Estresse como Mal–Estar na Percepção dos Jovens Pré-Vestibulandos

Estresse como Mal–Estar na Percepção dos Jovens Pré-Vestibulandos
(Tempo de leitura: 12 - 23 minutos)

Resumo: A pesquisa interessou-se por identificar os significados dos processos seletivos (ENEM e vestibular) em jovens do 3º ano do ensino médio de um colégio particular do município de Fortaleza para ingresso na universidade. Foi um estudo sobre as ideias e sentimentos para sujeitos que geralmente começam a “se preparar” antes mesmo do 3º ano do ensino médio para garantirem uma vaga numa instituição de ensino superior. Os dados foram levantados a partir de uma pesquisa com 17 alunos de ambos os sexos, de uma instituição privada. Para fundamentar a questão, buscou-se estudar alguns autores que abordam o fenômeno da adolescência e aspectos relacionados a este período, destacando-se o ingresso para a vida profissional. A realização deste estudo deu-se na forma bibliográfica e de campo utilizando-se como instrumento de dados a entrevista não estruturada.

Palavras-chaves: Adolescência, Vestibular/ENEM, Escolha Profissional

1. Introdução

No decorrer deste trabalho será verificado que o estresse é uma condição do organismo humano que pode interferir nas respostas mais adequadas e esperadas numa determinada situação. Neste caso, percebe-se que a preparação desses jovens que lutam por uma vaga numa universidade possa ser uma condição geradora de estresse e este, por sua vez, pode interferir negativamente no processo seletivo desses sujeitos. Este tema leva a questionar sobre que idéias e sentimentos são experimentados por esses jovens quando realizam processos seletivos para ingresso na Universidade. Esses processos seletivos para ingresso na universidade, seja o ENEM ou o vestibular, envolve competição exacerbada sobre tudo, a partir do novo sistema proposto pelo ENEM em que o candidato concorre com alunos de todo o país.

A literatura tem apontado que o estresse e a ansiedade são fatores complicadores nesse processo, uma vez que, deveria marcar o fim das indecisões, característica da adolescência, e o início da vida adulta. Portanto, uma das transições marcantes que normalmente ocorrem na adolescência é o início da busca por uma escolha profissional.

Este trabalho teve como objetivo geral o de identificar estratégias de enfrentamento e formas de apoio utilizadas e disponíveis a alunos do 3º ano do ensino médio, de uma escola privada de Fortaleza, considerando a análise de suas idéias e sentimentos sobre o processo seletivo para ingresso na universidade. E os seguintes objetivos específicos: analisar ideias e sentimentos de alunos do 3º ano do ensino médio sobre o processo seletivo para ingresso nas universidades; conhecer as estratégias de enfrentamento utilizadas por esses jovens para lidar com essas idéias e sentimentos; analisar as formas de apoio social disponível e utilizadas por esses jovens para lidar com essas ideias e sentimentos.

O interesse pela temática sempre se fez presente em muitas situações na vida pessoal da autora, mas a escolha pelo referido tema, se deu no decorrer do Curso de Psicologia especificamente no decorrer do ano passado (2010), ao acompanhar a incansável batalha de muitos adolescentes que estavam se preparando para enfrentar o vestibular e o ENEM.

Nesse processo, algo que inquietou bastante, foi o relato de alguns jovens sobre suas histórias de vida, embora cada experiência relatada parecia ser única, própria a cada um daqueles adolescentes, dentre inúmeras particularidades, algo parecia familiar. Naquele contexto, um aspecto se fazia comum no relato desses jovens: o foco principal e suas queixas trazidas, estavam de uma forma ou de outra relacionada à fase da tão discutida na literatura e que o senso comum prefere chamar de “aborrecência”.

Enquanto profissional da área da educação, atuando por alguns anos em diversas modalidades de ensino, essa experiência proporcionou um relacionamento com jovens, de todas as faixas etárias, como também observar em determinados momentos as relações entre esse grupo, ou seja, a forma como se expressavam, ou reagiam emocionalmente, diante de certas situações ou fenômenos em alguns momentos de suas vidas.

Com o passar do tempo surgiu o questionar sobre o que poderia levar os pré-universitários a lidarem de forma tão diversa a eventos que nos parece ser comum à vida desses sujeitos. Aqui o interesse suscitado foi especificamente como eles reagem a determinado acontecimento no período de se submeterem ao processo seletivo vestibular e ENEM e que forma criam para lidarem com esses processos.

