A importância do Psicólogo em Hospitais nos Casos de Transtorno Puerperal

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Resumo: Este trabalho tende a apresentar a importância do profissional de psicologia em hospitais, em casos de Transtorno Puerperal. Tal apresentação é construída para o atendimento focal quanto a uma avaliação de um real transtorno, seguindo ferramentas detectadas pelo referido profissional. Discorre ainda de um apanhado na sexualidade feminina, através de seu processo de desenvolvimento biopsicossocial, no período compreendido entre juventude e terceira idade. O desenvolvimento psicológico é um processo transicional pelo qual pode durar por toda a vida do ser humano. Em mulheres, essa transição pode ser ainda mais acentuada por ser a portadora de uma das experiências mais emocionantes e marcantes do ser humano, a da maternidade. Entretanto, todo esse processo de vivência acarreta também mutações que, principalmente em primíparas, tendem alterar comportamentos. Tais alterações, geralmente iniciadas no leito hospitalar, podem desenvolver casos depressivos. A observação do profissional no momento de tais alterações, podem projetar um implemento de características de um caso intra-psíquico, com os mecanismos necessários para um fiel diagnóstico.Os procedimentos adotados partem de todo um contexto hospitalar, através da equipe inter/multiprofissional que abre um leque de opções para os destaques do Transtorno Puerperal, com aspectos peculiares e inerentes à doença. O quadro de Transtorno Puerperal onde contém ainda uma máscara manifestada pelo seu grau de comprometimento deve ser observado com todo o direcionamento e feita uma intervenção psicológica, buscando assim, um equilíbrio entre o biopsico dessa parturiente.

Palavras-chaves: Profissional de Psicologia; Transtorno Puerperal; Desenvolvimento Psicológico.

1. Introdução

A psicologia hospitalar constitui-se no objeto de estudo deste artigo discorrendo sobre o tema pelo qual possui uma abordagem eminentemente bibliográfica destacando a psicologia hospitalar como ferramenta no atendimento em caso de transtorno puerperal.

Delineando o aspecto patológico, faz-se necessário buscar o entendimento biopsicossocial do processo de desenvolvimento feminino; suas histórias de subordinação e discriminação, seu ingresso no mercado de trabalho, bem como sua forma de conduzir as atribuições talhadas pelo processo dominante-dominado. Nesse contexto, com a busca do equilíbrio social, a mulher tende a desenvolver um stress que pode desencadear uma depressão, podendo ser ainda, iniciada no puerpério.

O puerpério, fase de grandes alterações no corpo feminino, bem como nos contextos psicológico e social, pode trazer riscos quanto ao surgimento de complicações psiquiátricas. Tais complicações podem ser diagnosticadas através de distúrbios psiquiátricos e classificadas como Depressão Puerperal, Psicose Puerperal e Tristeza / Depressão Pós Parto, tendo em vista a instabilidade no quadro emocional com alternância de humor, ficando a variação entre euforia e depressão.  Seu quadro tem uma duração média de seis semanas.

O período representa um momento único na vida da mulher, por surgirem acontecimentos subjetivos no tocante aos anseios, atenções, planejamentos, expectativas, projeções face ao nascimento de uma criança. Pode ocorrer desfecho saudável se fatores determinantemente positivos assolarem seu contexto familiar, seu desejo pela gravidez, principalmente efetuado pelo casal, uma vez que o homem tem um importante papel, pois vivencia sensações e emoções.

Atualmente, com a mulher inserida em todos os âmbitos - familiar, social, trabalhista -, podendo ressalvar a aceleração rítmica por constar-se como mantenedora familiar, e, em muitos casos com jornadas extensas, agrega um comportamento de estresse e, tal comportamento, pode-se levar como um dos fatores prioritários para o desencadeamento de uma Depressão Puerperal.   

Neste âmbito, o trabalho concerne na busca de uma ênfase na importância do profissional de psicologia em hospitais, a fim de desenvolver ferramentas que possam amenizar tal patologia, podendo levar para outros membros que compõem a Instituição a subjetividade da parturiente, facilitando sua comunicação entre a equipe multi/interdisciplinar e a paciente, bem como seus familiares, contribuindo assim com a prevenção e humanização na Instituição Hospitalar. Com uma visão holística, o psicólogo hospitalar pode transformar-se no elo entre paciente / corpo funcional através do feedback, podendo libertar assim as angústias que circulam aquele meio. Seu processo pode fazer uma transformação através de quebra de resistências, com amor pela profissão, paciência e humanização.

O problema que deu origem a pesquisa está delimitado na seguinte questão: Qual a importância do psicólogo hospitalar, em casos de transtorno puerperal?   

A hipótese pelo qual deu norte à pesquisa partiu do limiar do quão é necessário um profissional de psicologia em uma instituição hospitalar, subsidiando a peculiaridade de cada caso junto à equipe interdisciplinar e corpo familiar, que também instala debilidades emocionais, e o profissional busca manter o equilíbrio mente x corpo bilateralmente.
O objetivo geral foi averiguar os métodos que poderiam ser utilizados como ferramentas psicológicas quando da ocorrência de pacientes com transtorno puerperal. Para tanto, foi necessário discorrer acerca da importância do profissional de psicologia no ambiente hospitalar; identificar quais fenômenos poderiam desencadear o transtorno puerperal e propor ações de melhorias no tocante à paciente com transtorno puerperal. 

Os procedimentos metodológicos adotados na elaboração deste artigo tomaram como referência a classificação proposta por Almeida (2004) e Severino (1999), quanto aos fins e quanto aos meios. Quanto aos fins este artigo classifica-se como uma pesquisa descritiva, onde se busca expor características de determinada população ou determinado fenômeno, neste caso, a importância do psicólogo em hospitais, em caso de transtorno puerperal. Quanto aos meios enquadra-se na linha de uma pesquisa bibliográfica, onde a constituição de informações através de livros, artigos e demais trabalhos que lide com assuntos pertinentes da pesquisa, proporcionam ao pesquisador ricas informações para o seu fiel desenvolvimento.

2. Considerações Históricas da Sexualidade Feminina no Brasil

Conforme Bassanezzi (1996), no período entre 1945 e 1964 a sexualidade da mulher solteira era cobrada através da virtude da virgindade – sendo tratada como uma forma de pureza. Mesmo com toda a mudança social, ainda existem resquícios dessa regra, privilegiando assim a preponderância masculina.

Ainda baseado em Bassanezzi a história das mulheres no Brasil é marcada pela discriminação, sendo estas, principalmente, as de cunho sexuais – como forma de definição das relações hierárquicas, homens nas posições de dominação e mulheres subordinadas. Esta relação de dominante-dominado repete-se como um ciclo entre classes sociais e por gerações.

Com a chegada do terceiro milênio, essa trajetória tanto avançou como retrocedeu em alguns momentos. Houve mudanças no mercado de trabalho com ampliação e diversificação dos setores para a incorporação das mulheres. Entretanto, apesar de exercerem, na maioria das vezes, atribuições iguais às masculinas, não havia o reconhecimento monetário, daí houve o ingresso de mulheres em profissões liberais, como o magistério, enquanto os homens buscavam carreiras que lhes dessem melhor remuneração e prestígio social.

De acordo com Papalia & Olds (2000), por questões de ordem biológicas como menstruação, gravidez, maternidade e aleitamento, a mulher continua a ser motivo para imposição de uma divisão de trabalho com falta de qualificação; o mercado pretere-a para cargos com menor remuneração sob a justificativa de que ela possui "responsabilidades familiares" a cumprir ou de que é mais "frágil", ficando "privada" certos dias do mês. Nesse contexto, o exercício da sexualidade feminina encontra profundas resistências. A maternidade, dentro da sociedade brasileira, tende em ser vista como fora da sexualidade.

