O Papel do Psicólogo Escolar e Educacional: A Visão da Equipe Técnico-Pedagógica Sobre sua Atuação

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Resumo: A atuação do psicólogo no contexto escolar vem sendo motivo de discussão desde as últimas décadas, na tentativa de construir novas perspectivas teóricas e práticas para a profissão, que até então, esteve pautada no modelo clínico de intervenção. Logo, o presente estudo tem por objetivo compreender da perspectiva da equipe técnico-pedagógica de uma escola da rede pública do interior do Estado de Rondônia como é a percepção do trabalho do psicólogo escolar e educacional. Participaram dessa pesquisa, seis pedagogos, sendo este um estudo qualitativo-descritivo, na qual através dos dados obtidos, constatou-se por meio da análise de conteúdo, que ainda há desconhecimento e equívocos sobre as expectativas em torno do papel do psicólogo escolar e educacional, mas também possibilita novas discussões sobre uma prática crítico-reflexiva que considere o processo educacional como um todo.

Palavras-chave: Psicólogo Escolar e Educacional, Equipe técnico-pedagógica, Psicologia Escolar e Educacional.

1. Introdução

Nota-se que ainda hoje são muitos os questionamentos sobre a atuação do psicólogo escolar e educacional, especialmente porque as discussões sobre essa prática são recentes, com início na década de 80, bem como não há um consenso entre os teóricos de uma única definição para atuação deste profissional. Ainda que a regulamentação da profissão de psicólogo em 1960 no Brasil pela Lei 4119 de 27 agosto tenha apresentado um papel importante no desenvolvimento e aplicação de conhecimentos psicológicos na área escolar, o currículo proposto continha recursos limitados para o preparo de profissionais para esta área de atuação (MARINHO-ARAÚJO, 2009).

De acordo com Souza (2009, p. 179) apesar de possibilitar a legalização da profissão e existência de cursos para formação de psicólogos, dentre outros fatores importantes, “[...] também influenciou fortemente no modelo de formação que passou a ser instaurado nacionalmente [...]”. Considerando a análise da autora citada, complementando com a ideia trazida por Tuleski et al (2005), esta influência histórica colaborou para que a atuação do psicólogo se tornasse individualizada e ajustatória com ênfase nos processos de aprendizagem e nos procedimentos remediativos. Sendo assim, poderíamos dizer que permaneceu, até meados de 1980, o modelo de atuação clínico em instituições escolares, com práticas de avaliação para adaptação e adequação de alunos que não se enquadravam às normas institucionais ou não apresentavam rendimento educacional esperado.

Em meados dos anos de 1980, ocorreram mobilizações sociais de psicólogos junto a outros profissionais em lutas sociais na expectativa de melhores condições de vida para os usuários do serviço psicológico. Estes movimentos foram seguidos de produções científicas que trouxeram novas perspectivas de atuação à psicologia, essencialmente no contexto educacional (MARINHO-ARAÚJO; ALMEIDA, 2008).

De acordo com Souza (2009), a psicologia escolar foi uma das primeiras áreas a realizar questionamentos em torno da própria prática, esboçando críticas à formação profissional e ao modelo de atuação psicológica na educação. A partir destas críticas e questionamentos surgiu à compreensão das relações institucionais como parte da análise destes profissionais junto à queixa escolar, fato este que foi extremamente importante ao que se discute atualmente sobre o que seria uma psicologia escolar e educacional crítica.

Portanto, ainda que a psicologia escolar e educacional estivesse presentes na prática profissional como áreas antagônicas, uma relacionada a atuação e a outra a pesquisa, atualmente essa dicotomia está em processo de dispersão, impulsionando a predominância de modelos críticos. Este processo ampliou o campo de atuação do psicólogo escolar para torná-lo também educacional, aumentando o número de pesquisas e voltado à formação do psicólogo para a compreensão do processo educacional como um todo, inserido num ambiente constituído e atravessado por relações sociais, políticas e econômicas (SOUZA, 2009).

Com base nisso, de acordo com Guzzo, Costa e Sant’Ana (2009), a exigência atual ao psicólogo educacional é de que este seja um agente de transformação, promovendo reflexões sobre sua própria prática no intuito de realizar um trabalho voltado às necessidades da escola e da comunidade. Observamos durante o período em que se realizou a atividade de estágio escolar proporcionado pela Faculdade de Rolim de Moura aos acadêmicos do décimo período do curso de Psicologia, a ausência de psicólogo na instituição educacional e que, aparentemente, existem distorções na compreensão do papel deste profissional, tanto por parte dos acadêmicos em início de estágio, quanto pela equipe gestora da escola.

