A Importância do Apoio Familiar à Mulher com Câncer de Colo de Útero

A Importância do Apoio Familiar à Mulher com Câncer de Colo de Útero
(Tempo de leitura: 6 - 12 minutos)

Resumo: O avanço da medicina trouxe aos pacientes com câncer uma esperança: a possibilidade de cura. Antes estigmatizados pela magnitude da doença, os pacientes com câncer permaneciam isolados do mundo, aceitando a sentença de morte que a eles se proferiram. Mas o panorama do câncer mudou: hoje, através do tratamento e do apoio da família já é possível superar tal enfermidade. Voltando-se à mulher com câncer de colo de útero, ressaltaremos a importância do carinho e o acolhimento da família, fundamental para o enfrentamento da doença.

Palavras-chave: Câncer de colo de útero. Psico-oncologia. Família.

1. Introdução

O câncer é uma doença que, além de fragilizar o paciente fisicamente, traz consigo o sofrimento emocional. Mesmo diante de avanços tecnológicos e médicos a cerca dessa patologia, o diagnostico de câncer ainda acarreta desespero e preocupação, tanto para o paciente como para a família. A surpresa desse diagnóstico além de desestruturante causa grande estresse a família que leva, quase que imediatamente, a mudança do comportamento.

Nessa perspectiva, Silva (2000) ressalta que “torna-se imprescindível que a família e o paciente sejam informados sobre a real condição, a informação sobre o tratamento e a necessidade do apoio à família”. A Psico-Oncologia surgiu como apoio ao paciente com câncer, à família e à equipe de saúde, auxiliando na assistência psicossocial a lidar com a doença e traçar estratégias fundamentais para a superação do câncer.

Voltando-se para a importância da família na reabilitação da mulher com câncer de colo de útero torna-se clara a necessidade de apoio dos filhos e do companheiro para o restabelecimento emocional da paciente. Dotada de sentimentos e emoções fáceis de serem expostos, o medo de “não ser mais a mesma mulher” e de sentir-se “mutilada” faz com que muitas mulheres temam e até desistam do tratamento. É nessa hora que a família, agindo de forma acolhedora, pode confortar e apoiar a mulher, trazendo a ela bem-estar e esperança de cura;

Através de uma revisão bibliográfica, o artigo a seguir busca ressaltar a importância do núcleo familiar no restabelecimento de mulheres acometidas de câncer de colo de útero e, aprimorando-se da perspectiva adotada pela Psico-oncologia, destacar a importância de uma ciência que reconheça o sujeito adoecido não apenas como portador da patologia, e sim como ser dotado de sentimentos, significações e história de vida.

2. Definindo Cancer de Colo de Útero

O câncer é, atualmente, a doença que mais acomete a sociedade, em vários níveis socioeconômicos. O Ministério da Saúde define o câncer como “um conjunto de mais de 100 doenças que tem em comum o crescimento desordenado (maligno) de células que invadem os tecidos e órgãos, podendo espalhar-se (metástase) para outras regiões do corpo”. De rápida eclosão, essas células agem incontrolavelmente chegando a formar tumores, causados pelos mais variáveis motivos. No caso do câncer de colo de útero o órgão acometido é o útero, especificamente o colo, que fica em contato com a vagina, ocasionando na maioria dos casos por uma infecção viral com o vírus HPV (Papiloma Vírus Humano).

Segundo estimativas do INCA:

Surge por ano aproximadamente 530 mil casos de câncer de colo de útero no mundo, sendo o terceiro mais comum entre mulheres (perdendo apenas para o câncer de pele e de mama). No Brasil, em 2012, são esperados 17.540 casos novos, com um risco estimado de 17 casos a cada 100 mil mulheres. (INCA, 2011).

As taxas de mortalidade no Brasil também são alarmantes, onde os maiores números são encontrados na região Norte, Centro-oeste e Nordeste.

   Inicialmente, o câncer de colo de útero não fornece qualquer sinal de alerta. Apenas com o crescimento do tumor alguns sintomas se apresentam como corrimentos e sangramentos. Esse fato dificulta o reconhecimento da doença fazendo com que, muitas vezes, o diagnóstico e o tratamento tornem-se tardios.

Devido às taxas de prevalência e mortalidade estarem em ascensão o câncer de colo de útero é considerado como um problema de saúde pública (DUAVY et al, 2007) e a sua incidência é vinculada por alguns pesquisadores aos níveis socioeconômicos,  relacionados a falta de prevenção (realização do exame Papanicolau) e a baixa assistência médica.

O tratamento proferido a esse tipo de câncer dependerá de fatores como estadiamento e tamanho do tumor, tendo como os mais comuns a histerectomia (retirada do útero) e a radioterapia.