No desenvolvimento humano o aspecto biológico é apenas um dos fatores para sua maturação. Concomitantemente há necessidade da verificação dos aspectos biopsicossociais de cada um, essa fase passa por processos adaptativos tendo como objetivo a aceitação das condições internas e externas da existência humana, que perpassa por constantes mutações.

Conforme Papalia e Olds (2000), essas mudanças possuem duas formas, sendo-as quantitativa e qualitativa. A quantitativa é perceptível, uma vez que trata de alteração de números ou quantidades, podendo ser citado como aumento de peso ou altura; na qualitativa o processo é marcado pelo aparecimento de fenômenos que não poderiam ser previstos a partir de seu funcionamento anterior, como por exemplo, a estruturação de um bebê não-verbal para uma criança que compreende e fala uma língua.

Baseado na obra de Biaggio (2000), dentro desse desenvolvimento houve estudos que originaram várias linhas teóricas para o comportamento humano, sendo uma delas a psicanálise que trata-se de forças inconscientes que motivam esse comportamento, visando a contribuição para o desenvolvimento da personalidade que, segundo Freud, são englobados aspectos da sexualidade, sendo esta afirmativa relevante, de suma importância, para a organização da personalidade.

De acordo com Papalia & Olds, Freud acreditava que a personalidade é formada nos primeiros anos de vida, à medida que as crianças lidam com conflitos entre impulsos biológicos inatos ligados ao sexo e as exigências da sociedade. Propôs que estes conflitos ocorrem numa seqüência invariável de estágios de desenvolvimento psicossexual, no qual o prazer muda de uma zona do corpo para outra.

Um evento de grande importância no desenvolvimento psicossexual ocorre durante a fase fálica da primeira infância, quando a zona de prazer transfere-se para os genitais. Na fase genital, estágio final do desenvolvimento estende-se até a idade adulta, onde as mudanças físicas da puberdade despertam a energia que alimenta o impulso sexual, chamada libido.

Para Biaggio (2000), o desenvolvimento humano é relativamente baseado em dois processos maturacionais: o psicossexual, representando a maturação afetiva - e o desenvolvimento do ego, onde representa a maturação cognitiva. Mesmo que a condição da maturação no desenvolvimento psicossexual seja enfocada na teoria de Freud, são levados em consideração que aspectos específicos do ambiente influem sobre o decorrer desse desenvolvimento.

Neste processo de desenvolvimento humano, pode-se fazer uma analogia frente ao desenvolvimento social, dentro das práticas pelo qual a mulher está inserida, através das características básicas nas diversas fases históricas do desenvolvimento da vida em sociedade, com destaque nas principais mudanças. Não podendo, portanto, ser entendida como um seguimento de fatos no tempo, mas na forma de como as mulheres adaptam meios de sua existência social.

As mulheres no fim dos anos 60 e das décadas de 70 e 80 levantaram questões quanto ao direito do corpo, a sexualidade, o prazer e até o aborto; através de uma trajetória do movimento feminista. Levantaram ainda hipóteses quanto ao controle da natalidade, nascendo assim, a idéia do planejamento familiar através de uma tarefa de política pública.

Nos anos que se seguiram, muitas famílias brasileiras adentraram no parâmetro do controle da natalidade, com o intuito de conter o número de filhos. De acordo com Bassanezi, os preservativos são métodos mais conhecidos e utilizados por várias pessoas com atividade sexual que procuram evitar uma gravidez indesejada. Sendo esta gravidez um principal freio à manifestações da sexualidade feminina. Logo após a descoberta de um novo método artificial de controle da natalidade, a pílula.

Para os conservadores da época, a utilização da pílula foi deturpada de sua finalidade, sendo vista não mais como planejamento familiar, mas sim, como decadência de costumes, uma vez que as informações sobre sua utilização pareciam destinar-se apenas às mulheres casadas, com o foco de limitação de número de filhos ou evitar gravidez em excesso, demonstrando que a maternidade tem preponderância para o casamento.

Ainda na leitura de Bassanezi, o casamento define atribuições e direitos distintos para homens e mulheres traduzidos freqüentemente em desigualdades e dominação do feminino pelo masculino; as mulheres são caracterizadas e passam a ser avaliadas principalmente por sua condição de procriadoras e pela fidelidade, exclusividade sexual e atenção que devem ao marido.

Com o título de esposa, a mulher passa por situações, dentro de seu âmbito familiar, insatisfatórias. Trazendo consigo uma gama de responsabilidades, bombardeando o “ideal” dominante de felicidade e amor. A sua sexualidade está sendo renunciada para dar exclusividade à sua família, principalmente ao seu marido. O bom funcionamento do lar é a única justificativa perante seu marido e a sociedade.

Conforme Bassanezi, concluindo que a rainha do lar é, na verdade, escrava, para o ideal de felicidade doméstica com base nas atribuições femininas tradicionais, não há restrição quanto à proposta de um novo caminho a seguir: a mulher deve abrir-se ao mundo e abraçar outras possibilidades de auto-realização. Sendo encontrada na profissionalização, no exercício de uma atividade mais ampla, permitindo-lhe sentir compromisso com o mundo, abraçando responsabilidades e os desafios, afirmando-se nos próprios êxitos e desenvolvendo seus talentos pessoais.

Com tais atitudes esta mulher pode formar uma relação de concordância com os seus e sentir-se útil para além dos limites da vida de dona de casa, podendo ainda reluzir dentro de seu aspecto sexual através de sua maturidade.

Segundo Roudinesco (2003), há diversas formas de abordar relações de dominação, de igualdade ou de desigualdade entre os homens e as mulheres. O sêmen do homem é soberano, pois contém o “princípio da forma”, ao passo que o da mulher não, uma vez que ela é apenas “a matéria que recebe a forma”. Como conseqüência, o homem comanda, a mulher se submete e a família é organizada segundo um principio monárquico.

Papalia & Olds (2000) afirmam que quando as vidas das mulheres giravam em torno da procriação e da criação dos filhos, o fim do período reprodutivo significava algo diferente do que significa agora, quando tantas mulheres de meia-idade entram na força de trabalho. O significado do trabalho na meia-idade pode ter sido diferente de seu significado atual, num período de mudanças freqüentes de trabalho.

Atualmente, a mulher frente à sociedade dá um novo rumo ao seu papel. Buscando manter a família com independência, elas diversificam seu estilo de vida – trabalham, estudam e cuidam dos filhos –, para ter uma melhor aceitação das suas funções enquanto mulher.

3. Desenvolvimento da Sexualidade da Adolescência à Terceira Idade

O período da adolescência é de aproximadamente uma década, com início entre 12 ou 13 anos finalizando aos 20 anos, início da idade adulta. A princípio pode-se informar que a adolescência dá início no processo que leva à maturação sexual, ou capacidade de reprodução. É caracterizada ainda por mudanças evolutivas biológicas, psicológicas e sociais profundas.

Em conformidade com Sadock (2007), os níveis de hormônios sexuais aumentam lentamente ao longo da adolescência e correspondem às mudanças corporais. O impulso sexual é desencadeado por determinados andrógenos como a testosterona, que estão em níveis mais altos durante a adolescência do que em qualquer outra época da vida. O desejo sexual atinge seu auge entre os 17 e 18 anos de idade. No início da adolescência os jovens frequentemente liberam as necessidades da libido por meio da masturbação, uma forma segura de satisfazer os impulsos sexuais.

Anna Freud descreveu a intelectualização e o asceticismo como dois mecanismos de defesa que os adolescentes usam normalmente para lidar com seus impulsos sexuais. A intelectualização se manifesta pelo envolvimento com idéias e livros. O asceticismo, como um recolhimento em grandes idéias e a renúncia aos prazeres corporais. A maioria dos adolescentes luta com o controle dos impulsos da libido.

