A Contribuição do Psicólogo no Âmbito Hospitalar e os Aspectos Emocionais da Unidade de Terapia Intensiva

A Contribuição do Psicólogo no Âmbito Hospitalar e os Aspectos Emocionais da Unidade de Terapia Intensiva
5           Avaliação 5.00 (1 Avaliação)
(Tempo de leitura: 11 - 22 minutos)

Resumo: O presente artigo resulta de um levantamento bibliográfico sobre as questões que norteiam o trabalho do psicólogo no âmbito hospitalar, e sobre que fatores sua intervenção está pautada. Para tal, serão apresentados os aspectos emocionais desencadeados pela descoberta da doença e a consequente internação hospitalar. Como forma de enfatizar esta questão, apresentar-se-á aspectos do suporte em Unidade de Tratamento Intensivo que vão além do quesito biológico e orgânico, evidenciando o intrincado convívio com sentimentos complexos e de difícil elaboração inerentes a este ambiente. Possibilitando assim, que se visualize qual grande é a demanda e a necessidade da intervenção psicológica.

Palavras-chave: Internação hospitalar, Aspectos emocionais, Intervenção psicológica.

1. Introdução

O ambiente hospitalar encontra-se em um constante processo evolutivo no que se refere ao diagnóstico e tratamento de doenças, algo possibilitado principalmente pelo desenvolvimento tecnológico, que propicia ao homem desenvolver suas atividades de forma cada vez mais minuciosa e precisa, podendo contar com o auxílio dos processos automatizados.

No âmbito hospitalar, a prova mais evidente deste processo é a Unidade de Tratamento intensivo, setor que garante o tratamento de pacientes em estados mais graves, quando se faz necessário suporte do aparato tecnológico para que se garanta a sobrevida do paciente. Com tudo isso, os profissionais da saúde possibilitam que a pessoa em estado de convalescença, esteja amparada a nível biológico e orgânico durante sua permanência no ambiente hospitalar.

No entanto, cabe ressaltar ainda, que o período de internação que por si só já se vincula ao sofrimento da doença, também acarreta em uma mobilização emocional ao sujeito, de forma a afetar e interferir diretamente no tratamento da doença. Este fato entre outros, acaba por incluir a atenção emocional e o atendimento psicológico também às necessidades do enfermo durante o período de internação.

É necessário pensar no paciente de forma integral, refletindo e compreendendo que este possui toda uma história de vida e uma personalidade, que o acompanha mesmo no processo de doença, compreendendo que se trata de uma pessoa com vivências iguais a todos, que por motivos involuntários, necessitou afastar-se de sua rotina de forma inesperada, para se tornar mais um ‘paciente’ em meio a tantos outros. Não se pode separar a doença orgânica das emoções, sentimentos e pensamentos, visto que estes se estabelecem de forma conjunta.

Considerando as questões acima mencionadas, ressalta-se e importância deste estudo para a compreensão da grande demanda de intervenção psicológica, e consequente necessidade do trabalho do profissional da psicologia no ambiente hospitalar.

Para tal, este artigo trará um levantamento bibliográfico sobre os principais aspectos psicológicos desencadeados pela internação, com uma consequente ênfase nos aspectos emocionais do ambiente da Unidade de Tratamento Intensivo, considerando se tratar de um dos setores aonde a vivência da doença ocorre de forma mais evidente. Por fim, discorrerá sobre as questões norteadoras da atuação do psicólogo no âmbito hospitalar, com a menção das principais demandas de intervenção.

2. O Paciente Frente à Internação

Logo no início do internamento hospitalar, podemos verificar uma série de aspectos emocionais, visto que cada indivíduo tem uma rotina de vida, obrigações compromissos e atividades prazerosas, que precisam ser abruptamente interrompidas pela doença. Neste momento observa-se em pacientes e familiares, o despreparo e incerteza em como agir diante de situações inesperadas, e da necessidade de modificação da rotina e a estrutura familiar.

