Inteligências Múltiplas e o Ensino Superior: um Processo de Comunicação Efetiva

(Tempo de leitura: 14 - 28 minutos)

Introdução

Muito se discute sobre o ensino no Brasil e no mundo, principalmente em relação ao ensino superior. Algumas questões vêm permeando essas discussões por parte das próprias Instituições de Ensino Superior, por parte do governo, do mercado trabalhista e por parte de todos aqueles que conseguem visualizar questões ambíguas como inúmeros indivíduos desempregados (até mesmo com ensino superior completo) e inúmeras empresas que reclamam de falta de mão de  obra qualificada.

Entre os que discutem o Ensino Superior no Brasil, estão professores universitários que se deparam, frequentemente, com questões relativas à própria postura enquanto docente. A cada semestre, nas faculdades que adotam esta forma de ensino, ou a cada ano letivo,  recebem-se, nas salas de aula do Ensino Superior, alunos com preparo deficiente. Há uma consciência da diversidade de indivíduos que adentram os cursos superiores, porém, é geral entre os docentes, a preocupação com o nível de dificuldades que esses ingressantes têm.

Na forma como o ensino em nosso país, especificadamente no estado de São Paulo, vem sendo conduzido em termos de cobrança pelo trabalho com o desenvolvimento de habilidades desde a educação infantil, seria desejável que o aluno, ao chegar ao Ensino Superior, já houvesse desenvolvido uma série de competências que facilitariam seu desenvolvimento e permanência nos cursos de forma mais satisfatória. Infelizmente não é o que vemos nas salas de aula.

Entende-se o conhecimento como algo não isolado, e que começa somente em um determinado momento de nossas vidas. Se dessa forma fosse concebido, poder-se-ia simplesmente iniciar nossos estudos na universidade sem preocupações com o que deixamos de elaborar nos anos anteriores.

Independente dessa realidade, os professores universitários têm a responsabilidade de “saber ensinar”  a partir das situações encontradas. O saber ensinar está intimamente relacionado com o saber comunicar-se de forma efetiva. Só existe comunicação se o receptor consegue compreender a mensagem.

Dessa forma, faz-se necessário pensarmos sobre o problema da qualificação profissional. Nos deparamos com problemáticas como  a exigência do mercado trabalhista; a velocidade ilimitável das transformações tecnológicas que levam o indivíduo a estar sempre aquém dos acontecimentos; a falta de preparo dos professores universitários; a política econômica que interfere na realidade social e cultural dos egressos universitários ou será que somente alguns são capazes de lidar com esses diferentes olhares e adquirir competência ao término de sua formação, qual o papel da psicologia, essencialmente dos estudos sobre inteligências múltiplas neste contexto?

O presente artigo não tem a pretensão de responder todos os questionamentos, porém objetiva discutir determinados aspectos, principalmente os ocorridos no cerne do Ensino Superior, analisando mais especificadamente a questão do olhar que se dá à formação e qualificação do aluno, o perfil e o papel do docente nesse processo e as estratégias utilizadas por estes na execução de sua função.

Entre as temáticas propostas, o foco será o da teoria das Inteligências Múltiplas, partindo-se do pressuposto de que é uma forma de auxiliar o aluno a fazer conexões, associações entre aprendizagens anteriores e dar novos significados a essas aprendizagens, associando-as a experiências e emoções vividas, através do estímulo a habilidades diferentes daquelas que já possuem de forma integral. O trabalho com Inteligências Múltiplas pode facilitar a comunicação de determinados conteúdos para que haja a compreensão imediata do que está sendo dito.

Falando de Diversidade

Analisando-se a situação da Educação Superior, faz-se necessário refletir sobre diversidade.

Dentro das Instituições de ensino superior, de maneira geral, faz-se uso, quase que mecanicamente, de alguns termos como cultura local, motivação, habilidades, competências, diversidade de indivíduos, formação integral, tecnologia e outros com a intenção de mostrar-se a importância do trabalho com o aluno dentro desses conceitos. Porém, o princípio de tudo de que se fala e pouco se trabalha efetivamente é a questão da diversidade.

Nos dicionários, há várias formas de designá-la, que acabam por convergir a uma mesma instância. Diversidade “é toda alteridade, diferença ou dessemelhança. Esse termo é mais genérico que os três citados acima e pode indicar qualquer um deles ou todos juntos” (ABBAGNANO, 2000, p. 291).

