A Criança Hospitalizada e a Ludoterapia como Fator Benéfico para o Tratamento

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1.  Introdução

A hospitalização pode afetar o desenvolvimento da criança, interferindo na qualidade de vida e para lidar com essas situações, o lúdico tem funcionado como estratégia de enfrentamento. Por isso, o objetivo deste estudo é analisar a importância da ludoterapia nas crianças em condição hospitalar, bem como analisar a percepção da criança sobre o contexto hospitalar em relação ao aspecto emocional e verificar a influência dos jogos como fator benéfico para a recuperação da criança hospitalizada.

Brincar é necessário em todas as fases da vida, mas na infância ela é ainda mais essencial por que não é apenas um entretenimento, mas, também envolve a aprendizagem. A criança, ao brincar, expressa sua linguagem por meio de gestos e atitudes, as quais estão repletas de significados, visto que ela investe sua afetividade nessa atividade, por isso a brincadeira deve ser encarada como algo sério e que é fundamental para o desenvolvimento infantil. Segundo a Convenção sobre os Direitos da Criança, “criança é todo o ser humano menor de 18 anos, salvo se, nos termos da lei que lhe for aplicável, atingir a maioridade mais cedo”. Esta definição coincide com o conceito de menor que consta do Código Civil português: “é menor quem não tiver ainda completado dezoito anos de idade”.

Para a criança nada é mais prazeroso e importante do que a brincadeira. Aonde através desta o infante permite que o outro lhe conheça, pois só brincando é possível desfrutar a vida com singeleza. Diversas sociedades assemelham-se no brincar da criança como algo mágico que deve ser resguardado.

A hospitalização é uma experiência angustiante para o paciente e para a família, pois todos sofrem com ela, porém todos não querem está nesta situação.

A ludoterapia proporciona para a criança lidar com o momento da hospitalização como algo passageiro e que deixara só boas lembranças. Assim os estudos na área da Psicologia mostram que o brincar é fundamental para o desenvolvimento psicossocial equilibrado do ser humano e que por intermédio da relação com o brinquedo, à criança desenvolve a afetividade, a criatividade, a capacidade de raciocínio, a estruturação de situações, o entendimento do mundo.

Sendo assim a escolha por pesquisar sobre o tema em questão, se deu por interesses acadêmicos, e desta forma despertando a busca por leituras sobre o assunto, e a partir destas, foi possível perceber a necessidade de realização de mais trabalhos nesse âmbito.      

A metodologia utilizada foi à pesquisa bibliográfica, recurso para investigar indagações e examinar materiais elaborados de pessoas que já estudaram antes temas desta natureza. A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, constituindo principalmente de livros e artigos científicos. Portanto a pesquisa bibliográfica é definida por Lakatos e Markoni (1993) como o levantamento, seleção e documentação de toda bibliografia já publicada sobre o assunto que está sendo pesquisada em livros, revistas, jornais, boletins, monografias, teses, dissertações, com o objetivo de colocar o pesquisador em contato direto com todo material já escrito sobre o mesmo.

O primeiro capítulo desenvolvido explora a concepção da infância ao longo da historia como esta pode favorecer ao bem-estar da criança. O segundo capítulo relata como a humanização no pronto-socorro favorecerá a muitas recaídas na indisposição e como o cuidado dado pelos pais e/ ou cuidadores será benéfico. Já no terceiro capitulo fala como a ludoterapia será favorável para a criança e a equipe de cuidadores do hospital.

2.  Desenvolvimento Infantil e Hospitalização

A infância é uma fase que inclui singeleza e admiração por parte dos estudiosos, pois no século passado era vista como um adulto em miniatura, visão esta que com o tempo modificou-se na sociedade, pois este adquiriu o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em 1990, gerando assim direitos e deveres para a sobrevivência do infante em instituições de longa permanência, como no caso dos hospitais.

Com isso percebemos que a hospitalização é uma experiência que não passa despercebida para o paciente que permanece internado e muito menos para seus familiares e/ou acompanhantes. E quando o assunto é internação de crianças, a reflexão deve ser desdobrada uma vez que a doença e o processo de hospitalização podem comprometer sua integridade física e seu desenvolvimento mental (MONDARDO, 1997).

2.1  A Perspectiva Histórica da Infância

Segundo Ariès (1978), a criança passa a ser objeto de preocupação das sociedades que querem potencializar o presente para preparar seu futuro. Novas expectativas são pensadas para esses futuros cidadãos, cuja inserção na sociedade ganha outros significados, respondendo a oportunidades e limites econômicos que se abrem já desde a Revolução Industrial, que, em meados do século XIX, muda o desenho da economia mundial, lançando os países numa corrida pelo desenvolvimento científico e pelo progresso material.

A representação da infância vai ganhando complexidade e diversidade no decorrer da história. Por muito tempo ainda, os desprovidos irão encarar a mortalidade infantil como fatalidade a ser aceita na ordem natural das coisas. Para os mais favorecidos, no entanto, esse fenômeno torna-se um inimigo a ser combatido, a fim de preservar os futuros cidadãos que deverão ocupar-se dos rumos da sociedade. As diferenças entre as políticas para os ricos e aquelas dirigidas aos carentes vão se expressar de maneira também desigual entre os povos. Se na Europa, ao final do século XIX, o Estado se preocupou em garantir algum tipo de acesso a serviços públicos para a população como um todo, nos países colonizados ou recém-independentes será a elite a se beneficiar de maneira quase exclusiva do acesso a políticas destinadas à infância.