Como lembra Lazzaretti et al. (2007), o adoecer e o período de internação marcam uma ruptura com o curso da vida, quanto às formas de relação com familiares, amigos, trabalho e vida produtiva, ruptura que pode ter tido início há muito tempo, principalmente nos casos de doenças crônicas.

A questão vai muito além, pois depois de perder sua própria rotina, o paciente será inserido em outra. Sem possibilidade de qualquer tempo para adaptação, a pessoa terá de ser inserida na rotina hospitalar, aonde a vida se converte em tratar da doença.

Concordando com esta afirmação, Angerami et al. (1996) menciona que o paciente necessita adaptar sua vida a uma rotina ordenada, com horas estabelecidas para dormir, comer, falar, receber visitas, alterando seu modelo de vida. Estando sujeito a estranhas e assustadoras experiências, auditivas e olfativas; tem de submeter-se a diversos tratamentos inusitados e alarmantes; precisa observar de perto as doenças de outras pessoas; tem de adaptar-se ao fato de suas necessidades mais íntimas sejam cuidadas por pessoas desconhecidas.

Esta adaptação é bem complexa, pois quando se está impossibilitado, todos os aspectos de higiene e alimentação são repassados para outra pessoa, mesmo nas coisas mais simples, como virar de lado ou sentar na cama, é necessário que se recorra ao profissional. A pessoa acaba perdendo sua identidade, em função de se tornar submisso ao outro.

A doença é sentida pelo indivíduo com uma agressão, gerando um abalo na condição de ser, tornando o futuro incerto. A doença na vida do indivíduo instala-se de uma maneira abrupta, não permitindo ao ser humano uma adaptação gradativa à facticidade (ANGERAMI et al. 1996, p. 152).

Embora ocorra muita dificuldade na adaptação a esta nova rotina, ela é necessária para que se alcance o objetivo da internação, que é a melhora e a consequente volta para casa.

Nesse sentido, Silva (1986) apud Campos (1995 p. 68) afirma que:

O paciente no ato da internação, espera da organização hospitalar a recuperação total de sua saúde; ele e seus familiares esperam que o hospital atendam às suas expectativas. Neste sentido, a recuperação do doente, sua posterior educação sanitária, sua reintegração lenta e segura ao seio social, representam os fins pelos quais todos os profissionais de saúde devem lutar.

A família é outro fator fundamental, principalmente quando se trata de crianças. A rotina de acompanhamento, as visitas com horário e tempo determinado causam um sentimento de impotência diante da situação. Além disso, os cuidados que anteriormente pertenceram ao responsável, agora são delegados a outras pessoas.

Outra característica é o convívio constante com a dor e o sofrimento, tanto do próprio paciente, quanto do que ele pode visualizar ao seu redor, seja no leito ao lado, ou pelos corredores do hospital. Agulhas, sangue, lágrimas e procedimentos invasivos são comuns e inerentes a este novo ambiente.

Quanto à comunicação, observa-se outra dificuldade, pois em geral, os termos utilizados são técnicos e complexos, comuns para os profissionais, mas soam como algo estranho e terrível para o doente e seu familiar, são vistos como sinônimos de dor, ou piora do quadro, e caso não haja esclarecimento, podem gerar uma série de fantasias ao que ouvem.

Sobre os aspectos de dor mencionados, Trucharte et al. (1995) destaca que o sofrimento físico e emocional do paciente precisa ser entendido como coisa única, pois os dois aspectos que o constituem interferem um sobre o outro criando um ciclo vicioso, aonde a dor aumenta a tensão e o medo que, por sua vez, exacerbam a atenção do paciente a própria dor, que aumentada, gera mais tensão e medo e assim sucessivamente.

Esta tensão ocorre muitas vezes pela incerteza do desfecho do tratamento, o medo de intercorrências que possam agravar o quadro, ou mesmo por não saber qual é a real gravidade deste quadro.

Sobre isto, Romano (2002 p. 150) completa dizendo que “A própria situação da doença e possibilidade de morte faz vacilarem, de forma violenta, as certezas e garantias do sujeito”.

