Assistência de Enfermagem na Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica

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1. Introdução

O presente trabalho apresenta que o serviço de saúde deve ter como eixo central a humanização e os aspectos subjetivos da condição humana, pois a interação dos conhecimentos técnico-científicos com os aspectos afetivos, sociais, culturais e éticos na relação entre o profissional e o paciente garante maior eficácia do serviço (BRASIL, 2004).

O processo de cuidar vem sofrendo forte influência do ambiente tecnológico e apesar da cultura do cuidado centrada no domínio da técnica, a pesquisadora acreditava ser possível tratar o paciente como ser humano, pois o cerne do trabalho da enfermagem não poderia ser apenas o corpo biológico, mas sim, o ser humano em toda sua complexidade, com determinantes culturais, ambientais, familiares e emocionais.

Com a abordagem fenomenológica, a investigação procurou compreender o significado do cuidar no mundo da UTI do referido hospital escola, na visão daquelas que fazem acontecer a enfermagem em suas ações cotidianas. O critério para sua escolha foi o de estar atuando na assistência direta aos pacientes, bem como concordar em fazer parte do estudo.

2. Unidade de Terapia Intensiva Dentro do Contexto Hospitalar

As Unidades de Terapia Intensiva (UTI) surgiram antes dos Centros de Terapia Intensiva (CTI), sendo criadas para atender a uma necessidade emergencial (SPÍNDOLA, 1999, p.15). Estas unidades passam a existir a partir das necessidades de aperfeiçoamento e concentração de recursos materiais e humanos para o atendimento a pacientes graves, em estado crítico, mas tidos como recuperáveis, e da necessidade de observação constante e de assistência médica e de enfermagem contínua, centralizando-os em um único núcleo centralizado (VILA; ROSSI, 2002).

O surgimento das UTIs teve origem nos anos 1960, durante a Guerra do Vietnã, quando os soldados feridos necessitavam de um local específico para que pudessem ter acesso a um atendimento, rápido e eficiente, por uma equipe de médicos e enfermeiros. Foram acrescentadas inovações terapêuticas que contribuíram para o crescimento da terapia intensiva, como a terapia intravenosa para o choque, a transfusão sanguínea, a anestesia, além da remoção de pacientes para meios que estavam melhores equipados.

Ao necessitar da hospitalização em uma unidade de terapia intensiva (UTI), o paciente necessita de cuidados complexos e dinâmicos, equipamentos tecnológicos e profissionais especializados para diagnosticar e tratar de algum desequilíbrio orgânico.

  • Unidade de Terapia Intensiva (UTI): área crítica destinada à internação de pacientes graves, que requerem atenção profissional especializada de forma contínua, materiais específicos e tecnologias necessárias ao diagnóstico, monitorização e terapia;
  • Unidade de Terapia Intensiva - Adulto (UTI-A): UTI destinada à assistência de pacientes com idade igual ou superior a 18 anos, podendo admitir pacientes de 15 a 17 anos, se definido nas normas da instituição;
  • Unidade de Terapia Intensiva Especializada: UTI destinada à assistência a pacientes selecionados por tipo de doença ou intervenção, como cardiopatas, neurológicos, cirúrgicos, entre outras;
  • Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI-N): UTI destinada à assistência a pacientes admitidos com idade entre zero e 28 dias;
  • Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTI-P): UTI destinada à assistência a pacientes com idade de 29 dias a 14 ou 18 anos, sendo este limite definido de acordo com as rotinas da instituição;
  • Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica Mista (UTI-Pm): UTI destinada à assistência a pacientes recém-nascidos e pediátricos numa mesma sala, porém havendo separação física entre os ambientes de UTI Pediátrica e UTI Neonatal.

3. Cuidados de Enfermagem

Ao escolher a Enfermagem, escolhe-se também o envolvimento genuíno com outro ser humano, o cuidar para o viver e para o morrer, o estar-com-o-outro no tempo e espaço compartilhados. Para “cuidar” em Enfermagem, entende-se que é preciso, antes de tudo, se apropriar do humano e despertar a humanidade no outro; é preciso ainda olhar e ver, tocar e sentir, ouvir e escutar, perceber e compreender situações que muitas vezes estão veladas para a razão.

O mundo do cuidado, na Unidade de Terapia Intensiva, é singular por se caracterizar em um ambiente distinto às influências de vida natural e cotidiana do ser humano; contudo, deve oferecer condições que permitam uma adaptação da melhor forma possível e uma reestabilização do ser humano nela assistido. Assim, da interpretação dos discursos desta pesquisa, foi possível agrupar nesta categoria os seguintes elementos que caracterizam esse “mundo do cuidar” profissional na enfermagem: o cuidar como competência técnica, o cuidar como gerenciamento e administração, o cuidar como um processo que requer sistematização, e o cuidar que apresenta uma dimensão técnica e tecnológica.

4. Cuidar como Amor e Competência Técnica

As colaboradoras caracterizam a enfermeira como um ser inacabado, incompleto, que precisa crescer e se aprimorar para assegurar um cuidado autêntico qualificado, necessitando se nutrir e se construir no cotidiano da sua existência.

Isso pressupõe vivenciar e experiência as diferentes possibilidades de ser e estar no mundo da enfermagem, percorrendo novos caminhos em busca de desenvolver suas habilidades e competências, e avaliar sistematicamente as maneiras de cuidar.