Na Europa, ainda no século XIX, a criança deixa de ser um assunto exclusivamente privado e passa a ser preocupação dos debates públicos dos mais diferentes tipos. Um aparato pedagógico se constrói para atender a essa criança que não mais poderia ser educada pela família. Nesse contexto, em muitos países, a família passa a ser considerada incapaz de criar seus filhos. Os discursos e práticas higienistas identificavam, então, sobretudo entre as classes mais pobres, os potenciais riscos que poderiam afetar as crianças no contato com seus familiares. As críticas ao alcoolismo e a atitudes consideradas promíscuas, como o fato de muitas pessoas dormirem em quartos minúsculos, foram apenas alguns dos assuntos que entraram na pauta das campanhas higienistas que se propagaram na Europa, mas que também ecoaram na América do Norte e na América Latina.

Quando se trata de julgar questões que envolvem “direitos da infância”, em geral temos dois grupos de pessoas. Há um grupo que acredita na ideia da infância como sendo um período prolongado, que se caracteriza principalmente pela inocência. Contestando este, há outro grupo que defende a idéia de que a infância, sendo ou não um período longo, pode ser pensada como possuindo uma série de características, mas nunca as de inocência e bondade como essenciais. O primeiro grupo pode–se assim dizer, é o herdeiro de um movimento específico na história do pensamento no ocidente, a saber, a ruptura proporcionada por Rousseau em relação às concepções sobre a infância vindas de Santo Agostinho e de Descartes. Como se sabe, Santo Agostinho viu a criança imersa no pecado, na medida em que, não possuindo a linguagem (“infante”: o que não fala, portanto, aquele que não possui logos), se mostra desprovida de razão, exatamente o que seria o reflexo da condição divina em nós, os adultos. Descartes viu a criança como alguém que vive uma época do predomínio da imaginação, dos sentidos e sensações sobre a razão, e mais, uma época da aceitação acrítica das tradições, postas pelos preceptores tudo o que macularia nosso pensamento, conduzindo-nos mais tarde, uma vez adultos, à dificuldade no uso da razão e, portanto, ao erro. Para os dois, Agostinho e Descartes, quanto mais cedo saíssemos da condição de criança, melhor para nós (AGAMBEM, 2005)

Na vida real as crianças das classes média e alta, o dia é preenchido com aulas de inglês, natação, música, judô, balé, etc., fazendo com que a infância – esse período da vida em que o ser humano não precisa ainda produzir sua sobrevivência – se faça um tempo útil de preparação para a vida produtiva. Para, além disso, cada vez mais um número crescente de crianças de todas as classes sociais passam parte do seu dia na escola de Educação Básica, que agora começa nos primeiros meses de vida.

A criança doente é um ser indefeso e inseguro, onde o adoecimento e a hospitalização infantil provocam experiências emocionais intensas e complexas. A doença faz surgir na vida da criança um novo contexto, que exige a mobilização de recursos internos para a adaptação necessária a situação imposta pela condição do adoecimento. Novas relações se estabelecem e o médico e o hospital passam a fazer parte desse novo contexto (AJURIAGUERRA, 1976).

Para Sartri (1988), a criança hospitalizada tem duas fontes de ansiedade, sendo uma externa, diretamente relacionada com os fatos concretos e reais advindos do ambiente hospitalar e a outra é interna, decorrente dos estados de angustia ou ansiedade provocados pela própria doença ou pela ideia que a criança tem desta. Com isso vemos a doença e a hospitalização implicam alterações na sua rotina, separação dos amigos, da escola, de casa, dos brinquedos, dos objetos pessoais e ir para um ambiente estranho, onde terá de se submeter a procedimentos invasivos, muitas vezes dolorosos, conviver com rotinas rígidas, o que causa irritabilidade, depressão e agressividade.

Baseando-se no objetivo do atendimento da equipe de saúde deve seguir sempre o principio de minimizar o sofrimento da criança hospitalizada, promovendo-lhe saúde e principalmente fazendo dessa criança um elemento ativo dentro do processo de hospitalização e doença, valorizando a relação de influxos satisfatórios entre mãe e filho e compreendendo os riscos e sequelas da separação desse binômio, buscando atingir o desempenho de uma pediatria global. Além disso, existem vários fatores inerentes a hospitalização e varias consequências nocivas dessa medida que contribuem para o aparecimento de agruras existenciais e de problemas emocionais graves, adversos ao desenvolvimento da criança hospitalizada e doente, por isso é necessário que a criança e os pais sejam encorajados a expressar suas emoções durante o período de internação.

2.2  Hospitalização Infantil

Do ponto de vista da criança a doença é vista como uma punição por algo que fez ou deixou de fazer o que acarreta na hospitalização, que é um local de proibições, tais como: não se pode andar pelos corredores, jogar bola, tomar ar fresco, falar alto, conversar com outras crianças, brincar. Mas, paradoxalmente, o hospital é um local de infantilização, onde crianças grandes são colocadas em berços e alimentadas através de mamadeiras- o que lhes causa profunda indignação (OLIVEIRA, 1993).