3. A Prática de Psico-Oncologia no Brasil

Em meados do século XX, o diagnóstico de câncer era considerado uma sentença de morte aos pacientes, levando-o ao isolamento. Os agravamentos dos tumores causavam dor e deformações no sujeito, fazendo com que as pessoas tivessem medo do contagio, levando esses pacientes à estigmatização. Além do sofrimento físico trazido pela doença, o estigma de ser portador de tal enfermidade gerava no sujeito sentimentos de vergonha e culpa, possibilitando que esse se entregasse de vez a doença.

Segundo Camon (2000, p.49), “a introdução da anestesia abriu caminho para as primeiras cirurgias de remoção de tumores, permitindo algumas curas do câncer, caso este estivesse no começo e sem ramificações”. Ressaltado o avanço tecnológico da medicina e a possibilidade de cura, “percebeu-se a necessidade do progresso em Psiquiatria e Psicologia no auxilio aos aspectos psicossociais envolvidos na doença, modificando significativamente o panorama do câncer” (Camon, 2000). O câncer passou a ser observado como uma anormalidade das células, onde se leva em conta diversos fatores para a sua eclosão, inclusive psicológicos. Esses fatos impulsionaram o surgimento de um campo de estudo voltado à assistência psicológica ao paciente com câncer denominado por Psico-oncologia que, segundo Holland (1990),

Busca estudar o impacto do câncer na função oncológica do paciente, na sua família e aos profissionais de saúde que o cuidam assim como o papel das variáveis psicológicas e comportamentais possam ter no risco do câncer e na sobrevivência a este.  (HOLLAND, 1990).

Tomando por base práticas desenvolvidas nos EUA, surge a Psico-oncologia no Brasil.

Levando em consideração a importância do apoio ao paciente, a família e aos profissionais de saúde, viu-se a necessidade em formular uma psico-oncologia compatível com a nossa cultura e a realidade do sistema de saúde do País. Tornou-se, portanto, indispensável a reunião de diversos profissionais de saúde afim de estabelecer parâmetros e praticas realmente úteis ao tratamento de pacientes com câncer. Nesse intuito, foi de fundamental importância a vinculação de universitários na construção dessa nova prática que, segundo Camon (2000, p.50), “introduzindo o desenvolvimento de pesquisas aliadas a prática, contribuíram para o esclarecimento das relações dos aspectos psicossociais e o câncer, considerando sem etiologia e desenvolvimento”.

A partir daí, promoveram-se encontros que tinham por base o incentivo a pesquisa sobre aspectos psicossociais na iminência do câncer e a necessidade de lançar a Psico-oncologia em grade curricular, deixando de ser apenas um tópico nas disciplinas de Psicologia da Saúde e Psicologia Hospitalar. Diante da criação dos cursos em Psico-oncologia e a disseminação da prática, criou-se a Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO), sob os seguintes objetivos:

Propor diretrizes da área, agregar profissionais comprometidos com o tratamento ao paciente oncológico, sua família e equipe envolvida com o tratamento e promover pesquisas de aperfeiçoamento técnico-científico de seus associados. (CAMON, 2000, p.54).

 A aplicação das práticas em Psico-oncologia tornou-se indispensável diante da necessidade de apoio aos pacientes com câncer e do acolhimento da família abalada pelas mudanças acarretadas pela doença, além do apoio a equipe ressaltando a importância de se enxergar o paciente além da enfermidade, percebendo-o como sujeito protagonista de uma história de vida, dotado de sentimentos e não apenas como portador de uma patologia.

4. O Apoio da Família à Mulher com Câncer de Colo de Útero

O diagnóstico de câncer ainda hoje abala bruscamente a família do paciente, visto que tal diagnóstico possui o estigma de “sentença de morte”. O núcleo familiar pode vir a desestruturar-se diante da enfermidade e por esse fator julga-se a importância da abordagem da família como parte integrante do tratamento do paciente.

Segundo Penna (2004), “a família tem enorme influência sobre o curso da doença no paciente e é crucial para que ele possa utilizar seus recursos de adaptação da forma mais eficaz dentro de suas possibilidades e limitações individuais”. A idéia que a família tem sobre a doença pode influenciar diretamente no tratamento médico a ser seguido e os reais efeitos sobre a patologia. Em caso de pacientes com câncer de colo de útero, é comum que o marido ache que a mulher “deixará de ser mulher” (tornar-se frígida) caso se submeta à histerectomia (retirada total ou parcial do útero).

Montar uma estratégia de enfrentamento diante de uma patologia dessa magnitude pode ser difícil, visto que o sofrimento se estende a todos, em especial a quem vivencia a doença. Todavia, é importante salientar que toda a família deve estar consciente da necessidade de apoio que essa deve dispensar a mulher com câncer, tornando o enfrentamento da doença mais seguro e tranqüilo.