Olhando-se por esse aspecto e pensando-se em relação a alunos em formação no Ensino Superior, pode-se dizer que cada indivíduo é diferente no pensar, no falar, no agir, em relação à sociedade a qual pertence, no nível cultural que traz consigo, nas crenças, nas habilidades, nas competências.

Uma vez adotada esta perspectiva como real, torna-se totalmente inviável termos, em nossas salas de aula, docentes utilizando-se sempre da mesma metodologia, dos mesmos recursos, dos mesmos formatos de aula.

Os indivíduos são dotados de diferentes formas de compreensão da realidade, do conteúdo ministrado, de acordo com os diversos fatores que já foram citados, principalmente levando-se em conta a maneira pela qual foram estimulados no decorrer de toda uma vida acadêmica.

[...] Nós somos todos tão diferentes, em grande parte, porque possuímos diferentes combinações de inteligências. Se reconhecermos isso, penso que teremos pelo menos uma chance melhor de lidar adequadamente com os muitos problemas que enfrentamos nesse mundo (GARDNER, apud ARMSTRONG, 2001, p.13).

Diante do cenário contemporâneo, em relação à formação universitária, faz-se necessário emergente busca pela transformação de “informações” dadas pelos diferentes meios em uma “formação” real, um aprendizado que seja significativo para o crescimento do profissional técnico, humano e para a formação do cidadão. Deve-se levar em conta que a formação deve passar pelo desenvolvimento de processos permanentes de aprendizagem. Processos esses que incluam a organização curricular e a adaptação às diferenças individuais, diversidade de ritmo de aprendizagem, gerenciamento do tempo e necessidades reais do aluno.

A construção de um profissional exige a formação da identidade desse indivíduo e em cada um deles existe um projeto de vida, emoções, realizações e formas de comunicação que lhes são peculiares.

Torna-se, portanto, inviável a formação de profissionais com extrema capacidade técnica e deficiência na capacidade de gerenciar conflitos.

A diversidade da qual fala-se não é só do aluno, está no âmbito da instituição, cujo desenvolvimento deveria ser atrelado a exigência mercadológica; do docente em situação de permanente formação e qualificação profissional; no formato da comunicação sendo esta interpessoal, corporal, visual ou através de estratégias midiáticas; nas expectativas individuais, no grupo social, nas valorizações individuais, e nas expectativas do mercado de trabalho que busca um profissional competente tecnicamente e socialmente.

Faz-se necessário a revisão do ato de ensinar e aprender, rever o que ensinar, até onde ensinar (por que?) e para quem ensinar.

Vê-se que a era da internet e de tantos recursos tecnológicos a disposição leva o processo de comunicação professor/aluno a modificar-se. Tem-se acesso a inúmeras informações e dificuldade em escolher o que é significativo, ou mesmo, dificuldade em integrá-las a nossa prática de vida com o objetivo de tornar o conhecimento mais profundo para que faça diferença no agir pessoal e profissional.

As perspectivas dos alunos diante de tanta evolução, também modifica-se. O ingressante espera encontrar no Ensino Superior o mesmo nível de transformação que verifica-se na mídia. Essa transformação esperada passa por formas diversificadas de estudo e aprendizagem (novas estratégias) que venham de encontro com a velocidade em que as informações chegam a eles e a utilização que farão delas no mercado de trabalho.

Com todas as modificações e avanços na educação, precisa-se encontrar um ponto de equilíbrio que seja facilitador na adaptação entre esta diversidade de modificações. Redefinir possibilidades, pesquisar estratégias e propostas são palavras chaves para uma nova identidade do Ensino Superior, independente da área a ser trabalhada.

Não se trata de colocar no mercado mais uma metodologia importada desconsiderando-se as condições sociais e mercadológicas do país.  A questão é trabalhar-se com as habilidades que todos os indivíduos possuem e que   não são utilizadas, ou melhor, estimuladas a ponto de desenvolver-se uma melhora conceitual no todo desse indivíduo.

Em condições de diversidade, sabe-se que faz-se necessário um trabalho que reúna e potencialize as habilidades do indivíduo e do grupo tendo-se em mente as diferenças que mutuamente podem ser fonte de auxílio na progressão do outro.

Esse é o aspecto principal que busca-se refletir no presente artigo: O trabalho com a diversidade no Ensino Superior através da utilização das Inteligências Múltiplas efetivando um processo melhor de comunicação.