Na literatura acerca da hospitalização da criança distinguem-se dois períodos, cujos trabalhos apresentam ênfases diferentes. No primeiro, que vai de 1950 até meados da década de 80, a ênfase dos trabalhos repousa nos efeitos maléficos à saúde física e mental da criança decorrentes da separação da família, especialmente de sua mãe, que determina sofrimento e desencadeia mudanças no seu comportamento, não só durante a hospitalização como também após a alta. No segundo período, a partir da metade da década de 80, os trabalhos passam a discutir, principalmente, os benefícios da presença da mãe para a criança hospitalizada, tais como: redução do tempo de hospitalização e melhora do comportamento após a alta; declínio da incidência de infecção cruzada e de complicações pós-operatórias; aumento do senso de segurança por não haver mais a ansiedade da separação; maior acurácia de balanço hídrico e maior facilidade de coleta de material para exames, além de que as crianças ficavam menos sozinhas, dormirem melhor e manterem mais interações sociais com menor número de adultos.

De acordo com Bowlby (1995), a criança hospitalizada passa por três fases de adaptação: a primeira é a de revolta com a internação e os procedimentos invasivos e dolorosos; depois, entra em um estado de apatia e finalmente, com a formação de vínculos dentro do hospital, começa a substituir a reação de revolta por aceitação aos cuidados. As reações da criança a doença e a hospitalização dependem principalmente do nível de desenvolvimento psíquico na ocasião da internação, grau de apoio familiar, tipos de doença e atitudes do médico (STRAUB, 2005).

Dentre as seguintes idades podemos ver que o adoecimento causa reações diferentes na criança: dos quatro meses aos dois anos de vida a separação da mãe estimula protesto, aflição e desespero. Dos dois aos cinco anos as preocupações acerca da separação ainda são muito importantes, mas aumenta o medo ao dano corporal, havendo uma sensibilidade aumentada em especial à dor, feridas, sangue e aos procedimentos médicos e de enfermagem. Dos cinco aos sete anos são evidentes as preocupações acerca da morte, desaparecimento, pessoas que não voltam, ou temor de se perder para sempre. Desenvolve-se uma vigilância especial por seu destino, de seus entes queridos e de outros pacientes. Dos sete aos nove anos preocupa-se em perder seu lugar na enfermaria, em ficar inválido para sempre, longe de casa, da escola, amigos e medo de ser abandonado. Dos nove aos doze anos mostra preocupação própria da idade escolar acerca da capacidade intelectual, social e física (ficar para trás na competição com colegas). Dos onze aos treze anos apresenta preocupação pré-puberal acerca das funções corporais, dos produtos orgânicos, da exposição do corpo frente ao pessoal da equipe hospitalar e aos demais pacientes e acerca da futura humilhação com amigos. Dos treze aos dezoito anos as preocupações acerca da incapacidade, dor e desgraça ainda estão presentes.

Com o passar do tempo percebe-se que as doenças crônicas, modificam de forma especial o cotidiano da criança, muitas vezes por limitações físicas, resultantes de sinais e sintomas da doença, e ela pode ser frequentemente hospitalizada para exames e para tratamento à medida que a doença progride.

A doença e hospitalização infantil podem modificar, em maior ou menor grau, o cotidiano da criança e da família, por isso, a experiência é vista como uma situação crítica e delicada para todo o sistema familiar, podendo ser importante fonte de sofrimento. As questões afetivas, psicológicas e emocionais da criança hospitalizada são importantes de ser reconhecidas durante essa experiência, pois fazem parte do processo de desenvolvimento infantil. A resposta das crianças à doença depende do seu desenvolvimento cognitivo, de experiências passadas e de nível de conhecimento, sendo-o influenciado de modo como a criança se comunica e expressa seus sentimentos é potencialmente influenciado pelos contextos físico, social, econômico e político.

Se pararmos para ouvi-las, podemos perceber a dimensão que a doença tem em sua vida, do modo como é vivida de forma singular por uma a uma de cada criança. Alguns trabalhos discutem o significado do processo de doença e hospitalização para a criança, tendo como fonte de informação sua própria experiência e também considerando a família, que se abala com a experiência de doença da criança. Tais estudos mostram que a criança mantém sua atenção no cuidado recebido da família e da equipe de saúde, sabe descrever o significado de ser cuidada, manifesta suas necessidades físicas de cuidado, quer ser compreendida e se sentir querida, bem como ser apoiada quando se vê obrigada a enfrentar situações difíceis.

O sofrimento é considerado a resposta social desse processo que pode provocar várias reações, sendo assim, o psicólogo deve estar sensível ao cuidar do paciente para entender e aliviar o sofrimento, conhecendo sobre a experiência, bem como elaborar possíveis respostas as necessidades daqueles que padecem, contribuindo assim para uma hospitalização humanitária.