Ao final da adolescência, um dos sentidos para definição de moralidade, é desenvolvido através do processo de realizações em conformidade com padrões, direitos e deveres compartilhados. Quando ocorre conflito em parte da tríade, a pessoa aprende a fazer julgamentos com base em um sentido de consciência individualizado. As pessoas são moralmente obrigadas a obedecer às normas estabelecidas, até o instante em que sirvam às necessidades humanas. O estágio adolescente do desenvolvimento internaliza princípios éticos e o controle de conduta. Piaget, sic Sadock, descreveu a moralidade como algo que se desenvolve de forma gradual, juntamente com os estágios do desenvolvimento cognitivo.

De acordo com Papalia & Olds (2000), o início da adolescência é o período mais intenso de todo o ciclo de vida. Ele oferece oportunidade de crescimento na competência, autonomia, auto-estima e intimidade. Entretanto, oferece riscos, uma vez que alguns jovens sentem dificuldades em acatar várias mudanças de uma só vez, podendo necessitar de ajuda para superá-las.

Segundo Aberastury, entrar no mundo dos adultos – desejado e temido – significa para este adolescente a perda definitiva de sua condição de criança. Mudanças psicológicas que geram nesse período levam a uma nova atitude com os pais e, principalmente, com o mundo. Quando de seu ingresso nesse novo mundo, o adolescente flutua entre duas vertentes extremas, a dependência e independência, e só a maturidade lhe permitirá aceitar essa independência dentro de um limite necessário de dependência.

Ainda na linha de Aberastury, não apenas o adolescente enfrenta essa dificuldade de aceitação, os pais passam por um processo de embaraço frente às rejeições que experimentam.

A família demonstra habilidade com esse desenvolvimento, pois é nesse seio que ocorrem fatores que intensificam a liberação e/ou compreensão do ser enquanto pessoa.

Com o processo de desenvolvimento, a família busca orientar seus filhos para que possam vivenciar de uma maneira mais dinâmica esse processo. Dentro desse enfoque, a sexualidade dá a história de vida do indivíduo, com contornos delineados quanto à tarefa de pensar, desde a adolescência até a terceira idade, uma vez que existem fatores biológicos e fisiológicos que o envolvem. A relação interpessoal fica afetada, tendo em vista a visão que essa adolescente tem de negar a perda do corpo e de seu novo papel na sociedade - sendo este processo normal na elaboração do luto vivenciado nessa fase -, pois existem influências do meio sócio-cultural, partindo da manutenção de preconceitos e crenças, podendo acarretar sofrimento. Entretanto, quando as fases genitais precoces e a sexualidade são mais aceitas pelos pais e estes mantêm uma relação harmoniosa com apresentação de uma imagem de cena primária positiva, o aparecimento da menarca pode ser vivido como uma confirmação da sexualidade feminina, iniciando uma nova fase de satisfação e realização genitais muito positivas. (PAPALIA & OLDS, 2000)

Um dos grandes paradoxos da adolescência é o conflito entre desejar a afirmação de uma identidade e uma ânsia em ser da mesma forma que seus amigos. Para Papalia & Olds, qualquer coisa que distinga o adolescente da multidão pode ser perturbador, e os jovens podem ficar perturbados caso amadureçam sexualmente muito mais cedo ou muito mais tarde que o normal. Entretanto, são diferenciados entre meninos e meninas, pois os efeitos da maturação não são claramente definidos.

O processo de amadurecimento precoce nos meninos, ainda conforme Papalia & Olds, trás mais equilíbrio, tranqüilidade, são mais afáveis e populares entre os amigos, com propensão à liderança, além de menos impulsivos do que os que amadurecem tardiamente. Os que amadurecem mais cedo mantêm a dianteira no desempenho cognitivo durante o final da adolescência e idade adulta. Para os que amadurecem tardiamente, constatou-se que sentem-se inadequados, rejeitados e dominados, com dependência, agressividade e insegurança; são propensos à rebelarem-se mais contra os pais e piores opiniões sobre si mesmo.

Ainda segundo Papalia & Olds, as meninas tendem a não gostar de amadurecer mais cedo; elas geralmente ficam felizes quando não amadurecem nem mais cedo e nem mais tarde do que suas parceiras. As meninas com maturação precoce tendem a serem menos sociáveis, expressivas e equilibradas; mais introvertidas e tímidas; e mais negativas em relação à menarca. Elas também podem reagir às preocupações dos outros com sua sexualidade. Podem sentirem-se menos atraentes se suas novas curvas entrarem em choque com os padrões culturais que relacionam beleza com magreza. Podem sentir-se desanimadas caso se veja mudando pra pior e não para melhor.

Com o processo de desenvolvimento cognitivo da adolescência, concomitantemente ocorre à maturidade sexual, onde a produção de espermatozóide e a menstruação retratam reações diversas, de ambos os sexos, para este processo natural.

Sadock (2007), diz que o momento da menarca é determinado por uma interação complexa entre fatores biológicos e psicossociais. Boa nutrição, menos doenças graves e uma boa saúde física geral promovem uma menarca mais precoce. As visões culturais sobre a menarca variam desde uma maldição, em um extremo, até uma afirmação jubilosa da feminilidade, em outro.

Para a menina, a menarca é “um símbolo concreto de transição de uma menina para uma mulher” (Papalia & Olds, 2000). Entretanto, sabendo-se que a menarca é o primeiro sinal de mudança de menina para mulher, os primeiros períodos menstruais geralmente não incluem ovulação, e muitas delas, são incapazes de conceber por 12 ou 18 meses. A ovulação e a concepção às vezes ocorrem nesses primeiros meses, portanto as meninas que começaram a menstruar devem ter ciência de que podem engravidar.

No início da adolescência, o pensamento normalmente se torna abstrato, conceitual e orientado para o futuro. Muitos adolescentes apresentam uma criatividade notável, que expressam em escrita, música, arte e poesia. Uma importante tarefa da adolescência é adquirir um sentido seguro de identidade. A difusão da identidade é o fracasso em desenvolver autoconsciência ou um self coeso. A crise de identidade é parcialmente resolvida pela passagem da dependência para a independência. As disputas iniciais muitas vezes giram em torno dos conceitos estabelecidos de papéis sexuais e da identificação de gênero. (SADOCK, 2007).

A sexualidade na adolescência, ainda segundo Papalia & Olds, é marcada por fatores que denotam tabus para algumas pessoas existindo assim medos, dúvidas, angústias e dificuldades de vivenciá-la. Sendo que nesse período evolutivo a imagem do grupo familiar é de fundamental importância para um desenvolvimento equilibrado no processo de maturação, haja vista as informações acerca dessa primeira representação podendo ser de forma negativa ou positiva, dependendo das experiências direcionadas a esse adolescente.

Sadock (2007), diz que quando a infância e a adolescência são deixadas para trás, os seres humanos experienciam vários fatores através da separação psicológica dos pais da infância e a busca do alcance da auto-suficiência no mundo adulto; o encontro de um local gratificante no mundo do trabalho; a experiência da intimidade sexual e emocional dentro de um relacionamento comprometido; a procriação; a aceitação do processo de envelhecimento do corpo; a integração da crescente consciência da limitação de tempo e da morte pessoal; a facilitação da passagem da infância/adolescência para a idade adulta; o desenvolvimento e manutenção de amizades com indivíduos de diferentes idades e origens; a continuação do divertimento e a entrega de um legado para as gerações futuras, facilitando o desenvolvimento de indivíduos mais jovens.

As alterações quanto ao desenvolvimento não findam quando do início da vida adulta, pois tendem a ser mais graduais, porém, menos dramáticas. Avanços importantes, podendo também ocorrer declínios, fazem parte deste período. É nesse espaço de tempo que a maioria das pessoas deixam a casa dos pais, encontram seu primeiro emprego e/ou firmam relacionamentos, podendo casar e ter filhos. Tomam decisões que podem afetar o resto de suas vidas – saúde, felicidade e sucesso.