As potencialidades Individuais

 O potencial de inteligência de um indivíduo tradicionalmente media-se  (e ainda faz-se dessa forma em determinados momentos) através de provas. Com estas determina-se a capacidade da pessoa em responder às exigências que o mundo lhe proporcionava. Mede-se a memória, capacidade verbal, raciocínio abstrato, processamento de informação, capacidade visual e motora – gerando-se o chamado QI. Estes testes não reconhecem outros tipos de habilidades ou hipóteses – são voltadas ao linguístico e lógico-matemático.

Hoje, são diversas as exigências da sociedade e das empresas em relação ao perfil profissional adequado para a sociedade contemporânea. Uma dessas exigências é a capacitação profissional integral, ou seja, que o indivíduo tenha desenvolvido a capacidade técnica, humana (sabendo ser, viver e conviver), social (compreender o grupo social e/ou sociedade em que está inserido) e ética ( ser cidadão responsável não somente observando o “Ter” mas, principalmente, o “Ser”).

A realidade que a sociedade  mostra é que os resultados profissionais na vida das pessoas formadas no Ensino Superior, tecnicamente aptas, até mesmo com QI acima da média, não coincidem com seu rendimento acadêmico.

Isso não significa que o rendimento acadêmico perdeu seu valor, porém outros fatores estão, cada dia mais, ampliando seus âmbitos.

 Têm-se levado em consideração na sociedade contemporânea, aspectos do profissional como a criatividade, espontaneidade, perspectiva de vida, habilidades sociais e emocionais que facilitam o relacionamento com as circunstâncias que surgem diariamente.                 

Para que o indivíduo alcance esse potencial de sucesso profissional, faz-se necessário que suas habilidades sejam estimuladas de maneira integral, ou seja, visualizando-se o desenvolvimento além da expressão linguística. Esse trabalho com o desenvolvimento através de estímulos, passa pela sala de aula do Ensino Superior, passa pelas mãos dos docentes e pela forma como conduzem o aprendizado do conteúdo necessário em suas aulas além de passar  pelas perspectivas de inovação do processo educacional.

O psicólogo Howard Gardner desenvolveu uma teoria que propõe um desafio aos docentes, o trabalho com os conteúdos utilizando-se diferentes maneiras, considerando as “inteligências” que cada aluno possui podendo-se garantir o aperfeiçoamento de suas habilidades, na capacidade de resolver problemas e criar em diferentes contextos, valorizando-se integralmente o profissional que está sendo formado.

Gardner chama de “inteligência”, categorias de habilidades e competências para que não haja uma tendência de olhar-se o indivíduo somente de acordo com uma determinada capacidade.

Segundo Armstrong (2001, p. 14), Garner oferece um meio de mapear a ampla gama de capacidades dos seres humanos e agrupa essas capacidades em oito categorias ou “inteligências” abrangentes. São elas: Inteligência Linguística, Lógico Matemática, Espacial, Corporal Cinestésica, Musical, Interpessoal, Intrapessoal e Naturalista.

O indivíduo  estimulado em todas essas áreas pode desenvolver um nível de capacidade (potencial integrado) que o torne, não somente mero reprodutor de um saber pré-concebido mas participante da construção de saberes maiores de forma que estará preparado para a utilização de habilidades operatórias necessárias a uma condição de excelência dentro da profissão escolhida.

Cada inteligência carrega alguns componentes centrais que podem servir de base para o trabalho docente no desenvolvimento dos  conteúdos, utilizando-se um pouco de cada componente, ou seja, estimulando-se todas as inteligências.

Pode-se exemplificar da seguinte forma esses componentes: inteligência Linguística ( sensibilidade aos sons, estrutura, significados e funções das palavras e da linguagem), Lógico matemática (capacidade de discernir padrões lógicos ou numéricos; capacidade de lidar com longas cadeias de raciocínio), Espacial (capacidade de perceber com exatidão o mundo visuoespacial e de realizar transformações nas próprias percepções iniciais), Corporal cinestésica (capacidade de controlar os movimentos do próprio corpo e de manipular objetos habilmente), Musical ( capacidade de produzir e apreciar ritmo, tom e timbre; apreciação das formas de expressividade musical), Interpessoal (capacidade de discernir e responder adequadamente aos estados de humor, temperamentos, motivações e desejos das outras pessoas), Intrapessoal (acesso à própria vida de sentimento e capacidade de discriminar as próprias emoções; conhecimento das forças e fraquezas pessoais), Naturalista (perícia em distinguir entre membros de uma espécie, em reconhecer a existência de outras espécies próximas e em mapear as relações, formalmente ou informalmente, entre várias espécies).

