Brincar é Coisa Séria

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Resumo: A medicina, antes focada na tecnologia, começa a voltar sua atenção para o ser humano e suas necessidades. O indivíduo passa a ser visto com uma pessoa em sua totalidade, e não mais como corpo que abriga uma doença. Neste novo cenário encontramos a humanização na área pediátrica, que busca minimizar os efeitos da hospitalização na vida da criança. Buscamos estabelecer a relação entre o brincar no hospital e seus benefícios para as crianças que têm acesso a este recurso. Para isso conversamos com cinco profissionais que trabalham em hospitais pediátricos com longa experiência na área e procuramos responder, através de uma entrevista, à questão “Quais os benefícios do brincar para a criança hospitalizada na visão os profissionais de saúde”. O resultado dessas entrevistas nos mostrou que o brincar é extremamente benéfico em situações de hospitalização, e não tem contra-indicações. Dentre as vantagens citadas estão a melhor aceitação ao tratamento e principalmente a maior rapidez na recuperação, demonstrados através do relato de nossos entrevistados. Dessa forma concluímos que o brincar só traz benefícios tanto clínicos quanto psicológicos e deve ser uma prática incentivada.

Palavras-chave: humanização, brinquedoteca, ludoterapia, brincar no hospital.

1.  Introdução

A medicina e a saúde de forma geral estão preocupadas com a questão da humanização como um passo importante para seu desenvolvimento futuro. Estamos vivendo uma época marcada por alterações na dinâmica hospitalar com relação ao atendimento dos pacientes, dinâmica esta que está sendo deslocada das questões do atendimento da doença para o atendimento de cidadãos, do foco tecnológico para o das relações humanas. Os tratamentos buscam a individualidade. Vivemos a dualidade do profissional de saúde: entre a percepção da necessidade da construção de uma relação de qualidade com a pessoa hospitalizada e as exigências do trabalho que o colocam numa relação mais direcionada com o hospital como empresa e a medicina como instituição (http://www.doutoresdaalegria.org).

Para compreendermos melhor o termo humanização que será explicado mais à frente, faz-se necessário primeiramente, conhecer um pouco sobre a visão da medicina ao longo do tempo com relação à doença e ao paciente.

1.1. A visão da medicina ao longo dos tempos

O repensar da atuação da medicina nesta segunda metade do século tem ocorrido dentro de várias perspectivas, de acordo com Caprara e Franco (1999). Jaspers (1991 apud CAPRARA e FRANCO, 1999), enfatiza a necessidade de a medicina recuperar elementos subjetivos da comunicação entre médico e paciente. A consciência da necessidade de desenvolver a interação comunicativa entre médico e paciente foi se ampliando nos anos sessenta através dos estudos de psicologia médica, de análises psicanalíticas da figura do médico, bem como da experiência em introduzir a dimensão psicológica na relação médico-paciente e na necessidade de formação psicoterapêutica para o médico. Nas décadas de 60 e 70, os trabalhos de Talcott Parsons sobre a relação médico-paciente e o consentimento informado foram pioneiros na área da sociologia da saúde.

No artigo de Caprara e Franco (1999) encontramos que a análise marcada pela perspectiva histórico-cultural evidencia que o médico, diferentemente de outras profissões, não perdeu a propriedade do saber e do fazer com a consolidação do modelo capitalista. No entanto, paralelamente a esta transformação da sociedade observa-se a valorização da ciência e assim, a intelectualização dos saberes. A medicina teria passado pela universalização de seus atos, tendo como objeto da sua ciência o doente que nesta condição, perdeu suas diferenças sociais, sendo então objeto do saber reconhecido cientificamente. Nessa condição, o ato médico se configura como ato repetidor dos conhecimentos habilitados pela ciência, tendo assim entrado no universo das séries de produção, que marcam a sociedade industrial-tecnológica (SCHAIBER, 1993 apud CAPRARA e FRANCO, 1999).

1.2. A doença e o paciente

A doença, segundo Caprara e Franco (1999), é interpretada como um desvio de variáveis biológicas com relação à norma. Esse modelo, que se fundamenta numa perspectiva mecanicista, considera os fenômenos complexos como constituídos por princípios simples, ou seja, a relação causa-efeito, diferença cartesiana entre mente e cérebro. Estes princípios foram responsáveis por transformações importantes no século XIX, ao mesmo tempo em que eram desprezadas as dimensões humana, vivencial, psicológica e cultural da doença.

Resgatar a humanização do atendimento é ir contra a violência, segundo Deslandes (2004), e contra a negação do outro em sua humanidade. Esta violência pode ser física e psicológica, e se expressa nos maus-tratos; ou simbólica, que se apresenta pela dor do paciente em não ter a compreensão de suas demandas e expectativas. Segundo Deslandes (2004, p. 9),

o hospital moderno teve como marca histórica de sua constituição organizacional impor aos pacientes o isolamento, a despersonalização e a submissão disciplinar de seus corpos a procedimentos e decisões que muitas vezes eles não compreendem.