A partir das vivências deste estágio levantamos a hipótese de que as equipes técnico-pedagógicas da escola apresentam dificuldade em definir o papel do psicólogo escolar e educacional. Acreditamos que esta equipe apresentará como expectativa de atuação características correspondentes ao modelo de intervenção clínico, focado no “aluno problema”. Desse modo, apesar das observações quanto a dificuldade dos acadêmicos em identificar o papel do psicólogo no contexto educacional, temos por finalidade neste trabalho compreender cientificamente a percepção da equipe técnico-pedagógica de uma escola do interior de Rondônia, sobre a atuação do psicólogo no contexto escolar e o que eles esperam desse profissional.

Acreditamos, portanto na importância de elucidar as expectativas de instituições educacionais, principalmente por ser esta a primeira turma de psicologia a estagiar nesta região, pretendendo desta maneira quebrar paradigmas e contribuir de maneira significativa com a formulação de desafios e perspectivas para o futuro na atuação deste profissional. Desta forma, esperamos contribuir com discussões que promovam o rompimento de estigmas para que este psicólogo escolar venha a desempenhar o seu papel de maneira significativa, contribuindo para a escola como um todo, proporcionando aos mesmos uma visão crítica e dinâmica da diversidade e amplitude do trabalho na instituição escolar.

A fim de elucidar e contextualizar sobre a influência do psicólogo no contexto educacional apresentar-se-á nos próximos itens, uma breve discussão acerca das atribuições concernentes ao psicólogo no contexto educacional, a fim de esboçar o que tratam os textos atuais como foco de sua intervenção.

2. A Atuação do Psicólogo no Contexto Escolar

A atuação do psicólogo é amparada por leis que estabelecem e amparam a sua prática por todo país, portanto descreveremos algumas partes concernentes à mesma e pesquisas recentes na área para que possamos entender melhor a possível relação entre a teoria e prática no contexto nacional.

De acordo com o Catálogo Brasileiro de Ocupações do Ministério de Trabalho, conforme Ofício Circular 006/2004 – CRP 01 Seção/RO, datado de 15 de outubro de 2004, o psicólogo educacional tem como uma de suas responsabilidades colaborar na compreensão e mudança do comportamento de educadores e educandos, no processo de ensino aprendizagem, nas relações interpessoais e nos processos intrapessoais, dentre outras atribuições que devem estar sempre relacionadas às dimensões política, econômica, social e cultural. Além disso, também tem como responsabilidade a realização de pesquisa, diagnóstico e intervenção psicopedagógica individual ou em grupo, sendo incluído também na elaboração de planos e políticas referentes ao Sistema Educacional, visando promover a qualidade, a valorização e a democratização do ensino. Outro dado que nos chama atenção na atribuição destinada ao psicólogo escolar está relacionada à função de diagnosticar as dificuldades dos alunos dentro do sistema educacional, a fim de encaminhar aos serviços de atendimento da comunidade aqueles que requeiram diagnóstico e tratamento de problemas psicológicos específicos cuja natureza transcenda a possibilidade de solução na escola, buscando sempre a atuação integrada entre escola e a comunidade.

Dessa forma podemos afirmar que o psicólogo escolar não atua no âmbito de promover diagnósticos pra fins terapêuticos dentro da escola, sendo esta uma função do psicólogo clínico. Portanto, o psicólogo no contexto educacional não deve atuar com práticas clínicas e sim com o objetivo de promover a democratização do processo educacional através de reflexões críticas (COSTA; SOUZA; RONCAGLIO, 2009).

Tão logo, Andrada (2005) reforça em seu trabalho, que apesar da falta de compreensão dos profissionais da educação acerca do papel do psicólogo na escola, ao proporcionar aos profissionais uma reflexão a cerca do seu papel nos problemas da escola através do pressuposto histórico-crítico e da teoria sistêmica, pode-se criar uma nova proposta de intervenção do profissional de psicologia no contexto educacional.

