Dificuldades da Inserção do Psicólogo no Ambiente Hospitalar

(Tempo de leitura: 3 - 6 minutos)

1) Identificação da Instituição

Instituição: Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo / Instituto CentralEndereço: Av. Dr. Enéas Carvalho de Aguiar, 255 – CEP: 05403-900 – São Paulo/SP

O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP é uma entidade autárquica do Governo do estado de São Paulo. Está vinculado à Secretaria de Estado da Saúde para fins administrativos e associa-se a Universidade de São Paulo para fins de ensino, pesquisa e assistência médico hospitalar à comunidade.

2) Justificativa do Trabalho

Capacitação profissional motivada a partir do desejo de conhecer na prática a rotina de um psicólogo hospitalar e do interesse de desenvolver um trabalho nesta área, visando ampliar meus conhecimentos profissionais.

3) Objetivos

Objetivo geral:  Propiciar a prática clínica reflexiva junto às pacientes com insuficiência renal e através da inserção na equipe de saúde, oportunizar a compreensão dos elementos envolvidos no trabalho em equipe de saúde interdisciplinar.

Objetivo específico: Intervir nas situações relacionadas aos fatores psíquicos que emergem durante o processo de tratamento da doença e internação hospitalar e atuar junto à equipe de saúde no atendimento ao paciente.

4) Atividades Desenvolvidas

  • Observação  da rotina do ambulatório e enfermaria de nefrologia e na unidade de diálise,
  • Participação no grupo rotativo interdisciplinar com pacientes da enfermaria de nefrologia,
  • Triagem e avaliação psicodiagnóstica de pacientes encaminhados ao serviço de psicologia,
  • Atendimento psicoterápico breve à pacientes ambulatoriais e de enfermaria de nefrologia,
  • Participação em reuniões da equipe de saúde.

5) Relato da Experiência

Ao chegar ao hospital pela 1ª vez, o estagiário ou psicólogo não sabe por onde começar. Sente-se perdido, não compreende a terminologia técnica do vocabulário utilizado. Os pacientes são muito diferentes daqueles vistos em psicologia clínica e são em número muito maior, reunidos em um mesmo espaço físico. A supervisão é uma demanda urgente, bem como conhecimentos técnicos científicos (ALAMY, 2003).

No meio hospitalar estamos diante de um indivíduo que se encontra afastado do seu meio familiar, social, de seu trabalho e que tem que se adaptar a uma nova rotina diária que lhe é imposta (horário das refeições, de estar com os familiares...); que passa muitas vezes, a ser um número de leito ou um indivíduo com tal órgão comprometido; ou seja, além de lidar com as alterações físicas da doença, também tem que lidar com as alterações de um meio distinto em que sua identidade parece ser anulada, ignorando-se muitas vezes os seus direitos e suas necessidades e cabe a nós psicólogos trabalhar as fantasias, os medos, as dúvidas que emergem, bem como dar assistência aos familiares do paciente que participam do seu adoecer e do seu restabelecimento.

Foi apavorante no início deste trabalho, ver as demandas de atendimento surgirem e sentir a necessidade de dar conta de todas, querendo trabalhá-las a todo o momento e ajudar as pessoas com a incerteza de que no dia seguinte elas ainda estariam ali. Com isso surgia a angústia de tentar fechar o atendimento o mais rápido que podia, trabalhando a demanda da melhor maneira possível. Vieram os medos e as dúvidas de estar ou não fazendo certo, e o peso da responsabilidade de que intervenções realizadas poderiam repercutir na vida daqueles pacientes em longo prazo ou para o resto de suas vidas.

Outro aspecto em que encontrei bastante dificuldade foi minha inserção na equipe de saúde, “o colocar-se”. O sentimento de exclusão surgiu em diversos momentos, especialmente nos primeiros contatos. Algumas vezes me dei conta de que eu mesma me excluía, talvez por medo ou falta de experiência. Percebi que nem sempre é possível uma integração total entre a equipe, apesar da importância do trabalho interdisciplinar o que se consegue algumas vezes são pequenas parcerias. Parte da equipe de saúde parece desconhecer a função do psicólogo, muitas vezes rotulam o atendimento como “um bate papo” informal que é interrompido constantemente. O próprio paciente, não entende na maioria das vezes o trabalho do psicólogo. Alguns se mostram desconfiados e arredios à primeira abordagem e isso muitas vezes deixa o estagiário ou psicólogo que está chegando a uma instituição hospitalar com a dúvida se aquele paciente está resistindo ao atendimento devido à dificuldade de entrar em contato com suas questões ou está rejeitando a pessoa do psicólogo.

Foram inúmeras as dúvidas, angústias, medos e ansiedades que surgiram no decorrer deste estágio, parte delas puderam ser esclarecidas e diluídas com o auxílio imprescindível das supervisões, e com os novos casos que iam aparecendo.

Acredito que mesmo aquele profissional que já tenha anos de experiência na área, não está livre de ter suas dúvidas, angústias e ansiedades, pois o aprendizado para quem lida com pessoas é uma fonte inesgotável.   

6) Análise do Trabalho

Segundo Romano (1994), o estar doente pode dificultar a comunicação, podendo ser associado ao período de adaptação da internação. O pedido de ajuda é manifesto pelas dores, pelas palavras, pela aparência, choro, sinais vitais, sintomas diversos.

No hospital o psicólogo deve ter um papel muito mais ativo, que vai, muitas vezes, além do apoio psicológico que é prestado em consultório. Somos muitas vezes um dos poucos entre o corpo clínico que olha para o sujeito como um todo, como uma pessoa e não como uma doença, que fazemos companhia e estamos humana e “espiritualmente” presentes. Pois há momentos em que não só as palavras são importantes, mas sim a presença real e participativa.

Campos (1995) veicula que a idéia dos psicólogos em prestar assistência aos pacientes internados faz-se numa forma de atender as condições emocionais envolvidas no processo de adoecer, ajudando a lidar com as vivências afetivas, ansiedades, angustias, esclarecendo e conscientizando o doente de sua doença, criando um movimento interno de auto escuta e compreensão que ajude na expressão e entendimento de seus sentimentos.

Devemos através dos atendimentos, oportunizar aos pacientes a compreensão de sua situação particular, vivenciada, muitas vezes, com intenso sofrimento e tentar minimizar suas ansiedades e fortificar os recursos egóicos disponíveis para o enfrentamento desse momento de crise.

7) Comentários Finais

Durante estes cinco meses de trabalho, pude perceber que fazer psicoterapia no ambiente hospitalar exige do profissional um prévio conhecimento da realidade da instituição.

É como se o psicólogo precisasse antes “ficar hospitalizado” também. Permitindo-se um treinamento específico, entrando em contato direto com um novo contexto de trabalho, onde terá que atuar em equipe e em interação com ela; conviver com uma série de interferências, casualidades e variáveis, que com certeza serão marcantes para a mudança de sua postura profissional.

Referências:

ALAMY, Susana. Ensaios de Psicologia Hospitalar – a ausculta da alma. Belo Horizonte, 2003.

CAMPOS, T. Psicologia Hospitalar: A atuação  do psicólogo em hospitais. São Paulo: EPU, 1995.

ROMANO, Belkiss Wilma. A prática da psicologia nos hospitais. São Paulo: Pioneira, 1994.