A Importância da Assistência Psicológica em Pacientes Oncológicos

A Importância da Assistência Psicológica em Pacientes Oncológicos
(Tempo de leitura: 5 - 10 minutos)

Resumo: A psico-oncologia é uma área de interface entre a psicologia e a oncologia e tem interesse em atender aos recorrentes aspectos psicossociais que envolvem o paciente com câncer. O câncer possui um significado ameaçador para o paciente, visto que está associado à interrupção da vida. Esse artigo tem a finalidade de esclarecer a importância da assistência psicológica em pacientes oncológicos, ampliar o conhecimento sobre o câncer, identificar a dinâmica deste paciente e o manejo do psicólogo na ressignificação do processo de adoecimento. Neste contexto, as práticas psicológicas devem pautar-se no tratamento do Ser Doente em sua situação peculiar e lançar mão de novos instrumentos para a reabilitação do sujeito a partir da sua nova condição de ser no mundo.

Palavras-chave: assistência psicológica, psico-oncologia, práticas psicológicas, ressignificação, câncer

Considerações Iniciais

Ainda hoje, o câncer é uma doença cujo significado é ameaçador para a maioria das pessoas, pois está associado ao risco de morte e possibilidade de interrupção da trajetória existencial, que exige do indivíduo acometido força e criatividade para suportar mudanças, muitas vezes drásticas, em seu estilo de vida (Werebe, 2000).

O câncer é denominado uma enfermidade que se caracteriza como um grupo de doenças que ocorrem pela alteração ou aumento na divisão celular. E se classificam nos seguintes tipos: o carcinoma, que atacam as células epiteliais; os sarcomas, que são as malignidades nos músculos, ossos e cartilagens; os linfomas, que se formam no sistema linfático; as leucemias, que atacam os tecidos saguíneos e formadores de sangue, como a medula óssea; dentre outros.

A psico-oncologia pauta-se em uma atuação preventiva primária com o objetivo de buscar formas de tratamento digna, humanizada e que favoreça a adesão ao processo de tratamento. Ao passo que considera o indivíduo como um ser integral, social, ajuda o paciente e seus familiares à ressignificar o processo de adoecimento, objetivando restaurar ou melhorar a qualidade de vida e possibilitar maiores expectativas de sobrevivência.

O psicólogo que antes, somente participava dos aspectos relacionados à saúde-doença ou em instituições que promoviam saúde mental, hoje, tem uma atuação mais ampliada em diversos setores da saúde, bem como em hospitais, unidades básicas, postos de saúde, casas de saúde, dentre outras instituições. Isso reflete ao aumento do número de demandas para esse profissional, inclusive no campo da oncologia.

Através da Psicologia da Saúde que se propunha em realizar promoção e manutenção da saúde, prevenção e tratamento de doenças; o psicólogo começa a adquirir seu espaço no hospital, sendo figura necessária nos serviços de suporte a toda equipe multidisciplinar. Nesse caso, os psicólogos da saúde ajudam os pacientes e familiares através de um apoio psicossocial no enfrentamento dos efeitos negativos do tratamento contra o câncer.

O que é o Câncer?

O câncer é uma das doenças que mais causa morte no mundo. Engloba mais de 100 doenças diferentes, porém relacionadas, em que algumas células anormais do corpo se multiplicam e se espalham de forma descontrolada e formam tumores.

Nem todos os tumores são cancerosos. Os tumores benignos (não-cancerosos) tendem a permanecer localizados e normalmente não representam ameaça grave à saúde. Em comparação, os tumores malignos (cancerosos) consistem em células renegadas que não respondem aos controles genéticos do corpo no que diz respeito a seu crescimento e divisão. (STRAUB, 2005).

Existem algumas teorias que se propõem em explicar a causalidade do câncer. Alguns modelos teóricos partem do pressuposto que o câncer surge como resultado de um vírus ou de uma mutação genética. No entanto, devem ser considerados os fatores genéticos, comportamentais e psicológicos.

Acredita-se também na possibilidade de contribuições psicológicas no crescimento do câncer. Inúmeros pesquisadores vêm estudando possíveis efeitos de estados emocionais na modificação hormonal e desta na alteração do sistema imunológico (Bovbjerg apud CARVALHO, 2002).

