Humanização no Contexto Hospitalar

Humanização no Contexto Hospitalar
(Tempo de leitura: 13 - 25 minutos)

Resumo: Este trabalho apresenta e discute a humanização como prática e as dificuldades resultantes pela má formação dos profissionais e pelo atendimento deficitário aos usuários do sistema de saúde pública e privada. A Política Nacional de Humanização com suas diretrizes e bases proporciona uma reflexão sobre a prática humanizada focada no valor e na dignidade humana. E mostra a importância do psicólogo hospitalar como mediador da humanização entre o hospital, os profissionais de saúde e o usuário.

Palavras-chave: Humanização, Interdisciplinar, Políticas Públicas, Práticas Humanizadas.

1. Introdução

Para conceituar a importância das práticas de humanização no contexto hospitalar é necessário conhecer a história do hospital e o que nos leva a crer que a implantação da humanização nesse contexto se faz necessária.   

O hospital passou por várias mudanças ao longo dos anos. Uma delas consiste na priorização da doença como objeto principal de intervenção, em decorrência disso, o ser humano foi reduzido a uma patologia. Ao se tratar de uma doença, não podemos deixar de lado o doente que a possui; assim, a humanização no âmbito da assistência à saúde se torna essencial, pois ajuda que o individuo seja tratado em sua totalidade. A humanização no tratamento ao doente se trata de um resgate do respeito à vida humana, levando em conta as circunstâncias sociais, éticas, educacionais, psíquicas e emocionais.

 

De acordo com o Ministério da Saúde, (2010):

a humanização consiste na valorização dos diferentes sujeitos implicados no processo de produção de saúde: usuários, trabalhadores e gestores, no fomento da autonomia e do protagonismo desses sujeitos, com o aumento do grau de corresponsabilidade na produção de saúde e de sujeitos, no estabelecimento de vínculos solidários e de participação coletiva no processo de gestão, na identificação das necessidades sociais de saúde, na mudança nos modelos de atenção e gestão dos processos de trabalho tendo como foco as necessidades dos cidadãos e a produção de saúde e no compromisso com a ambiência, melhoria das condições de trabalho e de atendimento (p.8).

Diante da necessidade de práticas de humanização nos serviços de saúde, criou-se a Política Nacional de Humanização (PNH) que se constitui, através de suas diretrizes e bases, numa série de ações para humanizar as práticas de saúde, atingindo diferentes níveis do sistema e proporcionando uma reflexão coletiva, em que todos os atores estão envolvidos na busca de qualidade dos serviços prestados. Essa política também visa a aperfeiçoar as relações interpessoais, a integração técnica, científica, ética e o respeito às necessidades dos usuários.

O próprio histórico do hospital demonstra a importância da humanização, pois os avanços da medicina envolvem a prática e as dificuldades que se apresentam na implantação da humanização, levando em conta a formação profissional.

Já no terceiro milênio Mezzono (2003) cita o que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declara sobre o tema:

[...] o hospital é parte integrante de um sistema coordenado de saúde cuja função é dispensar à comunidade completa assistência médica, preventiva e curativa, incluindo serviços extensivos à família em seu domicílio e ainda um centro de formação dos que trabalham no campo da saúde e para as pesquisas biossociais (p. 20).

 

Na inovação da prática de saúde, dentro de um processo de intervenção em que a interdisciplinaridade seja evidenciada, faz-se necessária a pergunta: quais são os elementos, as situações e circunstâncias que dificultam a implementação da humanização no hospital?

Nesse cenário, a prática do psicólogo tem como um dos desafios a realização de um trabalho integrado com a equipe de profissionais da saúde, envolvendo também os usuários e suas famílias.

O trabalho objetiva identificar como o histórico do hospital influenciou nas dificuldades para a implementação das práticas de humanização, compreendendo, a partir do surgimento do hospital, a importância da humanização, bem como conhecer a humanização como intervenção e inovação na prática de saúde, buscando descrever as dificuldades da implantação das práticas humanizadas nos hospitais, analisando a amplitude da reflexão na Política Nacional de Humanização e demonstrando a importância do papel do psicólogo hospitalar nesse contexto.

2. Método

O levantamento da produção científica sobre o tema “humanização no contexto hospitalar” foi realizado nos livros e artigos por meio de uma pesquisa na base de dados BVS e Scielo. Optou-se por utilizar como material apenas livros e artigos científicos, por considerar a acessibilidade desse tipo de publicação para os profissionais de saúde.

