Os Desafios em Tornar a Educação Acessível a Todos

Resumo: O presente artigo busca a discussão e a reflexão sobre o ambiente escolar e a prática pedagógica na educação inclusiva, apontando para os estereótipos já existentes e para os paradigmas que devem ser quebrados em relação à mesma. O estudo busca responder ao seguinte problema de pesquisa: “Quais as principais problemáticas encontradas no ambiente escolar e na prática pedagógica em relação à educação inclusiva?”. O objetivo geral desta pesquisa é definir as principais dificuldades, problemas e desafios encontrados no ambiente escolar em torno da prática pedagógica na educação inclusiva. Os objetivos específicos são discutir as ações pedagógicas que levam à inclusão de crianças que de alguma forma não se enquadram no padrão estruturado da sociedade, sejam elas portadoras de deficiência, dotados de altas habilidades, ou portadores de transtornos psicológicos e/ou cognitivos. As metodologias utilizadas para chegar aos resultados foram análises bibliográficas descritivas e pesquisa de campo, através do método dedutivo, com abordagem qualitativa, em forma de entrevista composta de oito questões, sendo cinco questões de caráter objetivo e três questões de caráter subjetivo. Os resultados foram alcançados através de uma junção dos resultados da pesquisa de campo e das análises bibliográficas. Como resultado obtido, pôde-se verificar que as dificuldades encontradas para inclusão escolar são inúmeras; dentre elas encontram-se a falta de disciplina dos alunos, a falta de afetividade da família para com o aluno, o que reflete nos comportamentos emitidos em sala de aula, a falta de estrutura física, por vezes os próprios familiares dos portadores de deficiências precisam aceitar e compreender que ser portador de deficiência não é ser incapaz, mas sim, ser diferente e ter capacidades diferentes e por vezes surpreendentes. Para possibilitar o trabalho inclusivo no ambiente escolar deve-se obter uma equipe multidisciplinar capacitada, juntamente com o apoio familiar e capacitação para professores.

Palavras-chave: Ambiente escolar. Educação Inclusiva. Desafios.

Introdução

A educação tem sido uma temática que gera vários conteúdos a sua volta, questionamentos, leis e debates de âmbito nacional e internacional, sendo abordada há décadas. Seu conceito na sociedade atual tem se tornado rotineiro por alguns estudiosos do assunto, considerado primordial para o desenvolvimento social, e embora ela realmente seja, vemos uma problemática ainda maior neste assunto, sendo ele a educação inclusiva. Por vezes escondida atrás das problemáticas da educação regular, talvez por não ser considerada um recurso fundamental pela “maioria”, há uma minoria que faz uso deste, cujo mesmo é fundamental para seu desenvolvimento, sendo eles portadores de necessidades especiais (física e/ou mental), indivíduos com altas habilidades ou com transtornos globais de desenvolvimento.

Os desafios encontrados na prática pedagógica no ambiente escolar e na educação inclusiva se tornaram uma problemática que atinge a sociedade, envolvendo questões políticas, jurídicas e sociais, embora existam leis que regulamentem as normativas para a prática educacional e todo seu entorno, visando os alunos, professores, equipe pedagógica, estruturação, e a inclusão de alunos com necessidades especiais, portanto, nota-se a dificuldade da execução dessas leis.

O professor como agente imediato da instituição escolar, tem sido a ferramenta que lida diretamente e diariamente com a educação inclusiva, contudo, para se obter uma prática educacional que englobe todos os requisitos que se fazem necessários para garantir uma educação de qualidade e que abranja todo indivíduo, deve-se envolver toda uma equipe capacitada, que seja responsável por essa demanda, em conjunto com o professor.