Sadock (2007), diz que o final da adolescência ocorre quando as pessoas começam a assumir as primeiras tarefas da idade adulta, que envolvem escolher uma ocupação e desenvolver um sentido de intimidade, que leva, na maioria dos casos, ao casamento e à paternidade. Daniel Lewinson descreveu uma transição pré-adulta entre a adolescência e a idade adulta, na qual o jovem começa a sair de casa e a viver de maneira independente. Esse período tem um desenvolvimento biológico máximo, a adoção de novos papéis sociais, a socialização nesses papéis e o pressuposto final de um self adulto e de uma estrutura de vida.

Papalia & Olds, relatam que o início da idade adulta é um período de “poder fazer”. É nesse período que o crescimento e o declínio ocorrem num equilíbrio variável que difere de indivíduo para indivíduo. As escolhas feitas neste início têm muito a ver com o modo de atingir esse equilíbrio.

Nesta fase, o indivíduo torna-se capaz de fazer suas escolhas, principalmente no que cerne à sexualidade, bem como passar por novas experiências. A adolescente que passou por vários fatores de ordem física e psicológica, agora vira mulher e dentro de seu aspecto sexual procura atender às suas necessidades de uma maneira prazerosa. Essa necessidade de alcançar o prazer implica em um aprendizado, na maturação do corpo, através do comportamento. É nessa fase que a mulher tende a encontrar a pessoa amada. (PAPALIA & OLDS, 2000).

Segundo Sadock (2007), o início da idade adulta é caracterizado por um desenvolvimento biológico máximo, com adoção de papéis sociais importantes e evolução de um self adulto e da estrutura de vida. A passagem bem-sucedida para a vida adulta depende da resolução satisfatória de crises da infância e da adolescência.

É um período pelo qual a escolha de novos papéis estabelece uma identidade congruente com cada indivíduo. Os questionamentos acerca de si mesmos (quem sou? para onde vou?) trazem experiências iniciais nem sempre fidedignas, podendo o jovem adulto assumir compromissos em várias áreas.

As novas experiências podem transferir novos padrões de pensamento, caracteristicamente adultos, à medida que os jovens adultos questionam suposições e valores há muito sustentados. Sua inteligência emocional inclui a auto-compreensão, a compreensão dos outros e a capacidade de regular os sentimentos. Tais habilidades podem desempenhar papéis importantes no êxito da vida. (PAPALIA & OLDS, 2000).

Nestes desempenhos de papéis, ocorre o desenvolvimento de relacionamentos íntimos. Tradicionalmente é nesse período que as pessoas formam relacionamentos que podem se estender pela maior parte de suas vidas adultas – baseados em amizade, amor e sexualidade. É através da intimidade que pode incluir contato sexual ou não. Um elemento importante da intimidade é a auto-revelação: “revelar informações sobre si mesmo a outra pessoa” (PAPALIA & OLDS,2000). Com a tendência de a pessoa gostar de quem confia nelas através de uma confidência, por exemplo, pode ocorrer o estabelecimento do vínculo.

Tarefas evolutivas da idade adulta jovem, segundo Carusso, podem ser apresentadas através do desenvolvimento de um sentido de individualidade como jovem adulto e separado dos outros – terceira individualização; o desenvolvimento de amizades adultas, bem como capacidade para intimidade; o desenvolvimento de um relacionamento de mutualismo e igualdade com os próprios pais, facilitando o próprio desenvolvimento da meia-idade; o estabelecimento de uma identidade de trabalho adulto; o desenvolvimento de forma adulta de divertimento e a integração de novas atitudes em relação ao tempo.

A idade adulta intermediária, ou meia-idade, tende a ser o período de revisão do tempo, com a consideração de como a vida passou e como poderá ser, através de sua decisão, com visão de um sentimento de melhoria e satisfação pessoal.

Para Papalia & Olds, o desenvolvimento humano dá continuidade com a meia-idade que, em termos cronológicos, é definida como o período entre os 40 e 65 anos de idade, podendo ser definida como uma pessoa que possui características de ter filhos adultos e pais idosos. Entretanto, atualmente, algumas pessoas nessa faixa etária ainda estão criando os filhos pequenos. Tal afirmativa pode demonstrar que todos os aspectos do desenvolvimento estão inter-relacionados.

Neste contexto, algumas pessoas tendem a ver a sexualidade como o marco da juventude. Conforme Papalia & Olds, apesar das mudanças nos aparelhos reprodutores masculino e feminino, o prazer sexual pode estender-se por toda a vida.

Na mulher, esse processo de mudança pode iniciar com a menopausa, quando ocorre a falta de ovulação e menstruação, não podendo mais esta mulher procriar. No período de dois a cinco anos sem menstruar, o corpo feminino sofre mudanças fisiológicas, podendo ser chamada de climatério que, no passado, era arraigado como atributos para a irritabilidade, nervosismo, ansiedade, depressão e até insanidade.

Segundo Sadock (2007), esse período, para uma boa parte das mulheres, é considerado desagradável, tendo em vista seu processo menopáusico. Entretanto, muitas não experienciavam seu efeito adverso. Sem se preocuparem com gestações, algumas mulheres diziam-se sentirem-se sexualmente mais livres.

De acordo com Papalia & Olds, os mitos sobre sexualidade na meia-idade – de que o prazer termina quando inicia a menopausa – faziam parte das crenças até das próprias mulheres de meia-idade. Atualmente, os avanços na assistência médica e as atitudes mais liberais para com a sexualidade estão tornando as pessoas mais conscientes de que a intimidade sexual pode ser uma parte vital da vida durante anos.

Nesse período a sexualidade feminina, por questões mais psicológicas do que biológicas, tendem a declinar, tendo em vista sua vulnerabilidade frente à perda da aparência jovem, que possui uma supervalorização na sociedade atual. Ocorre ainda uma baixa auto-estima por se sentirem menos desejadas sexualmente.

Seguindo ainda a linha de Papalia & Olds, atualmente, quando o valor dos relacionamentos não é medido somente pelo mandato biológico de reprodução, um padrão de sociedade que considera a beleza como a preservação exclusiva da juventude, torna as mulheres particularmente mais frágeis quanto ao medo de envelhecer. As pressões sociais implacáveis para manter uma aparência elegante e jovial tornam as mulheres autoconscientes a respeito de seus corpos e podem ser prejudiciais para o desenvolvimento e o senso de valor próprio das mulheres de meia-idade.

As mudanças físicas da meia-idade são acompanhadas por novas demandas emocionais e psicológicas. Podendo, a capacidade de abrir mão da fantasia das possibilidades ilimitadas, ser a mais profunda. Adolescentes e jovens adultos podem olhar o futuro e imaginar quase tudo por conta própria: carreiras de sucesso, parceiros amorosos, aventuras, reconhecimento e riqueza. À medida que se alcança a meia-idade e o reconhecimento de uma vida finita se torna mais real, as pessoas começam a enfrentar a perspectiva de que alguns de seus objetivos não serão realizados e que a possibilidade de novos relacionamentos interessantes, novas aventuras dramáticas ou grandes mudanças de carreira se tornam cada vez menos provável. É um período de apreciação crescente do que se faz e um abandono gradual do que poderia ter acontecido (Sadock, 2007).

À medida que as mulheres se aproximam dos 50 anos, esse período tende em deixá-las sem uma identidade adequada, haja vista a saída de seus filhos de casa. Com um fator social de regra rigoroso, a falta de liberdade em seu estilo de vida, bem como sensação de aprisionamento, podem levá-las à depressão ou falta de confiança.

