  qualquer coisa parece servir desde que não seja o psiquiatra. (SCOZ, 2000)

A controvérsia encontra-se na criança, objeto de estudo, que traz para a escola atitudes e valores sobre o seu envolvimento com a sociedade, elaborando a informação e externalizando de alguma forma. A questão está em saber compreender quando esta externaliza dificuldades psicoeducacionais ou quando demonstra problemas de interpretação do que o professor tenta transmitir. Os múltiplos fatores de aprendizagem, já mencionados, precisam ser lidos pelo professor e equipe pedagógica e não simplesmente avaliados numa questão estática.

Com isso, a definição do aluno com dificuldade de aprendizagem, conforme FONSECA (1995) deve ser avaliado por profissionais que reúnam componentes sistematicamente observados. 

1.5. O Professor

Quanto ao professor, as dificuldades encontram-se na postura quanto ao significado da aprendizagem. Sua postura facilitadora ou dificultadora é de suma importância para o segmento da aquisição de novos conceitos da criança. O educador que se vê como agente do desenvolvimento infantil será aquele que alcançará êxito na sua tarefa.

Conforme POPPOVIC (1980), para que a aprendizagem aconteça com significado é importante que aja motivação e significado, levando-se em conta a história de vida da criança. Além disso, o professor precisa estar ciente que se o aluno age ativamente no processo de ensino a aprendizagem pode ser facilitada, e quando colocada a conteúdos passivamente transmitidos e levados a partir de críticas e punições ela pode estacionar ou mesmo promover um choque que impede a criança a desejar aprender. Outra observação deve estar na questão do processo de aprendizagem vindo do concreto ao abstrato partindo daquilo que a criança já sabe.

O papel do professor é fundamental e decisivo para que o aluno construa o seu mundo.  A influência do professor não reside somente nos conteúdos escolares, o estímulo ao crescimento emocional e o exemplo de adulto são conseqüências do convívio professor-aluno. As atitudes, a forma de se relacionar com as pessoas, o interesse, o carinho e o método utilizado são aspectos que precisam ser observados pelo professor, pois representam construções no comportamento e, conseqüentemente, na aprendizagem do aluno.

FERNANDEZ (1991) destaca que o objetivo educacional deve tornar-se a facilitação de mudança e aprendizagem. Por esse ponto de vista, o único homem educado é o homem que aprendeu a aprender: o homem que aprendeu a adaptar-se e mudar, que percebe que nenhum conhecimento é seguro e que só o processo de buscar conhecimento dá alguma base para segurança. Só de um contexto interpessoal no qual a aprendizagem seja facilitada surgirão estudantes, reais aprendizes e criativos e praticantes. Facilitação de aprendizagem é o ensino.

O professor como facilitador é principalmente um recurso vivo, que só pode funcionar em numa relação afetiva com o “aprendiz”. É esta relação que deve, portanto, ser de primordial importância em qualquer cenário educacional. A primeira dessas atitudes essenciais é a realidade ou genuinidade. O professor, para ser um facilitador, precisa despojar-se do tradicional papel ou máscara, tornando-se uma pessoa real com seus alunos.

Uma segunda atitude que deve impregnar a relação entre o facilitador e o aluno é que nasce de duradoura confiança e aceitação, e até mesmo uma aceitação da outra pessoa como indivíduo digno e valioso. Isto envolve preocupação, mas não de natureza possessiva ou controladora. É aceitação do outro como uma pessoa separada, como sendo digna por seu próprio direito e como merecedora de plena oportunidade de buscar, experimentar e descobrir aquilo que é engrandecedor do sujeito.

E finalmente, em qualquer relação que deva ocorrer aprendizagem, precisa haver comunicação entre as pessoas envolvidas. Comunicação por natureza, só é possível em um clima caracterizado por compreensão empática. Um facilitador de aprendizagem deve ter consciência da maneira como o processo de educação e aprendizagem parece ser para o aluno. Facilitação exige compreensão e aceitação empática.

1.6.  A Família

Conforme JOSÉ (1997, p. 12) “é a família quem primeiro proporciona experiências educacionais à criança, no sentido de orientá-la e dirigi-la”, contudo em idade escolar a influência da família é crucial, pois o comportamento infantil parte do aspecto microssocial (célula familiar) para o macrossocial (escola), o que significa o auxílio ou a dificuldade na aprendizagem. Valores sobre a necessidade de aprender, o acompanhamento das atividades da escola, podem a criança no sentido de reter sentimentos quanto à preocupação dos pais com sua vida, representando alicerce de auto-estima para que a criança assuma novos conceitos de si própria e do mundo. Se desprezada, ela pode também assumir uma postura de auto-desprezo, se desejada ela aceita as suas atitudes e desenvolve-se com maior facilidade.