Confirmando esta informação, Olivieri (1985) apud Angerami et al. (1996 p. 152) diz que:

O ser doente tem ameaçado o seu futuro, o que acarreta grande insegurança e ansiedade. É possível sentir o fim do futuro planejado, quer dizer, o ser- doente poderá ter a sensação de que tudo o que havia programado para o futuro não acontecerá jamais, porque o seu fim chegará ou sua enfermidade impossibilitará o acontecimento previsto.

Questões como estas são vivenciadas pelo paciente quando este se encontra consciente e lúcido. Caso contrário esses sentimentos se remetem aos familiares.

3. O Ambiente da UTI

Uma Unidade de Terapia Intensiva é um espaço diferenciado dentro de um hospital, visto que carrega a responsabilidade e a pressão de dar suporte a pacientes em estado grave, em casos de alta complexidade, e que necessitam de cuidado e monitoramento constante e contínuo, para que esteja garantida, mesmo que por tempo indeterminado, a sua sobrevida.

O indivíduo internado em uma UTI passa por um processo de inserção em uma nova rotina, uma rotina pré-estabelecida pelo ambiente, ao qual ele foi involuntariamente inserido.

O CTI - Centro de Tratamento Intensivo é uma unidade de atendimento de urgência, lugar de tomada de decisões e ações rápidas e, se possível, efetivas para a cura, a salvação da vida, tudo isso em tempo limitado (ROMANO 2002 p. 1540).

Sobre o atendimento a casos de alta complexidade, Trucharte et al. (1995 p. 30) contextualiza dizendo:

O CTI é mais um dos frutos do extraordinário avanço que as  ciências médicas e sua tecnologia atingiram no século XX. Objetivado para um tratamento intensivo do enfermo, veio se evidenciando como uma unidade indispensável para o tratamento de doenças graves. Equipamentos sofisticados, pessoal técnico qualificado, atenção constante, 24 horas diárias de medicações, exames, testes, tensão, rotina, objetivando a um só fator: A pessoa enferma.

Além do aspecto técnico, é um ambiente diferenciado pelos quesitos emocionais envolvidos, é um lugar aonde a atenção e o foco são constantes, gerando tensão e ansiedade.

Piva, Carvalho e Garcia (1997) descrevem a UTI como sendo um local gerador de tensões e estresse, motivados pelas reações interpessoais, pela grande intensidade de emoções decorrentes da exposição ao risco de vida e às mutilações, pela frequente oscilação entre o sucesso e o fracasso e pela grande exigência imposta à equipe.

Nessa relação de fracasso e sucesso, a equipe se vê como responsável pela melhora do paciente, e consequentemente por sua piora, mesmo sabendo fazer tudo o que esta a seu alcance, e que tem coisas que nem a melhor tecnologia e farmacologia são capazes de reverter. Esta questão pode ser visualizada, por exemplo, diante de pacientes terminais.

Trazendo um exemplo que esclarece as vivências em uma Unidade de Terapia Intensiva, Romano (2002 p. 155) descreve:

“Lugar de luta pela vida, campo de tensão, ilustrado, por exemplo, pela imagem do “cabo-de-guerra”, jogo de corda estirada, em que vence o mais forte: de um lado, intervenções médicas, drogas, tecnologia; do outro, a doença, a morte.”

Sobre esta questão Trucharte et al (1998) destaca que o palco principal do tratamento em CTI acontece no plano biológico; a infecção sendo tratada com antibióticos, as falências dos sistemas sendo compensadas por máquinas e fármacos, a vigilância do funcionamento do organismo feito por exames e testes laboratoriais. E que às vezes esse processo nos faz esquecer que tudo isso tem um único objetivo: preservar a vida.

Completa perguntando o que é a vida senão esse intrincado sistema de emoções, afetos, vínculos, motivações que sentimos através de nosso corpo e de nossa alma, que acontece dentro de um ambiente que nos cria e criamos chamado família, relacionamentos, trabalho, mundo.