3. A Hospitalização Humanitária no Processo de Internação

A garantia de condições adequadas para a internação e tratamento da criança e a melhora das relações interpessoais envolvendo o bem-estar psicológico do paciente como sendo o objetivo do atendimento das equipes de saúde fornecendo a humanização nos hospitais deve ser voltada para o processo de treinamento das equipes de saúde, para intervenções estruturais que façam com que a experiência da hospitalização seja mais confortável, principalmente em se tratando de hospitalização infantil (CHIATTONE, 2003), pois a família, juntamente com o paciente, favorecem a internação e a colaboração para a realização do trabalho do corpo médico proporcionando assim a diminuição de futuras re-internações.

 3.1  Humanização nos Cuidados Médicos

O ato médico no decorrer do século 18 baseava-se no principio de que o órgão do corpo precisa explicar não só como participa do conjunto de outros órgãos, mas por que funciona de certa maneira e não de outra com relação a isto vemos que graças a Descartes e ao seu estudo com a mente e o corpo, analisou-se a doença em separado, ou seja, não fazia associação entre eles proporcionando que se surgisse o binômio médico- paciente exposta na época surgiu o endeusamento do medico e a associação que o paciente não possui conhecimento e não carece de informação sobre a sua doença. Percebe-se que a humanização na área da saúde abrangendo assim o contato com o paciente até o atendimento com a família.

Segundo Romano (1999) apud Nigro (2004), humanizar significa particularizar, atender as circunstâncias e necessidades individuais, mas não se trata de atualidade do serviço, de um algo a mais. Humanização é obrigação, é exigência do consumidor, é revitalização de preceitos éticos.

O psicólogo pode atuar com a criança quando,

[...] esta teme a doença e a hospitalização; esta teme um exame ou o medicamento; esta teme a equipe de saúde e o próprio ambiente; ela quer falar de si, da doença, da família; ela chora a ausência da mãe ou da família; sente-se abandonada; necessita receber orientação no sentido de entender melhor o processo pelo qual esta passando; pede explicações sobre um exame; a equipe medica pede que ela necessita fazer dieta, controle hídrico ou repouso no leito; necessita permanecer no isolamento; a hospitalização é prolongada; a hospitalização é agressiva(exames, condutas etc.); dores a incomodam; torna-se apática; apresenta distúrbios de conduta; é um paciente terminal; quer e precisa chorar; não recebe visitas frequentes; necessita de afeto e apoio; precisa se sentir segura; precisa diminuir seus medos, culpas e duvidas; torna-se rebelde e agressiva; recusa-se a brincar; necessita eliminar fantasias e falsos conceitos; quer falar, conversar; ser ouvida; quer falar sobre a morte(CHIATTONE,2003).

De acordo com Chiattone (2003), várias são as medidas preventivas e humanizadoras a serem utilizadas na tentativa de diminuir o sofrimento inerente a hospitalização da criança. São medidas que podem ser adotadas por parte dos profissionais no primeiro contato com a criança, sendo essas medidas simples, humanas, valiosas e essenciais para diminuir o sofrimento e os prejuízos que a hospitalização pode causar. Alguns exemplos são: a) indicação correta de internação- com esta medida evitam-se internações desnecessárias, evitam-se os inconvenientes causados pela hospitalização, evita-se a ocupação desnecessária dos leitos e incentiva a participação da família; b) preparação da criança para a hospitalização- esta medida é feita pelos pais nos quais indicam para a criança o motivo da internação; c) chegada ao hospital- nesse primeiro momento e os primeiros contatos feitos pela equipe de saúde são muito importantes para que o paciente possa suportar a hospitalização com menos sofrimento; d) prazo de internação- o prazo de internação razoável é de 10-14 dias, com isso a equipe médica deve buscar alternativas para minimizar o período de internação e o tratamento passado no ambulatório; e) visitas- o hospital deve disponibilizar horários frequentes na semana para que a família visite o doente, sendo este para o caso de pacientes que estão sozinhos; f) preparo para alta-iniciam-se quando o paciente recebe alta médica no qual a equipe médica informará sobre a saída do enfermo daquele local e o seu retorno ao lar.

A atuação do psicólogo no contexto hospitalar está relacionada ao ambiente psicológico, onde o mesmo deve observar os doentes, seus familiares, a atuação das pessoas naquele lugar, informando-se do diagnóstico médico, do prognóstico e propedêutico, grau de risco de vida, previsão do tempo de internação e cuidados especiais requeridos naquele caso, para, então, planejar seu atendimento psicológico e suas técnicas auxiliares, pois, na maioria das vezes, não será o paciente a chegar ao psicólogo, mas o inverso. Assim a atuação vai além dos atendimentos aos pacientes, a burocracia da feitura dos relatórios dos atendimentos, uma vez que somente a partir dos mesmos é possível que se obtenha um feedback do seu trabalho.

Baseando-se nisto deve ser objetiva a atuação do psicólogo dando oportunidade para que o doente expresse suas emoções, descubra a melhor maneira de lidar com as limitações impostas pela doença e hospitalização, dê significados a sua doença dentro do seu contexto de vida e trabalhe suas questões emergenciais, onde os objetivos principais são o reconhecimento do paciente enquanto um todo provido de emoções e sentimentos que interferem em seu comportamento, ajudando-o a tratar e minimizar, o sofrimento provocado pela doença e hospitalização.