Levinson descreveu um período de transição entre as idades de 50 e 55 anos, durante o qual pode ocorrer uma crise evolutiva quando as pessoas se sentem incapazes de mudar uma estrutura de vida intolerável. Embora nenhum evento único caracterize a transição, as mudanças fisiológicas que começam a aparecer podem ter um efeito intenso sobre o sentido de individualidade.

Mesmo que algumas mudanças fisiológicas resultem do envelhecimento, o comportamento e o estilo de vida afetam o momento de seu aparecimento e sua extensão. A maioria das mulheres adaptam-se bem a essas mudanças e possuem menos problemas psicológicos ou fisiológicos sérios.

Segundo Papalia & Olds (2000), os 65 anos são a entrada tradicional para a terceira idade, a última fase da vida. Entretanto, muitos adultos aos 65, 75 ou 85 anos não sentem-se ou agem como “velhos”. As diferenças individuais tornam-se mais pronunciadas nos últimos anos. A maioria dos idosos desfruta de boa saúde física e mental, e, embora algumas habilidades possam diminuir, as pessoas física e intelectualmente ativas podem manter-se muito bem na maioria dos aspectos e até mesmo melhorar sua competência. O funcionamento físico e cognitivo tem efeitos psicossociais, muitas vezes determinando o estado emocional do idoso e a capacidade de viver de maneira independente.

Para Sadock (2007), a idade adulta tardia, ou velhice, refere-se normalmente ao estágio do ciclo de vida que começa aos 65 anos de idade, podendo ser divididos em idosos jovens (65 e 74 anos) e idosos velhos, com idades acima de 75. O processo de envelhecimento ou senescência caracteriza-se por um declínio gradual no funcionamento de todos os sistemas do corpo – cardiovascular, respiratório, geniturinário, endócrino, imunológico entre outros. A maioria das pessoas idosas mantém suas capacidades cognitivas e físicas em um grau notável. Velhice significa o envelhecimento das células.

Segundo Moragas (1997), o envelhecimento em si se caracteriza como um processo natural da vida, não sendo limitante, podendo estar a mulher disposta a enfrentar situações que em outrem poderia fazê-lo, porém com moderação. Tal processo encontra-se apropriado para sua etapa de vida, que pode ser tão sã quanto outras, uma vez que os órgãos e tecidos afetados pelo decorrer do tempo pode-se conceber um papel social com menores tensões que permitam viver de acordo com as menores possibilidades vitais e deixar as tarefas físicas mais exigentes para as gerações mais jovens.

Conforme Dr. Celso Marzano (2003), na mulher o processo de envelhecimento desencadeia fatores físicos com um forte peso de carga emocional. Essas mudanças, ocorridas através de alterações hormonais, dificultam o contato sexual, visto que a lubrificação vaginal é escassa, e quando da penetração ocorre dor, tornando difícil atingir o orgasmo. Entretanto, mesmo com tal alteração, sua sexualidade não deve ser deixada de lado, uma vez que, no período pós-menopausa, a mulher não corre mais riscos quanto à gravidez, podendo liberar-se para uma nova vida sexual.

De acordo com Moragas (1997), tradicionalmente, a vida sexual da mulher acabava com a menopausa, com o que ambos os cônjuges concordavam. Atualmente, sabe-se que, embora diminua a secreção de estrógenos na mulher, eles não desaparecem totalmente, enquanto a produção de testosterona no homem prolonga-se até ele ter passado dos 70 anos. Logo, existe uma base biológica para a atividade sexual. Por outro lado, deve-se levar em conta a globalidade da vida sexual em outras manifestações como fator sensual, que supera o genital, e que a moderna fisiologia e a psicologia descobrem e ampliam continuamente, destruindo o velho mito da velhice assexuada. A experiência das modernas residências geriátricas, considerando a relação habitual entre os sexos, demonstrou a naturalidade da atração sexual em idades avançadas, o que demonstra, uma vez mais, a importância dos padrões culturais na conduta social. Entretanto, comprova-se uma menor freqüência na relação sexual sendo a regularidade de seu exercício um dos fatores mais importantes na sua manutenção, como em outros comportamentos.

Segundo Dr. Celso Marzano (2003), como o processo de envelhecimento acarreta vários fatores provenientes do próprio desenvolvimento humano, as mulheres na atualidade buscam uma melhor forma adaptativa para essas mudanças, e sendo o aspecto sexual uma maneira mais lenta para essa alteração, os especialistas buscam regras para melhoria dessa sexualidade, através da manutenção do sexo nessa idade. Tais regras podem ajudar a manter uma prática sexual equilibrada, uma vez que quanto mais atividade sexual, maior a probabilidade de se manter em forma, caso contrário, o apetite diminui.

Ainda de acordo com Dr. Celso Marzano, quando ocorre uma atividade diária, especialmente no contexto físico, as possibilidades de um desempenho para auto-estimulação são bem mais elevadas, melhorando assim as condições dos órgãos afetados pelo envelhecimento e, conseqüentemente, acarretando maiores disposições e interesses para a atividade sexual.

Moragas enfatiza que, o conceito de si mesmo é muito importante quando se analisa a personalidade em qualquer idade, visto que proporciona um juízo da pessoa em relação ao que ela pensa de si mesma e ao que os outros pensam dela. Trata-se de um processo contínuo entre nossa própria opinião, a dos outros e nossas expectativas de vida. Se existe proporcionalidade entre o que nós e os outros pensamos sobre nossa pessoa e sobre nossas realizações, existirá a satisfação, personalidade integrada e adaptação à realidade. Por outro lado, se nossas percepções de nós mesmos não correspondem às que os outros têm de nós e ao que esperamos da vida, existirá frustração, insatisfação, negativismo e etc. A personalidade integrada encontra coerência entre as exigências de seu “papel social”, o que os outros esperam dele, e o que a pessoa realiza efetivamente, seu “eu efetivo”.

De acordo com Zimerman (2000), desde o dia em que nascemos, estamos em contato com muitas pessoas. Trafegamos por diversos grupos, ocupando diferentes papéis. Isso faz com que nos sintamos pertencer a algo, a alguém, ter importância ao desenvolver este ou aquele papel. Há uma troca permanente de afeto, carinho, idéias, de sentimentos, de conhecimentos, de dúvidas. Além desse aspecto da convivência, existe outro muito importante, que é a estimulação do pensar, do fazer, do dar, do trocar, do reformular e, principalmente, do aprender, através do vínculo. Outro aspecto é o da atualização, da discussão, da busca de maiores conteúdos.

Atualmente, para muitas idosas, a velhice é considerada como um período de crescimento intelectual, emocional e psicológico continuado, haja vista a gama de experiência ao longo de décadas, onde, em contato com pessoas jovens, pode traçar um sentido de utilidade e contribuição para sua auto-estima e para o próximo.

4. O Vínculo / Apego

O psicanalista britânico, John Bowlby, formulou a teoria de que um apego normal na infância é crucial para o desenvolvimento de uma personalidade saudável. O apego ocorre quando há um “relacionamento afetuoso, íntimo e contínuo com a mãe, no qual ambos encontram satisfação e prazer.” É desenvolvido gradualmente, resultando no desejo do bebê de estar com uma pessoa preferida, que é percebida como mais forte, mais sábia e capaz de reduzir a ansiedade ou a perturbação, proporcionando assim, sentimentos de segurança.

Todo o processo é internalizado pelo contato mãe-bebê, onde o fator quantitativo é indiferente ao qualitativo, tendo em vista as atividades entre ambos.