Contribuição das Inteligências Múltiplas para o Ensino Superior

Para Gardner e seus seguidores, os conteúdos desenvolvidos nas escolas deveriam ser objetivos a serem alcançados tendo-se como “ferramenta” às habilidades operatórias desenvolvidas em cada inteligência podendo, dessa forma, responder as diferenças existentes dentro de uma sala de aula conseguindo-se ativar e motivar o aluno a desenvolver habilidades em todas as inteligências.

Simplificando: ensinar de formas diferentes e com diferentes recursos para pessoas diferentes.

Sugere-se a expansão de técnicas, estratégias e instrumentos que levem o ensino além dos repertórios linguísticos, auxiliando no entendimento por parte dele, de seus pontos fortes e fracos – seu perfil – para que desenvolva-se os conhecimentos baseados na profissão escolhida e também no crescimento individual como Ser, entendendo-se seu papel como participante e co-participante na sociedade, não como mero expectador.

ANTUNES (2004) posicionou-se com propriedade sobre o processo de ensino-aprendizagem tornar-se centrado, cada vez mais, no desenvolvimento das inteligências múltiplas, na capacidade de solucionar problemas e na aplicação dos conhecimentos adquiridos em novas situações. Para que isso ocorra é importante o estímulo às habilidades operatórias dentro da sala de aula, em qualquer nível de ensino.

O autor coloca que no Ensino Superior faz-se necessário que determinadas habilidades operatórias sejam desenvolvidas dentro de todos os conteúdos utilizados pelos docentes, ou seja, não é necessário que haja supressão de conteúdos ou modificação dos mesmos, porém, estes devem ser trabalhados com a utilização de diferentes recursos visando desenvolver as seguintes habilidades: Comunicação interpessoal e expressão; Raciocínio lógico, crítico e analítico; Capacidade de mostrar compreensão; Criatividade; Flexibilidade e adaptabilidade; Decisão; Seleção; Crítica; Síntese.

Para que essas habilidades sejam estimuladas e/ou desenvolvidas, faz-se necessário  consideração por parte dos docentes  da diversidade de inteligências da sala de aula modificando-se o olhar no que diz respeito à metodologia a ser empregada.

 Uma aula totalmente expositiva irá beneficiar somente aquele aluno que já possui a inteligência linguística desenvolvida. Este terá facilidade na compreensão do conteúdo proposto porque já pensa em palavras, gosta de leituras e oralidade não necessitando de outros recursos. Já um aluno cuja habilidade linguística foi pouco explorada mas  que possui a inteligência espacial desenvolvida, compreenderia melhor o conteúdo se além da exposição do mesmo houvesse imagens como vídeos, filmes, livros e outros.

Obteria-se com essa proposta, a organização e sintetização das inovações educacionais que limitam à aprendizagem.

Propõe-se, nessa forma de pensar a educação, que os docentes articulem várias habilidades ao ensinar.

Existe um provérbio de autor desconhecido que ilustra essa idéia: “Dê-me um peixe e eu terei como comer por um dia. Ensine-me a pescar e eu terei comida por toda a vida”.

Objetivar-se a formação completa de profissionais no Ensino Superior é ter-se a preocupação na utilização diferentes técnicas e tecnologias diversificadas podendo-se atingir as diferentes maneiras de aprender, os diferentes caminhos da aprendizagem, as diferentes inteligências dos alunos inclusive auxiliando-os no desenvolvimento da chamada e tão procurada pelas empresas – Inteligência Emocional – que nada mais é do que a integração das inteligências Intra e Interpessoal, cujo desempenho está centrado nas habilidades operatórias já citadas – levando o indivíduo a não estar somente centrado em si mesmo mas apto ao trabalho em equipe e ao apoio à sociedade.

Busca-se com o desenvolvimento da inteligência intrapessoal que o indivíduo conheça-se internamente a ponto de entender-se sabendo utilizar suas emoções, seus pontos fracos e fortes, tendo o controle de seu próprio comportamento.

A inteligência interpessoal está centrada na percepção dos aspectos emocionais de outras pessoas como o temperamento, o porquê de determinadas atitudes naquele momento, intenções e desejos, objetivando-se a construção de laços saudáveis de amizade e/ou companheirismo principalmente no ambiente profissional evitando-se  transtornos que, pela  diversidade de indivíduos, possa ocorrer no âmbito dos relacionamentos sociais.

O Ensino Superior é uma fase da vida do indivíduo onde, pode-se dizer, que o “campo encontra-se fértil” para ceifar propostas que visem o crescimento do ângulo de visão do aluno.

