Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade: Aspectos Sociais e Psicológicos

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Resumo: A identificação precoce, na família e na escola, dos transtornos de déficit de atenção/hiperatividade na infância e na adolescência, é de fundamental importância no processo de crescimento do ser humano e na compreensão e gerenciamento de sua sintomatologia e dos aspectos inerentes ao seu desenvolvimento e evolução. Este artigo, por meio de uma revisão não-sistemática da literatura, faz referência ao papel do ambiente familiar e escolar na formação dos sujeitos, tanto em nível psíquico quanto social e no emocional, tendo em vista o desenvolvimento global e saudável da criança e do (a) adolescente. Além disso, expõe as características associadas os transtornos de déficit de atenção/ hiperatividade, destacando os fatores do ambiente familiar e escolar que podem acentuar ou minimizar suas manifestações clínicas.

Palavras-Chave: Ambiente escolar, Ambiente familiar, Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade.

1. Introdução

Com a evolução da medicina no mundo e o desenvolvimento de tecnologias, são cada vez mais aperfeiçoados métodos de diagnósticos e tratamentos para as novas doenças que são descobertas. Entretanto, muitos se esquecem de considerar os problemas das crianças e dos adolescentes das comunidades escolares, como é o caso do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).

Embasados em Rohde (2002), o TDAH é hoje um problema de saúde mental bastante frequente em crianças, adolescentes e adultos em todo o mundo. Ele é reconhecido por vários países e pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é caracterizado por uma constelação de problemas relacionados com falta de atenção, hiperatividade e impulsividade. Esses problemas resultam de um desenvolvimento não adequado e causam dificuldades na vida diária. O TDAH é um distúrbio biopsicossocial, isto é, parece haver fortes fatores genéticos, biológicos, sociais e vivenciais que contribuem para a intensidade dos problemas experimentados.

Foi comprovado que o TDAH atinge 3% a 5% da população durante toda a vida. Diagnóstico precoce e tratamento adequado podem reduzir drasticamente os conflitos familiares, escolares, comportamentais e psicológicos vividos por essas pessoas. Acredita-se que, através de diagnóstico e tratamento correto, um grande número dos problemas, como repetência escolar e abandono dos estudos, depressão, distúrbios de comportamento, problemas vocacionais e de relacionamento, bem como abuso de drogas, pode ser adequadamente tratado ou, até mesmo, evitado.

Até algum tempo atrás, pensava-se que os sintomas de TDAH diminuíam com a adolescência. As pesquisas mostraram que a maioria das crianças com TDAH chegam à maturidade com um padrão de problemas muito similar aos da infância e que adultos com TDAH experimentam dificuldades no trabalho, na comunidade e com suas famílias. Também há registros de um número maior de problemas emocionais, incluindo depressão e ansiedade.

2. Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade: conceito

A hiperatividade e déficit de atenção é um problema mais comumente visto em crianças e se baseia nos sintomas de desatenção (pessoa muito distraída) e hiperatividade (pessoa muito ativa, por vezes agitada, bem além do comum). Segundo Mattos (2005, p. 54), o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), “é um dos problemas psicológicos mais comuns durante a infância”.

O TDAH é um distúrbio neurológico que pode ser de origem genética, e, é a causa mais comum de encaminhamento, para especialistas, de crianças e adolescentes que apresentam prejuízos no seu funcionamento escolar e social.

O TDAH (DDA) é um transtorno real, um obstáculo real, apesar de não haver nenhum sinal exterior de que algo está errado com o Sistema Nervoso Central. Antigamente, era conhecida como “Disfunção Cerebral Mínima”. Mais tarde, passou a chamar-se “Síndrome Infantil da Hiperatividade”. Nos anos 70, o conceito foi ampliado com o reconhecimento do déficit na atenção e do controle dos impulsos. Em 1987, o nome passou a ter a atual denominação: “Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade”.

De acordo com o CID – 10, Capítulo V, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, também conhecido como Transtorno Hipercinético, está integrado a um grupo de transtornos caracterizados por início precoce (habitualmente durante os cincos anos de vida), falta de perseverança nas atividades que exigem um envolvimento cognitivo e tendência a passar de uma atividade a outra sem concluir nenhuma, associados a uma atividade global desorganizada, incoordenada e excessiva.