Em outras palavras, essa forma de tratar o doente, que em nome da “rigorosa prática científica” é afastado de seu convívio social e familiar, não lhe sendo permitido tomar decisões constituiu, durante muito tempo, a tônica da cultura organizacional dos hospitais. O doente é visto como um corpo adoecido. Para Backes, Lunardi e Vieira (2006), a doença passou muitas vezes a ser objeto do saber reconhecido cientificamente, desvinculada do ser que a abriga e no qual ela se desenvolve. Os profissionais da área de saúde parecem desumanizar-se gradativamente, favorecendo a desumanização da sua prática profissional. Na visão dos autores estes profissionais desumanizam-se quando ficam atentos somente à doença e não ao doente.

1.3. O que é humanização

De acordo com Backes, Lunardi e Filho (2006), humanizar é reconhecer o outro, o que requer uma atitude profundamente humana. Reconhecer e promover a humanização à luz de considerações éticas exige um esforço de se rever atitudes e comportamentos dos profissionais envolvidos no cuidado com o paciente. Gadamer (1994 apud Caprara e Franco, 1999) conduz a uma reflexão sobre a humanização da medicina, principalmente na relação médico-paciente, através do reconhecimento da necessidade de uma maior sensibilidade diante do sofrimento do paciente. Segundo ele, trilhar esse caminho implicaria em trabalhar sobre o objeto da medicina de forma diferente de outras ciências naturais, superando limites de recursos convencionais e supostamente universais.

Para Caprara e Franco (1999), o comportamento profissional do médico deve incorporar cuidados ao sofrimento do paciente, fazendo-se necessária uma sensibilidade para conhecer a realidade do paciente, ouvir suas queixas e junto com ele, encontrar estratégias que facilitem a sua adaptação ao estilo de vida que exige a doença.

Na visão de Oliveira, Collet e Vieira (2006) a humanização depende da capacidade de falar e ouvir, ou seja, sem comunicação não há humanização. É preciso viabilizar o diálogo nas relações humanas como forma de conhecer o outro, compreendê-lo e atingir o estabelecimento de metas conjuntas que possam propiciar o bem-estar recíproco.

Segundo Ferreira (1986, p. 254, apud BARBOSA e RODRIGUES, 2004), “humanizar é tornar humano, dar condição humana, agir com bondade natural, humanar”. Para Nogare (2001, apud BARBOSA e RODRIGUES, 2004) a humanização conduz ao crescimento, à liberdade de criação e de vida. Resumidamente, a humanização requer, segundo Backes, Lunardi e Filho (2006), um processo de reflexão acerca dos valores e princípios que norteiam a prática profissional, pressupondo além de um tratamento e cuidado digno, solidário e acolhedor por parte dos profissionais da saúde ao seu principal objeto de trabalho (doente), uma nova postura ética. Postura essa que permeie todas as atividades profissionais e processos de trabalhos institucionais.

1.4. Humanizando o atendimento às crianças hospitalizadas

A importância do brincar na situação hospitalar ganhou relevância social principalmente a partir do trabalho do médico Patch Adams (1999), nos EUA, cuja história pessoal foi popularizada através do filme “Patch Adams - O amor é contagioso”. A introdução do brincar no ambiente hospitalar vem ocupando um espaço significante na hospitalização infantil no processo de humanização (MOTTA e ENUMO, 2004). Atualmente, muitos estudos são dedicados à compreensão do instrumento lúdico como potencializador do desenvolvimento. Desde o brinquedo utilizado nas pré-escolas em ludotecas até como instrumento clínico em consultórios, o brinquedo tem sido amplamente utilizado, abrindo espaços para discussão e estudos que procuram apontar como este instrumento, típico da fase da infância, pode se configurar em um objeto de estudo bastante rico (OLIVEIRA, DIAS e ROAZZI, 2003).

Na visão de Chaparro et al. (http://www.portalhumaniza.org.br) brincar é o fazer sério da criança. É brincando que ela consegue imaginar, criar, extravasar os sentimentos positivos ou negativos. Durante o ato de brincar é possível descobrir o estado emocional em que a criança se encontra em determinada situação. Daí o duplo papel do brinquedo: lúdico-terapêutico.

Para Lindquist (1993, apud MOTTA e ENUMO, 2004) o brinquedo é utilizado como recurso capaz de proporcionar atividades estimulantes e divertidas, bem como atividades que tragam calma e segurança às crianças. Ainda segundo Motta e Enumo (2004), o brinquedo também pode ser utilizado de forma específica por meio de palhaços, humanizando o ambiente hospitalar. Nessa linha específica de brinquedo, Masetti (1997, apud MOTTA e ENUMO, 2004) conta a experiência do grupo “Doutores da Alegria” na tarefa de levar o palhaço até as crianças hospitalizas.

Seguindo esta mesma linha, Françani et al. (1998 apud MOTTA e ENUMO, 2004) relatam as transformações diárias que a introdução dos palhaços trouxe ao contexto hospitalar, tornando-o mais descontraído. Ainda no artigo de Motta e Enumo (2004) vemos que uma brincadeira escolhida pela maioria das crianças hospitalizadas é a atividade recreativa com palhaços. Segundo a pesquisa das autoras,

os relatos de experiência sobre a presença do palhaço no hospital têm mostrado o efeito positivo que este tipo de atividade exerce sobre o bem-estar da criança hospitalizada, desencadeando sorrisos e alegria. (MASETTI, 1997; FRANÇANI et al., 1998, p. 26).