Portanto, investigar sobre esse tema, parece favorecer uma reflexão acerca dos processos educativos e suas implicações na constituição desse sujeito que é chamado a responder e, a ser responsável pelos seus atos. Em relação ao campo da psicologia, este estudo pode ter grande relevância para a psicologia e atuação profissional, uma vez que há a pretensão de trabalhar na área educacional e tentar intervir junto aos jovens com o propósito de formular estratégias que possam beneficiá-los no que se refere ao enfrentamento do estresse em situação de avaliação, especificamente de ingresso na universidade.

1.1 Adolescência e Projeto Para a Vida Profissional: Reflexões a Partir da Literatura

A adolescência é um período caracterizado por crises em que o jovem passa por diversas mudanças de ordem biopsicossociais e que possui como principal tarefa a construção de sua identidade. Erikson (1972;1998) considera que o processo de constituição de uma identidade é definir quem a pessoa é, bem como seus valores e projetos que pretende traçar ao longo da vida, tendo uma relação com a confiança infantil e a fé madura. Nestes projetos de vida pode-se encontrar a identidade ocupacional, sendo esta, para Erikson, a questão que mais preocupa e aflige o jovem.

Aberastury e Knobel (1992) dizem que a intensidade e gravidade dos conflitos na adolescência dependerão da qualidade do processo de amadurecimento e crescimento dos primeiros anos, da estabilidade dos afetos, das gratificações, das frustrações e da adaptação gradativa às exigências ambientais. Ressaltam, ainda, que a adolescência possui características individuais, culturais, sociais e históricas.

Anna Freud (1958 apud KNOBEL, 1992) conceitua a adolescência como um período em que estabelecer um limite entre a normalidade e a patologia é muito complicado, tendo em vista que uma conduta estável durante toda essa fase também seria anormal. Neste sentido, Aberastury e Knobel (1992) trazem a ideia de uma entidade semi patológica, denominada a “síndrome normal da adolescência”, na qual o adolescente exterioriza seus conflitos de acordo com a sua estrutura e suas experiências, que é de extrema importância para que o adolescente estabeleça sua identidade.

Salienta-se que a maior ou menor anormalidade desta síndrome é influenciada, muitas vezes, pelos processos de identificação e de luto que o adolescente pode realizar. Segundo Zeller (2000), a concepção psicofisiológica denominada estresse, causa impacto mundial, pois é algo que sentem todos os seres vivos em geral, sendo este um dos fenômenos mais prejudiciais do século, seja em relação à saúde ou aos aspectos emocionais e afetivos em geral.

Baseados na literatura, os sinais e sintomas do estresse baseiam-se em todas as alterações fisiopatológicas que acontecem em um organismo estressado, sendo os mais freqüentes, em relação ao Sistema Nervoso Central (SNC) e psiquismo, o cansaço físico e mental, nervosismo, irritabilidade, ansiedade, insônia, dificuldade de concentração, falha de memória, tristeza, indecisão, sentimento de solidão, sentimento de raiva, emotividade, choro fácil, pesadelo, depressão, isolamento, pânico, podendo também apresentar alterações de comportamento, como alcoolismo, consumo de drogas ilícitas, uso dos calmantes e ansiolíticos, comportamento autodestrutivo e robotização do comportamento.

Rodrigues e Pelisoli (2008) afirmam que durante o período de preparação para o vestibular o jovem enfrenta, além das incertezas e inseguranças inerentes à sua condição desenvolvimental, a cobrança da família, de amigos e ainda da própria sociedade para que ele obtenha a aprovação. Os autores ainda dizem que esse contexto contribui para o surgimento da ansiedade que, em muitos casos, pode vir a ultrapassar os limites da normalidade.

De acordo com Lucchiari (1993), na realidade brasileira, muito mais do que a porta de entrada para a universidade, o vestibular representa a porta de saída, isto é, a não entrada de aproximadamente 90% dos candidatos não aprovados anualmente para o ingresso nas universidades públicas. Dessa forma, discorrendo a partir da visão dos autores, o vestibular, que poderia ser um instrumento de inclusão na universidade, na maioria dos casos acaba promovendo a exclusão, gerado pela competição entre os pré-vestibulandos.

Os autores Rodrigues e Pelisoli (2008) complementam dizendo que o vestibular, por ser um processo seletivo, se caracteriza como uma competição, implicando na idéia de que somente os melhores obtêm a aprovação e de que o sucesso depende não somente do próprio esforço, mas também do desempenho dos outros candidatos. Dessa forma pode-se pensar que a concorrência com os demais participantes do vestibular pode vir a ser outro fator relevante a contribuir para a formação de sofrimento ao jovem.