Sabe-se, atualmente, que a origem do TDAH é multifatorial, associando-se as variáveis tanto ambientais quanto clínicas, ou com base neurológica. Muitas pesquisas sugerem a existência de componentes genéticos (hereditariedade), apontando que 25% dos familiares, em primeiro grau, das crianças com o transtorno também o têm. Mulheres com complicações na gravidez e no parto, e exposto a substâncias químicas como chumbo aumentam também as probabilidades de que a criança tenha o transtorno. Entende-se, no entanto, que as pessoas que apresentam vulnerabilidade ao TDAH somente desenvolverão os sintomas se houver demanda ambiental maior. No entanto, crianças entre 5% e 15% na primeira infância e entre 10% e 20% na adolescência, apresentam problemas emocionais ou de conduta importantes. Tal incidência é preocupante quando se pensa nas repercussões desses problemas no desenvolvimento pessoal. Na escola, as crianças é que tendem a ser excluídas ou mal compreendidas, em razão da dificuldade que possuem de lidar com os sintomas do transtorno.

2.1 Causas

Os estudos mais recentes apontam para a genética como principal causa relacionada ao transtorno. Aproximadamente 75% das chances de alguém desenvolver ou não o TDAH são herdadas dos pais. Além da genética, situações externas como o fumo durante a gestação também parecem estar relacionados com o transtorno. Fatores orgânicos como atraso do amadurecimento de determinadas áreas cerebrais, e alterações em alguns de seus circuitos estão atualmente relacionados com o aparecimento dos sintomas. Supõe-se que todos esses fatores formam uma predisposição básica (orgânica) do indivíduo para desenvolver o problema, que pode vir a se manifestar quando a pessoa é submetida a um nível maior de exigência de concentração e desempenho. Além disso, a exposição a eventos psicológicos estressantes, como uma perturbação no equilíbrio familiar, ou outros fatores geradores de ansiedade, pode agir como desencadeadores ou mantenedores dos sintomas.

2.2 Consequências

O TDAH interfere na habilidade da pessoa de manter a atenção – especialmente em tarefas repetitiva – de controlar adequadamente as emoções e o nível de atividade, de enfrentar consequências consistentemente e, talvez mais importantes, na habilidade de controle e inibição. Inibição refere-se à capacidade de evitar a expressão de forças poderosas que levam a agir sob o domínio do impulso, de modo a permitir que haja tempo para o autocontrole. As pessoas com TDAH até podem saber o que deve ser feito, mas não conseguem fazer aquilo que sabem devido à inabilidade de realmente poder parar e pensar antes de reagir, não importando o ambiente ou a tarefa.

2.3 Aspectos sociais e psicológicos

Segundo Cypel (2000), também ressalta que as crianças com TDAH, têm mais facilidade para baixa autoestima, pois o seu amor próprio é diminuído perante a família, professores e colegas. Só pelo fato de a criança se perceber incapaz de controlar seu comportamento, já é um fator psicológico interior da criança que diminui por si mesma a sua imagem.

Mais do que isso, a pessoa carrega dentro de si um sentimento de solidão, de isolamento, por não se sentir entendida e até de não se atender claramente, de não fazer parte desse mundo, além de sensações de vazio, inadequação, e falta de vitalidade e crença em si mesma (CYPEL, 2000, p.43).

As crianças e adolescentes com TDAH, em geral, são instáveis emocionalmente, agindo de forma impulsiva e irritadiça, podendo apresentar dificuldades em participar de atividades em grupo, falhas na produtividade e prejuízos no funcionamento acadêmico e social. A sensação de inadequação, baixa autoestima e adversidades no grupo social provocam infelicidade e frustração, podendo gerar comportamento autodestrutivos ou autopunitivos.

Estudos demonstram que fatores psicossociais, como privação emocional prolongada, eventos psíquicos estressantes ou familiares, abuso ou negligência e múltiplos lares adotivos, entre outros que induzem à ansiedade, podem estar relacionados ao desenvolvimento do transtorno. Por outro lado, no caso de sintomas já existentes, alguns aspectos familiares – funcionamento familiar caótico, elevada discórdia conjugal, baixa instrução materna, nível socioeconômico familiar inferior e famílias com apenas um dos pais ou abandonadas pelo pai – podem determinar a persistência ou mesmo o agravamento do distúrbio. Agressividade elevada parece também fazer parte das interações familiares, contribuindo para comportamentos comuns ao TDAH – comportamento agressivo e de oposição desafiantes.