Porém o distanciamento entre teoria e prática, evidenciado no trabalho realizado por Gomes (2007) sobre a atuação do psicólogo e os impasses entre a teoria e a prática, destaca que os dados analisados demonstraram que as equipes escolares atribuem ao psicólogo à função principal de ajudar e participar junto à equipe escolar no intuito de minimizar as questões voltadas ao fracasso escolar. Ainda foi possível perceber que para esta equipe a ação do psicólogo se bastaria sem que houvesse a necessidade de um envolvimento e o esforço dos profissionais da educação.

De acordo com Guzzo et al (2010) é preciso repensar a relação entre a teoria e a prática em psicologia educacional, onde atualmente se aprimoram as pesquisas e os conhecimentos na área, mas não preparam os profissionais para enfrentar o desafio de romper com os paradigmas históricos de sua prática, baseado em pressupostos internacionais e no modelo clínico e médico de enxergar o fracasso escolar.  Sendo pertinente enfocar na demanda e nos padrões éticos, na precária ligação entre teoria e prática na formação profissional e na vinculação entre teoria e realidade brasileira.

Para tanto, na expectativa de delimitarmos o trabalho do psicólogo escolar e educacional, apontaremos algumas das atribuições estabelecidas pela SEDUC/RO. De acordo com a Portaria nº 436/10, o psicólogo escolar e educacional, como integrante de um grupo multiprofissional de educadores, é responsável por promover transformações na educação através de pesquisas que ampliem o conhecimento na área educacional, de aprendizagem e desenvolvimento humano, utilizando métodos e técnicas para melhorar a qualidade das relações no trabalho escolar e a qualidade de vida dos usuários da escola, facilitando o processo de ensino e aprendizagem. Contudo, deve encaminhar para atendimentos os casos específicos, que não sejam da competência do Psicólogo Educacional.

Podemos perceber a partir desse documento que o psicólogo escolar e educacional, apesar de possuir uma prática com base nas políticas públicas contextualizada de cada região, atua de uma maneira geral, voltada a uma visão de interdisciplinaridade, atuando em equipe multidisciplinar como parte integrante do Sistema Escolar, levando em conta a diversidade cultural, social, econômica, geográfica e étnica dos espaços institucionais (NOVAES, 2006). Sendo necessário ressaltar que os parâmetros estabelecidos pela portaria acima citada, também determina que o psicólogo no ambiente escolar encaminhe para atendimento os casos que não são da sua competência, o que reforça a tese de que o psicólogo escolar e educacional não faz terapia na escola.

Assim sendo, Nascimento et al (2002) evidencia que apesar de serem bem definidas as atribuições do psicólogo no contexto educacional, o mesmo é visto pelos outros profissionais da educação através do conhecimento popular de uma prática voltada a área clínica, sendo o mesmo responsável pela disseminação desse conhecimento estigmatizado, onde lhe é atribuído: o diagnóstico e o acompanhamento clínico de profissionais e alunos ditos problemas; solucionar os problemas comportamentais, havendo uma resistência em relação as suas propostas de intervenção no ambiente escolar.

Portanto, apesar de ter havido mudanças na forma como o psicólogo atua na escola, ainda o mesmo é percebido como alguém alheio ao processo escolar, pois muito ainda tem que ser feito para mudar a realidade que se faz presente, desse modo, as pesquisas em torno dessa problemática, deve ser responder as incógnitas sobre essa temática, conforme o contexto cultural e até mesmo geográfico de cada região do Brasil, o que contribui para traçar um perfil do psicólogo escolar brasileiro podendo aprimorar a atuação desse profissional, auxiliando no progresso do processo educacional como um todo.

3. O Psicólogo Escolar e Educacional em Rondônia

A fim de contextualizar o perfil do psicólogo escolar e educacional no Estado e conhecer a visão daqueles que estarão trabalhando com o mesmo fazendo parte da equipe escolar, reunimos e relatamos as pesquisas realizadas no estado de Rondônia sobre essa temática.