Quanto às afirmações anteriores, percebe-se que o desequilíbrio na aquisição do saber pode estar com sua vertente nas relações com a família, apresentando diferentes padrões de socialização.  JOSÉ (1997) aponta vários tipos de família, as quais afetam direta ou indiretamente a aprendizagem escolar: a família de pais separados que podem trazer uma espécie de desajustamento social levando a agressividade, a angústia e ao sentimento de solidão; a família de pai ou mãe viúvo que, diferente dos pais separados, terão uma ausência que nem sempre será substituída, trazendo a intolerância, desinteresse e a fuga da realidade; a família de pais superprotetores ou que moram com os avós mostrando uma espécie de permissividade, este também pode ser o caso de filho único, tornando as crianças desobedientes, egocêntricas ao extremo e, até mesmo, mal educadas; as famílias de segundo casamento que, quando recentes, podem provocar na criança uma inadaptação a nova forma de viver do padrasto ou madrasta e possíveis irmãos, causando complexo de inferioridade, enurese, angústia, agressividade, rivalidades e depressão; e, por fim, a família de raças ou religiões diferentes provocando uma diferença no aspecto físico ou cultural levando a uma confusão quanto às controvérsias dentro do âmbito familiar, esta “tempestade” de diferenças chega à escola como um sentimento de não estar compondo nenhum grupo, sendo indiferente a qualquer amizade.

É possível chegar à conclusão, segundo Bossa (1998), de que os pais responsáveis pela qualidade de vida dos filhos, representando seus construtores do aparelho psíquico. A aprendizagem humana envolve uma relação sujeito-objeto. O sujeito que nasce como um ser biológico, logo se constitui como um sujeito psicológico. A evolução normal das funções egóicas (atenção, memória, pensamento, juízo, percepção, linguagem, motricidade, afetividade) dependem das condições externas, mais especificamente da relação mãe-bebê, uma vez que uma comunicação especial se estabelece nessa relação desde os primeiros momentos da vida do bebê. Através das influências familiares, vai-se paulatinamente moldando seu comportamento.

Esta situação, como já citamos é de fundamental importância para o desenvolvimento posterior da criança e para sua aprendizagem escolar, os sentimentos que os pais nutrem por ela durante os anos anteriores à escola. Tais sentimentos contribuem para o desenvolvimento do conceito de si própria (o autoconceito), o conceito do mundo e de seu lugar no mundo. Considera o autoconceito como base de toda aprendizagem, pois se a criança julga-se capaz de aprender, aprenderá muito mais do que se ela nutrir sentimento de incapacidade.

MORENO & CUBERO (1995), finalizando, atribuem à família garantia de sobrevivência física de seus membros, ressaltando-se que é dentro dela que se realizam as experiências básicas que serão imprescindíveis para o desenvolvimento autônomo dentro da sociedade (aprendizagem do sistema de valores, da linguagem, do controle de impulsividade, etc.). Este é o modelamento psicológico da criança, utilizando como meios, recompensas, castigo ou observação. Contudo, o poder da família não é absoluto, nem infinito, visto que, quando a criança nasce, certas características podem ao menos estar parcialmente definida, como sua saúde e temperamento infantil, e outros contextos socializadores, como escola e colegas, que influem sobre a criança paralelamente à ação dos pais, em maior ou menor grau, ou mesmo a família é influenciada por uma série de fatores determinantes de seu funcionamento, por exemplo, situação sócio-econômica dos pais.

2. Ensino de Jovens e Adultos

2.1. Caracterização da Instituiçãoe Projeto Político Pedagógico.

A Escola Municipal Professora Carmen Teixeira Cordeiro – Ensino Fundamental situa-se no Bairro Batel, na Rua Arlindo Ribeiro, 1519 na cidade de Guarapuava, ofertando as séries iniciais do Ensino Fundamental.

Recebeu autorização de funcionamento para ofertar as séries iniciais do Ensino Fundamental, pela Resolução no 0511/95 de 15 de março de 1995.

Funciona nos períodos matutino e vespertino.

Recebeu o nome da Professora Carmen Teixeira Cordeiro, em homenagem à educadora que muito se dedicou em prol da educação em Guarapuava.

A escola tem por objetivo contemplar a conquista da sua autonomia, propiciada pela gestão democrática.  Mantendo um equilíbrio entre valores, habilidades e conhecimentos, enfatizando a experiência, as vivências do cotidiano, o aprender fazendo, o desenvolvimento da imaginação, da intuição, da percepção, da criatividade e inventividade.