No período que precede o vestibular, o jovem ainda pode vir a se deparar com a cobrança familiar, quando em alguns casos os pais esperam dele a realização dos desejos e sonhos pessoais que não foram concretizados no passado. Trintinaglia (1996) afirma que de uma forma inconsciente, os pais incumbem os filhos de concretizarem projetos que não tiveram habilidade ou condições para realizar. Nesse sentido podemos pensar que a cobrança da família pode vir a gerar certa pressão sobre o jovem, configurando-se como uma obrigação para o jovem não desapontar seus familiares que estão “investindo” nele.

Prioste (2006) defende que os vários desafios da adolescência, a escolha profissional merece atenção principalmente nos tempos atuais, quando as alternativas e exigências no mundo do trabalho têm se expandido de forma considerável. A contemporaneidade traz em seu bojo a diversidade de configurações profissionais, mas também incertezas e discursos antagônicos. A autora comenta que na era da informação, pessoas tornam-se celebridades sem terem freqüentado uma universidade; jovens criam empresas milionárias na internet; jogadores de futebol e cantores de rap configuram como ideais de vida para muitas crianças e adolescentes.

Cabe ressaltar que a escolha profissional pode provocar nos adolescentes de hoje um sofrimento tão grande quanto o dos rituais de passagem existentes em diversas culturas. O tornar-se adulto requer muito sofrimento, causa angústia pela busca incessante em saber qual identidade adulta vai assumir (PAVANELLI, 2000, p. 14). Neste sentido, Knobel (1992, p. 111) define a adolescência como a “fase evolutiva durante a qual o indivíduo trata de estabelecer sua identidade adulta”.

O jovem inserido na camada social mais favorecida, geralmente começa a pensar na escolha profissional no momento em que este cursa o Ensino Médio. Em alguns casos a concretização do seu projeto profissional pode ocorrer a partir do ingresso em uma universidade, que geralmente se dará por meio do exame do vestibular. Para Trintinaglia (1996) o vestibular passa a ser considerado um ritual de passagem para os jovens, um marco que divide a adolescência da vida adulta. Ainda conforme a autora, a passagem da adolescência para a vida adulta, sob a ótica do sujeito vestibulando, é uma etapa culturalmente dramática. A autora ainda complementa dizendo que em nossa sociedade o vestibular ocorre:

[...] com todos os seus coadjuvantes: escolha do pré-vestibular, escolha da profissão, escolha da universidade, aulas particulares, ansiedade, medo de enfrentar uma cidade desconhecida, ingressar na universidade, a separação dos pais, dos amigos, o abandono do ritmo colegial, acontece concomitante a crise da adolescência (TRINTINAGLIA, 1996, p.15).

Para Aberastury (1990), as mudanças corporais iniciam a problemática dos adolescentes, pois eles terão de definir os seus papéis na procriação, seguidos das mudanças psicológicas, que poderão ser geradoras de conflitos de escolhas, dentre elas a vocacional, pois considerando as normas sociais vigentes, o seu sustento e de sua família dependerão do seu desempenho profissional, como também a definição do seu papel de adulto, reconhecido pela sociedade. Contudo, pode-se dizer que assim como a ida à escola simboliza uma nova etapa na vida da criança, posteriormente será o vestibular na vida do adolescente.

Sabemos que uma das tarefas a serem efetivadas na adolescência é a escolha profissional. Escolher a profissão, segundo Rodrigues e Pelisoli (2008), “exige o conhecimento de área de atuação, mercado de trabalho, rotina, salário e tudo o que acompanha a vida profissional (p. 172)”. Contudo um fator relevante é a influência da família, que muitas vezes é determinante na escolha, podendo ou não estar de acordo com os reais desejos e anseios do adolescente.

A partir dessas situações pelas quais os adolescentes passam, pode ser que a adaptação frente a estas mudanças não ocorra de uma forma adequada. Simon (1989, p.14) define adaptação como “um conjunto de respostas de um organismo vivo; em vários momentos, há situações que o modificam, permitindo manutenção de sua organização (por mínima que seja) compatível com a vida”.

1.2 As Concepções e Sintomas de Estresse

Lipp e Malagris (2001) alertam que

o estresse pode ser entendido como: uma reação do organismo, com componentes físicos e ou psicológicos, causada pelas alterações psicofisiológicas que ocorrem quando a pessoa se confronta com uma situação que de um modo ou de outro, a irrite, amedronte, excite ou confunda, ou mesmo que a faça imensamente feliz (p. 477).