De acordo com Löhr (1998, apud MOTTA e ENUMO, 2004) ao brincar no hospital a criança altera o ambiente em que se encontra, aproximando-o da sua realidade cotidiana. Isto, segundo Motta e Enumo (2004) pode ter um efeito bastante positivo em relação a sua hospitalização. O brincar pode ter também uma aplicação que é preferível chamar técnica no lugar de terapêutica. Esta aplicação refere-se principalmente ao seu uso junto à criança hospitalizada, como para ajudá-la na compreensão e na adaptação mais adequada ao procedimento médico invasivo, por exemplo, (GARCIA, 1996). Também pode ser usada como recurso para a técnica de imaginação/distração, usada para a adaptação de crianças à hospitalização (MÉNDEZ et al., 1996).

Além disso, o brincar ajuda a criança na compreensão e adaptação aos procedimentos médicos. Para Valladares (2003) a hospitalização representa na vida das crianças uma situação de grande estresse emocional e institui uma crise, afetando tanto o lado orgânico quanto o psíquico de seu desenvolvimento. Isto determina distúrbios comportamentais diversos e acaba por interromper seu desenvolvimento normal. Motta e Enumo (2004) consideram que a hospitalização interfere na qualidade de vida das crianças e que o brincar é um recurso viável e adequado para o enfrentamento da hospitalização. Este importante papel desempenhado pelo lúdico na vida da criança tem levado vários estudiosos de diferentes áreas (psicólogos, sociólogos, antropólogos) a lançarem mão deste recurso para beneficiar a criança hospitalizada. Em alguns estudos foi possível observar mudanças de comportamentos - de passivo para ativo, imagem mais positiva da hospitalização, recuperação pós-operatória mais rápida, melhor interação com a equipe de enfermagem e com o material médico-hospitalar.

Ao deparar-se com a hospitalização a criança se vê assustada, sensação esta gerada principalmente pelo ambiente da instituição hospitalar. Perda de autonomia pela imposição de regras determinadas pela equipe de saúde, perda do contato familiar, manipulação do corpo de forma invasiva e dolorosa são situações pelas quais a criança passa e que podem ser traumáticas segundo Oliveira, Dias e Roazzi (2003). No trabalho realizado observou-se que o brincar foi de grande auxílio para colocação direta de sentimentos, expressos através de brincadeiras dirigidas, isto é, orientadas pelo pesquisador. Dessa forma o brinquedo pode ser muito útil não só para proporcionar distração ou, no caso de brinquedos trazidos de casa, confortar.

Para Ângelo (1985) o brincar é um valioso instrumento de informação para a equipe de saúde, pois é através da brincadeira que se pode compreender as necessidades da criança.

Pinheiro e Lopes (1999) concluíram que, a partir das orientações feitas com o auxílio de brinquedos terapêuticos e a inserção da mãe no tratamento, é possível humanizar o atendimento das crianças hospitalizadas.

Conforme exposto, a humanização é de grande importância para amenizar as conseqüências da hospitalização para crianças, e como vimos uma das formas de humanizar esse atendimento é através da brincadeira.

2. Método

2.1. Participantes: Os sujeitos de nossa pesquisa são: um médico pediatra, duas pedagogas, duas psicólogas e uma enfermeira. Todos eles trabalham com crianças que têm acesso aos recursos lúdicos oferecidos pela instituição hospitalar.

2.2. Local: Instituições hospitalares que possuam programa de humanização na forma de ludoterapia, sendo que em uma das visitas obtivemos imagens da brinquedoteca para ilustrar nossa pesquisa.

2.3. Instrumento: Para efetuar a coleta de dados fizemos uma entrevista com cada um dos sujeitos descritos no método, usando um mini-gravador e fita cassete, e após fizemos a transcrição das mesmas para posterior análise. A entrevista não teve duração estipulada, variando conforme as respostas e disponibilidade dos sujeitos entrevistados. A entrevista seguiu um roteiro com questões específicas sobre a humanização e seus benefícios, como segue a seguir:

  • O que é humanizar o atendimento na sua concepção? Quando foi seu primeiro contato com a humanização?  
  • Como o processo de humanização se insere dentro da rotina hospitalar? Ele altera a rotina no tratamento das crianças? A seu ver, há benefícios expressivos para as crianças no uso da ludoterapia? Havendo benefícios, quais seriam eles? Clínicos, psicológicos?
  • Há alguma diferença expressiva na resposta ao tratamento entre as crianças que têm acesso a ludoterapia e aquelas que são tratadas de forma tradicional?
  • Há algum caso significativo que possa ser citado como exemplo?
  • Há alguma contra-indicação com relação ao uso da ludoterapia (de acordo com a enfermidade ou gravidade do caso, por exemplo)?
  • Há alguma situação em que o uso da ludoterapia não tenha trazido benefícios? E que tenha prejudicado o tratamento e/ou recuperação da criança?
  • Pode-se concluir que o uso da ludoterapia só traz benefícios?

2.4. Procedimento: O contato com as instituições hospitalares foi primeiramente feito por telefone, conversando com o responsável pelo setor de pediatria ou o psicólogo responsável, conforme a instituição. Nesse contato telefônico explicamos o objetivo de nossa pesquisa e agendamos um horário para a coleta dos dados através da entrevista.

