O Adoecimento e a Angústia Frente à Finitude

(Tempo de leitura: 5 - 10 minutos)

Resumo: O adoecimento é pensado, neste trabalho, sob um ponto de vista psicanalítico, entendendo que para que possa contemplar o sujeito é preciso ir além do plano do biológico. Para isso, é refletido aqui quais mecanismos estão implícitos quando o sujeito, diante do diagnostico de uma doença grave, é remetido a pensar sobre sua própria finitude. Considerando a importância da escuta psicanálitica dentro do contexto hospitalar, pois através dessa é possivel favorecer o Sujeito-paciente, com a finalidade de que este possa dar bordas e simbolizações, para essa angústia de finitude, através da fala.

Palavras-chave: Adoecimento, Corpo, Finitude, Morte, Psicologia hospitalar.

1. Introdução

Neste Projeto de Pesquisa, tem o propósito de levantar reflexões acerca de porque o sujeito, ao ser diagnosticado com doenças graves (tal como o câncer, diabetes, a AIDS, doenças cardíacas, etc.), se percebe sobre forte sentimento de angústia, provocado pela proximidade da consciência da própria finitude

Pensar sobre nossa própria morte e sobre a morte de próximos, não é algo comum em nossa sociedade, apesar de o tema morte nos acompanhar durante toda a vida. Implicar-se frente ao fator inquestionável do morrer não nos parece uma alternativa enquanto nos encontramos em bom estado de saúde física e mental. Preferimos, então, nos comportar como se a morte não fizesse parte da existência humana.

Ao adoecer, no entanto, o sujeito se percebe destituído da sua própria vida, pois a doença vai tirando aos poucos a rotina, a energia e a aparência física de antes, e essa nova realidade o aproxima da possibilidade da própria finitude, ainda não pensada. Importante destacar que, para alguns sujeitos, o imaginar-se desprovido de saúde já é capaz de provocar o sentimento de angústia diante da possibilidade da própria morte. Esse adoecimento, então, é capaz de convocar o sujeito ao Real, para que este se dê conta do que está subjacente às crenças, às atitudes, aos comportamentos, à subjetividade, de forma geral.

No ambiente hospitalar, deparamo-nos com a realidade do adoecimento, diariamente, e com as consequências que esse acarreta na vida psíquica dos pacientes e dos seus familiares. É nesse ambiente que podemos ver surgir a Urgência Subjetiva (PERALVA, 2008), e escutar as angústias provenientes da proximidade da própria morte nestes pacientes.

2. Problema:

Qual a relação existente entre o processo de adoecimento e a emergência do sentimento de angústia frente à finitude?

2.1 Objetivo Geral:

Investigar como o diagnóstico de uma doença grave (tal como, câncer, diabetes, AIDS, doenças cardíacas, etc.) é capaz de provocar no sujeito o sentimento de angústia diante da eminência da própria finitude.

2.2 Objetivos Específicos:

  • Investigar como uma intervenção psicológica poderá contribuir para atenuar o sofrimento psíquico provocado pela angústia frente à ideia da morte.
  • Refletir sobre o tema proposto diante da prática no contexto hospitalar.
  • Buscar entender como a angústia e o morrer se relacionam com a noção de corpo para o sujeito.

2.3 Justificativa

O tema ao qual se investiga trata do sentimento de angústia e a implicação do sujeito frente própria finitude. A escolha do tema perpassa pela importância de discutir sobre o sentimento de angústia ocasionado no momento em que o sujeito se dá conta da própria finitude, quando acometido por um adoecimento. A relevância de tal estudo está em relação à execução da ação pelo psicólogo, no contexto hospitalar, onde é frequente nos depararmos com tal situação, considerando que a psicologia tem um papel fundamental para compreender e auxiliar na minimização do sofrimento psíquico ocasionado pelo adoecimento.

Considera-se a discussão sobre esse tema fundamental para a população em geral, uma vez que as pessoas tendem a colocar a morte como tabu, ao passo que, ao poder falar sobre esse tema, teremos a oportunidade de desmistificá-lo, contribuindo para que o doente, ao perceber sua morte próxima, possa enfrentá-la com mais dignidade, pois poderá falar sobre ela e nomeá-la, dando sentido a esse processo e, dessa forma, à sua vida.