Danucalov (2010) aponta que existem evidências de que o estresse pode ter continuidade durante grande parte do período universitário, inclusive com a criação de hábitos comportamentais inadequados que darão início a um ciclo vicioso, resultando numa enorme repercussão na vida do estudante. Aliás, aquele desânimo que atinge alguns estudantes no decorrer do curso pode estar relacionado a este estresse pré-vestibular.

Danucalov (2010) mostra que entre os sinais mais comuns de estresse estão: a insônia, irritabilidade, cansaço, doenças de pele ou gástricas, perda de memória, etc.

Durante o estresse, o organismo automaticamente utiliza suas reservas de energia para se reequilibrar. Por isso, dois sintomas são mais frequentes durante este processo: a sensação de desgaste generalizado sem causa aparente e dificuldades com a memória (DANUCALOV, 2010).

Além disso, existe o risco de adoecer. Conforme esclarece o psicofisiologista, as substâncias liberadas no organismo por causa do estresse enfraquecem o sistema imunológico e tornam a pessoa mais vulnerável.

2. Metodologia

A realização deste estudo na forma de pesquisa exploratória e de natureza qualitativa foi desenvolvida a partir de uma revisão e análise da literatura e de um trabalho de campo. A pesquisa bibliográfica consiste na consulta a materiais já elaborados, apresentados em livros e artigos (Gil, 2009).

No caso desse estudo, os autores consultados foram dentre outros, Aberastury e Knobel, (1992), Erickson (1987), Anna Freud (1958 apud Knobel (1992), Carvajal (1998 apud Pavanelli (2000). E os artigos disponíveis na base de dados foram www.vidaequilíbrio.com.br/estresse adquirido durante o período pré-vestibular pode se tornar crônico e www.agenciafapesp.br 9860/estresse no pré vestibulando.

Para a pesquisa de campo, foi utilizado o modelo de entrevista não estruturada, que consiste em o entrevistador propor um tema que vai se desenvolver no fluir de uma conversa e que permite que o entrevistador promova, encoraje e oriente a participação do sujeito. Participaram das entrevistas, 17 alunos que estavam no último ano do Ensino Médio, em uma escola privada de Fortaleza. As entrevistas foram realizadas a partir de um diálogo e foram analisadas a partir dos objetivos específicos propostos.

2.1 Instrumentos e Material

Para o desenvolvimento deste estudo, foi obtido a permissão dos entrevistados para utilizar um gravador de voz e um roteiro de temas para condução da entrevista. Este estudo teve duração de nove meses, sendo que a coleta dos dados ocorreu durante os meses de abril e maio de 2011. O roteiro foi aplicado de forma grupal, acompanhado de um diálogo para esclarecer possíveis dúvidas referentes às respostas dos participantes. Momento este propício para a coleta de impressões dos alunos sobre a fase de escolha profissional, pois este é um período no qual a necessidade de tomar decisões se impõe de maneira mais intensa.

3. Resultados e Discussão

Procurou-se identificar estratégias de enfrentamento e formas de apoio utilizadas e disponíveis a alunos do 3º ano do ensino médio, de uma escola privada de Fortaleza, considerando a análise de suas idéias e sentimentos sobre o processo seletivo para ingresso na universidade. Especificamente, os resultados pretendem:

  • Analisar idéias e sentimentos de alunos do 3º ano do ensino médio sobre o processo seletivo para ingresso nas universidades.
  • Conhecer as estratégias de enfrentamento utilizadas por esses jovens para lidar com essas idéias e sentimentos.
  • Analisar as formas de apoio social disponível e utilizadas por esses jovens para lidar com essas idéias e sentimentos.

Os alunosderam início se queixando de não terem dormido bem na semana que antecedeu às entrevistas, e que por esta razão relataram estar com insônia, devido a fatores relacionados à: estudo/escola – provas/ trabalhos escolares, devido ao fato de dormir tarde e preocupação com o processo seletivo. O desânimo e/ou cansaço detectados nos sujeitos, podem estar relacionados a questões que envolvem excesso de tarefas, pressão social; vestibular/ENEM.

Percebeu-se que o acúmulo de atividades, provoca nos sujeitos certo grau de desânimo, uma vez que estes se sentem sobrecarregados e pressionados e acabam diminuindo o entusiasmo para a realização de outras tarefas. Baseado nos depoimentos dos alunos foi possível identificar nos seus relatos que esta fase é potencialmente estressante, uma vez que a cada concurso a competição aumenta e a relação candidato/vaga vem-se ampliando ao longo dos anos. O cansaço, por sua vez, trás como conseqüência principal o fato do aluno não assimilar corretamente o conhecimento.