As entrevistas foram realizadas por membros do grupo, individualmente ou em duplas. O roteiro de questões admitiu pequena flexibilidade, de acordo com a disponibilidade do profissional ao ser entrevistado. No entanto procuramos nos ater ao máximo às questões previamente determinadas expostas no item “instrumento”.

A duração das entrevistas dependeu das respostas dos entrevistados, e teve uma duração média de 20 minutos.

Após o término da coleta dos dados, passamos para a fase de transcrição das fitas. Cada fita foi ouvida e teve seu conteúdo transcrito na íntegra, sendo que o discurso foi escrito em forma de diálogo, tal qual se deu a entrevista. Terminada essa etapa passamos à criação de categorias que nos ajudassem a responder nosso problema de pesquisa. No total foram criadas 8 categorias. Após lermos todas as entrevistas procuramos em cada uma delas elementos que se adequassem às categorias criadas e fizemos a associação desses elementos com a categoria correspondente. No momento da análise comparamos o que foi dito por cada entrevistado dentro da mesma categoria, e em seguida buscamos algum embasamento na literatura pesquisada. Este processo foi feito em todas as categorias, e nosso objetivo aqui é verificar em quais pontos a opinião dos entrevistados vai ao encontro da literatura e em quais pontos há divergência.

3. Resultados e Análise

Para facilitar a compreensão e análise dos dados criamos categorias que atendessem nossas necessidades e ajudassem a responder nosso problema de pesquisa. A descrição e análise dos resultados obtidos estão apresentadas sob a forma de tópicos, sendo que cada um deles está relacionado a uma categoria.

3.1. Importância da humanização

Em resposta a essa questão observamos que os entrevistados têm visões semelhantes. Observamos que para eles a questão de humanização está intimamente ligada ao respeito pelo outro, pela individualidade do doente. A entrevistada 2 deixa clara essa opinião quando se refere à humanização como sendo “... ouvir cada um individualmente, seus problemas, suas ansiedades, seus medos”. A entrevistada 3 partilha da mesma opinião ao afirmar que humanizar é ver a pessoa como ser humano, se preocupando com as necessidades dele e não só com a doença que ele tem no momento da internação. A entrevistada 4 tem opinião semelhante, afirmando que humanizar é oferecer tratamento de qualidade independente da idade do paciente, e acrescenta ainda que o sistema de saúde de nosso país compromete essa oferta, que privilegia quem pode pagar mais por isso.

Já com relação aos entrevistados 1 e 5 podemos observar algumas coisas além do citado pelos demais. As respostas foram mais detalhadas, mais ricas. Para a entrevistada 5, por exemplo, humanizar é tratar os outros como ela gostaria de ser tratada, é o dia-dia com as pessoas. Ela afirma que humanizar é dar um pouco de si para o outro e que isso traz muito mais para quem está doando do que para quem está recebendo. Com relação ao entrevistado 1 observamos ainda mais informações. Ele faz um paralelo entre a falta de humanização e o poder do médico, que ao longo do tempo foi sendo supervalorizado e como conseqüência trouxe o uso exagerado da tecnologia em detrimento da escuta ao ser humano doente. Para ele, o médico precisa tratar o paciente como cliente, visto que ele agora, ao contrário de antigamente, tem mais informações e pode discutir de forma aberta sobre a doença e seus tratamentos. Ele afirma que humanizar o atendimento aos pacientes é “ter interesse pela vida dele, pela família dele pela saúde dele, pelo bem dele”. Humanizar é gostar das pessoas, trata-las bem, gostar delas.

Observamos que as respostas dos entrevistados vão ao encontro da teoria mencionada na introdução de nosso trabalho. Jaspers (1991 apud CAPRARA e FRANCO, 1999) enfatiza em sua pesquisa a necessidade da medicina recuperar elementos subjetivos da comunicação entre médico-paciente. Na visão de Caprara e Franco (1999) o médico não perdeu a propriedade do saber e do fazer mesmo após a consolidação do modelo capitalista. No entanto, observa-se a valorização da ciência e com isso a medicina passou a ser exercida de forma universalizada, e o objeto de sal ciência é o doente, que nessa condição de universalização passa a ser um objeto do saber científico. Dessa forma, “o ato médico se configura como ato repetidor dos conhecimentos habilitados pela ciência, tendo, assim, entrado no universo de produção, que marcam a sociedade industrial-tecnológica”. (SCHAIBER, 1993 apud CAPRARA e FRANCO, 1999).

Na questão prática sobre a importância de humanizar, temos a mesma convergência de idéias. De acordo com Deslandes (2004), humanizar é ir contra violência, que representa a antítese do diálogo, a negação do outro em sua humanidade.

Para Backes, Lunardi e Filho (2006),

humanizar é reconhecer o outro, que requer uma atitude profundamente humana. Reconhecer e promover a humanização à luz de considerações éticas exige um esforço de se rever atitudes e comportamentos dos profissionais envolvidos no cuidado com o paciente.

