Aspectos Psicológicos dos Pacientes Ostomizados por Câncer

Aspectos Psicológicos dos Pacientes Ostomizados por Câncer
(Tempo de leitura: 4 - 7 minutos)

O câncer é uma doença que leva o indivíduo a um desequilíbrio na sua saúde, na família e no trabalho, ou seja, todo seu contexto de vida é atingido direta ou indiretamente. Quando o indivíduo se depara com um tipo de cirurgia (ostomia), a qual indeterminadamente poderá trazer a cura, a vivência de uma mutilação surge e esse indivíduo, muitas vezes entra num processo de ambivalência psicológica.

É necessário dar-se um tempo ao paciente que será ostomizado, pois este precisa de tempo para refletir e adaptar-se a nova realidade. Esse momento é muito pessoal, podendo a decisão ser tomada na hora, como levar dias e semanas para se chegar a uma conclusão de que realmente vale a pena enfrentar essa mudança.

Nos casos graves da doença, não é indicado esse tempo, pois o objetivo dos profissionais da saúde é salvar a vida. Então, realiza-se o processo cirúrgico e, no pós operatório, trabalha- se com a informação a respeito da ostomia.

O período que antecede a cirurgia é vivido pelo paciente com vários níveis de ansiedade, associados com sintomas depressivos, dificuldade na realização de tarefas mais simples, perda de sono e apetite. Tudo passa a girar em torno desses novos fatos que a vida lhe impôs violentamente.

Em geral, o paciente, no processo de aceitação da operação, viabiliza o recurso de defesa psicológica, na tentativa de minimizar seu sofrimento. O processo de intelectualização e racionalização dependerá do grau de informação que o paciente possui, da confiança que deposita em seu médico ou instituição, do tipo de sofrimento que a doença lhe causa e o quanto isto interfere em sua vida. (Souza e Pinotti, 1994, p.9).

No pré-operatório, as reações emocionais mais apresentadas pelos pacientes que assistimos são de intensa ansiedade, depressão, receio de ficar incapaz para o trabalho, para atividades sociais e sexuais, além do medo da dor, sofrimento e morte. Mas, com um bom atendimento, uma boa orientação e uma atitude tranqüilizadora, esses pacientes passam a ter esperança no tratamento e confiança na equipe.

São várias as perdas que estes pacientes enfrentam: perda da saúde, perda da função normal de defecar, de ter um momento privado dela, pois não vão mais “sentar no vaso sanitário” e ainda têm que despejar as fezes discretamente no vaso. Tudo isso se constitui na perda corporal, pois têm que aprender a conviver com uma nova imagem. Há também a perda da auto-estima, acarretando em preocupações acentuadas, não com a doença no primeiro  momento, mas sim com a ostomia. É o que observamos na pratica diária.

No pós-operatório a pessoa poderá sentir-se desesperada, mutilada e até sem vontade de continuar vivendo. Às vezes, esse período pode ser muito doloroso e mais difícil de enfrentar que o pré-operatório, uma vez que houve a queda das defesas do aparelho psíquico (wanderbroocke,1998,p2).

O período do pós-operatório pode ser caracterizado como uma etapa crítica, em que o paciente, em pouco tempo, terá que reestabelecer seu equilíbrio emocional, o qual que foi profundamente perturbado pela cirurgia e pela doença. É uma readaptação psicológica, biológica e funcional, podendo ser permanente ou transitória de esquema corporal, com a correspondente representação mental e seu significado na conduta do paciente para consigo mesmo e também em relação a sua família e amigos.

No pós-operatório imediato, os pacientes podem apresentar dependência da equipe, principalmente da enfermagem e dos familiares, pois apresentam insegurança para manusear a bolsa, preocupação com o mau cheiro acarretando muitas vezes repugnância de si mesmo, medo de rejeição familiar e social, principalmente no momento da alta hospitalar. Isso também é observado na prática diária.