3.2 O Papel da Família na Recuperação das Crianças Hospitalizadas

A importância do trabalho com a família do interno está relacionada à doença que acomete o paciente para assim os pôr a par das particularidades do doente e da sua evolução, dando-lhes responsabilidades na condução do caso e mantendo-os preparados para enfrentar as eventualidades que possam ocorrer. Tudo isto funciona como profilaxia de crises família x instituição.

De acordo com as intervenções feitas no contexto hospitalar deve-se buscar a promoção de condições favoráveis à reabilitação de efeitos de experiências adversas ao desenvolvimento comportamental da criança. O atendimento não deve restringir-se ao individual de cada paciente, mas a todo o contexto da internação, desde a estrutura ambiental até a assistência em áreas que correspondam as suas necessidades favorecendo assim o bem-estar no hospital deve ser atribuição de profissionais da área da saúde, a Psicologia tem aí um papel especifico, quando subsidia programas que promovam o conhecimento e a aquisição de comportamentos dentro desse contexto. Assim, na prevenção e no tratamento de doenças, o trabalho do profissional auxilia na modificação de comportamentos do paciente, desenvolvendo repertórios relacionados à manutenção da saúde.

A atuação do psicólogo no hospital deve visar o bem-estar do paciente como um todo, sem restringir a presença da família, ou seja, quando pessoas experienciam situações como doença e hospitalização, necessitam desenvolver habilidades para lidar com fatores biológicos e emocionais (AMARAL, 2001)

Até poucas décadas, a mãe e filho viam-se afastadas durante a hospitalização da criança, fato que gerava sofrimento tanto para a mãe, por não poder estar ao lado do filho, quanto para a criança, pois deixava o lar para vivenciar um ambiente novo, com pessoas estranhas e sem a presença de familiar durante a hospitalização. A partir de 1990, no Brasil, com a consolidação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) a criança passou a ter o direito a acompanhante no ambiente hospitalar, durante todo o período de internação. Esse fato tem contribuído para a melhoria do tratamento da criança, promovendo assistência humanizada.

A mãe, ao acompanhar o internamento do filho, sofre ao seu lado, pois o adoecimento e a internação são fontes de ansiedade que, muitas vezes, são intensificadas pela falta de diagnóstico estabelecido ou por dúvidas não esclarecidas sobre o estado de saúde e o processo terapêutico. Bem como pode ser agravado pela preocupação com os outros filhos que ficaram em casa, distanciamento do companheiro e trabalho, desgaste físico e emocional, entre outros aspectos particulares. Portanto, percebe-se que os profissionais de saúde não mais podem admitir a criança fora do contexto familiar, uma vez que a mãe faz parte da atenção à criança, sendo essa também objeto de cuidado. No processo de internação pediátrica é preciso valorizar o vinculo criança-mãe, bem como esclarecer, orientar e proporcionar segurança ao binômio, auxiliando a mãe diante de conflitos, medos e aumento de responsabilidades resultantes da internação. Assim, a humanização e a inclusão do lúdico, no cotidiano das práticas no hospital, contribuem com a formação acadêmica e o desenvolvimento de habilidades e competências necessárias ao cuidar, inerente aos psicólogos em situação hospitalar.

4. O Lúdico no Contexto da Vida Humana

Revisando os autores Chiattone (2003) e Lindquist (1993), sobre a entrada do brincar no hospital, verifica-se que esta temática vem tomando um lugar significante no estudo da hospitalização infantil. A ludoterapia deve oferecer às crianças, qualquer que seja sua idade, atividades estimulantes, divertidas e enriquecedoras, que tragam ao mesmo tempo calma e segurança.

A ludoterapia é um recurso destinado também ao brincar no contexto hospitalar, organizado em função da criança, contendo uma grande variedade de materiais, brinquedos, jogos e atividades relacionadas à promoção do lúdico. Visa atendimentos psicológicos às crianças internadas e seus familiares, desenvolvimento da criatividade, construção do conhecimento, liberdade para o brincar, aumento da capacidade de resiliência e proporciona condições de reflexão à equipe do hospital, buscando um trabalho integrado para atender as necessidades básicas da criança hospitalizada.

Os autores Carvalho e Begnis (2006) e Sadala e Antônio (1995) apontam sobre a importância do brincar durante a hospitalização infantil, sendo tal atividade reconhecida por sua função terapêutica. “Se uma criança se sente descontraída e feliz, sua permanência no hospital não será somente muito mais fácil, mas também seu desenvolvimento e cura serão favorecidos” (LINDQUIST, 1993, p. 24).

4.1 A Atividade Lúdica no Hospital: uma Alternativa de Enfrentamento

De acordo com Cunha (1994), a ludoterapia se refere à psicoterapia que fez uso do lúdico, ou seja, que se utiliza do brincar como veiculo para a relação terapêutica. Consiste na análise da criança através do brinquedo (jogo), sendo uma forma de terapia cuja meta é promover ou restabelecer o bem estar psicológico do indivíduo através de atividades lúdicas. Ela ainda afirma que é brincando que a criança mergulha na sua vida, podendo ajustar-se as expectativas sociais e familiares, desenvolvendo assim, todas as suas potencialidades.