É interessante notar a reflexão sobre a humanização da medicina na relação médico-paciente proposta por Gadamer (1994 apud CAPRARA e FRANCO, 1999). A humanização nessa relação se dá através do reconhecimento da necessidade de uma maior sensibilidade diante do sofrimento do paciente. Para Oliveira, Collet e Vieira (2006), humanizar depende da capacidade de falar e ouvir. A comunicação é a base da humanização. Encontramos essa idéia no relato da entrevistada 2, quando afirma que humanizar é “ouvir cada um individualmente, seus problemas, suas ansiedades, seus medos”.

3.2. Primeiro contato com a humanização

Com relação a este item nem todos os entrevistados responderam. As entrevistadas 3 e 5 mencionaram que seu primeiro contato correspondeu ao início de suas trajetórias na área de saúde, sendo que a entrevistada 3 trabalha nessa área desde o ano de 1997. A entrevistada 5 procurava, mesmo antes de conhecer o termo humanização, cuidar dos pacientes de uma forma atenciosa, ou segundo ela, ela tentou desde o início de seu trabalho na área, prestar um atendimento humanizado.

Já o entrevistado 1 menciona que teve o contato inicial com a humanização logo após a concluir o curso superior. Segundo ele, as pessoas atribuíam um poder enorme ao médico, coisa que na verdade ele não tem. Na visão dele, o poder do médico é relativo, pois ele não tem o poder de controlar a morte. Ele credita a falta de humanização à onipotência dos médicos, que é conseqüência desse poder ilusório atribuído a eles. Segundo ele, “o médico, pelo fato de ter um poder muito grande... foi se achando muito importante, muito onipotente. Ele é o que manda. Ele se dirige ao paciente, ao cliente com sendo ele o poderoso, o chefão”. De acordo com o entrevistado, a visão mais atual do médico é a de um profissional que diagnostica, procura curar e mesmo não sendo possível, oferece apoio, carinho, respeito e qualidade de vida ao cliente.

Analisando as respostas dos entrevistados percebemos que a entrevistada 5, antes mesmo de ter conhecimento sobre o conceito de humanização, já trabalhava dessa forma, e suas condutas vão ao encontro das pesquisas de Backes, Lunardi e Filho (2006), e de Deslandes (2204). Segundo eles, humanizar é reconhecer o outro, valorizar o cuidado do ponto de vista técnico e ao mesmo tempo reconhecer a subjetividade do paciente, reconhecendo seus direitos. Para Oliveira, Collet e Vieira (2006), “humanizar depende da capacidade de falar e ouvir”. Segundo eles, sem comunicação não existe humanização. Com relação ao dito pelo entrevistado 1 sobre o poder médico, encontramos referências muito interessantes na teoria.

Segundo Deslandes (2004) o hospital moderno é constituído (em termos de organização) de forma a impor o isolamento aos pacientes, bem como sua despersonalização, fazendo com que os pacientes percam sua subjetividade, sendo mais um em meio a tantos outros. Para ela esse é um tipo de violência, que ela nomeia de violência simbólica, que não reconhece as necessidades emocionais e culturais do indivíduo hospitalizado. Durante muito tempo a estrutura organizacional hospitalar cuidava dos doentes dessa forma, em nome de uma “rigorosa prática científica”. De acordo com Backes, Lunardi e Vieira (2006), o doente passou a ser visto com um ser que abriga a doença, e não mais um ser humano doente. A desumanização dos profissionais ocorre, segundo esses autores, quando o profissional fica atento somente à doença e não ao doente.

A afirmação do entrevistado sobre a visão mais atual com relação ao médico vai ao encontro do publicado na pesquisa de Lopes, Camargo e Furrer (1999).  Para eles “os limites do cuidar são mais amplos do que o curar” e “... sempre é possível cuidar de cuidar de uma pessoa doente, embora nem sempre seja possível curar sua doença”.

3.3. Sobre a importância da humanização de forma geral

 Os entrevistados 2, 3 e 4 nada mencionaram a respeito, no entanto obtivemos respostas a nosso ver interessantes dos entrevistados 1 e 5. Para a entrevistada 5, a humanização é importante na medida em que propicia o escutar, o ouvir o outro. Para ela, o fato de escutar os problemas de uma outra pessoa é por si humanizar, porque ouvindo você mostra para o outro que está disposto a compreendê-lo, que está atento às necessidades que ele apresenta. Segundo ela, isso faz com que as pessoas se sintam melhores, mesmo que o problema em si não se resolva. O simples fato de ter alguém para acolher esse problema já é suficiente para humanizar as relações. O entrevistado 1 acredita que quando se humaniza o atendimento, “a vida melhora, as pessoas se acham mais acolhidas”. Para ele, o profissional que trabalha de forma humanizada, que tem essa postura, é uma pessoa mais feliz. Essa felicidade vem, segundo ele, do fato de ser reconhecido, bem tratado e acolhido pelas pessoas de quem ele cuida. O cuidado e respeito são recíprocos.