2.4 Diagnóstico

O diagnóstico deve ser feito por um profissional de saúde capacitado, geralmente neurologista, pediatra ou psiquiatra. O diagnóstico pode ser auxiliado por alguns testes psicológicos ou neuropsicológicos, principalmente em casos duvidosos, como em adultos, mas mesmo em crianças, para o acompanhamento adequado do tratamento.

Sendo assim, o diagnóstico de TDAH pede uma avaliação ampla. Não se pode deixar de considerar e avaliar outras causas para o problema, assim, é preciso estar atentos a presença de distúrbios concomitantes (comorbidades). O aspecto mais importante do processo de diagnóstico é um cuidadoso histórico clínico e desenvolvimental. A avaliação do TDAH inclui frequentemente, um levantamento do funcionamento intelectual, acadêmico, social e emocional. O exame médico também é importante para esclarecer possíveis causas de sintomas semelhantes aos do TDAH (por exemplo, reação adversa à medicação problemas de tiróide, etc.). O processo de diagnóstico deve incluir dados recolhidos com professores (as) e outros adultos que, de alguma maneira, interagem de maneira rotineira com a pessoa senão avaliada. Embora se tenha tornado prática popular testar algumas habilidades como resolução de problemas, trabalhos de computação e outras, a validade dessa prática bem como sua contribuição adicional a um diagnóstico correto continuam a ser analisadas pelos pesquisadores.

No diagnóstico de adultos com TDAH, mais importante ainda é o cuidadoso histórico da infância, do desempenho acadêmico, dos problemas comportamentais e profissionais. À medida que aumenta o reconhecimento de que o transtorno é permanente durante a vida da pessoa, os métodos e questionários relacionados com o diagnóstico de um adulto com TDAH estão sendo padronizados e se tornando cada vez mais acessíveis.

2.5 Intervenção do psicopedagogo diante desta problemática

A Psicopedagogia compromete-se primordialmente com o sistema educativo, relativo às dificuldades de aprendizagem, buscando levar o (a) educando (a) a integrar-se, respeitando sua individualidade.

A Psicopedagogia Clínica e Institucional tem como meta contribuir com pesquisa na área da aprendizagem e do desenvolvimento humano de maneira ética e reflexiva, com fundamentação científica, buscando o bem estar dos (as) envolvidos (as) nesse processo. Clinicamente e institucionalmente, a Psicopedagogia tem como centro o indivíduo em desenvolvimento e as alterações desse desenvolvimento, favorecendo a apreensão de competências e habilidades que possibilite o aprender num sentido mais amplo. É observável os crescentes problemas ligados às dificuldades de aprendizagem.

Cabe à Psicopedagogia trabalhar para que a escola acompanhe o desenvolvimento humano e se continua num verdadeiro espaço de construção do conhecimento. Os problemas de aprendizagem podem ocorrer tanto no início, quanto no decorrer do período escolar e expressam diferenças que variam de aluno (a) para aluno (a), solicitando uma investigação no campo em que eles se manifestam.

Ressalta-se que a intervenção psicopedagógica é um processo contínuo que necessita do envolvimento coletivo tanto da família quanto da comunidade escolar e dos demais profissionais envolvidos (as) no acompanhamento da criança, por isso, é possível acreditar que a intervenção, além de contribuir para que novas práticas metodológicas sejam desenvolvidas no cotidiano da escola, poderá também oferecer elementos para ações conjuntas destes diversos (as) profissionais.

O Psicopedagogo sabe que sua profissão consiste na construção de saberes, não sendo uma atividade neutra para ambas as partes. Nesta situação, a ajuda entre ambos é mútua, pois as relações de afeto que se estabelece entre (a) psicopedagogo (a) e o (a) educando (a) são necessários ao desenvolvimento da relação educativa. Desta forma, o papel do (a) psicopedagogo (a) deve sempre buscar levar o (a) educando (a) a integrar-se novamente a vida normal, respeitando sua individualidade. Este (a) profissional deve ter conhecimentos multidisciplinares, pois em um processo de avaliação diagnóstica, é necessário estabelecer e interpretar dados em várias áreas, dentre elas: auditiva e visual, motora, intelectual, cognitiva e emocional. É a amplitude destes conhecimentos que permitirá ao (à) psicopedagogo (a) a compreensão do diagnóstico do caso investigado, o que favorecerá a metodologia adequada para o desenvolvimento das suas intervenções psicopedagógicas.