Utilizar-se do preparo técnico, cognitivo através de atividades participativas, como propõe a teoria das Inteligências Múltiplas,  relacionando-se a universidade ao sistema social.

“Nós não vemos em nossas descrições (das atividades de sala de aula) muitas oportunidades para os alunos se desenvolverem podendo empregar sua gama completa de capacidades intelectuais. E nos perguntamos sobre o significado do que é assimilado por alunos que ficam sentados, escutando ou realizando exercícios relativamente repetitivos, anos após anos. Parte do cérebro, conhecida como Magoun é estimulada pela novidade. Não me parece provável que os alunos que passam anos nas escolas que estudamos, experimentem muita novidade. Será que parte do cérebro apenas dorme, então? (GOODLAD, 1984, p. 231).

Se concorda-se com a idéia de que o Ensino Superior precisa ser repensado e que o profissional verdadeiramente qualificado é aquele que desenvolve as habilidades já mencionadas em quaisquer circunstâncias, faz-se necessário que o aluno do Ensino Superior seja exposto a atividades que envolvam cursos diferenciados, projetos, ações em que trabalhe-se as habilidades operatórias independente do conteúdo proposto.

Um exemplo disso é apresentar-se um conteúdo de maneira que várias inteligências sejam estimuladas como: palestras, discussões, redações de diários ou jornais (linguística); enigmas, pensamento crítico, cálculos mentais (lógica matemática); apresentações visuais, metáforas, atividades artísticas (espacial); aprendizagem prática, teatro, dança (corporal cinestésica); músicas que ensinam , aprendizagem rítmica ou que provoquem reações (musical); consciência ecológica e social (naturalista); simulações, tutoramento entre colegas, envolvimento com projetos sociais (interpessoal); conectar-se o conteúdo à sua vida pessoal, fazer escolhas em relação a ela (intrapessoal).

Posteriormente falar-se-á mais especificadamente sobre a ação do docente em cada aspecto das inteligências.

No Ensino Superior, deve-se estimular os alunos a utilizar seus conhecimentos e/ou pesquisas na resolução de situações-problema que possam vir a completar as tarefas com as quais vão deparar-se na sociedade e no grupo de trabalho a que  propuseram-se.

Trabalhar-se com a proposta das Inteligências Múltiplas requer inovações educacionais que obviamente passam pelo exercício de autonomia do professor mas que não, necessariamente, precisa-se “jogar fora” o que se tem feito até o presente momento.

É mais um avanço que pertence a um processo, uma situação,  construída pelo aluno, tendo-se em seu interior, o professor como sujeito em construção.

O professor Universitário e as Inteligências Múltiplas

Aprender e ensinar são dois verbos que utiliza-se no decorrer de toda uma vida. Nascer e crescer aprendendo e ensinando através de alguma atividade comunicativa.

Tendo-se isso em mente, pode-se atrever-se a dizer que  pode-se aprender ou ensinar à medida que partilha-se, orienta-se ou informa-se. Sendo qualquer uma dessas alternativas, passa-se pela socialização e não pode-se falar em socialização sem comunicação.

O ato de ensinar e aprender parece adquirir complexidade quando passa a ser intencional, pela forma como apresenta-se na instituição escolar, pelo mecanismo de atuação: Professor como transmissor, aluno como receptor. Deixa de existir a função da socialização e da comunicação entre ambos.

A estrutura do ensino Ensino Superior é algo que precisa-se considerar na análise. Deve-se analisar se as diversas aprendizagens que realiza-se ao longo de uma vida têm a mesma estrutura. Sabendo-se que isso não é real, a análise que deve ser considerada é a permanência da estrutura da sala de aula com a mesma idéia de formação.

Para que haja algum tipo de modificação nessa estrutura, dá-se a necessidade da transformação do próprio professor. Este necessita ser autônomo, flexível, investigativo, gerenciador do tempo com os limites do conteúdo programático, organizando o processo de ensino-aprendizagem, transformando-se em agente de transformação.

Faz-se necessário, também, que ele (professor) tenha conhecimento de suas inteligências já desenvolvidas e as que necessita  trabalhar  para que não utilize-se em suas aulas somente aquelas que já domina, limitando a experiência que pode ser levada à seus alunos.

Esse processo faz-se necessário porque o homem não adquiriu tanta evolução de vida apenas observando. A curiosidade levou-o a pesquisar, a descobrir formas diferenciadas de trabalhar, a descobrir como se faz, ou seja, o homem é naturalmente um ser reflexivo.