Tem por fim criar condições para que os alunos (as) sejam sujeitos do seu próprio processo de construção do conhecimento.  Respeitar e considerar os direitos individuais e as condições afetivas da criança.  Garantir a qualidade do ensino ofertado pela escola.  Orientar através de princípios éticos, filosóficos e cristãos todo o processo ensino-aprendizagem. Captar e entender as necessidades, os interesses e às expectativas dos alunos, acreditando que a educação só é útil, quando agrega, adiciona e acrescenta valor a qualidade de vida dos estudantes, onde eles vivem, na sua comunidade.

2.2.  Perfil dos Alunos

Atualmente encontra-se matriculados 666 alunos, cuja idade é bastante variável, a partir de 15 anos de idade.  A clientela em sua grande maioria são pessoas pertencentes à classe média baixa, que por motivo de trabalho ou outro não estudaram em idade conveniente e hoje tentam recuperar o tempo perdido, uns buscam o EJA por vontade própria, para tentar achar um trabalho melhor, outros por solicitação da empresa em que trabalham.

Percebe-se que a grande maioria possui consciência acerca da importância de estudar, de buscar novos conhecimentos não somente para garantir um bom emprego, mas também para exercer a cidadania.

2.3.  Resultados

Por ocasião da pesquisa de campo realizada, pode-se perceber que há uma boa infra-estrutura para a realização do trabalho.

Para atender a estes 666 alunos matriculados, conta com 42 professores, uma equipe pedagógica formada por 4 pessoas, sendo 1 coordenadora, 1 supervisora, e 2 secretárias. 

O espaço físico com 26 salas de aula pertence à rede municipal de ensino. O trabalho é desenvolvido em parcerias com o EJA, Empresa Ripinho e SESC.

Uma das dificuldades consiste na organização da documentação (burocracia).  Outro problema consiste na evasão/desistência, os quais são por problemas de ordem familiares ou de trabalho.

Ocorrem também dificuldades em manter o aluno inserido e participante, no entanto, as pressões do meio externo acabam pesando na decisão do aluno.

O EJA muitas vezes acaba fazendo mais um trabalho de resgate emocional, de auto-estima.

Apesar de haver reprovações, esta é menor que a desistência.

Em entrevista realizada com uma das professoras, constatou-se que o tempo disponível para passar os conteúdos é pouco.  E os alunos não possuem base e disciplina para estudarem por conta própria, sendo que muitos deles estão a tempo fora da escola e boa parte deles apresentam dificuldades de memorização, interpretação e produção de texto.

Eis um caso para ilustrar:

Caso Aluno P.B. 49ª está inserida na 3ª/4ª.

Quando menor não teve oportunidade para seguir seus estudos em razão das dificuldades enfrentadas na época.

Ao iniciar no EJA, além de ter que superar as barreiras das dificuldades que apresentava como: memorização e interpretação é uma aluna esforçada, motivada e com grande interesse.  No entanto, teve que romper seu processo letivo em razão das dificuldades agora externas como a distância e a gestão financeira, pois não tinha como custear suas despesas de transporte.  Pois reside à uma hora de distância entre sua casa e a escola.

Professores e alunos mobilizaram-se para ajudá-la a retomar, apesar das dificuldades, a aluna vem a cada dia tentando superar as barreiras.

Observa-se, porém que muitos alunos trazem seus registros históricos de fracassos na escola, ao retomarem na idade adulta se deparam novamente com as mesmas dificuldades, muitos acabam por desistir em razão de não conseguirem superá-las.

Considerações Finais

Analisando o conteúdo do trabalho, podemos concluir que o caráter preventivo da psicopedagogia pode ser o correto em vários casos. Dependendo da dificuldade de aprendizagem só a prevenção é suficiente e para isso é necessário observar como o indivíduo se relaciona com o meio e quanto este o influencia no seu processo de aprendizagem, observando o indivíduo na escola é mais fácil determinar quais as causas da não-aprendizagem e como a ensinagem dificulta as aprendizagens.

Dependendo do caso, a dificuldade de aprendizagem pode ser sanada na própria escola. Além disso, quando há dificuldade, pois em algumas vezes pode ser apenas um pressuposto do professor ou rótulo da equipe.

A dificuldade na ensinagem neste caso é entendida e trabalhada com um agente dificultador para a construção do aprendiz que é um ser biológico, pensante, que tem uma história, emoções, desejos e um compromisso político-social. A Psicopedagogia vem como intuito de observar se realmente existe dificuldade para depois trabalhá-la, tendo o pressuposto de que as pessoas que não aprendem por algum motivo que nem sempre é distúrbio propriamente dito. Num estudo de distúrbio, psicólogos e pedagogos se reúnem para diagnosticar déficits que são apresentados. Os fatores orgânicos e emocionais são observados e, muitas vezes, a criança não apresenta problema, somente foi rotulada pela escola ou profissional que trabalhava com ela.