Segundo Kishimoto (1994), o brinquedo consiste no objeto a parte da brincadeira, ou seja, é o objeto com o qual a criança brinca. A brincadeira é o ato de brincar, a ação lúdica. A ação da criança junto aos objetos lúdicos possibilita a construção de seu conhecimento, o desenvolvimento de habilidades sensoriais e perceptivo-motoras, além da elaboração dos seus conflitos e emoções (MONTEIRO, 2011). Com isso vemos que no brincar ora a criança é o autor da brincadeira ora é o protagonista levando-nos a perceber que o infante que se expressa através do lúdico apresenta recuperação mais rápida.

A existência de um espaço dedicado ao brincar dentro do hospital reflete a preocupação com o bem-estar global do indivíduo, proporcionando maior confiança nos pacientes e em seus familiares. Contribui também para a desmistificação do ambiente hospitalar, comumente percebido como hostil, uma vez que a possibilidade de brincar no hospital permitiria a visão desse ambiente como bom e agradável. Quando pessoas vivenciam a hospitalização, a qualidade do ambiente pode afetar diretamente no processo de recuperação. Nesse sentido, as intervenções no contexto hospitalar devem visar à promoção de condições favoráveis a reabilitação dos efeitos de experiências adversas ao desenvolvimento das crianças. O ambiente deve incentivar a saúde e deve ser organizado de maneira que atenda melhor as necessidades dos pacientes, considerando-se os aspectos psicológicos, pedagógicos e sociológicos da criança e da sua família.

Chiattone (2003) cita algumas atividades realizadas no hospital no intuito de beneficiar a criança dentre elas: pintura- podendo esta ser com a utilização dos dedos ou não a depender da criança; desenho- caso a faixa etária do infante seja favorável e caso possa se levantar na cama; colagem- é necessário a colaboração dos pais ou responsáveis da criança; recorte- podendo ser de revistas ou jornais velhos; modelagem- com a utilização da argila; teatrinho de fantoches- é aconselhado no período pré- cirúrgico para explicar sobre esta atividade; ‘’boneco- paciente’’- visa à conscientização da criança da inserção desta no hospital; ‘’o trenzinho’’- técnica aonde relata sobre a família do menor fora do hospital aonde se faz uma linha do tempo de cada paciente; música- utiliza-se esta técnica para acalmar o pequeno; brinquedo livre- nesta técnica é distribuído os brinquedos sem critérios; atividades festivas e comemoração de datas especiais- comemora-se no hospital dadas especiais fazendo a inclusão desta na rotina hospitalar; dramatização- possibilita o diagnóstico do conflito que a criança esta vivendo, serve como uma ‘’válvula de escape’’.

O brincar é visto como espaço de reabilitação capaz de promover não só a continuidade do desenvolvimento infantil, mas também permite que a criança hospitalizada elabore melhor este momento especifico em que se vive (Mitre, 2000). Para Soares (2003), as brincadeiras e jogos variados que promovem risadas podem melhorar a oxigenação, induzem ao relaxamento e melhoram a autoestima. O ato de brincar também pode informar a evolução da doença, seus aspectos, o nível de estresse da hospitalização e tratamento (MOTTA, ENUMO E FERRÃO, 2006). Além disso, sendo este ato uma das formas de expressão genuína da criança, permite que ela revele suas necessidades, vontades ou prazeres. No ambiente hospitalar, torna-se ainda fundamental para o universo infantil, servindo como meio em que são percebidos os anseios da criança internada.

Cunha (1994) dá ênfase ao brincar e relacionar-se e de integrar-se ao ambiente que a cerca, o que se pode transferir para o contexto em referencia. Seus benefícios centralizam-se no fortalecimento da alegria infantil, na promoção da socialização e bem-estar, na aceitação e na promoção do tratamento. Além destes possui outros benefícios dentre eles: fazer com que as crianças experimentem sensações de prazer e de felicidade, adquirem conhecimento sobre o mundo, aprendem espontaneamente, desenvolvem a sociabilidade, redução da agressividade, entre outros. As atividades lúdicas proporcionadas às crianças no ambiente hospitalar atuam como catalisadoras no processo de sua recuperação e adaptação, representando estratégia de confronto das condições adversas da hospitalização. O ato de brincar permite a criança sentir-se melhor no cotidiano de sua internação e resgatar as brincadeiras que realizava em seu ambiente familiar, antes da hospitalização.

Profissionais podem perceber que a utilização de brinquedos no momento de exames, no preparo antes e pós- cirúrgicas e outros tratamentos difíceis, leva a uma maior colaboração por parte dessas crianças. Promover a interação pode fornecer, principalmente, a aquisição de repertórios relacionados a habilidades sociais, fornecendo modelos para lidar com situações estressantes e facilitando o trabalho da equipe de profissionais.

A intervenção deve ser implementada com a finalidade de auxiliar as crianças a lidarem com aspectos negativos da hospitalização. O brincar pode servir como proposta por permitir tarefas relacionadas à compreensão de um ambiente novo e estranho, e tarefas emocionais para lidar com medo e com a perda de controle. Assim a criança percebe a ludoterapia como o momento aonde ela irá desligar-se da realidade vivenciada, minimizando a tensão, proporcionando subsídios para assimilação de novos conhecimentos, compreendendo o que se passa no hospital e podendo esclarecer possíveis conceitos errôneos. Ou seja, para o infante esta técnica é mais que necessário que haja no hospital que ela esta inserida, pois só ela beneficiará na diminuição do sofrimento da criança e da mãe (SOARES; ZAMBERLAN, 2003).