3.4.  Sobre o impacto da doença e internação na vida de uma criança

 Embora elas sejam expressas de forma diferente, convergem para o mesmo significado. Para o entrevistado 1, “a doença fragiliza as pessoas”, e as crianças em condições de hospitalização têm sua vida modificada, que lhes causa um grande desconforto e insegurança. Além disso, o ambiente hospitalar na maioria das vezes é desconhecido, e a criança “se assusta com os equipamentos que o hospital tem, com os exames que são feitos nela, sente dor, então pra ela é tudo diferente, ela não pode ir pra escola, os amigos não podem estar com ela”. A entrevistada 2 dá ênfase ao distanciamento que a criança tem com a escola, além de mencionar o que já foi dito pelo entrevistado 1. A entrevistada 5 a criança associa a figura do médico ou enfermeira a injeções, agulhas e isso causa medo. Além disso, as crianças precisam ser submetidas a tratamentos que embora sejam necessários não são fáceis, causam dor e desconforto. Ela destaca também a mudança na rotina da vida da criança internada. Os demais entrevistados (3 e 4) não mencionaram nada a respeito.

Encontramos na pesquisa de Valladares (2003) algumas conseqüências da internação para a criança mencionadas pelos entrevistados. Segundo ela,

a hospitalização representa na vida das crianças uma situação de grande stress emocional e institui uma crise, afetando tanto o lado orgânico quanto o psíquico de seu desenvolvimento. Isto determina distúrbios comportamentais diversos e acaba por interromper seu desenvolvimento normal.

Quando internada a criança sente medo, fica assustada, e essas sensações são geradas principalmente pelo ambiente hospitalar. Ela perde sua autonomia, seu contato com o mundo exterior. Precisa se submeter às regras do hospital, passa por situações dolorosas. Essas situações pelas quais a criança passa podem ser traumáticas, na visão de Oliveira, Dias e Roazzi (2003). Ainda segundo os autores, o fato de não ter uma experiência anterior que possa lhe servir de referência e também o fato de estar debilitada fisicamente tornam ainda mais problemática essa experiência para a criança.

3.5. Os benefícios do brincar para a criança hospitalizada

Todos os entrevistados responderam a essa questão, salientando cada um deles diferentes aspectos de tais benefícios.

3.5.1. Benefícios clínicos

A entrevistada 5 menciona que a estadia da criança no hospital é menor quando ela tem acesso às atividades lúdicas. De acordo com ela, “a melhora é substancialmente bem mais rápida”. Ela ressalta ainda que o acesso às brincadeiras possibilita a detecção de outros problemas diferentes dos que levaram a criança à internação, e também problemas com relação às mães dessas crianças.

Soares e Zamberlan (2001) mencionam o brincar como sendo um facilitador para o trabalho dos profissionais de saúde, pois proporciona melhor adaptação e cooperação por parte das crianças. Dessa forma o tratamento tem melhor aceitação e consequentemente a recuperação é mais rápida.

Em alguns estudos observou-se que a recuperação pós-operatória é mais rápida e que a interação com a equipe de enfermagem e com o material médico-hospitalar é melhor (MOTTA e ENUMO, 2004).

3.5.2 Benefícios psicológicos

Todos os outros entrevistados mencionaram inúmeros benefícios nesse sentido. Para eles o estado da criança de forma geral melhora visivelmente. O entrevistado 1 acredita que independente do tipo de brinquedo ou brincadeira, a criança precisa sempre brincar. Isso faz bem a ela. As entrevistadas 2 e 3 acreditam que a brincadeira é importante porque faz parte da vida da criança. “Brincar é saudável, faz parte da vida da criança”, segundo a entrevistada 2.

Os benefícios psicológicos são amplamente comentados pela entrevistada 3, que acredita que “a criança fica mais alegre, ela esquece momentaneamente... que ela tá na sala brincando”. Para ela, a criança esquece da dor, dos medicamentos que precisa tomar. Ela ressalta inclusive os reflexos disso para os pais, que ao sentirem o filho mais tranqüilo também se sentem mais calmos. Ela acredita, portanto, que “através do brincar ela (a criança) resgata todo o lado saudável dela, todo o lado de alegria, de felicidade, de que é pertinente a criança mesmo”. A entrevistada 4 cita que a diferença é, segundo ela, brutal, sendo as respostas as mais positivas possíveis. Ela cita que as crianças vão ao hospital felizes, porque elas têm acesso aos brinquedos. Ainda segundo ela, esse “poder escolher no hospital, ter uma área só para elas, interagir com profissionais das mais diversas áreas, num ambiente pensado e preparado para todos é fundamental para os pais, para os profissionais e especialmente para o tratamento das crianças”.

Encontramos na teoria inúmeros exemplos de benefícios. Para Lindquist (1993, apud MOTTA e ENUMO, 2004), o brinquedo traz calma e segurança para a criança, além de tornar mais humano o ambiente hospitalar. Ainda no trabalho de Motta e Enumo (2004) encontramos que o brincar ajuda a criança a entender e controlar a situação que irá enfrentar, e que brincando ela pode alterar o ambiente hospitalar, aproximando-o de sua vida cotidiana. De acordo com Garcia (1996) o brinquedo possibilita ainda a compreensão e adaptação mais adequada aos procedimentos que a criança irá enfrentar durante sua hospitalização. O brinquedo, de acordo com Oliveira, Dias e Roazzi (2203) pode ser muito útil também para confortar a criança (quando trazido de casa), além de proporcionar distração. O fato de trazer o próprio brinquedo faz com que a criança mantenha uma conexão com sua vida normal e isso traz maior segurança.