Utilizou-se, para a busca, as seguintes palavras-chave: humanização, psicologia hospitalar, saúde coletiva, acolhimento, saúde pública. Ao final do levantamento, obteve-se um total de 31 artigos sendo que, destes, apenas 13 foram analisados, por satisfazerem o critério de inclusão, ou seja, abordar a temática “humanização no contexto hospitalar”.

Procedeu-se, então, à análise do material, seguindo-se as etapas: leitura exploratória, a fim de conhecer todo o material; leitura seletiva, através da qual foram selecionados os livros e artigos pertinentes aos propósitos da pesquisa; leitura analítica dos textos, momento de apreciação e julgamento das informações, evidenciando-se os principais aspectos abordados sobre o tema. Finalmente, leitura interpretativa, a qual conferiu significado mais amplo aos resultados obtidos com a leitura analítica.

3. O Surgimento do Hospital e a Importância da Humanização

Segundo Campos (1995), o hospital como conhecemos hoje foi passando por várias mudanças ao longo do tempo. A palavra “hospital”, de origem latina, remete a [hospes], que tem o significado de hóspede, o que antigamente se enquadrava perfeitamente nesse papel, pois o hospital era uma instituição onde se abrigavam pobres e doentes que deveriam se manter afastados da sociedade, apartando o perigo que estes representavam. Sendo assim, a instituição hospitalar tinha por finalidade dar suporte aos pobres e enfermos, encarregando-se de contê-los, administrando-lhes os últimos cuidados físicos e mesmo espirituais, oferecendo-lhes abrigo e o último sacramento. Posteriormente, surgiu o termo [hospitium], ou hospício, que foi por muito tempo usado para nomear o hospital psiquiátrico, que desde o início foi uma instituição onde se internavam insanos, pessoas com distúrbios ou transtornos mentais ou que simplesmente iam contra as regras socialmente instituídas. Assim, o hospital possuía uma função social, privando a sociedade de pessoas que estavam à margem, excluídas por não se enquadrarem mais nas exigências, tais como doentes, pobres e desajustados. O pessoal designado para tratar os doentes não objetivava curá-los; eram geralmente pessoas religiosas preocupadas com sua própria salvação, realizando assim, uma obra de caridade.

Segundo Foucault (1979), o hospital permanece nessas características até o começo do século XVIII, onde era um instrumento misto de exclusão, assistência e transformação espiritual. Naquela época a medicina exercida era individualista e consistia em receitar medicamentos e observar a doença, acompanhá-la, observar os sintomas e prever a evolução da doença tentando favorecer a cura. A medicina não estava entrelaçada ao hospital, não havia interligação entre ambos.

Os hospitais começaram a representar uma desordem, tanto no risco que apresentavam à saúde dos internos quanto dos moradores das cidades onde se situavam, além de trazer prejuízos para a economia. Por isso, foram necessárias modificações nessa área. Inicialmente as reformas começaram nos hospitais militares e marítimos da Europa, pois ao investir dinheiro no recrutamento e treinamento dos militares, não se almejava perder seus soldados devido a doenças. Reorganizou-se, então, no ambiente hospitalar, a higienização adequada, o espaço, a ventilação necessária, entre outros aspectos, além da mudança do sentido que se dava a essa instituição, pois ela passou a ser vista como investimento possível de render lucros, se apresentasse os objetivos desejados, ou seja, o de prevenir a propagação de doenças e a possível prevenção destas.

Pela disciplinação do ambiente hospitalar e a intervenção médica nesse contexto, a medicina que até então se limitava a visitas domiciliares, passou a responder pelos cuidados dedicados aos doentes, dispensando, assim, o serviço religioso que antes dominava essa função.

O hospital, a partir disso, passou a ser considerado um instrumento de intervenção terapêutica destinado ao cuidado do doente, à busca pela cura e ao combate à doença.

Atualmente o hospital tem diversas funções, entre elas, a prestação de atendimento médico, a realização de atividades que visem à prevenção de doenças, a criação de programas que atinjam a comunidade, tais como a educação para a saúde, promoção e manutenção desta. Porém, é o espaço onde se acolhe doentes, ou seja, se limita a ser um ambiente com enfoque na doença, até porque quando a doença é sanada, não há mais lugar para a pessoa que estava doente. A alta médica se dá exatamente quando a doença deixa de molestar o paciente e este, apresentando certo nível de saúde, é mandado para a casa. Sendo assim, o hospital se torna, de acordo com Leitão (1993), um ambiente físico reservado para acolher doentes, tratar doenças.

