Leitura e Escrita na Educação Infantil e seus Desdobramentos: o Mundo da Linguagem Oral e Escrita

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Resumo: Este artigo tem como objetivo valorizar a formação da leitura e da escrita na Educação Infantil que já é trabalhada por meio da Linguagem Oral e Escrita. Os processos de aquisição da leitura e da escrita pelas crianças estão se desenvolvendo cada vez mais cedo, tendo em vista o contexto letrado no qual estamos imersos na contemporaneidade. Ler e escrever com competência tornou-se condição indispensável, apesar de não ser o suficiente, para o exercício da cidadania. Dessa forma, o ensino sistematizado da leitura e da escrita vem se consolidando desde a Educação Infantil, configurando-se esta modalidade de ensino, como locus de introdução do processo escolarizado de alfabetização.

Palavras-chave: Leitura, Escrita, Educação Infantil, Psicologia Escolar.

1. Introdução

Faz-se necessário compreender como as crianças aprendem a linguagem escrita, como se tornam leitoras e produtoras de texto? Como se dá esse processo? É preciso pensar numa forma adequada de se iniciar esse processo já na educação infantil. Este artigo pretende trazer à tona a construção da leitura e da escrita e a discussão das práticas docentes nesse fazer pedagógico, levando o professor a valorizar e explorar o ensino da Linguagem Oral e Escrita, descrita nas Diretrizes Curriculares.

Considerando a realidade verificada de que todos os alunos não são iguais, tanto em suas capacidades, quanto em suas motivações, modo de aprendizagem, condições ambientais, e compreendendo que todas as dificuldades, são em si mesmas contextuais e relativas, é preciso valorizar o processo de interação ensino-aprendizagem. Sabe-se que este é um processo complexo em que estão inseridas diversas variáveis. Mas, a aprendizagem do aluno não depende apenas dele, e sim do grau que a ajuda do professor proporcionará a ele.

Assim é possível afirmar que o educando não é objeto de sua aprendizagem, mas o próprio sujeito dela. A esse respeito Ferreiro (1996) entende que a aprendizagem da escrita tem aspecto evolutivo, a qual é notoriamente tardia a descoberta de que a escrita revela a fala, não sendo preciso que se coloquem de início, a associação entre letras e sons. Outro ponto importante neste desenvolvimento faz referência ao aspecto conceitual da escrita. Para que as crianças tenham a capacidade de descobrir o caráter simbólico da escrita, é necessário proporcionar-lhes situações em que a escrita se torne elemento de seu pensamento. Este aprendizado é avaliado como fundamental, ao lado de outras habilidades.

2. Formando a Leitura e a Escrita

Partindo da análise obtida sobre as concepções que embasam as práticas pedagógicas na Educação Infantil, apresentar-se-á de forma específica a leitura e a escrita dentro desse espaço e tempo de educação e cuidado, nos quais as brincadeiras e as interações constituem-se eixos norteadores do trabalho desenvolvido. Entendendo que a instituição de Educação Infantil não tem apenas uma função pedagógica, mas também sociocultural, vale enfatizar a importância de desenvolver um trabalho que leve as crianças a se inserirem com competência no mundo social.

O município de Cariacica traz nas Diretrizes Curriculares da Educação Infantil (2013, p. 101 - 102) que:

[...] o trabalho com a  leitura  e  o  mundo  da  escrita  deve  ser  iniciado  nos  espaços coletivos das creches e pré-escolas muito antes da fala, pois sabemos que a fala não é pré-requisito  para  que  este  se  inicie.  A linguagem  oral  e  escrita,  não  se  dá naturalmente, nem magicamente, mas, por meio da qualidade das interações que são estabelecidas  entre  criança  x  criança;  criança  e  adultos;  criança  e  os  materiais  de leitura.

Sendo por meio das constantes trocas e partindo das relações  reais  entre  sujeitos,  é que as  “leituras  de  mundo”  se  reconstroem.

As ideias de Ferreiro (2001) concebem um das mais preciosas e modernas contribuições no aspecto construtivista-interacionista da aprendizagem.

Os aspectos construtivos têm a ver com o que se quis representar [...] para criar diferenciações entre as representações [...]. A escrita infantil segue uma linha de evolução surpreendentemente regular, através de meios culturais, de diversas situações educativas e diversas línguas (FERREIRO, 2001, p.18).

A inserção dos diversos gêneros textuais na aprendizagem da criança favorece o desenvolvimento da leitura e da escrita, bem como criar momentos diversificados utilizando recursos variados onde a construção do conhecimento seja favorecida, com o apoio da ludicidade.

Ferreiro (1996) aprecia, assim, as histórias ouvidas e narradas pelas crianças (que devem ser registradas pelo professor), bem como as tentativas de escrever seus nomes ou bilhetes. Essas atividades tomam por responsabilidade grande importância no processo, pois são causadoras de espaço para a descoberta dos usos sociais da linguagem – que se escreve. É importante colocar a criança em situações de aprendizagem, em que possa utilizar suas próprias elaborações sobre a linguagem. O objetivo de Ferreiro é associar o conhecimento instintivo da criança ao ensino, dando-lhe maior significado.