Analisando o contexto geral, entende-se que a responsabilidade com a inclusão é um dever de todos, onde, com responsabilidades civis, éticas e morais para com a sociedade, podem adotar práticas que abriguem as diferenças de forma a conviver com elas e possibilitar acesso de interação, com direitos e deveres como todos. No âmbito escolar, em conjunto com a instituição, vê-se a importância da atuação ativa na participação da educação da pessoa com necessidade especial, da própria família do aluno, em que busque o conhecimento necessário, seja ele de forma médica, técnica, e afetiva, para acolher a criança que necessite de cuidados especiais. Com isso, a participação dos pais e família, em conjunto com a comunidade em que esta criança está inserida, a prática educacional e pedagógica terá um suporte maior para lidar com os desafios encontrados diariamente no ambiente escolar. 

No intuito de aprendizagem, no que se refere ao desenvolvimento cognitivo, intelectual e social, a interação de crianças com necessidades especiais em conjunto com alunos da grade regular, garante para ambos esse crescimento. Contudo, embora de princípio pareça algo impossível e de fato é complexo, a busca por essa prática, além de ser considerada um desafio, é também um fator que desmotiva muitos envolvidos nessa relação, sendo encontrada em todos as partes envolvidas nesse processo.

Materiais e métodos 

Utilizou-se como método pesquisa bibliográfica acerca da temática. Como forma de obtenção de conhecimento prático nesta temática realizamos uma pesquisa de campo em quatro escolas municipais sendo elas: Escola Municipal Carlos Gomes, Escola Municipal Rondônia, Escola Municipal Professora Josinete Holler e Escola Doutor Dirceu Lopes, com o objetivo de verificar as concepções dos docentes sobre a Educação Inclusiva; conhecer as dificuldades e expectativas dos professores em relação à prática  e observar o nível de formação dos professores. Com base em um referencial bibliográfico específico sobre a educação diante de uma perspectiva inclusiva, foi elaborado e aplicado um questionário com um total de oito questões a um grupo de vinte participantes, com o objetivo de fazer um levantamento sobre as concepções dos professores e os demais profissionais em relação às dificuldades encontradas por eles diante desta nova perspectiva de ensino.

Resultados e Discussão

A educação inclusiva vê a escola como um espaço para todos se desenvolverem como cidadãos dentro de suas limitações e diferenças, não é fácil adotar estas novas práticas, porém, as mudanças são necessárias e vão desde a mudança da escola, até a mudança das práticas pedagógicas e planos de ensino.

Para Carvalho (2004, p. 36) a educação inclusiva pressupõe um movimento contra qualquer tipo de exclusão que venha ocorrer dentro dos espaços educacionais do ensino regular, na medida em que está baseada “na defesa dos direitos humanos de acesso, ingresso e permanência com sucesso em escolas de boa qualidade, o que, necessariamente, implica previsão e provisão de recursos de toda ordem”, possibilitando a todas às pessoas oportunidades educacionais adequadas, respeitando, durante todo o processo de aprendizagem, a individualidade, bem como as limitações inerentes a cada ser.

 Mendes (2006) e Rodrigues (2008) ao desenvolverem pesquisas na área da Educação Inclusiva, destacam a Declaração de Salamanca (Brasil, 1994) como sendo o documento que mais contribuiu para o desenvolvimento de políticas públicas destinadas à educação de pessoas portadoras algum tipo de deficiência.

Gil (2005) ressalta que as práticas inclusivas devem ter como participantes os professores, coordenação pedagógica, órgãos governamentais, família e demais profissionais envolvidos. Segunda a autora, se o objetivo geral da educação inclusiva é efetivar a participação de todos os alunos em todas as atividades tanto da escola como da comunidade, é importante que todos os envolvidos neste processo saibam qual o objetivo e como contribuir para alcançar a inclusão.

Tendo em vista que alcançar a inclusão é a meta Beyer (2006, p. 76), coloca que:

O desafio é construir e por em prática no ambiente escolar uma pedagogia que consiga ser comum ou válida para todos os alunos da classe escolar, porém capaz de atender os alunos cujas situações pessoais e características de aprendizagem requeiram uma pedagogia diferenciada. Tudo isto sem demarcações, preconceitos ou atitudes nutridoras dos indesejados estigmas. Ao contrário pondo em andamento na comunidade escolar, uma conscientização crescente dos direitos de cada um.