Como dito por Abesrastury e Knobel (1990) a impaciência, característica típica nos jovens parece está, ainda, relacionado à fase da adolescência. Pauta-se numa suposta era do imediatismo, o tempo da urgência, em que as pessoas necessitam que tudo aconteça muito rápido, nada pode esperar, e todas as necessidades devem ser atendidas naquele instante. Este parece ser um fenômeno moderno, intimamente correlacionado com o processo da globalização e com o avanço e desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação, em que tudo pode ser percebido de uma forma imediata.

Portanto, pode-se dizer que estes dados vão de acordo com Aberastury, que diz que a impaciência faz parte da dimensão emocional de sujeitos que estejam vivenciando momentos estressantes. Estes fatores interferem, de forma significativa, nos processos envolvidos no relacionamento afetivo, causando ainda problemas de comunicação entre estes indivíduos, no aspecto social e familiar.

3.1 Cobranças e Expectativas Sócio-Familiares

Os alunos afirmaram que os pais e familiares estão apoiando suas decisões e que junto com este momento, houve também o aumento de cobranças e aumento de preocupações em relação ao futuro profissional. É na família, que o jovem supostamente encontra apoio para a realização do seu projeto. Assim, se o jovem estiver inserido em um contexto no qual não há o apoio familiar, talvez ele não siga suas expectativas deixando de realizar seus projetos futuros.

Como constatada neste estudo e dito por Trintinaglia (1996) as cobranças desses pais talvez estejam ligadas à própria insegurança. Os pais também se sentem inseguros, uma vez que são criadas expectativas em relação ao futuro de seus filhos. É importante considerar que a escolha profissional, como constatada neste estudo, tem uma íntima correlação com os fatores sociais nos quais os sujeitos estão envolvidos. Os fatores sociais responsáveis na geração de eventos estressores podem ser descritos como: cobrança dos pais para conseguir um emprego ou uma formação profissional futura.

É possível compreender que esta fase da vida, em que os adolescentes encontram as expectativas referentes ao seu amadurecimento, independência e futuro profissional, são exigidos pela família e sociedade em geral. Dessa forma, os familiares e pessoas mais próximas ao jovem exercem influência sobre seu futuro, visto que é no ambiente familiar e íntimo que o adolescente cria e vivencia sonhos e expectativas.

Em relação aos preparativos para o vestibular, os sujeitos afirmaram que poderiam estar se dedicando mais, uns, disseram que estavam confiantes, alguns, demonstraram insegurança e outros, ansiedade. Este momento pré-universitário toma conta de toda a família, muitas vezes interferindo na dinâmica do grupo. Em muitos casos, a família toda participa deste ritual, modificando seus hábitos, deixando muitas vezes de sair e se divertir para não prejudicar os estudos do filho ou filha.

Ainda sobre este aspecto, os sujeitos perceberam que suas famílias estão demonstrando, neste momento de escolha profissional, apoio, preocupação e o aumento de cobranças. Uma preocupação por parte da família, neste período, é natural, pois é um momento de decisões considerado por muitos como precoce. Por isso a família tende a se preocupar, pois o jovem deve, desde muito cedo optar por uma profissão, uma escolha que parece ser definitiva, portanto, preocupante. Em relação à expectativa familiar referente ao futuro profissional destes jovens, estão representadas, principalmente, por meio do apoio de seus familiares.

O estudo mostra a partir de Rodrigues e Pelisoli (2008) que, durante a fase de preparação para o vestibular, o adolescente enfrenta, além das incertezas relacionadas ao seu desempenho no dia da prova, a forte cobrança da família e dos amigos, situação que também acaba contribuindo para o surgimento da ansiedade que, em muitos casos, ultrapassa os limites da normalidade e prejudica o desempenho do candidato.

3.2 Estratégias de Enfrentamento do Estresse

Entende-se a partir da literatura que pessoa alguma pode viver sem sentir certo nível de estresse, no entanto, o estresse vai se desenvolver ou não como consequência da relação entre os estímulos internos, externos e das estratégias do indivíduo, portanto, da capacidade de adaptação deste indivíduo. Neste aspecto, os estudantes foram questionados sobre quais seriam as estratégias utilizadas para o enfrentamento do estresse, como estes lidam com situações estressantes como as cobranças e o que eles fazem para diminuir/minimizar tais situações de estresse.

