Violência Doméstica Contra Crianças e Adolescentes (VDCA): o que a universidade tem a ver com isso?

Violência Doméstica Contra Crianças e Adolescentes (VDCA): o que a universidade tem a ver com isso?
(Tempo de leitura: 3 - 6 minutos)

Por ser referência em produção de conhecimento, a Universidadepode e deve fazer parte da Rede de Enfrentamento à Violência Domestica contra Crianças e Adolescentes que a cada dia tem seus índices aumentados e submersos, ou pela falta de compromisso dos profissionais que atuam nos Órgãos de defesa e proteção da criança e adolescente, ou pelo “complô do silêncio” vivenciado pela família e testemunhas da violência que tem impedido consideravelmente a denúncia e/ou notificação dos casos verificados, sejam eles na escola, nos bairros e até mesmos nos postos de saúde e consultórios ambulatoriais.

É dever dos profissionais da saúde e educação notificarem os casos de violência aos Conselhos Tutelares, os quais encaminharão as vítimas e familiares para os devidos órgãos da Rede de Enfrentamento. Parte desse dever prende-se à sensibilidade em reconhecer os sinais e sintomas apresentados pelas vítimas de modo a ajudá-las e não revitimizá-las com uma atuação por vezes ignorante e estigmatizante.

Nestesmomentos a capacidade de ver e escutar faz toda a diferença, tanto para a pessoa que busca ajuda como para o profissional que aprende a emitir um olhar e escuta sensíveis ao outro e não apenas à enfermidade apresentada. Uma atitude acolhedora por parte do profissional é fundamental para que possa ocorrer a aproximação da criança ou do adolescente. E é no espaço de aprendizagem da Faculdade que os futuros profissionais precisam aguçar tal olhar diferenciado e se possível, iniciar sua atuação de ajuda tanto no atendimento quanto em ações de prevenção à comunidade em que estão inseridos enquanto acadêmicos.

 Ocorrendo a revelação de uma situação de violência doméstica (física, sexual, psicológica, negligência) é importante:

  1. Não fazer interrogatórios longos;
  2. Não censurar, criticar ou culpar a criança ou adolescente; 
  3. Acreditar na criança ou no adolescente sempre e ampará-los;
  4. Solicitar suporte de outros setores como, Psicologia, Terapia Ocupacional, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Pediatria, e outros se necessário, além da notificação da suspeita ou identificação pela vítima ou família até que haja o encaminhamento para um serviço especializado no município: CREAS e CRAS.

É importante saber que em 94% das situações o abusador/agressor é alguém que desfruta da convivência e confiança com a criança ou adolescente (familiares, amigos ou vizinhos), e por este vínculo é que a violência acontece e tem se perpetuado.

Existem alguns sinais que nos auxiliam a reconhecer a VDCA, porém, mais do que identificar a violência é necessário ao profissional de saúde, direito, educação e segurança agir de forma imparcial de modo que os seus valores e crenças a cerca do que considera violência não comprometa sua ajuda.

VDCA Física

VDCA Sexual

VDCA Psicológica

VDCA Negligência

Nas crianças e adolescentes:

Queimaduras inexplicáveis, mordidas, ossos quebrados, olho roxo; marcas visíveis após ausência da terapia/consulta; dentes quebrados ou faltantes; medo dos pais e se recusam voltar para casa; medo do contato com adultos; relatam violência sofrida dos pais e/ou cuidadores;

Dificuldade para andar, sentar, ir ao banheiro; marcas ao  redor da genitália; dores no estômago e cabeça; relatam pesadelo ou enurese/encoprese; súbita mudança de apetite; comportamento sexual inadequado para a idade; gravidez ou DST;  introduz objetos no ânus ou vagina; fogem de casa com freqüência.

Mostram comportamentos extremos: submissos ou exigentes; passivos ou agressivos; baixa-estima e dificuldade para confiar em  adultos; retraídos e socialmente isolados; tentativas de suicídio; relatam falta de vínculo com os pais ou responsáveis; apresentam atraso no desenvolvimento físico ou emocional.