Ângelo (1985) salienta que o brincar pode ainda ser fonte de conhecimento e compreensão das necessidades da criança, constituindo um instrumento de informação valioso.

3.6. Exemplos de atividades ludoterapêuticas e humanizadas

Neste tópico temos diferentes exemplos, de acordo com a atividade e vivência profissional de cada entrevistado. O entrevistado 1 nos fala a respeito de palhaços (como o grupo Doutores da Alegria, por exemplo), lazer, música, brincadeiras de forma geral. Ele também nos dá como exemplo atividades fora do ambiente hospitalar, quando a condição de saúde da criança permite, como passeios etc. Outro ponto interessante é com relação à escola. Ele cita que alguns trabalhos de humanização têm também por objetivo dar continuidade aos estudos da criança. Para isso conta com voluntários que se dispõe a ensinar, ministrar aulas para que a criança não fique com o conteúdo escolar defasado e possa acompanhar normalmente os estudos quando estiver de volta à rotina normal. Há ainda opções de cursos profissionalizantes, que segundo ele, promovem uma formação ao adolescente quando este sai do hospital.Ele cita também as tarefas destinadas à família, que podem ser feitas junto com as crianças.

A entrevistada 3 dá exemplos de atividades recreativas feitas em salas específicas, como jogos, pintura, massinha, atividades no computador. Há também atividades temáticas, relacionadas às datas festivas e folclore. A entrevistada 5 relata sua experiência trabalhando com crianças e utilizando as mesmas brincadeiras citadas pelos entrevistados anteriores, e acrescenta o uso de literatura para crianças que estão impossibilitadas de sair do leito. Comenta ainda a visita de voluntários que se fantasiam de personagens e vão até o hospital. A entrevistada 2 cita um exemplo que segundo ela, tem objetivo mais terapêutico, no sentindo de esclarecer do que entreter. É usado um boneco que permite a simulação dos procedimentos aos quais a criança será submetida durante sua internação. Dessa forma, segundo a entrevistada, a criança consegue assimilar melhor o que acontecerá, porque tem a oportunidade de encenar com o boneco e no momento dos exames está familiarizada com os procedimentos. A entrevistada 4 nada mencionou a respeito do assunto.

Várias pesquisas apontam diversos tipos de atividades lúdicas que podem ser utilizadas no ambiente hospitalar. Na pesquisa de Motta e Enumo (2004) vemos que uma brincadeira escolhida pela maioria das crianças é o palhaço, e sua presença no hospital “tem mostrado o efeito positivo que esse tipo de atividade exerce sobre o bem-estar da criança hospitalizada” (MASETTI, 1997; FRANÇANI, et al., 1998, p.26).

3.7. Exemplo prático de benefícios

O entrevistado 1 deu um exemplo bastante interessante. Ele nos contou sobre o caso de um menino que, mesmo após ter tido alta, não queria ir embora porque tinha feito amizade com outra criança. Seu apego foi tanto, eles se deram tão bem, que mesmo após estar liberado ele não queria ir embora. Essa amizade só foi possível porque os dois brincaram muito tempo juntos no ambiente hospitalar. Depois de convencido a ir para casa, o menino retornava todo dia ao hospital para visitar e brincar com o amigo.

Outro exemplo do mesmo tipo nos dá a entrevistada 5, que conta o caso de uma menininha que se recusava a aceitar os procedimentos necessários como tomar remédio, fazer exames etc. Tudo era feito quase que à força. Ela queria a presença do irmão, de quem ela sentia falta, e a ausência dele era causadora de tanta revolta e reticência dela em aceitar a internação, segundo a entrevistada. Só depois que foi permitida a entrada do irmão na brinquedoteca é que ela finalmente cedeu, conversando com a equipe médica e colaborando com o tratamento, que não fazia efeito por estar a menina tão resistente psicologicamente a ele. Depois de iniciadas as visitas à brinquedoteca ela conheceu outras crianças e fez amizade com elas, colaborando ainda mais para o sucesso do tratamento.

A entrevistada 3 nos dá outro exemplo de atividade que mudou a rotina de internação de uma criança hospitalizada. Uma das crianças internadas perdeu a visão temporariamente e atividades específicas à condição dela foram desenvolvidas, como leitura e outras atividades não enumeradas pela entrevistada. A entrevistada 2 não mencionou nada a respeito, enquanto a entrevistada 4 nos mostrou relatórios dos últimos anos de trabalho, onde constatamos vários casos, mas que não poderiam ser divulgados sem autorização dos envolvidos.

3.8. Sobre as situações especiais no uso da ludoterapia

De acordo com o entrevistado 1, o brinquedo é sempre importante. No entanto deve-se ter atenção com relação ao tipo de atividade e de brinquedo a ser utilizado para cada criança. Dependendo da situação em que ela está tem-se o brinquedo adequado ao estado de saúde dela. O brinquedo não pode ser expor a criança a situações em que ela se canse ou tenha algum desgaste em decorrência da brincadeira. Segundo ele, “... conforme a situação da criança,... a criança pode brincar com alguns brinquedos ou não. Mas sempre brincar. Então se ela não pode ir até a brinquedoteca, a brinquedoteca vai até ela, e com o brinquedo adequado ao estado dela. Tem-se o brinquedo adequado praquele estado da criança é claro”.