Foi possível observar que, em relação aos aspectos sociais, há uma tendência ao isolamento do indivíduo, privando-se do contato humano. Assim, ao se referirem à postura em situações estressantes, alguns sujeitos afirmaram que preferem ficar quietos/ sozinhos; outros apresentam estado característico de nervosismo, uns procuram se distrair e alguns choram.

Tratando-se das cobranças que estão vivenciando, alguns afirmam que estão tentando fazer o melhor, outros, disseram estarem estudando mais, alguns alegaram não estar se preocupando com as cobranças e outros afirmaram estar atrapalhando. Questionou-se a estes sujeitos quais as ações que utilizam para diminuir/ minimizar situações de estresse, e foi constatado que procuram relaxar/ descansar, tentam não pensar no “problema” e procuram se acalmar só que é quase impossível.

Os dados constam a partir de Rodriguês e Pelisoli (2008) que as causas principais para este fenômeno podem ser resumidas em uma profunda falta de direcionamento e indecisão em relação ao seu futuro, ao mesmo tempo sofrem maior cobrança por parte de meio sócio familiar em relação à sua escolha profissional. Aliado a isso, nota-se também que as atividades escolares (em especial as direcionadas para a preparação do processo de escolha profissional) tornaram-se mais intensas. Nestas condições, as estratégias de enfrentamento das situações de estresse parecem ser pouco eficazes.

Percebeu-se que muitos indivíduos bem preparados cognitivamente vêm sendo reprovados, às vezes por anos sucessivos. Nesse caso, o problema pode não estar nos estudos e o próprio candidato sabe que tem capacidade de ser aprovado. Trata-se de uma questão psicológica específica do momento da prova, que normalmente é negligenciada pelos candidatos durante a fase de preparação.

O que foi possível observar nestes alunos foi uma enorme insegurança acompanhada de medo principalmente de decepcionar a família que embora diga: “eu não cobro do meu filho um resultado positivo no vestibular”. Porém, ao mesmo tempo em que diz que não cobra, ela fala: “eu confio em você e sei que você vai passar”. Por essa razão o aluno carrega com ele a responsabilidade de tentar dominar todo o conteúdo para conseguir uma classificação numa universidade principalmente na pública.

4. Considerações Finais

A partir do que foi exposto, verificou-se que a adolescência não deve ser vista isoladamente, ou seja, sob apenas um aspecto e sim por meio do contexto sócio-histórico-cultural em que os adolescentes estão inseridos. Deve-se deter também para que as condutas dos adolescentes sejam vistas a partir das características típicas da fase. O vestibular e, mais especificamente, o momento da escolha profissional, e supostamente da escolha de um curso universitário, é significativamente um momento causador de estresse, uma vez que os fatores específicos da escolha profissional, o medo da reprovação nesse processo e o elevado número de candidatos por vaga são aspectos preocupantes para os jovens.

Como sintomas gerados pelos eventos estressores percebidos pelos sujeitos entrevistados, neste estudo, destacam-se, principalmente, a insônia, tensão, irritabilidade, desânimo, dificuldade de aprendizagem e impaciência. Foi possível confirmar o que já fora apresentado na literatura: a fase da adolescência é um período muito suscetível ao estresse. Confirma- se, portanto, que o jovem está exposto a diversas transformações em um curto espaço de tempo, o que exige constantes adaptações às novas situações.

Nestas condições, o fenômeno do estresse é uma constante. Em relação às estratégias de enfrentamento das potenciais situações de estresse utilizadas pelos sujeitos, foi possível constatar que alguns preferem ficar quietos/sozinhos, outros procuram se distrair, outros preferem relaxar/ descansar e alguns, ainda, afirmaram optar por esquecer a situação estressante.

É importante destacar que neste contexto, possa existir a emergência de possibilidades de intervenções psicológicas junto a estes jovens com o propósito de formular novas estratégias que também possam trazer benefícios no que se refere ao enfrentamento do estresse em situação do processo seletivo e/ou escolha profissional. Entende-se que para o sucesso nos exames, a habilidade para lidar com o estresse e a ansiedade é um elemento tão importante quanto o próprio conhecimento acadêmico.

Pode-se perceber que o estresse é um fenômeno que está cada dia mais presente na vida do sujeito, principalmente numa sociedade capitalista, que cobra das pessoas uma adequação aos novos tempos de globalização e competição acirrada.

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