Acredita-se que com a ampliação da visão do professor e da equipe pedagógica de que o sujeito não é um ser perfeito e que o estudo e a avaliação do processo da aprendizagem são importantes é que teremos um processo de ensino-aprendizagem e não simplesmente ensinagem, processos que devem acontecer interdependentes e não sozinhos. A questão está em que essa observação leva a uma prática pautada no refazimento do processo de aprendizagem e requer reposição de discursos e mudanças de paradigmas. A pessoa/ser humano não está dividido em vários setores, mas integra o emocional, a cognição, o motor e o social.

Os profissionais da educação devem perceber que não basta descobrir que a criança tem problemas, mas saber suas causas, compreendendo que a interdisciplinaridade auxilia a compreender a complexidade desse fenômeno.

Assim a Psicopedagogia se propõe a investigar e a entender a aprendizagem com base no diálogo entre as várias áreas, sendo hoje compreendida no contexto de interdisciplinaridade, sem, contudo, perder de vista que a realidade de seu conhecimento. Desta forma a criança que não está conseguindo aprender é entendida e trabalhada, não como alguém que possui um déficit ou um problema, mas como um aprendiz que possui um estilo de aprender diferente, que está diretamente relacionado ao estilo de família e da comunidade a que pertence.

A educação se desenvolve no contexto de um mundo real com problemas e desafios reais, embora ofereça às pessoas as ferramentas para resolvê-los e alcançar elevadas metas em termos de valores, conceitos, conhecimentos e habilidades. Estas ferramentas cobrem três áreas principais: as ciências naturais, que permitem que o homem entre em contato com seu meio ambiente; as ciências sociais, que ajudam a criar o meio sócio-econômico para a interação e as comunicações que permitem que os seres humanos construam um melhor entendimento entre eles.  A educação é a que se ocupa do desenvolvimento desta complexidade intelectual, econômica e social.  Dado que ela interatua com todos os aspectos da vida da nação, da família e do indivíduo tem um tremendo potencial para produzir a mudança de uma maneira positiva.

As metodologias da educação à distância podem romper as fronteiras de tempo e espaço e oferecer uma flexibilidade que faça que as pessoas, em diversas circunstâncias de sua vida, desfrutem das vantagens que ela dispensa.  Ademais, a possibilidade de proporcionar educação para todos a um baixo custo abre a possibilidade de chegar até as massas dos países subdesenvolvidos, cujas nações deverão manter-se limitadas por problemas econômicos ainda por muito tempo.

Mas cabe acrescentar que se os países hoje considerados desenvolvidos não chegaram a desenvolver seus vastos potenciais humanos através da educação, continuarão sofrendo o subdesenvolvimento e a dependência que caracterizam sua situação atual, desequilibrada e injusta.  E para que a educação possa converter-se numa ferramenta libertadora, deve produzir-se a ruptura do círculo vicioso da pobreza e da privação, que constitui o sintoma mais notável de que as pessoas não podem controlar seus destinos nem científica, nem política, nem economicamente.  Sem o conhecimento que ajuda a liberação, estes países continuarão à margem da ordem internacional que os controla.  Eles seguirão sendo vítimas das circunstâncias, do fundamentalismo tradicional do passado e serão presas dos nazismos e stalinismos do futuro.  A educação, e mais especificamente a educação à distância, oferece um futuro promissor.

É pertinente aqui a idéia de PAULO FREIRE:

Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.  Se a nossa opção é progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da equidade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, não temos outro caminho senão viver plenamente a nossa opção.  Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que dizemos e o que fazemos.

É neste contexto de educação de jovens e adultos deve interagir para que se efetive uma educação de fato, fazendo com que estes adultos que por lá passam saiam de lá com mínimo indispensável para conquistar seu espaço nesta sociedade neoliberal tão competitiva, excludente, onde só sobrevivem os melhores, as pessoas que se destacam e tem um mínimo de conhecimento para interagir.

Para finalizar, em face desta complexidade de questões, aponta-se para uma diferenciação na escuta e o no olhar de cada profissional da educação, com o fim de uma abordagem centrada no avanço qualitativo utilizando atividades que valorizem o que a criança sabe, que estimulem a expressão pessoal, o desejo de aprender e sua possibilidade de amadurecer, vencer situações e resolver problemas.

Sobre o Autor:

Luciane Sékula - Aluna do Curso de Especialização em Filosofia, Sociologia: Um diálogo interdisciplinar.

Ariel José Pires - Orientador – Professor do Depto de Ciências Humanas – UNICENTRO

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