Neste contexto deve-se destacar que para que tenhamos uma escola regular que atenda as necessidades de alunos portadores de deficiências, é necessário que se haja uma equipe comprometida com a proposta da educação inclusiva, equipe esta disposta a mobilizar a comunidade como um todo, no que se refere a questão.

Cabe às escolas, dentro deste processo educacional inclusivo, não só desenvolver uma nova política educacional, mas também desenvolver uma nova cultura escolar, que tenha como base os direitos humanos, em especial o direito de todos, para que todos possam se beneficiar e um ensino de qualidade, tendo como premissa o princípio da igualdade e diversidade. A escola enquanto instituição social, vem adotando técnicas e métodos pedagógicos que contribuem para educação. Contudo, há falhas que se encontram ao analisar a instituição como um todo, desde seus recursos financeiros, ambiente físico, quanto estrutura e adequação para comportar as demandas de uma comunidade, sua administração, seus financiadores. Sendo o governo para instituições públicas, como também todo o corpo docente e discente que compõe a mesma, em conjunto com profissionais que atuam direta e indiretamente com os alunos, consistindo de equipe pedagógica, equipe de serviços gerais, equipes de apoio, psicólogos, assistentes sociais, entre outros que em algumas instituições se encontram e outras não, sendo os mesmo necessários em todas.

 O artigo 7 da Convenção da ONU (Organização das Nações Unidas), no que tange os direitos das pessoas com deficiência, estabelece o compromisso em adotar medidas necessárias para assegurar às crianças com deficiência o pleno exercício dos direitos humanos, tendo liberdade e igualdade em oportunidades como as demais. Em conjunto com este artigo, associado a leis que complementam os mesmos, a Lei nº9394/96 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, determina a inclusão de pessoas com necessidades educacionais especiais em escolas de ensino regular.

Um grande desafio se instala com esta lei, onde escolas de ensino regular não se encontram adaptadas para acolher essa demanda, visto que a mesma já lida com problemáticas em suas condições atuais. A integração passa a ser vista por muitos como um desafio e um empecilho que pode se tornar atraso, contudo, ao analisar o contexto em geral e os benefícios que se encontram na inclusão, se faz necessário a continuidade dessa prática. O medo do diferente e de lidar com ele é um dos desafios encontrados, onde país não se sentem seguros em matricular seus filhos em escolas de ensino regulares, com medo de que a mesma não atenda as demandas de seu filho. Embora seja essa a realidade, o benefício de integrar o aluno com necessidades especiais nesta rede de ensino, prepara o aluno para viver em sociedade, onde o mesmo encontra desafios, e nem sempre haverá o amparo dos pais por perto. Então, o contato com a realidade do mundo com seus desafios, faz com que o aluno em ambiente escolar tenha esta experiência com o apoio necessário de acordo com suas necessidades. Partindo deste ponto, encontra-se outro desafio: a falta de preparo dessas instituições em acolher este aluno. Dessa maneira, o professor como mediador deve sempre valorizar as diferenças de seus alunos com diversidade, os preconceitos devem ficar para trás, já que o importante agora é o trabalho de reflexão, sensibilização e comprometimento de todos os envolvidos neste processo. O professor tem papel essencial para a realização deste trabalho inclusivo, tanto no que se refere ao ato de planejar suas aulas, quanto a sua atuação em sala de aula.

Para um melhor conhecimento prático sobre a temática aqui abordada, realizamos uma pesquisa de campo de caráter qualitativo, em seguida seguem os resultados obtidas.

As respostas dadas pelos participantes da pesquisa de campo forneceram dados necessários para a investigação científica. Dessa maneira, foi possível pensar a respeito das dificuldades encontradas nas escolas e as possibilidades destas para a viabilização de condições necessárias para a ocorrência de uma educação de qualidade para todos, quebrando barreiras como o preconceito e a exclusão que permaneceram presentes durante tantos anos na trajetória educacional brasileira.

Inicialmente, foram analisados alguns dados acerca do perfil dos sujeitos da pesquisa. Em seguida, os resultados são apresentados a partir de cada uma das questões que nortearam a presente pesquisa, na qual foi realizada uma análise qualitativa e quantitativa, correlacionando os dados obtidos através dos questionários.