Tendo entendido que escrever não é só desenhar, as crianças começam uma fase de tentar copiar as letras e os símbolos que conhecem. Essas primitivas grafias apesar de não serem mais desenhos, também não são letras convencionais, são escritas que buscam se identificar com a escrita adulta. Adiantada em sua construção da escrita, a criança entende que para escrever utilizam-se apenas letras, passando a parar de representar números em suas hipóteses de escrita. As letras juntam-se cada vez mais das formas convencionais.

A escrita é um sistema de signos que representa um outro sistema de signos. Ao escrever a criança representa o som da fala, mas esse som da fala não é apenas um som [...] ele tem um significado. Esse significado representa a realidade, as coisas do que falamos, nossas ideias, sentimentos, informações... O que, seja a escrita representa a fala, que, por sua vez, representa a realidade (MELLO, 2007).

Apreciando o processo pelo qual as crianças levantam seu próprio sistema de leitura e escrita é provável nortear o ensino da linguagem escrita na escola.

Reforçando os estudos antes apregoados por Vygotsky e Piaget, a aprendizagem se realiza em uma relação interativa entre o sujeito e a tradição em que vive. Esse fato significa que, ao lado dos processos cognitivos de preparação totalmente pessoal (ninguém consegue aprender pelo outro), há uma situação que, não só oferece informações peculiares ao aprendiz, como também incentiva e dá significado ao que é aprendido, e ainda favorece suas essenciais capacidades de aplicação e emprego nas situações que são experimentadas.

Para Carvalho Junior (2008) os campos conceituais de Vergnaud são meios para se elaborar uma intervenção didática que favorecerá o desenvolvimento das capacidades da criança, revelando que: “[...] o saber se forma a partir de problemas para resolver, quer dizer, de situações para dominar”.  

Para Vergnaud, a construção do conhecimento se dá pela sequência: conceitos » situações » representações.

Segundo Izelda Feil (1991, p. 91),

[...] a criança passa por estágios bastante definidos. Dos traços desordenados até a representação de cenas, ela vai evoluindo harmonicamente na sua percepção, linguagem, compreensão, relação [...] a criança que é capaz de representar espontaneamente cenas, previamente planejadas, demonstra indício de maturidade para a leitura e para escrita.

Na aprendizagem inicial as práticas empregadas estão em sua maioria, fundamentada na união de sílabas simples, arquivamento na memória de sons e decifração de cópias. Tais formas fazem com que as crianças sejam um expectador passivo, um receptor mecânico, pois não compartilha do processo de formação do conhecimento.

De acordo com Martins (2007, p. 27) “[...] a leitura vai, portanto, além do texto e começa antes do contato com ele”. A leitura acontece a partir do diálogo do leitor como uma finalidade lida, seja escrito ou sonoro, seja um gesto, uma figura, um evento. Esse diálogo é valorizado por um tempo e um espaço, uma situação ampliada de acordo com os desafios e as respostas que o objeto oferece, em função de expectativas e obrigações, do prazer das descobertas e do conceito de vivência do leitor.

A leitura sensorial inicia muito cedo e segue por toda a vida. Não importa se mais ou menos meticulosa e imediata à leitura emocional e racional. Ela vai, portanto, dar a conhecer ao leitor o que ele gosta ou não, mesmo que de forma inconsciente, sem obrigação de racionalização explicadas apenas porque incomodam a vista, o ouvido, o tato, o olfato ou o paladar. No entanto, essa leitura por meio dos sentidos desvenda um prazer singular, na criança alistada com a sua disponibilidade e curiosidade. Isso favorece a ela a descoberta do livro como uma peça especial, diferente dos outros brinquedos. Motivam-na para a emoção do momento de ler o texto escrito, a partir do processo de alfabetização, provocando o compromisso de autonomia para satisfazer a curiosidade pelo ignorado e para reconstruir emoções vividas.

Além da formação pessoal o espaço escolar e a mediação do professor é muito importante para que a criança sinta-se importante e valorizada, desta forma ela se incentiva a aprender mais e mais. A aprendizagem da leitura e da escrita solicita, em especial, que a criança apreenda como o sistema de escrita acontece e que haja uma complexa conexão dos processos neurológicos e de uma suave evolução de habilidades básicas como percepção, esquema corporal, lateralidade, etc.  O professor deve ao aplicar atividades, elaborá-las de forma diversificada e ao aplicá-la na sala de aula deve sempre enfatizar a importância da escrita na sua utilização nas práticas sociais.