Nos humanos, demonstrou-se que os eventos estressantes- excesso de exercícios, provas, divórcios, perda de um ente querido, cuidar de um parente em estado terminal, catástrofes ambientais, desemprego e estresse ocupacional, por exemplo – afetam o funcionamento imunológico. (HEBERT e COHEN apud STRAUB, 2005).

Segundo pesquisas há uma relação entre estresse e depressão, que pode, de fato, enfraquecer o sistema imunológico e abrir espaço para uma formação tumoral. Alguns fatores de risco podem contribuir para o surgimento do câncer, como o uso de cigarro, o uso de álcool, o contato com substâncias químicas tóxicas, a exposição excessiva ao sol, etc.

Psicologia da Saúde x Psicologia Hospitalar

A Psicologia da Saúde tem como objetivo compreender como os fatores biológicos, comportamentais e sociais influenciam na saúde e na doença (APA, 2003).

É valido ressaltar que a Psicologia da Saúde tem o propósito de aplicar seus conhecimentos e técnicas para a promoção e manutenção da saúde individual, coletiva e de toda a população, pautando-se em atividades nos níveis primário, secundário e terciário. No caso do câncer, os psicólogos da saúde, objetivam atuar no nível primário, a fim de criar medidas preventivas para evitar o surgimento da doença.

De acordo com a definição do órgão que rege o exercício profissional do psicólogo no Brasil, o CFP 2003), o psicólogo especialista em Psicologia Hospitalar tem sua função centrada nos âmbito secundário e terciário de atenção à saúde, atuando em instituições de saúde e realizando atividades como: atendimento psicoterapêutico; grupos psicoterapêuticos; grupos de psicoprofilaxia; atendimentos em ambulatório unidade de terapia intensiva; pronto atendimento; enfermarias geral; psicomotricidade no contexto hospitalar; avaliação diagnóstica; psicodiagnóstico;consultoria e interconsultoria.

Pacientes oncológicos e assistência psicológica

 O paciente oncológico carrega em seu mundo subjetivo, muitas concepções negativas acerca da doença, o que dificulta no processo de adesão e recuperação. A proposta da assistência psicológica é uma alternativa da Psicologia da Saúde que tem a finalidade de prevenir e promover a saúde tanto em nível individual como coletivo através de uma visão biopsicossocial do processo de adoecimento do sujeito.

Quando falamos em sofrimento é importante salientar que não estamos nos referindo apenas ao sofrimento físico, gerado pelo mal-estar proveniente das sessões maciças de quimioterapia. Na verdade, o isolamento ao qual o paciente deve ser submetido, para evitar qualquer tipo de contaminação no período pós-quimioterapia, muitas vezes é vivido por este como um profundo sentimento de abandono. (CAMPOS, 2007).

A partir da publicação da Portaria nº 3.535 do Ministério da Saúde publicada no Diário Oficial da União, em 14/10/1998, compete ao psicólogo à presença obrigatória juntamente à equipe multidisciplinar, com o intuito de dar suporte ao atendimento oncológico junto ao SUS. Nesse sentindo, faz-se necessária a atuação desse profissional no tratamento do câncer, abrindo espaço a área denominada Psico-oncologia.

A Psico-Oncologia representa a área de interface entre a Psicologia e a Oncologia e utiliza conhecimento educacional, profissional e metodológico proveniente da Psicologia da Saúde para aplicá-lo:1º) Na assistência ao paciente oncológico, sua família e profissionais de Saúde envolvidos com a prevenção, o tratamento, a reabilitação e a fase terminal da doença;2º) Na pesquisa e no estudo de variáveis psicológicas e sociais relevantes para a compreensão da incidência, da recuperação e do tempo de sobrevida após o diagnóstico do câncer;3º) Na organização de serviços oncológicos que visem ao atendimento integral do paciente, enfatizando de modo especial a formação e o aprimoramento dos profissionais da Saúde envolvidos nas diferentes etapas do tratamento. (CARVALHO,2002).

A assistência psicológica dentro do hospital busca o alívio emocional do paciente e de sua família, sendo que muitas vezes a ajuda a ser prestada implica numa mobilização de forças, em que a angústia e a ansiedade estão presentes, pois este Ser Doente encontra-se em um momento não escolhido de sua vida. (SANTOS, et al 2003).