Pensando justamente neste ponto, Trucharte et al. (1995), destaca que nunca se deve esquecer que do lado de fora do CTI, no corredor, da sala de espera, existe uma família, igualmente angustiada e sofrida, que se sente impotente para ajudar seu familiar, que também se desorganizou com a doença e que também se assusta com a fantasia da morte que muitas vezes ronda seus pensamentos.

Neste sentido, em uma UTI luta-se pela vida, com foco no restabelecimento do bem estar físico e orgânico, mas também, pela família que espera aflita, que sente saudade, medo de perder, e pelas pessoas que torcem e fazem o máximo que podem para ajudar, e fazer com que o paciente volte logo para casa.

Cabe mencionar ainda, que a equipe também passa pelos mesmos dilemas, muitas vezes levam as preocupações e tristezas para casa, sofrem junto diante das complicações, e se sentem completamente incapazes e derrotadas quando precisam dar uma notícia ruim para a família.

Por outro lado, esta equipe é a mesma que se alegra e comemora, mesmo que seja em silêncio, diante de cada evolução, por menor que seja, vivenciando-a como uma grande vitória. Sentem-se ainda mais satisfeitos em ver se despedindo, uma pessoa que agora se sente bem, saudável e feliz, pois sabem que, de certa forma, cada um é também responsável por esta nova oportunidade.

4. A Intervenção Psicológica no Âmbito Hospitalar

O ambiente hospitalar é designado principalmente para cuidar das questões orgânicas e biológicas de determinado paciente, neste sentido, todos os meios possíveis serão utilizados, e um deles é o Tratamento Intensivo. Embora a questão “doença” seja o foco, observa-se que uma série de fatores emocionais são desencadeados durante o processo, tanto no paciente, quanto na equipe hospitalar. Desta forma, é imprescindível que ocorra também uma intervenção a nível psicológico, para que se tenha um melhor resultado do tratamento médico, e para que se possibilite uma melhor qualidade de vida ao convalescente e a sua família durante a hospitalização.

Confirmando esta afirmação, Romano (2002 p. 150) destaca que:

Quando o paciente é internado num hospital, o que se torna emergente e urgente são suas necessidades que precisam ser atendidas – necessidades biológicas, orgânicas. No entanto, as necessidades do homem, pelo fato de ele ser falante, sabemos transformá-las em demanda dirigida ao outro. A demanda não se coloca ao mesmo nível da necessidade, já que esta é vital para sua sobrevivência.

Apesar de não ser prioridade, a intervenção psicológica é totalmente necessária, também para que se tenha um atendimento mais humanizado, entendendo-se que o doente é uma pessoa com toda uma história de vida, e que não sente apenas dor, mas também ansiedade, medo e tristeza.

Sobre a atuação do psicólogo hospitalar Nicoletti, Chiattone e Angerami (1996) destacam que a psicologia hospitalar busca renovar a esperança de que a dor seja entendida de uma forma mais humana, e de que os profissionais da saúde possam aprender a escutar a angústia, sofrimento, ansiedade, medo etc., presentes em cada manifestação física de dor e sofrimento. E, até mesmo, das alterações físicas determinadas em níveis orgânicos a partir do sofrimento emocional. Do coração que vibra em ânsia antes e após cada cirurgia. Da família que sofre junto do paciente sua dor, medo e angustia. E até mesmo da clarificação dos sentimentos do profissional da saúde que se envolve com a dor do paciente e que igualmente sofre em níveis organísmicos a dor desse sofrimento.

Como mencionado, o psicólogo deve ajudar a equipe a vivenciar de forma mais clara a relação com estes sentimentos, para que saibam como auxiliar o paciente a lidar com eles. Ele deve estar no mesmo espaço do doente, ver aonde estes sentimentos ocorrem e de onde surgem, deve estar inserido na equipe, para que entenda a fundo as raízes do que se passa com cada um, sabendo que cada pessoa vivenciará e responderá de uma forma a relação com a doença.

