Sobre disciplina, indisciplina, e a relação professor-aluno

(Tempo de leitura: 3 - 5 minutos)

Sobre disciplina, indisciplina, e a relação professor-aluno: Notas a partir da leitura de “Disciplina, indisciplina e a complexidade do cotidiano escolar”, de Araújo, e do filme “A Voz do Coração”, de Barratier.

Questões acerca da disciplina e indisciplina perpassam ambientes e convivências, e não se encontram exclusivamente no ambiente escolar; a idéia de indisciplina como algo que foge da regra e do esperado e instaura a desordem associa-se sempre a um conjunto de normas de funcionamento regulares de uma instituição.

Voltando nossa atenção à escola, é possível enfatizar partes dessa indisciplina, ao identificá-la na desobediência de alguns alunos e comportamento não correspondente frente àquele conciliado a uma sala de aula, no desrespeito com o professor e problemas evidentes na relação professor-aluno, na organização da aula, no modo como o professor se coloca para a classe e naquilo que exige dela, na maneira como a escola organiza-se e regula sues objetivos e métodos de ensino, até mesmo em como um estado-nação prevê como melhor ou correto o funcionamento de suas organizações escolares; partes, portanto, que não dizem respeito a um só problema ou um só responsável, e ao mesmo tempo não se contradizem ou se anulam – são, por fim, partes de um único e complexo problema, de múltiplas causas e generalizadamente identificado como um só, como salienta Morin.

Vários autores e referenciais teóricos procuram compreender como tais fenômenos disciplinares e indisciplinares ocorrem. Alguns deles parecem preocupar-se mais com diagnosticar ou entender como aparece a indisciplina, e centram-na no próprio sujeito: Piaget, e alguns outros teóricos que se baseiam nele, como La Taille e Araújo, relacionam-na com o desenvolvimento cognitivo fundamentado na moralidade subjetiva e sua ligação com a vergonha pessoal frente a atitudes anti-sociais – caso não haja a vergonha, não há valores morais presentes na construção identitária do sujeito.

Já a leitura vygotskyana do problema disciplinar volta-se mais para o papel da sociedade (família e escola, principalmente, através da história e experiências do indivíduo dentro destas) na construção dos valores culturalmente aceitos e posturas corretas frente ao social. Destacando o papel da família nesta última idéia, cabe aqui também o desenvolvimento da idéia da carência psíquica do aluno que, desencadeada na instituição familiar, refletir-se-ia no seu comportamento escolar.

Num âmbito mais voltado à relação entre professor e aluno (ou mesmo instituição e seus respectivos agentes) e menos estrutural do desenvolvimento subjetivo deste, aparecem outras perspectivas do problema. Existem os olhares que atentam para um autoritarismo que estrutura desde sempre a instituição, e a indisciplina seria um conflito entre interesses contrários daqueles que ali estão, um embate com poderes distintos, no qual um desafia o outro.

Apesar das críticas a essa idéia, que sustentam que a gênese dessa batalha situa-se fora da relação professor-aluno, tal situação fica muito bem ilustrada no filme “A Voz do Coração” – principalmente por evidenciar ali um outro tipo de instituição, não correspondente a uma escola nos moldes habituais, mas sim a algo fechado e da ordem da instituição total, com regras rígidas e papéis de poder muito bem definidos, e na qual a intenção mais do que educar os alunos considerados “problemáticos” era prendê-los e controlá-los no local que possuía o caricato nome de “Fundo do Poço”.

A “troca” de intenções frente aos alunos dentro da escola-prisão do filme ocorre com a chegada do novo inspetor e professor, que também era músico. A partir da relação entre ele e os internos começa alguma mudança na maneira como os alunos percebiam as aulas. Como diz Aquino, a compreensão da disciplina-indisciplina pautou-se na relação concreta entre professor-aluno e no estabelecimento de vínculos entre as partes, além do estabelecimento de um contrato pedagógico e abertura para algum diálogo e flexibilidade das ocorrências entre as partes. Assim eram as aulas de música e o coral. O empecilho, no enredo, aparecia por parte dos antigos funcionários do internato que insistiam em manter a ordem através do autoritarismo extremo, sem nenhuma abertura para intervenção, e ainda da chegada de um novo interno que também entendia as relações entre professor-aluno ainda como algo da ordem das relações de poder, disputas, provocações e medição de forças.

Todos esses fragmentos e entendimentos da indisciplina são complementares, e colaboram em partes para que se resolva o problema. Numa leitura dentro da Teoria da Complexidade, de Morin, tais fenômenos se inter-relacionam e auxiliam, juntos, na compreensão da indisciplina. Claro que, ao diversificar as problemáticas existentes, complica também o encontro de respostas e soluções aguardadas para os obstáculos que impedem o desenvolvimento didático e proveitoso das aulas – mas, desde o começo, a teoria parte do princípio de que o conhecimento completo é impossível e visa apontar os problemas, e não soluções.

Assim, a indisciplina não se centra num só foco ou num só responsável, abrange toda uma cadeia de empecilhos, comportamentos e dificuldades. Para lidar com isso, o indicado parece ser uma atitude mais democrática daqueles que lidam com a educação, a abertura para diálogos e entendimento com os sujeitos com quem se lida, o compartilhamento de interesses e o reconhecimento deles como companheiros de uma só convivência.

Referências

BARRATIER, Christophe. A voz do coração (Les Choristes). (Filme). França, 2004. 95min.

ARAÚJO, U. F. Disciplina, indisciplina e a complexidade do cotidiano escolar
In: OLIVEIRA, M. K; SOUZA, D. T; REGO, T. Psicologia, educação e as temáticas da vida contemporânea. São Paulo: Moderna, 2002.

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