Os cuidados revelam também conhecimento técnico-científico e que este só pode ser qualificado à medida que se realiza a educação em serviço, isto é, treinamentos em serviço que visem melhorar e atualizar a sua capacidade, oportunizar o seu desenvolvimento e o seu envolvimento no cuidado com o outro. Esse “cuidar” como competência técnica implica em preparo científico, em reciclagem, especialização e em aprendizado caracterizado como uma busca constante por conhecimento, o que reforça a ideia de um profissional “inacabado”, em constante processo de aperfeiçoamento, bem como abre perspectivas para novas descobertas.

Ao longo de sua trajetória profissional a enfermeira tem assumido diversas responsabilidades que incluem funções de planejar, organizar, supervisionar e controlar ações por elas desenvolvidas, bem como pela equipe de enfermagem, com vistas à implementação do cuidado focalizado no ser humano.

Embora se reconheça que a administração geral e de recursos também compõem o “cuidar”, paradoxalmente se manifesta um desconforto em relação ao contexto das práticas cotidianas da enfermeira, em que a realização das atividades indiretas descaracteriza o seu saber e fazer, na medida em que este é substituído pelo trabalho burocrático em detrimento do estar-com o paciente no mundo do cuidado. Esta realidade acaba acarretando um distanciamento entre a enfermeira e o paciente, portanto não propicia uma experiência do encontro de cuidado.

5. Estar-com a família no mundo do cuidado

Este objeto surge da compreensão de que o ser humano é um ser social e que com outros coabita enquanto será no mundo, condição que se encontra no ambiente de cuidado na enfermagem.  Este cuidar, na UTI, manifesta-se por meio da relação da enfermeira com a família do ser cuidado. A família possui um papel fundamental no mundo do cuidar, enquanto suporte para o paciente e para a equipe, por meio de sua real presença.

Muitas vezes as enfermeiras auxiliam a família a se aproximar do paciente, ajudando-o a compreender sua condição e participando do seu tratamento. Estas profissionais auxiliam as famílias a reconhecerem sua importância, no momento em que a internação do paciente pode ser uma experiência intensa, e que a família se constituirá na sua sustentação.

A presença e o contato com os familiares podem ser positivos na perspectiva de algumas enfermeiras quando esta família é “cooperativa”, “quieta” ou “segue regras”, mesmo que se reconheça a possibilidade da proximidade familiar como elemento que possa auxiliar na recuperação do paciente. Isto nos leva a refletir sobre as diversas formas que se pensa esse ideal de cuidado no contexto da UTI.

6. Cuidar como trabalho em equipe

Nesta categoria desvela-se o cuidado como um trabalho de grupo, em equipe, onde se dá o compartilhamento das tomadas de decisões como uma das dimensões essenciais do processo de cuidar. A com vivência e o compartilhar no mundo do cuidado enfatiza a importância da participação efetiva daqueles que cuidam a equipe multidisciplinar. A enfermagem busca, progressivamente, constituir-se em uma profissão humanística, com foco centrado na atenção do cuidado ao ser humano, em toda a sua dimensão.

A humanização para muitos é apenas respeitar, dar atenção, dialogar com pacientes, mas humanizar engloba não somente o paciente, mas também os familiares e o próprio cuidador que também precisa de cuidados; embora a realidade hoje, na maioria das unidades de terapia intensiva seja caracterizada pela presença de um trabalho rotineiro, mecânico, que esquece muitas vezes que quem está ali são seres humanos, com sentimentos, valores, familiares, e não objetos/máquinas.

7. Considerações Finais

As reflexões acerca do cuidado de enfermagem em Terapia Intensiva devem passar por uma contextualização mais aprofundada acerca dos conceitos de cuidado e da utilização de tecnologias nestas unidades.

Mesmo o cuidado sendo visto como essência da enfermagem verifica-se, a partir da realidade desta pesquisa, que existem contradições no que tange à sua concepção, bem como limitações frente às ações e procedimentos.

O significado do cuidado para os enfermeiros desta UTI estão ancorados em seis temas: Dimensão do mundo do cuidado (Cuidar como Competência Técnica; Cuidar como Gerenciamento e Administração; Sistematizando o Cuidar; Cuidar Técnico e Tecnológico); Cuidar como Encontro com a Finitude; Estar-Com a Família no Mundo do Cuidado; Cuidar como Trabalho em Equipe; A humanização do cuidado e Criando uma identidade do cuidado pelo enfermeiro da UTI.

Assim, de acordo com os objetivos propostos, considera-se que esta pesquisa trouxe algumas reflexões importantes para a enfermagem como forma de contribuir para que os profissionais intensivistas tenham mais subsídios para sua atuação na área, motivando-os a buscarem referenciais para fundamentarem sua prática e, consequentemente, melhorarem, continuamente, o cuidado prestado ao cliente.

Referências:

ALENCASTRE, M. B. Como o pessoal auxiliar de enfermagem psiquiátrica vê o Profissional enfermeiro: uma abordagem compreensiva. Ribeirão Preto, 1990. 85f.Tese (Doutorado) - Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo.

AMATUZZI, M. M. Apontamentos acerca da pesquisa fenomenológica. Estudos de Psicologia, v.13, n.1, p.5-10, 1996.

BARBOSA, F. F. B. A transcendência do emaranhado tecnológico em cuidados intensivos: a (re) invenção possível. Blumenau (SC): Nova Terra, 1999.

BERTI, H. W. et al. Percepção de enfermeiros recém-graduados sobre a sua autonomia profissional e sobre o processo de tomada de decisão do paciente. Revista Latino-Americana de Enfermagem, Ribeirão Preto, v.16, n.2, mar./abr.2008.

BIAGI, T. D.; SEBASTIANI, R. W. A atuação do psicólogo hospitalar em unidade de terapia intensiva – adultos: serviços de psicologia hospitalar Nêmeton –CEEPS. São Paulo, 2001.

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