3. Referencial Teórico

A morte para Lacan (1956/1995), é o limite do significado que jamais é alcançado pelo humano, sendo uma condição absoluta e insuperável da existência (CASTRO, 2009. p.34).

Ao citar esta frase de Lacan, pretende-se fazer uma reflexão no significado acerca da morte, inalcançável pelo humano. Entendo que, ao ver-se na eminência da morte, o sujeito se vê angustiado pela impossibilidade de significar a própria experiência. A morte trata-se do ponto final da existência de todos os seres humanos e, portanto, parte do desenvolvimento natural de todos nós. Durante o decorrer dos séculos, o trato com o morrer foi se reinventando, criando maneiras e rituais capazes de dar sentindo a essa passagem. Porém, como diz o poeta Rubem Alves (1998), “da morte nada sabemos. Só sabemos as estórias contadas do lado de cá”, esse lidar com o desconhecido impede que seja possível a sua simbolização (KUBLER-ROSS. E, 1996; CASTRO, 2009. p.34; CASSORLA, 1998).

Ao adoecer, o sujeito se dá conta desse corpo orgânico e da sua natureza, para além das possíveis simbolizações, pois este se trata do “corpo real”. Se reconhecer neste corpo e da sua natureza orgânica é também se apropriar da própria finitude, o que acaba por gerar um sentimento de angústia. Esse sentimento de angústia consiste no medo de não estar mais aqui, de não existir, de deixar de ser sujeito e vir a ser o nada, ou seja, do deparar-se com o desconhecido.

O sujeito vê-se, então, derrotado pelo próprio corpo, o corpo orgânico, que nada tem a ver com a própria imagem que tem de si, do corpo do discurso ou falante, definido por Cukiert e Priszkulnik (2002), como o “corpo marcado pelo significante, no qual o inconsciente também se escreve e pode ser de cifrado”. Dessa maneira, ao falar sobre si, o sujeito fala sobre esse corpo falado e simbolizado, pois é dessa maneira que ele se reconhece e não como um corpo com intestino, estômago e rins.

O adoecimento traz luz à existência de um corpo que está além das roupas que veste, que está no registro do Real, onde ultrapassa o campo do controle e do nosso desejo. Dessa forma, por estar no campo do Real, e de não poder ser simbolizado, suscita a angústia, que é causada pelo medo da própria finitude. O sujeito se vê, então, na eminência do deixar de ser sujeito. Como nos traz Castro (2009) ao citar Freud.

A inclinação do ser humano em excluir a morte evidenciou para Freud (1915a/1980) a impossibilidade de subjetivar o próprio desaparecimento. Dessa maneira, afirma que “[...] no fundo ninguém crê em sua própria morte, ou, dizendo a mesma coisa de outra maneira, que no inconsciente cada um de nós está convencido de sua própria imortalidade” (FREUD, 1915a/1980, p. 327). O inconsciente, segundo Freud (1915b/1980), desconhece o que é negativo, sendo constituído por representantes pulsionais que franqueiam a contradição mútua, desta maneira, torna-se impossível conceber a própria morte (CASTRO, 2009. p. 38).

A morte, sendo encarada como tabu, tal como é em nossa sociedade, acaba por afastar o sentido e significado verdadeiro do morrer. Se desde cedo fôssemos preparados para encarar a morte como parte da vida, essa adotaria uma conotação diferente do que é. Acredita-se que, desta forma, tornaria possível ressignificar o sentido do morrer e assim, diante do adoecimento, o sentimento tão comum de finitude não virá com a angústia que nos é atualmente tão própria, pois iríamos dando sentido, simbolizando ao longo de toda a vida (KUBLER-ROSS. E, 1996).