Confirmando esta ideia, Campos (2007) diz que o psicólogo deve ir ao encontro do paciente e não apenas esperar que ele seja encaminhado por outro profissional. Pois o psicólogo, com seu preparo e sensibilidade, deve também detectar os pacientes que deverão ser acompanhados.

Indo ao encontro do paciente, o psicólogo poderá identificar quais são as demandas de intervenção, e qual a melhor forma para realizá-la. Existe a necessidade de uma preparação, para que psicólogo seja capaz de identificar situações além do que é relatado pela equipe ou pelo próprio paciente.

Para o psicólogo, o sintoma é aquilo ocultado pelo sujeito, e somente o sofrimento não é suficiente para que surja uma demanda da análise, pois muitos vivenciam este sofrimento sem procurar ajuda para livrar-se dele. Somente quando há tropeço, a quebra das suas certezas, é que o sujeito pode buscar alguém que, supostamente, detém suas certezas perdidas (ROMANO 2002 p. 152).

Campos (1995 p. 68) confirma esta afirmação dizendo:

O psicólogo precisa ter uma visão ampla do que está se passando com o paciente. A leitura “apenas” do sintoma orgânico não permite uma abertura para o paciente, pois o psicólogo não é um classificador de doenças. Além de diagnosticar e classificar, vai ter de entender, compreender o que não está manifesto.

Além disso, o psicólogo deve estar preparado para fazer uma ponte de comunicação entre a equipe e o paciente, trabalhar com o paciente de forma a livrá-lo de suas fantasias, esclarecendo questões técnicas se necessário, e demonstrando a equipe os aspectos emocionais, auxiliando-os a compreender como lidar com eles, e como obter melhores resultados.

Sobre isto, Nicoletti, Chiattone e Angerami (1996) afirmam que a assistência psicológica oferecida pelo psicólogo durante a reabilitação médica, pode ser traduzida como sendo a terapêutica psicológica, pois através dela o psicólogo busca dar apoio e esclarecimento ao paciente sobre suas condições emocionais, e, na medida do possível, busca levá-lo a uma conscientização dos seus problemas, apoiando-o na sua crescente valorização e aceitação, para que ele possa melhor enfrentar a sua realidade.

O psicólogo é um profissional qualificado para detectar as situações mesmo quando elas não estão claras e simplificadas, Campos (1995 p.70) destaca que o psicólogo, como profissional da saúde, deve observar e ouvir com paciência as palavras e os silêncios, pois é necessário entender e saber interpretar também as atitudes e expressões, palavras, gestos e silêncios.

Completando esta afirmação, Campos (1995) menciona que ao sentir-se compreendido, o paciente percebe-se mais seguro, amparado, aceito e assistido como um todo, podendo entender sua doença tanto no aspecto fisiológico como nas implicações emocionais, conscientizando-se do que é real e das fantasias.

Ao estar internado, o paciente perde sua harmonia, a qual deverá tentar recuperar a qualquer preço. Essa tentativa é fundamental para que ele possa suportar a situação traumática de doença grave e a internação. O psicólogo por sua vez, na medida em que “escuta” e “pontua” a fala do paciente, vai bordejar o nada da desarmonia, tornando o vazio possível, para que o paciente possa, através desta moldura, ter acesso a mais recursos para lidar com sua angustia difusa, advinda do Real (ROMANO 2002).

O papel do psicólogo não é ignorar os fatos, ou iludir o paciente sobre seu estado real, e sim deixá-lo ciente, trazendo o diagnóstico de uma forma clara e natural, auxiliando-o a buscar e utilizar meios próprios para lidar com a situação de maneira menos dolorosa.

Boss (1981) apud Campos (1995) acredita no contra-poder à angústia, que se manifesta nos fenômenos do amor, da confiança e do estar abrigado. Assim, se puder experimentar as possibilidades do ser humano de forma mais rica do que o angustioso, pode-se dizer que a angústia e a culpabilidade humanas seriam amenizadas.

A psicologia breve é mencionada como principal método de trabalho do psicólogo no âmbito hospitalar, principalmente pela alta rotatividade de pacientes, e por ser um contexto que demanda pouco tempo para os atendimentos, podendo resumir-se a apenas um encontro.