O termo vínculo é usado como sinônimo de apego, mas os dois são fenômenos diferentes. Ainda seguindo a linha de Bowlby, o vínculo diz respeito aos sentimentos da mãe para com seu bebê, sendo feitos através do contato de pele, voz ou olhar entre os dois. São padrões de comportamento presumivelmente instintivos e governados por tendências inatas. São desenvolvidas através de fases, sendo a primeira o estágio pré-apego (nascimento a 08 ou 12 semanas), o bebê orienta-se para sua mãe, movendo-se ritmicamente conforme seu som de voz; a segunda é a formação de apego (de 08 ou 12 semanas a 06 meses), o bebê se apega a uma ou mais pessoas do ambiente; a terceira é o apego claro (de 06 a 24 meses), o bebê chora e demonstra outros sinais de perturbação quando separado do cuidador ou da mãe; no quarto momento (25 meses e mais), a figura materna é vista como independente e um relacionamento mais complexo se forma entre ambos.

Mary Ainsworth verificou que a interação entre a mãe e seu bebê durante o período de apego influencia de maneira significativa o comportamento atual e futuro da criança. Serve ainda ao propósito de reduzir a ansiedade.

A teoria de ansiedade de Bowlby diz que a sensação de perturbação durante a separação é percebida e experimentada como ansiedade, sendo o protótipo da mesma. Qualquer estímulo que alarme a criança e cause medo mobilizam indicadores que fazem com que a mãe responda de maneira carinhosa acariciando e tranqüilizando. A capacidade da mãe de aliviar a ansiedade ou o medo do bebê é fundamental para o crescimento do apego. Quando a mãe está perto de uma criança que não experimenta medo, esta adquire um sentido de segurança, o oposto de ansiedade. Quando não está disponível por ausência física ou questões de cunho psicológico, o bebê desenvolve ansiedade.

De acordo com Fontes (2000), concebe o vínculo como uma estrutura dinâmica em contínuo movimento, que engloba tanto o sujeito quanto o objeto, tendo esta estrutura características consideradas normais e alterações interpretadas como patológicas. A todo momento o vínculo é estabelecido pela totalidade da pessoa. A análise do vínculo patológico que o sujeito estabelece com o outro permite-lhe compreender de que modo se perturba a estruturação normal da personalidade e de que forma deve-se operar sobre o paciente para retificar seus vínculos patológicos e contribuir terapêutica e profilaticamente para a proteção da evolução sadia de sua personalidade.

Nesse processo de vinculação, pelo qual cada indivíduo mantém uma relação com o outro, cria-se uma estrutura particular a cada momento e peculiaridade. Sendo assim, o vínculo pode alterar até chegar ao patamar de patológico.

Para o vínculo depressivo o fator moral, culpa e expiação, fazem parte do centro nervoso do sentido. Toda relação de objeto está penetrado no centro da culpa, com preocupação com o que o outro pensa e na maneira pelo qual irá aplicar o castigo. Sua visão ou concepção de mundo é sombrio. É uma tristeza profunda. Toda sua história pessoal está construída no segmento da tristeza, com tensão em perder a relação de objeto. Com sentimentos de culpa e em constante reparação.

Ainda Fontes (2000), o vínculo da análise parte de uma das principais características das relações de objeto: o objeto diferenciado e o objeto não-diferenciado, como sendo relações de independência e dependência. Portanto, quando a criança depende totalmente de seu objeto mãe, deposita partes internas nela, e quando a mãe faz o mesmo, deposita nela partes internas, podendo ocorrer entre ambas um entrecruzamento de depósitos, criando para cada uma delas dificuldades para reconhecer o que é propriamente seu.

A formação do vínculo não é automática, é segmentada de compreensão e tempo para um adequado funcionamento. No processo mãe-bebê, o vínculo deve ser consolidado no período gestacional harmonicamente, caso contrário, nas primeiras horas/dias que sucedem ao nascimento deve-se buscar essa troca harmonicamente, haja vista ser, também, um momento propício de emoções mútuas.

Segundo Angerami-Camon (2003), sic Bowlby (1981), existem condições necessárias para que o apego se dê entre mãe e filho. Entre elas seria a sensibilidade da mãe frente aos sinais do bebê, como também a capacidade do bebê para sentir que suas iniciativas sociais levam à troca afetiva com a mãe. Acredita ainda que ao término do primeiro ano a dupla mãe-bebê já tenha desenvolvido um padrão próprio de interação.

Para que o bebê possa desenvolver uma base de personalidade com fortes solidificações, o estabelecimento de qualidade de laços maternos devem ser aflorados ao nascimento do vínculo com sua mãe, podendo, assim, evoluir para todos os âmbitos pelo qual a criança passará no curso de sua vida. Ainda Angerami-Camon, o obstetra também traça um laço de vínculo com a mãe, uma vez que houve todo um acompanhamento das alterações orgânicas e, nesse momento tão peculiar, dedica uma atenção estreita à mãe, pois todo o contexto vivido pela parturiente está sendo dividido com o bebê, que atrai toda atenção familiar.

De acordo com Fescher (2007), por volta dos cinco meses, tem início um processo pelo qual a criança começa a perceber as pessoas e seus próprios limites corporais. Tal fase é marcada pela angústia da separação, pelo qual a criança tende a obter sua identidade. Com a maturação, o bebê obtém a constância objetal emocional, e assim pode recorrer à imagem gravada internamente de sua mãe.

A mãe com todo o vínculo feito com o bebê intra-uterino, ou até após o parto, denota incertezas na superação de sua nova etapa de vida. Confronta com um corpo diferenciado, não o reconhecendo, pois encontra-se vazio, ou ainda, em nenhum outro momento anterior à gravidez. Com a abstinência sexual ocorre um fortalecimento de sentimento de fealdade, de perda de sensualidade e poder de sedução, podendo levá-la a suspeitas de fidelidade de seu companheiro.

Com toda a alteração em sua rotina pessoal, emocional bem como profissional, por questões de aceitação de reconhecimento do próprio corpo, de deveres pelo qual essa mulher busca conduzir de maneira eficaz, pode ocorrer uma contribuição para o aparecimento da depressão pós-parto.

5. Depressão

Sadock (2007), diz que situações de depressão são relatadas desde a Antiguidade. As descrições do que atualmente denominado transtornos do humor aparecem em muitos documentos antigos. No Velho Testamento, a história do rei Saul descreve uma síndrome depressiva, assim como a história do suicídio de Ájax na Ilíada de Homero. Cerca de 400 a.C., Hipócrates utilizou os termos mania e melancolia para descrever transtornos mentais.

Atualmente, a Depressão, em conformidade com Angerami-Camon (2003), está classificada em dois grandes grupos – Depressão Patológica ou Depressão Maior e Depressão Reativa ou Luto sem complicação. Para ocorrer diferenciação, sinais e sintomas acentuam-se, partindo do estreitamento das perspectivas existenciais até seu anulamento até a depressão por “stress” hospitalar, ligada à fase de exaustão.

Seguindo a linha de Sadock, os transtornos de humor são melhores considerados como síndromes, consistindo de um conjunto de sinais e sintomas persistentes por semanas ou meses que representam um desvio marcante do desempenho habitual do indivíduo e que tendem a recorrer, por vezes, de forma periódica ou cíclica. O estado de humor pode apresentar-se normal, elevado ou deprimido. Os indivíduos normais experimentam uma ampla faixa de estados de humor e têm da mesma forma, um grande repertório de expressões afetivas; sentem-se no controle de seus estados de humor e afetos. Nos transtornos de humor, a sensação de controle é perdida, e há uma experiência subjetiva de grande sofrimento.

Os pacientes com estado de humor elevado demonstram expansividade, fugas de idéias, redução do sono, elevada auto-estima e idéias grandiosas. Os pacientes com humor deprimido exibem perda de energia e interesse, sentimentos de culpa, dificuldade de concentração, perda de apetite e pensamentos de morte ou suicídio. Outros sintomas incluem modificações do nível de atividade, das capacidades cognitivas, da fala e de funções vegetativas. Tais alterações geralmente levam a comprometimento do desempenho interpessoal, social e ocupacional.