O atendimento psicológico visa auxiliar o paciente no enfrentamento de sua doença, a fim de conscientizá-lo da sua condição atual e fornecer subsídios para uma compreensão melhor da sua patologia. Para tanto, é necessário que o profissional conheça as especificidades e tenha uma visão ampliada deste, para que assim, ajude-o a dar novos significados à sua doença e melhore sua qualidade de vida.

O manejo do psicólogo hospitalar na ressignificação do processo de adoecimento

A doença surge como um inimigo que deve ser estudado, localizado e combatido. Para isso, existem medicamentos e profissionais de saúde. Muitas vezes, parece que se esquece o significado do adoecer, cuidando apenas do órgão prejudicado, dividindo o indivíduo entre corpo e mente, esquecendo-se da história pregressa pessoal, familiar e social. Deve-se entender que [...] o ser é único, singular e que seu modo de existir assim como adoecer tem suas características próprias, de maneira original e individual. (SANTOS et al 2003).

O psicólogo que atua nesse contexto deve considerar o sujeito como uma pessoa em situação peculiar e compreendê-la enquanto um ser que adoece, considerando seu sofrimento físico e psíquico. Assim, faz-se necessário as instituições hospitalares capacitarem sua equipe profissional para lidar com o ser doente, suas limitações, angústias e conflitos, visando à reabilitação do paciente de acordo com sua nova condição de vida.

Fundamental para qualquer intervenção eficaz é proporcionar aos pacientes de câncer apoio emocional e oportunidade para discutir seus medos em relação à doença e ao tratamento. (ANDERSEN apud STRAUB, 2005).

O apoio emocional e social é importante para o paciente atribuir novos significados a seu estado, reinterpretar sua patologia e diminuir emoções negativas acerca de tal situação. Deste modo, o paciente poderá acreditar que a sua situação pode ser revertida e, certamente, existirá uma probabilidade de aumentar a sua saúde física e psicológica.

Considerações finais

No presente trabalho procurou-se reconhecer à importância da assistência psicológica em pacientes com câncer, que objetiva minorar o sofrimento do outro e buscar respostas adaptativas para a nova forma de ser do paciente. Fica evidente à contribuição da Psicologia da Saúde no suporte e enfrentamento da doença. Sugere-se que o trabalho da equipe multidisciplinar seja pautado no enfoque integral do sujeito, com o intuito de possibilitar a ressignificação da doença e aumentar sua sobrevida. O apoio social e emocional auxilia no tratamento e contribui, assim, para uma melhor adesão ao processo. Por fim, é valido ressaltar que o acompanhamento psicológico com pacientes oncológicos fornece subsídios para os pacientes enfrentarem as várias mudanças que ocorrerão no estilo de vida.

Sobre o Autor:

Alex Barbosa Sobreira de Miranda - Departamento de Psicologia. Faculdade de Ciências Médicas. Universidade Estadual do Piauí (UESPI). Teresina, PI, Brasil. e-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Referências:

1. APA – American Psychological Association . Página oficial da Associação, 2003. http://www.health-psych.org/.

ANDERAMI-CAMOM, V.A. CHIATTONE, H.B.C. [et al] E a Psicologia Entrou no hospital.

2. CAMPOS, E. M P. et al . Intervenção em grupo: experiência com mães de crianças com câncer. Psicol. estud.,  Maringá,  v. 12,  n. 3, Dec.  2007 .   Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722007000300021&lng=en&nrm=iso.

3. CARVALHO, M.M. Psico-oncologia: história, características e desafios.Psicol. USP,  São Paulo,  v. 13,  n. 1,   2002 .   Disponível em:http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642002000100008&lng=en&nrm=iso.

4. CFP – Conselho Federal de Psicologia . Relatório final da pesquisa sobreo perfil do psiclogo brasileiro.2003. http://www.pol.org.br/atualidades/materias.cfm?id_area=300.

5. Werebe, D. M. (2000). Depressão no câncer. Em R. Fráguas Jr. & J. A. B. Figueiró (Orgs.). Depressão em medicina interna e em outras condições médicas: depressões secundárias (pp. 159-164). São Paulo: Atheneu.         

6. STRAUB, R.O. trad. Ronaldo Cataldo Costa. Psicologia da saúde. Porto Alegre: Artmed, 2005.

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