Durante o período em que o paciente estiver hospitalizado, a enfermeira é quem estará encarregada de  ajudá-lo nos primeiros cuidados básicos com a ostomia. É muito importante que tanto o paciente como a família aprendam a lidar com o ostoma. Isso facilitará a incorporação e integração psicológica da ostomia.

No pós-operatório tardio, os ostomizados, muitas vezes, passam a dar maior atenção ao câncer, do que propriamente ao ostoma, pois este não é mais desconhecido. Mas, nos primeiros meses após a intervenção cirúrgica, muitos pacientes relataram que deixaram de sair de casa com receio de não haver banheiro no local ou de ser um ambiente com muitas pessoas e se sentirem constrangidas em usá-lo. Verbalizaram que, antes de decidir ir a algum lugar, costumam pensar em um local para esvaziarem a bolsa. Aos poucos, estes se liberam da higiene excessiva vão se adaptando aos ambientes e na troca da bolsa adquirem autoconfiança e aumento da auto-estima, melhorando assim  sua qualidade de vida.

À medida que aumenta a sensação de segurança, o paciente começa a ter novamente desejo pela vida social. As preocupações com odores desagradáveis, ruídos inoportunos e qualidade de acesso às instalações sanitárias continuam, mas parecem diminuir de intensidade.

Há pacientes que vêem a ostomia como uma salvação para sua vida e dão graças por terem se livrado do câncer. Outros, após a cirurgia, esquecem o câncer e vêem a ostomia como uma tragédia em sua vida. Muitos afirmam que a ostomia, apesar de ser desconfortável, não é uma situação de extrema negatividade, se comparada ao grave diagnóstico e ao prolongamento da sua vida.

A relação conjugal e sexual emerge de imediato para o ostomizado. São questionamentos tais, como “será que meu parceiro (a) vai me aceitar?”, “como será minha vida sexual a partir de agora?”. Surge, então, sentimento de vergonha frente ao parceiro.

Portanto, o acompanhamento psicológico do casal é de fundamental importância, pois a informação e orientação dissipam dúvidas e fantasias, acarretando melhorias no seu relacionamento. Consideramos importante frisar que os casais que anteriormente mantinham um relacionamento satisfatório não vão sofrer alterações além daquelas exigidas pela nova rotina estabelecidas pelo ostoma. Se a sua relação estava deteriorada, tende a piorar e até acabar.

No nosso dia a dia de experiência percebe-se que um relacionamento fraco e instável, por ocasião da cirurgia, ocasiona o fim de uma vida sexual. Afirmamos também que o distúrbio sexual nos homens não se deve somente a um dano orgânico, mas também à perda da auto-estima, na vivencia fantasiosa de um sentimento de castração. Diversos estudos mostram que casais que relataram uma atividade sexual satisfatória antes da cirurgia, após o período de seis meses aproximadamente voltaram a se relacionar. No geral não ouve casos de separação, existindo até casos de gravidez e de casamentos. Sabe-se que medos, dúvidas e preocupações podem surgir, mas à medida que o paciente retoma sua vida, ao retornar para casa, há uma boa adaptação e a continuidade da vida. Por isso, sugere-se um acompanhamento psicológico direto destes pacientes para verificar se há ou não uma boa aceitação e adaptação no decorrer de sua vida.

Para concluir, consideramos importante ressaltar que se faz necessário, para o trabalho com os pacientes ostomizados, um verdadeiro trabalho em equipe. Esta, empenhada em dar a assistência necessária e adequada em todas as etapas do tratamento e na reabilitação.

O psicólogo é um membro da equipe interdisciplinar imprescindível durante todo o processo, desde o diagnóstico até a sua reabilitação. O psicólogo ajudará também estes pacientes na reintegração pessoal e social, ou seja, no processo de viver novamente.

Referências

Sousa Jr, (1994) Ileostomias e Colostomias. Tratado de Clinica Cirurgica do Aparelho Digestivo (PP 8-12) S.P

Sousa Jr (1986) Mudanças na imagem corporal e alterações psicológicas em pacientes colostomizados e ileostomizados. Revista do Colegio Brasileiro de Cirurgiões,13,159 163.

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