4.2 A Persepectiva Cognitivista de Piaget e Vygotsky: o Jogo e a Interação no Tratamento

Para a construção de suas ideias, Piaget utilizou o modelo biológico: o ser humano é guiado pela busca do equilíbrio entre as necessidades biológicas fundamentais de sobrevivência e as agressões ou restrições colocadas pelo meio para a satisfação dessas necessidades. Nesse sentido, a inteligência é uma adaptação- é assimilação, pois incorpora dados da experiência do indivíduo e é, ao mesmo tempo, acomodação, uma vez que o sujeito modifica suas estruturas mentais para incorporar os novos elementos da experiência.

Piaget compreende o desenvolvimento da criança dividido em quatro fases, em seus estudos e descobertas sobre a inteligência. Também revelou a importância do lúdico em cada fase da criança até a adolescência, podendo chegar da fase de equilíbrio a uma fase adulta e também explicou o jogo nas diferentes fases do desenvolvimento. Essas fases do desenvolvimento de acordo com Piaget (1978) são: Fase sensório-motor (0 a 24 meses): o bebe desenvolve seus músculos, seus movimentos, seus sentidos, sua percepção e seu cérebro. Essa formação de esquemas sensorial- motores permite o bebe, a organizar os estímulos causados pelo ambiente, para que ao final dessa fase, a criança tenha condição de lidar, embora de maneira rudimentar, com situações que lhe são apresentadas. É nesse sentido que a criança trabalha ativamente a formação do eu. Fase pré- operacional (2 a 7 anos): a criança já consegue definir e se estruturar como um ser diferenciado dos outros. Desenvolve o pensamento, sendo capaz de representar mentalmente pessoas e situações, inclusive deixa-se levar pela experiência, sem relacionar aspectos. Sobre a fase operacional- concreto (7 a 12 anos): a criança reunirá os conhecimentos sistematizados e tomará consciência de suas atitudes, discernindo o certo do errado despertando para um mundo em que a cooperação com os colegas será mais consciente, respeitando assim as regras. Dá inicio a fase de jogos de regras, que são jogos de combinação sensório-motoras ou intelectuais em que há competições dos indivíduos. Por fim, na operacional formal (a partir dos 12 anos): ocorrem muitas mudanças e inquietações. A representação agora permite a abstração total. A criança tem maior consciência de suas ações e das relações previamente existentes, mas é capaz de pensar em todas as relações possíveis logicamente.

O brincar no processo de aprendizagem, afirma Kishimoto (2011), é identificado pela primazia da assimilação sobre a acomodação, ou seja, o sujeito assimila eventos e objetos ao seu eu e as suas estruturas mentais. Piaget (1978) observa ao longo do período infantil três sistemas de jogo: exercício- envolve a repetição de seqüências já estabelecidas de ações e manipulações; simbólico- descreve que o símbolo implica a representação de um objeto ausente visto ser comparação entre um elemento dado e um objeto imaginado; regras- que supõe necessariamente, relações sociais ou interindividuais, resulta da organização coletiva das atividades lúdicas.

Em outra perspectiva cognitivista, a aprendizagem sempre inclui relações entre as pessoas. A relação do individuo com o mundo está sempre mediada pelo outro. Não há como aprender e apreender o mundo se não tivermos o outro, aquele que nos fornece os significados que permitem pensar o mundo a nossa volta. Vygotsky defende a ideia de que não há um desenvolvimento pronto e previsto dentro de nos que vai se atualizando conforme o tempo passa ou recebemos influência externa. O desenvolvimento não é pensado como algo natural nem como produto exclusivo da maturação do organismo, o contato com a cultura produzida pela humanidade e as relações sociais que permitem a aprendizagem. E aí aparece o ‘’outro’’ como alguém fundamental, pois é quem nos orienta no processo de apropriação da cultura.

(...) o homem se apropria da natureza objetivando-se nela para inseri-la em sua atividade social. Sem apropriação da natureza não haveria a criação da realidade humana, não haveria a objetivação do homem. Sem objetivar-se através de sua atividade o homem não pode se apropriar de forma humana da natureza... não haveria desenvolvimento histórico se o homem se apropriasse de objetos que servissem de instrumentos para ações que possibilitassem apenas a utilização de um conjunto fechado de forças humanas e a satisfação de um conjunto também fechado de necessidades humanas. O que possibilita o desenvolvimento histórico é justamente o fato de que a apropriação de um objeto (transformando-o em instrumento, pela objetivação da atividade humana nesse objeto, inserindo-o na atividade social) gera, na atividade e na consciência do homem, novas necessidades e novas forças, faculdades e capacidades (...) (DUARTE, 2007).