Para tanto, existem três pesquisas realizadas no Estado pelas pesquisadoras Nascimento et al (2002),  Tada, Sápia e Lima (2010) e Brasileiro e Souza (2010). A primeira pesquisa intitulada “O papel do psicólogo escolar: a visão deste pelos profissionais da educação das escolas estaduais de Pimenta Bueno – RO” teve como objetivo, apresentar as características do psicólogo escolar e como esse profissional é visto pelos profissionais da educação. Essa pesquisa foi baseada segundo a autora, em um estudo estatístico realizado em 1997 que não teve continuidade devido à lotação dos profissionais em unidades escolares, onde foi possível perceber através dos dados levantados que havia um desconhecimento do papel do psicólogo escolar e que o mesmo era confundido com o psicólogo clínico, nesse momento do estudo, os psicólogos estavam recém-contratados pelo Estado e não haviam tido um contato com o ambiente escolar. Diante, da inserção desse profissional na prática houve por parte da pesquisadora a necessidade de contextualizar as funções atribuídas pelo psicólogo escolar e a visão que os profissionais da educação tinham acerca do mesmo, pois se percebeu que apesar da sua inserção e atuação no contexto educacional as distorções a respeito das suas atribuições ainda permaneciam. Portanto, na análise dos dados Nascimento (2002, p. 4), ressaltou que “dentro da escola a Psicologia Escolar não tem seu devido valor pelo desconhecimento, pouco tempo de implantação [...] e valorização social das atividades clínicas”, o que gera contendas entre o psicólogo e a equipe escolar podendo gerar dificuldades no desenvolvimento de suas intervenções na Instituição.

O segundo trabalho publicado no Estado por Tada, Sápia e Lima (2010) intitulado: “Psicologia Escolar em Rondônia: formação e práticas” teve como objetivo responder aos questionamentos que se fazem presentes, acerca das críticas ao modelo clínico na formação e atuação dos psicólogos que dificultam a compreensão sobre o funcionamento escolar, buscando então conhecer como ocorre a formação e a atuação dos psicólogos da rede de ensino público em Rondônia. Nesse estudo, realizado com 38 psicólogos, as pesquisadoras chegaram à conclusão que a inserção desse profissional é recente em Rondônia, sendo a maioria dos psicólogos atuantes na rede de ensino estadual, ex-alunos da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), que até 2005 possuía um enfoque clínico nas disciplinas de psicologia escolar, contribuindo para o enfoque clínico de atuação, foi verificado também que a maioria desses profissionais não fazem uma especialização para atuar na escola o que contribui para uma prática que desconsidera a complexidade do cotidiano escolar e as relações sociais ali contidas.

O outro estudo intitulado “Psicologia, diretrizes curriculares e processos educativos na Amazônia: um estudo da formação de psicólogos”, realizado por Brasileiro e Souza (2010), evidenciou que houve um crescimento nos cursos de psicologia no âmbito do Ensino Superior privado no estado de Rondônia, e que existiu uma presença significativa da ênfase na formação do psicólogo para atuar com a dimensão educativa. Porém, o curso de psicologia oferecido pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), ainda possui um enfoque clínico e organizacional, apesar das mudanças que vem fazendo nas matrizes curriculares do curso, a fim de adequá-las as propostas das Diretrizes Curriculares estabelecidas para o curso no Brasil.

Contudo, apesar das significantes contribuições adquiridas com as pesquisas realizadas no Estado ainda é necessário mais estudos que consigam abarcar a realidade de atuação do psicólogo escolar e educacional, mostrando os pontos que devem ser mudados e as possibilidades de aprimoramento de suas habilidades no intuito de promover uma inserção adequada e que contribua de maneira significativa para o Sistema Escolar como um todo.

4. Metodologia

4.1 Sujeitos

Os sujeitos da pesquisa foram escolhidos devido aos cargos que ocupam na intuição pesquisada, pois além de serem profissionais que possuem contato com a escola como um todo, são responsáveis pela avaliação de queixas escolares e acompanhamento de encaminhamentos, incluindo os que são realizados ao profissional da psicologia. Adotamos como critério de seleção para a amostra a disponibilidade dos mesmos em aceitar participar da pesquisa e responder as perguntas do questionário que lhes foi entregue.

O quadro contendo algumas características dos informantes, não tem por objetivo expor os participantes e sim contextualizar os leitores a cerca do perfil dos nossos colaboradores. Lembrando ainda que os nomes dos mesmos são todos fictícios, utilizando de nomes de flores para distingui-los.

Quadro 1 – Características dos colaboradores, Rondônia, 2011.