Considera-se importante, que os professores estudem, reflitam e compreendam as novas expectativas que nasce em relação ao trabalho em creches e pré-escolas. Perspectivas essas exigidas pela sociedade atual, marcada largamente por imagens, sons, falas e escritas. Por isso, é imprescindível a “[...] exploração das distintas linguagens como forma de expressão da criança: ler e produzir imagens, cantar e dançar, dramatizar, pintar, desenhar, movimentar-se no espaço, assim como produzir linguagem escrita e falada” (MELO, 2014, p. 46).

A linguagem escrita e falada, como bens culturais aos quais as crianças têm direito ao acesso, configura-se como instrumento básico de expressão de ideias, sentimentos e imaginação. É recomendável que o trabalho com ambas as dimensões da linguagem seja contínuo e bem planejado, de modo a favorecer que as crianças apropriem-se, progressivamente, de vários gêneros e formas de expressão. Nessa perspectiva, reafirma-se a necessidade de se trabalhar a leitura e a escrita com as crianças desde a Educação Infantil, no entanto, é fundamental o aprofundamento a respeito de como e o que realmente necessita ser trabalhado.

Ferreiro (1996, p. 25) afirma ainda que para a alfabetização ter significado, a escola tem que trabalhar com o situação da criança, lendo histórias e com ingerências das mesmas crianças,  que podem aprender as palavras, desde que tenham algum sentido ou com histórias que tenham significado para elas.

Neste contexto, sustenta-se que o ponto de partida e de chegada do processo de alfabetização escolar é também o ambiente, além do texto: falado ou escrito, marcado pela unidade de sentido que se forma numa resolvida situação discursiva.

3. Conclusão

Diante do exposto entende-se que a formação da leitura e da escrita na criança da Educação Infantil perpassa pelas brincadeiras como grande possibilitadora de interações, por todas as formas de comunicação, expressão, registro, realizadas por elas por meio da linguagem escrita. Sabe-se que o foco na Educação Infantil é o uso da língua em contextos sociais como forma de inserção do sujeito na cultura, portanto, a linguagem. Vivenciar a língua é estabelecer cotidianamente múltiplas interações.

É importante privilegiar um trabalho que considere a diversidade de tipos, gêneros e suportes textuais, por meio do contato diário com livros, revistas, histórias em quadrinhos, jornais, panfletos, etc.; a leitura frequente de histórias; escrita na presença das crianças quando esta se fizer necessária; incentivar as crianças a escreverem palavras e textos de forma espontânea, mesmo que não convencionalmente, são importantes meios de as fazerem vivenciar a linguagem da leitura e a escrita com significado social, tendo em vista a variedade de circunstâncias do uso. É recomendável que ler e escrever tenha como objetivo a inserção do sujeito em uma cultura letrada. Acreditamos que a criança, para se inserir com competência nessa cultura, precisa transitar por estas duas modalidades da linguagem oral e escrita.      

É lendo e escrevendo que a criança avança, pois no ato da leitura e da escrita ela vai elaborando hipóteses que a ajudam a enfrentar as contradições que encontram nos usos da linguagem escrita, conforme os campos conceituais de Vergnaud. Situações de produção de texto pelas crianças nas quais o professor é o escriba; as tentativas de cópia de uma receita que gostariam de levar para sua mãe ou de uma poesia que sabem de cor, são atividades que permitem à criança refletir sobre o que a escrita representa, como se lê e se escreve. É importante considerar o nível crescente de desafios oferecidos e trazidos pelas crianças, no curso do seu processo ensino-aprendizagem e da sua formação quanto sujeito.

Sobre o Autor:

Andreia Rosetti Chisté Teixeira - Pedagoga da rede particular há 25 anos e da rede municipal há 12 anos, professora de curso de graduação e pós-graduação na modalidade EAD. Formada em Pedagogia e Artes Visuais. Especialista em Psicopedagogia, Docência Superior, Gestão Escolar e Alfabetização. Mestranda em Ciências da Educação.

Referências:

CARIACICA. Diretrizes Curriculares da Educação Infantil de Cariacica: o entrelaçamento de teorias e muitas práticas. Cariacica: ES, 2013.

CARVALHO JUNIOR, Gabriel Dias de. Os campos conceituais de Vergnaud como ferramenta para o planejamento didático. In: Cad. Bras. Ens. Fís. v. 25, n. 2, p. 207-227, ago. 2008.

FEIL, Izelda Terezinha Sausen. Alfabetização: um desafio novo para um novo tempo. 13. ed. Ijuí, RS: Vozes, 1991.

FERREIRO, Emília. Alfabetização em processo. São Paulo: Cortez, 1996.

____________. Reflexões sobre alfabetização. 24. ed. atualizada. São Paulo: Cortez, 2001.

MARTINS, Maria Helena. O que é leitura? São Paulo: Brasiliense, 2007.

MELO, Keylla Rejane Almeida. Os usos da leitura e da escrita na educação infantil. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Piauí – UFPI: Teresina, 2014.

MELLO, Suely Amaral. Letramento (e não alfabetização) na educação infantil e formação do futuro leitor e produtor de texto. Campinas: SP, 2007.

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