No senso comum, Depressão é um termo frequentemente utilizado para expor sentimentos, oscilando na variação de humor, porém, dentro de um parâmetro considerado normal. Entretanto, dependendo do grau de oscilação, as manifestações podem requerer ajuda psiquiátrica e psicológica. Tais manifestações podem evoluir aos mais variados quadros clínicos, uma vez que é considerada uma doença do organismo “como um todo”. 

Com tantas variações, como poderia ser definida a Depressão? De acordo com vários estudos pode-se afirmar que é um Transtorno Afetivo, ou do Humor, que se caracteriza por uma alteração psíquica e orgânica, com grandes alterações na valorização da vida. Dentro desse contexto, estima-se que mais de 15% da população adulta venha a sofrer de alguma doença depressiva em algum momento de sua vida. Tal fato pode-se sugerir que situações estressantes, a rotina agitada ou circunstâncias de cunho social e econômica desencadeiem o sintoma. É verificado que para cada situação ocorre uma reação, portanto, cada um reagirá diferentemente diante de suas emoções.

Segundo Holmes (1997), a depressão é o transtorno de humor mais comum, ocorrendo com tanta freqüência que foi chamada de “o resfriado dos transtornos psicológicos”. Da mesma forma, a incidência grandiosa dos transtornos de humor está alastrando-se, com sugestões de saída da “era de ansiedade” e adentrando na “década da depressão”.

De acordo com Sadock (2007), independente de país ou cultura, o transtorno depressivo é maior em mulheres do que em homens. Razões pelos quais poderiam tirar como mensuração são as diferenças hormonais e os efeitos em gerar filhos.

Os principais sintomas do transtorno depressivo podem ser expressos através de melancolia, tristeza, sem perspectivas de futuro, desencorajamento. Às vezes, as pessoas que passam por esse processo, verbalizam como estando sozinhas em um buraco escuro, profundo, onde não podem ser alcançadas, portanto, não podem sair. Especificamente, tais indivíduos, crêem que são inadequados, inferiores, ineptos, incompetentes e, em geral, sem valor, com sentimento de culpa arraigado, por sentirem-se fracassados. Detém de um pessimismo latente. Acreditam que jamais serão capazes de solucionar seus problemas e que a tendência de tudo é piorar. A redução de motivação é o fator chave para o deslanche da depressão. É certo que, depressão, baixa auto-estima, pessimismo e falta de motivação tendem a propagar-se e abranger apenas a causa original da depressão, sendo retratada como “generalização de atitudes negativas”, onde mulheres denotam um desenvolvimento mais freqüente, se comparadas ao homem.

Nesse contexto, esclarece-se que os indivíduos com depressão têm uma autopercepção negativa, uma vez que as alterações do humor independem do eventual controle do ser humano, podendo gerar uma ansiedade que pode ser reconhecida, também, como esgotamento.

Segundo Souza (2004), pacientes depressivos apresentam sintomas psicóticos muitas vezes peculiares. São indivíduos que apresentam alterações profundas em seu estado mental. Acreditam que não merecem viver; que não prestam para nada; que não são queridos e têm certeza que vão morrer provavelmente por doença grave. Em estados mais avançados, os sintomas psicóticos ficam ainda mais manifestos. O paciente tende a imaginar seu corpo sem produtividade, sem funcionamento; que faltam partes essenciais. Para alguns autores, tais manifestações são experiências vividas como deliróides; falsas crenças influenciadas pelo estado afetivo, e não um delírio propriamente dito.

Pacientes com depressão e com sintomas psicóticos têm risco de suicídio maior comparado a pacientes com depressão sem sintomas psicóticos. Portanto, tal fator requer um tempo de manutenção farmacológico maior, tendo em vista a apresentação de um maior risco de reincidência.

Tendo em vista ainda não terem sido diagnosticadas todas as causas depressivas, surgiram escalas de avaliação de depressão, sendo empregadas para quantificar a presença e a gravidade de sintomas, com adoção de critérios objetivos preestabelecidos, com “medidas” consideradas como estimativas aproximadas. As comumente utilizadas são distinguidas como auto-avaliação e de avaliação clínica do observador, uma vez que essas informações são complementares e, portanto, úteis para o pesquisador e para o clínico (MORENO, 2006).

A compreensão psicodinâmica da depressão definida por Sigmund Freud e expandida por Karl Abraham é conhecida como a visão clássica da depressão. A teoria envolve quatro pontos chaves: 01) problemas na relação mãe-bebê durante a fase oral (os primeiros 10 a 12 meses de vida); 02) pode estar ligada à perda real ou imaginada do objeto; 03) a introjeção de objetos que partiram é um mecanismo de defesa invocado para lidar com o sofrimento ligado à perda do objeto; 04) como o objeto perdido é percebido como uma mistura de amor e ódio, sentimentos de raiva são dirigidos contra o self.

Melanie Klein compreendia a depressão como envolvendo a expressão de agressão contra os entes queridos. Edward Bibring a considerava um fenômeno que se instala quando um indivíduo se dá conta da discrepância entre ideais extraordinariamente altos e a incapacidade de alcançar esses objetivos. Já Edith Jacobson via o estado de depressão como semelhante ao de uma criança impotente e desamparada, vítima de um pai atormentador. Silvano Aríete observou que muitos pacientes deprimidos viveram suas vidas para outro, em vez de para si mesmos. Ele se referia a esse indivíduo para quem o paciente depressivo vive como o outro dominante, que pode ser um princípio, um ideal ou uma instituição, bem como uma pessoa. A depressão se instala quando o indivíduo percebe que a pessoa ou o ideal por que estava vivendo nunca vai responder de forma a satisfazer suas expectativas.

Ainda Sadock, o conceito de depressão de Heinz Kohut, derivado de sua teoria psicológica do self, apóia-se na suposição de que o self em desenvolvimento tem necessidades específicas que precisam ser satisfeitas pelos pais, para dar à criança um sentimento positivo de auto-estima e de autocoesão. Quando os outros não satisfazem essas necessidades, há perda massiva de auto-estima, que apresenta como depressão. Bowlby diz que apegos iniciais prejudicados e a separação traumática na infância predispõem à depressão. Diz-se que as perdas do adulto revivem a perda traumática na infância e, dessa forma, precipitam episódios depressivos no adulto. Afirma ainda que, a teoria da impotência aprendida da depressão liga os fenômenos depressivos à experiência de acontecimentos incontroláveis. Acredita-se que explicações causais internas produzem uma perda de auto-estima após eventos externos adversos. É enfatizado ainda, por comportamentalistas, que a melhora da depressão faz parte do desenvolvimento de um sentimento de controle e domínio sobre o ambiente.

6. Blues da Maternidade

De acordo com Holmes (2001), Depressão com início no pós-parto refere-se a uma depressão relativamente severa que se estabelece logo após uma mulher dar à luz, com período de duração entre seis meses e um ano. Afirma ainda que as perturbações de humor associadas ao nascimento de um filho cobrem uma ampla gama de severidade, porém, nem todos os distúrbios deveriam ser classificados como depressão pós-parto. Em realidade, algum grau de depressão, ansiedade, irritabilidade, perda de apetite, distúrbio do sono, tendência ao choro e instabilidade emocional é normal e esperado após dar à luz. Entretanto, um fenômeno transitório experimentado por 50 a 80% das mulheres pós-parto, referido como blues da maternidade envolve mudanças de humor e choro.

O blues da maternidade é mais extremo do que as reações normais, uma vez que sua duração é de apenas 24 ou 48 horas. As mulheres que experimentam o blues da maternidade são, no entanto, mais propensas a desenvolver depressão pós-parto com o nascimento do próximo filho.