Nome

Gênero

Nível de escolaridade

Cargo ocupado

Tempo de Serviço

Orquídea

Feminino

Superior

Vice-diretora

22 anos

Girassol

Masculino

Pós-graduado

Supervisor educacional

15 anos

Margarida

Feminino

Pós-graduada

Coordenadora pedagógica

23 anos

Petúnia

Feminino

Ensino Superior

Orientadora educacional

28 anos

Tulipa

Feminino

Pós-graduada

Supervisora educacional

1 ano e 4 meses

Bromélia

Feminino

Pós-graduada

Orientadora

1 ano

Fonte: questionários aplicados.

Conforme os dados apresentados no quadro foram entregues oito questionários, dos quais retornaram seis para análise, estando entre os colaboradores uma vice-diretora, uma coordenadora pedagógica, duas orientadoras educacionais e dois supervisores, sendo um do sexo feminino e o outro do sexo masculino. De acordo com as informações obtidas através dos questionários, o tempo de atuação dos profissionais está em um máximo de vinte e oito e mínimo de um ano de trabalho, sendo a formação máxima pós-graduação e a mínima em ensino superior.

4.2 Instrumentos

Os dados foram coletados através de um questionário composto por seis questões, que foi elaborado com base no roteiro de entrevista de Baía (2010), que utilizou um guião de entrevista com quatro categorias de análise, porém empregamos apenas duas dessas categorias, sendo estas: 1-Funções do psicólogo escolar e 4-Expectativas em relação ao psicólogo escolar, sendo apenas estas necessárias para atender os nossos objetivos.

4.3 Métodos

O presente trabalho trata-se de uma pesquisa do tipo qualitativa, que se fundamenta em uma estratégia baseada em dados coletados em interações sociais ou interpessoais, analisadas a partir dos significados que os sujeitos e/ou pesquisadores atribuem ao fato (CHIZZOTTI, 2006). Para isto, adotamos a pesquisa descritiva onde “[...] os fatos são observados, registrados, analisados, classificados e interpretados, sem que o pesquisador interfira neles”, sendo coerente com a proposta de nosso estudo, pois permite a descrição dos dados coletados com maior flexibilidade e inferências. (ANDRADE, 1997, p. 104).

4.4 Procedimentos

O presente trabalho foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal (CEP). Desta maneira, procurou-se atender a todos os requisitos éticos envolvidos na pesquisa com seres humanos conforme estabelece a resolução do Conselho Nacional de Saúde- CNS 196/96, utilizando do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para aceite do colaborador em participar e responder ao questionário individual. O prazo atribuído aos colaboradores para entrega do questionário respondido foi de um dia, devido ao limitado número de questões.

Após o recebimento dos questionários, os mesmos foram transcritos e o dados foram submetidos à técnica de análise de conteúdo, que “[...] se aplica a análise de textos escritos ou de qualquer comunicação (oral, visual, gestual) reduzida a um texto, tendo como objetivo, compreender criticamente o sentido das comunicações, seu conteúdo manifesto ou latente, as significações explicitas ou ocultas” (CHIZZOTTI, 2006, p. 98). A análise resultou em duas categorias de pensamentos: 1- o papel do psicólogo escolar e educacional; e 2- as expectativas em torno da atuação do psicólogo na escola.

5. Análise e Discussão dos Resultados

Os dados coletados são recortes das repostas mais significativas encontradas no questionário aplicado aos colaboradores, sendo importante ressaltar que optamos por relatar apenas algumas falas, devido todos os participantes terem as mesmas opiniões sobre a temática pesquisada. Portanto, essas questões serão analisadas dentro de duas categorias previamente estabelecidas.

Na categoria o papel do psicólogo escolar e educacional, observamos que a maiorias dos educadores nunca tiveram contato com esse profissional em seu ambiente laboral, e mesmo aquele que teve essa experiência desconhece o papel desse profissional.

O trabalho do psicólogo na escola é auxiliar os alunos com dificuldade e os professores no ensino-aprendizagem. Nunca trabalhei com um psicólogo escolar. Mais um psicólogo na escola ia ajudar e muito, nos alunos com dificuldade. (Bromélia)

O psicólogo detecta e tenta solucionar os problemas que interferem na aprendizagem e no relacionamento dos alunos. Já trabalhei com um psicólogo voluntário na escola, mas não sei o que ele realmente faz. Com o psicólogo aqui, muitos problemas iam ser sanados. (Petúnia)

Trabalhar com os alunos que necessitam de ajuda, crianças com dificuldade de aprendizagem. Nunca trabalhei com um psicólogo e não sei quais as atividades dele na escola (Girassol).