Nesse contexto encontra-se  a figura do professor que utiliza o estímulo às inteligências múltiplas em suas aulas. É ele que vai disponibilizar saberes através de diferentes estratégias que serão utilizadas como jogos motivadores.

O profissional docente que trabalha com as Inteligências Múltiplas contrasta nitidamente com um professor tradicional, não por abandonar o uso da apresentação expositiva e o uso do quadro negro (considerada uma técnica legítima de ensino) mas por mudar continuamente seu método de exposição e/ou apresentação para espacial, musical e outras, frequentemente combinando as inteligências de maneira criativa.

Na sociedade contemporânea a escola não é o único meio de construir ou produzir conhecimentos mas é nela que os conhecimentos são sintetizados, esquematizados e dirigidos para a produção de profissionais competentes levando-se em conta que nas instituições de ensino existem profissionais formados especificadamente para esse fim, o de auxiliar no processo de construção de cidadãos provenientes de meios sociais e culturais diferenciados.

Portanto, é na escola que se deveria  valorizar essas diferentes culturas e diferenças individuais para que, em grupo, pudesse haver a troca de experiências e o crescimento de todos.

Nesse contexto, o professor muda seu papel de detentor e transmissor dos saberes para o de mediador entre os saberes trazidos pelos alunos (social e cultural) e o saber científico, através de interações que busquem uma comunicação mais eficaz entre professor e aluno. Mediar a construção do conhecimento através do questionamento leva o aluno a buscar respostas ao invés de encontrá-las já prontas.

Para que isso ocorra, faz-se necessário o autoconhecimento do professor e o conhecer seus alunos, o que poderia exemplificar-se pelo diálogo e pelo comprometimento.

“O professor de IM também desenha no quadro ou exibe filmes para ilustrar uma ideia. Toca música em certa parte da aula, para montar o cenário para uma atividade, para esclarecer um ponto ou para criar um clima de estudo [...] proporciona experiências práticas [...] constrói alguma coisa tangível que revele seu entendimento. Também faz os alunos interagirem de diferentes maneiras (em pares, em grupos, grupos maiores) e planeja tempo para a autorreflexão individual, o trabalho num ritmo pessoal, e para os alunos vincularem suas experiências e sentimentos pessoais ao material que está sendo estudado” (AMSTRONG, 2001, P.61).

 Faz-se necessário uma mudança de estratégia, uma mudança de olhar por parte dos docentes.

A teoria das Inteligências Múltiplas pode ser implementada em diferentes contextos, inclusive no chamado ensino tradicional por não necessariamente modificar planejamentos e conteúdos. O que deve-se alterar é a postura do professor diante do conteúdo a ser apresentado. Como colocado anteriormente, um mesmo conteúdo pode ser trabalhado de diferentes maneiras enriquecendo a  proposta inicial.

“A professora que fala com ênfase rítmica (musical). Desenha no quadro para ilustrar  pontos (espacial), faz gestos enquanto fala (corporal cinestésico), faz pausas para dar aos alunos tempo  para refletir (intrapessoal), faz perguntas que convidam à interação animada (interpessoal) e até inclui referências à natureza em suas aulas (naturalista) está usando os princípios das IM dentro de uma perspectiva centrada no professor (ARMSTRONG, 2001, p.61).

Celso Antunes é um autor que dedicou diversos trabalhos em relação à aplicabilidade das inteligências múltiplas e as habilidades operatórias apresentando palestras, seminários, livros e DVDs para auxílio ao professor.

Seus trabalhos buscaram sintetizar de forma simples maneiras de atuar do docente como sugestão de estratégias, assim como Armstrong em seu livro Inteligências Múltiplas em sala de aula.

Entre os materiais pesquisados, deixamos como exemplo, algumas ações que podem ser utilizadas pelos docentes do Ensino Superior no trabalho com qualquer conteúdo atingindo, dessa forma,  todas as inteligências.

As ações relatadas foram retiradas de um quadro-síntese apresentado por Celso Antunes.