A psicoterapia breve e de emergência desempenha seu papel mais convencional na área de prevenção secundária, tratando de problemas agudos e crises, impedindo-os de se tornarem crônicos (BELLAK e SMALL, 1980).

Este tipo de intervenção não é uma prática exclusiva de hospital, muito embora seja preconizada como única forma de se trabalhar devido à alta rotatividade da instituição. Lazzaretti et al. (2007) menciona que mesmo na prática psicoterápica de consultório, na qual não existe a especificidade institucional, verifica-se a não garantia de que o paciente volte na próxima consulta, o que torna necessário que o trabalho em cada consulta tenha um início, meio e fim. Sem contar que, quando se preconiza que o paciente fique livre para falar sobre o que quiser, a prioridade se volta para a queixa principal dele, e não a do diagnóstico médico ou da equipe.

Assim sendo, o foco está nas questões emocionais que surgirem, que estejam de alguma forma interferindo negativamente no processo de melhora do paciente, ou qualquer outra que esteja ocasionando algum tipo de sofrimento.

O paciente traz com a sua doença também a sua história. A gravidade do quadro clínico, a incerteza do diagnóstico e a imprevisibilidade da evolução do tratamento, de encontro à estrutura psíquica de cada paciente e de seus familiares, vão atualizar peculiarmente no hospital, a vivência de “estremo desamparo” (ROMANO 2002).

Esta sensação de desamparo é nítida, principalmente quando não se tem a presença familiar, e quando a equipe, por questões estruturais, se vê muitas vezes sobrecarregada, sendo necessário o foco exclusivo no tratamento biológico e nas necessidades básicas, não tendo tempo e nem preparo para observar questões como sofrimento, medo, angustia e desamparo.

Concordando com esta afirmação Bleger (1984) apud Campos (1995 p. 66) menciona:

É necessário o médico e o psicólogo ampliarem sua atuação para além dos aspectos curativos e individuais da doença, voltando-se para o social, para a comunidade. Numa medicina de totalidade, o orgânico, o psíquico, o emocional, o individual e o social são inseparáveis, em relação ao homem e ao ambiente em que ele nasce, cresce, se desenvolve e vive.

Correlacionando a doença e a imagem corporal, Campos (2007) destaca que as pessoas com os mais diferentes tipos de prejuízos físicos, mutilações, amputações, perturbações gastrintestinais, manifestações psicossomáticas, são influenciadas  tanto pela natureza da doença propriamente dita e da concepção que o sujeito tem de suas causas, como também pelas decorrências secundárias ou indiretas, tais como restrição das atividades habituais, necessidade de regimes alimentares ou dietas, intervenções cirúrgicas e hospitalização.

O trabalho do psicólogo no âmbito hospitalar é diferenciado também pelas dificuldades encontradas, pensando-se que não se tem um ambiente exclusivo como no atendimento clínico, podendo ocorrer diante de outras pessoas, com tempo limitado, sendo interrompido com frequência.

Remetendo às dificuldades encontradas no trabalho do psicólogo no âmbito hospitalar, Lazzaretti et al. (2007) menciona que em um hospital ou em qualquer outra instituição, o trabalho em Psicologia possui características próprias, que não comportam o modelo de atendimento em consultório privado, tendo uma série de especificidades. Muitas vezes, o espaço físico do hospital é tumultuado, as condições de privacidade são precárias e as interrupções são frequentes. Entretanto, onde quer que o psicólogo esteja inserido, tem como principal função a promoção de saúde mental, em nível primário, secundário ou terciário.

Sobre esta questão Campos (2007 p. 78) cita que “A assistência psicológica dentro do hospital, busca o alívio emocional do paciente e sua família, sendo que, muitas vezes, a ajuda a ser prestada implica uma mobilização de forças, em que a angústia e ansiedade estão presentes”.