Um conceito fundamental na teoria de Vygotsky (2007) é a Zona de Desenvolvimento Proximal. Refere-se ao percurso que faz um indivíduo para desenvolver funções que se encontram em processo de amadurecimento e que mais adiante se tornarão funções consolidadas, estabelecendo assim o nível de desenvolvimento real ao indivíduo. Portanto, é a distancia entre o nível real de desenvolvimento, determinado pela capacidade de resolver, independentemente, um problema, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da resolução de um problema, sob a orientação de um adulto, ou de um companheiro mais capaz (REZENDE, 2006).

Dessa forma, o brincar no hospital humaniza o atendimento, estimula o contínuo e o adequado desenvolvimento neuropsicomotor da criança, além de fazer a prevenção em saúde mental (NOVAES, 1998).

Segundo Moura (1996), é no ato de jogar, na ação concreta, na interação com outras crianças, na intervenção em sua realidade que a criança pensa sobre os objetos de conhecimento. Adquire, dessa forma, novos saberes sobre si mesma, sobre os papeis sociais, sobre as regras da vida em grupo, sobre os conceitos básicos das diversas áreas do conhecimento construído pelo homem ao longo da historia.

 Para concluir podemos analisar a importância de Piaget e Vygotsky no processo ensino- aprendizagem, relação esta que se aplicado ao ambiente hospitalar proporciona a estimulação da cognição do paciente para que este vivencie o momento da hospitalização com os menores danos possíveis.

5. Considerações Finais

Neste trabalho pôde-se observar que a aprendizagem no ambiente hospitalar, além de um fator inerente, é um processo essencial para o desenvolvimento do ser humano. É através deste que é possível desenvolver habilidades, que permitem a evolução e maturação do homem, pois ao analisar a percepção da criança em relação aos aspectos emocionais verifica-se que através do lúdico é possível proporcionar uma melhor recuperação observando assim, a hospitalização humanitária no trabalho desempenhado pelos psicólogos.

A infância é uma fase que causa a admiração de vários estudos os quais até o século passado a renegavam ou simplesmente não davam credibilidade. A criança doente é um ser indefeso, inseguro e às vezes excluído por sua condição física, que só quer um ente querido junto que lhe afage neste lugar novo cheio de aparelhos e com muitas pessoas ao seu redor.

A hospitalização humanitária surge para proporcionar a esta criança uma escuta, um simples gesto de cuidado e atenção, além de contribuir para a aprendizagem tanto da criança como dos pais sobre as doenças estimulando a assimilação de novos conteúdos. Com isso foi visto que a presença da mãe no internamento do filho acarreta no sofrimento desta, pois o adoecimento e a internação são fontes de ansiedade que, muitas vezes, são intensificadas pela falta de diagnóstico estabelecido ou por dúvidas não esclarecidas sobre o estado de saúde e o processo terapêutico. Bem como pode ser agravado pela preocupação com os outros filhos que ficaram em casa, distanciamento do companheiro e trabalho, desgaste físico e emocional, entre outros aspectos particulares.

A ludicidade é uma necessidade da criança e as brincadeiras são um elemento fundamental na infância. Diante disso, se analisou a importância do lúdico como fator influenciador da recuperação da criança hospitalizada. Os exercícios lúdicos exercem um    papel importante na aprendizagem das crianças, o conhecimento básico é oriundo das brincadeiras, assim, os jogos na infância são fundamentais para um desenvolvimento cognitivo, emocional e social saudáveis.

Importantes teóricos cognitivistas estudaram o tema e analisando as perspectivas de Piaget e Vygotsky observamos que ambos consideram o jogo uma importante ferramenta no processo de aprendizagem infantil. Piaget compreende a criança como um ser ativo, que constrói seu conhecimento mediante os estímulos oferecidos pelo meio. Nesta teoria o lúdico é descrito como natural para a criança, sendo uma forma eficaz de assimilação das regras e normas na infância, a brincadeira é uma atividade específica da infância que estimula a curiosidade, relacionando a inteligência, a aprendizagem e a construção do conhecimento como processos interligados. Além disso, Vygotsky compreende que o homem se constitui em sua relação com os demais, o desenvolvimento da criança é mediado por sua relação com a cultura. Nesta teoria o lúdico e as brincadeiras recriam o universo cultural em que a criança encontra-se inserida. Para Vygotsky a brincadeira é, portanto, a base para a aprendizagem e o desenvolvimento.

Assim, Piaget e Vygotsky concordam em relação à importância dos brinquedos e brincadeiras para o desenvolvimento das crianças, pois esta é definida como uma atividade prazerosa, livre, que estimula a cognição.

Diante do exposto, observa-se que a ludicidade na aprendizagem trás benefícios ao desenvolvimento da criança, que terá a oportunidade de desenvolver este processo de forma natural e espontânea, onde suas experiências serão a base para seu aprendizado durante a vida, facilitando o seu desenvolvimento pessoal e social.

Como sugestões para trabalhos futuros, uma vez que o conhecimento científico é renovável, observa-se a necessidade de investigação de alguns temas, como a percepção dos pais em relação ao tratamento humanitário nos hospitais e a visão dos profissionais de saúde em relação à ludoterapia.

Sobre o Autor:

Daniella Maria Mangueira Aureliano - Graduada em Psicologia pelo Centro Universitário de João Pessoa (UNIPÊ) e cursanda da especialização em Transtornos Alimentares e Obesidade na USP-SP.

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