Ribeiro (1994) ressalta que:

Doenças que suscitam o sentimento de proximidade da morte trazem, em si, momentos de muita dor. Porém, quando as famílias vivenciam a condição de ter um ente com câncer, essas passam a agir como se a terminalidade fosse inquestionável e imediata tendo, muitas vezes, seu sofrimento aumentado. (RIBEIRO, 1994).

A prática da tomada de decisões em busca do alivio do sofrimento (principalmente do adoecido) pode, em muitos casos, gerar conflitos entre os membros dos grupos, afetando a construção de estratégias de enfrentamento.

Ribeiro (1994) aponta que “a família é um organismo dinâmico e que se há alguém doente no seio dessa família ocorrerá mudanças no seu funcionamento e, em contrapartida, o doente será influenciado por essas mudanças”. Diante disso, torna-se imprescindível a manutenção das relações afetivas para que se mantenha o bem-estar psicológico do adoecido, agindo como um reforçador positivo no tratamento da enfermidade. A família tem de adaptar-se a mudança na dinâmica trazida pela doença, procurando ressaltar aspectos positivos (como carinho, atenção e ternura) como forma de acolher e confortar a mulher com câncer, servindo como suporte para que essa pessoa não desista do tratamento que é, muitas vezes, doloroso.

A mulher mostra-se como ser afetuoso e muitas delas possui facilidade de exposição de seus sentimentos e emoções. Receber o diagnóstico de câncer é, para a mulher, principalmente pensar em como a doença atingirá o seu núcleo familiar e a vida de seus filhos e companheiro. Nesse ponto, o acolhimento da família é de grande importância, não só no sentido de conforto, mas também de companheirismo e apoio mútuo, o “caminhar lado a lado” em busca do restabelecimento físico e psicológico da paciente e seus entes.

Como vimos, fica claro que a forma como a família recebe e lida com a atual realidade refletirá na sua relação com o adoecido, ou seja, a família tem total responsabilidade sobre o andamento do tratamento, podendo posicionar-se na perspectiva e lutar junto à mulher com câncer ou de abandoná-la como forma de fugir de uma situação conflitante.

5. Considerações Finais

Com a confirmação de que o câncer tem causas não apenas físicas, mas também psíquicas, viu-se que o paciente oncológico necessita de assistência integral que respeite situações subjetivas. Quando pensamos no núcleo familiar, percebemos que o câncer que acomete um de seus membros acaba por se tornar uma luta de todos, onde a família agirá com apoio e acolhimento para terem sucesso na caminhada em busca da cura.

Para desmistificar o estigma em torno do câncer é necessário um diagnostico precoce e preciso além de um atendimento integral ao paciente com profissionais capacitados para lidar com esse tipo de patologia.

Pensando pela ótica do paciente, é imprescindível que a família seja base de conforto e que possa coletivamente construir um caminho menos árduo e sofrido na luta contra o câncer. Esperamos que o estudo transpareça que, com o apoio da família, um diagnóstico tão temido por todos torna-se menos sofrido e a esperança de cura mais concreta.

Sobre os Autores:

Lara Alecrim Santana - Graduando em Psicologia na Faculdade Leão Sampaio – FALS.

Indira Siebra Holanda - Docente da Disciplina de Psicologia Hospitalar da FALS.

Referências:

CAMON, V.A.A. – Psicologia da Saúde: Um novo Significado para a Prática Clínica – Cangage, 2000.

DUAVY, LM; BATISTA, F.L.R; JORGE, M.S.B; SANTOS, J.B.F; - A Percepção da mulher sobre o exame preventivo do câncer cérvico-uterino: Estudo de caso – Ciência e Saúde Coletiva. Rio de Janeiro, v.12 n.3.

HOLLAND, J. Historical Overview. In: Holland,J e Rowland,J. Handbook in Psychooncology. Oxford, Nova York: University Press, 1990RIBEIRO, EMPC. O Paciente Terminal e a Família. In: Carvalho, MMMJ. Introdução a Psico-oncologia. São Paulo (SP): Psy II, 1994.

INSTITUTO NACIONAL DO CÂNCER (Brasil) Estimativa 2012 - Incidência do Câncer no Brasil - Rio de Janeiro: INCA, 2011.

MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1997 – Falando sobre o câncer e seus fatores de risco – 2ed., Rio de Janeiro, Instituto Nacional de Câncer, Coordenação Nacional de Controle do Tabagismo e Prevenção Primária de Câncer (Contapp).

PENNA, T.L.M – Dinâmica Psicossocial de Famílias de Pacientes com Câncer – São Paulo: Cada do Psicólogo, 2004.

SILVA, CN. Como o câncer (dês) estrutura a família. São Paulo (SP): Ed. Annablume, 2000.

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