A entrevistada 2 tem opinião semelhante, ressaltando que o brincar é sempre importante, sempre levando em consideração o estado de saúde da criança. A entrevistada 3 também cita a condição de hospitalização e locomoção da criança como fator determinante para o tipo de atividade escolhida. A entrevistada 4 não menciona nada a respeito, e por fim, a entrevistada 5 tem opinião que converge com a dos outros entrevistados, estando de acordo que para cada situação de internação um tipo de atividade se faz necessária. Com relação a contra-indicações, nenhum deles mencionou qualquer situação em que seja contra-indicada a atividade ludoterápica.

Na literatura relacionada também não encontramos nenhuma situação especial com relação à utilização do brinquedo e nem contra-indicação com relação ao uso do mesmo no ambiente hospitalar.

4. Conclusão

A medicina, que antes era voltada para o cuidado com o ser humano, voltou seu foco para a tecnologia, e aos poucos se esqueceu do indivíduo, do homem como um todo, cuidando somente da doença que esse corpo abrigava. O médico que era o cuidador de família, que ouvia e estava sempre presente passou a distanciar-se em nome da tecnologia, erroneamente colocada em primeiro plano.

Atualmente a dinâmica hospitalar e as relações médico-paciente estão mudando e aos poucos a medicina retoma o antigo papel de ouvinte aliado ao conhecimento técnico que o médico possui. Uma “nova” forma de tratar da saúde das pessoas começa a tomar conta dessas relações, e o foco que antes era o das relações tecnológicas volta-se para as relações humanas. A família passa a ser valorizada como auxiliar no tratamento, o médico passa a ser reconhecido também pela sua habilidade no contato humano e não só pela sua habilidade e competência técnica. O doente passa a ser visto como um indivíduo que abriga uma enfermidade, mas mantém sua subjetividade, e os profissionais de saúde começam a tratá-lo de forma a ouvir e atender essas suas carências e necessidades.

A tarefa do médico não é mais a de curar a doença, e sim de cuidar. Cuidar sempre, curar se possível. Cuidar significa ouvir o outro, estar atento às suas necessidades, buscar junto com o paciente formas de cuidado e atendimento que possam ajudá-lo. É olhar para o próximo com uma atitude humana. Esses são ingredientes básicos da humanização na convivência social com os seres humanos que se envolvem e são envolvidos no processo de cuidar.

É nesse cenário que encontramos a humanização hospitalar pediátrica, que usa a brincadeira como forma de tornar a internação da criança mais humana. Quando hospitalizada a criança passa por diversas situações que alteram sua rotina drasticamente. Ela fica longe da família, dos amigos, da escola, não pode mais brincar. A brincadeira é uma das maiores fontes de desenvolvimento da criança. Através da brincadeira ela expressa o que sente, o que pensa. Ela sonha, inventa, resignifica as situações vividas por ela no dia-dia, constrói um mundo. Quando é privada de brincar a criança pára no tempo, seu desenvolvimento físico e psicológico sofre grandes prejuízos como pudemos observar na literatura pesquisada.

A humanização pediátrica é uma tentativa de tornar a estadia da criança no hospital uma vivência menos traumática, e para isso são usados recursos lúdicos como brinquedos, músicas, palhaços. Segundo os profissionais entrevistados, a brincadeira nesse ambiente tão hostil para a criança é importantíssima para que ela consiga compreender, assimilar e vivenciar melhor o tratamento durante sua internação. Brincando ela resgata o vínculo com sua rotina, que é temporariamente interrompido por ocasião de sua internação. Observamos, dessa forma, que o brincar é um instrumento muito importante e que auxilia a criança a lidar com a fragilidade e o medo que a doença e seus tratamentos produzem.

Além de auxiliar a criança a compreender melhor a situação, o brincar proporciona uma recuperação mais rápida. Ter a possibilidade de brincar aproxima mais a criança dos profissionais de saúde, e sua disponibilidade para os procedimentos e medicamentos utilizados durante a internação são mais bem aceitos.

Mediante tudo que foi pesquisado e depois de analisar os dados coletados assim como a literatura pesquisada concluímos que o brincar no hospital só traz benefícios, não havendo contra-indicações que impeçam seu uso. Os benefícios são tanto clínicos quanto psicológicos, e esta é uma prática que deve ser incentivada. As instituições que buscam melhorar o atendimento pediátrico devem procurar meios de proporcionar a brincadeira ou outras atividades lúdicas como forma de cuidar.

Nossa pesquisa contou com uma pequena quantidade de entrevistados. Dessa forma não descartamos que um trabalho com uma amostra maior de sujeitos possa chegar a resultados que sejam diferentes dos nossos, por isso convidamos outros pesquisadores a aprofundarem nosso problema de pesquisa.

Sobre o Artigo:

Relatório de pesquisa realizado como exigência parcial para avaliação e cumprimento de estágio obrigatório na disciplina de Técnicas de Registro e Observação Psicológica, ministrada pela Profa. Lizandra Campos Brandani. Uniban, São Paulo, 2006.

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