Na dada pesquisa obteve-se os seguintes dados 70% dos participantes foram do sexo feminino e 30% do sexo masculino; dentre os participantes 55% eram professores, 15% pedagogos, 5% atuam em cargos administrativos, 15% são estagiários e 10% atuam em cargos responsáveis por serviços gerais. Em relação à faixa etária das pessoas que ocupam funções no ambiente escolar, 15% delas possuem entre 15 a 25 anos, 30% entre 25 a 35 anos, 35% entre 35 a 45 anos, 20% possuem entre 45 a 55 anos. Com relação ao tempo em que os participantes atuam na profissão, 30% dos participantes atuam de 1 a 5 anos, 35% atuam de 5 a 10 anos, 10% atuam de 10 a 15 anos, 10% atuam de 15 a 20 anos e 15% atuam de 20 a 25 anos.

Em relação às dificuldades encontradas no ambiente escolar, 10% dos participantes apontam que a maior dificuldade é trabalhar com educação inclusiva, 40% apontam a falta de recursos financeiros como principal dificuldade, outros 15% apontam a falta de incentivos como maior dificuldades e 35 % apontam outros tipos de dificuldades, incluindo as péssimas condições das estruturas físicas das instituições (sabe-se que essas escolas foram construídas para uma sociedade cheia de barreiras de preconceitos, o que dificulta fazer adaptações necessárias), aliado a isso, a falta de formação dos professores tem sido um dos fatores que mais dificultam a aprendizagem e adaptação das crianças com necessidades especiais nas escolas comuns, além de que são poucos os docentes que atuam nessa área da educação e muitos não se sentem preparados para trabalhar com crianças deficientes, alguns por medo, receio, preconceito, falta de entusiasmo, baixos salários, além disso, os professores que estão na sala de aula não foram preparados para realizar esse tipo de atividade; junto com a falta de compreensão e de preparo das famílias. Todas as escolas que participaram da pesquisa de campo têm alunos de educação inclusiva. 

Conclusão

Tendo em vista que a principal função da educação inclusiva é valorizar a diversidade humana, para que haja inclusão é necessário quebrar paradigmas e romper com as barreiras do preconceito, preconceito este criado pela sociedade. Deve-se trabalhar buscando formar uma sociedade mais justa, na qual professores e comunidade como um todo não tenham medo do que é novo, ofertando para os mesmos formação, informação e orientações adequadas para que possam passar conhecimento e conteúdo com qualidade.

A educação inclusiva vem também como forma de melhorar o pensamento de nossas crianças em relação a algum colega que seja diferente, ensinando que todos devem ser respeitados dentro das suas necessidades e subjetividades. Hoje em dia as crianças chegam à escola cheias de preconceitos, e a educação inclusiva ajuda a mudar o pensamento das mesmas em relação a algumas ideias. É claro que a sociedade ainda precisa passar por muitos momentos, muitas mudanças para mudar a forma de ver o próximo; é um longo caminho a ser percorrido para que haja êxito na convivência com as diferenças.

Tendo em vista que nossas crianças de hoje serão nossos cidadãos do amanhã, é necessário trabalhar o pensamento das mesmas para criar uma sociedade mais justa e igualitária, e é claro que a família precisa fazer parte deste processo.

Autores:

Aline da Silva de Lara

Leonardo Vilela

Luiz Henrique Berté

Thainá Moraes dos Santos

Referências:

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CARVALHO, R. E. Educação inclusiva: com os pingos nos “is”. Porto Alegre: Mediação, 2004. 176 p.

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Como citar este artigo:

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LARA, Aline da Silva de; VILELA, Leonardo; BERTÉ, Luiz Henrique; SANTOS, Thainá Moraes dos. Os Desafios em Tornar a Educação Acessível a Todos. Psicologado, [S.l.]. (2020). Disponível em https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-escolar/os-desafios-em-tornar-a-educacao-acessivel-a-todos . Acesso em .

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