Os profissionais do serviço de saúde convivem mais com a doença do que com a própria saúde, e a doença, por ser o seu foco de trabalho, ocupa todo seu enfoque, fazendo com que o ser que está doente fique de lado. Muitas vezes os profissionais de saúde esquecem o ser humano por trás da doença, negligenciando o tratamento humanizado que este necessita.

Com as novas tecnologias e o grande investimento financeiro no descobrimento e tratamento de doenças, o hospital e a equipe profissional que atua no campo da saúde, passaram a priorizar a doença e não o doente, fazendo com que a observação, o diagnóstico, o tratamento e o prognóstico fossem o principal objetivo. Os profissionais de saúde estão cada vez mais especializados e fragmentados, cada um em sua devida função, cada um responsável por uma parte do corpo humano, deixando de lado sua totalidade, sua integridade, o respeito por sua individualidade.

Diante de tal cisão surge a necessidade de amenizar a dureza dessa situação e voltar a descobrir a humanização, que na sua definição rememora movimentos de recuperação de valores humanos esquecidos, ou solapados em tempos de frouxidão ética.

Existem programas criados em torno da humanização dos cuidados dedicados nos serviços de assistência à saúde, prevenção e tratamento de doenças. Um deles é o Programa Nacional de Humanização dos Serviços de Saúde, lançado em maio de 2003, que visa melhorar a comunicação entre os profissionais de saúde, pacientes e familiares e amenizar as dificuldades encontradas durante o processo do tratamento, levando em consideração o estado de vulnerabilidade em que o paciente se encontra. Esse programa tem em vista a melhoria da equipe de profissionais quanto ao atendimento dos pacientes, auxiliando na criação de uma relação de confiança e respeito onde há troca de informações entre profissionais e onde o paciente fica ciente dos procedimentos a que será submetido, havendo acolhimento de suas angústias diante de sua fragilidade.

A proposta de humanizar os equipamentos de assistência à saúde visa melhorar a qualidade do atendimento aos usuários dos serviços de saúde, bem como os profissionais dessa área.

4. Humanização como Intervenção

A humanização como inovação da prática de saúde é um desafio para um novo modelo de gestão e cuidados no ambiente hospitalar. Os problemas enfrentados no sistema de saúde pública e privada descaracterizam o sujeito de direito. O sujeito de direito é aquele a quem a lei – em sentido amplo – atribui direitos e obrigações, cujo comportamento se pretende regular, tanto no âmbito de poder como na obrigação de agir, ou seja, o que cuida e o que é cuidado necessitam resgatar o seu direito de cidadania e exercê-lo seja como profissional ou usuário do sistema de saúde.

Embora pareça existir um consenso de que a implementação da Política Nacional de humanização (PNH) nas práticas de saúde aconteceu devido à desumanização dos profissionais e para combater as práticas entendidas como desumanas, na verdade, a PNH pretende afirmar a humanização como um valor do cuidado e da gestão de saúde como política pública, atuando nos eixos da institucionalização para operar mudanças na cultura de funcionamento institucional e de relacionamentos, na qual se façam presentes os valores da humanização no cotidiano.

Há lacunas que precisam ser preenchidas, como a desvalorização e o reconhecimento dos profissionais da saúde, o salário e os benefícios, a precária relação de trabalho, a falta de ações institucionais visando ao cuidado e à atenção aos sofrimentos, o estresse decorrente do próprio trabalho, o baixo investimento no processo de educação permanente, o despreparo dos profissionais, a dificuldade em lidar com a parte subjetiva,  que todo serviço de saúde requer, a insatisfação que reflete no atendimento aos usuários por falta de qualificação, por não conhecer estratégias e metodologias que promovem atendimentos humanizados, por não receber uma educação nos princípios humanizados. Tudo isso impede o profissional de assumir seu papel.

Segundo Foucault (1996) todo “sistema de educação é uma forma de manter ou modificar a apropriação dos discursos, com saberes e os poderes que eles trazem consigo”. A educação permanente é a estratégia para que os profissionais tenham acesso ao exercício da gestão participativa, com as suas dificuldades e lutas sociais para saber se apropriar ou modificar o discurso a partir da sua prática.