No hospital, onde o risco de vida e a possibilidade da morte estão presentes, o psicólogo pode facilitar e/ou favorecer o curso da vida; a isto se pode denominar promoção de saúde e qualidade de vida. Desta forma, a Psicologia Hospitalar situa-se além do trabalho de humanização da instituição, oferecendo tratamento específico para as questões do ser humano no decorrer da sua história de vida (LAZZARETTI et al, 2007).

Assim sendo, o psicólogo inserido na equipe hospitalar, possibilita a observação de outros aspectos relacionados à promoção de saúde, visando assim, um trabalho mais completo e mais abrangente, possibilitando amparo para o paciente e familiares, e consequentemente o preparo para o retorno à rotina de vida fora das paredes do hospital.

5. Considerações finais

O ambiente hospitalar é um espaço sobrecarregado de pressão e ansiedade, visto que é uma área da saúde, que oferta um serviço imprescindível, mas que é procurado somente quando realmente se tem necessidade, de forma geral, o Hospital é considerado um ambiente aversivo, sendo associado principalmente à doença, dor e morte.

Considerando estas questões, e as demais levantadas no texto, o processo de adoecimento e internação hospitalar atua como agente desencadeador de uma série de conflitos emocionais, vivenciadas de acordo com as características próprias do indivíduo, sua história de vida e sua visão sobre saúde e doença.

No ambiente das Unidades de Tratamento Intensivo, observa-se que estes conflitos estão ainda mais presentes, tanto nos pacientes e familiares, quanto na equipe profissional. Ao mesmo tempo em que existe o processo de luta pela vida em ambos os lados, também há um clima de ansiedade diante da incerteza e convívio constante com o sofrimento e a morte.

Da mesma forma, o psicólogo atua de maneira a evitar o desencadeamento de mais sintomas, advindos principalmente das tentativas falhas do indivíduo em lidar sozinho com a situação. Podendo ainda atuar sobre os que surgirem, de forma a evitar que se tornem crônicos. Deste modo, o que foi psicologicamente desencadeado no Âmbito Hospitalar será resolvido ainda neste ambiente.

Assim sendo, o psicólogo tem extrema importância neste contexto, pois é um profissional capacitado para agir e dar suporte psicológico ao sujeito adoecido e a sua família, além de treinar a equipe para lidar com os quesitos emocionais de seus pacientes, demonstrando a influencia destes no processo de melhora física e orgânica.

Sobre o Autor:

Luara Molon - Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia da FADEP - Faculdade de Pato Branco.

Referências:

ANGERAMI, Valdemar A.; CHIATTONE, Heloisa B. C.; NICOLETTI, Edela A. O Doente, a Psicologia e o Hospital. Pioneira. São Paulo. 1996.

ANGERAMI, Valdemar A. Psicologia Hospitalar: Teoria e prática. Pioneira. São Paulo. 1995.

BELLACK, Leopold; SMALL, Leonard. Psicoterapia de emergência e psicoterapia breve. Artes Médicas. Porto Alegre. 1980.

CAMPOS, Terezinha C. P. Psicologia Hospitalar: A atuação do psicólogo em hospitais. E.P.U. São Paulo. 1995.

CHIATTONE, Heloísa B. C.; SEBASTIANI, Ricardo W.; FONGARO, Maria Lúcia H.; SANTOS, Claudia T.; ANGERAMI, Valdemar A. E a Psicologia entrou no Hospital. Cengage Learning. São Paulo. 1996.

LAZZARETTI, Claire, Terezinha [ et al.]. Manual de psicologia hospitalar. Unificado. Curitiba. 2007.

PIVA, Jefferson P.; CARVALHO, Paulo; GARCIA, Pedro C. Terapia Intensiva em pediatria. Medsi. Rio de Janeiro. 1997.

ROMANO, Bellkiss W. A prática da Psicologia nos hospitais. Pioneira. São Paulo. 2002.

TRUCHARTE, Fernanda A.R; KNIJNIK, Rosa.; SEBASTIANI, Ricardo W. Psicologia Hospitalar: Teoria e Prática. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003.

Informar um Erro Publique Seu Artigo