3. Considerações Finais

Os problemas de comportamento e, consequentemente a hiperatividade, vem sendo um caso preocupante nas escolas brasileiras. Enquanto houver problemas com a falta de conhecimentos da família, dos (as) educadores (as) e de uma sociedade não conhecedora do assunto e sensibilizada para a adoção de novos tratamentos, novas técnicas e novas metodologias para lidar com crianças portadoras do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a situação será cada vez mais grave.

A falta de conhecimento da família e dos (as) educadores (as) sobre o assunto são os fatores mais preocupantes no momento. Cabem as autoridades e profissionais se reunirem e refletirem sobre essa nova problemática, planejando ações que venham contribuir em vários setores do processo ensino-aprendizagem reconhecendo que o centro da escola é o (a) aluno (a).

Cabe aos (às) profissionais da educação refletir sobre seu papel de educador (a) já que é muita responsabilidade trabalhar com crianças, ainda mais se tratando de casos específicos, como crianças, adolescentes, adultos portadores de algum tipo de transtorno. É preciso conhecimento para receber alunos (as) com TDAH, pois o (a) educador (a) sabendo trabalhar com os (as) mesmos (as) não terão tantos problemas quanto à aprendizagem.

Os problemas familiares como alto grau de discórdia conjugal, baixa instrução dos pais, crianças e adolescentes criadas por apenas um dos pais ou outras pessoas, desestrutura emocional e psicologicamente dos pais ou responsável e nível socioeconômico muito baixo, influenciam no mau comportamento dos jovens, causando menos rendimento na aprendizagem. E, esse mau comportamento, pode nos levar a pensar que os (as) jovens portadores (as) de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade.

Por isso, não se deve tirar conclusões precipitadas sem antes encaminhar a criança ou (a) adolescente para avaliações com especialistas no assunto para fazer o diagnóstico. Hoje, muitas questões estão sendo discutidas com a finalidade de possibilitar a permanecia do (a) aluno (a) hiperativo (a) dentro da sala de aula como, por exemplo, proporcionar melhores formas de atendimento a esse (a) aluno (a), formação adequada de professores (as), esclarecimentos sobre o assunto para a comunidade escolar, adaptação curricular e melhorar o ambiente físico da escola.

Nessa perspectiva, estudiosos da área como Rohde (2002), Cypel (2003), Mattos (2005) dentre outros, propõem algumas mudanças e/ou adaptações nas escolas com vistas a garantir a permanência do (a) aluno (a) portador (a) de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade na escola, visto que esse tema é de grande relevância sócio-educacional e se constitui num desafio para os (as) educadores (as).

Referências:

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO DÉFICIT DE ATENÇÃO. ABDA: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. WEB, 2005.

BARBOSA, Adriana de Andrade Gaião. Hiperatividade: Conhecendo sua Realidade. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.

BENCZIK, Edyleine Belline Peroni. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade – Atualização Diagnóstica e Terapêutica. Casa do Psicólogo. São Paulo: 4ª edição Ano 2008.

CYPEL, Saul. Criança com Déficit de Atenção. Diagnóstico e Terapêutica. São Paulo: Editora Lemos, 2000.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. CID10/Organização Mundial da Saúde; tradução Centro Colaborador da OMS para a Classificação de Doenças em Português. 8ªed. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2000.

MATTOS, Paulo. No Mundo da Lua. 4ª Ed. São Paulo: Editora Lemos, 2005.

PORTO, Olivia. Bases da Psicopedagogia – Diagnóstico e Intervenção e nos Problemas de Aprendizagem. 2ª edição – Rio de Janeiro: Wak Ed., 2007.

ROHDE, Luiz Augusto P. e MATTOS, Paulo. Princípios e Práticas em TDAH. Porto Alegre: Artes Médicas, 2007.

SILVA, Ana Beatriz B. Mentes Inquietas: Entendendo melhor o Mundo das Pessoas Distraídas, Impulsivas e Hiperativas. 15ª edição. São Paulo: Editora Gente, 2003.

WARNICK, Linda L. O Livro Completo da Psicologia: explore a psique humana e entenda por que fazemos as coisas que fazemos/ Lynda L. Warnick e Lesley Botton; tradução Marcos Malvezzi Lal. – São Paulo: Madras, 2005.