Diante desses relatos, percebemos uma visão distorcida do papel do psicólogo escolar, atribuindo ao mesmo o poder de diagnosticar, curar e resolver os problemas da escola, mostrando uma visão de trabalho individualizado voltado ao aluno “problema”, professor e família. A sua inserção mágica, parece ausentar os demais atores da escola de suas responsabilidades pelo fracasso escolar.

No entanto esse desconhecimento pode ser entendido ao recorrermos aos aspectos históricos enraizados na inserção da psicologia dentro da educação apresentados anteriormente. Onde o mesmo foi inserido nesse contexto para sanar os elevados índices de fracasso escolar no país, sem que tivessem pressupostos teóricos e instrumentos próprios da área que lhe auxiliassem em sua prática, impulsionando-o a desenvolver um trabalho clínico dentro da escola, onde somente após os anos 80 iniciaram-se críticas a esse modelo de atuação (SOUZA, 2009; TULESKI et al, 2005).

No entanto esses conceitos históricos enraizados na prática do psicólogo tem sido passado pelo próprio profissional através das suas ações desenvolvidas nas escolas, à medida que o psicólogo não trabalha no sentido de desmistificar esse conceito (NASCIMENTO et al, 2002). Nesse sentido, é necessário que além de mudanças nas diretrizes curriculares e nas leis que amparam e estabelecem a prática do profissional no país, haja um rompimento com essa posição histórica, através do combate aos elementos ideológicos presentes em seu interior, resistindo ao consultório particular e disseminado conhecimentos voltados para a realidade brasileira, trabalhando com uma postura ética e crítica, voltado para uma prática que esteja além dos muros da escola (GUZZO et al, 2010).

Portanto, devemos repensar as práticas que vem sendo disseminadas no nosso Estado e até mesmo país, e que precisam ser mudadas para que se desmistifiquem essa ideia de psicólogo escolar construído historicamente, no intuito de favorecer a inserção desse profissional como parte da equipe escolar e na construção de profissionais com o olhar voltado para a totalidade institucional.

Na categoria aexpectativa em torno do psicólogo na escola, a equipe técnico-pedagógica apresenta uma expectativa que o psicólogo trabalhe com uma prática clínica, voltada ao diagnóstico e atendimentos terapêuticos individualizados.

Gostaria do psicólogo na escola para trabalhar com atendimento individual a alunos pais e professores. (Tulipa)

Gostaria sim de ter no meu trabalho um psicólogo escolar, porque esse profissional tem conhecimento para detectar os problemas e trabalhar com os alunos, professores, família e funcionários da escola com acompanhamentos e terapias. (Orquídea)

Gostaria de trabalhar com um psicólogo, porque ele poderia ajudar os alunos, professores, pais e funcionários a resolver os seus problemas, através de conversas individuais e em grupos. (Margarida)

O que possivelmente tem contribuído para que essas expectativas se tornem presentes pode ser explicados através dos resultados das pesquisas realizadas no Estado de Rondônia, ao evidenciar que o psicólogo ainda possui uma prática amparada por cursos que possuem em suas matrizes curriculares uma ênfase clínica e que o próprio psicólogo contribui para que esse conceito não se desfaça, pois mesmo depois da sua inserção no ambiente educacional o mesmo não procura especializações na área que contribuam para o aperfeiçoamento da sua prática no contexto escolar (BRASILEIRO; SOUZA, 2010; NASCIMENTO et al, 2002; TADA; SÁPIA; LIMA, 2010). Outro fator importante é o fato de existir um número limitado de pesquisas sobre a temática no nosso estado, o que pode contribuir para a manutenção da prática clínica entre a classe atuante.

Ao analisarmos o tempo de serviço dos pedagogos pesquisados, que varia de um a vinte e oito anos de labor, percebemos que mesmo os profissionais com menor tempo de formação ainda atribuem ao psicólogo uma expectativa de atuação nos moldes clínicos, demonstrando que essa prática ainda é idealizada mesmo por aqueles que a pouco tempo saíram da graduação. Isso se evidencia, mesmo com a formação continuada de quatro dos nossos colaboradores, permitindo inferir que ainda há um significativo trabalho a ser desenvolvido para mudar essas distorções sobre a atuação do psicólogo que permanece em nosso Estado.