 Línguística: Estimular a pesquisa bibliográfica; explorar diferentes habilidades operatórias como sintetizar, analisar, relatar, descrever e outras; desafiar nas interpretações de textos, concursos de manchetes, trovas e poemas para expressar diferentes idéias sobre o mesmo conteúdo;

Lógico matemática: Estimular a lógica utilizando a  expressão de pensamentos através de gráficos, médias, classificações e categorizações, a lógica através de questionamentos Socráticos, Princípios Heurísticos (Ex: encontrar analogias para o problema que tenham de resolver, propor possível solução, separar em várias partes o problema e depois trabalhar retrospectivamente encontrando um problema relacionado ao que está sendo trabalho e resolvê-lo);

 Espacial: Utilizar-se de linguagens alternativas, utilizarem cores para enfatizar padrões (Ex: assinalar pontos essenciais em vermelho, dados de apoio em verde, passagens confusas em laranja..), solicitar a transferência de textos para desenhos, gráficos, metáforas por meio de imagens e símbolos gráficos;

Cinestésica corporal: Utilizar-se do teatro, jogo de charadas por mímicas, manipulação de objetos, solicitar o uso de movimentos corporais para expressar conhecimentos de conteúdos descritivos;

 Musical: Utilizar-se de ritmos diversos (jingles, raps, cânticos), discografias (seleções musicais gravadas que representem ou ampliem o conteúdo transmitido), paródias, música para criar determinado clima;

Interpessoal: Propostas para cooperar, compartilhar, grupos e jogos cooperativos, simulações;

Intrapessoal: Atividades que atuem como auxiliadoras na significação de fatos apreendidos no uso diário, períodos de reflexão, conexões entre o conteúdo ensinado e a vida do aluno, momentos de escolha pessoal;

Naturalista: Transposição dos conteúdos para um enfoque naturalista.  

Ao analisar a teoria proposta pode-se verificar que nela está inclusa aquilo que bons professores sempre fizeram e continuam a fazer: ir além da aula expositiva e teórica escrita no quadro negro, ou seja, tentar despertar e alcançar a maioria dos alunos ou até mesmo a totalidade deles.

A teoria oferece uma oportunidade aos docentes de refletir sobre seus métodos, a expandir seu repertório, a pesquisar novas técnicas, novos materiais, novas tecnologias e principalmente a tornarem-se mais criativos e ativos em suas expectativas.

“Existir humanamente é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar” (FREIRE, 2001, p. 78)

Faz-se mais uma tentativa de explicitar o funcionamento de experiências assim como já foi feito em filmes como Sociedade dos Poetas Mortos (1989) onde o protagonista (professor) faz com que os alunos leiam passagens literárias enquanto chutam bolas de futebol e escutam música clássica e apesar de encontrar muita resistência, consegue atingir alunos totalmente apáticos e desinteressados pelos estudos interferindo na postura de vida desses alunos. Em Stand and Deliver (1987) um professor hispânico lecionando matemática para o ensino médio, utiliza-se de maçãs para ensinar frações, dedos para ensinar multiplicações, imagens e metáforas para esclarecer números negativos (se escavarmos um buraco no chão, o buraco representa os números negativos e a pilha de terra ao lado dele significa os números positivos).

O professor tem em suas mãos o poder de fazer a diferença na vida de seus alunos, principalmente os do Ensino Superior, não somente na ampliação da cultura científica, mas na formação de vida significativa, com responsabilidade e cidadania.

Tem o poder de oferecer uma ação em cadeia, onde os alunos transportem os conhecimentos construídos para outros através de sua profissão e transforme sua vida, a vida do grupo e da sociedade, transpondo o livro da escola para o livro da vida, ou seja, transfira o que aprendeu na universidade para outras situações profissionais.

Essa possibilidade só existe se as múltiplas inteligências desse aluno foram estimuladas envolvendo-o em diferentes papéis, colocando-o em contato com sua realidade profissional e social.

O aluno que trabalha com um determinado conteúdo de forma linguística, mas também pode refletir sobre sua experiência de aprender (intrapessoal), é colocado diante de uma situação problemática e instigado a identificar ou traçar estratégias lógicas para o melhor entendimento do conteúdo traçado (lógico matemático), debatendo a situação com os colegas e professor, aprofundando os aspectos teóricos (interpessoal), está ampliando suas potencialidades e vivências, tendo o privilégio de compreender  o assunto e a aula proposta, aprofundando de forma significativa os conhecimentos iniciais além de desenvolver habilidades operatórias que lhe permita integrar teoria e prática envolvendo, também, atitudes e valores.

O docente do Ensino Superior deve ter sempre em mente que em qualquer metodologia, qualquer estratégia, qualquer currículo a ser apresentado e também na teoria das Inteligências Múltiplas, há a necessidade de um planejamento.