A apropriação da humanização se fundamenta no respeito e valorização da pessoa humana, num processo de transformação da cultura institucional por meio da construção coletiva de compromissos éticos e métodos para as ações ditas “humanizadoras” que determinam um caráter humanizado do serviço como um todo. Nos hospitais existe uma “corrente” contra mudanças, de manter a prática maquiada com algumas “benevolências”, por exemplo: as visitas abertas, que propiciam as parcerias com familiares para o cuidado de seus parentes; recepcionistas jovens e bonitas, bem maquiadas, ambientes bem decorados, não são o bastante para os princípios conceituais que definem a humanização como a base para toda e qualquer atividade.

A problematização da gestão nos hospitais traz um modelo de governar, um espaço humanizado com a produção de sujeitos mais livres e comprometidos. Mas para fazer funcionar essa nova organização controlada por uma suposta democracia institucional, os cuidados que atingem os sujeitos na sua singularidade não podem gerar passividade, mas novas perspectivas na saúde física, no respeito, na autonomia, no protagonismo, na construção da sua existência.

“Humanizar as práticas de saúde permite aos sujeitos a experimentação de outras perspectivas na construção da sua existência, mas em lateralidade, em relação interativa com os outros, forjando a emergência de subjetividades mais multireferenciadas”. (PASCHE, 2005) e de novas atitudes que favoreçam a construção de novas realidades sociais, políticas, institucionais e clínicas, ou seja, da produção de novos sujeitos e novos sentidos.

5. As Dificuldades da Implantação da Humanização nos Hospitais

É grande o risco de a humanização ficar só na parte discursiva, ao implementar uma prática de saúde contundente e ser confundida exclusivamente com uma proposta de investimentos na estrutura física dos prédios e na mais moderna tecnologia, sem de fato promover mudanças na cultura organizacional em prol da humanização, do trabalho e do cuidado, sem fomentar relações profissionais saudáveis na conjuntura interdisciplinar, sem respeitar o diferente e o investimento na formação humana daqueles que trabalham nos hospitais.

A falta de entendimento do que é a proposta da Política Nacional de Humanização e sua implantação acarreta dificuldades que são explícitas nas relações de poder, no hospital centrado no modelo médico. As tensões que são produzidas com a hierarquização dessa relação demarcam limites que impedem a implantação da humanização, a qual requer novas práticas de saúde, mas é confundida com alguns cuidados humanizados cumpridos como uma prescrição moral por medo de transgressões, sem de fato trabalhar para o cerne do desafio: a humanização. Amorim, Moreira e Carraro (2001) chamam a atenção para o paradigma predominante na formação dos profissionais de saúde voltado para o modelo biológico e hegemônico. Esse modelo dificulta a visão do indivíduo como um ser integral e interfere na compreensão do processo saúde e doença.

Essa visão da humanização traz dificuldades para sua implantação porque é deturpada a prática de saúde humanizada, e para os profissionais que ali trabalham eles não percebem mudanças justamente porque não são atravessados pela proposta do que é a humanização. Para eles, só mudou a estrutura física, pois não enxergam nenhum respeito à dignidade humana, a começar deles na sua condição de sujeito do direito. Por isso, a implementação da humanização no hospital não faz sentido para aqueles que ali trabalham e por não ter uma reflexão acerca das práticas humanizantes de saúde, porque os profissionais são descaracterizados na sua condição humana e isso reflete a desumanização deles.

6. A Amplitude da Reflexão na Política Nacional de Humanização

A Política Nacional de Humanização (PNH), propõe uma reflexão de política pública de saúde que reafirma os princípios da universalidade, equidade e integralidade do SUS. Por princípios, então, entende-se o que causa ou força a ação, ou que dispara um determinado movimento no plano das políticas públicas (BRASIL, 2008), são eles: a transversalidade, a indissociabilidade entre atenção e gestão e protagonismo, como responsabilidade e autonomia dos sujeitos e dos coletivos demonstra uma dualidade em âmbito de Brasil com duas temáticas: o diálogo da ciência com as humanidades (Ciências Humanas); e os avanços científicos e tecnológicos no tratamento de seus pacientes onde a maior parte da população depende do sistema público de saúde, cujo atendimento é precário.

A complexidade das questões que surgem nesse diálogo entre a verticalidade e a horizontalidade ampliaram a comunicação intra e intergrupos, transformando os modos de relação e comunicação entre os sujeitos, os quais têm a oportunidade de manifestar suas posições em relação aos temas discutidos pela sociedade.

Diante da necessidade da pluralidade entre as ciências e as humanidades surge a bioética para a construção de um sistema de valores orientados para a sobrevivência da humanidade, em interface com a humanização, propondo mudanças e alterações nos modos de cuidar e gerir serviços no âmbito da saúde.