7. Características Puerperais

Os primeiros dias após o parto são carregados de emoções. As primeiras vinte e quatro horas constituem um período de recuperação do cansaço com o trabalho de parto. Com a questão emocional agregada à física, dão à mãe uma debilidade que pode se caracterizar através da alternância de humor, saindo do estado eufórico, pelo nascimento do bebê, para uma depressão, por se preocupar com os cuidados com ele.

Para Kitzinger (conf.Angerami-Calmon), o puerpério é como um “quarto trimestre” do período gestacional, pois todo o processo transicional dura, aproximadamente, três meses após o parto, com foco de acentuação no primeiro filho.

Por questões de profundas mudanças na mulher, principalmente bioquímicas processadas logo após o parto, alguns autores inferem o quanto é difícil determinar a linha divisória entre a normalidade e a patologia no caso da depressão pós-parto. Observa-se então que, neste período, os estados de confusão na parturiente, ansiedade de esvaziamento e de castração trazem a ambivalência entre perdido e o adquirido. Para algumas mulheres, o período de transição do perdido para o adquirido é de difícil entendimento, tendo em vista tendências infantis em relação aos laços familiares (mãe / marido). Gostar de um bebê idealizado é fácil, mas elaborar a realidade de um bebê é bem mais complexo para aceitação. Contudo, segundo alguns autores, os primeiros seis meses após o puerpério servem como parâmetro para uma avaliação da saúde mental da mulher. 

O período puerperal transforma a parturiente para uma nova realidade, haja vista todo o procedimento de interação mãe-bebê. Essa interação inicia-se na amamentação que pode ser harmoniosa, quando o contato da criança com a mãe é regulado pela sucção, ou desarmonioso, quando não ocorre sintonia entre o seio e o bebê, podendo causar bloqueios para a produção e liberação do leite.

Com todas essas alterações biopsicológicas, o eixo entre perda e ganho pode desencadear uma depressão reativa de pós-parto, que pode ser identificada no discurso da paciente. Entretanto, para Angerami-Camon (2003), ”... nas depressões patológicas, via de regra, tem-se um histórico pré-mórbido ligado a outros episódios similares e o grau de comprometimento afetivo e as idéias de autodestruição são bastante intensas, a ausência de fatores circunstanciais claros normalmente está presente, e mesmo quando temos fatores desencadeantes reativos, a inconstância do discurso do paciente denuncia que estes funcionaram apenas como deflagradores de um processo maior e não como seu causador.”    

De acordo com Trucharte (1995), as manifestações da depressão puerperal exacerbada, caracterizam-se pelo repúdio total ao bebê: a paciente não quer vê-lo, aterroriza-se com ele, permanece triste, afastada, ausente, sofre de insônia, inapetência, descuida-se da própria aparência – vestes, banhos e cabelos. Em alguns casos refere-se a alucinações geralmente auditivas, ou exprime idéias delirantes, sendo-as do tipo paranóide, que, em muitos casos, sua intensidade é tão grande que a família solicita ajuda ao psiquiatra, uma vez que, dentro desse contexto, o que ocorre de mais preocupante são a tentativa de suicídio ou ataque direto ao bebê.

O infanticídio e o suicídio estão entre as complicações mais graves decorrentes de transtornos puerperais sem intervenção adequada. Porém, a existência de transtornos psiquiátricos, não só no puerpério, mas também na gestação, pode levar a outras graves conseqüências. Mulheres com diagnósticos de esquizofrenia ou depressão maior apresentaram elevado risco para complicações na gravidez, trabalho de parto e período neonatal. Existem ainda anormalidades placentárias, hemorragias e sofrimento fetal. Apresentam ainda risco elevado para descolamento prematuro de placenta e, mais frequentemente, crianças com baixo peso ao nascimento. Tais crianças apresentaram malformações cardiovasculares e menor circunferência encefálica do que os filhos de mães saudáveis. (Jablensky et al, 2005), sic Renata Camacho.

8. Tratamento

De acordo com Rocha (1999), o tratamento para a depressão puerperal canaliza na farmacologia, psicoterapia e, dependendo do caso, na eletroconvulsoterapia, onde a puérpera não responde a terapia de medicamentos anti-depressivos.

Com o aleitamento materno, o uso dos psicofármacos na referida fase, pode acarretar comprometimento no leite, tendo em vista a concentração medicamentosa, bem como suas contra-indicações. Entretanto, os efeitos dos medicamentos no bebê variam de acordo com a droga e sua sensibilidade orgânica.

Segundo Silva et al (2005), para o desenvolvimento de uma psicoterapia dinâmica e eficaz, o terapeuta em conjunto com os familiares e a puérpera, construirá novas estruturas a partir da realidade vivenciada, com possibilidades de entendimento e planejamento para uma intervenção adequada junto à essa nova realidade.

Pesquisas têm utilizado técnicas de tratamento psicofarmacológicos, psicossocial, psicoterápico e tratamentos hormonais, além da eletroconvulsoterapia, indicada para casos mais graves ou transtornos psiquiátricos na gestação e no puerpério. A maioria das intervenções psicossociais e hormonais tem-se mostrado pouco eficiente. Entretanto, resultados focados sobre psicoterapia interpessoal, estratégias cognitivo-comportamentais e intervenções farmacológicas têm-se evidenciado eficientes (Camacho, 2007).

Angerami-Camon, diz que o tratamento da depressão, principalmente em pacientes com dores crônicas, podem ser aliviados através de antidepressivos tricíclicos, entre as intervenções farmacológicas mais utilizadas, pela ação direta em mecanismos centrais da modulação da dor.

Alguns aspectos para o desenvolvimento de um estado de melhora em pacientes crônicos, podem ser citados através da abordagem cognitivo comportamental, em conformidade com Turk & Maichebaum (1994), apud Angerami-Camon: o interesse na natureza e na modificação dos pensamentos, sentimentos, crenças e comportamentos de tais pacientes, bem como o compromisso do paciente e da equipe de saúde com os procedimentos da terapia comportamental na promoção de mudanças.

9. Conclusão

Conclui-se então que o processo de adoecimento alavanca temores no paciente que necessita do estabelecimento de confronto entre os limites da realidade com a imaginação. Sua auto-percepção é necessária para busca do não envolvimento no contexto de despersonalização hospitalar.

O psicólogo hospitalar tende a contribuir com o paciente no que tange ao entendimento de sua patologia, através de instrumentos que desencadeiem uma catarse para a fiel absorção de percepção desse paciente, com ingredientes fundamentais para o fortalecimento da profissão na instituição hospitalar.

É necessário ainda, que o profissional de psicologia, no âmbito hospitalar, busque um equilíbrio no eixo de suas atenções, priorizando assim o seu bem estar biopsicossocial, para que contente à demanda advinda de fatores substancialmente peculiares, pelo qual tal profissional tenderá a abranger suas funções plenas frente à equipe interdisciplinar, bem como, a minimização de comprometimentos salutares. Poderá ainda, continuar mantendo o patamar de porta-voz quanto ao esclarecimento e conscientização das alterações intrínsecas ao ambiente hospitalar.

Através de todos os parâmetros observáveis no contexto hospitalar, a psicologia tem como foco os aspectos psicogênicos em suas diferentes situações e, dentro de suas instrumentalidades, o psicólogo faz uma análise sobre as condições emocionais desse paciente, podendo favorecer sua desospitalização. Portanto, existe uma necessidade em consolidar o Psicólogo dentro de uma Instituição Hospitalar, atuando em parceria com as equipes multi/interdisciplinares, buscando a complexidade inerente à relação saúde mental. O propósito visa um preparo emocional de todos que vivenciam a cada momento junto à parturiente, bem como os aspectos preventivos, promocional e reabilitacional.

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