O contexto hospitalar permite ao profissional de psicologia vivenciar de forma mais próxima esse conflitos psíquicos com pacientes na eminência da morte, o que proporciona a escuta da angústia destes. O adoecimento ou a possibilidade do diagnóstico de uma doença grave faz com que o sujeito seja confrontado com a eminência da morte e assim, com o que é para Peralva (2008), “a questão crucial do ser humano: a finitude”.

O paciente, na maioria das vezes, não sabe a existência de órgãos que fazem parte do funcionamento vital do corpo orgânico, pois essa existência interna não faz parte da sua linguagem. Ao se confrontar com o adoecimento do corpo o paciente acaba por se apropriar do sentido da vida e algo esquecido até então emerge, o sentido do seu próprio fim (PERALVA, 2008).

Peralva (2008) ressalta que a “presença e a escuta do psicanalista permite que algo deste confronto com a finitude possa ser encaminhada pela fala”. Ou seja, a prática do psicólogo/psicanalista no contexto hospitalar possibilita a esses pacientes, angustiados pela emergência da própria morte, a possibilidade de, através da fala, dar sentido a sua angústia ocasionada pela entrada no real e, assim, ao permitir a escuta do discurso desse sujeito, esse possa simbolizar a sua finitude.

O hospital tem predominantemente o discurso médico. Discurso esse focado no corpo orgânico, enquantoo psicólogo/psicanalista aparece com a entrada do discurso do desejo, com olhar subjetivo para o paciente. Ao qual interessa não o corpo orgânico, mas o que o sujeito tem a falar sobre esse corpo, o corpo do discurso. Podemos então deduzir que enquanto a equipe médica ausculta, o psicólogo escuta e essa diferença pode trazer significativas mudanças para o bem estar do paciente (PERALVA, 2008).

4. Metodologia

O presente Projeto de Pesquisa propõe uma reflexão acerca de algo completamente inerente à existência humana, mas pouco refletido no cotidiano, trata-se da angústia de finitude diante de um adoecimento. Terá como principal campo de estudos a Psicologia Hospitalar para poder nortear este estudo, pois me valerei da prática do psicólogo no contexto hospitalar, por considerar mais oportuno ambiente possível de mensurar o tema aqui proposto.

A ferramenta utilizada para a realização deste trabalho será predominantemente a coleta de informações bibliográficas, tendo como base teórica os estudos em psicanálise dos quais será realizada uma análise qualitativa dos conteúdos.

Sobre o Autor:

Karine Aguiar Silva - Graduanda em Psicologia do Centro Universitário Jorge Amado.

Referencias:

ALVES. R; Sobre o morrer.;Folha de São Paulo Cotidiano;  São Paulo, 2011 

BARBOSA, L.N.F; Francisco, A.L; Efken. H.K. Morte e vida: a dialética humana. Aletheia 28, jul./dez, 2008.

CASTRO, M.L.S. O ser falante e a morte. Cap. III, pg. 35 à 49. In: Assistência a pacientes oncológicos em tratamento paliativo: contribuições da psicanálise. Salvador, 2009.

KUBLER-ROSS. E, 1926 - Sobre a morte e o morrer: o que os doentes têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios parentes; Tradução Paulo Menezes; 7º Ed. São Paulo: Martins Fontes. Pg. 13 a 49, 1996.

PERALVA. E. L. M.; O confronto com a Finitude na Clinica Hospitalar: Da Morte como Limite à Urgencia da Vida. Práxis e Formação, UERJ, Rio de Janeiro, Ano 1 P.65-72, 2008.

ZANETTI. E.C; Psicanálise e o desenvolvimento de Dispositivos Clínico-Institucionais no Atendimento Integral a Saúde. Ver. SBPH vol.13, Rio de Janeiro – Julho/dez, 2010.

CASSORLA. R.; Da morte: Estudos brasileiros, 2ª Edição; São Paulo: Papirus, 1998. Prefacio Rubem Alves. A morte como Conselheira. Pagina 11 a 15.

CUKIERT. M E PRISZKULNIK. L; Considerações sobre eu e o corpo em Lacan; Estudos de Psicologia pg 143-149; 2002.

KAUFMANN. P; Dicionário enciclopédico de psicanalise: o legado de Freud a Lacan; Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1996.

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