Portanto Andrada (2005) reforça com muita propriedade que esse trabalho de mudanças que deve partir dos próprios psicólogos, relatando que esse profissional é bastante requisitado, mas é pouco compreendido pelos profissionais da educação. Ressaltando que através de uma prática com base nos princípios de totalidade, onde o sistema não pode se desenvolver baseado em um só indivíduo, e da reflexão sobre seu papel no contexto educacional, como sendo parte de um sistema, o mesmo pode e deve desenvolver pesquisas pautando-se em práticas que vão além dos muros da universidade, rompendo com os pressupostos ideológicos dos consultórios clínicos, podendo mudar a visão dos atores da escola.

Com isto, o psicólogo poderá desenvolver uma atuação que agregue mais conhecimentos práticos às publicações brasileiras, mudando a visão individualizada para uma visão integrada da escola. Promovendo nos estagiários de psicologia, que estão iniciando as suas vivências nesse contexto, e também nos educadores, reflexões que contribuam para a desmistificação das expectativas geradas em torno do trabalho realizado pelo psicólogo escolar e educacional, gerando consequentes mudanças na percepção da própria comunidade a cerca das suas funções nessa área de trabalho.

6. Considerações Finais

Diante das teorias a que tive acesso e do ambiente de estágio, observamos que esses conceitos enraizados na história da psicologia como ciência e essencialmente na atuação do psicólogo escolar, influenciaram significativamente nossa recepção na instituição e, de certa maneira, dificultaram a realização de trabalhos baseados na análise dos contextos históricos e culturais do ambiente e dos sujeitos envolvidos no processo de escolarização.

Segundo Andrada (2005), o psicólogo vem sendo muito requisitado para atuar junto à equipe escolar, mas ainda é compreendido como aquele que trata os alunos problema, os devolvendo a sala de aula bem ajustados, caracterizando esta, uma visão de intervenção clínica que deve ser abolida das escolas, por parte de diretrizes que fundamentem a atuação desse profissional. Essa distorção ocorre devido a vários fatores, porém entre eles se destaca o percurso histórico da psicologia dentro do âmbito educacional, que se apoiava anteriormente em instrumentos próprios da clínica para intervir no contexto educacional, partindo de uma psicologia voltada a práticas individualizadas e psicometrista, mas que atualmente necessita estabelecer novas intervenções e se desvencilhar das marcas históricas deixados no passado (ANDRADA, 2005; TULESKI et al, 2005).

No entanto sabemos que isso não é uma tarefa fácil, pois existem ainda muitos profissionais da educação que desconhecem o papel do psicólogo escolar e educacional e atribui uma expectativa clínica a sua atuação. Isso dificulta a inserção do psicólogo no contexto educacional, porém nos possibilita pensar em novas perspectivas de atuação que desmistifiquem essa visão distorcida, trabalhando pra disseminar uma prática crítico–reflexiva no contexto educacional, vendo a escola como um sistema constituído de relações.

Tão logo cabe a todos nós refletir que diante das dificuldades encontradas até mesmo por muitos psicólogos em desenvolver uma prática voltada para desmistificação desses conceitos, como podemos esperar que a equipe técnico-pedagógica, com formação em outra área, e com um contato somente com psicólogos clínicos, atribua ao psicólogo outro papel.

Portanto, mediante esses resultados, é possível perceber o árduo e longo caminho que ainda temos que percorrer ao falarmos na atuação do profissional de psicologia no cenário educacional. Assim sendo, esperamos que novas pesquisas sejam desenvolvidas sobre a temática e que estas possam contribuir para uma melhor compreensão da atuação do psicólogo no contexto escolar, enriquecendo ainda mais os pressupostos teóricos nacionais para a consolidação da prática do psicólogo como parte integrante do Sistema Escolar.

Sobre os Autores:

Lavínia Cristina Rodrigues de Souza - bacharel em psicologia, com enfase em psicologia educacional pela Faculdade de Rolim de Moura - FAROL/RO.

Orientadora: Elisangela Sobreira de Oliveira - mestre em psicologia educacional pela Universidade Federal de Rondônia - UNIR.

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CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA Seção/RO. Ofício Circular nº 006/2004, de 15 de outubro de 2004.

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