A bioética, que é considerada uma nova ciência, surgiu na segunda metade do século XX, quando a humanidade passou a defrontar-se com dolorosos questionamentos morais em decorrência dos avanços na ciência.

Essas reflexões são características da pluralidade na bioética que deve ser compreendida como um conhecimento complexo, isto é, um saber interdisciplinar, de natureza pragmática, orientado para a tomada de decisões na prática médica, nas novas situações decorrentes da evolução da ciência e da tecnologia e na condução das pesquisas científicas (SOARES, PIÑEIRO, 2002, p. 27-29).

A bioética como um saber interdisciplinar proporciona um diálogo plural com os médicos e as outras áreas de saúde para favorecer o respeito pela dignidade humana, sendo também esta a proposta da (PNH): repensar o papel do sistema de saúde pública e a prática dos seus profissionais no processo de humanização. Entre os profissionais da saúde, a mudança mais profunda trazida pela reflexão bioética se localiza no contexto da relação com o paciente, reconhecendo-o como agente moral autônomo. O paciente tem o direito de ser informado corretamente e de recusar o que lhe é proposto, se isso for incompatível com sua escala de valores (SOARES; PIÑEIRO, 2002, p. 33). Esse é um dos contextos mais importante que levaram o sistema público de saúde a reiterar a necessidade de uma nova prática, focada no cuidado e na valorização da humanidade. Esse direito conquistado leva o profissional, a respeitar a autonomia do seu paciente sem uma relação assimétrica, porém respeitando o seu código de conduta profissional cuja finalidade é fazer o bem. 

A interface entre a humanização e a bioética numa reflexão social, política e científica mostra a responsabilidade de desfazer as pirâmides hierárquicas, criar e fortalecer redes tanto do sistema público de saúde, quanto dos profissionais. É necessário ampliar a sua formação e fundamentá-la numa conduta racional, estabelecer vínculos solidários, capacitando os profissionais a realizar um entendimento intersubjetivo.

7. O Psicólogo Hospitalar na Humanização

A importância do psicólogo na humanização é retratada a partir da sua prática no contexto hospitalar ao proporcionar ao indivíduo fragilizado pelo adoecimento físico e hospitalização, a compreensão da sua doença assim como a orientação e o acolhimento da família, uma adesão melhor ao tratamento, o apoio da equipe e a interconsulta. O psicólogo age como facilitador de um processo de reestruturação, onde a pessoa não tem mais direitos, está despersonalizada. Por isso, o psicólogo contribui para o resgate das construções das relações.

A prática profissional da psicologia em hospital muitas vezes é questionada justamente por se relacionar com a subjetividade. Ela não é compreendida, por causa das relações de poder que constituem os hospitais, por ser um modelo assistencialista centrado no modelo médico dificultando uma prática transdisciplinar num processo de ensino-aprendizagem em que o psicólogo possa mediar essa intersecção.

De acordo com Chiatone e Sebastiane (1991), o psicólogo no contexto hospitalar, deve inserir-se na equipe de saúde, redefinindo seus limites no espaço institucional com uma atuação diferenciada do contexto clínico que considere as próprias possibilidades de atuação hospitalar, as quais são determinadas e delimitadas por limites institucionais, caracterizados por regras, rotinas e dinâmicas de funcionamento.

O psicólogo traz no seu contexto de atuação a condição de análise nas relações interpessoais, indispensável para a humanização, proporcionando um redirecionamento dos saberes num trabalho integrado. O que seria um acréscimo tornou-se um problema porque a instituição hospitalar ainda não é um lugar do profissional de saúde, mas o lugar do médico. Por isso o psicólogo enfrenta algumas barreiras, como: incompreensão na sua prática, falta de apoio da equipe médica, comunicação truncada, indiferença pelo estado emocional do paciente.

Na sua postura ética, quer seja no trato com os pacientes ou no convívio com os demais profissionais, saber reconhecer os seus limites e o seu papel, respeitar a especificidade e o valor de cada profissional, esse é o perfil de uma prática humanizada. Com a atuação do psicólogo no hospital, para fazer o papel de intermediário entre este, a família e o paciente, com o seu olhar atento sobre o bem-estar emocional do usuário, diversas situações traumatizantes seriam evitadas, pois a prática do psicólogo hospitalar é humanizante, independentemente de uma gestão humanizada por parte da instituição.

8. Discussão

De forma geral, toda a literatura revisada mostrou as práticas humanizadas em hospitais a partir da implantação da Política Nacional de Humanização com uma nova gestão administrativa, que impõe as diretrizes da PNH.