Sempre com fome; faltas excessivas na escola e ou terapias; pedem ou furtam dinheiro ou comida; apresentam deficiência, deficiências em termos de cuidados médicos, odontológicos, vacinação e demais atendimentos; sempre sujos, despenteados e com severo odor corporal; não usam roupa adequada para a temperatura; podem usar álcool ou outras drogas; afirmam não ter ninguém em casa responsável por seus cuidados.

Nos pais ou responsáveis:

Não oferecem explicação coerente sobre os ferimentos; descrevem a criança como um demônio ou de outra forma bem negativa; usam punição corporal severa; eles mesmos têm uma história de VDCA quando eram crianças.

Superprotetores e limitadores do contato com outras crianças e/ou pessoas; pessoas isoladas, arredias e extremamente reservadas; extremamente ciumentos e controladores dos membros da família.

Constantes queixas da criança/adolescente, desvalorizando-os ou censurando-os; não se preocupam e não propiciam ajuda para seus problemas; rejeitam de forma aberta a criança e adolescente.

Mostram-se indiferente com a criança/adolescente; aparentam apatia ou depressão; comportam-se de forma bizarra ou irracional; abusam de álcool ou outras drogas.

Os profissionais envolvidos neste serviço devem apresentar o seguinte perfil segundo as doutoras Maria Amélia Azevedo e Viviane Guerra (2000):

Competente: em estado permanente de atuação e de aperfeiçoamento. Estuda e pesquisa, interage com outros profissionais buscando compartilhar conhecimentos e experiências; comprometido: investiga, busca os fatos, não mede esforços para a defesa da criança e acredita na palavra dela. Não banaliza a violência, não se acomoda diante das dificuldades, é tenaz, não perde o poder de se indignar, não perde a fé e acima de tudo, não perde a esperança jamais (...); livre de reticências psicológicas: pensa e age sem preconceitos e discriminações, de forma aberta para o novo, sem pré-julgamentos. Está sempre pronto a ouvir a palavra da criança e nela acreditar.

Agindo assim, não causarão danos a si mesmos e às pessoas que acompanham. Assim como os usuários das Clínicas e Hospitais Escolas e nas instituições referenciais neste atendimento, os profissionais também guardam lembranças e/ou marcas de situações desagradáveis ou de trauma que ainda os acompanham, e estes merecem a mesma atenção terapêutica desde que se reconheçam assim e busquem ajuda.

Não podemos nos esquecer da afirmação de Nathan Ackerman quando nos apresenta o seguinte: “a família é um modelo universal para o viver. Ela é a unidade de crescimento, de experiência, de sucesso e fracasso; ela é também a unidade da saúde e da doença.” As respostas estão todas lá! Até mesmo aquelas que já desistimos de procurar. Pelas vozes que gritam silenciosamente por socorro! Ajudemos!

Sobre o Autor:

Elizete Gonçalves Silva - Psicóloga com atuação Clínica, Hospitalar e Escolar há dez anos. Especialista em Saúde Pública – questão da Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes pela Universidade Cruzeiro do Sul – São Paulo. Participou da Assessoria Técnica Estadual do PAIR em Rondônia, vinculado à Secretaria Especial de Direitos Humanos; formadora no Projeto Escola que Protege; atuou como Professora Colaboradora na Universidade Federal de Rondônia – UNIR Campus de Guajará-Mirim; Psicóloga Clínica da Policlínica Osvaldo Cruz em Porto Velho/RO. Cursando Especialização em Neuropsicologia Clínica pelo CPHD/INAP de Refife-PE; Professora do curso de Psicologia da FIMCA em Porto Velho.

Referências:

ARIÈS P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

AZEVEDO, Maria Amélia; GUERRA, Viviane N. (orgs) Infância e Violência Doméstica: fronteiras do conhecimento. 4ª edição. São Paulo: Cortez, 2005.

_________________________. Crianças vitimizadas – a síndrome do pequeno poder. São Paulo: Iglu, 1989.

__________________________. Apostilas do telecurso de especialização: infância e violência doméstica. São Pailo: LACRI/IPUSP, 2006.

__________________________. Violência doméstica na infância e adolescência. São Paulo: Robe Editorial, 1995.

BERTIN, Ivone Placoná. Repetições (in) desejadas: uma questão de família. São Paulo: Editora Cabral, 2004.

BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente - Lei Federal nº 8.069/90, Imprensa Oficial, CONDECA, 2000.

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