Não é viável o professor entrar em sala de aula sem ter sua aula planejada e estruturada mesmo que ainda não conheça os alunos por se tratar, por exemplo, do primeiro dia de aula. O planejamento é o que norteia a vida do professor e deve fazer parte integrante de suas aulas.

No aspecto da utilização das Inteligências Múltiplas em sala de aula, pode se dizer que a teoria representa um modelo de instrução sem regras impostas.

O professor pode escolher dentre diversas atividades de estímulo, habilidade, conteúdo, área, tema ou objetivo instrucional e desenvolver dentro de um planejamento que envolva pelo menos sete  ou oito maneiras de ensiná-lo.

Esse planejamento pode ser diário, semanal, mensal ou adequado ao formato de suas aulas e/ou programas de maneira que todos os alunos tenham suas inteligências mais fortes aproveitadas e as menos fortes estimuladas.

Uma forma prática de planejar atividades estimulando-se as múltiplas inteligências é fornecendo a você mesmo (professor) alguns questionamentos sobre o objetivo do conteúdo proposto.

Assegurando-se que tenha, por exemplo, um conteúdo a ser proposto, pode-se fazer os seguintes questionamentos em relação ao desenvolvimento deste:

 Linguístico: De que forma posso utilizar a palavra falada ou escrita?

Lógico matemático: Como posso introduzir números, cálculos, lógica, classificações ou habilidades de pensamento crítico?

Espacial: Como posso usar recursos visuais, visualização, cor, arte ou metáfora?

Musical: Como posso introduzir a música ou os sons ambientais ou explicar pontos importantes numa estrutura rítmica ou melódica?

Corporal Cinestésica: Como posso envolver todo o corpo ou usar experiências práticas?

Interpessoal: Como posso fazer com que os alunos compartilhem coisas com os colegas, envolvam-se na aprendizagem cooperativa ou em simulações em grande grupo?

Intrapessoal: Como posso evocar memórias pessoais, ou deixar os alunos escolherem?

Naturalista: Como posso envolver o conteúdo com os acontecimentos contemporâneos da natureza e/ou sociedade?

Respondendo-se a estas questões no preparo do  plano de aula, pode-se, com maior facilidade, especificar as estratégias, métodos e materiais que possam ser mais apropriados além de selecionar atividades  mais exeqüíveis em seu ambiente educacional.

O docente que se dispuser a trabalhar com Inteligências Múltiplas é aquele que é competente quanto ao domínio dos conteúdos a serem trabalhados e também competentes na capacidade de mudança de paradigmas, de inovação, de idéias, de entendimento de que não existem habilidades privilegiadas, existem habilidades bem desenvolvidas e outras que necessitam de um melhor trabalho em seu desenvolvimento e estímulo.                            

Conclusão

O que se pode concluir através deste artigo é e será sempre “inconclusivo” porque está nas mãos de docentes, também chamados “formadores”, e o sucesso de nossos alunos dependerá do sucesso de profissionais dispostos a pesquisar, buscar, aprender, compreender, ou seja, é um trabalho que envolve a construção do saber do profissional docente em parceria com o aluno.

As técnicas para um trabalho mais significante estão disponíveis e ao alcance dos docentes. O que se torna necessário é a disponibilidade de mudança por parte dos docentes, coordenadores e todos os envolvidos nesse processo, o que nem sempre é fácil.

Toda mudança requer muita pesquisa e estudo,  alteração no modo de pensar, de agir e de viver dos envolvidos, pressupõe disponibilidade de tempo, vontade e compromisso com a profissão.

Pensando-se na transformação constante que o educador vive fica a indagação que deveria levar à exaustão do pensar: que homens e/ou profissionais a Universidade deve formar e para que sociedade serão formados.

A resposta a esses questionamentos está dentro de cada profissional docente que disponibiliza seu tempo e vontade na reflexão da práxis educacional diária.

Referências:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

ANTUNES, Celso. Trabalhando habilidades – construindo idéias. São Paulo: Scipione, 2004.

ARMSTRONG, Thomas. Inteligências múltiplas na sala de aula. Porto Alegre: Artmed, 2001.

CÁS, Danilo Da. Manual teórico-prático para elaboração metodológica de trabalhos acadêmicos. São Paulo: Ensino Profissional Editora, 2008.

CORTELLA, Mario Sergio. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. São Paulo: Cortez, 2005.

DEFFUNE, Deisi; DEPRESBITERIS, Léa. Competências, Habilidades e Currículos de Educação Profissional: Crônicas e reflexões. São Paulo: Edit.Senac, 2000.

FREIRE, Paulo.Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2001

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