A humanização conquistou espaço para a discussão a partir das Políticas públicas da humanização por um novo humanismo, no entanto, de acordo com Campos (2000) o projeto da PNH foi afirmar a saúde não como valor de troca, mas como valor de uso. Pode-se sugerir que a partir dessa reflexão deva ser concretizada a necessidade de integração entre os usuários, os profissionais e a diversidade da prática num esforço para mudar o modelo de atenção aos usuários e da gestão dos processos de trabalho coletivo com a produção de sujeitos autônomos e protagonistas da sua saúde.

Corroborando essas ideias Varela (2003), afirma que a construção da PNH se fez por um “reencantamento do concreto” e não a partir de um modelo ou padrão ideal para a organização dos modos de atenção e de gestão no campo da saúde, e sim na construção das relações entre usuários, profissionais e a instituição.

A partir do desconhecimento do que é a prática humanizada, as dificuldades aparecem no trato ao usuário e no agir dos profissionais, na ética e no cuidado pessoal, por não entender que a humanização não é só um ambiente bem decorado e abertura para que a família cuide do seu doente. Daí surge o questionamento sobre a formação do profissional de saúde, uma vez que grande parte deles é formada pelo modelo cartesiano (AMORIM; MOREIRA; CARRARO, 2001). A fragmentação do conhecimento proposta por esse modelo conduziu ao exagero das especializações, o que proporcionou um modelo de atendimento mecanicista. A busca da humanização em saúde, que surgiu em decorrência dos questionamentos sobre os modelos de atendimento vigentes (RIZOTTO, 2002) pode ser fruto de um processo de desumanização paralela as especializações.

Desse contexto ressalto o papel do psicólogo como facilitador do processo de humanização numa prática interdisciplinar que busca resgatar a concepção global do ser humano a partir da troca de conhecimento entre especialistas. “Interdisciplinaridade é também uma questão de atitude [...]. É a substituição de uma concepção fragmentária para unitária do ser humano” (VILELA; MENDES, 2003, p. 527). Esse é o caminho para uma mudança paradigmática na concepção da própria área de atuação tanto para o médico, enfermeiro, fisioterapeuta, como psicólogo. São eles profissionais apenas da área de saúde, ou pertencentes à área das ciências humanas? Nas suas funções todos eles não se caracterizam como educadores, por restringem sua formação apenas ao conhecimento biológico.

A continuidade deste estudo e dessas investigações com os profissionais de saúde nas diferentes áreas de atuação será fundamental para esclarecimentos e a ampliação dos conhecimentos acerca de suas características quanto à humanização e formas de estudar e aprender.

9. Considerações Finais

A Política Nacional de Humanização surgiu para estar presente em todas as ações de saúde, como diretriz transversal, e favorecer a troca e construção de saberes, o diálogo entre os profissionais, o trabalho em equipe, e levar em conta as necessidades dos diferentes atores do campo da saúde.

A humanização é entendida como aumento do grau de corresponsabilidade na produção de saúde, e de sujeitos, mudança de cultura da atenção aos usuários, e da gestão no processo de trabalho.

O psicólogo, como facilitador do processo de humanização, encontra dificuldades para implantar com a equipe e a instituição uma prática humanizada com as diretrizes da Política Nacional de Humanização que se fundamenta no respeito e valorização da pessoa humana.

As dificuldades dos profissionais são abrangentes e complexas, porque não abrangem somente a relação medico/paciente, mas envolvem toda a realidade hospitalar, da administração à limpeza, do médico ao porteiro, por isso a necessidade de olhar o funcionamento de modo amplo, e os fatores desencadeantes da desumanização e insatisfação, como o excesso de trabalho, o cansaço dos profissionais, a falta de tempo para descansar, o número pequeno de profissionais por plantão, a baixa renumeração, a desmotivação.

Nosso contato com o hospital permitiu aproximação com o tema e a percepção das dificuldades em proporcionar um atendimento mais humanizado. Porém, um novo olhar já se percebe sobre a atuação do psicólogo no atendimento aos usuários.

Sobre os Autores:

Ariene dos Santos Marques - Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo – U.E. Lorena. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Iradilma do Espírito Santo Cerqueira - Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo – U-E. Lorena. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Irma Maria de Moraes - Psicóloga, Docente e Supervisora de Estágio de Psicologia Hospitalar no Centro Universitário Salesiano de São Paulo – U.E. Lorena. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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